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sexta-feira, 16 de março de 2018

EREMITAS: Monges Eremitas do Monte Tabor, de Sto. Antão e de S. Paulo de Tebas




No caminho Monástico Eremítico


Os Monges Eremitas do Monte Tabor, de Santo Antão e de São Paulo de Tebas, recebem o nome de «Monte Tabor», no qual segundo a tradição ocorreu a Transfiguração de Jesus. Com a leitura das linhas seguintes poderá conhecer um pouco melhor o caminho monástico destes monges eremitas.

Segundo o Evangelho segundo São Lucas (Lc 9,28-36), Jesus levando Consigo um pequeno grupo de entre os Seus discípulos, apenas:
«Pedro, João e Tiago subiu ao monte para orar. Enquanto orava o aspecto do seu rosto modificou-se, e as vestes tornaram-se-Lhe de uma brancura fulgurante.»

Jesus conduziu Pedro, João e Tiago ao deserto do monte para orar. Também o monge eremita homem de oração é chamado ao deserto. Chamado a permanecer nele como hóstia de louvor; a contemplar, como Maria (irmã de Marta) que se «sentara aos pés do Senhor e escutava a Sua palavra» (Lc 10,39-42); a subir o monte da «intimidade divina»; a reproduzir com fidelidade a imagem de Deus.
A vocação dos monges eremitas não é «alheamento», assim nos recorda um monge do deserto (Evágrio Pontico, séc. IV): «É monge aquele que está separado de todos para estar unido a todos».

«E dois homens conversavam com Ele: Moisés e Elias, os quais, aparecendo rodeados de glória, falavam da Sua morte, que ia dar-se em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. Quando eles iam a separar-se de Jesus, Pedro disse-Lhe: «Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para Ti, uma para Moisés e outra para Elias». Não sabia o que estava a dizer. Enquanto dizia isto, surgiu uma nuvem que os cobriu e, quando entraram na nuvem, ficaram atemorizados. E da nuvem veio uma voz que disse: «Este é o Meu Filho predilecto, escutai-O».»

A escuta e a meditação da Palavra de Deus no Antigo e Novo Testamento, aqui representados neste trecho do Evangelho em Jesus, Moisés e Elias, de modo particular no exercício da «Lectio divina», como a Santíssima Virgem Maria, que «conservava todas as coisas, ponderando-as no seu coração» (Lc 2,19), é no dia-a-dia do monge eremita um dos atos importantes para que se vá transformando cada dia mais naquele que é «a imagem visível do Deus invisível» (Cl 1,15). As palavras «tendas» e «nuvem» (que na linguagem bíblica simboliza a glória de Deus ou a sua presença no tabernáculo) as quais lembram o êxodo do povo israelita do Egito para a Terra Prometida, recorda aos monges eremitas a sua condição de peregrinos na terra. O despertar de Pedro e dos companheiros que «estavam a cair de sono» recorda-nos o dever de estar vigilante, de caminhar cada dia com sobriedade e discrição, com o olhar fixo em Cristo.

«E, quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou só. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, nada contaram a ninguém do que tinham visto.»
O monge eremita, pregando não por palavras mas pelo seu testemunho de vida escondida com Cristo em Deus, deve no dia-a-dia, com zelo, guardar o silêncio; não um silêncio qualquer, mas sim um «silêncio monástico», necessário para crescer na união com Deus. Para o monge eremita o silêncio não é uma 'pausa' semelhante à que ocorre, quando depois de muita actividade se realiza um breve retiro espiritual; é sim o meio necessário onde se desenvolve e floresce a vocação à vida monástica eremítica.

