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quinta-feira, 29 de março de 2018

A instituição da Eucaristia




«Cristo, na última Ceia,
instituiu o Sacramento da Eucaristia.
Comungou Pedro,
comungaram os Apóstolos e discípulos,
comungou a Virgem Maria
e, pela comunhão,
se incorporaram sacramental e moralmente
à sua Cabeça,
Jesus Cristo
e, assim, aumentou o Corpo [Místico de Cristo].

Beato Francisco Palau | 1811 – 1872
As minhas Vivências com a Igreja, 5

Senhor Jesus,
como é grande o mistério da Tua Igreja!
O mistério do Teu Corpo Místico!
Pela Comunhão sacramental
passo a fazer parte de um Corpo,
no qual eu sou um membro
e Tu és a Cabeça.
Pela Comunhão entro na comunhão mais íntima que existe sobre a face da terra:
com todos os que comungam,
transformo-me num só Corpo.
Se assim somos todos um em Ti,
como não deveremos amarmo-nos, ajudarmo-nos,
perdoarmo-nos,
curarmo-nos mutuamente.
Senhor, neste dia da Instituição da Eucaristia,
do Sacerdócio,
e do Mandamento novo do Amor,
Te dou graças de todo o coração,
porque fizestes coisas grandiosas!
Torna-me digno de participar de tanto Amor!
Quero fazer sempre a Tua vontade!
Assim seja!

Credo

Credo in unum Deum,
Patrem omnipotentem,
Factorem caeli et terrae,
visibilium omnium et invisibilium.
Et in unum Dominum Iesum Christum,
Filium Dei unigenitum
et ex Patre natum
ante omnia saecula.
Deum de Deo,
Lumen de Lumine,
Deum verum de Deo vero,
genitum, non factum,
consubstantialem Patri:
per quem omnia facta sunt;
qui propter nos homines
et propter nostram salutem,
descendit de caelis,
et incarnatus est de Spiritu Sancto
ex Maria Virgine,
et homo factus est,
crucifixus etiam pro nobis sub Pontio Pilato,
passus et sepultus est,
et resurrexit tertia die secundum Scripturas,
et ascendit in caelum,
sedet ad dexteram Patris,
et iterum venturus est cum gloria,
iudicare vivos et mortuos;
cuius regni non erit finis.
Et in Spiritum Sanctum,
Dominum et vivificantem,
qui ex Patre Filioque procedit,
qui cum Patre et Filio
simul adoratur et conglorificatur,
qui locutus est per prophetas.
Et unam sanctam catholicam
et apostolicam Ecclesiam.
Confiteor unum Baptisma in remissionem peccatorum.
Et expecto resurrectionem mortuorum,
et vitam venturi saeculi. Amen.

A Missa Maronita - Obras Raras do Catolicismo


http://uberupload.net/a1e808862cdf1f13b39cccaaee183c95/A_MISSA_MARONITA.pdf 

 

"Onde há vontade, há um Caminho"

segunda-feira, 26 de março de 2018

Domingo de Ramos 2018 - Meditação





"Que é a verdade?" perguntou Pilatos, e o tom de sua voz inferiu que em vão se buscaria essa qualidade. Se não houvesse um meio de chegar ao conhecimento de Deus, do homem e do mundo, Pilatos então teria razão. Mas não há razão de andar às apalpadelas nas dúvidas e no ceticismo, porque existe um livro — as Sagradas Escrituras — que "podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus" (2 Tim. 3:15). 
1. Essa revelação é desejável.

O Deus que criou o universo só pode ser um Deus sábio, e um Deus sábio certamente terá um propósito para suas criaturas. Negligenciar esse propósito é loucura e contrariá-lo constitui pecado. "Mas, como se verifica com certeza o propósito divino? A história prova que os homens chegam a conclusões muito diversas e muitas pessoas não chegam a conclusão nenhuma! A experiência demonstra que esse problema não se resolve somente pelos estudos. 

Alguns não dispõem de tempo suficiente, e outros, ainda que tenham o desejo, não possuem a habilidade; mesmo que alcançassem êxito, suas conclusões seriam alcançadas lentamente e com grande desconfiança. Os sábios são capazes de levantar escadas de pensamentos no esforço de alcançarem as verdades celestiais, mas a escada mais elevada ainda estaria muito aquém da necessidade. "O mundo pela sabedoria (filosofia) não conheceu a Deus." As verdades que informam o homem como passar da terra para o céu devem ser enviadas do céu à terra. Em outras palavras, o homem precisa de uma revelação. 

2. Essa revelação é de se esperar. 

A natureza é a revelação de Deus que se alcança pela razão. Mas quando o homem está algemado pelos seus pecados e sobrecarregada a alma, a natureza e a razão são impotentes para esclarecer e aliviar a situação. Vamos permitir que os homens da razão testifiquem. Disse Kant, um dos maiores pensadores de todos os tempos, acerca dos cristãos: "Fazem bem em basear a sua paz e piedade nos Evangelhos porque somente neles está a fonte das verdades profundas e espirituais, depois de a razão haver explorado em vão todas as possibilidades." 

Outro físico de renome, Hegel, quando estava no leito de morte, não permitiu que se lesse nenhum outro livro para ele a não ser a Bíblia. Ele disse que no caso de se prolongar a sua vida ele faria desse Livro o seu único estudo, pois nele encontrara o que a razão não lhe pudera proporcionar. Se existe um bom Deus, como cremos, é razoável crer que ele conceda às suas criaturas uma revelação pessoal de si mesmo. Assim escreveu David S. Clarke:" não podemos crer que um pai se oculte para sempre de seu filho, sem nunca se comunicar com ele. 

Nem tampouco podemos imaginar um Deus que retivesse o conhecimento do seu ser e de sua vontade, ocultando-o às suas criaturas que ele criara à sua própria imagem. Deus fez o homem capaz e desejoso de conhecer a realidade das coisas. Será que ele ocultaria uma revelação que satisfizesse esse anelo? A mitologia egípcia antiga conta a história da fabulosa Esfinge que propunha enigmas aos transeuntes e como os matava quando não lhe podiam decifrá-los. 

