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domingo, 4 de março de 2018

Teólogo e hieromonge (monge - sacerdote) Gabriel Bunge


 

O conhecido teólogo e hieromonge (monge - sacerdote) Gabriel Bunge : A Tradição não é como um antigo folclore que deve-se nutrir e manter artificialmente . Não! A tradição para esses católicos é o meio pelo qual, em cada época se garante o contato pessoal com o Cristo Vivo, sendo então todos os dias de uma vida colocados nas mãos de Deus.
Um eremita católico convertido à ortodoxia 


O conhecido teólogo e hieromonge (monge - sacerdote) Gabriel Bunge, raramente dá entrevistas.
Ele leva uma vida de eremita em uma pequena Skete na Suíça, nunca usa a Internet, e os único meio de comunicação com ele é o telefone, que na verdade é uma cabine de telefone que não fica muito proxímo dos locais nos quais o monge vive o seu dia a dia.
Contudo, o Monge concedeu uma entrevista  a Konstantin Matsan do informativo ortodoxo FOMA.
A razão da entrevista ? No dia 27 de agosto de 2010, Padre Gabriel se converteu a Santa Ortodoxia, sendo oriundo do Catolicismo Romano.
Passamos aqui a reproduzir na sequencia a entrevista, na qual Monge Gabriel relata as razões para a sua decisão e sobre muitos outros tópicos.

" Nós somos como uns esquisitões "

Repórter :  Se alguém sai  de uma tradição cristã e busca outra, isso deve significar que tal pessoa sentia que faltava alguma coisa de

Hieromonge Gabriel : Sim. E se esta pessoa fez tal escolha aos setenta anos de idade, como eu, esta decisão não pode ser considerada como precipitada, pode?

Repórter : Não, de fato não. Mas o que lhe faltava, sendo um monge com  uma grande experiência espiritual?

Hieomonge Gabriel : Para tratar disso tenho que falar não de uma decisão, mas sim de toda uma jornada de vida, com a sua lógica interna: em um ponto este evento aconteceu , mas ele estava sendo preparado por toda a vida.
Como todos os jovens, eu estava procurando meu caminho na vida, por assim dizer.
Entrei na Universidade de Bonn e comecei a estudar filosofia e teologia comparativa. Não muito antes disso, eu tinha visitado a Grécia, e passei dois meses na Ilha de Lesbos. Foi lá que eu vi um verdadeiro Ancião monge ortodoxo pela primeira vez.
Nessa tempo, eu já estava interiormente  atraído para o monaquismo e tinha lido alguma literatura ortodoxa, incluindo fontes russas. Isso me impressionou ainda mais quando vi o Ancião. Ele se tornou a encarnação
do monásticismo que eu tinha encontrado antes apenas nos livros.
De repente, na minha frente, eu vi uma vida monástica que desde o início parecia ser autêntica, verdadeira, a mais próxima da praticada pelos primeiros monges cristãos. Depois pude manter contato com esse Ancião por toda a minha vida toda. Então, eu tinha comigo um ideal de vida monástica.
Quando voltei para a Alemanha, entrei para a Ordem de São Bento, que parecia ser o mais próximo de minhas aspirações. A estrutura da própria Ordem é semelhante ha aquilo que ocorria no início da Igreja Cristã. Na Ordem, não há sistema vertical de subordinação, pois cada comunidade existe por conta própria. O que garante a união das comunidades é a tradição e o Typicon da Igreja.
 Ou seja: Não é a ordem jurídica, mas o ideal espiritual que consolida a unidade.
A propósito, nesse sentido eu acho que são os Beneditinos, de todos os crentes ocidentais,  aqueles que estão mais preparados para compreender os crentes ortodoxos, com mais intensidade.
Contudo, meu Pai Espiritual e eu mesmo posteriormente, percebemos que a minha noção a respeito do idela monástico, minhas leituras sobre o monaquismo oriental , o meu amor pelo Oriente, e minha percepção sobre o Cristianismo de forma geral  eu não encontrava lugar nesta ordem.
 Portanto, o abade, um idoso e experiente homem, a qual eu oferto toda honra, decidiu transferir-me para um pequeno mosteiro na Bélgica, e então parti sem pensar duas vezes.
Passei 18 anos lá, adquiri grande experiência, e de lá, tendo bênção para tal, fui para uma Skete(Um monastério para um ou poucos monges) na Suíça. Todas essas transferências foram causadas por uma razão: a tentativa de progresso rumo a uma vida monástica autêntica, como era com os primeiros Cristãos, como era a vida daqueles cristãos que eu vi na Europa Oriental.
E assim, posso dizer que a minha conversão a Ortodoxia foi apenas o mais  recente passo nesse caminho.