Segundo o evangelista São Lucas (Lc 9,37), Jesus e os discípulos que levara Consigo «No dia seguinte, ao descerem do monte, veio-lhes ao encontro uma grande multidão.». É próprio do monge eremita orar pelas pessoas que o procuram em busca das suas orações; do mesmo modo também o faziam os nossos Santos Padres e Madres do Deserto. Na consagração a Deus na vida monástica puramente contemplativa, a qual é também doação aos homens e mulheres nossos irmãos, o monge eremita, correspondendo com fidelidade ao amor de Deus faz da sua vida uma entrega absoluta ao dinamismo interior da caridade; ora e intercede pelas necessidades da Igreja e de toda a Humanidade; e junto com o seu testemunho de vida escondida com Cristo em Deus colabora na renovação e transformação da realidade concreta do mundo. Na realidade foi principalmente com a imolação de Si mesmo e com a oração fervorosa ao Pai que Nosso Senhor Jesus Cristo remiu a humanidade, escrava do brilho falso existente no pecado e oprimida por ele. Por isso, conforme as palavras de S.S. Papa João XXIII (Causa praeclara): «todo aquele que pretender imitar este aspecto especificamente interior da missão salvífica de Cristo exerce um autêntico apostolado, embora não realize qualquer actividade apostólica exterior ».

No monte da Transfiguração, Jesus Cristo que é a Luz Verdadeira (Jo 1,9), fortalece a fé dos discípulos que levara Consigo. Antes de prosseguir até Jerusalém onde consumará a Sua obra redentora Jesus prepara-os deste modo para o momento da noite, quando morrer na cruz. Neste trecho do Evangelho mostra-se ao monge eremita de modo claro que a sua jornada na terra é um «caminhar na fé», e também um «procurar subir» cada vez mais, com a ajuda de Deus, o monte da «pureza interior e união com Deus». Conforme nos diz São João Clímaco (Escada, D. 27): «a fé é a asa da oração». Uma fé viva estimula a esperança. Num outro capítulo (Escada, D. 30) São João Clímaco diz-nos: «A caridade, a impassibilidade e a adopção filial somente se distinguem pelo nome. Como a luz, o fogo e a chama concorrem a um único efeito, ocorre o mesmo com essas três realidades».

Progredindo em união com Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, cada monge ermita é chamado a procurar em todas as acções do dia-a-dia, a maior glória de Deus, colaborando tanto quanto for possível na obra redentora de Jesus Cristo, obra cuja morte na cruz em Jerusalém foi predita por Moisés e Elias a Pedro, João e Tiago no monte da Transfiguração.

Os monges eremitas recebem também o nome «de Santo Antão e de São Paulo de Tebas». Na concretização prática do género de vida monástica, os monges eremitas recebem os modelos, os ensinamentos e a herança espiritual da tradição monástica primitiva, designadamente dos «Padres e Madres do Deserto»; de entre eles, Santo Antão e São Paulo de Tebas são nossos patronos principais.


«A hesiquia é um culto e uma constante presença ante Deus» – São João Clímaco



"Onde há vontade, há um Caminho"

“Jamais te esqueças de guardar as memórias do Senhor!: Os momentos que o Senhor te deu para teu progresso no caminho espiritual. Elas serão tua guia enquanto habitares o velho barro! Pois; ‘Quem nos poderá retirar a graça que nos foi dada por Deus’, para nosso crescimento e de nossos irmãos e irmãs se elas estão sempre a nossa frente?”




 LECTIO DIVINA

1. Riquezas Esquecidas
Anos atrás um abastado cavalheiro inglês adoeceu e morreu. Ao chegar o dia da leitura de seu testamento e da partilha da fortuna que deixara, sua filha predileta teve amarga decepção. Dizia o pai, no testamento, que ela devia receber "Minha Bíblia e tudo que ela contém." Embora soubesse que o pai fora devotado estudioso da Bíblia, e que esse Livro era sempre por ele tido como um tesouro, escondeu-o ela no fundo de um velho baú e continuou a viver como dantes.

Após algum tempo, a adversidade começou a seguir-lhe os passos. A saúde precária e outras dificuldades reduziram-na à pobreza. Alquebrada física e espiritualmente, procurou, desesperada, uma solução aos seus problemas. Depois de tentar todos os meios ao seu alcance, resolveu recorrer à Bíblia de seu pai, para ver se ela a ajudaria a vencer as dificuldades. Imaginai sua surpresa ao folhear aquele Livro esquecido e descobrir, entre muitas de suas páginas, vultuosos cheques de banco! Era rica havia muito, e não se apercebera de sua boa fortuna por não ter entendido as palavras do pai, ao legar-lhe "Minha Bíblia e tudo que ela contém."