Não é de crer que um Deus amoroso e sábio permita que o homem pereça por falta de conhecimento, perplexo diante do enigma do universo.E o Dr. Hodges escreve: "A inteligência divina nos leva a crer que Deus tenha adaptado os meios ao fim, e que ele, enfim, coroará essa natureza religiosa com uma religião sobrenatural. A benevolência de Deus nos conduz a esperar que ele solucione a grave perplexidade e evite o perigo para as suas criaturas. A justiça de Deus nos conduz à esperança de que falará ele em tons claros e com autoridade à nossa consciência." 

3. Essa revelação deveria estar em forma escrita. 

É razoável que sua mensagem tomasse forma de livro. Como disse o Dr. Keyser: "Os livros representam o melhor meio de preservar a verdade em sua integridade e transmiti-la de geração a geração. A memória e a tradição não merecem confiança. Portanto, Deus agiu com a máxima sabedoria e também dum modo normal dando ao homem a sua revelação em forma de livro. 

De nenhuma outra maneira, pelo que podemos ver, podia ter ele entregue aos homens um ideal infalível que estivesse acessível a todos os homens e que continuasse intacto através dos séculos e do qual todos os povos pudessem obter a mesma norma de fé e prática." É razoável concluir que Deus inspirasse os seus servos a arquivarem essas verdades, verdades que não poderiam ser descortinadas pela razão humana. E, finalmente, é razoável crer que Deus tivesse preservado, por sua providência, os manuscritos das escrituras bíblicas e que tivesse influenciado a sua igreja a incluir no cânon sagrado somente os livros que fossem divinamente inspirados.
 
"Onde há vontade, há um Caminho"

segunda-feira, 19 de março de 2018

Bento XVI quebra silêncio e fala sobre renúncia e Papa Francisco



“Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca”(Mateus 26, 41-42).
Após sua renúncia em fevereiro de 2013, Bento XVI afirmou que viveria “afastado do mundo”, e em muito poucas ocasiões quebrou seu silêncio, mas nos últimos dias foram anunciados dois livros-entrevista nos quais pela primeira vez o papa emérito confessou os detalhes de sua decisão. Um deles é, em versão italiana, “Ultime conversazioni” (“Últimas conversas”), à venda a partir desta sexta-feira e escrito pelo jornalista alemão e biógrafo do papa emérito, Peter Sewald.
Joseph Ratzinger fala sobre seus oito anos de pontificado, sobre como aceita a proximidade da morte, sobre seus pensamentos a respeito do papa Francisco e o contexto no qual apresentou sua renúncia. “O texto da renúncia eu escrevi. Não posso dizer com precisão quando, mas no máximo duas semanas antes. Eu o escrevi em latim porque algo tão importante se faz em latim”, declarou.
Sua decisão foi uma ação serena e meditada, livre de pressões e fruto de um “estado de ânimo pacífico” que lhe permitiu “passar tranquilamente o governo” a seu sucessor. “Não se tratou de uma retirada sob pressão dos eventos ou de uma fuga pela incapacidade de encará-los”, disse. A saída também não foi uma consequência de uma desilusão ou algum tipo de coação: “Não o teria permitido”, nem “teria renunciado” ao pontificado se tivesse estado “sob pressão”, reiterou.
Papa Francisco — Ao longo de suas francas confissões, o pontífice emérito falou sobre Francisco, reconhecendo que “não tinha pensado nele” para sucedê-lo e que sua escolha foi “uma grande surpresa”. Em relação ao atual papa, ele agradece as atenções recebidas ao longo de seus já três anos de pontificado e admira, por exemplo, que seja “um homem de reforma prática”, com capacidade para “colocar a mão nas ações de caráter organizativo”.
Pedofilia — Em outro capítulo, Bento XVI lembra seus anos à frente da Igreja Católica e faz autocrítica ao admitir que uma de suas fraquezas foi “a pouca determinação” que teve em algumas ocasiões na hora de “governar e tomar decisões”. Bento XVI também lembrou escândalos de pedofilia, de cuja existência era ciente, embora nunca pensou que pudessem ser tantos.
“Últimas conversas” não é o único livro-entrevista sobre Bento XVI comentado nas últimas semanas, já que no dia 30 de agosto foi lançado “Servitore di Deo e dell’umanità” (“Servidor de Deus e da humanidade”), do italiano Elio Guerriero.
Na obra, o papa emérito explica que a decisão de renunciar ao Pontificado começou a ser pensada após uma viagem a México e Cuba, em março de 2012, onde comprovou “os limites” de sua “resistência física” e tomou consciência de que não poderia suportar uma viagem ao Brasil em 2013 para liderar a Jornada Mundial da Juventude.
Publicada la carta integral del Papa Emérito Benedicto XVI a Mons. Viganò
http://www.vaticannews.va/es/papa/news/2018-03/carta-benedicto-xvi-mons--vigano.html

"Onde há vontade, há um Caminho"

domingo, 18 de março de 2018

A antiga Oração a São Miguel do Papa Leão XIII

“Ó glorioso príncipe da milícia celeste, São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate e na terrível luta contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares (Ef. 6)!  Vinde em auxílio dos homens os quais Deus criou imortais, feitos a sua imagem e semelhança, e resgatou por grande preço da tirania do demônio (Sab. 2; I Cor. 6).
Combatei neste dia, com o exército dos santos anjos, a batalha do Senhor como noutro tempo combateste contra Lúcifer, chefe dos orgulhosos, e contra os anjos apóstatas que foram impotentes em resistir-te e para quem nunca mais haverá lugar no céu.
Sim, esse grande dragão, essa antiga serpente que se chama demônio e Satanás, que seduz o mundo inteiro, foi precipitado com os seus anjos ao fundo do abismo (Apoc. 12). Mas é aqui que esse antigo inimigo este antigo homicida levantou ferozmente a cabeça. Disfarçado de anjo de luz e seguido por toda a multidão de espíritos malignos, invade o mundo inteiro para apoderar-se dele e desterrar o nome de Deus e do seu Cristo, para afundar, matar e entregar à perdição eterna às almas destinadas à coroa de glória eterna. Sobre os homens de espírito perverso e de coração corrupto, este dragão malvado derrama também, como uma torrente de lama impura, o veneno de sua malícia infernal, o espírito de mentira, de impiedade, de blasfémia e o sopro envenenado da imundice, dos vícios e de todas as abominações.