Repórter : Mas por que você decidiu dar esse passo ? Pois pode-se amar Ortodoxia com todo o coração e ficar dentro de uma ala mais tradicional do Catolicismo Romano. Há muitos exemplos assim no Ocidente.

Hieromonge Gabriel : Sim, muitas pessoas que são atraídas para a Ortodoxia, se mantem vinculados a Igreja Católica.
E isso é normal. Na maioria das catedrais ocidentais existem ícones ortodoxos. Na Itália, há escolas profissionais de pintura de ícones ministradas por especialistas russos e de outros centros ortodoxos.
Mais e mais crentes na Europa estão interessadas hoje em hinos Bizantinos, e mesmo os tradicionalistas da Igreja Católica tem sido visto descobrindo a hinografia bizantina. É claro que eles não os utilizam durante o culto divino na igreja, mas fora dela sim, como em shows. A literatura ortodoxa é traduzida em todos os países europeus e os livros são publicados nas principais editoras católicas.
Em suma, no Ocidente, realmente não está perdido o interesse pelo autêntico cristianismo que a tradição oriental tem preservado.
Mas, infelizmente tal forma de interesse não muda nada na vida real das pessoas e na sociedade em geral.
O interesse na Ortodoxia é mais cultural. E os desgraçados como eu que tem um
interesse espiritual na Ortodoxia, são severamente minoritários.
Nós somos como uns esquizitões, nós raramente somos compreendidos.

"Saber sobre as origens das coisas "
Repórter: Como teólogo, você tem falado muitas vezes sobre o problema do Ocidente e sobre a separação do Oriente. Podemos dizer que a sua conversão à ortodoxia é o resultado de sua meditação sobre este tema?

Hieromonge Gabriel: Quando eu estava na Grécia e comecei a migrar  no sentido do Cristianismo Oriental, comecei a perceber como muita dor, a questão do  cisma entre o Oriente e o Ocidente.
Tal tema deixou de ser uma teoria abstrata ou uma trama sobre a  história da Igreja descrita em um livro, mas sim algo que estava afetando diretamente a minha vida espiritual. É por isso que a conversão à ortodoxia começou a parecer um passo muito lógico.
Na juventude, eu sinceramente esperava que a união do Ocidente e do Cristianismo Oriental fosse possível. Eu estava esperando por ela acontecer com todo meu coração. E eu tinha alguns motivos para acreditar nela. No Concílio Vaticano II, havia observadores da Igreja Ortodoxa Russa, incluindo o atual Metropolita de São Petersburgo e Ladoga Vladimir (Kotlyarov).
Naquela época o Metropolita Nikodim (Rotov) foi muito ativo nos assuntos internacionais. E muitas pessoas achavam que as duas Igrejas se moviam para eventualmente se encontrarem em um ponto comum.
Era o meu sonho que estava se tornando mais e mais real. Mas com o tempo, fui envelhecendo e aprendendo algumas coisas mais profundas, deixei de acreditar na possibilidade de uma reconciliação das duas Igrejas no que diz respeito aos Serviços Divinos e unidade institucional.
 O que então eu poderia fazer? Só me restava  ir na busca por esta unidade em mim mesmo, individualmente, restaurá-la em uma alma separada, a minha . Eu não poderia fazer mais.
Eu apenas segui a minha consciência, e nela veio a Ortodoxia.

