D. Odilão Moura O.S.B.
Tomás de
Aquino é indubitavelmente o máximo teólogo da Igreja. Como teólogo foi sempre
considerado, e por isso recebeu os títulos de Doutor Angélico, Doutor Comum,
Doutor Universal. Embora a sua eminência teológica, esta não ofusca a sua
excelência filosófica. Muitas vezes a ímpar sabedoria filosófica do Aquinense é
esquecida, citado que é em geral como teólogo. A sua original e superior
grandeza filosófica é, por vezes, desconhecida. As XXIV Teses Tomistas
foram consignadas justamente para revelarem os postulados da autêntica
filosofia de S. Tomás. Há realmente uma original e verdadeira filosofia de S.
Tomás – o Tomismo, e não será legítimo denominá-la “filosofia
aristotélico-tomista”. É inegável, como afirmam Maritain e Gilson, que a
filosofia ensinada por S. Tomás lhe é própria. Não se pode deixar de reconhecer
que S. Tomás seguiu as trilhas de Aristóteles, mas ele reformulou de tal modo
os ensinamentos do Estagirita, que arquitetou uma outra filosofia.
Basta
considerar como revolveu a filosofia peripatética, introduzindo nela os
conceitos de criação das coisas por Deus, da temporalidade da matéria-prima, do
próprio ser, levando a suas últimas conseqüências aquilo que o Filósofo apenas
esboçara. Aliás, nenhum filósofo deixa de se fundamentar em outro filósofo ou
em outros, ao apresentar as suas próprias aquisições. Isto, no entanto, não lhe
retira o título de criador ou iniciador de outra filosofia. Ninguém denomina a
filosofia de Aristóteles “filosofia platônico-aristotélica”.
Qual a nota
fundamental da filosofia de S. Tomás ? É ser ela “realista”. Parte o
Tomismo da realidade das coisas, não de idéias imaginadas pelo filósofo que
delas conclui todo um sistema coordenado de teses. Origina-se o Tomismo da
percepção sensível do mundo, para, após, dela tirar, no plano abstrativo da
inteligência, todo um conjunto conseqüente e harmonioso de teses. Bem define a
filosofia de S. Tomás o Pontífice Leão XIII, quando escreve na genial Encíclica
Aeterni Patris: “O Doutor Angélico buscou as conclusões filosóficas nas
razões principais das coisas, que têm grandíssima extensão e conservam em seu
seio o germe de quase infinitas verdades, para serem desenvolvidas em tempo
oportuno e com abundantíssimo fruto pelos mestres dos tempos posteriores”.
“As
razões principais das coisas”, eis o ponto de partida do Tomismo. Das
coisas existentes, apreendidas pelos sentidos, conceituadas, após, pela
inteligência, sobe S. Tomás até as explicações últimas das mesmas. E é subindo
das percepções mais primitivas das coisas que S. Tomás chega à certeza do
supremo Criador delas. Vindo das mudanças das coisas, da causalidade existente
entre elas, da contingência, das perfeições, e da ordem harmoniosa das mesmas,
pelo caminho das cinco vias, é que o Angélico atinge a sublimidade, a suma
perfeição, o ato puro, de Deus. Conhece assim a última explicação das coisas que
está em Deus. Por isso o realismo tomista é a filosofia do ser e a filosofia da
verdade. A verdade é a obsessão de S. Tomás, justamente porque a verdade é a
correspondência da mente com as coisas. Em primeiro lugar, as coisas; depois, a
mente. Em primeiro lugar, o objeto; depois, o sujeito. Do conúbio
sujeito-objeto nasce a harmoniosa construção tomista. Repugna-lhe toda doutrina
subjetivista. O realismo tomista tem os pés no chão. Foge dos devaneios, por
vezes atraentes, das filosofias que partem da negação da “coisa espiritual” e
reduzem as coisas ao mundo corpóreo. Evidentemente, como não pode haver
concordância do Tomismo com tais filosofias, não pode haver também concordância
com o materialismo.
Embora o
Tomismo puro negue todas essas filosofias, contudo, havendo nelas algum
elemento de verdade, assume-o S. Tomás. O Tomismo, por isso, é eminentemente crítico.
A verdade é de todos, e o Angélico escreve que “toda verdade, dita por
quem quer que seja , vem do Espírito Santo “, e diante das diversas
opiniões dos filósofos: “não olhes por quem são ditas, mas o que dizem “. O
critério supremo do Tomismo é a verdade imparcialmente aceita e proposta.