Deixou-nos nosso Pai celestial um grande tesouro nas páginas deste Livro maravilhoso. Talvez não encontreis notas de banco entre as páginas da Biblia, mas podeis encontrar paz, alegria, esperanca, fé e vida eterna ao lerdes o seu conteúdo. Tesouros inapreciáveis! Riquesas esquecidas! Que tesouro maior poderia o homem desejar! Muito milionário trocaria sua fortuna por esses valores.

Triste é dizer, milhões de pessoas se acabrunharam e amargam a vida porque não aprenderam como encontrar no "bom Livro antigo" a solução de suas dificuldades. Demasiada TV, ocupações demasiadas e demasiados problemas para resolver, têm roubado à humanidade o tempo necessário para deixar que Deus lhes fale ao coração e à mente por meio de Sua Palavra.

Unamo-nos na busca da verdade e dos tesouros escondidos, ao tratarmos de descobrir o que a Bíblia nos diz a seu próprio respeito.

QUESTÕES
1. Qual disse Jesus, é a fonte da verdade? S. João 17:17

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2. De que maneira comunicava Deus aos profetas a Sua palavra de verdade, as Escrituras? II S. Pedro 1:20 e 21

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3. Que parte das Escrituras é inspirada por Deus? II Timóteo 3:16

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4. Que partes da Escrituras usou Cristo para provar a verdade? S. Lucas 24:44

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5. De quem dão testemunho todas as Escrituras? S. João 5:39 

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6. Por que foram registradas as experiências dos personagens bíblicos? I Coríntios 10:11

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7. Que podemos ter, mediante o estudo das Escrituras? Romanos 15:4

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8. Como um auxílio no caminho da vida, a que compara Pedro a palavra profética? II S. Pedro 1:19

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9. Por que disse S. Paulo que os bereanos eram mais nobres do que os de tessalônica? Atos 17:11

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10. Desde quando estudou Timóteo as Escrituras? II Timóteo 3:15

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11. Que, disse S. Paulo, devemos fazer com a Bíblia? II Timóteo 2:15

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12. Como devemos estudar a Bíblia? Isaias 28:10

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NOTA: Para compreender qualquer assunto apresentado na Bíblia, temos de considerar tudo que é ensinado nas diferentes partes das Escrituras. Essas passagens têm de ser reunidas, como se reúnem, por exemplo, as partes de um quebra-cabeça, para ver o quadro completo, em sua beleza.

13. Com que propósito devemos estudar a Palavra de Deus? II Timóteo 3:16 e 17

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14. De que maneira nos ajudará a Palavra de Deus a andar nos Seus caminhos? Salmos 119:105

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Ao cabo de quarenta dias, quando Cristo estava fisicamente débil e com fome, aproximou-se-Lhe o diabo e O tentou a pecar. Apresentou ao nosso Senhor três tentações. Tentou-O a transformar em pão as pedras. Tentou-O a adorá-lo, a ele que era Satanás, com a falsa promessa de que poderia ter o domínio do mundo sem por ele morrer. Afinal, tentou-O a lançar-Se do pináculo do templo. Cristo saiu vitorioso de cada tentação. Fez frente a cada tentação com um texto bíblico. Três vezes Cristo resistiu à tentação de Satanás com a declaração: "Está escrito." Jesus conhecia as Escrituras e delas Se servia para resistir às argúcias do tentador.

Jesus nos advertiu de que o diabo procuraria enganar até mesmo os eleitos. Unicamente revestindo-nos "de toda a armadura de Deus" seremos aptos a resistir aos magistrais enganos do maior enganador.

Está o leitor familiarizado com o que a Bíblia ensina? Dedica todos os dias algum tempo a ler a carta de amor de Deus a Seus filhos terrestres? Sabe o que Deus deseja que faça e creia, a fim de poder um dia ser um cidadão daquela Terra melhor? Se se sente descontente com o conhecimento que tem adquirido no passado acerca de Deus e Sua verdade, como é ensinada na Palavra, estas lições lhe oferecerão uma oportunidade para aprender o que é a verdade. Cada uma das lições se baseará na Bíblia. Por que não por de parte um pouco de tempo cada semana, para aprender o que precisa saber para poder entrar no reino dos Céus?

