
Vida no Carmelo
Introdução: Motivando a leitura Teresina.
1.- Na
dinâmica do retorno às fontes de nosso carisma Teresiano.
a)
Dentro do movimento da ”volta (retorno) às fontes, que esta se produzindo nos
últimos documentos capitulares, queremos voltar neste capitulo Geral (2009)
sobre as fontes de nosso carisma teresiano: é a melhor maneira de nos preparar
para a celebração do V Centenário do Nascimento de Santa Teresa ( 2015 ),
através de uma leitura programada – pessoal e comunitária – de seus escritos
que nos ajude a tomar uma renovada consciência de nossa identidade e missão na
Igreja hoje.
b)
Não se trata de fazer um curso ou um discurso de espiritualidade Teresina, mas sim
de encontrar o caminho ou a pedagogia que nos leve a descobrir a experiência do
mistério que impregna toda sua mensagem, centrado n o mistério de Cristo, da
Igreja e do homem, que caminha ao encontro com Deus na historia, guiado por seu
Espírito.
c)
O lema escolhido: “Para Vós nasci” , quer expressar esta profunda aspiração.
Evoca antes de tudo, seu nascimento faz quinhentos anos um contexto relacional
eu – Tu que faz referência à presença de Deus, à oração, ao destino universal
da criação: todos nascemos para Deus. É também expressão da vocação de todo
carmelita, de todo consagrado, de todo ser humano. Expressa, finalmente, a
dinâmica do mais generoso amor ao próximo: sou teu servidor no amor. Todos
estamos convidados ao amor e ao serviço mútuos, dentro de nossa vocação à
fraternidade evangélica e Teresina. Representa em definitiva, um convite a
adentrar-nos na aventura humana e espiritual proposta por Teresa de Jesus. Por
isso queremos reavivar seu espírito em nós, nos impregnar da sabedoria de seus escritos
e assim dar um novo impulso conforme ao nosso carisma teresiano ao serviço da
Igreja e do mundo.
d)
Para isso propomos a leitura dos escritos teresianos, guiados, não somente por
uma preocupação doutrinal – mesmo que esta não possa faltar – mas também pratica e vivencial, isto é, sapiencial. Não
se trata só de estudo do seu carisma, mas de seu impacto em nossas vidas e em
nossa missão. Precisamos uma imersão mais profunda e existencial nas fontes de
nossa vida, para projetar-nos com mais força na Igreja e na realidade social,
cultural e religiosa de nosso tempo.
2.- Em
atitude de escuta e à luz dos sinais dos tempos.
a)
Nossa primeira preocupação é aproximar-nos uma vez mais à sua vida e a seus
escritos em atitude de escuta, de discípulos e de filhos, para acolher sua
palavra e deixar-nos guiar por seus escritos, que ecoa nas novas situações
históricas como um convite a recriar nelas sua mensagem, atentos aos “sinais
dos tempos”, acontecimentos onde se palpa a ação do Espírito: “O Espírito sopra
onde quer... nos convida a alargar nosso olhar para contemplar sua ação
presente em todo o tempo e lugar” ( Redemptoris Missio, 29).
b)
Por isso nosso olhar há de centrar-se também em escrutar esses “sinais dos
tempos”, que são sinais de Deus” (EM 37), nos quais se percebe uma chamada à
espiritualidade e um renovado interesse pelos místicos. Fala se neste sentido
de uma exigência de espiritualidade, como um dos sinais de nosso tempo, que
está pedindo uma espiritualidade dinâmica e profunda, de raízes evangélicas e
de dimensões místicas, capaz de afrontar e inseguridade e as incertezas de
nossas de nossas circunstancias atuais. “Não é por acaso um “sinal dos tempos
que hoje, apesar do processo de secularização, se detecte uma difusa exigência
de espiritualidade, que em grande parte se manifesta precisamente em uma
renovada necessidade de orar ?” ( NMI 33ª )Esta “difusa exigência de
espiritualidade” dos tempos modernos aparece vinculada à grande tradição
mística cristã e concretamente, ao testemunho dos místicos do Carmelo: “Como
não lembrar aqui, entre tantos testemunhos esplendidos, a doutrina de São João
da Cruz e de Santa Teresa de Jesus ?” (IB. n.33b ).
3.-
Destinatários.
a)
O documento se dirige especialmente ao Carmelo teresiano ( Carmelitas
descalços, Carmelitas descalças e Carmelo Secular) mas está aberto a toda à
família Teresina, reafirmando nossos laços de unidade entre irmãos/as. Só
reafirmando nossa unidade poderemos encarnar e expressar a riqueza de seu
carisma na Igreja. Não podemos esquecer que a família fundada pela Santa é uma
família aberta, que foi enriquecendo-se ao longo da historia com novos membros,
novas Associações, novos Institutos.
Tampouco podemos esquecer às jovens vocações ao Carmelo, fonte de regeneração
carmelitana, como os filhos são fonte de regeneração familiar. Queremos ter
presente a intensa fidelidade ao carisma teresiano, muitas vezes vivido à
sombra por nossas irmãs e irmãos depois do concilio Vaticano II.
b)
De maneira particular queremos fraternalmente convidar a nossas Irmãs
Carmelitas Descalças a fazer conosco este peregrinar espiritual de cinco anos
de preparação para a celebração do centenário. Unidos a elas e a toda a família
do Carmelo, queremos levar a tocha do carisma teresiano centrando nossa
primordial atenção no valor apostólico do dom generoso de si mesmas e da oração
no coração da Igreja.
4.-
Desenvolvimento.
O
documento está articulado em das partes, que correspondem às duas etapas em que
se desenvolveram as leituras teresianas.
A
primeira parte é uma apresentação geral do carisma tal como surge da vida e dos
escritos de Teresa de Jesus, dentro de seu marco histórico, sócio – cultural e
religioso.
A
segunda, partindo do atual contexto cultural e religioso, oferece algumas
chaves para uma leitura atualizada e indica algumas líneas operativas.
Primeira
parte
As raízes
teresianas do carisma: sua vida e escritos
I.- O marco histórico, sócio –
cultural e religioso de sua vida.
É necessária uma breve discrição deste contexto,
porque nos oferece muitas chaves de leitura da Santa. Só nos referimos àqueles
aspectos que tem uma ressonância em seus escritos.
5.- Seu
entorno social.
a)
Ávila, berço de Teresa de Jesus, o mesmo que a Castela do quinhentos, é
continuadora da sociedade espanhola do medievo, dominada por uma alta classe
social, onde existem os convencionalismos, quantidade ( “jerga”) de títulos e
de tratamentos. Teresa inevitavelmente inserida no sistema de classes sociais
da época, reage criticando no livro da Vida os três grandes pseudo valores
daquela sociedade: o culto da honra, o afã de dinheiros e a busca de prazeres
(“deleites”) (V20).
b)
Seu juízo de valor a respeito da alta classe social, então dominante, é
expressado pela Santa quando faz um balanço de usa experiência vivida no
palácio toledano de Dona Luisa de La Cerda: “ Obtive disso muito proveito.
Vi...compreendi como se deve estimar pouco as grandezas humanas... Por isso,
desprezei totalmente o desejo de ser senhora...Trata-se de uma sujeição que me
faz afirmar que uma das mentiras do mundo é chamar de senhores pessoas como
essas, que não me parecem senão escravas de mil coisas” (V 34,4).
c)
Como contraponto, está seu pensar em relação aos pobres, onde deixa constância
em um de seu primeiros escritos: “Parece-me que tenho muito mais piedade dos
pobres do que costumava...” (Relações 2,4).
6.- Seu
entorno político, religioso e cultural.
a)
Teresa nasce e se forma no período de expansão imperial de Carlos V (1516 –
1556) e desenvolve sua atividade e personalidade no reinado de Felipe II (1556
– 1598). Mas age com a mentalidade que se forjou no período imperial. Neste
período Castela deixa de ser uma região pacata, fechada em si mesma e se abre
ao horizonte europeu da Itália, França, Flandes (C1,2). Teresa, ainda, leva no
fundo de sua alma a preocupação por África e pelos turcos. Quando o Padre
Maldonado lhe revela o problema de fundo dos “conquistadores” na America, ela
adota uma atitude anímica bem definida, em chave humana, cristã e missionária
(carta Lourenço de Cepeda, 17 de janeiro 1570) .
b)
Respeito a seu entorno religioso, temos que indicar a presença de três
religiões: cristãos,muçulmanos e judeus , na sociedade espanhola do medievo
tinham convivido com relativa harmonia. Mas no século de Teresa, depois da
expulsão dos muçulmanos e dos judeus a finais do século anterior, surgem fortes
tensões entre cristãos e muçulmanos (mouriscos). Teresa desde criança vai
aludir à hostil “terra de mouros” e ao possível martírio ( V 1,4). Porém, muito
mais tensa e dramática é a tensão judeu – cristã a partir da expulsão dos
judeus a finais do século anterior .
c)Desde
o ponto de vista cultural, Teresa assiste ao cambio dos novo parâmetros da
cultura na plenitude do renascimento: aprender a ler e escrever; um aprendizado
para pouco (= minorias). “A massa de analfabetos [a mediados do s. XVI] poderia
chegar até 80 ou 85 por cento da população” (Manuel Fernandez). Imprimem-se e
divulgam muitos livros espirituais que chegam às mãos da Santa e da gente
humilde, especialmente mulheres que agora
se dedica à leitura. Os livros mais difundidos: Flos Sanctorum, Vita
Christi; os livros de oração (‘hora’ , ‘diurnales’ ; meditações...) a pratica
de recolhimento... obras de Osuna, Laredo, Palma, Granda...