Escreve S. Tomás: “O estudo da filosofia não é para se saber o que os
homens pensaram, mas para que se manifeste a verdade” (De Coelo et Mundo,
I,22). Naturalmente decorre da filosofia da verdade ser ela “a filosofia do
ser”. O ato de ser é o fundamento primeiro das coisas e a última
determinação da perfeição das mesmas. A noção do ser é a primeira que afeta a
nossa inteligência, e perpassa todos os nossos conhecimentos. O ser é a própria
natureza de Deus, isto é, sabemos certa e logicamente que Deus é. Todavia,
conhecêmo-lo por analogia, não de modo unívoco. Se o Tomismo admite entes de razão,
cuja realidade objetiva está tão somente na inteligência, os seres de razão
nada mais são que idéias formuladas pela razão, para que melhor se atinja a
realidade existencial das coisas. Somente em Deus o ser atinge a sua suprema
perfeição. Deus une todas as perfeições na infinitude de um ser que vem de si
mesmo e que desconhece mudanças e sucessão. Deus é o ser de ato puro destituído
de qualquer imperfeição ou potência – a perfeita posse e simultânea de
todas as perfeições: é o ser eterno (Boécio).
O Papa Paulo
VI com felicidade descreve a filosofia tomista como abrangendo o Ser “quanto
no seu valor universal, quanto nas suas condições essenciais”. Ao que João
Paulo II acrescenta em belos termos que “esta filosofia poderia ser chamada
filosofia da proclamação do ser, o canto em honra daquilo que existe”.
O respeito
tributado por S. Tomás a todos os filósofos externa-se nestas palavras, porque
contribuem para que a verdade resplandeça: “Os homens mutuamente se
auxiliam para a consideração da verdade. De duas maneiras: um auxilia o outro
nesta consideração: direta ou indiretamente. Diretamente, são auxiliados por
aqueles que encontraram a verdade, porque, como foi dito acima, enquanto cada
um dos que a encontraram, as introduz num só contexto que introduz os pósteros
em grande conhecimento da verdade. Indiretamente, enquanto os anteriores,
errando a respeito da verdade, deram aos posteriores ocasião de se exercitarem,
para que, havida por sua diligente discussão, a verdade apareça com clareza” ( In
II Met. 1, n° 289 ).
A filosofia
do ser e da verdade, a tomista será também a filosofia de Cristo e, por isso, a
filosofia da Igreja. Por que a “filosofia de Cristo”? Evidentemente
Cristo não se manifestou como filósofo, nem formulou um sistema filosófico. A
imagem que nos deixou de si não foi a de um filósofo, mas de um líder
religioso. O seu linguajar nada possuía da terminologia de um filósofo. Não se
afastou da linguagem popular. Não obstante, a sua mensagem religiosa contém
implicitamente a filosofia do senso comum, da afirmação existencial
das coisas, do princípio de contradição, dos princípios de causalidade e
finalidade. Nela não se encontra o subjetivismo cartesiano, o criticismo
kantiano, nem o idealismo hegeliano, nem o existencialismo sartriano e
heideggeriano etc. Seria até ridículo tal mensagem da afirmação daquilo que
vemos e tocamos não corresponder à realidade objetiva das coisas.
Em profundas
e relevantes explanações, o filósofo e teólogo Claude Tresmontant desvenda-nos,
na Bíblia, uma implícita e subjacente filosofia metafísica e moral, que
constitui o núcleo central do pensamento israelita. Cristo naturalmente não se
afastou do pensamento do seu povo. Lê-se num dos magistrais livros de
Tresmontant: “O cristianismo comporta – é isto que este trabalho quer pôr
em luz – certas implicações e certas teses, uma certa estrutura metafísica que
não são quaisquer. Quero dizer que as questões admiravelmente reconhecidas como
derivadas do domínio metafísico, relativas ao ser criado e ao ser incriado, ao
uno e ao múltiplo, o futuro, a temporalidade, o material e o sensível, a alma e
o corpo, o conhecimento, a liberdade, o mal, etc. – o cristianismo acrescenta
algumas respostas que lhe são próprias (ainda que comuns com o judaísmo), originais
e que o definem, o constituem no plano metafísico. A doutrina cristã do
Absoluto deriva por uma parte, e sob certo ângulo da metafísica… Por que a
doutrina cristã do Absoluto não entrará com o mesmo titulo que as outras na
história das filosofias humanas?(..) A Escritura Sagrada, a teologia bíblica, a
teologia cristã contêm na verdade um número de doutrinas, de teses, que por
direito decorrem da razão natural. Existe uma filosofia natural no interior da
Revelação “.
Tal
filosofia natural contida nas Escrituras, peculiar à cultura israelita, é a
filosofia de Cristo e conseqüentemente, a de S. Tomás. Confirma-o o Papa Bento
XV com estas palavras: “Aprovamos e fazemos nosso tudo que disseram Leão
XIII e Pio X sobre a necessidade de seguir a doutrina de S. Tomás. Nem os
nossos Predecessores nem nós temos que nos esforçar para recomendar e ordenar
outra filosofia, senão a que é segundo Cristo, e por isso exigimos que nossos
estudos filosóficos se façam em completo acordo com o método e os princípios da
filosofia de S. Tomás, porque nenhuma outra serve para expor, defender
vitoriosamente a verdade revelada “‘.
