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domingo, 11 de março de 2018

Quem são os Padres do Deserto e como viveram e alguns ainda vivem – significados para aprofundamento





"O justo florescerá como palmeira; crescerá como cedro no Líbano" Sl 92:12

O Cedro do Líbano
Crescimento Lento Mas Consistente.
Sabemos acerca do Cedro do Líbano que ele cresce devagar, mas chega a atingir a altura de até 40 metros. Nos primeiros três anos de vida, as raízes crescem até um metro e meio de profundidade, enquanto a planta tem somente cerca de cinco centímetros. Somente a partir do quarto ano é que a árvore começa a crescer. O Cristão é como o cedro do Líbano, e portanto, tem a promessa de crescer. Ainda que o seu crescimento seja lento conforme a experiência do cedro, ele acontecerá e se tornará visível a todos

Eremita
O Eremita é uma pessoa que vive, de alguma forma, isolada da sociedade, numa reclusão. Na cristandade o termo era originalmente designado aos cristãos que viviam uma vida de exclusão, por convicção religiosa. Encontramos ao longo da história humana, muitos cristãos que decidem viver a vida em isolamento.

Deserto
O Senhor, por meio de seu Espírito, é quem nos leva ao deserto, como Jesus foi levado logo após seu batismo nas águas. E Ele observa nossa atitude. Como ela tem sido ultimamente? De profecia ou de maldição? Gratidão ou Murmuração? Tudo depende de nossa atitude! O deserto pode se tornar benção ou maldição em nossa vida. John Bevere afirma que a vida no deserto é um período que todo crente tem que passar se quiser viver em íntima comunhão com o Senhor. Não perca de vista o propósito do deserto para você. Você não foi rejeitado por Deus. Muito pelo contrário! O que aconteceu foi que Deus achou um jeito de aperfeiçoar a sua vida. Ele colocou você na mesma estrada na qual caminharam vários patriarcas e profetas... eles pavimentaram a estrada que leva ao mover de Deus. Mas Deus quer que você tenha Vitória no Deserto e o ajudará para isso, pelo poder de seu Espírito.

Aspecto e características
Os desertos na Palestina não são de areia, mas sim de montanhas calcárias, onde a vegetação não cresce mais por falta de chuva. O deserto da Judéia é uma estreita faixa situada entre a parte mais alta das montanhas e o vale do rio Jordão, e a depressão do mar Morto. O deserto do Negueb, ao sul de Judá, constitui o limite extremo-sul habitável da Terra Prometida.

Objetivos do deserto
No deserto se começa a entender e a conhecer a Deus: em particular, chega-se a entender que Deus está próximo como um amoroso Pai. É no deserto que se chega à fé, ao conhecimento, à intimidade com Deus. O deserto é o único lugar onde as "teorias bíblicas" podem ser testadas. Somente no deserto aprendemos os segredos da vida e nos tornamos verdadeiros servos de Deus, preparados para toda tempestade. I Pedro 5:10 E o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, confirmar e fortalecer.

Elementos para uma Teoria da Consciência Apofática
Théosis: Théopoiesis - Teose
1. Deificação, divinização.
Theosis é uma espada em uma chama: a espada gradualmente assume as propriedades da chama (luz e calor), mas continua a ser uma espada.
Na teologia cristã, particularmente na teologia da igreja ortodoxa, teósis ou theosis (também escrito: theiosis, theopoiesis, theōsis; grego:Θέωσις, significa divinização, deificação ou criação divina) é o processo de transformação de um crente que está pondo em prática (chamada praxis) os ensinos espirituais de Jesus Cristo e seu Evangelho. Em particular, theosis refere-se à realização de semelhança a ou união com Deus, que é o estágio final do processo de transformação e, como tal, o objetivo da vida espiritual. Theosis é o terceiro de três estágios; o primeiro é a purificação (katharsis) e o segundo iluminação (theoria). Por meio da purificação uma pessoa alcança a iluminação e então a santidade. Santidade é a participação da pessoa na vida de Deus. Conforme esta doutrina, a santa vida de Deus dada em Jesus Cristo ao crente através do Espírito Santo, é expressada através de três estágios de theosis, começando nas lutas da vida, que aumenta na experiência do crente através do conhecimento de Deus, e é posteriormente consumada na ressurreição do crente, quando o poder do pecado e da morte, tenha sido completamente vencido pela expiação de Jesus, perderá o domínio sobre o crente para sempre. Essa concepção de salvação é historicamente fundamental para a compreensão cristã, tanto no Oriente como no Ocidente.

