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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Carlo Acutis: um jovem "anticonformista" aluno do Instituto "Leão XIII" de Milão


O Instituto Leão XIII, de Milão, houve entre seus alunos o jovem Carlo Acutis (1991-2006), portador de uma vida "extraordinária dentro do ordinário", que deixou uma lembrança indelével em todos aqueles que o conheceram – razão pela qual foi iniciado o seu processo de beatificação.

A Diocese de Milão já começou o recolhimento de testemunhos de pessoas que afirmam ter recebido por intermédio de Carlo vários tipos de graça (1).  Os jesuítas que dirigem o Leão XIII aperfeiçoaram o seu temperamento espiritual já forte, observando como o Espírito Santo faz milagres e graças, mesmo no atual contexto social, onde vemos tantos jovens expostos ao desregramento e à idolatria falsa. Damos, nestas páginas, um resumo do perfil de Carlo Acutis - convite para um conhecimento mais profondo (2) que já levou muitos a considerá-lo um providencial "amigo no Senhor", usando uma expressão favorita de S. Inácio de Loyola.
Vastos interesses e uma forte busca espiritual
Em uma sociedade onde tudo parece estar perseguindo o "prazer", submetidos a um hedonismo desenfreado, onde até mesmo "mensagens ocultas" são símbolos de referência explícita ao "desejo" que nada tem a ver com o espírito, caminhar "contra a corrente" – especialmente para um adolescente – significa afastar-se, material e espiritualmente, desta popular forma de vida.
A decisão de colocar os valores de Deus e os valores cristãos no centro da vida geralmente acontece para pessoas que tenham atingido, pelo menos, a chamada "maioridade", fase em que se pode estar mais facilmente "em silêncio". Mas o que diríamos de uma pessoa que reze o Rosário, que faça com que as pessoas acreditem em outros valores, que esteja no computador não para conversar em "chats", mas para procurar tópicos da vida espiritual, cartões agiográficos ou imagens sagradas, fosse um adolescente? E se esta pessoa não fosse sumariamente aquilo que se diz de um de "fanático" ou "perturbado mental", isolado de tudo e de todos, mas um jovem cheio de vida, feliz, sorridente, sempre pronto para dar auxílio ou apenas uma palavra de conforto?
Talvez seja difícil acreditar em um fato destes, já que estamos acostumados a ouvir no "boletim do sábado à noite" a crônica negra dos crimes que a mídia propaga, como a morte de tantas vidas jovens, para não mencionar aqueles que sofreram uma "overdose" no caminho trágico da dependência de drogas...
Mas existe uma outra realidade, menos conhecida e mais positiva, da qual Carlo Acutis (1991-2006) foi testemunha em sua breve e intensa vita.
Ele era um jovem cheio de interesses, em especial a informática; aqueles que o conheciam, além de definí-lo um verdadeiro "gênio" do computador (o site que ele criou é um testemunho claro), podiam constatar que ele ainda era envolvido no voluntariado, na edição de filmes, na direção e edição de vários jornais escolares e grupos envolvidos em iniciativas socialmente úteis.
Mas essa atividade – testemunhada por quem o conhecia – era acrescida dentro de um contexto de vida espiritual forte e consciente. Isso o levou à participação da missa diária, a permanecer em adoração diante da Eucaristia, a adquirir o gosto da oração autêntica, que para si teve um papel importante na recitação do Santo Rosário. Tudo isso era claramente indicado no seu website, que ainda está online, editada agora por aqueles que o conheceram e apreciaram (3). Muitas páginas foram deixadas como Carlo tinha criado.

Dentre estas páginas, podemos citar uma que, particolarmente, demonstra a sua bravura e grande senso estético: uma verdadeira "mostra ondine" sobre os milagres eucarísticos mundiais.

