Sobre a
Paixão do Senhor (Sermão LVII)
O
sermão que hoje publicamos como precioso alimento para estes dias sacratíssimos
da Quaresma em que, na alegria do Espírito Santo esperamos a Páscoa do Senhor,
é um dos dezenove sermões do santo Papa que estão colecionados nas edições
impressas como “Sermões sobre a Paixão”.[1] Pelas suas primeiras palavras, vê-se que
é precedido de um outro. Esta circunstância não prejudica porém a sua unidade,
pois forma por si só um todo independente; foi pronunciado numa quarta-feira da
Semana Santa e o sermão anterior a que alude, no domingo precedente.
Mesmo
entre os sermões de S. Leão este se faz notar pela sua extraordinária beleza,
pela segurança magistral do movimento oratório; contém por assim dizer todos os
pontos de história e doutrina que o santo Pastor costumava abordar nas homilias
similares e não se estende por mais de quinze minutos.
De
início, é quase um “sermão de lágrimas”: é a Paciência de Cristo, a crueldade e
cegueira dos Judeus, a cumplicidade de Pilatos, a iniqüidade do processo que
condenou Jesus e tudo isso culminando com a crucificação e morte de Cristo
(I-V). Mas neste momento, a narração cede o passo à exortação: o pensamento se
eleva gradativa e rapidamente e o tema da gloria da Paixão se desenvolve em
toda a sua plenitude (VI-VII). A conclusão é uma exortação à vida cristã: a
Paixão do Senhor destruiu a morte e a nossa vida, a nossa moral é o exercício
do mistério da “nova criatura”: “como as coisas antigas passaram e tudo se fez
novo, ninguém permaneça na caducidade da vida carnal...” (VIII).
A
glória da Paixão... a glória da Morte do Senhor... “uma força da fraqueza, uma
glória do opróbio...”. Invariavelmente o santo Padre desenvolve este tema. “A
glória da Paixão do Senhor, sobre a qual vos prometemos falar ainda hoje,
Diletíssimos, é principalmente admirável pelo mistério de humildade que
contém”: são as primeiras palavras de um outro sermão seu. Invariavelmente ele
nos exorta à alegria e nos proíbe de chorar[2] ao considerarmos o espetáculo patético do
Calvário; tal como hoje a Liturgia da Sexta-Feira Santa nos fala do “gáudio que
veio para todo o mundo” através da Cruz do Senhor.
Piedoso
exagero oratório? Gosto condenável do paradoxo? É quase um escândalo (o
escândalo da Cruz!) que possamos indagar, ainda que em interrogação retórica, a
respeito daquilo que o instinto cristão mais elementar já exprimia ao adornar a
Cruz de pedrarias e assim representar aos olhos da carne o que a fé via tão
nitidamente: a glória da Paixão do Senhor. E no entanto indaguemo-lo agora:
será a Paixão gloriosa, será gloriosa a Morte do Senhor, será a Sexta-Feira
Santa um dia de triunfo e de glória, estará certo o Cânon da nossa Liturgia
ocidental ao dizer que comemoramos “a tão bem-aventurada Paixão” de Cristo?
Certo,
seria já um começo de resposta, dizer que a Paixão e a Morte são gloriosas
quando consideradas como passagem para a glória manifesta da Ressurreição.
“Humilitas, claritatis est meritum; claritas, humilitatis est praemium”.[3] Mas então, a humildade desses
intermediários não seria gloriosa em si mesma, mas apenas “respective”, por uma
consideração de conjunto da obra redentora, em que cada parcela recebe os
atributos do resultado definitivo. Caminho para o triunfo, sim; causa e mérito
da glorificação do corpo ressurrecto de Cristo,[4] se quiserem; mas gloriosa em si mesmas,
triunfais segundo a sua própria consideração... isso é mais difícil de admitir!
E
no entanto, é bem neste sentido que S. Leão[5] interpreta as palavras de Cristo naquele
momento em que alguns gentios prosélitas do judaísmo procuravam vê-lO, apelando
para o Apóstolo Felipe. Jesus disse então a André e Felipe: “Chegou a hora de
ser glorificado o Filho do Homem. Em verdade, em verdade eu vos digo: se o grão
de trigo que cai na terra não morre, permanece sozinho; mas se morre, dá muitos
frutos. Quem ama a sua vida, perde-a, e quem lhe tem ódio neste mundo,
conserva-a para a vida eterna, etc.” (Jo. C. XII).