Repórter: Não é muito radical a sua opinião?

Hieromonge Gabriel: Ainda na Grécia, sendo católico, eu percebi que foi o Ocidente que se separou do Oriente, não o contrário. Naquele momento, tal constatação era impensável para mim. Eu precisava de tempo para entender e aceitar isso. Não posso culpá ninguém, é claro que eu não posso! Estamos falando de todo um grande processo histórico, e nós não podemos dizer que esta ou aquele pessoa é a culpado por isso. Mas os fatos são fatos: o que  chamamos de Cristianismo Ocidental hoje em dia,  nasceu como uma cadeia de rupturas com o Oriente. Estas rupturas foram a reforma gregoriana, seguido da separação das igrejas na Século XI, em seguida, a Reforma no século XV, e finalmente, o Concílio Vaticano II, no século XX. Este é, certamente, um posição muito dura, mas  acho que é a mais correta sobre o todo em questão.

Repórter: No entanto, existe uma leitura, no qual se determina que essas rupturas são fruto de um processo histórico normal , porque qualquer fenômeno social (e a Igreja Cristã não é excepção), vai  se consolidar através dos seus estágios de desenvolvimento. Qual é a tragédia então?

Hieromonge Gabriel : A tragédia está nas pessoas. Em uma situação radical, quando há acontecimentos revolucionários, as pessoas acabam a dividir a percepção da vida através  de  'antes' e  'depois'.
Então os revolúcionarios passam a querer contar a história apenas a partir deste novo ponto, como se tudo o que aconteceu antes não tivesse qualquer importancia.
Quando o Protestantes proclamaram  a Reforma, eu não acho que eles soubessem que tal ação levaria à separação da Igreja Ocidental em dois grandes campos. Eles não vislumbravam isso, eles só agiram.
E então, começaram a dividir os que estavam à sua volta, como existindo o sadios - aqueles que aceitaram Reforma - e os insalubres, os doentes - os Seguidores do Papa.
Além disso, a história se repete: o mesmo aconteceu agora em torno do Concílio Vaticano II na Igreja Católica Romana. Há pessoas que não aceitam as decisões do Concílio, e há as pessoas que o consideram como uma espécie de novo ponto de partida.

Repórter : Qual é a sua opinião sobre os humores liberais entre os Católicos modernos?

Hieromonge Gabriel : Estou muito feliz por ter a oportunidade de abordar este temas para o público russo e dizer que você não deve reduzir todos os católicos a um único nível.
Entre eles há sim de fato os que  são mais seculares, mais liberais. É isso não significa que  são criminosos, é apenas o ponto de vista deles sobre a vista.
Há outros também  que são completamente dedicados à tradição. Eu não os chamaria de tradicionalistas, porque a Tradição em si não é tão importante para eles. A Tradição não é como um antigo folclore que deve-se nutrir e manter artificialmente . Não! A tradição para esses católicos  é o meio pelo qual, em cada época se garante o contato pessoal com o Cristo Vivo, sendo então todos os dias de uma vida colocados nas mãos de Deus.
Repórter : E  qual deve ser a nossa atitude para aqueles que não são muito dedicados a tradição?

Hieromonge Gabriel: Não devemos os constranger e é claro que nós não devemos persegui-los. Qualquer pessoa é merecedora da misericórdia cristã.
Se eu, sendo um ortodoxo, vejo uma pessoa Católica em uma igreja ortodoxa, eu gostaria de abordar essa pessoa  e dizer-lhe abertamente, suavemente, e confidencialmente: 
"Ouça, irmão, talvez você goste de saber que no início, todos nós faziamos o Sinal da Cruz desta forma: a partir de direita para a esquerda. Agora tudo mudou. Não, eu não estou o convidando a reconsiderar toda a sua vida e correr para o Igreja Ortodoxa. Eu só quero que você  possa saber sobre as origens das coisas."
Repórter : E por que você escolheu a Igreja Ortodoxa Russa?