As duas perguntas seguintes exprimem duas de nossas grandes necessidades. Não desejaria o leitor torna-las uma expressão de seu proprio desejo sincero?

(se deseja responder a estas perguntas, pedimos que o indique marcando o respectivo quadradinho.)

É meu desejo conhecer o plano de Deus para minha vida.

Dedicarei cada semana um pouco de tempo ao estudo do Livro de Deus.
 
"Onde há vontade, há um Caminho"

quinta-feira, 15 de março de 2018

Ser real com Deus

Muito mais importante do que ser emocional
Quando nos encontramos lutando com a oração, e sentimos que ele se tornou seco e sem vida, nós às vezes somos tentados a parar de rezar. Quando a nossa oração se tornou uma luta, é bom lembrar que Deus sabe as nossas necessidades, e até sabe o que queremos dizer quando não parece saber. Esta é a altura que temos de rezar sem nos preocupar com isso. Quando achamos que não podemos manter nossas mentes focadas nas orações formais da manhã e da noite, como encontrado no nosso livro de oração, é perfeitamente aceitável simplesmente iluminar nosso lampada (lâmpada de óleo pendurado), sentar tranquilamente diante dos nossos ícones, e deixar o silêncio ser A nossa voz.

Deus quer entrar no nosso coração, e requer apenas a nossa permissão e cooperação. Esta relação não requer uma resposta emocional, pois, como todas as relações, nem sempre estamos abertos a uma resposta emocional. Ser real com Deus é muito mais importante do que ser emocional, uma vez que as emoções podem ser artificial e carnal. Como em todas as relações, há momentos em que nos sentimos movidos pelas emoções, mas a falta de tais sentimentos de forma alguma representa uma falta de amor para Deus, porque Deus cuida de nós, e Deus sabe que nós o amamos, mesmo quando o sofrimento Esses tempos secos.

Com amor em Cristo,
Abade tryphon

 

"Onde há vontade, há um Caminho"

quarta-feira, 14 de março de 2018

Sobre Prelest ou Engano Espiritual diálogo de São Inácio Brianchaninov e um monge no deserto




Sobre Prelest


Sua mente foi enganada: provou o fruto proibido por Deus. A fruta parecia bela com um olhar curioso e descuidado; a fruta parecia ser bela pela ignorância, inexperiência, inocência; o conselho malicioso e astuto persuadiu-a a comer; alimentar-se do fruto atingiu aquele que comeu com a morte. A amargura do veneno da comida ainda espuma em sua boca; o seu interior é atormentado pela ação do veneno. A confusão, a perplexidade, a obscuridade, a incredulidade abrangem a sua alma. Esgotado, frustrado pelo pecado, você olha para trás, antes sendo conduzido ao reino de Deus ... (Luke VI, 62. Lam. 1.)

Discípulo. Dê um conceito preciso e detalhado sobre engano espiritual [prelest, delírio, ilusão, delusão espiritual, decepção espiritual - todas essas palavras em português são sinônimas]. O que exatamente é essa condição?

Ancião: Engano espiritual é a lesão da natureza humana pela mentira. O engano espiritual é o estado de todos os homens sem exceção, e foi possível graças à queda de nossos pais originais. Todos nós estamos sujeitos ao engano espiritual. A consciência desse fato é a maior proteção contra ele. Da mesma forma, o maior engano espiritual de todos é considerar-se livre disso. Todos somos enganados, todos iludidos; todos nos encontramos numa condição de mentira; todos nós precisamos ser liberados pela Verdade. A verdade é o nosso Senhor Jesus Cristo (Jo 8: 32-14: 6). Assimilemos essa Verdade pela fé nela; deixe-nos clamar em oração por esta Verdade, e isso nos tirará do abismo da decepção demoníaca e auto-engano. Cruel é o nosso estado! Essa é a prisão da qual suplicamos que nossas almas sejam libertas para que possamos confessar o nome do Senhor (Salmo 141: 8). Essa é a terra sombria em que nossa vida foi lançada pelo inimigo que nos odeia e nos persegue. Essa é a mente-carnal (Romanos 8: 6) e a falsamente chamada ciência (I Tim. 6:20) com o qual o mundo inteiro está infectado, recusando-se a reconhecer sua doença, insistindo, antes, na floração da saúde. É essa "carne e sangue" que "não pode herdar o Reino de Deus" (I Cor. 15:50). É a morte eterna que é curada e destruída pelo Senhor Jesus, que é "a Ressurreição e Vida" (Jo 11:25). Tal é o nosso estado. E o reconhecimento dele é uma nova razão para lamentar. Com lágrimas, clamamos ao Senhor Jesus para nos tirar desta prisão, para nos tirar das profundezas da terra e para nos arrancar da boca da morte! "Por causa disto, nosso Senhor Jesus Cristo desceu até nós", diz o venerável Simeão, o Novo Teólogo, "porque Ele queria nos resgatar do cativeiro e do pior engano espiritual".