Não
resistimos ao prazer de citar aqui alguns trechos do comentário que a esta
passagem faz o Doutor Comum da Igreja: eles constituem ao mesmo tempo o melhor
comentário que se poderia fazer da própria doutrina de S. João. Depois de
transcrever os versículos citados, escreve Santo Tomás:
Aqui
é prenunciada a Paixão de Cristo. Primeiro, o Cristo prenuncia estar iminente o
tempo da sua Paixão; em seguida alude à necessidade da Paixão, pelas palavras:
“Em verdade, em verdade eu vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não
morre, etc”, e finalmente, induz a necessidade do sofrimento dos outros, pelas
palavras: “Quem ama a sua vida, perde-a”. Diz Ele pois: “Chegou a hora de ser
glorificado o Filho do Homem”. Neste ponto, deve-se notar que o Senhor, vendo
aqueles gentios se dirigirem para a Fé e percebendo neles principiar de algum
modo a conversão das gentes, prenunciou estar iminente o tempo da sua Paixão,
tomando este fato como um indício, assim como alguém que vê o trigal branquejar
diz: — Chegou a hora de pôr a foice à messe (cf. Jo. IV, 35: “Considerai
os campos: já estão brancos para a colheita”). Assim pois fala o Senhor: —
Visto que os gentios Me querem ver, “chegou a hora de ser glorificado o Filho
do Homem”. E de fato Ele foi triplamente glorificado. Primeiro, na sua Paixão,
como se depreende de Hebr., V, 5: “Não foi o Cristo que se glorificou a si
mesmo, fazendo-se Sumo Sacerdote (a saber, na ara da Cruz), mas sim Aquele que
lhe dissera: — Tu és meu Filho, eu hoje Te gerei”. É segundo aquele indício que
Ele diz: “Chegou a hora de ser glorificado o Filho do Homem”, isto é, de sofrer
a Paixão. Antes da Paixão, com efeito, os gentios não se converteriam para Ele.
Ora, na sua Paixão Ele foi glorificado não só quanto a sinais visíveis, como no
escurecimento do sol, na cisão do véu do Templo, etc., como também quanto a
sinais invisíveis, como no triunfo que obteve publicamente sobre os príncipes
infernais, conforme Coloss., c. II. Mais acima (Jo. II, 4), Ele dissera: “Ainda
não chegou a minha hora” (n.t.: nas Bodas de Caná): é que ainda não estava
preparada, como agora, a fidelidade dos Gentes.
Em
seguida, Ele foi glorificado na Ressurreição e Ascensão. (...) Finalmente, foi
glorificado pela conversão das Gentes (...).
Assim
se exprime Sto. Tomás na sua “Expositio in Ev. B. Joannis”, c. XII, Lição IV.
Vemos aí, no cristal transparente do seu pensamento, o fundamento último da
“Glória Passionis”: a Paixão do Senhor é gloriosa porque é o exercício, a
consumação do seu Sacerdócio, “pelo qual estava reconciliando o mundo com
Deus”. Esta glória é dada pelo Pai e se manifesta em dois sinais patentes: um
para nós, os milagres cósmicos que acompanharam a morte de Cristo na cruz,
outro para o mundo dos espíritos, a derrota das Potências invisíveis que tinham
poder sobre o homem pecador e mortal; um e outro, objetos certíssimos da nossa
fé. A própria Paixão e a própria Morte, como Obra redentora do Cristo, é que
brilham e refulgem com glória divina e invisível.
Não
se trata somente da glória inamissível da alma humana de Cristo, pela sua união
hipostática ao Verbo, glória que só não refletia sobre o corpo por um milagre
constante[6] e que uma vez os Apóstolos Pedro, Tiago e
João puderam ver por um momento no Monte Tabor, quando o Senhor se transfigurou
diante deles[7]; não se trata também da glória essencial
que o Cristo possuía como Filho Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade[8] “pois o Filho não é senão um como
resplendor e glória do Pai”[9], mas aqui se trata da sua glória de Sumo
Sacerdote, no exercício da sua Liturgia[10], pela qual reintroduzia toda a humanidade
na amizade e paz de Deus.