7.- Frente à
marginalização da mulher.
a)
A sociedade espanhola do s. XVI está impregnada de misoginia: menosprezos da
mulher, marginalização na vida publica, permanente estado de menor idade. Com
difícil acesso às fontes da cultura, não pode entrar na universidade, nem em
centros de estudos ou de promoção, nem pode ter leitura de livros espirituais
em romance. Teresa protestará reiteradamente em Caminho contra essas
proibições:”Não os poderão tirar livro que não seja tão bom” (CE 35,4) Oh
juízes deste mundo como são todos varões, não vem virtude de mulher que tenham
por suspeitosas. Chegará o dia que se conheçam todos... (CE 4,1)
b)Ela,
sem querer, se converte em impulsora de um movimento de cultura feminina,
enraizado na massa popular de mulheres ávidas de saber. Teresa não pertence ao
grupo seleto de “puellae doctae”. Mas sintoniza com a literatura espiritual em
espanhol da primeira metade do s.XVI. Ao fundar o novo Carmelo, exige que suas
monjas tenham habilidade para rezar o oficio [em latim] e ajudar no coro (Const.
6,1). Não admite analfabetas. Mas quando bate na porta do Carmelo uma
pastorinha analfabeta do Almendral, Ana Garcia ( Ana de São Bartolomeu) Teresa
quebra seu critério e a aceita. Ela mesma vai ser quem ensine a ler e escrever.
c) No novo Carmelo Teresa será amiga de livros, de
letras e letrados, de letras e letrados, estrofe (coplas...)... e das canções
de São João da Cruz. E vai ter seguidoras letradas de carmelitas no fim do
século e inicio do s. XVII, e destacam Maria de São Jose,Cecília do Nascimento e
Ana da Trindade ( calagurritana)
8.- Seu
entorno eclesial e religiosidade popular.
a)
A Igreja para Teresa e a mentalidade da época era o clero e a hierarquia.O
clero é a classe social mais próxima a Teresa e também a mais determinante para
uma religiosa como ela. Está em contacto com os diversos estratos do escalão
eclesiástico. Terá uma estima muito grande dos bispos por ela conhecidos, mas
sobretudo, uma valorização positiva do clero. O sacerdote, para ela, não é um
empregado de oficio, e sim um porta
bandeira, uma espécie de capitão dos cristãos. É um “defensor” da causa de
Cristo: “Que seria a Igreja sem eles !” ( C 3,3).
b)
A sociedade espanhola do século de ouro era ostentosamente religiosa em suas
estruturas,costumes e sentimentos. Por isso que a religiosidade popular se
converteria num fator de formação envolvente; está presente em todos os níveis.
De menina, Teresa a respira na família. Depois a vive ao longo de sua vida
religiosa com modalidades diferentes, em contraponto com a liturgia conventual.
E por fim, a incorpora, já purificada, à sua vida mística. O interessante está
nessa junção da religiosidade popular com a experiência mística: Teresa
experimenta, dia a dia, ‘a grandíssima formosura do rosto de Cristo’, vive em
sintonia (- teopatia) trinitária, etc.; porém na pratica cotidiana e
comunitária é quase impossível e indispensáveis imagens, água benta, as
procissões, as estrofe cantadas ( C 34,11)
9.- Sua
atitude perante a Inquisição.
A
Inquisição, na Igreja e na sociedade espanhola daquele século, foi uma das
instituições mais condicionantes. Também na vida de Teresa. As intervenções
inquisitoriais questionam tanto sua pessoa, suas graças místicas ( V 33,5),como
o primeiro e principal de seus escritos, o Livro da Vida. Ela, porém, não
sucumbe ao ambiente de medo inquisitorial que existe em Castela. Sua atitude
fica mais evidente no texto primitivo das Constituições, quando faz a lista de
livros para suas pequenas bibliotecas do Carmelo incluindo os de Frei Luis de
Granada, quando ainda estava recente sua inclusão no Índice de livros
proibidos.
10.- O
movimento da contrareforma e o lugar de Teresa nela.
a)
Na historia da Igreja, Teresa, como Santo Ignácio ou São João da Cruz, se
inscreve no movimento de contra reforma
que arranca (inicia) na metade do s. XVI e é liderado de maneira
especial pelo Concilio de Trento. Entende-se por “contra reforma” a atitude
vital surgida na Igreja ao tomar consciência da grande ruptura da unidade
produzida em Ocidente, não só como reação à “reforma” iniciada por Lutero,
senão como espírito novo, que alenta a vida cristã, as artes, a teologia e os
seminários, e tem seu expoente máximo nos santos ou na Igreja mesma: tanto no
modo de atualizar o mistério cristão como na reação frente à fração que se separa
de Roma.
b)
Em termos gerais, tanto a vida mística de Teresa como sua atividade fundadora
coincidem com a celebração e execução do Concilio de Trento, que denomina
freqüentemente o santo Concilio. Mas ela não é uma reformadora a mais da vida
religiosa, senão portadora de um carisma e inspiradora de um estilo de vida na
Igreja caracterizado por um forte componente humanista de vida fraterna e
contemplativa ao serviço do Reino.
c)
É característico seu humanismo cristão,
que apresenta ao homem essencialmente aberto aos valores transcendentes. Todos
seus símbolos ( o castelo, o jardim da alma, o verme – borboleta, as duas
fontes...) apresenta ao homem como destinado à transcendência e aberto desde o
profundo de seu ser à relação com Deus. Igualmente, seu ‘misticismo’ é
profético: fala de Deus, de Cristo, da alma, não desde esquemas teóricos senão
desde a experiência. Teresa é, em definitiva, uma testemunha de Deus, presente
no mundo e na historia do homem. Humanismo cristão e misticismo são as mais
fortes contribuições de Teresa ao movimento de contra reforma liderado pelo
Concilio.
d)
Igualmente mantém sua firme opção pela Igreja não só em referencia ao mistério
eclesial, senão expressamente em sua estrutura e existência terrena . “Pois bem
sabia, em matéria de Fe, eu antes morreria mil vezes do que me oporia a
qualquer coisa da Igreja ou a qualquer verdade da Sagrada Escritura” (V 33,5).
11.- Sua
mirada ao continente americano.
a)
Contava Teresa apenas 17 anos quando começou o êxodo de seus irmãos à America (
as Índias , na expressão de Teresa ). A partir desse momento já nunca deixará
de olhar ao continente americano. Tensão em aumento até as vésperas de sua
morte. Para nós é interessante esse cruzamento com sua vida mística. Durante as
duas ultimas décadas as Índias formam parte de sua paisagem interior e é um dos
determinantes da extensão de sua obra fundadora entre os frades.
b)
Se Teresa e sua atitude diante das Índias se fala do tópico dos dinheiros que
recebe de lá. Ela, porém, viveu o problema de America a um nível mais profundo
e sofreu em relação a evolução radical que teve o continente americano . Teve
sempre informação de primeira mão. Mas a informação decisiva vai ser quando em
1565 passou pelo Carmelo de São José o missionário franciscano Alonso de
Maldonado, discípulo e seguidor do Pe. Las Casas, contrario aos idéias dos
conquistadores e a favor dos missionários. Escutando o missionário Teresa fica
profundamente impactada, desde a sensibilidade de seu tempo, e não pode menos
que retirar-se sozinha numa ermida e clamar a Deus por tanto milhões de almas
que lá se perdiam. Assim de repente se abria um novo horizonte imenso, e de um
perfil totalmente novo (F 1).
12.- Seu
entorno familiar: O lar dos Cepeda – Ahumada.
a)
Em tempo de Teresa, o lar era “o lugar onde se acende o fogo para o serviço
comum de uma casa ( Covarrubias). Esse fogo material, tão necessário em
ambientes frios com Ávila, era ao mesmo tempo o lugar do calor humano e afetivo
que une e reúne aos membros da família; essa pequena célula de vida que nasce e
cresce e cria espaço e o adubo (húmus) adequado para a intimidade e para o
cultivo ou a promoção dos valores do espírito, dentro do contexto cristão
professado pela família de Teresa. Ela, que tão assídua e intensamente exerceu sua
missão de “Mãe dos Espirituais”, tanto dentro dos Carmelos como no entorno
leigo, cuidou também desse aspecto da vida familiar. Primeiro de simples
“monja”, interessada pela vida espiritual de seu pai; depois, de ‘mística’,
interessada na vida espiritual de seus irmãos.
b) O quadro esboçado por Teresa que faz de sua
família nas paginas iniciais do Livro da Vida é netamente positivo, bem
caracterizado, impregnado de sadio humanismo cristão. O perfil de Dom Alonso é
o de um homem reto, amigo da verdade, sem excessos, socialmente bem orientado,
adito à leitura, interessado na Eucaristia,
de muita caridade com os pobres e piedade com os doentes e com os criados
.Aparecido também é o perfil feminino de sua esposa dona Beatriz, sofrida,
recatada, mui agradável e de grande entendimento, propensa a
cultivar a piedade mariana em seus filhos e outras virtudes cristãs. Teresa
recorda reiteradamente o interesse pelos pobres: dava esmola como podia. Desde a visão de Teresa, tudo nos leva a
entrever uma boa família, humanista e cristã.