Hieromonge Gabriel : Acho que o fator-chave em uma decisão como essa, são as pessoas que  nos são mais próximas.
Quando os  bispos da Igreja Russa souberam que eu estava adotando a Ortodoxia, eles me disseram:  "Nós não estamos nem um pouco surpresos! Você sempre esteve conosco. Mas agora vamos ter a definitiva  e Sagrada Comunhão, em um só Cálice "
Conheço o  Metropolita Hilarion, o atual chefe do Departamento de relações externas do Patriarcado de Moscou já faz um longo tempo. Nós nos conhecemos em 1994 quando ele era um hieromonge.
Eu o considero como meu amigo e valorizo essa amizade.
O Hierarca Hilarion é uma das pessoas mais  competentes e bem informadas  que já conheci. Ele realmente se tornou para mim a pessoa mais capacitada para me auxiliar em meu processo de mudança, pois me conhecia, assim como minhas crenças e minha situação específica. E  foi isso que aconteceu. 
Repórter : Como essa transição vai ajudá-lo a alcançar o seu ideal de vida espiritual?

Hieromonge Gabriel :  Se você deseja ouvir de mim alguma profecia, isso  não vou poder lhe dar, pois não sou nenhum profeta. Eu simplesmente vou vivendo, sem saber o que vai acontecer.
Até agora  já encontrei muitas coisas na Rússia que despertaram o meu interesse.

Por exemplo, pude visitar Valamo. Não sei se você sabe, mas se no Ocidente um crente é atraido por buscar uma vida de máxima reclusão monástica, ele simplesmente não tem para onde ir.
Ermidas, como há  na Rússia, não existem no  Ocidente. Lá ,esta forma de vida parece ser "ultrapassada"...
Como um monge estou constantemente em busca da máxima reclusão, até da solidão.
Em Valamo,pude sentir que tudo isso se encontrava lá.

Repórter :  Mas não havia solidão suficiente em sua skete na Suíça? Pois é certo que Valamo recebe muitos peregrinos regularmente.

Hieromonge Gabriel : A Suíça é um país pequeno e densamente povoado. A skete é cercada por uma floresta, mas em 15 minutos andando a pé, existe uma aldeia com cerca de uma centena pessoas  vivendo lá.
Em Valamo é muito mais silencioso. Sim, claro, há muitos peregrinos que vão até lá. Mas o lugar em si, como eu imaginava, está mesmo isolado do resto do mundo. Talvez seja assim porque é uma ilha, ou talvez seja mesmo por outras razões, não-geográficas.
Parece-me que essas razões, podem ser a origem deste estado desejável de reclusão no coração , encontrado por todos aqueles que vão até lá.

Repórter : É mais difícil encontrar lugares assim na Europa?

Hieromonge Gabriel : Para uma definição em linhas gerais, podemos dizer que isto simplesmente não existe em todo o Ocidente.
A autêntica tradição monástica Ocidental foi praticamente erradicada no curso da revolução burguesa francesa de 1789. Eu tenho uma firme convicção que as conseqüências desta revolução para a Europa foram não menos pesadas que as consequências da  revolução de 1917 e os 70 anos de poder ateu foram para a Rússia.
Na França, depois daqueles acontecimentos sangrentos, o  monaquismo teve de ser restaurado quase do zero. E foram sacerdotes comuns, não monges, os responsáveis por realizar isso, pois não havia mais ninguém que o pudesse fazer.
Na Rússia o monaquismo sobreviveu, apesar de todos os choques e horrores.
Sim, isso aconteceu ao nível dos indivíduos particulares,  ou seja, dos anciãos. Mas elas existiam!
E eles mantiveram a tradição espiritual, a vida monástica e a fé.
Parece-me que em tudo o que diz respeito a vida monástica , a Rússia não de começar do zero em absolutamente nenhum quesito. E é por isso que fico entristecido quando ouço os russos as vezes dizendo : "nós tivemos todas as igrejas destruídas, a Igreja foi erradicada, etc... "
Eu sempre busco responder : " Na minha opinião, vocês tem, considerando tudo isso, além dos novos mártires e confessores, os anciãos monásticos. Eles estão  todos próximos, basta esticar o braço para os tocar. Só que você tem de esticá-lo, buscar essa riqueza e utilizá-la na prática, por assim dizer, em sua vida."
 Eu sempre tenho a impressão de que a maioria das pessoas na Rússia não valorizam isso. Ou simplesmente não entendem como  isso é valioso. 