Discípulo: Eu não compreendo suficientemente a sua explicação. Eu preciso de uma explicação mais simples, mais de acordo com o meu entendimento.

Ancião: O meio pelo qual o anjo caído trouxe a ruína à raça humana através da mentira (Gênesis 3:13). Por esta razão, o Senhor chamou o diabo "mentiroso, e o pai da [mentira]... assassino desde o início" (Jo 8:44). Vemos que o Senhor associou intimamente a noção de mentira com a noção de assassinato; pois o último é a conseqüência inevitável da primeira. As palavras "desde o início" indicam que, desde o início, o diabo usou a mentira como uma arma para o assassinato dos homens, para a ruína dos homens.

O princípio do mal está no pensamento falso. A fonte do auto-engano e da decepção demoníaca é o pensamento falso. Por meio da mentira, o diabo infectou a humanidade em sua própria raiz, nossos primeiros pais, com a morte eterna. Pois os nossos primeiros pais foram enganados, ou seja, eles reconheceram a mentira como a verdade, e tendo aceitado a mentira sob a aparência da verdade, eles se feriram incuravelmente com o pecado mortal, como atesta a nossa antepassada Eva, quando disse: "A serpente me enganou e eu comi."(Gn 3:13). Desde então, nossa natureza, infectada com o veneno do mal, voluntariamente ou involuntariamente, inclinou-se para o mal que, para nossa vontade pervertida, razão distorcida e coração corrupto, apresenta-se como bom. Digo voluntariamente porque ainda existe dentro de nós um remanescente da liberdade de escolher entre o bem e o mal. E eu digo involuntariamente porque esse remanescente de liberdade não funciona como uma  liberdade completa, mas sim sob a inevitável influência da ferida do pecado. Tal é o caso de todo ser humano e não poderia ser de outra forma; e por esta razão, todos nós, sem exceção, nos encontramos em um estado de auto-engano e decepção demoníaca. A partir dessa visão do estado do homem em relação ao bem e ao mal, estado que é necessariamente característico de cada ser humano, chegamos à seguinte definição de decepção espiritual que a explica de forma satisfatória: o engano espiritual é a assimilação pelo homem de uma mentira que ele aceita como verdade. O engano espiritual primeiro age segundo o modo de pensar; ao ser aceito e ter pervertido os processos de pensamento, é imediatamente comunicado ao coração cuja sensibilidade distorce; tendo dominado a essência do ser do homem, infiltra em cada uma de suas atividades e envenena o próprio corpo que o Criador uniu indissoluvelmente à alma. O estado de decepção espiritual é o estado de perdição ou morte eterna.