Sendo o
Tomismo a filosofia de Cristo, não pode deixar de ser senão a
filosofia da Igreja, do Corpo Místico de Cristo. Conseqüentemente nada mais
concorde com a autenticidade católica que a adoção da filosofia de S. Tomás. E
também evidencia-se como gritante aberração um católico menosprezar, ou desejar
conciliar, o Tomismo com o subjetivismo cartesiano, com o criticismo kantiano,
com o idealismo hegeliano, etc.
O Tomismo é
a filosofia da Igreja, a preferida entre as demais pela Igreja. Contudo, já que
“preferência não é exclusividade”, ela permite que um católico siga
outra filosofia. Mas outra filosofia que defenda “o genuíno valor do
conhecimento humano, os indestrutíveis princípios da metafísica – a saber, de
razão suficiente, de causalidade, de finalidade, e que propugna a capacidade de
a inteligência atingir a verdade certa e imutável”. Continua o Papa Pio
XII, no Documento citado: “Nenhum católico pode pôr em dúvida quanto tudo
isso é falso (isto é, a contradição das verdades acima), especialmente
tratando-se de sistemas como o imanetismo, o idealismo, o materialismo, seja o
histórico ou o dialético, ou ainda como o existencialismo quando professa o
ateísmo, ou quando nega o valor do raciocínio no campo da metafísica”.
Três Papas
declaram que “A Igreja fez sua a doutrina de S. Tomás”.
Concluamos
esta longa introdução esclarecendo que S. Tomás não elaborou sozinho a sua
filosofia, não a tirou apenas da sua genial inteligência, mas recebeu
contribuição dos helênicos Platão e Aristóteles, dos israelitas Avicebron e
Maimônides, dos árabes Avicena e Averróis, dos Padres da Igreja, sobretudo de
Santo Agostinho, da metafísica implícita na Revelação, e com o seu agudíssimo
espírito crítico uniu a herança recebida daqueles predecessores às suas
contribuições pessoais, e formulou o seu admirável Realismo metafísico que nos
legou. A essência deste Realismo está condensada nas XXIV Teses Tomistas.
Pode ainda
surgir a pergunta, por terem sido As XXIV Teses formuladas pela Igreja
e por ela propostas, se a uma pessoa que confesse outro credo religioso que o
católico, lhe serão aceitáveis as XXIV Teses de S. Tomás de Aquino.
Evidentemente teremos uma resposta positiva, porque essas teses limitam-se ao
campo da filosofia formulada pela razão natural. Ademais, as que se referem à
temporalidade do mundo, à imortalidade de alma, á dualidade corpo e alma, à
doutrina da criação, embora sejam afirmadas na Revelação, poderão ser
descobertas pela própria razão natural. Elas se limitam, como foi afirmado
acima, às filosofias que prescindem como tais da teologia e das verdades
religiosas, dos mistérios e dogmas da fé.
Escreve a respeito desta afirmação o filósofo
Jacques Maritain: “É um enorme erro – Gilson tem razão quando insiste nisso –
dizer-se, como repetem muitos professores, que a filosofia de S. Tomás é a
filosofia de Aristóteles. A filosofia de S. Tomás é a de S. Tomás. E seria
também grande erro dizer que S. Tomás não deve à filosofia de Aristóteles sua
filosofia. S. Tomás não se deteve no ente, foi direto ao ato de ser”.
(Maritain. Jacques. O Camponês de Carona – Trad. União Gráfica.
Lisboa, p. 164).
Este aspecto da conceituação tomista do ser foi
com grande precisão formulado pelo filósofo e bispo argentino D. Derisi. (Cf.
Derisi. O.D. Santo Tomas de Aquino y La Filosofia Actual. Ed.
Universal. Buenos Ayres, 1975, p. 289.
Leão XIII. Enc. Aeterni Patris (04/08/1879)
n° 22 – cf. infra Apêndice I.
Tresmontant. Claude. La Métaphysique du
Christianisme et la Naissance de La Philosophie Chrètienne. Ed. du Seuil.
Paris, 1961. p.14-15. A mesma doutrina, desenvolvida nas obras deste autor: La
Doctrine des Prophetes d’Israel (Ed. du Seuil. Paris, 1958); La Metaphvsique
Biblique. (Ed. Gabalda. Paris, 1951).
Bento XV. Discurso na Academia Romana.
São Tomás de Aquino, aos 31.12.14.
Cf. Paulo VI. Alocução no VI Congresso
Tomista Internacional, 1966
Pio XII. Enc. Humani Generis (16.06.1950)
– cf. infra – Apéndice II.
Cf. Pio XI. Enc. Studiorum Ducem (29.06.1923);
Bento XV. Enc. Fausto Appetente (28.08.21); Cf. João XXIII. Alocução
(16.09.60).
11- Cf. Silva. Pe. Emilio. “Influencia da
Filosofia Arabe na Sintese Tomista”. In: Hora Presente, n° 16, set.,
1974, p. 219ss.