Os inimigos cheios de astúcia têm acumulado de opróbrios e amarguras a Igreja, esposa do Cordeiro imaculado, e lhe dado a beber absinto; sobre seus bens mais sagrados impõem suas mãos criminosas para a realização de todos os seus ímpios desígnios. Lá, no lugar sagrado onde está instituída a sede de São Pedro e a Cátedra da Verdade para iluminar os povos, foi instalado o trono da abominação de sua impiedade, com o desígnio iníquo de ferir o Pastor e dispersar as ovelhas.

Nós te suplicamos, ó príncipe invencível, ajude o povo de Deus e concede-lhe a vitória contra os ataques destes espíritos dos réprobos. Este povo te venera como seu protetor e padroeiro, e a Igreja se gloria de tê-lo como defensor contra os poderes malignos do inferno. A ti, Deus confiou a missão de conduzir as almas para a felicidade celeste. Roga, portanto, ao Deus da paz que submeta Satanás aos nossos pés, tão derrotado e subjugado, que nunca mais possa impor a escravidão aos homens, nem prejudicar a Igreja! Apresenta as nossas orações à vista do Todo-Poderoso para que as misericórdias do Senhor nos alcancem o quanto antes. Submeta o dragão, a antiga serpente, que é o diabo e Satanás, e o precipite acorrentado no abismo para que não mais possa seduzir as nações (Apoc. 20). Amém.
Desde já confiados à vossa assistência e proteção, com a sagrada autoridade da Santa mãe Igreja, e em nome de Jesus Cristo, Deus e Senhor nosso, empreendemos com fé e segurança repelir aos ataques da astúcia diabólica.
V/ Eis a Cruz do Senhor, fujam potências inimigas.
R/ Venceu o Leão da tribo de Judá, a estirpe de David.
V/ Que as tuas misericórdias, ó Senhor, se realizem sobre nós.
R/ Assim como esperamos em vós.
V/ Senhor, escutai a minha oração.
R/ e que o meu clamor chegue até ti.
Oremos.
Ó Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, nós invocamos vosso Santo Nome e imploramos insistentemente a Vossa clemência para que, pela intercessão da Imaculada sempre Virgem Maria, nossa Mãe, e do glorioso São Miguel Arcanjo, de São José, esposo da mesma Santíssima Virgem, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e de todos os santos, dignai-vos proteger contra Satanás e contra todos os espíritos malignos que vagueiam pela terra para destruir a humanidade e para a perdição das almas. Amém.”

"Onde há vontade, há um Caminho"

Sermão de São Leão Magno





Sobre a Paixão do Senhor (Sermão LVII)

