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quinta-feira, 31 de maio de 2018

O DOM DO ACOMPANHAMENTO ESPIRITUAL




Escutar as experiências de oração dos outros nos confere um sentimento de reverência e gratuidade diante da ação do Espírito; ajuda-nos a reconhecer nossa unidade em nossa diversidade. Vai mais além do mero ouvir, porque intervém todo nosso ser.

Escutar exige humildade e esquecimento de nós mesmos; é uma forma de oração a dois e está profundamente arraigada numa vida espiritual humilde, pobre e aberta, desejosa de aprender, de amar...

Em nossa sociedade hiper-sexuada existe a suspeita de que o ato de tocar tem insinuações sexuais. Dentro de cada um de nós existe um grande desejo de contato que firme nosso potencial como pessoa em crescimento.

O abraço é uma forma especial de toque que torna as pessoas saudáveis e desenvolve a capacidade de compartilhar. Sua imagem alimenta o espírito.

Agora bem, esta capacidade de “ver” (“mirar”: olhar admirado, encantado...) é uma “carga” que poucos são capazes de suportar.
Aumenta a auto-estima, alavanca universal no enfrentamento dos obstáculos da vida.


O acompanhamento espiritual está vinculado a três características:


1.   à perspicácia no discernimento (“diacrisis”, que significa literalmente,

“julgar através de”);

2.   à capacidade de conhecer e de amar a miséria do outro e de assumir seus sofrimentos (“cardiognose”);

3.   ao dom de transformar àqueles que se aproximam para pedir ajuda.

1.  O dom do discernimento foi tratado em outros anexos.

2.  A “cardiognose”: o acompanhante espiritual não é um legislador, mas um mistagogo, ou seja, aquele que ajuda a conduzir a cada um desde “o que ainda não é” até o que “é chamado a ser”. Para isso deve caminhar na direção da sexta bem-aventurança: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt. 5,8), ou seja, verão a Deus “incubando-se” no coração de cada pessoa, como uma semente de plenitude oculta aos olhos rotineiros.

Conta um relato dos Padres do Deserto que havia um Ancião com o dom da cardiognose e que tinha um discípulo que ansiava por este mesmo dom para poder ajudá-lo.

Ao Ancião lhe parecia que o jovem discípulo não estava ainda preparado, mas o discípulo tanto insistiu que o Ancião rezou por ele e lhe foi concedido o dom.


Poucos dias depois, um homem chegou à ermida para receber a bênção do venerável Ancião. O jovem discípulo o recebeu e ficou escandalizado dos pecados que viu no interior do homem. Então,  indignado com aquele homem, o expulsou do recinto, recriminando-o por atrever se apresentar naquele estado moral tão deplorável.

Advertido pelos gritos, o Ancião saiu de sua cela e prontamente compreendeu tudo. Chamou o jovem noviço e lhe disse: “Este homem veio a nós em busca de misericórdia e de você só recebeu juízo”. Consta que o mesmo discípulo pediu ao Ancião que o liberasse daquela carga que não estava preparado para levar.

3.  A capacidade de ser transformado pelo contato com o acompanhante.
Segundo a tradição hindu, o gurú (que etimologicamente significa “o que desvanece a obscuridade”) transforma o discípulo mediante três ferramentas: a palavra, o olhar e o tato.

a)   A palavra do Mestre ou do acompanhante espiritual nasce do Silêncio e volta ao Silêncio. Ele sabe que não é mais que um intermediário. Não se trata de uma palavra precipitada, senão afiada na paciência da acolhida e da oração do outro.

Tampouco é uma palavra genérica ou anônima, senão que se pronuncia no momento preciso no qual o outro necessita escutar. Às vezes é uma palavra doce; outras, pode ser enérgica;  pode ser também uma palavra enigmática, para
despertar a busca.

b)   A miradasilenciosa é a segunda maneira de acompanhar que os Mestres espirituais tem.

Os primeiros companheiros de S. Inácio relatam que, com frequência, atribulados, acudiam a ele para consultar-lhe alguma coisa e que simplesmente pelo fato de encontrar-se em sua presença, acalmava-se sua inquietude e recebiam claridade na mente.

Os hindus denominam a este fenômeno “receber darshan”, isto é, não se trata de ir olhar o Mestre, mas de ser olhado por ele.

De fato, o acompanhante espiritual é aquele que sabe “mirar” (olhar admirado) como Deus nos olha.
c)   O tato. Tocar-se é primordial para a comunicação. É fato reconhecido da vida humana, é a chamada “fo- me da pele”. O mais leve toque pode despertar emoções, expressar calor que não se consegue com palavras. Reduzir sentimentos em
          palavras cessa qualquer mensagem do coração.