Pneumatikon (Pneumatikós: Espiritual)
"Preenchido com o Espírito" (pneumatikós) é, portanto, aquele que, graças ao Espírito Santo, "instruído pelo Espírito", é capaz de julgar e reconhecer "coisas espirituais" (tà penumatiká) "de forma espiritual" (pneumatikós): contrariamente ao homem carnal, o "homem natural" (psychikós), que não é capaz de aceitar nem reconhecer as "coisas do Espírito de Deus", precisamente porque não possui o Espírito de Deus e considera a "sabedoria de Deus" como "estupidez" (1 Cor 2,6-16).
Todos os Cristãos, chamados de "pedras vivas", serão edificados em uma "morada espiritual" oikos pneumatikos (2 Pdr 2,5). Toda a Igreja, por conseguinte, é essencialmente uma realidade espiritual, ou "pneumática".

Pneumaticos (de pneumática grega, inspirada espiritualmente, por pneuma, ar, vento, espírito) 
Um “dom espiritual”, pneumatikon em grego, é uma coisa, evento ou indivíduo que serve como um instrumento do Espírito, que manifesta o Espírito, ou incorpora-o.

Antropos pneumatikos. O homem interior que se renova todos os dias.

Oikos: (local privado)
Oikos é uma palavra de origem grega e que pode ser traduzida para o português como “casa”, “ambiente habitado” ou “família”.
O termo oikos também é utilizado como um prefixo que dá a origem etimológica da palavra ecologia (Ökologie), em que oikos significa “casa” e logos que dizer “estudo”.
Ou seja, ecologia significa “o estudo da casa” ou “estudo do ambiente habitado”, em termos gerais seria o estudo do lugar onde se vive.
Na Grécia Antiga, o oikos era o nome dado para a unidade básica de uma sociedade, formada pelo chefe, representado pelo homem mais velho, sua família (filhos e esposa) e seus escravos, que conviviam em um mesmo ambiente doméstico.
O oikos da Grécia Antiga era similar aos feudos medievais, grandes propriedades rurais ou casas dominadas por um senhor, que abrigavam súditos e uma população local livre que obedecia as ordens do senhor do oikos, mas que tinham a liberdade para abandonar o local quando quisessem.
A economia dos oikos era essencialmente rural, sendo que a fonte de sobrevivência vinha da agricultura e pecuária.
Nesta época, também era comum a presença dos demiurgos, que eram viajantes que andavam de oikos em oikos realizando algumas tarefas especializadas, como feitiçaria, adivinhação, curandeirismo e etc.
Conforme Aristóteles define na Política, o termo era algumas vezes usado para se referir a qualquer um vivendo em uma dada casa.

Exousia
Para definir a palavra exousia podemos usar termos como poder, autoridade ou força. Do ponto de vista dos Evangelhos, a exousia tem uma explicação: a autoridade espiritual de Jesus Cristo é entendida como uma consequência lógica do poder de Deus. Assim, pode-se argumentar que a exousia de Jesus Cristo deve ser entendida como um dom divino. Graças a este dom Jesus Cristo pôde alcançar o coração das pessoas.
Num sentido mais restrito, o termo exousia é entendido apenas em relação à figura de Jesus Cristo ou de seus apóstolos. Entretanto, deve-se notar que certos personagens históricos tiveram uma autoridade espiritual única.
Sua autoridade sobre os demais não tinha nada a ver com o autoritarismo, mas esteve baseado em suas qualidades humanas excepcionais. Esta força espiritual extraordinária que possui alguns indivíduos tem, sem dúvida, uma dose de exousia, como foi demonstrada por alguns seres humanos, tais como Gandhi, Martin Luther King, Inácio de Loyola e Buda.  Pneumatikós – aquilo que e espiritual. “Em I Co 12.1, a palavra pneumatikóv significa algo dado pelo Espírito.
"Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito Santo habita dentro de vós?" disse S. Paulo aos Coríntios (1 Cor 3,16). No batismo, sacramento de fé, iodos os Cristãos recebem o Espírito Santo. Todos os Cristãos, chamados de "pedras vivas", serão edificados em uma "morada espiritual" oikos pneumatikos

Etimologia 
De πνεῦμα  ( pneuma , “ vento, respiração, espírito ” ) + -τικός  ( -tikós ) .

Pronúncia 
IP : /pneu̯.ma.ti.kós/ → /pneβ.ma.tikos/ → /pnev.ma.tikos/
Pneumatikós. adverbio de; no físico, i.e. divinamente, figuradamente: espiritual, espiritualmente.

