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sexta-feira, 9 de março de 2018

O primeiro de todos os mandamentos (Mc 12,28b-34) - Evangelho do Dia

A Palavra de Deus hoje nos convida a rever nossa capacidade de amar. Amar a Deus e amar o próximo. Nem sempre percebemos a estreita relação entre esses dois mandamentos. Santa Teresa de Calcutá, em uma de suas frases, afirma: “É fácil amar os que estão longe. Mas nem sempre é fácil amar os que vivem ao nosso lado”.
No início desta leitura orante, abra seu coração para o diálogo com o próprio Deus por meio de sua Palavra. Deixe-se conduzir pela ação do Espírito Santo, que reza em nós, dizendo: “Ó divino Espírito, ensina-me tudo quanto Jesus ensinou. Dá-me inteligência para entender; memória para lembrar; vontade dócil para praticar; coração generoso para corresponder aos teus convites. Amém.”
Um escriba perguntou a Jesus qual era o maior mandamento. Jesus respondeu o que está escrito na Bíblia, o “Ouve, Israel!”. E acrescentou um segundo mandamento, que é amar o próximo como a si mesmo. O escriba mostrou o seu acordo. Repetiu o que Jesus tinha dito e acrescentou que praticar o amor vale mais do que sacrifícios e holocaustos. Jesus o elogia e diz que ele não está longe do Reino de Deus. Ele só repetiu as palavras de Jesus, que são palavras do Deuteronômio. Resta agora praticá-las, neste tempo de Quaresma: procurar abandonar-se com confiança nas mãos do Pai, entregar-se a ele sem medida, estar pronto para tudo e aceitar tudo com a disposição de realizar a sua vontade. E amar o próximo como a si mesmo, não fazendo aos outros o que não queremos que se faça a nós. Se quisermos repetir também nós as palavras de Jesus, podemos dizer: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.
Côn. Celso Pedro da Silva, ‘A Bíblia dia a dia 2018’, Paulinas.

"Onde há vontade, há um Caminho"

quarta-feira, 7 de março de 2018

“A via da misericórdia - Na sabedoria dos Padres do Deserto”




«Recomeçar todos os dias o caminho que nos leva ao interior da vida e ao coração dos outros, nisto consiste a via da misericórdia. Assim se poderia resumir a sabedoria dos Padres do Deserto e que se apresenta neste livro como uma proposta aberta a todos os peregrinos de uma vida melhor.»