O toque alivia a dor, a depressão, a ansiedade; o toque afetuoso dá segurança, faz-nos sentir melhor conosco mesmos e com o meio ambiente; seu efeito é positivo sobre o desenvolvimento, provoca mudanças naquele que toca e é tocado.


Em nossa cultura, temos perdido o sentido da imposição das mãos. O contato físico, através da imposição das mãos, é um meio poderoso para transmitir bênção.

O toque é para a comunicação o que a música é para a palavra. O medo da proximidade pessoal faz-nos evitar a intimidade humana.

Quando estendemos os braços e tocamos o outro espontaneamente descobrimos a compaixão e a riqueza que existe em todos nós.
Tocar-se é ter a coragem de ser vulnerável
Concluímos dizendo que todos somos mestres e pai mães espirituais potenciais dos outros. De fato, em algum momento todos temos dado –  e  podemos  dar – uma palavra, um olhar, ou um contato físico que ajude aos que estão ao nosso redor.

As relações humanas estão cheias de oportunidades para isso.

"Onde há vontade, há um Caminho"

Corpus Christi




Corpus Christi (expressão latina que significa Corpo de Cristo) é uma festa que celebra a presença real e substancial de Cristo na Eucaristia.
É realizada na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade que, por sua vez, acontece no domingo seguinte ao de Pentecostes. É uma festa de 'preceito', isto é, para os católicos é de comparecimento obrigatório participar da Missa neste dia, na forma estabelecida pela Conferência Episcopal do país respectivo.


A procissão pelas vias públicas, quando é feita, atende a uma recomendação do Código de Direito Canônico (cân. 944) que determina ao Bispo diocesano que a providencie, onde for possível, "para testemunhar publicamente a veneração para com a santíssima Eucaristia, principalmente na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo." É recomendado que nestas datas, a não ser por causa grave e urgente, não se ausente da diocese o Bispo (cân. 395).
A origem da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao Século XIII. A Igreja Católica sentiu necessidade de realçar a presença real do "Cristo todo" no pão consagrado. A Festa de Corpus Christi foi instituída pelo Papa Urbano IV com a Bula ‘Transiturus’ de 11 de agosto de 1264, para ser celebrada na quinta-feira após a Festa da Santíssima Trindade, que acontece no domingo depois de 
Pentecostes.


O Papa Urbano IV foi o cônego Tiago Pantaleão de Troyes, arcediago do Cabido Diocesano de Liège na Bélgica, que recebeu o segredo das visões da freira agostiniana, Juliana de Mont Cornillon, que exigiam uma festa da Eucaristia no Ano Litúrgico. Conta a história que um sacerdote chamado Pedro de Praga, de costumes irrepreensíveis, vivia angustiado por dúvidas sobre a presença de Cristo na Eucaristia. Decidiu então ir em peregrinação ao túmulo dos apóstolos Pedro e Paulo em Roma, para pedir o Dom da fé. 

Ao passar por Bolsena (Itália), enquanto celebrava a Santa Missa, foi novamente acometido da dúvida. Na hora da Consagração veio-lhe a resposta em forma de milagre: a Hóstia branca transformou-se em carne viva, respingando sangue, manchando o corporal, os sangüíneos e as toalhas do altar sem no entanto manchar as mãos do sacerdote, pois, a parte da Hóstia que estava entre seus dedos, conservou as características de pão ázimo.
 
Por solicitação do Papa Urbano IV, que na época governava a igreja, os objetos milagrosos foram para Orviedo em grande procissão, sendo recebidos solenemente por sua santidade e levados para a Catedral de Santa Prisca. Esta foi a primeira procissão do Corporal Eucarístico. A 11 de agosto de 1264, o Papa lançou de Orviedo para o mundo católico através da bula Transiturus do Mundo o preceito de uma festa com extraordinária solenidade em honra do Corpo do Senhor.


A festa de Corpus Christi foi decretada em 1264.

O decreto de Urbano IV teve pouca repercussão, porque o Papa morreu em seguida. Mas se propagou por algumas igrejas, como na diocese de Colônia na Alemanha, onde Corpus Christi é celebrada desde antes de 1270. A procissão surgiu em Colônia e difundiu-se primeiro na Alemanha, depois na França e na Itália. Em Roma é encontrada desde 1350.
 