13.- O novo
lar de Teresa: A Encarnação.
a)
Teresa vive seu processo vocacional entre os 18 e 20 anos de idade. Aos 20
anos, deixa o lar paterno e ingressa nas monjas carmelitas da Encarnação. As
monjas carmelitas eram consideradas em
tempo de Teresa como a ‘segunda ordem do Carmo’. Fundadas em Francia no século
anterior pelo superior geral, beato João Soreth, se difundiram na Espanha ao
longo dos séculos XV e XVI. No tempo de Teresa existiam dois mosteiros fundados
no século XV: o de Ecija e o de Ávila.
b)
Episódios decisivos: a/ Teresa se faz amiga de uma carmelita da Encarnação,
Juana Juarez; b/ Lê apaixonadamente as Epistolas de São Jerônimo, que a
interpelam fortemente; c/ vive dramaticamente a despedida de seu irmão
preferido, Rodrigo, que decidiu partir para as Índias e ceder a Teresa o
direito à própria herança . d/ Mas sem duvida o impacto decisivo foi produzido
pelas Cartas de São Jerônimo: “Nesta batalha estive três meses, forçando-me a
mim mesma” ( V 3,6).
c)
Sua majestade, sem eu querer, me forçou a
que me fizera força ( V 3,4). Os “três meses de lutas” culminam na decisão
de notificá-lo ao pai, dom Alonso, que se opõe frontalmente: primeiro pelo amor
que tem por sua filha, e depois pela situação da família. Mas sendo como é
Teresa, sua decisão é irrevogável. Sem presa, pois “os três meses” passaram e
ainda ficou um ano de espera.Mantém contato com sua amiga da Encarnação. Em
família, partilha seu projeto com o irmão mais velho, Antonio, e o convence
também a ele: “tinha persuadido a um
irmão meu a que entrasse aos frades, falando sobre a vaidade do mundo” (V 4,1).
Teresa tem uma estranha força persuasiva. E ao amanhecer do dia das animas, mui
de manhã, ano de 1535, os dois irmãos fogem de casa e Teresa cruza a porta do
mosteiro da Encarnação. Só que para “forçar-se a si mesma” precisou de um
esforço heróico. Seu processo vocacional não foi um idílio, senão uma batalha.
d)
Por que se faz carmelita? É
provavelmente o lado mais deficitário em todo o processo. Teresa
fundamentalmente de decide a ser carmelita porque tem uma amiga na Encarnação.
Porque esse mosteiro é “a quem tinha muito carinho (aficción)” ( V 4,1), apesar
de que uma vez decidida pelo estado religioso, “ qualquer ( mosteiro) em que
pensara servir mais a Deus, ou meu pai quisera , iria” (Ib) No animo de Teresa
aparecem outros motivos, até o medo ao inferno, o amor a Cristo, a previsão
realista dos trabalhos de religião, por
{eu} tão regalada.O importante é que ela optou pela vida religiosa. Sua
vocação especificamente carmelitana tinha precárias motivações psicológicas.
Mas estava bem resguardada por uma motivação netamente teológica: “Valha-me
Deus! De que maneira Sua Majestade dispunha de mim para a condição em que quis
se servir de mim! Sem que eu o quisesse, obrigou-me a me fortalecer” ( V 3,4).
14.- Sua
imersão carmelitana.
a)
Teresa tomou consciência – dentro da Encarnação – de enrolar-se em uma tradição
de raízes seculares. Se as monjas carmelitas tinham apenas um século de
existência e a Ordem mesma três séculos e meio de existência, a tradição oral
se remonta à mais de dois milênios e se inspirava nos profetas do Antigo
Testamento e na Regra da Ordem.
b)
A Regra do Carmo é, depois da Bíblia, o texto mas vezes citado pela Santa.
Editada na primeira década do século XIII
, foi logo retocada e aprovada no Pontificado de Inocêncio IV (1247) e
este é o texto que Teresa designa como Regra primeira ou Regra primitiva (cf. V
36,26), que ela acreditava que era “sem relaxação”.
c)Nas
primeiras páginas do Caminho, dirá a suas monjas que ao fundar o rincão de São
José “pretendi se guarda-se esta Regra de Nossa Senhora e Imperadora com a
perfeição que se começou” ( C3,5)
d)
Os aspectos mais destacados das propostas da Regra foram: a pobreza evangélica
( V 35), a oração (“ que oremos sem cessar..., é o mais importante”: C 4,2), a
solidão da cela ( Const. 8; C 4,9), o silencio
(M3,2,13), o trabalho e a exemplaridade de São Paulo, assim como a
tradicional relação da Regra com o modelo da Virgem, motivo pelo qual Teresa a
designa normalmente como Regra da Virgem, Regra de Nossa Senhora do Carmo... (
F 14,5; V 36,26; C, titulo; 3,5...; Conc, prol.1)
15.- O fato
decisivo de sua conversão.
a)
Durante os 27 anos de estadia na Encarnação, Teresa viveu jornadas intensas:
Sua enfermidade a pouco de sua profissão simples, os três meses de ausência em
Becedas, os quatro dias de paroxismo em agosto de 1539 tendo dia e meio aberta
a sepultura em meu mosteiro, os três meses de paralisia, seguido de três
penosos anos de recuperação na enfermaria conventual: “quando comecei a andar s
gatas , louvava a Deus...” ( V6, 1-3).
b)
Mas são muito mais importantes os acontecimentos que vão surgindo no seu
crescimento espiritual: a leitura de Santo Agostinho e a visita de um Cristo
chagado deram uma reviravolta na vida
religiosa de Teresa. Na Encarnação lhe acontecem as graças místicas que ela
escreve no Livro da Vida, desde as experiência cristologicas, passando pela
graça da flecha, até as graças carismáticas que a levaram a fundar um novo
Carmelo.
c)
Na Encarnação de Ávila aconteceu o fato decisivo que ia mudar o rumo de sua
vida, em 1554, depois de quase 20 anos de carmelita. Fala no capitulo 09 de seu
relato autobiográfico. Consiste, não já na superação da luta mantida nos dez
anos precedentes, senão na abertura de horizonte à um novo modo de
relacionar-se com Deus e de enfrentar a vida de cada dia.
d)
Este fato decisivo representa o novo horizonte da vida espiritual de Teresa,
que descreve assim: “Co disse, eu tinha começado a sentir às vezes, embora com
brevidade, o que passo a relatar. Vinha-me de súbito, na representação interior
de estar ao lado de Cristo, de que falei, tamanho sentimento da presença de
Deus que eu de maneira alguma podia duvidar de que o senhor estivesse dentro de
mim ou que eu estivesse toda mergulhada nele” ( V 10,1). Era simplesmente o
começo de sua vida mística; o começo de uma maneira nova de orar e de viver, de
conseqüências imprevisíveis para ela mesma. É sua experiência de vida nova, que
dará origem ao novo Carmelo. Começa assim a segunda época de sua vida ( 1554 –
1582), marcada por fortes experiências místicas ( Rel 35), das quais será
testemunha João da Cruz, confessor na Encarnação durante o triênio 1571 – 74,
em que Teresa exerceu de priora. Será também uma etapa marcada por uma intensa
atividade, da qual também participará João da Cruz.
II.- Alguma chaves de leitura de suas obras.
Teresa
de Jesus, marcada pelo fato decisivo de sua existência, que acabamos de
relatar, e enriquecida por sua experiência da Encarnação, onde vive 27 anos,
passando o resto de seus dias, 20 anos, no Carmelo por Ela fundado ( 1562 –
1582). Esta etapa, a mais fecunda, coincide com sua obra de escritora e de fundadora.
Trataremos primeiro de recolher algumas chaves, que nos ajudem a compreender
melhor seus escritos.
16.- Os
relatos de sua experiência mística.
a)As
obras de Teresa de Jesus são fundamentalmente relato de suas experiências
místicas. Estas serão a paisagem de fundo de seus primeiros escritos: especiais
graças cristologicas ( V 26,5; 27,2;37,4) e graças antropológicas que lhe
outorgam uma nova compreensão de si
mesma ou da paisagem da sua alma( V 40,9). Típico desse panorama contemplativo
é também seu caráter dinâmico, que a obriga desde a contemplação a que funde um
Carmelo e que escreva (cf. V. prol.2; 37,1).
b)
Para decidir-se a editar o primeiro ( 1562 e 1565) recebe a ordem de seus
assessores , mui implicados em suas experiências místicas, mas ao mesmo tempo
ela se diz movida por um de seus impulsos interiores. O Caminho (1566 –
1567) é escrito por insistência do grupo
recém fundado em São José que sabe de suas graças místicas e, de certa maneira,
querem entrar em sintonia com ela.
c)
Cinco ou seis anos depois (1573) empreende a redação dos Livro das Fundações.