É esta a proposta da publicação “A via da misericórdia - Na sabedoria dos Padres do Deserto”, com seleção, tradução e apresentação de Isidro Lamelas, e ilustrações de José Filipe Pereira Lamelas, que a Universidade Católica Editora lançou recentemente.
«As palavras de ouro aqui recolhidas são eco e apelo a percorrer o mesmo caminho do silêncio fecundo que nos faz falta. Muito podemos aprender com estes homens e mulheres “ébrios de Deus” que “fogem dos homens” para proporem um modo novo de ser e homem e de viver entre os homens. Mais do que conselhos ou ensinamentos a ser lidos, nestas páginas somos convidados a contemplar quadros vivos dessa sabedoria do coração que faz da misericórdia um programa de vida e uma via sempre nova a percorrer», lê-se na sinopse.
A antologia pretende mostrar «que a vida e espiritualidade cristãs ou trilham o caminho da misericórdia ou pouco têm a ver com o Deus de Jesus Cristo», ajudando «a entender que tal caminho passa pela recuperação da interioridade e reencontro consigo, com Deus e com o próximo», explica o autor no texto de apresentação.
A obra tem também como propósito «ilustrar, com testemunhos que «falam por si», que a via da misericórdia é realmente, enquanto espiritualidade concreta, um caminho libertador e terapêutico que a todos fará muito bem», escreve Isidro Lamelas, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica.
Após o cristianismo ter passado, no contexto do Império Romano, de religião ilícita e perseguida para a condição de religião tolerada, em 313, e depois para Igreja protegida e beneficiada, alguns cristãos «que guardavam ainda bem viva a memória da perseguição e alto preço que muitos de seus antepassados pagaram pelo testemunho da fé, optaram por encontrar uma nova forma de manter o combate da fé, sem cedências à onda secularizante que invadira a Igreja imperial».
Os Padres do Deserto são assim designados porque começaram por se retirar no ermo desértico, começando, entre os séculos IV e V, pelo Egito, ocupando depois outros espaços, como a Palestina e Síria. Depressa este movimento ascético se espalhou em «múltiplas vagas que, sob diversas modalidades (anacoretismo, semianacoretismo, cenobitismo), encontrará continuadores ao longo dos séculos, a oriente e ocidente, até aos nossos dias».
Apresentação Isidro Lamelas In “A via da misericórdia - Na sabedoria dos Padres do Deserto”
«Eis que eu mesmo vou seduzi-la, conduzi-la ao deserto e falar-lhe ao coração» (Os 2,16). No interior de todo o ser humano, peregrino neste mundo e no tempo que passam, ecoa, ainda que em surdina, esse apelo ao deserto e ao silêncio, como condição de escuta e de encontro.
Há muito que se fala da nostalgia do silêncio como nota característica da cultura contemporânea a qual, ao mesmo tempo, parece conviver melhor com o rumor da cidade do que com a silenciosa solidão. Não será por acaso que a sabedoria dos «Pais» do deserto tem vindo a merecer um crescente interesse, conquistando discípulos e seguidores, inclusive nas áreas menos prováveis, como na gestão e liderança de grupos e empresas ou na terapia das enfermidades da alma e do corpo; mas sobretudo enquanto mestres de uma sabedoria perene.
É verdade que se trata muitas vezes de um tipo de «seguidores» pouco fiéis, que, querendo tornar atual a sabedoria tão nova e tão antiga dos Padres do Deserto, incorrem frequentemente na tentação de «modernizar» esses «anciãos», transformando os seus apotegmas em «pensamentos bonitos».
Ora o deserto não produz «pensadores» nem «pensamentos», e muito menos «pensamentos bonitos». É bem mais provável que nele encontremos profetas incómodos e terapeutas da alma que não hesitam em pôr o dedo nas feridas mais profundas nem receiam enfrentar os «demónios» mais ocultos que nos tentam. Tudo isto com o intuito primeiro de libertar e curar pela via da misericórdia. Esta, longe de ser uma espécie de carícia sobre as feridas da alma, é um remédio de graça que também exige trabalho e dor, como no-lo dão a entender tanto os Padres como as Madres do deserto: «Devemos acender o fogo divino em nós mesmos, com lágrimas e esforço», dizia a madre Sinclética.
Toda a ascese ou exercitação espiritual, bem como o retiro e êxodo eremítico do monge, visam a paz que só se poderá alcançar no oásis do Amor de Deus. É aqui que o homem espiritual encontra a fonte para o tão almejado repouso do coração: um coração silente que não julga, não condena, não calcula nem se impacienta, mas simplesmente ama em Deus. Ama Deus e o próximo, como ele é e não como deveria ser; ama o outro perseverantemente, tal como Deus ama, incondicionalmente. Nisto consiste a misericórdia.
No retiro silencioso e no seu modo de vida desconcertante, estes buscadores de Deus escavaram poços de sabedoria que, inevitavelmente, nos conduzem ao Evangelho não domesticado, mas também nos aproximam das fontes da sabedoria perene, mostrando-nos que as sementes do Verbo estão realmente presentes em todas as tradições e experiências religiosas honestas.