Repórter : Por que, na sua opinião, isso acontece ?

Hieromonge Gabriel : Quando falam de problemas, as pessoas se concentram no material, e às dificuldades externas que os mosteiros e as Igreja enfrentam hoje em dia são o principal enfoque.
Sim, há muito o que reconstruir. Mas esta é apenas a parte técnica, por assim dizer, apenas as paredes e os telhados. Mas então as pessoas reclamam que  telhados e paredes custam dinheiro, e elas se angustiam sobre o como encontrar o dinheiro ...
Mas se nós mentalmente buscarmos ir alem,  acima do telhado por assim dizer, ainda que tenhamos que ver este além pelos buracos das ruínas, nós veremos que as paredes e demais aspectos não são  a coisa principal, pois é mais importante saber  com que tipo de coração se entra nos edifícios materialmente concebidos. 
E esta é a coisa mais importante, essa tradição espiritual, que ainda está presente na Rússia, pois os anciãos monásticos e os novos mártires preservaram  tudo isso para nós.
 Às vezes as pessoas discutem, "Mas há tão poucos anciãos hoje, a maioria deles já morreu , não há mais ninguém para nos ensinar." Diante disso sempre respondo: "Se você não pode ter a vida dos Anciãos como um meio de ensiná-lo, então você já está morto. Você tem suas hagiografias, seus textos, ensinamentos.
Leia-os, e os correlacione com sua vida."  

"É necessário saltar na água"

Repórter : O que  mudou  na sua vida diária após a  conversão?

Hieromonge Gabriel: É claro, há coisas que não podemos deixar de modificar. Tendo se tornado membro da Igreja Ortodoxa Russa, mas ainda vivendo na Suíça, eu me submeto ao Arcebispo Inocencio de Korsun.
E é claro,minhas relações com a Igreja Católica  não podem mais, naturalmente, permanecem as mesmos.

Repórter : Qual a reação que você espera dos seus Filhos espirituais? Pois eles devem ser todos os católicos ...

Hieromonge Gabriel: Em primeiro lugar, felizmente sempre soube lidar de forma respeitosa com todas as pessoas, e tenho certeza que eles vão respeitar a minha decisão.
Em segundo lugar,  nunca mantive minhas opiniões e crenças em segredo. Logo, todos os meus filhos espirituais conhecem sobre o meu ideal, vinculado ao cristianismo no Oriente. Então não penso  que qualquer um deles irá se surpreender. Eu não disse nada a eles de antemão para evitar discussões desnecessárias.
Mas não acho que nada de extraordinário vai acontecer. Acredito que os meus filhos continuaram vindo buscar as palestras espirituais.
Finalmente, me comunico com essas pessoas regularmente, e compartilho  meus  ideais espirituais  nesta relação, e se não fosse assim, elas não viriam até a mim.

Repórter:  E a respeito dos Serviços Divinos?

Hieromonge Gabriel: Claro, a partir de agora não vou poder administrar a comunhão aos católicos.
Mas antes mesmo da minha conversão era muito raro ministrar a Comunhão, pois a Skete se encontra distante  do grande mundo, o território no qual ela se encontra  é mantido trancado, os serviços também são privados, e a capela é pequena , para dez pessoas no máximo.
Somente no Natal e na Páscoa, abriamos as portas para todos aqueles que desejavam se juntar a nós.

Repórter : Se você puder e quiser dar alguns breves conselhos para como os homens contemporâneos devem organizar a sua vida de oração, o que você diria?