O sermão que hoje publicamos como precioso alimento para estes dias sacratíssimos da Quaresma em que, na alegria do Espírito Santo esperamos a Páscoa do Senhor, é um dos dezenove sermões do santo Papa que estão colecionados nas edições impressas como “Sermões sobre a Paixão”.[1] Pelas suas primeiras palavras, vê-se que é precedido de um outro. Esta circunstância não prejudica porém a sua unidade, pois forma por si só um todo independente; foi pronunciado numa quarta-feira da Semana Santa e o sermão anterior a que alude, no domingo precedente.
Mesmo entre os sermões de S. Leão este se faz notar pela sua extraordinária beleza, pela segurança magistral do movimento oratório; contém por assim dizer todos os pontos de história e doutrina que o santo Pastor costumava abordar nas homilias similares e não se estende por mais de quinze minutos.
De início, é quase um “sermão de lágrimas”: é a Paciência de Cristo, a crueldade e cegueira dos Judeus, a cumplicidade de Pilatos, a iniqüidade do processo que condenou Jesus e tudo isso culminando com a crucificação e morte de Cristo (I-V). Mas neste momento, a narração cede o passo à exortação: o pensamento se eleva gradativa e rapidamente e o tema da gloria da Paixão se desenvolve em toda a sua plenitude (VI-VII). A conclusão é uma exortação à vida cristã: a Paixão do Senhor destruiu a morte e a nossa vida, a nossa moral é o exercício do mistério da “nova criatura”: “como as coisas antigas passaram e tudo se fez novo, ninguém permaneça na caducidade da vida carnal...” (VIII).
A glória da Paixão... a glória da Morte do Senhor... “uma força da fraqueza, uma glória do opróbio...”. Invariavelmente o santo Padre desenvolve este tema. “A glória da Paixão do Senhor, sobre a qual vos prometemos falar ainda hoje, Diletíssimos, é principalmente admirável pelo mistério de humildade que contém”: são as primeiras palavras de um outro sermão seu. Invariavelmente ele nos exorta à alegria e nos proíbe de chorar[2] ao considerarmos o espetáculo patético do Calvário; tal como hoje a Liturgia da Sexta-Feira Santa nos fala do “gáudio que veio para todo o mundo” através da Cruz do Senhor.
Piedoso exagero oratório? Gosto condenável do paradoxo? É quase um escândalo (o escândalo da Cruz!) que possamos indagar, ainda que em interrogação retórica, a respeito daquilo que o instinto cristão mais elementar já exprimia ao adornar a Cruz de pedrarias e assim representar aos olhos da carne o que a fé via tão nitidamente: a glória da Paixão do Senhor. E no entanto indaguemo-lo agora: será a Paixão gloriosa, será gloriosa a Morte do Senhor, será a Sexta-Feira Santa um dia de triunfo e de glória, estará certo o Cânon da nossa Liturgia ocidental ao dizer que comemoramos “a tão bem-aventurada Paixão” de Cristo?
Certo, seria já um começo de resposta, dizer que a Paixão e a Morte são gloriosas quando consideradas como passagem para a glória manifesta da Ressurreição. “Humilitas, claritatis est meritum; claritas, humilitatis est praemium”.[3] Mas então, a humildade desses intermediários não seria gloriosa em si mesma, mas apenas “respective”, por uma consideração de conjunto da obra redentora, em que cada parcela recebe os atributos do resultado definitivo. Caminho para o triunfo, sim; causa e mérito da glorificação do corpo ressurrecto de Cristo,[4] se quiserem; mas gloriosa em si mesmas, triunfais segundo a sua própria consideração... isso é mais difícil de admitir!
E no entanto, é bem neste sentido que S. Leão[5] interpreta as palavras de Cristo naquele momento em que alguns gentios prosélitas do judaísmo procuravam vê-lO, apelando para o Apóstolo Felipe. Jesus disse então a André e Felipe: “Chegou a hora de ser glorificado o Filho do Homem. Em verdade, em verdade eu vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morre, permanece sozinho; mas se morre, dá muitos frutos. Quem ama a sua vida, perde-a, e quem lhe tem ódio neste mundo, conserva-a para a vida eterna, etc.” (Jo. C. XII).
Não resistimos ao prazer de citar aqui alguns trechos do comentário que a esta passagem faz o Doutor Comum da Igreja: eles constituem ao mesmo tempo o melhor comentário que se poderia fazer da própria doutrina de S. João. Depois de transcrever os versículos citados, escreve Santo Tomás:
Aqui é prenunciada a Paixão de Cristo. Primeiro, o Cristo prenuncia estar iminente o tempo da sua Paixão; em seguida alude à necessidade da Paixão, pelas palavras: “Em verdade, em verdade eu vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morre, etc”, e finalmente, induz a necessidade do sofrimento dos outros, pelas palavras: “Quem ama a sua vida, perde-a”. Diz Ele pois: “Chegou a hora de ser glorificado o Filho do Homem”. Neste ponto, deve-se notar que o Senhor, vendo aqueles gentios se dirigirem para a Fé e percebendo neles principiar de algum modo a conversão das gentes, prenunciou estar iminente o tempo da sua Paixão, tomando este fato como um indício, assim como alguém que vê o trigal branquejar diz: —  Chegou a hora de pôr a foice à messe (cf. Jo. IV, 35: “Considerai os campos: já estão brancos para a colheita”). Assim pois fala o Senhor: — Visto que os gentios Me querem ver, “chegou a hora de ser glorificado o Filho do Homem”. E de fato Ele foi triplamente glorificado. Primeiro, na sua Paixão, como se depreende de Hebr., V, 5: “Não foi o Cristo que se glorificou a si mesmo, fazendo-se Sumo Sacerdote (a saber, na ara da Cruz), mas sim Aquele que lhe dissera: — Tu és meu Filho, eu hoje Te gerei”. É segundo aquele indício que Ele diz: “Chegou a hora de ser glorificado o Filho do Homem”, isto é, de sofrer a Paixão. Antes da Paixão, com efeito, os gentios não se converteriam para Ele. Ora, na sua Paixão Ele foi glorificado não só quanto a sinais visíveis, como no escurecimento do sol, na cisão do véu do Templo, etc., como também quanto a sinais invisíveis, como no triunfo que obteve publicamente sobre os príncipes infernais, conforme Coloss., c. II. Mais acima (Jo. II, 4), Ele dissera: “Ainda não chegou a minha hora” (n.t.: nas Bodas de Caná): é que ainda não estava preparada, como agora, a fidelidade dos Gentes.
Em seguida, Ele foi glorificado na Ressurreição e Ascensão. (...) Finalmente, foi glorificado pela conversão das Gentes (...).
Assim se exprime Sto. Tomás na sua “Expositio in Ev. B. Joannis”, c. XII, Lição IV. Vemos aí, no cristal transparente do seu pensamento, o fundamento último da “Glória Passionis”: a Paixão do Senhor é gloriosa porque é o exercício, a consumação do seu Sacerdócio, “pelo qual estava reconciliando o mundo com Deus”. Esta glória é dada pelo Pai e se manifesta em dois sinais patentes: um para nós, os milagres cósmicos que acompanharam a morte de Cristo na cruz, outro para o mundo dos espíritos, a derrota das Potências invisíveis que tinham poder sobre o homem pecador e mortal; um e outro, objetos certíssimos da nossa fé. A própria Paixão e a própria Morte, como Obra redentora do Cristo, é que brilham e refulgem com glória divina e invisível.
Não se trata somente da glória inamissível da alma humana de Cristo, pela sua união hipostática ao Verbo, glória que só não refletia sobre o corpo por um milagre constante[6] e que uma vez os Apóstolos Pedro, Tiago e João puderam ver por um momento no Monte Tabor, quando o Senhor se transfigurou diante deles[7]; não se trata também da glória essencial que o Cristo possuía como Filho Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade[8] “pois o Filho não é senão um como resplendor e glória do Pai”[9], mas aqui se trata da sua glória de Sumo Sacerdote, no exercício da sua Liturgia[10], pela qual reintroduzia toda a humanidade na amizade e paz de Deus.
É a glória, grande mistério do “gloriosíssimo Vencedor do Diabo e debelador potentíssimo das forças inimigas, resplandecente de beleza, carregando o troféu do seu triunfo”[11]; glória que os judeus não podiam ver, mas que toda a Igreja universal iria confessar dentro de pouco tempo. Glória que a nossa Mãe Maria Santíssima contemplava ao pé da Cruz e que também foi vista pelo Centurião e pelo Bom Ladrão; e por este, filho de Abraão, ainda antes da realização dos milagres tremendos daquele dia, como para que se verificasse mais uma vez que “os milagres são dados aos infiéis”[12], representados ali pelo chefe da corte, que exclamou: — “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus!”[13]. Eis a glória sacerdotal do Cristo, que celebramos cada vez que, reunidos na assembléia litúrgica, “anunciamos a sua morte, até que Ele venha”.[14]
Mas justamente por pertencer ao Cristo como Sacerdote, essa glória transborda d’Ele para toda a humanidade: “É com efeito em participação dos seus sofrimentos que estão, não só a gloriosa força dos mártires como também, pela própria regeneração (batismo); a fé de todos os renascidos. Pois quando se renuncia ao Demônio e se crê em Deus, quando se passa da velha à nova vida, quando se depõe a imagem do homem terrestre e se recebe a forma do homem celeste, aparece sempre um certo aspecto de morte e também uma certa semelhança da ressurreição; de modo que, recebido pelo Cristo e ao Cristo recebendo, o homem não é o mesmo antes e depois do batismo, mas o corpo do re-generado se faz carne do crucificado”[15].
Assim é que compreendemos a consagração do sofrimento e da morte cristã: assim como em todos os tempos, só a fé em Cristo pode salvar, também em qualquer situação, o sofrimento só tem valor e significação para a vida eterna se for sofrimento de um membro de Cristo: neste caso será glória e motivo de glória. “Nos autem gloriari oportet in cruce Domini nostri Jesu Christi”[16]. Nao se trata para nós de desprezar os sofrimentos e só pensar na glória: isso seria uma dissociação diametralmente oposto ao espírito cristão; muito menos de nos comprazermos nos sofrimentos considerados isoladamente da sua significação: trata-se porém de afirmar “uma glória do opróbio e uma força da fraqueza”[17], posição infinitamente difícil, já de ser compreendida em abstrato, já de ser realizada em concreto.
Posição impossível mesmo de ser assumida pelas nossas simples forças humanas de inteligência e vontade, se não tivéssemos recebido no batismo, por obra do Espírito Santo, a graça de imitar o Cristo. Graça que a cada dia podemos renovar, “pois a participação do corpo e do sangue de Cristo não se realiza outra coisa senão a nossa transformação naquilo mesmo que recebemos, e a possessão em tudo, pelo espírito e pela carne, daquele no qual estamos com-mortos, com-sepultos, com-ressuscitados.[18]