Escrever sobre os Padres do Deserto só faz, pois, sentido se for para aprendermos com o seu silêncio. Por isso, as «palavras de ouro» que selecionámos para esta antologia não são senão centelhas de fogo que se soltam das vidas ocultas desses homens abrasados e «ébrios de Deus», como lhes chamou S. Macário, um deles, no século IV. (…)
Diz-me uma palavra! Assim nasceram e ganharam forma os «ditos» dos Padres do Deserto. Contudo e rigorosamente falando, os Padres do Deserto não nos deixaram «palavras» nem escritos. Muito mais do que «palavras» ou ensinamentos são, segundo a feliz expressão de S. Agostinho, sentenças que possuem «o sonoro e falante silêncio da verdade».
Estamos, de facto, perante palavras forjadas no silêncio de uma vida despojada e provada no crisol da humildade radical; são «palavras ilustradas com a vida», palavras-testemunho que, por isso, também podem ser «retratadas» em «quadros vivos». Os desenhos que acompanham esta antologia não visam, por isso, apenas «ilustrar» ou embelezar as páginas da mesma, mas sugerir episódios vivos de uma espiritualidade concreta que vale a pena contemplar sem pressa de fugir, nem medo de não chegar.
Sabemos que estas palavras essenciais dos «anciãos» foram lembradas e repetidas ao longo dos séculos como «regras» de vida, antes e depois do surgimento das primeiras Regras monásticas escritas. Efetivamente, a «escola» do deserto é de uma sabedoria sem livros nem mestres, mas com «pais» que, através das suas vidas e «palavras práticas», apontam caminhos de perfeição que passam sempre pela via da misericórdia. Mais do que teóricos da espiritualidade, estes «pais espirituais» são, por isso, uma reserva inesgotável da humanidade e de humanismo, precisamente porque deixaram incendiar a sua vida pelo fogo regenerador do amor «misericordioso eterno» e terno de Deus. (…)
A misericórdia nos Padres do Deserto
Dizer que Deus é amor não é apenas uma revolucionária afirmação teológica, mas um recomeço renovador de toda a humanidade na sua existência e coexistência. Se Deus é amor, a misericórdia é a dimensão prática da Caridade que Deus é. Se «Deus mora onde há caridade» (“ubi caritas Deus ibi est”), a misericórdia é o estilo próprio de viver e habitar dos discípulos de Cristo. O que nos é proposto nas palavras cheias de misericórdia destes homens e mulheres do deserto é esta nova forma de presença de Deus entre nós e de comunhão dos homens entre si.
Cientes de que a verdadeira caridade consiste em ser misericordioso como o Pai do Céu (Lc 6,36) que derrama a sua bondade e misericórdia infinitas sobre todas as criaturas (cf. Mt 5,45), os Padres do Deserto costumam alargar esse dom também aos animais e, alguns, vão mesmo mais longe, como é o caso de Santo Isaac de Nínive, um dos monges citados na presente antologia que viveu no século VII ao norte da atual Mosul, e que define o «coração misericordioso», nestes termos:
«Coração misericordioso é um coração incendiado (de amor) por toda a criação: pelos homens, pelas aves do céu, pelos animais da terra, pelo demónio, por toda a criatura».
Segundo este mesmo pai espiritual, o monge «foi colocado neste mundo para invocar a misericórdia e velar pela salvação de todos e de tudo, e para se unir aos sofrimentos de todos os homens, justos ou pecadores».
Porque a misericórdia, para além de não conhecer limites, é algo de essencialmente prático, enquanto dom de Deus restituído na pessoa do próximo, porque nele está Deus, Evágrio e os demais «Padres doutos» deram ao exercício da misericórdia o nome de «práxis». A práxis é essa «ciência prática» do amor ao próximo pela misericórdia.
Os Padres do Deserto propõem-nos essa prática de misericórdia, que é via de reconciliação da criatura com o Criador e do homem com o seu semelhante e com todos os seres. A paz reconquistada é fruto desta nova sementeira de misericórdia reinventada por Cristo e continuada pelos seus discípulos, em cada tempo e em cada deserto ou cidade habitados por muitos buscadores de Deus e um punhado de justos.
Como os próprios «monges do deserto» nos ensinam, não é o deserto que faz o monge, e de nada valem o silêncio, o jejum ou múltiplas formas de ascese e anacorese, sem a caridade que nutre a misericórdia. Eles aconselham-nos a buscar a simplicidade e pureza do coração, cultivando, antes de mais, um «coração justo» e pacífico; liberto, não das tentações, mas das más opções do homem dividido ou da alma inchada pela soberba.
Todo o edifício da virtude assenta, por isso, no alicerce da humildade que leva a acusar-se a si próprio, em vez de julgar os outros; a carregar os fardos do próximo, em vez de lhe agravar a carga; a encobrir as quedas dos fracos, em vez de apontar o dedo e atirar pedras; ao perdão das ofensas, em vez do ressentimento e a justiça pelas próprias mãos.
Se algo de novo encontramos nestes insaciáveis buscadores de Deus é o radicalismo com que querem imitar a misericórdia do Pai e, a compaixão de Jesus, como caminho novo. Um caminho que o Papa Francisco nos repropõe, neste ano jubilar da Misericórdia (…)
 