Desde o momento da queda do homem, o diabo tem acesso livre a ele. O diabo tem direito a este acesso, pois, por meio da obediência a ele, o homem voluntariamente se submeteu à sua autoridade e rejeitou a obediência a Deus. No entanto, Deus redimiu o homem. Para o homem redimido, Ele deu a liberdade de se submeter a Deus ou ao diabo; e para que esta liberdade pudesse manifestar-se sem qualquer compulsão, o diabo tem permissão de acesso ao homem. É bastante natural que o diabo faça todos os esforços para manter o homem em sua antiga sujeição, ou ainda para escravizá-lo ainda mais, de forma completa. Para conseguir isso, ele implementa sua arma primordial e costumeira - a mentira. Ele se esforça para nos iludir e nos enganar, contando com nosso estado de auto-engano. Ele estimula nossas paixões, nossas inclinações doentes. Ele investe suas demandas perniciosas com uma aparência atraente e se esforça para nos atrair para satisfazer elas. No entanto, aquele que é fiel à Palavra de Deus não se permitirá fazer isso; ele irá conter as paixões e, assim, repelir os assaltos do inimigo (ver Jas 4: 7); lutando contra seu próprio engano sob a orientação do Evangelho, subjugando suas paixões e, gradualmente, destruindo a influência dos espíritos caídos sobre si mesmo, ele passará, por etapas, do estado de decepção ao reino da verdade e da liberdade (ver Jn 8:32), cuja plenitude será dada através do ofuscamento da graça divina. Aquele que não é fiel ao ensinamento de Cristo, que segue sua própria vontade e conhecimento, se submeterá ao inimigo e passará de um estado de auto-engano para um engano demoníaco, perderá o que resta de sua liberdade e por fim se tornará totalmente escravizado para o diabo. O estado daqueles que são demoníacamente iludidos varia, dependendo da paixão pela qual o indivíduo particular é enganado e escravizado, e correspondendo ao grau em que ele é escravizado por essa paixão. E todos aqueles que caíram em ilusão demoníaca, ou seja, aqueles que, através do desenvolvimento de seu auto-engano, entraram em comunhão com o diabo e foram escravizados por ele, são templos e instrumentos dos demônios, vítimas da morte eterna, da vida nas masmorras do inferno.
Discípulo: Enumere para mim os tipos de engano demoníaco que resultam do exercício impróprio da oração.

Ancião: Todas as formas de engano demoníaco que o atleta de oração é sujeito surgem do fato de que o arrependimento não foi estabelecido como o fundamento da oração, que o arrependimento não foi feito a fonte, a alma, o objetivo da oração. São Gregório Sinaita diz: "Se alguém quiser alcançar estados de oração exaltados com autoconfiança baseada numa concepção do mérito de si mesmo, e não adquiriu o verdadeiro zelo, mas aquele do diabo, o diabo facilmente o enredará em suas armadilhas como seu escravo." Todo aquele que se apressa para o banquete de bodas do Filho de Deus, não com as vestes limpas e radiantes forjadas pelo arrependimento, mas sim com os velhos trapos de pecaminosidade e auto-engano, serão lançados na escuridão exterior, em enganos demoníacos. "Aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas. Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te." (Apocalipse 3:18,19). Arrependimento e tudo o que o compreende, tal como: contrição ou labuta de espírito, lamentação do coração, lágrimas, auto-reprovação, lembrança e pressentimento da morte, o julgamento de Deus e os tormentos eternos, a consciência da presença de Deus, o temor de Deus - são todos dons de Deus, dons de grande valor, dons básicos e representam a nossa garantia de dons mais elevados e eternos. O último você nunca pode receber a menos que você tenha recebido o primeiro. "Por mais grande que seja a vida que possamos levar", diz São João da Escada, "podemos considerá-la como pútrida e espúria, se não adquirimos um coração contrito" (Escada da Divina Ascensão, VII, 64). O arrependimento, a contrição de espírito e a lamentação são sinais que atestam a correção do feito de nossa oração. A ausência, por outro lado, é um sinal de inclinação para a falsa direção, auto-engano, decepção e esterilidade. Um ou outro, engano ou esterilidade, é a conseqüência inevitável do exercício incorreto da oração, e o exercício incorreto da oração está inextricavelmente ligado ao auto-engano.