Prossegue assim o relato começado em Vida 32 – 36 , porque foi ordenado pelo
confessor Pe. Ripalda, mas também está presente o impulso místico (prol. 2)
d)
Por fim em 1577 compõe as Moradas. O mesmo que o livro das Fundações, também
este ultimo livro é uma continuação do livro da Vida, não no relato operativo
(cc. 32 -36), senão no místico (cc. 22- 31;37-40). É escrito para completar o
panorama de experiências interiores , de tal maneira que sirvam de paradigma do
processo de toda a vida espiritual cristã.
e) Em todos seus livros é central o tema da oração,
como abertura à experiência mística propriamente dita. A oração fielmente
vivida tende a desembocar normalmente em determinadas experiências
contemplativas, nas que se chega a beber na Fonte Divina, que brota em nós
cheia de bondade e gratuidade, onde se experimenta como uma espécie de ação
direta, suave e iluminadora, de Deus presente no mais intimo da alma.
f) Em seus livros estão representadas não só as
correntes de espiritualidade presentes na península, senão os expoentes dos
focos universitários de Salamanca e Alcala. Por isso a vida mística de Teresa
não se valorizou em um mundo abstrato ou transcendente, senão que se encarnou no
mais típico da espiritualidade e a teologia de seu tempo. De tal maneira que a
personalidade literária e a estatura espiritual da Santa não se poderia
entender sem essas coordenadas culturais e de
época.
g) Mas seus livros transbordam os esquemas e estruturas
de seu tempo e chegam até nós com toda sua frescura, porque são a fotografia do
Evangelho vivido no curso de sua existência , recolhem os núcleos perenes da Fe
plasmados em sua vida que seguem interpelando aos cristãos, inclusive quando a
conjuntura histórica em foram vivenciados e doutrinalmente codificados tenha
sido superada. Requerem uma leitura com os olhos de hoje, desde a cultura de
hoje. Por isso é necessária uma sensibilidade hermenêutica para captar o
sentido sempre valido em todos os contextos e em todas as épocas.
17.- Seu
enraíze bíblico.
a)
Teresa aceita a Bíblia como sumo critério de verdade. Aparte da impregnação que
lhe vinha da pregação, a oração litúrgica, etc., teve a sorte de ler o texto de
três livros sagrados, dentro de outros escritos espirituais:a/ O Flos Sanctorum
, que lhe oferece todo o texto da Paixão segundo os quatro evangelhos. b/ O
texto bíblico do Livro de Jô, “espraiado” ao longo das Moradas de São Gregório.
c/ Os textos bíblicos referentes a historia ou ao mistério de Jesus, no
comentário da Vita Christi pelo Cartujano.
b)
Deve se destacar também a intensa presença da Bíblia em seus escritos: Cantar
dos Cantares, Evangelhos, São Paulo, figura bíblicas... Daqui podemos deduzir
que Teresa tinha chegado a uma densa mentalidade bíblica. Teresa aceita a
Bíblia como sumo critério de verdade: “todo o dano que vem ao mundo é por não
conhecer a verdade da Escritura com clara verdade” (V 40,1). Aprecia o saber
dos teólogos enquanto derivado do texto
sagrado: “Na Sagrada Escritura que tratam, sempre encontram a verdade do bom
espírito” (IB 13,18). E de si mesma atesta: “por qualquer verdade da Sagrada
Escritura morreria mil mortes (IB 33,5).
18.- Sua
experimentação litúrgica e eucarística.
a)
A verdadeira iniciação litúrgica de Teresa teve lugar na Encarnação, onde se
incorporou a uma comunidade contemplativa que dava muita importância à oração
litúrgica e tinha um bom grupo de monjas para que fosse mais solene.O rezo
litúrgico era a ocupação principal, e ao redor dela giravam os outros afazeres
cotidianos. Porém, progredirá no espírito litúrgico sobre tudo ao adentrar-se
na experiência mística. Será esta a verdadeira mistagogia que vai fazer aprofundar no mistério da
oração eclesial, tanto na liturgia das horas como, sobre tudo, no grande
mistério da celebração eucarística (cf M 6,7,4)
b)O
rezo do Oficio Divino e a Eucaristia diária serão os dois pontais de toda sua
vida espiritual. Com o ingresso na experiência mística, a eucaristia passa a ser
o suporte de toda sua vida. As graças mais intensas as recebe no momento da
comunhão. É singular a graça que recebe num Domingo de Ramos, ou a do
matrimonio místico ao receber a comunhão de mãos de João da Cruz. Mas em seus
escritos, o texto que melhor documenta a profundidade de sua piedade
eucarística é a improvisada anáfora com que termina no Caminho sua glosa ao
“panem nostrum” ( C. cc. 33-35).
19.-
Mistagoga da experiência.
a)
Enraizada na Bíblia, na Palavra de Deus e nos mistérios que celebra a liturgia,
Teresa se converte em uma extraordinária Mistagoga da experiência. Para isso
insiste no aprendizado da vida de união com Deus, insistindo fortemente na
presença de Deus, que envolve e penetra toda nossa vida. Com freqüência fala
desse “acostumar-se” a buscar a companhia dAquele que nos acompanha sempre ( C.
cc. 26 – 29). Por isso para ela a oração não é outra coisa..., senão tratar de
amizade muitas vezes tratando a sós com quem sabemos nos ama” ( V 8,5).
b)
Teresa escreve desde a experiência ( V 18,8; 23,3; C prol. 3) e para provocar a
experiência em seus leitores: “daquilo que não se tem experiência, dificilmente
se pode dar razão certa” (M 6, 9,4) Pena em mão, dialoga de experiência a
experiência, da sua e as das suas leitoras, convencida de que muitos de seus
ensinamentos não serão entendidos se não tem sua própria experiência, pois,
“importa muito não só crer, senão procurar entender por experiência” ( C 28,1).
Por isso seu interesse não só de explicar e fazer saber, senão antes demais nada
“engolosinar” (= adoçar ) e provocar a empatia do leitor: ela não escreve para
informar senão para provocar a experiência do leitor e entrar em empatia.
c)
A experiência de Deus por graça ( 1544 – 1554), a experiência da pessoa de
Jesus Cristo (1560) e a experiência do mistério trinitário ( 1571): são os
núcleos centrais, onde gira a espiritualidade teresiana.
20.- O
traslado da própria experiência ao Carmelo.
O
carisma de Teresa fundadora não fica confinado em sua pessoa ou seus escritos,
nem tampouco se reduz à ereção de uma serie de Carmelos e ao carisma de líder
dentro de seus carmelos. Muito mais importante e decisivo é o espírito que ela
transmite: o ideário, os objetivos, o estilo de vida. No ideário teresiano em
relação ao novo Carmelo destaca desde o começo uma dupla orientação:
a)
Por um lado, um
olhar retrospectivo ao primeiro Carmelo ( longe de adotar uma atitude de
ruptura com a Encarnação ou com as raízes carmelitanas, ela mantêm intatas as
relações com sua comunidade de origem):
afirma insistentemente sua vontade de manter a união com a velha tradição
espiritual carmelitana, a volta à Regra primitiva, o duplo modelo da Virgem
Maria e do profeta Elias, a vida eremita dos antigos moradores da Montanha
bíblica ( desta casta viemos) etc. Nesta orientação prevalece a vontade de
empalmar as origens ( como em qualquer das reformas religiosas de seu tempo ou
como no humanismo dos artista renascentistas sempre com o olhar nos modelos
clássico, Greco – latinos).
b)
Por outro lado, o sentido de atualização e novidade: expressa vontade de inserção na Igreja de
seu tempo e traslado da própria experiência religiosa ou espiritual ao grupo de
seguidoras/ES. Teresa ensina a novidade de uma vida contemplativa com
finalidade apostólica e eclesial. Tanto ou mais que sua vontade arraigo no passado,no ideário de Teresa
prevalece a vontade de inserção no presente, Igreja e sociedade. Destaca, sobre
tudo, a idéia de serviço eclesial. O primeiro modo de servir a Igreja é ser
tais.. que.. sirvam nossas orações, convencida de que encerradas , pelejamos ,
estreitamente solidarias com os capitães que a defendem: letrados, pregadores,
sacerdotes (cf todo o texto de C 3, 1 e F 1 ).
c) Mas o que prevalece nesta segunda orientação é a
pressão que exerce em Teresa mesma a própria experiência de Deus e de Cristo.
Pressão que , por sua vez, alcança desde Teresa ao grupo. Toda sua atividade
fundadora se desenvolve no período de intensas experiências místicas, de tal
maneira que a alma de Teresa é como uma pilha plena de experiência de Cristo e
de urgências eclesiais. Necessita transmiti-las como ideal e como vida para as
veias do seu Carmelo (cf. o breve texto de F. 1,6 a propósito da intensidade
com que se vive o novo ideal no Carmelo de São José)
21.- O componente místico e humanístico do
teresianismo.
a)
Um dos componentes de seu ideal, recolhido nas suas Constituições, é o que
poderíamos designar como humanismo teresiano na vida religiosa: alta
valorização da pessoa, normativa de duas horas de recreação ao dia ( quase em
paralelo comas duas horas de oração mental: já em Caminho tinha insistido nas
virtudes humanas: quanto mais santas,
mais conversáveis com vossas irmãs ), inter comunhão de pessoas e de
comunidades, prescrição do trabalho pessoal, leitura de livros seletos,
discernimento das vocações, exercício da autoridade por amor...
b)
Essas linhas mestras Teresa as pensou e traçou para seus Carmelos de monjas. O
traslado aos descalços o fez inicialmente com João da Cruz.Mais tarde, propondo
também a figura modelica de Graciano. A Frei João da Cruz, experto em oração e
contemplação, lhe propõe o estilo de irmandade e recreação vigente no grupo (
humanismo ). Ele encarna o ideal teresiano entre os descalços. De tal maneira
que, para estes, o carisma teresiano há de ser também lido e valorizado através
da pessoa e o estilo de frei João da Cruz.