Hieromonge Gabriel: Se você quer aprender a nadar, é necessário saltar na  água. Só assim você pode aprender. Só quem reza pode sentir o significado, o gosto e a alegria da oração. Você não pode aprender a rezar sentado em uma poltrona grande e quente. Se você está pronto para se ajoelhar, se arrepender sinceramente, para levantar seus olhos e mãos para o céu, então muitas coisas serão reveladas a você.
Claro que você pode ler muitos livros, ouvir palestras, conversar com as pessoas, e estes são também meios muito importantes e ajudam certamente. Mas qual é o valor de todas estas coisas se não tomarmos as medidas reais depois? Se não começarmos a rezar?
Penso que você deve entender isso também. Obviamente, se está perguntando, parte da posição de quem não acredita ...
Repórter : Exatamente. Nossa revista é para aqueles que duvidam.

Hieromonge Gabriel : Não há nada de errado com dúvidas, e mesmo elas são úteis. Contudo, nós não devemos viver a buscar ter dúvidas. Mas  se elas aparecem, é preciso simplesmente lembrar que todos nós temos uma oportunidade de saber : "Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente."(João 20: 27)

Como conciliar a misericórdia e a justiça em Deus?




Para muitas pessoas é impossível conciliar a ideia de um Deus paciente e misericordioso para conosco, com a concepção de um Deus justo e rigoroso. Dependendo como se analisa a questão parece que um atributo cancela o outro. Enfim, teríamos que fazer uma opção entre a misericórdia e a justiça.
Todavia a fé católica, baseada na Escritura e na Tradição, sempre entendeu que não há contradição entre essas duas verdades. Deus é misericordioso e ao mesmo tempo é justo.
Como diz São João Paulo II na sua Carta Encíclica A Misericórdia Divina III, 4: “A misericórdia difere da justiça, mas não contrasta com ela, se admitirmos na história do homem a presença de Deus, o qual já como Criador se ligou com particular amor à sua criatura”.
De fato, não podemos pensar a misericórdia separada da verdade. O exercício da misericórdia pressupõe o acolher o outro e ter paciência com suas limitações. Entretanto, implica também mostrar o caminho da verdade e convidar o outro a entrar na dinâmica da conversão.
Cristo é o nosso grande modelo e quando olhamos sua vida vemos tanto a face da misericórdia quanto a face da justiça. Quantas vezes o Senhor foi doce, manso, paciente e acolhedor. Mas também em quantos episódios foi duro, severo e não conivente com o mal.
No Evangelho vemos tanto Jesus acolhendo a pecadora que alguns queriam apedrejar, como expulsando do Templo os vendilhões.
Enfim, precisamos compreender que a justiça divina não significa um sacrifício da verdade, mas sim um prolongamento da mesma. Deus de fato não possui nenhuma dívida para conosco, mas apenas consigo mesmo na medida em que faz promessas. Ora Ele é justo quando efetivamente realiza suas promessas. Portanto, a justiça de Deus está intimamente ligada à sua fidelidade.
Assim, percebe-se que se conseguimos ser santos ou justos é porque Deus nos trata com misericórdia e é fiel a Ele mesmo cumprindo suas promessas.
Toda essa realidade permeia essa vida. Aqui de fato temos o mundo da misericórdia mediado pela justiça e fidelidade do Senhor. Mas quando partirmos ocorrerá o juízo. Seremos julgados e teremos que prestar contas de nossos desejos, escolhas e atos, não havendo mais misericórdia.
Bettencourt, Estêvão T.


"Onde há vontade, há um Caminho"

quinta-feira, 1 de março de 2018

Cântico dos cânticos, que é de Salomão.