A Eucaristia é um dos sete sacramentos e foi instituído na Última Ceia, quando Jesus disse: ‘Este é o meu corpo…isto é o meu sangue… fazei isto em memória de mim’. Porque a Eucaristia foi celebrada pela 1ª vez na Quinta-Feira Santa, Corpus Christi se celebra sempre numa quinta-feira após o domingo da Santíssima Trindade. Neste Sacramento, no momento da Consagração, ocorre a transubstanciação, ou seja, o pão se torna carne e o vinho sangue de Jesus Cristo, em toda Santa Missa, mesmo que esta transformação da matéria não seja visível.
 
Corpus Christi é celebrado 60 dias após a páscoa. Podendo cair entre 21 de maio e 24 de junho.
Nenhum outro sacramento é mais salutar do que este; nele os pecados são destruídos, crescem as virtudes e a alma é plenamente saciada de todos os dons espirituais.
É oferecido na Igreja pelos vivos e pelos mortos, para que aproveite a todos o que foi instituído para a salvação de todos.
Ninguém seria capaz de expressar a suavidade deste sacramento; nele se pode saborear a doçura espiritual em sua própria fonte; e torna-se presente a memória daquele imenso e inefável amor que Cristo demonstrou para conosco em sua Paixão.
[Santo Tomás de Aquino]




"Onde há vontade, há um Caminho"

O segredo da vida em Deus é a leveza




Encaremos a vida com a leveza de que podemos dar o melhor de nós sem precisarmos ser melhores ou mais importantes do que o outro
"Mas, entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro seja o escravo de todos. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos" (Mc 10,43-45).


A vida humana não pode ser movida pelas pretensões de grandeza e superioridade humana. O coração se eleva, enche-se de orgulho, arrogância e pretensões desmedidas.

Estamos nos medindo pelos outros: quando estamos melhor que o outro, quando podemos mais que o outro, sentimo-nos bem. Quando somos rebaixados ou igualados, nosso coração começa a entrar em confusão, um certo desânimo, e algo negativo acontece dentro de nós. Esse é o parâmetro errado da vida. Se criarmos um parâmetro para a nossa existência, para a nossa vida, a partir da vida do outro, viveremos em constante desgaste emocional.

Quando as nossas emoções estão desgastadas, quando as nossas emoções estão vivendo cada vez mais aquela onda do que o outro pensa, acha, vê, do que temos e o outro não tem, a vida humana se empobrece demais, o nosso espírito desfalece, esgota-se e desgosta-se, perde o gosto e o sabor de viver.

Tornemos a nossa vida leve, encaremos a vida com a leveza necessária, na certeza de que podemos dar o melhor de nós sem precisar ser melhor ou mais importante do que o outro. O segredo da vida em Deus é a leveza e a suavidade. "O meu fardo é suave", diz Jesus. O que torna o nosso fardo doloroso e pesado é o peso excessivo que damos às coisas, às preocupações e aos excessos de comparações, seja lá com quem for.

Sejamos leves e deixemos que a leveza do Espírito conduza a nossa forma de viver.

Deus abençoe você!
 

"Onde há vontade, há um Caminho"

Deus dá-Se a Si mesmo em alimento




São João-Maria Vianney (1786-1859), presbítero, Cura de Ars
«Esprit du Curé d'Ars dans ses Catéchismes, ses Sermons, ses Conversations»

Para termos uma ideia da nossa dignidade, temos de nos recordar muitas vezes do céu, do calvário e do inferno. Se compreendêssemos o que significa ser filho de Deus, não seríamos capazes de fazer mal, seríamos como anjos neste mundo. Ser filho de Deus, que dignidade!

Quando os anjos se revoltaram contra Deus, este Deus tão bom, vendo que eles não poderiam usufruir da felicidade para a qual os tinha criado, fez o Homem e fez este mundo para lhe alimentar o corpo. Mas também tinha de lhe alimentar a alma; e, como as coisas criadas não podem alimentar a alma, que é espírito, Deus quis dar-Se a Si mesmo como alimento.

O que é triste é que nós não recorremos a este alimento divino para atravessar o deserto desta vida. Como uma pessoa que morre de fome ao lado de uma mesa bem servida, há quem passe cinquenta, sessenta anos sem alimentar a alma.

Quem dera que os cristãos fossem capazes de compreender esta linguagem de Nosso Senhor, que lhes diz: «Apesar da tua miséria, quero ter perto de Mim esta alma que criei para Mim. Fi-la tão grande, que só Eu posso enchê-la. Fi-la tão pura, que só o meu corpo pode alimentá-la.»
 

"Onde há vontade, há um Caminho"

O que, podemos perguntar a Evagrio, sobre a raiva?