É
a glória, grande mistério do “gloriosíssimo Vencedor do Diabo e debelador
potentíssimo das forças inimigas, resplandecente de beleza, carregando o troféu
do seu triunfo”[11]; glória que os judeus não podiam ver,
mas que toda a Igreja universal iria confessar dentro de pouco tempo. Glória
que a nossa Mãe Maria Santíssima contemplava ao pé da Cruz e que também foi
vista pelo Centurião e pelo Bom Ladrão; e por este, filho de Abraão, ainda
antes da realização dos milagres tremendos daquele dia, como para que se
verificasse mais uma vez que “os milagres são dados aos infiéis”[12], representados ali pelo chefe da corte,
que exclamou: — “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus!”[13]. Eis a glória sacerdotal do Cristo, que
celebramos cada vez que, reunidos na assembléia litúrgica, “anunciamos a sua
morte, até que Ele venha”.[14]
Mas
justamente por pertencer ao Cristo como Sacerdote, essa glória transborda d’Ele
para toda a humanidade: “É com efeito em participação dos seus sofrimentos que
estão, não só a gloriosa força dos mártires como também, pela própria
regeneração (batismo); a fé de todos os renascidos. Pois quando se renuncia ao
Demônio e se crê em Deus, quando se passa da velha à nova vida, quando se depõe
a imagem do homem terrestre e se recebe a forma do homem celeste, aparece
sempre um certo aspecto de morte e também uma certa semelhança da ressurreição;
de modo que, recebido pelo Cristo e ao Cristo recebendo, o homem não é o mesmo
antes e depois do batismo, mas o corpo do re-generado se faz carne do
crucificado”[15].
Assim
é que compreendemos a consagração do sofrimento e da morte cristã: assim como
em todos os tempos, só a fé em Cristo pode salvar, também em qualquer situação,
o sofrimento só tem valor e significação para a vida eterna se for sofrimento
de um membro de Cristo: neste caso será glória e motivo de glória. “Nos autem
gloriari oportet in cruce Domini nostri Jesu Christi”[16]. Nao se trata para nós de desprezar os
sofrimentos e só pensar na glória: isso seria uma dissociação diametralmente
oposto ao espírito cristão; muito menos de nos comprazermos nos sofrimentos
considerados isoladamente da sua significação: trata-se porém de afirmar “uma
glória do opróbio e uma força da fraqueza”[17], posição infinitamente difícil, já de
ser compreendida em abstrato, já de ser realizada em concreto.
Posição
impossível mesmo de ser assumida pelas nossas simples forças humanas de
inteligência e vontade, se não tivéssemos recebido no batismo, por obra do
Espírito Santo, a graça de imitar o Cristo. Graça que a cada dia podemos
renovar, “pois a participação do corpo e do sangue de Cristo não se realiza
outra coisa senão a nossa transformação naquilo mesmo que recebemos, e a
possessão em tudo, pelo espírito e pela carne, daquele no qual estamos
com-mortos, com-sepultos, com-ressuscitados.[18]
TRADUÇÃO DO
SERMÃO
Percorridos,
Diletíssimos, no sermão anterior, os fatos que precederam a prisão do Senhor,
resta-nos agora, com o auxílio da graça de Deus, dissertar, como prometemos,
sobre o próprio desenrolar da Paixão. Pois tendo o Senhor tornado bem claro,
pelas palavras da sua sagrada oração,[19] que existiam n’Ele de modo sumamente
verdadeiro e pleno as naturezas humana e divina, mostrando assim de onde Lhe
vinha o não querer sofrer e de onde o querer; tendo repelido de si o temor da
fraqueza e confirmado a grandeza da força, retomou o sentimento da sua eterna
disposição[20] e, pelo ministério dos judeus, lançou ao
feroz Diabo a forma do servo [21]que nada possuia de pecado, para que a
causa de todos fosse advogada por aquele único no qual existia, sem a culpa, a
natureza de todos. Atiraram-se pois sobre a luz verdadeira os filhos das trevas
e, embora usando tochas e lanternas, não escaparam à noite da sua infidelidade,
porque não reconheceram o Autor da luz. Apoderam-se d’Aquele que estava
preparado para ser preso e arrastam Aquele que queria ser arrastado e que, se
quisesse resistir, nada poderiam as ímpias mãos para injuria-lO: mas a redenção
do mundo seria retardada, e, sem sofrer, a ninguém salvaria Aquele que devia
morrer pela salvação de todos.