Adjetivo
πνευμᾰτῐκός  (pneumatikós)  m ( feminino πνευμᾰτῐκή , neutro πνευμᾰτῐκόν ); 
1. Relacionado ao vento : ventoso
2. Relacionado à respiração : respiração
3. Espiritual
Adjetivo :
πνευματικός  (pnevmatikós)  m (feminino πνευματική, neutro πνευματικό)

Oikos Pneumáticos (casa espiritual)
Apto a ganhar almas direção espiritual no contexto monástico.

"Onde há vontade, há um Caminho"

sexta-feira, 9 de março de 2018

O primeiro de todos os mandamentos (Mc 12,28b-34) - Evangelho do Dia

A Palavra de Deus hoje nos convida a rever nossa capacidade de amar. Amar a Deus e amar o próximo. Nem sempre percebemos a estreita relação entre esses dois mandamentos. Santa Teresa de Calcutá, em uma de suas frases, afirma: “É fácil amar os que estão longe. Mas nem sempre é fácil amar os que vivem ao nosso lado”.
No início desta leitura orante, abra seu coração para o diálogo com o próprio Deus por meio de sua Palavra. Deixe-se conduzir pela ação do Espírito Santo, que reza em nós, dizendo: “Ó divino Espírito, ensina-me tudo quanto Jesus ensinou. Dá-me inteligência para entender; memória para lembrar; vontade dócil para praticar; coração generoso para corresponder aos teus convites. Amém.”
Um escriba perguntou a Jesus qual era o maior mandamento. Jesus respondeu o que está escrito na Bíblia, o “Ouve, Israel!”. E acrescentou um segundo mandamento, que é amar o próximo como a si mesmo. O escriba mostrou o seu acordo. Repetiu o que Jesus tinha dito e acrescentou que praticar o amor vale mais do que sacrifícios e holocaustos. Jesus o elogia e diz que ele não está longe do Reino de Deus. Ele só repetiu as palavras de Jesus, que são palavras do Deuteronômio. Resta agora praticá-las, neste tempo de Quaresma: procurar abandonar-se com confiança nas mãos do Pai, entregar-se a ele sem medida, estar pronto para tudo e aceitar tudo com a disposição de realizar a sua vontade. E amar o próximo como a si mesmo, não fazendo aos outros o que não queremos que se faça a nós. Se quisermos repetir também nós as palavras de Jesus, podemos dizer: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.
Côn. Celso Pedro da Silva, ‘A Bíblia dia a dia 2018’, Paulinas.

"Onde há vontade, há um Caminho"

quarta-feira, 7 de março de 2018

“A via da misericórdia - Na sabedoria dos Padres do Deserto”




«Recomeçar todos os dias o caminho que nos leva ao interior da vida e ao coração dos outros, nisto consiste a via da misericórdia. Assim se poderia resumir a sabedoria dos Padres do Deserto e que se apresenta neste livro como uma proposta aberta a todos os peregrinos de uma vida melhor.»