A introdução chama o poema de "Cântico dos cânticos", uma construção superlativa frequente na Bíblia hebraica para demonstrar algo como o maior e mais belo de sua classe (como o Santo dos Santos). O poema propriamente dito começa com a expressão do desejo da mulher por seu amante e sua auto-descrição às "filhas de Jerusalém": ela insiste em sua cor negra, igualando-a às "tendas de Quedar" (nômades) e às "cortinas de Salomão". Segue um diálogo entre os amantes: a mulher pede um encontro ao homem; ele responde atiçando-a ligeiramente. Os dois competem nos elogios mútuos ("o meu amado é para mim como um ramalhete da hena", "a macieira entre as árvores do bosque", "qual uma açucena entre espinhos"). Esta seção termina com a mulher pedindo às filhas de Jerusalém que não despertem um amor como o dela antes de ele estar pronto.
Os cristãos admitiram a canonicidade do Cântico dos Cânticos desde o princípio, mas, depois que exegetas judeus começaram a interpretar o Cântico de forma alegórica, como um símbolo do amor de Deus por seu povo, os exegetas cristãos seguiram o mesmo caminho, tratando o amor celebrado pelo livro como uma analogia ao amor entre Deus e sua Igreja. Depois de séculos, a ênfase na interpretação mudou: a partir do século XI foi acrescentado um elemento moral e, no século XII, a Virgem Maria passou a ser a noiva. Cada nova interpretação absorvia a anterior sem substituí-la e o comentário bíblico foi se tornando cada vez mais complexo, com diversas camadas de significado. Esta abordagem levou a conclusões não encontradas nos livros mais claramente teológicos da Bíblia, que consideram a relação entre Deus e o homem como desigual. Por outro lado, a leitura de Cântico dos Cânticos como uma alegoria do amor de Deus por sua Igreja sugere que os dois parceiros são iguais, unidos numa relação emocional livremente consentida...

Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho.
Suave é o aroma dos teus ungüentos; como o ungüento derramado é o teu nome; por isso as virgens te amam.
Leva-me tu; correremos após ti. O rei me introduziu nas suas câmaras; em ti nos regozijaremos e nos alegraremos; do teu amor nos lembraremos, mais do que do vinho; os retos te amam.
Eu sou morena, porém formosa, ó filhas de Jerusalém, como as tendas de Quedar, como as cortinas de Salomão.
Não olheis para o eu ser morena, porque o sol resplandeceu sobre mim; os filhos de minha mãe indignaram-se contra mim, puseram-me por guarda das vinhas; a minha vinha, porém, não guardei.
Dize-me, ó tu, a quem ama a minha alma: Onde apascentas o teu rebanho, onde o fazes descansar ao meio-dia; pois por que razão seria eu como a que anda errante junto aos rebanhos de teus companheiros?
Se tu não o sabes, ó mais formosa entre as mulheres, sai-te pelas pisadas do rebanho, e apascenta as tuas cabras junto às moradas dos pastores.
Às éguas dos carros de Faraó te comparo, ó meu amor.
Formosas são as tuas faces entre os teus enfeites, o teu pescoço com os colares.
Enfeites de ouro te faremos, com incrustações de prata.
Enquanto o rei está assentado à sua mesa, o meu nardo exala o seu perfume.
O meu amado é para mim como um ramalhete de mirra, posto entre os meus seios.
Como um ramalhete de hena nas vinhas de En-Gedi, é para mim o meu amado.
Eis que és formosa, ó meu amor, eis que és formosa; os teus olhos são como os das pombas.
Eis que és formoso, ó amado meu, e também amável; o nosso leito é verde.
As traves da nossa casa são de cedro, as nossas varandas de cipreste.

Cânticos 1:1-17
 

"Onde há vontade, há um Caminho"

São Gregório de Nazianzo (330-390), bispo, doutor da Igreja 14.ª homilia sobre o amor aos pobres, 38.40




«Um pobre [...] jazia junto do seu portão»
«Felizes os misericordiosos», diz o Senhor, «pois alcançarão misericórdia» (Mt 5,7). A misericórdia não é a menor das bem-aventuranças: «feliz o que compreende o pobre e o fraco»(Sl 71,13); e também: «o homem bom compadece-se e partilha» (Sl 111,5); e ainda: «sempre o justo se compadece e empresta» (Sl 36,26). tornemos, pois, nossa esta bem-aventurança: saibamos compreender, sejamos bons.