— II —
Deixando
portanto que Lhe fizessem tudo quanto ousavam, sob a instigação dos sacerdotes,
o furor popular, é conduzido a Anás, sogro de Caifás e em seguida, por ordem de
Anás, (é levado) a Caifás. E depois das loucas acusações dos caluniadores,
depois das imaginárias falsidades das testemunhas subordinadas, é transferido,
por delegação dos pontífices, ao julgamento de Pilatos. Aqueles, com desprezo
do direito divino, bradando que “não tinham como rei senão a Cesar”, (Jo. XIX,
15) como pessoas dedicadas às leis romanas, reservaram todo o julgamento ao
poder do Governador, antes ansiando pelo executor da violência que pelo
arbítrio da causa. Ofereciam Jesus amarrado por fortes laços, batido por
numerosos tapas e socos, coberto de escarros, já condenado previamente pelos clamores,
para que, no meio de tantos pre-julgamentos, Pilatos nao ousasse absolver
aquele que todos queriam condenar. O próprio processo mostra que nem ele
encontrou culpa no acusado, nem tinha firmeza na sua opinião. O juiz condena a
quem declara inocente, entregando o sangue do Justo ao povo iníquo; sangue do
qual, pela sua própria inteligência e pelo sonho de sua mulher,[22] sabia dever abster-se. O lavar das mãos
não purifica o espírito contaminado e nem é expiado com a aspersão dos dedos o
crime cometido com ímpia intenção servil. Excede á culpa de Pilatos o crime dos
judeus que, aterrorizando-o com o nome de Cesar e excitando-o com palavras
invejosas, provocaram-no à realização da sua maldade. Mas também não foge à
culpa aquele que, superado pelas desordens, abandonou o próprio julgamento e
participou no crime alheio.
— III —
Pilatos,
Diletíssimos, vencido pela loucura do povo implacável, permitiu que Jesus fosse
insultado por muitos ludíbrios e vexado por desmedidas injúrias; à consideração
dos perseguidores mostrou-O espancado de açoites, coroado de espinhos e
revestido com o manto de irrisória veste. Pensou que sem dúvida isso abrandaria
os ânimos dos inimigos; que, saturados os ódios invejosos, já não mais
julgassem dever ser perseguido Aquele que viam afligdo de tantas maneiras. Mas
acendendo-se a ira dos que clamavam que soltasse Barrabás por indulgência e que
Jesus sofresse a pena da Cruz; como se fosse dito em frêmito uníssono pelas
turbas: “Sobre nós o seu sangue e sobre os nossos filhos”,[23] obtiveram os inimigos para a sua própria
condenação aquilo que exigiam pertinazmente. “Os seus dentes”, como testemunhou
o Profeta, “eram armas e setas e a sua língua um gáudio acerrado”[24]. Inútil lhes era conter-se de crucificar
com as próprias mãos o Senhor de majestade: atiravam-lhe os dardos letais dos
gritos e as flechas envenenadas das palavras. A vós, a vós, ó pérfidos judeus,
ó sacrílegos Príncipes do povo, cabe todo o peso deste crime; e conquanto a
ferocidade do atentado envolva também o Governador e os soldados, todo o
conjunto do acontecimento vos acusa. E tudo aquilo que, no suplício do Cristo,
ou foi erro de julgamento de Pilatos, ou complacência da corte, mais ainda vos
torna merecedores do ódio do gênero humano, pois pela insistência do vosso
furor, nem foi permitido que ficassem inocentes aqueles que não se agradavam da
vossa iniqüidade.
— IV —
Como
a cegueira dos infiéis judeus assim negasse ser seu rei o Senhor de todas as
coisas, foi o Senhor Jesus entregue à vontade dos malfeitores e, para irrisão
da régia dignidade, foi-lhe ordenado ser o portador de sua Cruz (para que se
cumprisse o que previra o Profeta Isaías dizendo: “Eis que nasceu um menino e
nos foi dado um filho que tem o império sobre os ombros”[25]. Portanto, quando o Senhor carregava o
lenho da Cruz que converteria para Si em cetro de poder, diante dos olhos dos
ímpios era isso uma grande irrisão, mas aos Fiéis se manifestava um grande
mistério, pois o gloriosíssimo vencedor do Diabo e debelador potentíssimo das
forças inimigas, resplandecente de beleza,[26] carregava o troféu do seu triunfo; e
trazia sobre os ombros com paciência inalterável o estandarte da salvação para
a adoração de todos os reinos; como para fortalecer então, pela imagem da sua
própria ação, todos os seus imitadores, dizendo: “Quem não toma a sua Cruz e
segue-Me, não é digno de Mim”.[27]
— V —
Encaminhando-se
então as turbas com Jesus para o lugar da execução, apareceu Simão, um certo
Cireneu, ao qual foi transferido o lenho da Cruz do suplício, para que também
por um tal fato prefigurada a fé dos Gentios, para quem a Cruz de Cristo não
seria vergonha mas glória. Não foi coisa fortuita, mas figurada e mística que,
assanhando-se os judeus contra o Cristo, aparecesse um estrangeiro para
compadecer-se dele, segundo a palavra do Apóstolo: “Se com-padecemos, também
co-reinaremos”[28] para que ao opróbio sacratíssimo do
Salvador não fosse submetido algum hebreu ou israelita mas um estrangeiro. Com
efeito, por essa transferência também passava da circuncisão para o prepúcio,
dos filhos carnais para os espirituais a propriação do Cordeiro Imaculado e a
plenitude de todos os sacramentos. Pois se “o Cristo foi imolado”, como diz o
Apóstolo, “como nossa Páscoa”[29] que, oferecendo-Se ao Pai como novo e
verdadeiro Sacrifício de reconciliação, não foi crucificado no Templo, cuja
veneração estava acabada, nem dentro dos muros da cidade, que devia ser
destruída em castigo do seu crime, mas fora das portas e do acampamento[30], isso foi para que, tendo cessado o
mistério das antigas vítimas, uma nova hóstia fosse colocada sore um novo altar
e a Cruz do Cristo não fosse a ara do Templo, mas a do mundo inteiro.