22.- O valor apostólico e missionário da mística
teresiana.
a)Teresa
de Jesus teve uma particular experiência da Igreja de seu tempo, de seu mistério
e de suas necessidades que a levou também a uma singular proposta de serviço
eclesial: o valor apostólico do ideal contemplativo . Isto o resume muito bem
as palavras de João Paulo II, com ocasião da clausura do IV Centenário de sua
morte: “ O eixo da vida de Teresa como projeção de seu amor por Cristo e seu
desejo da salvação dos homens, foi a Igreja. Teresa de Jesus ‘sentiu a Igreja’ , viveu ‘’ a paixão pela
Igreja’ como membro do Corpo Místico. Os tristes acontecimentos da Igreja de
seu tempo foram como feridas progressivas que suscitaram desejos de fidelidade
e serviço. Sentiu profundamente a divisão dos cristãos como um desgarro de seu
próprio coração. Respondeu eficazmente com um movimento de renovação para
manter resplandecente o rosto da Igreja santa. Foram se aumentando os
horizontes de seu amor e de sua oração a medida que tomava consciência da
expansão missionária da Igreja católica” (Ávila 1.11.82).
b)
O serviço apostólico à Igreja, através da oração e da vida contemplativa, é a
pedra angular de seu Caminho de perfeição ( C 1,2) e de sua obra fundadora ( F
1,7). Nossas Constituições recolhem este ideal apostólico com estas palavras:”
Mossa Madre Teresa, ilustrada por uma experiência mais plena do mistério da
Igreja e impelida pelo zelo da gloria divina, quis que a oração incessante e a
abnegação evangélica do Carmelo renovado fossem impregnadas de um peculiar
ideal apostólico” ( CC 89).
c)
Assim mesmo, da singular experiência da Santa brota o ideal missionário do
Carmelo teresiano: “Efetivamente, nossa santa Madre Teresa comunicou a sua
família a chama do zelo missionário que a abrasava, e quis que seu filhos
trabalhassem também na atividade missionária” ( CC 94).
23.- Os escritos teresianos.
A
experiência sucintamente exposta, que a santa viveu no contexto histórico e
vital explicado, se reflete em sua obras ( cf n.16). Estas serão expostas de
maneira detalhada nas fichas de leitura que se entregaram para acompanhar nosso
estudo durante o próximo sexenio, por isso não são recolhidas aqui.
Segunda parte
Leitura atualizada de seus escritos
24.- Introdução: Aproximação a nosso contexto
cultural e religioso.
a)
O carisma teresiano, que brota de sua vida e de seus escritos, foi se expandindo
e enriquecendo ao longo dos séculos, graças a um melhor conhecimento de suas
obras e de sua experiência carismática, recolhida nas Constituições, tanto dos
frades como das monjas e da Ordem Secular (2003).
b)
Efetivamente, o primeiro capitulo de nossas Constituições nos recolhe em
sínteses os elementos essenciais de nosso carisma. Trata se de uma formulação
fruto de uma toma de consciência renovada a partir do Vaticano II. Graças a
esta renovada toma de consciência, “hoje temos um conhecimento de nosso
carisma, ou podemos ter, como possivelmente nunca tivemos em nossa historia.
Hoje mais que nunca nossas santos, a espiritualidade que identifica a nossa
família, são reclamados dentro e fora da Igreja, pelos mais variados leitores
que legitimamente nos exigem que partilhemos esta riqueza [...] Mas mesmo
assim, temos que perguntar-nos como podemos responder desde ele às exigências
dos sinais dos tempos na Igreja e no mundo e às grandes e legitimas aspirações
, humanas e religiosas das novas gerações, para que possam cumprir de maneira
mais eficaz e atualizada a missão do Carmelo teresiano no terceiro milênio” (
Em caminho com Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz. Voltar ao essencial,
2003,n. 1)
c)
O documento insiste especialmente em conhecer os sinais dos tempos para
atualizar nosso carisma: “Se somos capazes de analisar os sinais dos tempos e
dos lugares, poderemos descobrir neles a
semente que nos faz prever, em parte, algo do que virá. Qual é, desde essa
perspectiva, a situação do Carmelo masculino, feminino e laical? A resposta
exige uma analises da situação do mundo, da Igreja e da família do Carmelo.Esta
valoração será feita desde a fidelidade às líneas essenciais do carisma
teresiano – sãojoanista , expressadas em nossas constituições, para assim
enfrentar os desafios de nossa época. É o Espírito que nos impele ao futuro
para seguir fazendo conosco ‘coisas grandes’ ( VC 10)” (IB n. 4). Em outras
palavras, “é necessário, por isso, conhecer e compreender o mundo em que
vivemos, suas esperanças, suas aspirações e o elo dramático que com freqüência
o caracteriza (cf GS 4)” (IB n.6).
d)
Parta compreender a realidade em que vivemos, se assinalam “algumas
características fundamentais do mundo de hoje que estão presentes , de uma
maneira ou de outra, com as normais diferencias existentes que se tem nos
diversos contextos sócio – culturais e eclesiais”:
Ø Uma situação de exílio e de esperança, como
experiência espiritual, que nos coloca a caminho de busca e que requer uma
profunda espiritualidade para enfrentar os novos desafios;
Ø Um mundo em cambio e transformação permanentes:
fenômenos da secularização, a liberação, a globalização e a nova ética;
Ø Uma situação nova na Igreja e na vida consagrada,
marcada pelo “passo de uma atitude mono céntrica religiosa, cultural e
teológica , a um pluralismo nestes campos; um passo da unidade como
uniformidade, à unidade na pluri formidade” (cf. IB. 7-16)
e) Partindo desses questionamentos, queremos
indicar brevemente o atual contexto cultural e religioso para uma leitura
atualizada dos escritos teresianos, aproximando o relato de sua experiência
mística a nossa realidade atual (I); assinalando alguns critérios para um plano
de leitura teresiana no próximo sexenio (II); propondo, em fim, alguma líneas
operativas (III).
I.- Chaves para uma leitura atualizada
25.- Atentos
aos acontecimentos culturais e eclesiais de nossa época:
Leitura histórica do carisma teresiano.
a)
Se é verdade que o carisma teresiano se acunhou
numa forte experiência mística de oração, chega a seu ápice de desenvolvimento
à luz dos acontecimentos culturais e religiosos de sua época, resenhados na
primeira parte, aos que trata de dar uma resposta desde sua própria vivencia ,
narrada em seus escritos, e desde sua obra de fundadora.É a mística encarnada
nas realidades históricas, sensível aos acontecimentos e comprometida no
serviço. Foi chamada “Mística de serviço” .
b)
Sua atitude – paradigmática para nós –nos está
pedindo uma consciência e discernimento de quanto acontece ao nosso redor, num
mundo marcado pela secularização e pela postmodernidade, pelo ateísmo e pela
falta de fé ( crises de fé no mundo ocidental) Mas que ao mesmo tempo e
paradoxalmente são cada vez mais os sintomas de um novo despertar religioso e
de busca de uma espiritualidade, que responde às inquietudes mais profundas do
ser humano. Adverte se a necessidade da mística, da recuperação da experiência
da fé, para que século Xxi possa seguir sendo cristão.
c)
Paralelamente, se está produzindo uma crise de
identidade do homem mesmo, que atenta contra sua dignidade e os valores
transcendentais inscritos no ser humano, pois o homem é um eu aberto, como por
uma ferida, pela paixão de Transcendência. A espiritualidade teresiana,
centrada antropologicamente no homem morada de Deus, aberto à comunhão com ELE
(GS 19), capaz de acolhê-lo no mais interior do Castelo, nos ajuda a tomar
consciência de sua dignidade, ameaçada pela cultura atual. Por isso educar ao
homem na atitude contemplativa teresiana é ajudar-lhe a descobrir sua
verdadeira identidade.
d)
Juntamente com a crise do homem e o fato da falta
de fé, podemos resenhar uma situação de injustiça, pobreza e exclusão. Se desde
a perspectiva do primeiro mundo, o mais significativo é a secularização, , a
incredulidade e a post modernidade, desde a perspectiva do terceiro e quarto
mundo, o mais significativo é a pobreza, que só se explica desde categorias de
marginação e exclusão. Também esta situação tem que ver com a revelação de Deus
e a possibilidade de uma resposta humana a ela, iluminada pela experiência
teresiana.