Outra indicação de seu notável interesse pela vida dos Santos é uma longa página por ele escrita chamada "Meus amigos do Céu", que contém dezenas de "guias" sobre a vida de santos, beatos e servos de Deus que haviam-lhe particularmente interessado e que deixaram, sobremaneira, uma marca em sua vida espiritual.

Apenas com base nesses interesses digamos "alternativos" em respeito àqueles que geralmente são cultivados na adolescência e graças a um "empurrãozinho" de uma forte fé, Carlo tentava de todas as maneiras trazer almas a Deus, sugerindo às pessoas que conhecessem o caminho de Deus e que tivessem uma vida verdadeiramente cristã, "alimentando-se" do Corpo e Sangue de Cristo – elementos que nunca faltaravam nos seus dias. A frase-chave do seu site, escrito em letras grandes, ele diz, por isso mesmo o original: A Eucaristia é a minha estrada para o Céu..
Eventos significativos da vida de Carlo Acutis
Carlo Acutis nasceu em Londres (Inglaterra) a 03 de maio de 1991, local onde residiam em razão de exigências profissionais de seus genitores, André e Antonia. Recebeu alguns dias depois de nato (a 18 de maio) o Batismo, na Igreja de Nossa Senhora das Dores, também naquela cidade. Nesta ocasião, sua mãe - profundamente católica - preparou um bolo na forma de um cordeirinho para agradecer ao Senhor para a entrada de Carlo na comunidade cristã. Nesta igreja, havia uma estátua de Nossa Senhora de Fátima, a qual Carlo seria muito dedicado, ponderando e meditando, muitas vezes, sobre as mensagens enviadas para os pastores.

Sobre a importância fundamental do sacramento do Batismo, muitas vezes reduzidas a celebração do consumismo banal, Carlo assim expressava-se: "O Batismo é importantíssimo, porque permite que as almas sejam salvas graças ao retorno à vida divina As pessoas não percebem. o quanto significa esse dom infinito, e além do confete, presentes e roupas brancas, absolutamente não se preocupam em entender o significado deste grande dom que Deus dá à humanidade. ".