— VI —
Considerando
o Cristo exaltado pela Cruz, não ocorra à nossa mente, Diletíssimos, só aquela
visão que esteve nos olhos dos ímpios, a quem foi dito por Moisés: “E tua vida
estará pendente ante teus olhos, e temerás dia e noite, e não crerás na tua vida”[31]. Vendo o Senhor crucificado, estes com
efeito em nada puderam pensar senão no seu próprio crime, pois não possuíam o
temor pelo qual a verdadeira fé se justifica, mas aquele pelo qual a
consciência iníqua é torturada. A nossa inteligência porém, que é iluminada
pelo Espírito da verdade, recebe com puro e livre coração a glória da Cruz que
resplandece no Céu e na terra. Com penetração profunda veja a realização
daquela palavras do Senhor, quando falou sobre o transe da sua Paixão: “Chegou
a hora de ser glorificado o Filho do Homem”; e em seguida: “Agora a minha alma
está pertubada, e que direi? Pai, livra-Me desta hora. Mas foi para isto que Eu
cheguei até esta hora. Pai, glorifica teu Filho”. E como viesse do céu a voz do
Pai, dizendo: “Já o glorifiquei, e ainda o glorificarei”, Jesus, dirigindo-se
aos circunstantes, disse:”Não por minha causa essa voz se fez ouvir, mas por
vossa causa. Agora é o julgamento do mundo, agora o Príncipe deste mundo será
expulso. E quando Eu for elevado da terra, tudo atrairei a Mim”.[32]
— VII —
Ó
admirável poder da Cruz! Ó inefável glória da Paixão! Nela o tribunal do
Senhor, o julgamento do mundo, o poder do Crucificado. De fato atraíste tudo a
Vós, Senhor, e tendo estendido os braços um dia inteiro para o povo infiél e
negador que não acreditava em Vós e Vos contradizia, o mundo inteiro recebeu o
senso para confessar a Vossa majestade[33]. Tudo atraíste a Vós, Senhor, quando, em
execração da ignomínia dos judeus, todos os elementos proferiram a mesma
sentença; quando, apagadas as luzes do céu e transformado o dia em noite,
agitando-se a terra com movimentos insólitos, toda criatura se recusou ao uso
dos ímpios. Tudo atraíste a Vós, Senhor, pois, tendo-se rasgado o véu do
Templo, os Santos dos Santos se retiraram dos indignos Pontífices, para que a
figura se transformasse na verdade, a profecia, na manifestação, e a Lei, no
Evangelho. Tudo atraíste a Vós, Senhor, para que aquilo que era celebrado num
único templo da Judéia sob simbolismos obscuros, fosse celebrado em toda parte,
pela devoção de todas as nações, num Sacramento pleno e sem véus. Agora, com
efeito, é mais gloriosa a ordem dos Levitas, mais ampla a dignidade dos
Anciãos, mais sagrada as bençãos, a causa de todas as graças; por ela é dada
aos crentes uma força tirada da fraqueza, uma glória do opróbio, uma vida da
morte. Também agora, tendo cessado toda espécie de sacrifícios carnais, a
oblação única do Vosso Corpo e Sangue substitui toda a verdade das vítimas:
pois Vós sois o verdadeiro “Cordeiro de Deus, Vós que tirais os pecados do
mundo”[34]. E assim em Vós perfazei todos os
mistérios, a fim de que, assim como um só é o sacrifício em lugar de toda
vítima, seja também feito com toda nação um só reino.