TRADUÇÃO DO SERMÃO

Percorridos, Diletíssimos, no sermão anterior, os fatos que precederam a prisão do Senhor, resta-nos agora, com o auxílio da graça de Deus, dissertar, como prometemos, sobre o próprio desenrolar da Paixão. Pois tendo o Senhor tornado bem claro, pelas palavras da sua sagrada oração,[19] que existiam n’Ele de modo sumamente verdadeiro e pleno as naturezas humana e divina, mostrando assim de onde Lhe vinha o não querer sofrer e de onde o querer; tendo repelido de si o temor da fraqueza e confirmado a grandeza da força, retomou o sentimento da sua eterna disposição[20] e, pelo ministério dos judeus, lançou ao feroz Diabo a forma do servo [21]que nada possuia de pecado, para que a causa de todos fosse advogada por aquele único no qual existia, sem a culpa, a natureza de todos. Atiraram-se pois sobre a luz verdadeira os filhos das trevas e, embora usando tochas e lanternas, não escaparam à noite da sua infidelidade, porque não reconheceram o Autor da luz. Apoderam-se d’Aquele que estava preparado para ser preso e arrastam Aquele que queria ser arrastado e que, se quisesse resistir, nada poderiam as ímpias mãos para injuria-lO: mas a redenção do mundo seria retardada, e, sem sofrer, a ninguém salvaria Aquele que devia morrer pela salvação de todos.
— II —
Deixando portanto que Lhe fizessem tudo quanto ousavam, sob a instigação dos sacerdotes, o furor popular, é conduzido a Anás, sogro de Caifás e em seguida, por ordem de Anás, (é levado) a Caifás. E depois das loucas acusações dos caluniadores, depois das imaginárias falsidades das testemunhas subordinadas, é transferido, por delegação dos pontífices, ao julgamento de Pilatos. Aqueles, com desprezo do direito divino, bradando que “não tinham como rei senão a Cesar”, (Jo. XIX, 15) como pessoas dedicadas às leis romanas, reservaram todo o julgamento ao poder do Governador, antes ansiando pelo executor da violência que pelo arbítrio da causa. Ofereciam Jesus amarrado por fortes laços, batido por numerosos tapas e socos, coberto de escarros, já condenado previamente pelos clamores, para que, no meio de tantos pre-julgamentos, Pilatos nao ousasse absolver aquele que todos queriam condenar. O próprio processo mostra que nem ele encontrou culpa no acusado, nem tinha firmeza na sua opinião. O juiz condena a quem declara inocente, entregando o sangue do Justo ao povo iníquo; sangue do qual, pela sua própria inteligência e pelo sonho de sua mulher,[22] sabia dever abster-se. O lavar das mãos não purifica o espírito contaminado e nem é expiado com a aspersão dos dedos o crime cometido com ímpia intenção servil. Excede á culpa de Pilatos o crime dos judeus que, aterrorizando-o com o nome de Cesar e excitando-o com palavras invejosas, provocaram-no à realização da sua maldade. Mas também não foge à culpa aquele que, superado pelas desordens, abandonou o próprio julgamento e participou no crime alheio.
— III —
 Pilatos, Diletíssimos, vencido pela loucura do povo implacável, permitiu que Jesus fosse insultado por muitos ludíbrios e vexado por desmedidas injúrias; à consideração dos perseguidores mostrou-O espancado de açoites, coroado de espinhos e revestido com o manto de irrisória veste. Pensou que sem dúvida isso abrandaria os ânimos dos inimigos; que, saturados os ódios invejosos, já não mais julgassem dever ser perseguido Aquele que viam afligdo de tantas maneiras. Mas acendendo-se a ira dos que clamavam que soltasse Barrabás por indulgência e que Jesus sofresse a pena da Cruz; como se fosse dito em frêmito uníssono pelas turbas: “Sobre nós o seu sangue e sobre os nossos filhos”,[23] obtiveram os inimigos para a sua própria condenação aquilo que exigiam pertinazmente. “Os seus dentes”, como testemunhou o Profeta, “eram armas e setas e a sua língua um gáudio acerrado”[24]. Inútil lhes era conter-se de crucificar com as próprias mãos o Senhor de majestade: atiravam-lhe os dardos letais dos gritos e as flechas envenenadas das palavras. A vós, a vós, ó pérfidos judeus, ó sacrílegos Príncipes do povo, cabe todo o peso deste crime; e conquanto a ferocidade do atentado envolva também o Governador e os soldados, todo o conjunto do acontecimento vos acusa. E tudo aquilo que, no suplício do Cristo, ou foi erro de julgamento de Pilatos, ou complacência da corte, mais ainda vos torna merecedores do ódio do gênero humano, pois pela insistência do vosso furor, nem foi permitido que ficassem inocentes aqueles que não se agradavam da vossa iniqüidade.
— IV —
Como a cegueira dos infiéis judeus assim negasse ser seu rei o Senhor de todas as coisas, foi o Senhor Jesus entregue à vontade dos malfeitores e, para irrisão da régia dignidade, foi-lhe ordenado ser o portador de sua Cruz (para que se cumprisse o que previra o Profeta Isaías dizendo: “Eis que nasceu um menino e nos foi dado um filho que tem o império sobre os ombros”[25]. Portanto, quando o Senhor carregava o lenho da Cruz que converteria para Si em cetro de poder, diante dos olhos dos ímpios era isso uma grande irrisão, mas aos Fiéis se manifestava um grande mistério, pois o gloriosíssimo vencedor do Diabo e debelador potentíssimo das forças inimigas, resplandecente de beleza,[26] carregava o troféu do seu triunfo; e trazia sobre os ombros com paciência inalterável o estandarte da salvação para a adoração de todos os reinos; como para fortalecer então, pela imagem da sua própria ação, todos os seus imitadores, dizendo: “Quem não toma a sua Cruz e segue-Me, não é digno de Mim”.[27]
— V —
