Escutar as experiências de oração dos outros nos confere um sentimento de
reverência e gratuidade diante da ação do Espírito; ajuda-nos a reconhecer
nossa unidade em nossa diversidade. Vai mais além do mero ouvir, porque
intervém todo nosso ser.
Escutar exige
humildade e esquecimento de nós mesmos; é uma forma de oração a dois e está
profundamente arraigada numa vida espiritual humilde, pobre e aberta, desejosa
de aprender, de amar...
Em nossa sociedade hiper-sexuada existe a suspeita de que o
ato de tocar tem insinuações sexuais. Dentro de cada um de nós existe um grande
desejo de contato que firme nosso potencial como pessoa em crescimento.
O abraço é uma forma especial de toque que torna as pessoas
saudáveis e desenvolve a capacidade de compartilhar. Sua imagem alimenta o espírito.
Agora bem, esta capacidade de “ver” (“mirar”: olhar
admirado, encantado...) é uma “carga” que poucos são capazes de suportar.
Aumenta a
auto-estima, alavanca universal no enfrentamento
dos obstáculos da vida.
O acompanhamento
espiritual está vinculado a três características:
1. à perspicácia no discernimento (“diacrisis”, que significa literalmente,
“julgar
através de”);
2.
à capacidade de conhecer e de amar a miséria do outro e de assumir seus
sofrimentos (“cardiognose”);
3.
ao dom de transformar àqueles que se aproximam para pedir ajuda.
1. O dom do discernimento foi tratado em outros anexos.
2. A “cardiognose”: o acompanhante espiritual não é um legislador, mas um mistagogo, ou seja, aquele que ajuda a conduzir a cada um desde “o que ainda não é” até o que “é chamado a ser”. Para isso deve caminhar na direção da sexta bem-aventurança: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt. 5,8), ou seja, verão a Deus “incubando-se” no coração de cada pessoa, como uma semente de plenitude oculta aos olhos rotineiros.
1. O dom do discernimento foi tratado em outros anexos.
2. A “cardiognose”: o acompanhante espiritual não é um legislador, mas um mistagogo, ou seja, aquele que ajuda a conduzir a cada um desde “o que ainda não é” até o que “é chamado a ser”. Para isso deve caminhar na direção da sexta bem-aventurança: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt. 5,8), ou seja, verão a Deus “incubando-se” no coração de cada pessoa, como uma semente de plenitude oculta aos olhos rotineiros.
Conta um relato dos Padres do Deserto que havia um Ancião
com o dom da cardiognose e que tinha um discípulo que ansiava por este mesmo
dom para poder ajudá-lo.
Ao Ancião lhe parecia que o jovem discípulo não estava ainda
preparado, mas o discípulo tanto insistiu que o Ancião rezou por ele e lhe foi
concedido o dom.
Poucos dias depois, um homem chegou à ermida para receber a bênção do venerável Ancião. O jovem discípulo o recebeu e ficou escandalizado dos pecados que viu no interior do homem. Então, indignado com aquele homem, o expulsou do recinto, recriminando-o por atrever se apresentar naquele estado moral tão deplorável.
Advertido pelos gritos, o Ancião saiu de sua cela e
prontamente compreendeu tudo. Chamou o jovem noviço e lhe disse: “Este homem
veio a nós em busca de misericórdia e de você só recebeu juízo”. Consta que o
mesmo discípulo pediu ao Ancião que o liberasse daquela carga que não estava
preparado para levar.
3. A capacidade de ser transformado pelo contato com o acompanhante.
Segundo a
tradição hindu, o gurú (que
etimologicamente significa “o
que desvanece a obscuridade”) transforma o
discípulo mediante três ferramentas: a palavra,
o olhar e o tato.
a) A palavra
do Mestre ou do acompanhante espiritual nasce do Silêncio e volta ao
Silêncio. Ele sabe que não é mais que um intermediário. Não se trata de uma
palavra precipitada, senão afiada na paciência da acolhida e da oração do
outro.
Tampouco é uma palavra genérica ou anônima, senão que
se pronuncia no momento preciso no qual o outro necessita escutar. Às vezes é
uma palavra doce; outras, pode ser enérgica;
pode ser também uma palavra enigmática, para
despertar a busca.
despertar a busca.
b) A “mirada” silenciosa é a segunda maneira de acompanhar que os
Mestres espirituais tem.
Os primeiros
companheiros de S. Inácio relatam que, com frequência, atribulados, acudiam a
ele para consultar-lhe alguma coisa e que simplesmente pelo fato de
encontrar-se em sua presença, acalmava-se sua inquietude e recebiam claridade
na mente.
Os hindus
denominam a este fenômeno “receber
darshan”, isto é, não se trata de ir olhar o Mestre, mas de ser olhado por
ele.
De fato, o
acompanhante espiritual é aquele que sabe “mirar”
(olhar admirado) como Deus nos olha.
c) O tato.
Tocar-se é primordial para a comunicação. É fato reconhecido da vida
humana, é a chamada “fo- me da pele”. O mais leve toque pode despertar emoções,
expressar calor que não se consegue com palavras. Reduzir sentimentos em
palavras cessa qualquer mensagem do coração.
palavras cessa qualquer mensagem do coração.
O toque alivia a dor, a depressão, a ansiedade; o toque afetuoso dá segurança, faz-nos sentir melhor conosco mesmos e com o meio ambiente; seu efeito é positivo sobre o desenvolvimento, provoca mudanças naquele que toca e é tocado.
Em nossa cultura, temos perdido o sentido da imposição das
mãos. O contato físico, através da imposição das mãos, é um meio poderoso para
transmitir bênção.
O toque é para a comunicação o que a música é para a
palavra. O medo da proximidade pessoal faz-nos evitar a intimidade humana.
Quando estendemos os braços e tocamos o outro
espontaneamente descobrimos a compaixão e a riqueza que existe em todos nós.
Tocar-se é ter a coragem de ser vulnerável
Concluímos dizendo que todos somos mestres e pai mães
espirituais potenciais dos outros. De fato, em algum momento todos temos dado –
e podemos dar – uma palavra,
um olhar, ou um contato físico que ajude aos que estão ao nosso redor.
As relações humanas estão cheias de oportunidades para isso.
"Onde há vontade, há um Caminho"