— VIII —
Confessemos
portanto, Diletíssimos, o que com gloriosa voz confessou o Apóstolo São Paulo,
bem-aventurado Mestre das Gentes, dizendo: “Fiel sentença e digna de toda aceitação
é que o Cristo Jesus veio a este mundo salvar os pecadores[35]. É mais maravilhosa aqui a misericórdia
de Deus para conosco, porque o Cristo não morreu pelos judeus nem pelos santos,
mas pelos iníquos e ímpios; e como a natureza divina não podia receber o
aguilhão da morte, nascendo de nós Ele assumiu aquilo que por nõs podia
oferecer (n.t.: uma natureza humana). Já de há muito, com efeito, o poder da
sua morte ameaçava a nossa morte, como Ele disse pelo Profeta Oséas: ‘Ó morte,
eu serei a tua morte; ó inferno, eu serei a tua perda!’. De fato Ele
submeteu-se às leis do inferno, morrendo, mas destruiu-as, ressurgindo; e assim
destruiu a perpetuidade da morte, fazendo-a de eterna, temporária. “Assim
pois, como todos morrem em Adão, também todos serão vivificados no Cristo”.
Faça-se portanto, Diletíssimos, o que diz o Apóstolo São Paulo: “Que os que
vivem já não vivam para si, mas para Aquele que morreu e ressuscitou por
todos”, e como as coisas antigas passaram e tudo se fez novo, ninguém
permanecerá na caducidade da vida carnal, mas todos, progredindo de dia para
dia, renovemo-nos pelo aumento de piedade. Pois por mais que alguém esteja
justificado, tem contudo, enquanto está nesta vida, por onde seja mais provado
e melhor. Pois quem não progride, regride; e quem nada adquire, não deixa de
perder alguma coisa. Compete-nos portanto correr pelos passos da Fé, pelas
obras de misericórdia, pelo amor da justiça, a fim de que, celebrando
espiritualmente o dia da nossa Redenção, “não com o fermento da antiga malícia
e perversidade, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade”, mereçamos ser
participantes da Ressurreição do Cristo, que com o Pai e o Espírito Santo vive
e reina pelos séculos dos séculos. Amém.
Revista
“A Ordem”, Abril de 1943.
[1] Migue Latino, vol. LIV.
[2] “Não choreis por quem morre para a redenção do mundo, por quem
vereis como Juiz, na majestade do Pai”. Sermão LXI. Cf. S. Theol. IIª Iias.
9.82, a. 4, ad 1, onde se vê que a Paixão é em primeiro lugar motivo de
alegria.
[3] A humildade é mérito para a glória; a glória, prêmio da
humildade. Sto. Agostinho, Tract. CIV in Ev. Jo.
[4] Cf. S. Theol. III, 49, 6.
[6] Cf. S. Theol., III, 45, 2 c.
[7] Mt. XVII, 1-13; Mc., IX, 2-10; Lc, IX, 28-36.
[9] S. Thomás Exp. In Jo. XII, lect. V.
[11] S. Leão, Serm. LVII.
[15] S. Leão, Serm. LXIII.
[17] S. Leão, Serm. LXII.
[18] S. Leão, Serm. LXIII.
[21] Cf. Fil., II, 7; Mat., XX, 28.
[22] Cf. Mat., XXVII, 18-19.
[26] “Jamais la perfection non seulement morale mais métaphysique de
la créature humaine ne fut et ne sera plus accomplie que lorsque le plus beau
des enfants des hommes a été immolé sur la croix”. J. Maritain, “S. Jean de la
Croix Practicien de la Contemplation”, in “Les Degrés du Savoir”, p. 663.
(Paris, 1934).
[30] Cf., Hebr., XIII, 11.
[32] Jo., XII, 23; 27-28; 30-32.
[33] Cf., Isa., LXV, 2; Roma., X, 21.
PAPA BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL
Sala Paulo VI
Quarta-feira, 5 de Março de 2008
São Leão
Magno
Queridos
irmãos e irmãs!
Prosseguindo
o nosso caminho entre os Padres da Igreja, verdadeiros astros que brilham de
longe, no nosso encontro de hoje falamos sobre a figura de um Papa, que em 1754
foi proclamado por Bento XIV Doutor da Igreja: trata-se de São Leão Magno. Como
indica o apelativo que depressa lhe fora atribuído pela tradição, ele foi
verdadeiramente um dos maiores Pontífices que honraram a Sede romana,
contribuindo muitíssimo para fortalecer a sua autoridade e prestígio. Primeiro
Bispo de Roma com o nome de Leão, adotado depois por outros doze Sumos
Pontífices, é também o primeiro Papa do qual chegou até nós a pregação, por ele
dirigida ao povo que o circundava durante as celebrações. É espontâneo pensar
nele também no contexto das atuais audiências gerais de quarta-feira, encontros
que nos últimos decênios se tornaram para o Bispo de Roma uma forma habitual de
encontro com os fiéis e com muitos peregrinos provenientes de tantas partes do
mundo.