Nem a noite deve deter a tua misericórdia; «não digas: volta amanhã e logo te darei» (Prov 3,28). Que não haja hesitação entre a tua primeira reação e a tua generosidade. [...] «Partilha o teu pão com aquele que tem fome, recolhe em tua casa o infeliz sem abrigo» (Is 58,7) e fá-lo de boa vontade. «Aquele que exerce a misericórdia», diz S. Paulo, «que o faça com alegria» (Rom 12,8).

O teu mérito será redobrado pelo teu zelo; uma dádiva feita de má vontade ou por obrigação não tem graça nem fulgor. É com um coração em festa e sem lamentos que devemos fazer o bem. [...] Então a luz jorrará como a aurora, e as nossas forças não tardarão a restabelecer-se. E haverá quem não deseje a luz e a cura? [...]

Por isso, servos de Cristo, seus irmãos e seus co-herdeiros (Gal 4,7), sempre que tenhamos oportunidade, visitemos Cristo, alimentemos Cristo, agasalhemos Cristo, abriguemos Cristo, honremos Cristo (cf Mt 25,31s). Não só sentando-O à nossa mesa, como alguns fizeram, ou cobrindo-O de perfumes, como Maria Madalena, ou participando na sua sepultura, como Nicodemos. [...] Nem com ouro, incenso e mirra, como os magos, [...] pois o Senhor do universo «quer a misericórdia e não o sacrifício» (Mt 9,13), prefere a nossa compaixão a milhares de cordeiros gordos (Miq 6,7). Apresentemos-Lhe pois a nossa misericórdia pela mão desses infelizes que jazem hoje por terra, para que, no dia em que partirmos daqui, eles nos «conduzam à morada eterna» (Lc 16,9), ao próprio Cristo, nosso Senhor.


"Onde há vontade, há um Caminho"

5ª-feira da 2ª Semana da Quaresma




Evangelho - Lc 16,19-31
Tu recebeste teus bens durante a vida e Lázaro os males; agora ele encontra aqui consolo e tu és atormentado.

+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas 16,19-31

Naquele tempo, Jesus disse aos fariseus:
19 'Havia um homem rico,
que se vestia com roupas finas e elegantes
e fazia festas esplêndidas todos os dias.
20 Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas,
estava no chão à porta do rico.
21 Ele queria matar a fome
com as sobras que caíam da mesa do rico.
E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas.
22 Quando o pobre morreu,
os anjos levaram-no para junto de Abraão.
Morreu também o rico e foi enterrado.
23 Na região dos mortos, no meio dos tormentos,
o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão,
com Lázaro ao seu lado.
24 Então gritou: 'Pai Abraão, tem piedade de mim!
Manda Lázaro molhar a ponta do dedo
para me refrescar a língua,
porque sofro muito nestas chamas'.
25 Mas Abraão respondeu: 'Filho, lembra-te
que tu recebeste teus bens durante a vida
e Lázaro, por sua vez, os males.
Agora, porém, ele encontra aqui consolo
e tu és atormentado.
26 E, além disso, há um grande abismo entre nós:
por mais que alguém desejasse,
não poderia passar daqui para junto de vós,
e nem os daí poderiam atravessar até nós'.
27 O rico insistiu: 'Pai, eu te suplico,
manda Lázaro à casa do meu pai,
28 porque eu tenho cinco irmãos.
Manda preveni-los, para que não venham também eles
para este lugar de tormento'.
29 Mas Abraão respondeu:
'Eles têm Moisés e os Profetas, que os escutem!'
30 O rico insistiu: 'Não, Pai Abraão,
mas se um dos mortos for até eles,
certamente vão se converter'.
31 Mas Abraão lhe disse:
`Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas,
eles não acreditarão,
mesmo que alguém ressuscite dos mortos'.'
Palavra da Salvação.

 
"Onde há vontade, há um Caminho"