A paixão mais feroz é a raiva. De fato, isso é definido como uma ebulição e agitação da ira contra alguém que causou dano - ou pensa-se que o tenha feito. Ela irrita constantemente a alma e, acima de tudo, no momento da oração, agarra a mente e mostra a imagem da pessoa ofensiva diante dos olhos. Então chega um momento em que ele persiste por mais tempo, se transforma em indignação, desperta experiências alarmantes à noite. ( Praktikos 11)
Evagrius é perspicaz. Estes e os  ditos são todos bons e bons - mas como combatemos a ira?
Leitura, vigília e oração - estas são as coisas que dão estabilidade à mente errante. Fome, labuta e solidão são os meios de extinguir as chamas do desejo. A ira turva é acalmada pelo canto dos Salmos, pela paciência e pela esmola.Mas todas essas práticas devem ser realizadas de acordo com a devida medida e nos momentos apropriados. O que é feito inoportunamente, ou feito sem medida, dura apenas um curto período de tempo. E o que é de curta duração é mais prejudicial do que lucrativo. ( Praktikos 15)
Ele tem muito mais a dizer sobre raiva do que isso. O que está claro é que a raiva não é imaginada como parte do estilo de vida sagrado do monge do deserto. E devemos combater a raiva através da oração, através da salmodia, pela paciência e pela esmola. As disciplinas externas combinadas com uma busca interior de Deus, então, ajudarão pessoas como eu a serem livres da raiva.
O que mais resta para mim do que isso - Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tenha piedade de mim, um pecador.
Todo mundo deve ser rápido para ouvir, lento para falar e lento para ficar com raiva. (NIV)
A raiva, de acordo com o movimento ascético do quarto século (estou pensando principalmente em Cassiano e Evágrio aqui) é um resultado de nossa incapacidade, de controlar a parte irascível de nossa alma. Irascible é apenas uma palavra latina que significa "capaz de raiva". Se fôssemos santos, nossa parte irascível só resultaria em raiva contra a injustiça real e o abandono da adoração a Deus, como vemos em Cristo limpando os cambistas do Templo. A maioria de nós não é santa, no entanto. E a maior parte da nossa raiva surge do egoísmo, da frustração, da queda, da necessidade de estar certo, do eu ferido.
O que é o ensino dos Pais do Deserto sobre a raiva? 
Dos provérbios (os números entre parênteses são o número de cada um dizendo pelo Abba; isso não é exaustivo):
Abba Agathon (19): Um homem que está com raiva, mesmo que ele ressuscitasse os mortos, não é aceitável para Deus.
Abba Ammonas (3): Eu passei quatorze anos em Scetis pedindo a Deus noite e dia para me conceder a vitória sobre a raiva.
Abba Isaías (8): Quando alguém deseja tornar o mal pelo mal, ele pode ferir a alma de seu irmão mesmo com um único aceno de cabeça.
Abba Isaías (11) também foi questionado sobre o que é a raiva e ele respondeu: 'Brigas, mentiras e ignorância'.
Abba John the Dwarf (5): Subindo a estrada novamente em direção a Scetis com algumas cordas, vi o camelo dirigindo conversando e ele me deixou com raiva; então, deixando meus bens, eu peguei o vôo.
Abba João, o Anão (6): Em outra ocasião, no verão, [Abba John] ouviu um irmão falando furiosamente com seu vizinho, dizendo: 'Ah! você também?' Então, deixando a colheita, ele fugiu.
Abba Nilus (1): Tudo o que você faz para se vingar de um irmão que lhe prejudicou voltará à sua mente no momento da oração.
Abba Nilus (2): A oração é a semente da gentileza e da ausência de raiva.
Abba Nilus (6): Se você quiser orar corretamente, não se deixe aborrecer ou correrá em vão.
É claro que os Padres do Deserto (e, sem dúvida, as Mães) tinham uma visão bastante sombria da raiva humana. Evagrius Ponticus, que foi um mestre espiritual que habitou entre eles e foi altamente influente na espiritualidade bizantina posterior, lista a  raiva nos oito pensamentos mortais, que são precursores dos Sete Pecados Mortais de Gregório, o Grande. Dos Praktikos :
Existem oito categorias gerais e básicas de pensamentos nas quais estão incluídos todos os pensamentos. O primeiro é o da gluotonia, depois a impureza, a avareza, a tristeza, a raiva, a acídia , a vaidade e, por último, o orgulho. Não está em nosso poder determinar se estamos perturbados por esses pensamentos, mas cabe a nós decidir se devem permanecer dentro de nós ou não e se devem ou não despertar nossas paixões. (6).
 
"Onde há vontade, há um Caminho"