Encaminhando-se então as turbas com Jesus para o lugar da execução, apareceu Simão, um certo Cireneu, ao qual foi transferido o lenho da Cruz do suplício, para que também por um tal fato prefigurada a fé dos Gentios, para quem a Cruz de Cristo não seria vergonha mas glória. Não foi coisa fortuita, mas figurada e mística que, assanhando-se os judeus contra o Cristo, aparecesse um estrangeiro para compadecer-se dele, segundo a palavra do Apóstolo: “Se com-padecemos, também co-reinaremos”[28] para que ao opróbio sacratíssimo do Salvador não fosse submetido algum hebreu ou israelita mas um estrangeiro. Com efeito, por essa transferência também passava da circuncisão para o prepúcio, dos filhos carnais para os espirituais a propriação do Cordeiro Imaculado e a plenitude de todos os sacramentos. Pois se “o Cristo foi imolado”, como diz o Apóstolo, “como nossa Páscoa”[29] que, oferecendo-Se ao Pai como novo e verdadeiro Sacrifício de reconciliação, não foi crucificado no Templo, cuja veneração estava acabada, nem dentro dos muros da cidade, que devia ser destruída em castigo do seu crime, mas fora das portas e do acampamento[30], isso foi para que, tendo cessado o mistério das antigas vítimas, uma nova hóstia fosse colocada sore um novo altar e a Cruz do Cristo não fosse a ara do Templo, mas a do mundo inteiro.
— VI —
 Considerando o Cristo exaltado pela Cruz, não ocorra à nossa mente, Diletíssimos, só aquela visão que esteve nos olhos dos ímpios, a quem foi dito por Moisés: “E tua vida estará pendente ante teus olhos, e temerás dia e noite, e não crerás na tua vida”[31]. Vendo o Senhor crucificado, estes com efeito em nada puderam pensar senão no seu próprio crime, pois não possuíam o temor pelo qual a verdadeira fé se justifica, mas aquele pelo qual a consciência iníqua é torturada. A nossa inteligência porém, que é iluminada pelo Espírito da verdade, recebe com puro e livre coração a glória da Cruz que resplandece no Céu e na terra. Com penetração profunda veja a realização daquela palavras do Senhor, quando falou sobre o transe da sua Paixão: “Chegou a hora de ser glorificado o Filho do Homem”; e em seguida: “Agora a minha alma está pertubada, e que direi? Pai, livra-Me desta hora. Mas foi para isto que Eu cheguei até esta hora. Pai, glorifica teu Filho”. E como viesse do céu a voz do Pai, dizendo: “Já o glorifiquei, e ainda o glorificarei”, Jesus, dirigindo-se aos circunstantes, disse:”Não por minha causa essa voz se fez ouvir, mas por vossa causa. Agora é o julgamento do mundo, agora o Príncipe deste mundo será expulso. E quando Eu for elevado da terra, tudo atrairei a Mim”.[32]
— VII —
Ó admirável poder da Cruz! Ó inefável glória da Paixão! Nela o tribunal do Senhor, o julgamento do mundo, o poder do Crucificado. De fato atraíste tudo a Vós, Senhor, e tendo estendido os braços um dia inteiro para o povo infiél e negador que não acreditava em Vós e Vos contradizia, o mundo inteiro recebeu o senso para confessar a Vossa majestade[33]. Tudo atraíste a Vós, Senhor, quando, em execração da ignomínia dos judeus, todos os elementos proferiram a mesma sentença; quando, apagadas as luzes do céu e transformado o dia em noite, agitando-se a terra com movimentos insólitos, toda criatura se recusou ao uso dos ímpios. Tudo atraíste a Vós, Senhor, pois, tendo-se rasgado o véu do Templo, os Santos dos Santos se retiraram dos indignos Pontífices, para que a figura se transformasse na verdade, a profecia, na manifestação, e a Lei, no Evangelho. Tudo atraíste a Vós, Senhor, para que aquilo que era celebrado num único templo da Judéia sob simbolismos obscuros, fosse celebrado em toda parte, pela devoção de todas as nações, num Sacramento pleno e sem véus. Agora, com efeito, é mais gloriosa a ordem dos Levitas, mais ampla a dignidade dos Anciãos, mais sagrada as bençãos, a causa de todas as graças; por ela é dada aos crentes uma força tirada da fraqueza, uma glória do opróbio, uma vida da morte. Também agora, tendo cessado toda espécie de sacrifícios carnais, a oblação única do Vosso Corpo e Sangue substitui toda a verdade das vítimas: pois Vós sois o verdadeiro “Cordeiro de Deus, Vós que tirais os pecados do mundo”[34]. E assim em Vós perfazei todos os mistérios, a fim de que, assim como um só é o sacrifício em lugar de toda vítima, seja também feito com toda nação um só reino.
— VIII —
Confessemos portanto, Diletíssimos, o que com gloriosa voz confessou o Apóstolo São Paulo, bem-aventurado Mestre das Gentes, dizendo: “Fiel sentença e digna de toda aceitação é que o Cristo Jesus veio a este mundo salvar os pecadores[35]. É mais maravilhosa aqui a misericórdia de Deus para conosco, porque o Cristo não morreu pelos judeus nem pelos santos, mas pelos iníquos e ímpios; e como a natureza divina não podia receber o aguilhão da morte, nascendo de nós Ele assumiu aquilo que por nõs podia oferecer (n.t.: uma natureza humana). Já de há muito, com efeito, o poder da sua morte ameaçava a nossa morte, como Ele disse pelo Profeta Oséas: ‘Ó morte, eu serei a tua morte; ó inferno, eu serei a tua perda!’. De fato Ele submeteu-se às leis do inferno, morrendo, mas destruiu-as, ressurgindo; e assim destruiu  a perpetuidade da morte, fazendo-a de eterna, temporária. “Assim pois, como todos morrem em Adão, também todos serão vivificados no Cristo”. Faça-se portanto, Diletíssimos, o que diz o Apóstolo São Paulo: “Que os que vivem já não vivam para si, mas para Aquele que morreu e ressuscitou por todos”, e como as coisas antigas passaram e tudo se fez novo, ninguém permanecerá na caducidade da vida carnal, mas todos, progredindo de dia para dia, renovemo-nos pelo aumento de piedade. Pois por mais que alguém esteja justificado, tem contudo, enquanto está nesta vida, por onde seja mais provado e melhor. Pois quem não progride, regride; e quem nada adquire, não deixa de perder alguma coisa. Compete-nos portanto correr pelos passos da Fé, pelas obras de misericórdia, pelo amor da justiça, a fim de que, celebrando espiritualmente o dia da nossa Redenção, “não com o fermento da antiga malícia e perversidade, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade”, mereçamos ser participantes da Ressurreição do Cristo, que com o Pai e o Espírito Santo vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.
Revista “A Ordem”, Abril de 1943.