"Onde há vontade, há um Caminho"

terça-feira, 6 de março de 2018

Poustinia (Poustinik): Experiência do Deserto





“Zelo zelatus sum pro Domino Deo exercituum...!”

Uma Poustinia ( russo : пустынь ) é uma pequena cabine ou quarto esparsamente decorado onde alguém vai orar sozinho na presença de Deus . 

A palavra Poustinia tem sua origem na palavra russa para o deserto (пустыня). Um chamado para viver permanentemente em Poustinia é chamadode Poustinik (plural: Poustiniki ).

Origens

Originalmente uma tradição russo ortodoxa , a espititialidade da Poustinia foi apresentado a Igreja Católica Romana  pela católica ativista social Catherine Doherty em seu livro best-seller Poustinia: Espiritualidade Cristã do Oriente para o homem ocidental ,  publicado pela primeira vez em 1975.

Embora originário dos antigos iniciantes (sábios anciãos russos, sg. Starets ), o popular livro de Catherine tornou o conceito de Poustinia acessível para homens e mulheres do leste modernos. Nele, ela descreve a Poustinia como "uma entrada no deserto, um lugar solitário, um lugar silencioso, onde se pode levantar os dois braços de oração e penitência a Deus em expiação, intercessão, reparação dos pecados e os dos irmãos ... Para entrar na poustinia significa ouvir Deus. Significa entrar em kenosis - o esvaziamento de si mesmo ". Ela promove a Poustinia como um lugar onde qualquer pessoa - em qualquer caminhada da vida - pode durar 24 horas de silêncio, solidão e oração. Em última análise, no entanto, a chamada do Poustinik é para o deserto do próprio coração em que ele mora com Deus sozinho, seja no local de trabalho ou em um local solitário.
Uma cela, ermida ou sala de Poustinia geralmente consiste em uma cama, uma mesa e uma cadeira, uma cruz e uma Bíblia .

O Poustinik é servo de Deus e do povo de Deus, em comunhão com a Igreja. Historicamente, quem experimentou a chamada"... Para a Poustinia teve primeiro, depois de conseguir a benção de seu diretor espiritual , encontrar uma aldeia. Ele geralmente fez isso através da peregrinação e da oração . Uma vez que descobriu a aldeia a que ele sentiu Deus desenhando ele, o Poustinik foi para os anciãos e pediram permissão para viver lá como um Poustinik. A permissão foi felizmente dada, como os russos ficaram felizes por ter um Poustinik rezando por eles.

O Poustinik vive sozinho orando por sua própria salvação, a salvação do mundo e particularmente pela comunidade que Deus abençoou por ele ser membro. Tradicionalmente,
O Poustinik também estava disponível para as pessoas. Quando havia necessidades especiais, como um fogo para lutar ou feno para trazer, o Poustinik ajudaria. E sempre que alguém tinha algo sobre o qual eles queriam falar - uma pergunta sobre a oração, um problema, uma alegria ou uma tristeza especial - eles poderiam ir ao Poustinik. 

O Poustinik é aquele que escuta e compartilha o amor de Cristo com todos os que ele encontra, bem como uma xícara de chá ou algo de comida; O que quer que ele tenha compartilhado, como Deus compartilhou tudo com ele. 
“O que pode o pecado onde há penitência? E de que adianta o amor onde há orgulho?”... (Pai Elias)
“… e esses homens estão longe de si mesmos, como ébrios de bebida, ébrios em espírito de mistério e de Deus”. (Pseudo-Macário, Homilias Espirituais).

Solidão, e oração incessante configuram o conceito central da espiritualidade do deserto, que tem grande valor para nós que vivemos situações sempre novas e desafiadoras como cristãos. Já ensinava São Paulo apóstolo: “Orai incessantemente” (1 Ts 5,17) foi fundamental para vida ascética dos Padres do Deserto, eremitas, monges e monjas.

Os Padres do Deserto  

Foram eremitas, ascetas, monges e monjas que viviam majoritariamente no deserto da Nítria (Scetes), no Egito a partir do século III d.C. O mais conhecido deles foi Santo Antão (ou Santo Antônio, o Grande), que mudou-se para o deserto em 270-271 e se tornou conhecido tanto como o pai quanto o fundador do monasticismo no deserto. Quando Antão morreu em 356, milhares de monges e freiras tinham sido atraídos para a vida no deserto seguindo o exemplo do grande santo. Seu biógrafo, o doutor da Igreja Santo Atanásio de Alexandria, escreveu que “o deserto tinha se tornado uma cidade”.

Nos séculos III e  IV da era cristã os desertos da Síria e do Egito viram afluir em grande número homens como Santo Antão, São Pacômio, São Macário e Paulo de Tebas  que, respondendo ao chamado de Jesus Cristo, deixaram a vida do mundo para se dedicarem a uma vida com Deus no deserto,  na solidão e na oração, ali fundando os primeiros mosteiros da história cristã. Estes monges se tornaram conhecidos como os padres (ou pais) do deserto. Surgia, assim, uma nova sociedade à margem da antiga; comunidades de ascetas que, com o nome de lauras, sketes, coenobia, se tornariam, na solidão do deserto, o modelo da cidade vindoura, a Jerusalém Celeste.