A infância de Carlo desenvolve-se sob o carinho e afeto não só dos pais e parentes próximos, mas também de algumas babás. A criança mostrava-se alegre, animada, mas ao mesmo tempo suave - "raro nesta idade". Se algum coleguinha fazia-lhe qualquer coisa errada, Carlo não reagia instintivamente, e citava o motivo: "O Senhor não seria feliz se eu reagisse violentamente. "
Já com doze anos de idade, frequentava a missa diariamente, também em seu período de férias, portando da Eucaristia a força para viver de forma santa e tão diversa de seus contemporâneos…
Em uma ocasião, preferiu ir em peregrinação a Assis (Itália), ao invés de escolher outros locais de entretenimento - um comportamento que desperta muita curiosidade daqueles que estavam ao seu redor, como alguns de seus parentes, que chamavam de "vítima dos pais", pensando que estavam estes impor tal comportamento.
Mas a realidade era diferente, como o próprio Carlo confidenciou a seu pai espiritual antes de sair desta dimensão terrena: "Assis é o lugar onde me sinto mais feliz". Ele admirava S. Francisco, especialmente sua grande humildade.
Após o colegial, ele foi matriculado no Liceo Classico Leão XIII, dirigida pelos Padres Jesuítas, oportunidade em que foi orientado espiritualmente pelo Pe. Roberto Gazzaniga, s.j. Carlo não era o primeiro da classe, mas conseguia resultados muito bons; dispunha-se sempre com alegria e generosidade para ajudar os amigos e todos ao seu redor, especialmente na utilização do PC, convicto que era da importância do uso construtivo dos computadores e da internet, conceito expresso pelo Papa João Paulo II e também reafirmado hoje pelo Papa Bento XVI. Repetidamente, colocava os seus conhecimentos à serviço da criação de apresentações multimídia e outras iniciativas promovidas pelo Instituto.
Carlo demonstrava interesse especial para aqueles colegas menos considerados, para aqueles que se sentiam "excluídos". Disse assim um amigo, como testemunha: "Carlo era uma pessoa muito disponível para fazer amizade com todos, e acompanhava com os colegas que tinham alguns problemas para se socializar. Isso acontecia com alguns jovens da nossa turma Carlo era sempre interessado em tentar envolvê-los e fazer com que eles estivessem integrados na classe. Carlo ia à Missa várias vezes por semana; ele tinha muita fé, acreditava no diálogo íntimo com o Senhor e rezava o Rosário todos os dias. Após a morte de Carlo voltei para Igreja e acho que isso pode ser mérito de uma intercessão de Carlo.".
Estas são algumas máximas apresentadas por Carlo no site. Assim dizia: "decidi ajudá-los, compartilhando alguns dos meus segredos mais especiais para aqueles que desejem rapidamente alcançar o objetivo da santidade:
1)Você deve querer isso com todo o seu coração, e se esse desejo ainda não tiver aflorado em seu coração, deve pedir com insistência ao Senhor.
2) Vá à missa todos os dias e faç a Santa Comunhão.
3) Lembre-se de recitar o Rosário todos os dias.
4) Leia todos os dias uma passagem da Santa Escritura.
5) Se você puder fazer um momento de adoração eucarística diante do altar, lugar onde Jesus está realmente presente, verá o quão maravilhosamente pode aumentar o seu nível de santidade.
6) Vá ao confessionário toda semana, mesmo que os pecados sejam banais.
7) Faça pedidos e ofereça flores para o Senhor e Nossa Senhora, a fim de ajudar os outros.
8) Peça ao seu Anjo da Guarda para ajudá-lo continuamente, de modo que ele se torne seu melhor amigo."
A religião para Carlo não era "fanatismo" ou superficialismo. Na verdade, a sua cultura no tocante à fé - considerando sua pouca idade - era muito amplo, a ponto de seu professor de religião na escola, quando não conseguia se lembrar exatamente de algumas citações do Evangelho, pedir-lhe ajuda – e nunca era decepcionado com suas respostas!
Na igreja seu comportamento foi exemplar, característica de quem não comparecia apenas ao local como "hábito": agia com o devido respeito e, ocasionalmente, chamava a atenção daqueles que não se comportavam adequadamente no ambiente sagrado.
Sua confiança em Deus era total e manifestava seu amor pela vida, que brilhava em seu sorriso radiante e em seu jeito calmo de lidar com os pequenos problemas diários. Apesar de pertencer a uma família rica, não ostentava o este fato com a roupas de "grife" ou outros objetos que poderiam atrair a atenção, preferindo que o interesse das pessoas fosse dirigido a outros bens, como amar e agradecer ao Senhor ...