[1] Migue Latino, vol. LIV.
[2] “Não choreis por quem morre para a redenção do mundo, por quem vereis como Juiz, na majestade do Pai”. Sermão LXI. Cf. S. Theol. IIª Iias. 9.82, a. 4, ad 1, onde se vê que a Paixão é em primeiro lugar motivo de alegria.
[3] A humildade é mérito para a glória; a glória, prêmio da humildade. Sto. Agostinho, Tract. CIV in Ev. Jo.
[4] Cf. S. Theol. III, 49, 6.
[5] 4 Serm. LVII, c. VI.
[6] Cf. S. Theol., III, 45, 2 c.
[7] Mt. XVII, 1-13; Mc., IX, 2-10; Lc, IX, 28-36.
[8] Jo. I, 14.
[9] S. Thomás Exp. In Jo. XII, lect. V.
[10] Cf. Hebr. VIII, 6.
[11] S. Leão, Serm. LVII.
[12] I Cor. XIV, 22.
[13] Mt. XXVII, 54.
[14] I Cor. XI, 26.
[15] S. Leão, Serm. LXIII.
[16] Gal., VI, 14.
[17] S. Leão, Serm. LXII.
[18] S. Leão, Serm. LXIII.
[19] Cf. Jo., XVII.
[20] Cf. Ef., I, 7-10.
[21] Cf. Fil., II, 7; Mat., XX, 28.
[22] Cf. Mat., XXVII, 18-19.
[23] Mat., XXVII, 25.
[24] Salmo LVI, 5.
[25] Isa., IX, 6.
[26] “Jamais la perfection non seulement morale mais métaphysique de la créature humaine ne fut et ne sera plus accomplie que lorsque le plus beau des enfants des hommes a été immolé sur la croix”. J. Maritain, “S. Jean de la Croix Practicien de la Contemplation”, in “Les Degrés du Savoir”, p. 663. (Paris, 1934).
[27] Mat., X, 38.
[28] Rom., VIII, 17.
[29] I Cor., V, 7.
[30] Cf., Hebr., XIII, 11.
[31] Deut., XXVIII, 66.
[32] Jo., XII, 23; 27-28; 30-32.
[33] Cf., Isa., LXV, 2; Roma., X, 21.
[34] Jo., I, 29.

PAPA BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL
Sala Paulo VI
Quarta-feira, 5 de Março de 2008