Leão era
originário da Túscia. Tornou-se diácono da Igreja de Roma por volta do ano 430,
e com o tempo adquiriu nela uma posição de grande realce. Este papel de relevo
levou em 440 Gala Placídia, que naquele momento regia o Império do Ocidente, a
enviá-lo para a Gália a fim de resolver uma situação difícil. Mas no Verão
daquele ano o Papa Sisto III cujo nome está ligado aos magníficos mosaicos de
Santa Maria Maior faleceu, e na sucessão foi eleito precisamente Leão, que
recebeu a notícia quando estava a desempenhar a sua missão de paz na Gália.
Tendo regressado a Roma, o novo Papa foi consagrado a 29 de Setembro de 440.
Tinha assim início o seu pontificado, que durou mais de 21 anos, e que foi sem
dúvida um dos mais importantes na história da Igreja. Quando faleceu, a 10 de
Novembro de 461, o Papa foi sepultado junto do túmulo de São Pedro. As suas
relíquias estão conservadas ainda hoje num dos altares da Basílica Vaticana.
Os tempos
nos quais viveu o Papa Leão eram muito difíceis: o repetir-se das invasões
barbáricas, o progressivo enfraquecimento no Ocidente da autoridade imperial e
uma longa crise social tinham imposto que o Bispo de Roma como teria acontecido
com evidência ainda maior um século e meio mais tarde, durante o pontificado de
Gregório Magno assumisse um papel de relevo também nas vicissitudes civis e
políticas. Isto não deixou, obviamente, de aumentar a importância e o prestígio
da Sé romana. Permaneceu célebre sobretudo um episódio da vida de Leão. Ele
remonta a 452, quando o Papa em Mântua, juntamente com uma delegação romana,
encontrou Átila, chefe dos Unos, e o dissuadiu de prosseguir a guerra de
invasão com a qual já tinha devastado as regiões norte-orientais da Itália. E
assim salvou o resto da Península. Este importante acontecimento tornou-se
depressa memorável, e permanece como um sinal emblemático da ação de paz
desempenhada pelo Pontífice. Infelizmente não foi de igual modo positivo, três
anos mais tarde, o êxito de outra iniciativa papal, contudo sinal de uma
coragem que ainda nos faz admirar: de fato, na Primavera de 455 Leão não
conseguiu impedir que os Vândalos de Genserico, tendo chegado às portas de
Roma, invadissem a cidade indefesa, que foi saqueada durante duas semanas.
Contudo o gesto do Papa que, inerme e circundado pelo seu clero, foi ao
encontro do invasor para implorar que se detivesse impediu pelo menos que Roma
fosse incendiada e obteve que do terrível saque fossem poupadas as Basílicas de
São Pedro, de São Paulo e de São João, nas quais se refugiou uma parte da
população aterrorizada.
Conhecemos
bem a ação do Papa Leão, graças aos belíssimos sermões deles estão conservados
quase cem num latim maravilhoso e claro e graças às suas cartas, cerca de cento
e cinquenta. Nestes textos o Pontífice manifesta-se em toda a sua grandeza,
dirigido ao serviço da verdade na caridade, através de uma prática assídua da
palavra, que o mostra ao mesmo tempo teólogo e pastor. Leão Magno,
constantemente solícito pelos seus fiéis e pelo povo de Roma, mas também pela
comunhão entre as diversas Igrejas e pelas suas necessidades, foi defensor e
promotor incansável da primazia romana, propondo-se como herdeiro autêntico do
apóstolo Pedro: disto se mostram bem conscientes os numerosos Bispos, em grande
parte orientais, reunidos no Concílio de Calcedônia.
Tendo
sido realizado em 451, com os trezentos e cinquenta Bispos que nele
participaram, este Concílio foi a mais importante assembleia até então
celebrada na história da Igreja. Calcedónia representa a meta certa da
cristologia dos três Concílios ecuménicos precedentes: o de Niceia de 325, o de
Constantinopla de 381 e o de Éfeso de 431. Já no século VI estes quatro
Concílios, que resumem a fé da Igreja antiga, foram de fato comparados com os
quatro Evangelhos: é quanto afirma Gregório Magno numa famosa carta (I, 24), na
qual declara "acolher e venerar, como os quatro livros do Santo Evangelho,
os quatro Concílios", porque sobre eles explica ainda Gregório "como
sobre uma pedra quadrada se eleva a estrutura da santa fé". O Concílio de Calcedônia
ao recusar a heresia de Eutiques, que negava a verdadeira natureza humana do
Filho de Deus afirmou a união na sua única Pessoa, sem confusão e sem
separação, das duas naturezas humana e divina.