Três principais tipos de monasticismo se desenvolveram no Egito à volta dos Padres do Deserto. Um foi à vida austera do eremita, como praticado pelo próprio Antão e seus seguidores no Baixo Egito. Outro foi a vida cenobita, comunidades de monges e monjas no Alto Egito formadas por São Pacômio. O terceiro foi uma vida semi-eremita vista principalmente na Nítria e em Scetes, a oeste do Nilo, iniciada por Santo Amum. Estes últimos eram pequenos grupos (de dois a seis) de monges e freiras com um ancião em comum – os grupos separados se reuniam em aglomerações maiores para a celebração dos sábados e domingos. Este terceiro grupo monástico foi responsável pela maior parte dos ditados que foram compilados na obra  

“Ditados dos Pais do Deserto”.

Sinclética, Mãe do Deserto, disse: “No começo, há luta e muito trabalho para os que se aproximam de Deus. Mas, depois disso, há uma indescritível alegria. É como acender uma fogueira: no início há muita fumaça e seus olhos lacrimejam, mas depois você consegue o resultado desejado. Assim devemos acender o fogo divino em nós mesmos, com lágrimas e esforço”.

Evágrio Pôntico (sobre a oração)

1.Evágrio destaca, com insistência, um certo número de traços encontrados de ponta a ponta da Tradição: guarda do coração, despojamento do espírito; simplificação da oração; ilusões, imagens, formas etc.

2. A purificação, da alma, através da plenitude das virtudes, torna a disposição da inteligência inabalável e apta a receber o estado procurado.

3. A oração é uma conversa da inteligência com Deus: que estado não é, pois, necessário, para essa tensão sem retorno, para ir a seu Senhor e conversar com ele, sem nenhum intermediário?

4. Moisés, quando quis aproximar-se da sarça ardente, foi impedido de fazê-lo, até que tirasse os sapatos. E tu, que pretendes ver Aquele que ultrapassa todo pensamento e todo sentimento, como não te libertas de todo pensamento apaixonado?

5. Primeiramente, ora para obter o dom das lágrimas; assim, poderás suavizar, pela compunção, a dureza inerente à tua alma e, confessando tua iniqüidade contra ti, ao Senhor, obter dele o perdão.

9. Mantém-te corajoso e ora com energia; afasta as preocupações e as reflexões que se apresentarem, pois elas te perturbam e te agitam, debilitando o teu vigor.

10. Os demônios te vêem cheio de ardor pela verdadeira oração? Eles te sugerem, então, o pensamento de certas coisas, que te apresentam como necessárias. Depois, não tardam a avivar a lembrança que a elas se liga, levando a inteligência a procurá-las. A inteligência não as encontra, entristece-se profundamente e se aflige. Chegado o momento da oração, eles devolvem então à memória os objetos de suas buscas e de suas lembranças; assim, enfraquecida por essas associações, ela não, vai conseguir realizar a oração proveitosa.

11. Esforça-te por manter teu intelecto surdo e mudo durante a oração: assim poderás orar.

12.  A oração é produto da doçura e da ausência de ira.

13.  A oração é fruto da alegria e do reconhecimento.

14.  A oração é exclusão da tristeza e do desalento.

15. «Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e depois pega a tua cruz, nega-te a ti mesmo", para poderes orar sem distração.»

16. Se queres orar dignamente, renuncia-te a todo instante; se suportas toda sorte de provações, resigna-te sabiamente por amor da oração.

17. Na hora de orar, encontrarás o fruto de todo sofrimento aceito com sabedoria.

18. Se queres orar como convém não entristeças nenhuma alma; senão, corres em vão.

19.  O rancor cega a faculdade mestra de quem ora e derrama-lhe trevas sobre as orações.

20. Armado contra a ira, não admitirás jamais a cobiça, pois é a cobiça que alimenta a ira; esta por sua vez, turva os olhos da inteligência e destrói, assim, c, estado de oração.

21. Não te contentes de orar nas atitudes exteriores, mas leva tua inteligência ao sentimento da oração espiritual, com grande temor.

22. Não ores para que tuas vontades se cumpram: elas não concordam necessariamente com a vontade de Deus. Ora, sim, segundo o ensinamento recebido, dizendo: «que vossa vontade se cumpra em mim.» Em tudo, pede-lhe que se faça a sua vontade, pois ele quer o bem e o benefício para tua alma; tu, porém, não é isso necessariamente que procuras.