O método de oração mais perigoso e mais incorreto é quando aquele que está orando fabrica, pela força de sua imaginação, sonhos ou imagens, emprestando-as ostensivamente das Sagradas Escrituras, mas, na realidade, de sua própria pecaminosidade e auto-engano. Por meio dessas imagens, ele se atrai para a auto-estima, vaidade, presunção e orgulho. É evidente que tudo o que é fabricado pela imaginação de nossa natureza caída e pervertida pela queda da natureza não existe na realidade. Não é senão a fantasia e mentira tão características e amadas de Satanás, o anjo caído. Com o primeiro passo que ele toma no caminho da oração, o sonhador se afasta do reino da verdade e entra no reino da mentira, o reino de Satanás e se submete voluntariamente à influência de Satanás. São Simeão, o Novo Teólogo, descreve a oração do sonhador e seus frutos assim: "Ele levanta os braços, os olhos e a mente para o céu; e ele fantasia em sua mente encontros divinos, bênçãos celestiais, as fileiras dos santos anjos, as moradias dos santos..." em suma, tudo o que ele ouviu nas Escrituras Divinas, ele reúne em sua imaginação. Ele contempla tudo isso durante suas orações e olha para o céu, e estimula sua alma para o desejo e o amor divino, e às vezes ele até derrama lágrimas e chora. Seu coração, portanto, cresce gradualmente mais audaz, sem que ele mesmo esteja consciente disso. Não só isso, mas ele também assume que o que está acontecendo com ele é fruto da graça divina, conferida a ele pelo Senhor para a sua consolação, e ele pede ao Senhor que lhe garanta que possa permanecer em tal atividade espiritual. Isso é um sinal de engano. Esse tipo de pessoa não pode deixar de estar sujeito ao delírio e à insanidade, apesar de observar a perfeita oração de reclusão. E mesmo que ele consiga evitar tal desastre espiritual, ele nunca mais adquire uma mente espiritual, virtude ou estado livre das paixões. Desta forma, aqueles que viram a luz e o brilho com seus olhos físicos, que saboreiam fragrâncias doces com o seu olfato, e ouviram vozes com os ouvidos, foram enganados. Alguns deles se tornaram possuídos por espíritos malignos e vagaram, perturbados, de um lugar para outro; outros aceitaram um demônio que se transformou em um anjo de luz e foi enganado e permaneceu sem corrigir até o fim de suas vidas, recusando o conselho de alguns dos irmãos; ainda outros, instruídos pelo diabo, suicidaram-se; Alguns se lançaram em abismos, outros se enforcaram. Quem pode enumerar os múltiplos enganos do diabo que ele usa para enganar e que são inescrutáveis? Qualquer homem qualificado pode aprender com o que dissemos quanto ao dano decorrente desse tipo de oração. Tais infortúnios ocorrem principalmente com eremitas que levam uma vida solitária, mas é possível que alguns dos que orem incorretamente não caiam em uma das calamidades descritas acima porque vivem em comunidade com os irmãos; todavia, essa pessoa gasta sua vida inteira em vão.