Ø Efetivamente, tanto a pobreza como a incredulidade,
são um lugar teofánico e teológico, no qual se manifesta a revelação de Deus
aos homens de nosso tempo e nossa possibilidade de reconhecê-lo, desde uma
perspectiva teologal, da qual não pode prescindir nossa espiritualidade. O
escândalo da pobreza é uma das razões do ocultismo de Deus que padecemos. Por
isso uma espiritualidade cristã que quer confrontar-se com os desafios do
século XXI deverá necessariamente enfrentar-se com o fato da pobreza. A
preocupação pelos pobres é algo claramente presente nas fontes da mesma
revelação cristã. A experiência de Deus não pode realizar-se no isolamento, a
indiferença, a falta de atenção aos sofrimentos dos homens. Uma contemplação
que não tenha em conta esta situação sofrida de nossa sociedade é biblicamente
detestável, como também é o culto a Deus que ignora o sofrimento do pobre e
desvalido, denunciado pelos profetas.
Ø A vida religiosa, centrada na busca do unum necessarium, realizada sob a forma
do seguimento, que em Teresa de Jesus tomam formas especificas ( V 32,9; 1,2),
tem no pobre um critério importante de verificação de sua autenticidade. Em
este sentido a experiência de Deus, na mística teresiana, se realiza tanto no
gozo e na serenidade espiritual quanto na capacidade de assumir e compartilhar
o sofrimento dos pobres e no compromisso ativo pela instauração do “reino da
justiça,do amor e da paz”> Não é outra coisa que a vivência do mistério
pascal de morte e ressurreição na profundidade da vida.
e) Em sintonia com essa preocupação, cabe recolher
aqui a analises dos sinais dos tempo que faz o Sínodo Extraordinário dos
Bispos, com motivo dos 20 anos do Concilio Vaticano II (1985): “Os sinais dos
tempos são parcialmente diferentes dos que havia em tempo do Concilio, tendo
crescidos as angustias e ansiedades. Pois hoje crescem por toda parte a fome, a
opressão, a injustiça e a guerra, os tormentos, o terrorismo e outras formas de
violência. Isto obriga a uma reflexão teológica nova e mais profunda que
interprete tais sinais à luz do Evangelho” (II D,1). À luz deste novo contexto,
se coloca o acento não tanto na teologia da criação e da encarnação, quanto na
teologia da cruz e da redenção.
26 Arraigo
existencial – evangélico e místico – experiencial:
Leitura renovada do Evangelho.
a)
Um dos sinais de renovação da vida religiosa e do
cristianismo atual é seu arraigo existencialmente evangélico; é o que o
Vaticano II denominou “retorno constante às fontes de toda vida cristã” e
seguimento de Cristo como “norma suprema” de vida evangélica (PC 2), seguindo
“o carisma dos fundadores” como “fruto do Espírito Santo que age sempre na
Igreja” (ET 11). Todo carisma, como “experiência do Espírito”, representa uma
leitura renovada do Evangelho, uma nova espiritualidade que a explicita, abeta
no tempo para ser “aprofundada e desenvolvida constantemente” pelos dons particulares
daqueles que participam dela (MR 11)
b)
Cristo é o Evangelho em pessoa, centro e norma
última de toda vida consagrada, origem e meta de todo carisma. O carisma
teresiano representa uma maneira original de ler o Evangelho, de contemplar a
Cristo e de configurar-se com ele em um aspecto de seu mistério. A
originalidade de Teresa, seu carisma na Igreja, lhe vem precisamente da
configuração com Cristo em um conhecimento por experiência, de sua experiência
mística cristocéntrica, testemunhada no livro de sua Vida ( V 9,1-3;
26,6;27,2-8).
c)
Neste sentido, seu carisma é um “carisma autentico”
e de “genuína novidade na vida espiritual
da Igreja” (MR 12). Sua novidade e o êxito que significou como avance qualitativo na
espiritualidade cristã, se explicam justamente pela proposta de uma maneira
nova de viver o Evangelho que respondia as inquietações de seu tempo e , em
certo sentido, às necessidades de todos os tempos. A gêneses de sua obra, se
bem está enraizada na velha tradição carmelitana, aparece estreitamente ligada
à evolução de seu itinerário espiritual, inspirada no mais profundo espírito
evangélico e no ideal eremitico – contemplativo carmelitano, dando assim lugar
a uma nova obra criadora e fundadora: o Carmelo Teresiano.
d) Este é o significado de seu carisma como
“experiência do Espírito”. Sua experiência espiritual é a alma e o motor do
novo Carmelo, a força expansiva de sua irradiação nos países da Europa (
Itália,França, Flandes...) e a raiz mais profunda de seu impulso missionário (
Litoral da África, Pérsia, Novo Mundo...). Por isso se explica também a ampla
difusão de seus escritos, que são uma iniciação à experiência cristã.E aqui
está o cometido do Carmelo teresiano de hoje: viver intensamente o carisma
teresiano, iniciar o homem contemporâneo na experiência contemplativa
teresiana, à luz dos sinais dos tempos, e trabalhar na difusão de suas obras.
Tudo isso, alentado e animado pela convicção fundamental de Teresa de que sem
experiência não pode haver verdadeiro conhecimento. A experiência é a chave de
toda compreensão , também para o conhecimento de Deus, pois Deus mesmo é o
sujeito de experiência na medida em que é objeto de fé, médio único para a
união com Deus (M 1,1,4), em q eu a
realidade de Deus é padecida mais que sabida ( estado teopatico).
27.- Mística
pessoal e cristocéntrica: Leitura mistagogica.
a)
Em sintonia coma sensibilidade religiosa e a vivência da fé cristã hoje, a
experiência de Teresa, a diferença de outras místicas de inspiração metafísico
– neoplatonica, é eminentemente pessoal e cristocéntrica. Realiza se toda ela
na mediação insubstituível de Jesus Cristo: “Tenho claro que por esta porta
devemos entrar se queremos nos mostre a soberana Majestade grandes segredos” (
V 22,6). O essencial da mística teresiana é uma cristopatia , uma percepção
da humanidade glorificada de Cristo como sustento que nos sustenta e vida de
nossa vida (M7,2,6). Neste sentido define o Catecismo da Igreja o progresso
espiritual como a união cada vez mais intima com Cristo (n. 2014).
b)
E podemos ver que tem características muito parecidas com a experiência
paulina. O elemento fundante é sua conversão, com fortes analogias paulinas (
1Cor. 15,8; Gal 1, 15-16;Fl 3,7.12), diante da contemplação de uma imagem de
Cristo mui chagada” ( V 9,1). Sua primeira experiência teologal de imersão ou “engolfamento” em Deus como mistério
envolvente acontece pouco depois ( V 10,1; 18,15). Em meio de umas
circunstancias hostis, diante da política inquisitorial (ano 1559), Teresa
experimenta o descobrimento da humanidade Cristo co mo “livro vivo”, onde “se
vêm as verdades” e que “deixa impresso o que tem que ler e fazer de maneira que
não se possa esquecer” ( V 26,6). Este fato condiciona o novo rumo de sua
trajetória espiritual.
c)
Sua experiência mística a leva também a entender de outra maneira a Sagrada
Escritura, em uma espécie de simbioses ou com naturalidade entre a própria
experiência e a revelação bíblica, entre o que São Paulo chama a “sabedoria dos
perfeitos” (1Cor 2,6) e o sentido último da Escritura, que é o conhecimento
místico de Cristo como verdade de Deus ( V 40,1-4; M 7,1,7;2,8).
28.- O ideal
contemplativo ao serviço da Igreja:
Leitura evangelizadora.
a)
Se Cristo é o fundamento e conteúdo da mística
teresiana, a experiência teologal da oração é a característica mais peculiar do carisma teresiano, que
explica o sentido do novo Carmelo e a função magisterial de seus escritos; a
que, como lembrou Paulo VI na declaração oficial do Doutorado, “levou a cabo
dentro de sua família religiosa, na Igreja e no mundo, por meio de sua mensagem
perene e atual: a mensagem da oração”.
b)
E o redescobrimento da contemplação significou a
proposta de formas concretas, de um exercício acessível a toda a classe de
cristãos ( C 19,15;23,5), a instauração de uma nova pedagogia; a proposta de
caminhos de iniciação e de métodos para seu desenvolvimento. Graças a pedagogia
de seus escritos, o carisma teresiano da contemplação se converterá em uma
evidência no seio da Igreja, até o ponto de que hoje não pode pensar-se a
realização da vida cristã sem a vivência desta dimensão teologal e inclusive da
vivência mística. Neste contexto temos que ler o importante texto do Catecismo
da Igreja Católica sobre a mística, como plenitude de vida cristã (n. 2014), e
sobre tudo a pedagogia da contemplação ( nn. 2709-2719).
c)
O valor paradigmático da experiência contemplativa
de Teresa radica nestes aspectos: sua dimensão evangélica, que pela oração
penetra no coração mesmo do Evangelho ( V 9,4;10,1; C 37,1); seu dinamismo
teologal, que envolve toda sua vida, pessoal e comunitária, pela mesma dinâmica
do amor ( C 4,7; F 5,2.15-16; M 4,1,7); seu valor apostólico e dimensão
evangelizadora dentro da Igreja ( 1,2.5).
29.- Em um
novo estilo de vida fraterna:
Leitura em chave comunitária.
a)
O carisma teresiano, sua experiência mística de
Cristo, o ideal contemplativo ao serviço da Igreja, se encarnam visivelmente no
que Teresa apresentará como “nosso estilo de irmandade e recreação” ( F13,5);
um ideal de vida comunitária configurado por estes três fatores:
Ø Uma comunidade que antes de mais nada todo ele
“colégio de Cristo” ( CE 20, 11), conforme ao modelo da Igreja primitiva mais
radical, pois ELE está presente no meio da comunidade (V 32,11), é “o Senhor da
casa” ( C 17,7), o que “nos juntou aqui” ( C 1,5;3,1).