São Leão Magno
Queridos irmãos e irmãs!
Prosseguindo o nosso caminho entre os Padres da Igreja, verdadeiros astros que brilham de longe, no nosso encontro de hoje falamos sobre a figura de um Papa, que em 1754 foi proclamado por Bento XIV Doutor da Igreja: trata-se de São Leão Magno. Como indica o apelativo que depressa lhe fora atribuído pela tradição, ele foi verdadeiramente um dos maiores Pontífices que honraram a Sede romana, contribuindo muitíssimo para fortalecer a sua autoridade e prestígio. Primeiro Bispo de Roma com o nome de Leão, adotado depois por outros doze Sumos Pontífices, é também o primeiro Papa do qual chegou até nós a pregação, por ele dirigida ao povo que o circundava durante as celebrações. É espontâneo pensar nele também no contexto das atuais audiências gerais de quarta-feira, encontros que nos últimos decênios se tornaram para o Bispo de Roma uma forma habitual de encontro com os fiéis e com muitos peregrinos provenientes de tantas partes do mundo.
Leão era originário da Túscia. Tornou-se diácono da Igreja de Roma por volta do ano 430, e com o tempo adquiriu nela uma posição de grande realce. Este papel de relevo levou em 440 Gala Placídia, que naquele momento regia o Império do Ocidente, a enviá-lo para a Gália a fim de resolver uma situação difícil. Mas no Verão daquele ano o Papa Sisto III cujo nome está ligado aos magníficos mosaicos de Santa Maria Maior faleceu, e na sucessão foi eleito precisamente Leão, que recebeu a notícia quando estava a desempenhar a sua missão de paz na Gália. Tendo regressado a Roma, o novo Papa foi consagrado a 29 de Setembro de 440. Tinha assim início o seu pontificado, que durou mais de 21 anos, e que foi sem dúvida um dos mais importantes na história da Igreja. Quando faleceu, a 10 de Novembro de 461, o Papa foi sepultado junto do túmulo de São Pedro. As suas relíquias estão conservadas ainda hoje num dos altares da Basílica Vaticana.
Os tempos nos quais viveu o Papa Leão eram muito difíceis: o repetir-se das invasões barbáricas, o progressivo enfraquecimento no Ocidente da autoridade imperial e uma longa crise social tinham imposto que o Bispo de Roma como teria acontecido com evidência ainda maior um século e meio mais tarde, durante o pontificado de Gregório Magno assumisse um papel de relevo também nas vicissitudes civis e políticas. Isto não deixou, obviamente, de aumentar a importância e o prestígio da Sé romana. Permaneceu célebre sobretudo um episódio da vida de Leão. Ele remonta a 452, quando o Papa em Mântua, juntamente com uma delegação romana, encontrou Átila, chefe dos Unos, e o dissuadiu de prosseguir a guerra de invasão com a qual já tinha devastado as regiões norte-orientais da Itália. E assim salvou o resto da Península. Este importante acontecimento tornou-se depressa memorável, e permanece como um sinal emblemático da ação de paz desempenhada pelo Pontífice. Infelizmente não foi de igual modo positivo, três anos mais tarde, o êxito de outra iniciativa papal, contudo sinal de uma coragem que ainda nos faz admirar: de fato, na Primavera de 455 Leão não conseguiu impedir que os Vândalos de Genserico, tendo chegado às portas de Roma, invadissem a cidade indefesa, que foi saqueada durante duas semanas. Contudo o gesto do Papa que, inerme e circundado pelo seu clero, foi ao encontro do invasor para implorar que se detivesse impediu pelo menos que Roma fosse incendiada e obteve que do terrível saque fossem poupadas as Basílicas de São Pedro, de São Paulo e de São João, nas quais se refugiou uma parte da população aterrorizada.
Conhecemos bem a ação do Papa Leão, graças aos belíssimos sermões deles estão conservados quase cem num latim maravilhoso e claro e graças às suas cartas, cerca de cento e cinquenta. Nestes textos o Pontífice manifesta-se em toda a sua grandeza, dirigido ao serviço da verdade na caridade, através de uma prática assídua da palavra, que o mostra ao mesmo tempo teólogo e pastor. Leão Magno, constantemente solícito pelos seus fiéis e pelo povo de Roma, mas também pela comunhão entre as diversas Igrejas e pelas suas necessidades, foi defensor e promotor incansável da primazia romana, propondo-se como herdeiro autêntico do apóstolo Pedro: disto se mostram bem conscientes os numerosos Bispos, em grande parte orientais, reunidos no Concílio de Calcedônia.
Tendo sido realizado em 451, com os trezentos e cinquenta Bispos que nele participaram, este Concílio foi a mais importante assembleia até então celebrada na história da Igreja. Calcedónia representa a meta certa da cristologia dos três Concílios ecuménicos precedentes: o de Niceia de 325, o de Constantinopla de 381 e o de Éfeso de 431. Já no século VI estes quatro Concílios, que resumem a fé da Igreja antiga, foram de fato comparados com os quatro Evangelhos: é quanto afirma Gregório Magno numa famosa carta (I, 24), na qual declara "acolher e venerar, como os quatro livros do Santo Evangelho, os quatro Concílios", porque sobre eles explica ainda Gregório "como sobre uma pedra quadrada se eleva a estrutura da santa fé". O Concílio de Calcedônia ao recusar a heresia de Eutiques, que negava a verdadeira natureza humana do Filho de Deus afirmou a união na sua única Pessoa, sem confusão e sem separação, das duas naturezas humana e divina.
Esta fé em Jesus Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem era confirmada pelo Papa num importante texto doutrinal dirigido ao Bispo de Constantinopla, o chamado Tomo a Flaviano, que, lido em Calcedônia, foi recebido pelos Bispos presentes com uma eloquente aclamação, da qual é conservada notícia nas atas do Concílio: "Pedro falou pela boca de Leão", prorromperam em uníssono os Padres conciliares. Sobretudo desta intervenção, e de outras feitas durante a controvérsia cristológica daqueles anos, sobressai com evidência como o Papa sentia com particular urgência as responsabilidades do Sucessor de Pedro, cujo papel é único na Igreja, porque "a um só apóstolo está confiado o que a todos os apóstolos é comunicado", como afirma Leão num dos seus sermões para a festa dos santos Pedro e Paulo (83, 2). E o Pontífice soube exercer estas responsabilidades, no Ocidente e no Oriente, intervindo em diversas circunstâncias com prudência, firmeza e lucidez através dos seus escritos e mediante os seus legados. Mostrava deste modo como a prática da primazia romana fosse necessária então, como também hoje, para servir eficazmente a comunhão, característica da única Igreja de Cristo.
Consciente do momento histórico no qual vivia e da transformação que se estava a verificar num período de profunda crise da Roma pagã para a cristã Leão Magno soube estar próximo do povo e dos fiéis com a ação pastoral e com a pregação. Incentivou a caridade numa Roma provada pelas carestias, pela afluência dos prófugos, pelas injustiças e pela pobreza. Contrastou as superstições pagãs e a ação dos grupos maniqueus. Relacionou a liturgia com a vida quotidiana dos cristãos: por exemplo, unindo a prática do jejum com a caridade e com a esmola sobretudo por ocasião das Quatro têmporas, que marcam no decorrer do ano a mudança das estações. Em particular Leão Magno ensinou aos seus fiéis e ainda hoje as suas palavras são válidas para nós que a liturgia cristã não é a recordação de acontecimentos do passado, mas a atualização de realidades invisíveis que agem na vida de cada um. É quanto ele ressalta num sermão (64, 1-2) a propósito da Páscoa, que deve ser celebrada em todos os tempos do ano "não tanto como algo do passado, mas como um acontecimento do presente". Tudo isto se insere num projeto determinado, insiste o santo Pontífice: de fato, como o Criador animou com o seu sopro da vida racional o homem plasmado com o pó da terra, depois do pecado original, enviou o seu Filho ao mundo para restituir ao homem a dignidade perdida e destruir o domínio do diabo com a vida nova da graça.
Eis o mistério cristológico para o qual São Leão Magno, com a sua carta ao Concílio de Éfeso, deu uma contribuição eficaz e essencial, confirmando para todos os tempos através desse Concílio quanto disse São Pedro em Cesareia de Filipe. Com Pedro e como Pedro confessou: "Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo". E por isso Deus e Homem juntos, "não alheio ao gênero humano, mas contrário ao pecado" (cf. Serm. 64). Em virtude desta fé cristológica ele foi um grande portador de paz e de amor. Mostra-nos assim o caminho: na fé aprendemos a caridade. Aprendemos portanto com São Leão Magno a crer em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, e a realizar esta fé todos os dias na acção pela paz e no amor ao próximo.

Saudação
Saúdo os peregrinos de língua portuguesa, nomeadamente o grupo vindo de Portugal, sobre todos invocando o amor sábio e a sabedoria amiga do Papa São Leão Magno que, estreitando ao coração de Cristo a multidão dos fiéis com os seus pastores, lhes fez ouvir a voz de Deus falar na Cátedra de Pedro. Guiados por esta voz, possam os vossos corações testemunhar junto dos familiares e conhecidos a verdade na caridade. Basta dizer “sim” a Deus, como a Virgem Maria.
 

"Onde há vontade, há um Caminho"