É esta a proposta da publicação “A via da misericórdia - Na sabedoria dos Padres do Deserto”, com seleção, tradução e apresentação de Isidro Lamelas, e ilustrações de José Filipe Pereira Lamelas, que a Universidade Católica Editora lançou recentemente.
«As palavras de ouro aqui recolhidas são eco e apelo a percorrer o mesmo caminho do silêncio fecundo que nos faz falta. Muito podemos aprender com estes homens e mulheres “ébrios de Deus” que “fogem dos homens” para proporem um modo novo de ser e homem e de viver entre os homens. Mais do que conselhos ou ensinamentos a ser lidos, nestas páginas somos convidados a contemplar quadros vivos dessa sabedoria do coração que faz da misericórdia um programa de vida e uma via sempre nova a percorrer», lê-se na sinopse.
A antologia pretende mostrar «que a vida e espiritualidade cristãs ou trilham o caminho da misericórdia ou pouco têm a ver com o Deus de Jesus Cristo», ajudando «a entender que tal caminho passa pela recuperação da interioridade e reencontro consigo, com Deus e com o próximo», explica o autor no texto de apresentação.
A obra tem também como propósito «ilustrar, com testemunhos que «falam por si», que a via da misericórdia é realmente, enquanto espiritualidade concreta, um caminho libertador e terapêutico que a todos fará muito bem», escreve Isidro Lamelas, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica.
Após o cristianismo ter passado, no contexto do Império Romano, de religião ilícita e perseguida para a condição de religião tolerada, em 313, e depois para Igreja protegida e beneficiada, alguns cristãos «que guardavam ainda bem viva a memória da perseguição e alto preço que muitos de seus antepassados pagaram pelo testemunho da fé, optaram por encontrar uma nova forma de manter o combate da fé, sem cedências à onda secularizante que invadira a Igreja imperial».
Os Padres do Deserto são assim designados porque começaram por se retirar no ermo desértico, começando, entre os séculos IV e V, pelo Egito, ocupando depois outros espaços, como a Palestina e Síria. Depressa este movimento ascético se espalhou em «múltiplas vagas que, sob diversas modalidades (anacoretismo, semianacoretismo, cenobitismo), encontrará continuadores ao longo dos séculos, a oriente e ocidente, até aos nossos dias».
Apresentação Isidro Lamelas In “A via da misericórdia - Na sabedoria dos Padres do Deserto”
«Eis que eu mesmo vou seduzi-la, conduzi-la ao deserto e falar-lhe ao coração» (Os 2,16). No interior de todo o ser humano, peregrino neste mundo e no tempo que passam, ecoa, ainda que em surdina, esse apelo ao deserto e ao silêncio, como condição de escuta e de encontro.
Há muito que se fala da nostalgia do silêncio como nota característica da cultura contemporânea a qual, ao mesmo tempo, parece conviver melhor com o rumor da cidade do que com a silenciosa solidão. Não será por acaso que a sabedoria dos «Pais» do deserto tem vindo a merecer um crescente interesse, conquistando discípulos e seguidores, inclusive nas áreas menos prováveis, como na gestão e liderança de grupos e empresas ou na terapia das enfermidades da alma e do corpo; mas sobretudo enquanto mestres de uma sabedoria perene.
É verdade que se trata muitas vezes de um tipo de «seguidores» pouco fiéis, que, querendo tornar atual a sabedoria tão nova e tão antiga dos Padres do Deserto, incorrem frequentemente na tentação de «modernizar» esses «anciãos», transformando os seus apotegmas em «pensamentos bonitos».
Ora o deserto não produz «pensadores» nem «pensamentos», e muito menos «pensamentos bonitos». É bem mais provável que nele encontremos profetas incómodos e terapeutas da alma que não hesitam em pôr o dedo nas feridas mais profundas nem receiam enfrentar os «demónios» mais ocultos que nos tentam. Tudo isto com o intuito primeiro de libertar e curar pela via da misericórdia. Esta, longe de ser uma espécie de carícia sobre as feridas da alma, é um remédio de graça que também exige trabalho e dor, como no-lo dão a entender tanto os Padres como as Madres do deserto: «Devemos acender o fogo divino em nós mesmos, com lágrimas e esforço», dizia a madre Sinclética.
Toda a ascese ou exercitação espiritual, bem como o retiro e êxodo eremítico do monge, visam a paz que só se poderá alcançar no oásis do Amor de Deus. É aqui que o homem espiritual encontra a fonte para o tão almejado repouso do coração: um coração silente que não julga, não condena, não calcula nem se impacienta, mas simplesmente ama em Deus. Ama Deus e o próximo, como ele é e não como deveria ser; ama o outro perseverantemente, tal como Deus ama, incondicionalmente. Nisto consiste a misericórdia.
No retiro silencioso e no seu modo de vida desconcertante, estes buscadores de Deus escavaram poços de sabedoria que, inevitavelmente, nos conduzem ao Evangelho não domesticado, mas também nos aproximam das fontes da sabedoria perene, mostrando-nos que as sementes do Verbo estão realmente presentes em todas as tradições e experiências religiosas honestas.