Ø Uma comunidade sob as exigências da estrita
igualdade e do amor verdadeiro ( C 4,7;7,9) e onde tudo está presidido por um
estilo evangélico de amor efetivo, gratuito, desinteressado ( C 4,11;6-7; M
5,3,7-12), com o trabalho manual como norma ( Cons. 28).
Ø Uma comunidade humanista, com notas tão peculiares
como insólitas para seu tempo: a cultura, as virtudes humanas, a suavidade,
prudência e descrição; a naturalidade, a
afabilidade, a alegria: “quanto mais santas mais conversáveis” ( C 41, 7-8).
b)
Devemos destacar aqui o paralelismo de este estilo
de vida fraterna com o que afirma a Vita consecrata sobre a “vida fraterna no
amor” (VC 42) e a Novo Milennio Ineunte
sobre a espiritualidade de comunhão ( NMI 43).
c) A leitura que nos propomos fazer dos escritos de
nossa Santa madre, pretende recriar a comunidade teresiana, “nosso estilo de
irmandade” , com os rasgos que a caracterizam. Vai ajudar para isso a leitura
em comunidade e em comunhão com toda a Ordem, onde suas palavras adquirem
especial ressonância.
30.- Sob o
amparo da Virgem do Carmo: Leitura mariana.
a)
O projeto fundacional do Carmelo tem um claro matiz mariano ( V 33,14). Por
isso Teresa de Jesus, que experimenta
cedo em sua vida o poder intercessor da Virgem ( V 1,7), propõe à Virgem
Santíssima como Mãe e Senhora da Ordem ( F 29,23;M3,1,3), como modelo de oração
e abnegação para o caminho da fé ( M6,7,13-14), como mulher dedicada em corpo e
alma à escuta e contemplação da Palavra do Senhor (CAD 5,2;6,7) sempre dócil
aos impulsos do Espírito Santo e associada ao mistério pascal de Cristo pelo
amor, a dor e o gozo ( M7, 4,5;R 14,6). De ai que a comunhão com Maria penetra e
marca com um selo mariano todos os elementos de nossa vida: a vida fraterna, o
espírito de oração e de contemplação, o apostolado em tosas suas modalidades e
a mesma abnegação evangélica.
b)
A figura evangélica da Virgem, além de ser modelo de nossa vida, nos estimula a
seguir seus passos, convidando-nos a que, como verdadeiros “pobres de yahve”,
“configuremos nossa vida com a de nossa Senhora na continua meditação da
Palavra divina desde a fé e na múltipla doação do amor”. Da mão de Maria nos
adentramos no mistério de Cristo e da Igreja e nos fazemos portadores, como
Ela, de Jesus e da Boa Nova de seu Reino. Por isso a dimensão mariana é, sem
dúvida, juntamente com a dimensão cristocéntrica, uma das chaves fundamentais
da leitura teresiana .
c)
E junto a Maria, São José como humilde servidor de Cristo e sua Mãe, exemplo
vivo de comunhão orante com Jesus: “Alimentados com o espírito de Santa Teresa,
amamos inseparavelmente à Virgem Maria e a seu esposo São José e o veneramos
como humilde servidor de Cristo e de sua Mãe, exemplo vivo de comunhão orante
com Jesus e providencial protetor de nossa Ordem” ( CC 52).
31.- Em
diálogo cultural: Leitura in culturizada e globalizada.
a)
Teresa de Jesus vive imersa no mundo cultural do século XVI e, ao mesmo tempo,
com o olhar direcionado em novos horizontes, sensível aos grandes
acontecimentos de seu tempo. A rápida expansão do Carmelo dentro da Europa
acontece como um fenômeno não só de irradiação senão também de in –culturação.
Também podemos dizer o mesmo em relação a expansão missionária e da implantação
do Carmelo em diversas partes do mundo. Também podemos afirmar de seus
escritos: um fenômeno profundamente cultural e religioso.
b)
Por tudo isso, pode se dizer que Teresa coloca em marcha um movimento não só
religioso mas também cultural. Este compreende uma serie de valores que
configuram um determinado estilo de vida, chamado a encarnar-se nas diversas
culturas.É o estilo de vida que ela viveu desde sua experiência contemplativa,
enraizada na historia, e que soube transmitir a seus seguidores; ES que estes,
ao mesmo tempo, souberam encarnar nas distintas culturas, enriquecendo –o com
novos valores.
c)
Este é o desafio do Carmelo atual. Herdeiro de um patrimônio cultural e
religioso sumamente rico, não pode limitar-se a custodiar olhando para o
passado, mas tem que saber projetá-lo olhando ao futuro, em uma realidade ao
mesmo tempo pluricultural e globalizada. Para isso é necessário:
Ø Uma renovada fidelidade aos valores do carisma
teresiano;
Ø Um renovado projeto
de vida que contemple as coordenadas culturais de nosso tempo ( comunidades
renovadas);
Ø Um renovado
projeto pastoral que contemple um serviço qualificado à Igreja no campo da
espiritualidade ( retiros,casas de oração e centros de espiritualidade);
Ø Um novo projeto
cultural, que impulsione o estudo e difusão dos escritos de Teresa de Jesus
( Teresianum, CITeS, Congressos, Revistas e Editoriais O.C.D.)
d) Estas líneas de atuação, como preparação ao
Centenário da Santa, são complementarias e tem que desenvolver-se conjuntamente
para que sejam realmente fecundas no mundo e na Igreja de hoje. Ao mesmo tempo,
é necessário algum tipo de coordenação a nível de Ordem ( Secretariado Geral
para a Cultura ), para que os projetos apresentados não fiquem isolados, senão
que apareçam como o grande projeto religioso – cultural ou como a imagem do
Carmelo em nosso dias, que todos queremos encarnar e projetar em nosso entorno
e em nosso mundo globalizado.
II.-
Critérios para um plano de leituras teresianas.
Mais que um plano ou calendário de leituras para o
próximo sexenio, cremos mais útil oferecer aqui alguns critérios que a comissão correspondente teria que ter em conta na
hora de elaborar as guias para cada ano:
32.- Sentido
pastoral: Pode se
tomar como ponto de referência a programação que faz NMI para o terceiro
milênio: partir de Cristo ( centro da fé cristã ), contemplar o rosto de Cristo
( oração ), configurar-se com Cristo ( seguimento ), escuta e anuncio da
Palavra ( evangelização ), testemunhas do amor ( missão ).
33.- Sentido experiencial, mistagogico e profético:
Outro critério de leitura é seguir a trajetória espiritual de Teresa, com uma
iniciação à experiência : sua conversão, sua experiência de Cristo, seu caminho
de oração, sua vivencia teologal, sua experiência trinitária, seu serviço à
Igreja e seu espírito missionário.Esta tem a vantagem de iniciar-nos no caminho
espiritual de nossa Santa madre e de anunciar profeticamente o mistério da
presença de Deus na historia humana.
34.- Sentido
bíblico e litúrgico: Tendo em
conta a força da Palavra de Deus e da Sagrada Escritura na experiência
teresiana e coincidindo coma revalorização da “Palavra de Deus na vida cristã e
na missão da Igreja” ( Sínodo dos bispos, outubro – 2008 ), podemos propor uma
leitura desde a perspectiva bíblica, insistindo na lectio divina ou lectio spiritualis, e convidando a uma leitura
assídua da Sagrada Escritura ( DV 25 ), recuperando assim o sentido da lectio
divina, para descobrir os sinais da vontade de Deus nos acontecimentos da vida,
como exorta o Concilio ( PO 18) A experiência teresiana da Palavra também via
unida à Liturgia, “fonte e cume da vida espiritual” ( SC 14 ).
35. Sentido
cristocéntrico e evangélico: Partindo do
cristocentrismo da experiência teresiana, do sentido evangélico de sua vida,
pode se programar a leitura desde essas coordenadas, tomando como guia o
seguimento de Cristo ( VC 18 ss), os conselhos evangélicos ( VC 20 – 22)e a
proposta de leitura espiritual que faz Bento XVI no seu livro “Jesus de
Nazaré”
36.- Sentido
eclesial: Também desde
a singular experiência que tem Teresa da Igreja, pode se propor outra chave de
leitura de suas obras, tendo em conta as necessidades da Igreja hoje e tratando
de dar uma resposta, no campo da espiritualidade e da evangelização, desde
estas três coordenadas da eclesiologia post conciliar: consagração, comunhão e missão.
37.- Sentido
comunitário: As obras de
Teresa de Jesus descrevem um estilo de irmandade, particularmente significativo
em nossa sociedade moderna, marcada pelo individualismo, onde cada vez
mais devem ser mais fortes os sinais de
comunhão, que anunciem a fraternidade universal. Neste sentido, pode seguir-se
como referencia paralela a segunda parte da Vite consecrata: “Signum fraternitatis”.