23. O que há de bom fora de Deus? Deixemos, pois, a ele, todos os nossos interesses e isso será vantajoso para nós. Aquele que é Bom é também, necessariamente, Aquele que concede dons excelentes.

24. Não te aflijas quando não receberes imediatamente, de Deus, o objeto de teu pedido: é que ele quer fazer-te ainda maior bem, por tua perseverança em permanecer com ele na oração. O que nada de mais sublime, de fato, do que conversar com Deus e abstrair-se numa íntima comunicação com ele?
a. A oração sem distração é a intelecção mais alta da inteligência.

25.  A oração é uma ascensão da inteligência para Deus.

26. Ora, em primeiro lugar, para te purificares das paixões;. em segundo lugar, para te libertares da ignorância; em terceiro lugar, para te libertares de toda tentação e abandono.

27. Em tua oração, procura unicamente a justiça e o reino, isto é, a virtude e a gnose; e todo o resto te será dado por acréscimo (Mt 6,33).

28. Orando com teus irmãos ou orando só, esforça-te por orar, não por hábito, mas com sentimento.

29. Tua inteligência divaga durante a oração? É que ela ainda não ora como monge; ela ainda é do mundo e se ocupa em enfeitar a tenda exterior.

30. Enquanto oras, vigia intensamente a tua memória, para que, ao invés de sugerir-te as suas lembranças, ela te leve à consciência da tua prática; pois, a inteligência tem uma perigosa tendência: deixar-se pilhar pela memória, no momento da criação.

31. Qual o objetivo dos demônios, quando excitam em nós a gula, a impudicícia, a cobiça, a ira, o rancor e as outras paixões? Querem que a nossa inteligência, estupidificada por elas, não possa orar convenientemente; pois, as paixões da parte irracional, vencedoras, impedem-na de mover-se de acordo com a razão (de acordo com as razões dos seres como objeto de contemplação) para procurar atingir a Razão (o Logos: o Verbo) de Deus.

32. Nós vamos às virtudes (primeiro degrau: vida ativa) em vista das razões dos seres criados (segundo degrau: contemplação inferior); vamos a estas, em vista do Senhor, que as estabeleceu (terceiro degrau: teologia); quanto ao Senhor, ele costuma aparecer no estado de oração.

33. O estado de oração é um «hábito» impassível que, por um amor supremo, arrebata aos cimos intelectuais a inteligência possuída nela sabedoria.

34. Quem ama a Deus conversa incessantemente com ele, como com um Pai, despojando-se de te do pensamento apaixonado.

35. Não é porque se tenha atingido a apatheia que se irá orar verdadeiramente, pois é possível ficar nos pensamentos simples (isto é, purificados de laços sensíveis) e distrair-se na meditação deles, estando, portanto, longe de Deus.

36. Suponhamos que a inteligência não permaneça nos pensamentos simples; nem por isso terá atingido o lugar da oração e, pois ela pode encontrar-se na contemplação dos objetos e ocupar-se em suas razões: ora, essas razões, sendo ao mesmo tempo expressões simples, em sua qualidade de considerações de objetos, imprimem uma forma na inteligência e a afastam muito de Deus.

37. Suponhamos que a inteligência se eleve acima da contemplação da natureza corpórea; ela ainda não tem a visão perfeita do lugar de Deus pois pode encontrar-se na ciência dos inteligíveis e partilhar sua multiplicidade.

38. Quem ora em espírito e em verdade, não tira mais das criaturas os louvores que dá ao Criador: é do próprio Deus que ele louva Deus.

39.  Se és teólogo, vais orar verdadeiramente; e se oras verdadeiramente, és teólogo!

40. Quando tua inteligência, num ardente amor de Deus, sai, por assim dizer, pouco a pouco, de tua carne; . quando rejeita todos os pensamentos que vêm dos sentidos, da memória ou do temperamento; quando ela se enche, aa mesmo tempo de respeito e de alegria, então podes considerar-te próximo dos limites da oração.

41. Não imagines possuir a Divindade em ti, quando oras, nem deixes tua inteligência aceitar a marca de uma forma qualquer; mantém-te como imaterial diante do Imaterial e compreenderás.

42. Fica atento às armadilhas dos adversários: acontece, enquanto oras puramente e sem perturbação, que se te apresente, de súbito, uma forma desconhecida e estranha. Ela quer levar-te à presunção de que ali localizas Deus e fazer com que vejas a Divindade no objeto quantitativo que de repente apareceu diante dos teus olhos; porém, a Divindade não tem quantidade nem rosto.