Todos os santos Padres que descreveram a luta da oração mental proibiram não apenas os devaneios arbitrários, mas também o consentimento de nossa vontade e simpatia com os sonhos e as aparições que podem apresentar-se de forma inesperada independentemente da nossa vontade. Isso acontece durante o exercício da oração, particularmente no meio da quietude. "Aceite sob nenhuma circunstância", diz São Gregório do Sinai, "se você perceber qualquer coisa, seja por seus olhos físicos ou sua mente, seja fora ou dentro de si mesmo, mesmo que esse seja o rosto de Cristo, de um anjo ou de algum santo, ou qualquer luz que apareça para você. Seja cuidadoso e cauteloso! Não se permita consentir, não expresse simpatia ou consentimento, não se apresse em confiar em uma aparição, mesmo que se revele genuína e boa. É melhor permanecer frio e distante em direção a ela, constantemente preservando a sua mente sem imagens, livre de quaisquer representações e sem marcas. Aquele que percebe algo em pensamento ou com os sentidos, mesmo que provenha de Deus, e que se apressa em aceitar a aparição, facilmente entra em decepção e, em última instância, revela sua inclinação e capacidade para tal, pois ele aceita as aparências prontamente e sem discriminação. O iniciante deve dirigir toda a sua atenção para a atividade do coração apenas e considerar apenas isso como não-delusivo. Ele não deve realizar nada mais até que tenha alcançado a despaixão [dispassion, apathea]. Deus não se irrita com aquele que, com medo do engano, se protege com extrema cautela e, portanto, não aceita alguma visão enviada por Deus, sem considerar o que foi enviado com todo cuidado. Pelo contrário, tal pessoa será louvada por Deus por seu pensamento claro." Como exemplo, podemos examinar a vida de São Anfilochio. Ele entrou no monaquismo na sua juventude, e em seus anos maduros e já idoso, ele foi considerado digno de levar a vida de eremita no deserto. Confinando-se numa caverna, ele treinou-se em quietude e foi bem sucedido. Depois de quarenta anos de vida solitária, um anjo apareceu a ele uma noite e disse: "Anfilochio! Vá para a cidade e pastoreie a ovelha espiritual!" Anfilochio, no entanto, permaneceu imperturbável e não prestou atenção ao comando do anjo. Na noite seguinte, o anjo novamente apareceu e repetiu seu comando, acrescentando que foi enviado por Deus. E, mais uma vez, Anfilochio não se submeteu ao anjo, temendo que ele fosse enganado e consciente das palavras do Apóstolo, que Satanás pode aparecer até mesmo como um anjo de luz (II Coríntios 11:14). Mas o anjo voltou mais uma vez na terceira noite, glorificando a Deus para assim convencer Anfilochio, pois, como é geralmente sabido, os espíritos rejeitados não podem suportar isso. Então o anjo pegou o velho pela mão, levou-o para fora da cela e conduziu-o para a igreja próxima. As portas da igreja se abriram. A igreja estava iluminada com uma luz celestial e uma multidão de homens santos com vestes brancos eram visíveis, com os rostos brilhando como o sol. Eles consagraram Anfilochio como bispo da cidade de Iconium. Em contraste com este, o venerável Isaac e Nicetas das Cavernas da Lavra de Kiev, ainda novos e inexperientes na vida solitária, ingenuamente acreditaram numa visão que lhes apareceu e, portanto, caíram no mais terrível infortúnio. Para o primeiro, uma multidão de demônios lhe apareceu em luz; um deles assumiu o disfarce de Cristo e o restante dos santos anjos. O último foi primeiro enganado por um demônio por meio de uma doce fragrância e voz, mais tarde aparecendo abertamente sob disfarce de um anjo. Os monges que são experientes na vida monástica, monges verdadeiramente santos, temem muito mais o engano, mostram uma desconfiança muito maior do que os iniciantes que são apanhados com fervoroso zelo pela luta ascética. O venerável Gregório do Sinai, o Hesicasta, com amor sincero, nos adverte a nos proteger contra o engano. "Eu desejo", escreve o santo em um livro escrito principalmente para aqueles que oram solitariamente, "que você tenha uma compreensão claramente definida da ilusão. Eu desejo isso com o objetivo em mente que você possa se preservar da delusão, que, em uma luta que não tenha sido iluminada pelo conhecimento necessário, você não inflija grandes danos sobre você e destrua sua alma. Pois o livre arbítrio do homem se inclina facilmente para a amizade com nossos adversários, particularmente a vontade daqueles que são inexperientes e novos na luta, pois ainda estão no poder dos demônios." Que verdade! Nosso livre arbítrio inclina-se para o engano, porque cada delusão bajula nossa auto-estima, nossa vaidade, nosso orgulho. "Os demônios estão perto e cercam os iniciantes e os arbitrários, espalhando em seu caminho as armadilhas de pensamentos malignos e fantasias perniciosas, cavando abismos para que caiam. A cidade dos noviços," ou seja, o ser inteiro de cada um deles individualmente, "ainda está sob a soberania dos bárbaros... Portanto, não se apresente em entregar-se àquilo que aparece para você, mas permaneça sério, conservando-se para o que é bom com muita cautela e rejeitando o que é mau... Saiba também que os efeitos da graça são sempre claros; o demônio é incapaz de produzi-los: ele não pode dar mansidão, gentileza ou humildade ou ódio ao mundo, e ele não impede as paixões de voluptuosidade, como a graça faz. Estes são os efeitos do diabo: presunção, altivez, medo - em uma palavra, todas as formas de malícia. Portanto, pela atividade, você poderá discernir a luz que resplandece em sua alma, seja de Deus ou de Satanás." Devemos saber, é claro, que tal vigilância é propriedade de monges avançados, nunca de iniciantes. O venerável Gregório do Sinai, é verdade, está conversando com um iniciante, mas, como é evidente no livro, um iniciante na vida de quietude orante que era, de acordo com os anos que passou no monaquismo e sua idade, já um ancião.

As Obras do Bispo Inácio (Brianchaninov), Vol. I (Experiências Ascéticas), pp. 129-135.
 
"Onde há vontade, há um Caminho"