38.- Sentido
apostólico e missionário: Outra chave
de leitura é a dimensão apostólica e missionária que transpira a vida e as
obras da santa, destacando sua vivencia do mistério pascal, fonte de toda
evangelização, e o serviço apostólico que hoje nos pede a Igreja à vida
consagrada, seguindo a terceira parte de Vita consecrata: “Servitium
caritatis”.
39.- Sentido
da inculturação: As obras da
Santa contem uma mensagem válida para nosso tempo e para todas as culturas. Mas
temos que ler elas com os olhos de hoje, com uma sensibilidade religiosa e
cultural, tendo em conta os distintos contextos culturais e religiosos da
Ordem. O marco desta leitura pode ser o desenvolvido no documento do Capitulo
Geral ( 2003 ): Em caminho com Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz: Voltar
ao essencial ( nn. 60-64; 74-78 ).
III.-
Algumas linhas operativas
40.- Um
projeto avaliável,performativo e participativo
a)
Teria que se fixar o modo concreto em que o projeto de leitura que aplicamos
seja avaliável em seus efeitos , isto é,
em seus objetivos.Por isso se requer capacidade de autocrítica, dentro de
um sadio e esperançado realismo, com projetos concretos de melhora, tanto da
qualidade ( autenticidade ) de nossa vida como da qualidade ( eficácia ) de
nosso serviço.
b)
A leitura do documento deve ser perfotmativa,
empática e nutrícia de nossa vida, isto é, deve servir para aprofundar e
assimilar espiritual e operativamente ( per formativa e transformativamente )
os temas ou aspetos essenciais da experiência e doutrina teresianas.
c)Sublinhar
os núcleos bíblicos ou da fé cristã,
que vivencia, renova e expressa a experiência teresiana. Por isso a leitura por
obras deveria ir acompanhada de uma leitura transversal, de caráter inter
disciplinar, e mais pedagógica.
d)
Outro referente é o desafio humano,
eclesial e social de nossa existência hoje, no qual pode ajudar de alguma
maneira a experiência e doutrina teresianas.
e)
Nesse sentido, deve prevalecer a teoria da relevância, não da sistematização. Em
nosso universo mental religioso, onde predomina o desencanto social, tem
particular relevância a personalidade teresiana, seu humanismo evangélico, sua
audácia, sua liberdade, seu humor, sua autenticidade de vida.
f) Que seja uma leitura aberta, capaz de integrar aos leigos, passando pelo modelo diretivo
ao modelo cooperativo: formar um laicato adulto. Assim mesmo, interessar a
Institutos afiliados, programando uma serie de leituras conjuntas ao longo do
sexenio.
g) Projetar esta iniciativa em todos os meios
possíveis de informação buscando uma amplia participação e difusão: projeto d e
áudio ou criação de uma página web em inglês.
h) Promover a criação da Aula teresiana para a leitura comum de seus textos.
i) Desenvolver um projeto cultural, complementário
do projeto de leitura, que seja particularmente significativo para a Ordem e
para a projeção do carisma teresiano na Igreja hoje.
41 Celebração criativa do Centenário.
a)
A celebração do Centenário exige criatividade, abertura a novas e mais amplas
investigações, buscar conexões entre a doutrina teresiana, a Bíblia e a
pastoral, e tratar por todos os meios que a obra teresiana chegue a ser um
patrimônio vivo, que possa expressar-se e dar-se a conhecer através de linguagens
diversos e complementários, tais como o artístico, o musical, cinematográfico,
televisivo e literário.
b)
Hoje não existe campo da expressão da cultura de nosso tempo que não tenha
espaço para Santa Teresa. Mesmo no mundo das diversas tradições e credos
religiosos, no âmbito de agnósticos, incrédulos e indiferentes se acolhe com
boa vontade a figura e a obra escrita de nossa Fundadora. São espaços abertos,
não esgotados, suscetíveis de uma mais ampla
e especializada oferta por parte da Ordem.
42.- A tarefa coordenadora do Definitório Geral.
a)
O principal animador do V Centenário entendemos que é o Definitório Geral da
Ordem, quem poderá nomear uma comissão central, com a tarefa principal da
elaboração oportuna de guias ou subsídios de animação para cada ano e promover,
coordenar e divulgar as iniciativas que surjam nas diversas circunscrições.
b)
Assim mesmo, teria que se prover os mecanismos necessários para que Ávila acolha todos os peregrinos com
uma oferta que complemente e enriqueça o aspecto meramente geográfico e
hagiográfico, de tal maneira que sua visita aos lugares teresianos marque
profundamente e enriqueça a experiência mística na Ordem e na Igreja. Neste
sentido, o centro da Ordem fará um esforço especial de coordenação e colaboração
com todas as Províncias da Península Ibérica e potenciará ao máximo ao CITeS
para que sirva de ponto de referencia em tudo o relacionado com esta
celebração, especialmente no tocante a sua identidade de ajudar a aprofundar a
doutrina teresiana para as diversas culturas e
níveis da família carmelitana.
43.- Algumas
iniciativas na concretização do Centenário.
É
verdade que a celebração do V Centenário dos nascimento de Santa Teresa de
Jesus é um marco histórico importante e especialmente intenso, a presença
dinamizadora da Santa não pode reduzir-se só aos acontecimentos
extraordinários.
a)
Fruto desejável de esta celebração será assegurar
que em todas as circunscrições da Ordem se potenciem ou se estabeleçam centros
permanentes de estúdio e difusão de sua doutrina: criação de “Aula teresiana”.
b)
Que o centro da ordem, em coordenação com o CITeS e
as circunscrições, anime decididamente um plano de estudos e especialização na
obra teresiana.
c)
Que em Ávila
, lugar teresiano por antonomásia , tenha uma atividade permanente de acolhida
a grupos de jovens, especialmente nos verãos, que harmonize o conhecimento
geográfico dos lugares teresianos com o conhecimento vivencial de seu espírito.
d)
Que periodicamente se celebre um encontro ou seminário
especializado, no qual participem especialistas e formadores em pastoral da
espiritualidade e a todos os interessados em Santa Teresa.
e)
Que ao menos uma vez no próximo sexenio se celebre
em Ávila um Definitório Extraordinário com marcado acento formativo, cujo tema
fundamental seja algum aspecto da doutrina teresiana.
f) Que estudiosos e editores se fixem um “modus
operandi” para a incorporação de novas descobertas, especialmente no relativo
às cartas que possam descobrir-se, etc.
Conclusão
44.- Nossa
missão profética no século XXI.
Alicerçados
na experiência do Deus vivo, quem, ao criar-nos a sua imagem e semelhança, tem
se reservado no interior de toda pessoa um espaço para por sua morada, nos
propomos como família teresiana ser sinais proféticos da presença de Deus em
nosso mundo atual e despertar a consciência do homem do século XXI, para que
encontre no mais profundo de si mesmo a verdadeira felicidade e o autêntico
sentido da vida.
45.- Nossa
consciência e nossa oferta carismáticas.
Este
quer ser o sentido de nossa renovada consciência carismática com a leitura
programada das obras de Teresa e o sentido de nossa oferta carismática na
Igreja, imbuindo-nos dos valores teresianos: de seu profundo sentido de Deus e
do homem, de seu espírito de oração e de sua abertura aos acontecimentos de
nosso mundo, de sua responsabilidade eclesial e de seu espírito apostólico.
Queremos,
em fim, vislumbrar com ela a beleza das “almas em que tanto se deleita o
Senhor”, começando por uma renovada consciência da dignidade de cada um de nós.
Desta maneira, teremos também uma percepção positiva e esperançada do homem de
nosso tempo e uma atitude criativa, tanto na construção do Reino de Jesus Cristo
como no anuncio de um “céu novo e uma terra nova”.
“A
grandeza de Deus não tem fim, nem tampouco a terão suas obras” ( M 7,1,1). Não
tem deixado de obrar e segue sendo o Senhor da historia. Por isso nossa oferta
teresiana quer ser a grande oferta que o Carmelo sente se obrigado a oferecer,
para que o homem do século XXI seja também um místico, que tem experimentado a
Deus, que tem descoberto o sentido de sua vida e quer comunicar aos homens de
nosso tempo.
_______________________________________
ORAÇÃO A SANTA TERESA DE ÁVILA
Santa Madre
Teresa de Jesus!
Tu te
colocaste totalmente ao serviço do amor:
Ensina-nos a
caminhar com determinação e fidelidade
No caminho
da oração interior
Com a tenção
fixa no Senhor Deus Trindade
Sempre
presente no mais intimo de nosso ser.
Fortalece em
nós o fundamento
Da
verdadeira humildade,
De um
renovado despojamento
Do amor
fraterno incondicional,
Na escola de
Maria, nossa Mãe.
Comunica nos
teu ardente amor apostólico à Igreja,
Que Jesus
seja nossa alegria,
Nossa
esperança e nosso dinamismo,
Fonte
inesgotável
Da mais
profunda intimidade.
Abençoa
nossa grande família carmelitana,
Ensina-nos a
orar de todo o coração contigo:
“Vossa sou,
Senhor, para Vós nasci
Que mandais
fazer de mim?” Amem .
_______________________________
Comissão
para a preparação do V Centenário Teresiano: Tomas Alvarez
Conrad de Meester
Giuseppe Pozzobon
Rómulo Cuartas
Emilio Martinez
Juan Antonio Marcos
Ciro Garcia