
( Por D.
Emanuele Bargellini - Prior do Mosteiro da Transfiguração)
A solenidade de Pentecostes, constitui o cume do mistério pascal de
Cristo e da sua celebração. Ao mesmo tempo destaca a potência
transformadora que do mesmo se irradia, pela efusão e a ação misteriosa do
Espírito Santo, abrindo um novo inicio e um novo caminho.
Pentecostes
marca a meta da longa peregrinação de fé que iniciamos na
quarta-feira das Cinzas, quando, acolhendo com humildade o austero sinal das
cinzas, reconhecemos a necessidade de serem perdoados dos nossos pecados
pela misericórdia de Deus. Por quarenta dias (Quaresma) nos colocamos a
caminho, seguindo Jesus, até o sagrado tríduo da são morte,
sepultura e ressurreição (Páscoa).
Como num grande dia de Páscoa sem interrupção, por cinqüenta dias, até hoje,
(pentecostes= dia qüinquagésimo), ficamos mergulhados nessa graça e
neste clima de renovação, procurando que o dom do Espírito, se
tornasse sempre mais efetivamente, manancial da nossa própria vida,
inspirada pelo mesmo amor que conduziu Cristo a dar sua vida para todos nós. “O
amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito santo que nos
foi dado “(Rm 5,5), afirma o apostolo Paulo.
O Espírito nos introduz na vida divina, realça em nós as potencialidades do
amor, a intimidade filial com Deus na liberdade própria dos seus filhos e
filhas, e a recíproca fraternidade entre nós.”Os que são conduzidos pelo
Espírito de Deus, são filhos de Deus...recebestes um espírito de
filhos adotivos, pelo qual clamamos “Aba, Pai” (Rm 8, 14-15).
Deixar-nos animar e conduzir pelo Espírito do Senhor, é o que nos faz homens e
mulheres “espirituais” ! Homens e mulheres, capacitados pelo próprio
Espírito, e chamados a viver segundo os critérios e o estilo de Deus, estilo
pascal, marcado pela gratuidade e sua extensão a todos! Ninguém fica fora do
amor de Deus. E ninguém tem que ficar fora do nosso amor, enquanto discípulos
de Jesus, guiados pelo seu Espírito.
A narração dos eventos de
Pentecostes, oferecida na I leitura (At 2, 1-11), mostra a surpreendente
iniciativa de Deus, para fazer-se próximo à comunidade dos discípulos de Jesus
, e, através deles, à toda a humanidade.
A linguagem
simbólica daquela narração, vislumbra a gratuita iniciativa, com que Deus
se fez solidário com seu povo de Israel, libertando-o da escravidão
do Egito, e estabelecendo com o mesmo um pacto de aliança ao Monte Sinai (Ex
19).
Evocando aquela experiência, Lucas afirma que em Jesus, morto e
ressuscitado, a proximidade de Deus com a humanidade se fez
intimidade, partilha da própria vida, ao doar seu Espírito. E que a
aliança do Sinai, nele, se tornou plena e definitiva, enquanto
inscrita nos corações de cada um, pelo seu próprio Espírito, segundo o anúncio
dos profetas ( Jer 31, 31-34; Joel 3, 1-5).
Se o pecado dos homens foi o de presumir contrapor-se a Deus, “ ao
tentar construir uma torre capaz de penetrar até o céu”, mas de fato
determinando a incomunicabilidade entre os homens e a dispersão
deles, (Gen 11, 1-11), no dia de Pentecostes, com o dom pascal do
Espírito Santo, “que desce do céu” em formas de línguas de
fogo, e que permite a cada um de escutar proclamar a obra
salvifica de Deus na própria língua ”(At 2, 1-8), inicia uma nova
historia. A nova historia, aberta por Jesus, é história de relação livre
e de filial obediência a Deus, bem como de acolhida fraterna
entre os homens e as mulheres renovados pelo Espírito de Jesus.
Jesus Ressuscitado(evangelho), vencendo as barreiras do medo e da
desconfiança nas quais os discípulos continuavam a ficar fechados,
se apresenta a eles e, com o anúncio da paz, sopra sobre os mesmos o
Espírito Santo, e, com o Espírito, doa a sua própria vida divina,
indicada com a remissão dos pecados.
Eles são capacitados a viver na plena comunhão com o Pai, e na comunhão
recíproca, inspirada e construída pela força vital do Espírito, que todos
os habita e os reconduz à unidade, como a único principio vital. “ Como
o corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros
do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também acontece com
Cristo” (I Cor 12, 12).
As diversidades entre as personalidades, sensibilidades, experiências, culturas
e religiões, a partir desta pertença ao único principio divino de vida que nos
precede e nos transcende, não se tornam mais motivo de divisão e
dispersão, mas de amor convergente e de louvor a Deus, como as
diferentes vozes e notas de uma sinfonia. “Há diversidade de dons, mas um
mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios, mas um mesmo é o Senhor” (I
Cor 12, 4-5).
A nossa profissão de fé, bem como toda nossa relação, na dinâmica das
diferencias que experimentamos cada dia, encontram no Espírito o principio da
recíproca acolhida e colaboração.
Enriquecidos de tal dom divino, que de hoje em diante deveria animar
nossa vida cotidiana, na simplicidade do dia dia, que a linguagem
litúrgica chama de “tempo ordinário”, uma pergunta há de nos acompanhar
constantemente: “Vivo e atuo como filho da páscoa e do pentecostes, ou ainda
como os homens de Babel ?”
Em cada celebração da eucaristia, invocamos a descida do Espírito
(Epiclése), para que ele transforme o pão e o vinho, por nós oferecidos,
no corpo e no sangue do Senhor, a fim de que nós, participando a eles, nos
tornemos um só corpo e um só espírito com Ele e entre nós. Esta é nossa
esperança, nossa vocação e nosso compromisso cotidiano.
Que o Senhor nos conceda viver cada dia um “novo Pentecostes”, como
o Bem-aventurado papa João XXIII, preanunciou para toda a igreja, através
do evento do concilio vaticano II.
“Será verdadeiramente o “novo Pentecostes”, que fará florescer a igreja nas
suas riquezas interiores e na sua atenção materna a todos os campos da
atividade humana: será novo passo em frente, do reino de Cristo no mundo”(
Discurso de conclusão da I Sessão do conc. 8/12/63)
50 anos depois, papa Francisco nos alerta: "Falando claro, o Espírito
Santo nos incomoda. Porque mexe conosco, nos faz caminhar, empurra a Igreja
para ir pra frente...Pareceria que hoje temos mais alegria pela presença do
Espírito Santo, mas não é assim. Basta olhar para o Concílio Vaticano II “obra
do Espírito Santo”. João XXIII foi fiel ao Espírito Santo, mas hoje, 50 anos
depois, fizemos tudo o que nos disse o Espírito Santo no Concílio?
Não.
Festejamos o aniversário, fazemos um monumento, mas que não nos incomode. Não
queremos mudar. E pior: há pessoas que querem ir para trás. Isso é que se chama
ser teimoso, isso se chama querer domesticar o Espírito, tornar-se tardos e
lentos de coração” (Hom. 17/4/13).
"Onde há vontade, há um Caminho"