Escrever sobre os Padres do Deserto só faz, pois, sentido se for para aprendermos com o seu silêncio. Por isso, as «palavras de ouro» que selecionámos para esta antologia não são senão centelhas de fogo que se soltam das vidas ocultas desses homens abrasados e «ébrios de Deus», como lhes chamou S. Macário, um deles, no século IV. (…)
Diz-me uma palavra! Assim nasceram e ganharam forma os «ditos» dos Padres do Deserto. Contudo e rigorosamente falando, os Padres do Deserto não nos deixaram «palavras» nem escritos. Muito mais do que «palavras» ou ensinamentos são, segundo a feliz expressão de S. Agostinho, sentenças que possuem «o sonoro e falante silêncio da verdade».
Estamos, de facto, perante palavras forjadas no silêncio de uma vida despojada e provada no crisol da humildade radical; são «palavras ilustradas com a vida», palavras-testemunho que, por isso, também podem ser «retratadas» em «quadros vivos». Os desenhos que acompanham esta antologia não visam, por isso, apenas «ilustrar» ou embelezar as páginas da mesma, mas sugerir episódios vivos de uma espiritualidade concreta que vale a pena contemplar sem pressa de fugir, nem medo de não chegar.
Sabemos que estas palavras essenciais dos «anciãos» foram lembradas e repetidas ao longo dos séculos como «regras» de vida, antes e depois do surgimento das primeiras Regras monásticas escritas. Efetivamente, a «escola» do deserto é de uma sabedoria sem livros nem mestres, mas com «pais» que, através das suas vidas e «palavras práticas», apontam caminhos de perfeição que passam sempre pela via da misericórdia. Mais do que teóricos da espiritualidade, estes «pais espirituais» são, por isso, uma reserva inesgotável da humanidade e de humanismo, precisamente porque deixaram incendiar a sua vida pelo fogo regenerador do amor «misericordioso eterno» e terno de Deus. (…)
A misericórdia nos Padres do Deserto
Dizer que Deus é amor não é apenas uma revolucionária afirmação teológica, mas um recomeço renovador de toda a humanidade na sua existência e coexistência. Se Deus é amor, a misericórdia é a dimensão prática da Caridade que Deus é. Se «Deus mora onde há caridade» (“ubi caritas Deus ibi est”), a misericórdia é o estilo próprio de viver e habitar dos discípulos de Cristo. O que nos é proposto nas palavras cheias de misericórdia destes homens e mulheres do deserto é esta nova forma de presença de Deus entre nós e de comunhão dos homens entre si.
Cientes de que a verdadeira caridade consiste em ser misericordioso como o Pai do Céu (Lc 6,36) que derrama a sua bondade e misericórdia infinitas sobre todas as criaturas (cf. Mt 5,45), os Padres do Deserto costumam alargar esse dom também aos animais e, alguns, vão mesmo mais longe, como é o caso de Santo Isaac de Nínive, um dos monges citados na presente antologia que viveu no século VII ao norte da atual Mosul, e que define o «coração misericordioso», nestes termos:
«Coração misericordioso é um coração incendiado (de amor) por toda a criação: pelos homens, pelas aves do céu, pelos animais da terra, pelo demónio, por toda a criatura».
Segundo este mesmo pai espiritual, o monge «foi colocado neste mundo para invocar a misericórdia e velar pela salvação de todos e de tudo, e para se unir aos sofrimentos de todos os homens, justos ou pecadores».
Porque a misericórdia, para além de não conhecer limites, é algo de essencialmente prático, enquanto dom de Deus restituído na pessoa do próximo, porque nele está Deus, Evágrio e os demais «Padres doutos» deram ao exercício da misericórdia o nome de «práxis». A práxis é essa «ciência prática» do amor ao próximo pela misericórdia.
Os Padres do Deserto propõem-nos essa prática de misericórdia, que é via de reconciliação da criatura com o Criador e do homem com o seu semelhante e com todos os seres. A paz reconquistada é fruto desta nova sementeira de misericórdia reinventada por Cristo e continuada pelos seus discípulos, em cada tempo e em cada deserto ou cidade habitados por muitos buscadores de Deus e um punhado de justos.
Como os próprios «monges do deserto» nos ensinam, não é o deserto que faz o monge, e de nada valem o silêncio, o jejum ou múltiplas formas de ascese e anacorese, sem a caridade que nutre a misericórdia. Eles aconselham-nos a buscar a simplicidade e pureza do coração, cultivando, antes de mais, um «coração justo» e pacífico; liberto, não das tentações, mas das más opções do homem dividido ou da alma inchada pela soberba.
Todo o edifício da virtude assenta, por isso, no alicerce da humildade que leva a acusar-se a si próprio, em vez de julgar os outros; a carregar os fardos do próximo, em vez de lhe agravar a carga; a encobrir as quedas dos fracos, em vez de apontar o dedo e atirar pedras; ao perdão das ofensas, em vez do ressentimento e a justiça pelas próprias mãos.
Se algo de novo encontramos nestes insaciáveis buscadores de Deus é o radicalismo com que querem imitar a misericórdia do Pai e, a compaixão de Jesus, como caminho novo. Um caminho que o Papa Francisco nos repropõe, neste ano jubilar da Misericórdia (…)
 
"Onde há vontade, há um Caminho"