Esta fé
em Jesus Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem era confirmada pelo Papa num
importante texto doutrinal dirigido ao Bispo de Constantinopla, o chamado Tomo
a Flaviano, que, lido em Calcedônia, foi recebido pelos Bispos presentes
com uma eloquente aclamação, da qual é conservada notícia nas atas do Concílio:
"Pedro falou pela boca de Leão", prorromperam em uníssono os Padres
conciliares. Sobretudo desta intervenção, e de outras feitas durante a
controvérsia cristológica daqueles anos, sobressai com evidência como o Papa
sentia com particular urgência as responsabilidades do Sucessor de Pedro, cujo
papel é único na Igreja, porque "a um só apóstolo está confiado o que a
todos os apóstolos é comunicado", como afirma Leão num dos seus sermões
para a festa dos santos Pedro e Paulo (83, 2). E o Pontífice soube exercer
estas responsabilidades, no Ocidente e no Oriente, intervindo em diversas
circunstâncias com prudência, firmeza e lucidez através dos seus escritos e
mediante os seus legados. Mostrava deste modo como a prática da primazia romana
fosse necessária então, como também hoje, para servir eficazmente a comunhão,
característica da única Igreja de Cristo.
Consciente
do momento histórico no qual vivia e da transformação que se estava a verificar
num período de profunda crise da Roma pagã para a cristã Leão Magno soube estar
próximo do povo e dos fiéis com a ação pastoral e com a pregação. Incentivou a
caridade numa Roma provada pelas carestias, pela afluência dos prófugos, pelas
injustiças e pela pobreza. Contrastou as superstições pagãs e a ação dos grupos
maniqueus. Relacionou a liturgia com a vida quotidiana dos cristãos: por
exemplo, unindo a prática do jejum com a caridade e com a esmola sobretudo por
ocasião das Quatro têmporas, que marcam no decorrer do ano a mudança das
estações. Em particular Leão Magno ensinou aos seus fiéis e ainda hoje as suas
palavras são válidas para nós que a liturgia cristã não é a recordação de
acontecimentos do passado, mas a atualização de realidades invisíveis que agem
na vida de cada um. É quanto ele ressalta num sermão (64, 1-2) a propósito da
Páscoa, que deve ser celebrada em todos os tempos do ano "não tanto como
algo do passado, mas como um acontecimento do presente". Tudo isto se
insere num projeto determinado, insiste o santo Pontífice: de fato, como o
Criador animou com o seu sopro da vida racional o homem plasmado com o pó da
terra, depois do pecado original, enviou o seu Filho ao mundo para restituir ao
homem a dignidade perdida e destruir o domínio do diabo com a vida nova da
graça.
Eis o
mistério cristológico para o qual São Leão Magno, com a sua carta ao Concílio
de Éfeso, deu uma contribuição eficaz e essencial, confirmando para todos os
tempos através desse Concílio quanto disse São Pedro em Cesareia de Filipe. Com
Pedro e como Pedro confessou: "Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo". E
por isso Deus e Homem juntos, "não alheio ao gênero humano, mas contrário
ao pecado" (cf. Serm. 64). Em virtude desta fé cristológica ele foi
um grande portador de paz e de amor. Mostra-nos assim o caminho: na fé aprendemos
a caridade. Aprendemos portanto com São Leão Magno a crer em Cristo, verdadeiro
Deus e verdadeiro Homem, e a realizar esta fé todos os dias na acção pela paz e
no amor ao próximo.
Saudação
Saúdo os
peregrinos de língua portuguesa, nomeadamente o grupo vindo de Portugal, sobre
todos invocando o amor sábio e a sabedoria amiga do Papa São Leão Magno que,
estreitando ao coração de Cristo a multidão dos fiéis com os seus pastores,
lhes fez ouvir a voz de Deus falar na Cátedra de Pedro. Guiados por esta voz,
possam os vossos corações testemunhar junto dos familiares e conhecidos a
verdade na caridade. Basta dizer “sim” a Deus, como a Virgem Maria.
"Onde há vontade, há um Caminho"