43. Quando o demônio ciumento fracassa na excitação da memória durante a oração, age sobre a compleição do corpo, para despertar na inteligência algum fantasma desconhecido e, assim, dar-lhe forma. A inteligência, acostumada a limitar-se a conceitos, é então facilmente subjugada; aquela que tendia à gnose imaterial e sem forma, deixa-se iludir e pensa que a fumaça é luz.

44. Sê prudente, protegendo tua inteligência de todo conceito, na hora da oração, para que ela seja firme na sua tranqüilidade própria (de sua natureza original). Então, Aquele que tem piedade dos ignorantes virá também sobre ti e receberás um dom de oração muito glorioso.

45. Não poderias possuir a oração pura, estando perturbado com coisas materiais e agitado por inquietações contínuas, pois a oração é abandono dos pensamentos.

46. Impossível correr entravado. A inteligência sujeita às paixões também não poderia ver o lugar da oração espiritual, pois ela é solicitada de todos os lados pelo pensamento apaixonado e não consegue manter-se inflexível.

47. Se oras verdadeiramente, sentirás uma grande segurança; os anjos te escoltarão como a Daniel e te iluminarão sobre as razões dos seres.

48. A salmodia vence as paixões e acalma a intemperança do corpo; a oração faz a inteligência exercer sua atividade própria.

49. A oração é atividade que convém à dignidade da Inteligência; é a aplicação mais admirável e mais completa desta.

50.  A salmodia depende da sabedoria multiforme; a oração é o prelúdio da gnose imaterial e uniforme.

51. Se ainda não recebeste o carisma da oração e da salmodia, insiste: tu o receberás.

52. No momento das tentações dessa espécie, recorre a uma oração breve e veemente.

53. O corpo tem o pão por alimento; a alma, a virtude; a inteligência, a oração espiritual.

54. Não escutes as exigências de teu corpo no exercício da oração; não deixes que uma picada de piolho, pulga, pernilongo ou mosca, te prive da melhor vantagem da oração.

55. A respeito de um outro irmão espiritual, lemos que uma víbora atacou-lhe o pé durante a oração. Mas ele não moveu os braços até acabar a oração habitual, e escapou ileso, porque amara a Deus mais que a si mesmo.

56. Não eleves os olhos enquanto oras; renuncia à carne e à alma e vive segundo a inteligência.

57. Um outro santo, cheio do amor de Deus e de zelo na oração, encontrou, quando andava pelo deserto, dois anjos que se puseram, um à sua direita, outro à sua esquerda, e caminharam juntos. Mas ele não lhes deu a mínima atenção, para não perder o melhor. Pois, lembrava-se da palavra do Apóstolo: «Nem os anjos, nem os principados, nem os poderes, poderão separar-nos da caridade de Cristo» (Rm 8,38).

58. Aspiras a ver a face do Pai, que está no céu: não procures, por nada deste mundo, perceber forma ou rosto durante a oração.

59. Feliz o espírito livre de qualquer forma durante a oração.

60. Bem-aventurada a inteligência que, no momento da oração, torna-se imaterial e despojada de tudo.

61. Aquele outro leva à perfeição a oração que não cessa de fazer frutificar para Deus toda a sua intelecção primeira (a do estado original).

62. A atenção em busca de oração vai encontrá-la, pois se a oração vem depois de alguma coisa, é justamente da atenção. Apliquemo-nos nisso.

63. A vista é o melhor de todos os sentidos; a oração é a mais divina de todas as virtudes.

64. A excelência da oração não reside na simples quantidade, mas na qualidade. São testemunhas os dois que subiram ao templo (Lc 18,10s) e as palavras: «Nas vossas orações, não useis de vãs repetições» (Mt 6,7).

65. Enquanto ainda tens atenção para o que provém do corpo; enquanto tua inteligência considera os atrativos externos, ainda não viste o lugar da oração: estás mesmo longe do caminho abençoado que conduz a ele.

66. Pois, quando em tua oração tiveres conseguido ultrapassar qualquer outra alegria, é que finalmente, em toda verdade, terás encontrado a oração.

67.A experiência do deserto é um profundo encontro com Deus e uma comunhão de amor em prol da missão de gritar o Evangelho de Cristo com a vida.

Reze:

Salmo 117(118)
Ele é a pedra que vós, os construtores, desprezastes, e que se tornou a pedra angular (At 4,11).

–1 Dai graças ao Senhor, porque ele é bom! *
'Eterna é a sua misericórdia!'

–2 A casa de Israel agora o diga: *
'Eterna é a sua misericórdia!'
–3 A casa de Aarão agora o diga: *
'Eterna é a sua misericórdia!'
–4 Os que temem o Senhor agora o digam: *
'Eterna é a sua misericórdia!'

–5 Na minha angústia eu clamei pelo Senhor, *
e o Senhor me atendeu e libertou!
–6 O Senhor está comigo, nada temo; *
o que pode contra mim um ser humano?
–7 O Senhor está comigo, é o meu auxílio, *
hei de ver meus inimigos humilhados.

–8 'É melhor buscar refúgio no Senhor, *
do que pôr no ser humano a esperança;
–9 é melhor buscar refúgio no Senhor, *
do que contar com os poderosos deste mundo!'

–10 Povos pagãos me rodearam todos eles, *
mas em nome do Senhor os derrotei;
–11 de todo lado todos eles me cercaram, *
mas em nome do Senhor os derrotei; 

=12 como um enxame de abelhas me atacaram, †
como um fogo de espinhos me queimaram, *
mas em nome do Senhor os derrotei.

–13 Empurraram-me, tentando derrubar-me, *
mas veio o Senhor em meu socorro.
–14 O Senhor é minha força e o meu canto, *
e tornou-se para mim o Salvador.

–15 'Clamores de alegria e de vitória*
ressoem pelas tendas dos fiéis.
=16 A mão direita do Senhor fez maravilhas, †
a mão direita do Senhor me levantou, *
a mão direita do Senhor fez maravilhas!'

–17 Não morrerei, mas, ao contrário, viverei *
para cantar as grandes obras do Senhor!
–18 O Senhor severamente me provou, *
mas não me abandonou às mãos da morte.

–19 Abri-me vós, abri-me as portas da justiça; *
quero entrar para dar graças ao Senhor!
–20 'Sim, esta é a porta do Senhor, *
por ela só os justos entrarão!'
–21 Dou-vos graças, ó Senhor, porque me ouvistes *
e vos tornastes para mim o Salvador!

–22 'A pedra que os pedreiros rejeitaram, *
tornou-se agora a pedra angular.
–23 Pelo Senhor é que foi feito tudo isso: *
Que maravilhas ele fez a nossos olhos!
–24 Este é o dia que o Senhor fez para nós, *
alegremo-nos e nele exultemos!

–25 Ó Senhor, dai-nos a vossa salvação, *
ó Senhor, dai-nos também prosperidade!'
–26 Bendito seja, em nome do Senhor, *
aquele que em seus átrios vai entrando!
– Desta casa do Senhor vos bendizemos. *
27 Que o Senhor e nosso Deus nos ilumine!

– Empunhai ramos nas mãos, formai cortejo, *
aproximai-vos do altar, até bem perto!
–28 Vós sois meu Deus, eu vos bendigo e agradeço! *
Vós sois meu Deus, eu vos exalto com louvores!
–29 Dai graças ao Senhor, porque ele é bom! *
'Eterna é a sua misericórdia!'  
– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. *
Como era no princípio, agora e sempre. Amém. 

Ant. A mão direita do Senhor fez maravilhas,
a mão direita do Senhor me levantou!

Ant. 2 Como os jovens no meio das chamas,
cantemos um hino ao Senhor!

Notas:

(2)  Foucauld, Letters to Henry de Castries , Paris, Grasset, 1938, p. 177.
(3) Citado em J.-F. Six. Itinerário espiritual de Charles de Foucauld , Paris, Seuil, 1958, p. 280.
Bibliografia
Catherine de Hueck Doherty, DESERTO VIVO Poustínia, Deserto Vivo: Poustínia
Edições Loyola, São Paulo, SP, Brasil1989, Tradução: Héber Salvador de Lima, S.J. ISBN: 85-15-01044-5 - Madonna House Publications
2888 Dafoe Rd. RR2 Combermere, Ontário, K0J 1L0 Canadá

NOUWEN, Henri J. M. A Espiritualidade do Deserto e o Ministério Contemporâneo – O Caminho do Coração. São Paulo: Ed. Loyola, 2000.
HAMMAN, E. Os Padres da Igreja, São Paulo: Ed. Paulinas, 1980.
LACARRIÈRE, Jacques. Padres do Deserto. São Paulo: Ed. Loyola, 1996.
CHRYSSAVGIS, John.  Ware, Kallistos. Ward, Benedicta. In the Heart of the Desert: Revised Edition: The Spirituality of the Desert Fathers and Mothers (Treasures of the World’s Religions). Bloomington, Ind.: World Wisdom, 2008.