Tendo incluído no seu site muitas figuras dos Santos, destacou o fato de que essas criaturas não eram "extraordinárias" por natureza ou predestinação, mas que os Santos foram pessoas como nós: resta-nos seguir o seu exemplo, vivendo de acordo com os ensinamentos o Evangelho.
Carlo, para oferecer as agiografias, a vida dos beatos e servos de Deus, "retirou" do nosso site algumas fotos e artigos, especificamente as páginas dedicadas à Venerável Maria Teresa González-Quevedo (texto e fotografias) e duas imagens da Serva de Deus, Santa Scorese. Dado o "sujeito" em questão, o "perdoamos" de bom grado, eis que, na verdade, estamos satisfeitos com a esperança de que, de lá do alto, rezam eles para o sucesso do nosso trabalho apostólico.
O amor ao Senhor também uniu-se ao amor ao próximo, amor demasiado grande: Carlo não deixava de dar o seu apoio à pessoas "altamente colocadas", como àqueles destituídos da sorte. A caridade, tomado em seu sentido original de amor, era abundante na vida de Carlo, uma instituição de caridade silenciosa, oculta, tal como Jesus aconselhou-nos no Evangelho: "Não saiba o que dá tua mão esquerda a mão direita, de modo que a tua esmola permaneça em segredo: e teu Pai que vê em secreto, te recompensará "(Mateus 6:1-6). Esse é um traço comum a muitos santos, como assim explicitamos em nossa revista dedicada a S. Giuseppe Moscati. De fato, uma testemunha, por exemplo, relatou que ela observava, enquanto o Prof. Moscati, numa igreja fechada, inseria na caixa de ofertas luxuosas oferendas ao Santuário de Nossa Senhora de Pompéia, crendo que estava sozinho.
Além disso, o centro da existência de Carlo Acutis foi a Eucaristia, assim como era na vida de S. Giuseppe Moscati, e os frutos resultantes deste amor pode ter sido o mesmo, apesar de concluída em alguns lugares, formas e em momentos diferentes.
Um exemplo de como Carlo tinha no coração o bem-estar daqueles que tinham muito menos do que ele. Conta a avó materna, chamada Luana, falando de um mendigo que Carlo havia dormindo no chão, num jardim público de Assis: "Carlo lembrou-me todas as noites para preparar a comida para levar para o pobre homem, colocando sempre perto do seu bolso algum dinheiro, para que quando acordasse, tivesse o dinheiro perto de si." Exemplo de amor que não exige nada em troca, que sentia a alegria de dar e sem esperar nada em troca...
O exemplo que nos foi dado por Carlo nos leva a refletir sobre como a riqueza não é um mal em si, mas o valor que você dá aos bens materiais, não o egoísmo que muitas vezes dele resulta. O desejo de "manter tudo a si próprio", sem que o próximo participe desta bênção é o mal real.
Ninguém poderia imaginar que o Senhor iria em breve chamar a si o adolescente cheio de força, e que gozava de boa saúde: a doença que o atingiu, um tipo de leucemia do tipo M3 (já em fase aguda), foi inicialmente confundida com uma simples "caxumba". O mal escondido alastrou-se rapidamente, apesar dos muitos tratamentos, até a partida de Carlo, tudo isso no espaço de um mês. O Senhor chamou-o para o céu às 6:45h de 12 de outubro de 2006. Ele tinha apenas 15 anos de idade.
Durante o curso da doença, os pais ouviram-no dizer: "Ofereço todos os sofrimentos desta minha partida ao Senhor, ao Papa e à Igreja, não para fazer o Purgatório e ir direto para o Paraíso." 
Aqui estão algumas palavras da mensagem de um jovem tão "diferente" dos outros que, mesmo no sofrimento, nunca deixou de confiar no Senhor e oferecer tudo para o gozo do céu, e para o bem dos outros.
A morte não é o fim de nada, mas um verdadeiro começo – e em 12 de Outubro de 2006 a verdadeira vida de Carlo começa...



A riqueza da liturgia beneditina


Entrevista com o presidente do Pontifício Instituto Litúrgico de Roma
SANTO DOMINGO DE SILOS, domingo, 1 de outubro de 2006.- Existe uma liturgia beneditina? Em uma conversa com o monge beneditino Juan Javier Flores –presidente do Pontifício Instituto Litúrgico de Roma (no Ateneu Pontifício Santo Anselmo)– Zenit explorou esta questão, sumamente atual desde a eleição de Bento XVI.
O padre Juan Javier Flores, da Abadia Beneditina de Santo Domingo de Silos, explica nesta entrevista a influência dos monastérios beneditinos na vida litúrgica da Igreja.
–Pode-se falar especificamente de uma liturgia beneditina ou é uma expressão inadequada?
–P. Flores: Não existe uma «liturgia monástica», como não existe uma liturgia beneditina, nem nunca existiu; existe um modo monástico ou beneditino de celebrar a sagrada liturgia. Porque a liturgia pertence à Igreja e é pensada, atuada e vivida para todos os cristãos.
Os monges não se separam da liturgia da Igreja, mas a aproveitam e vivem dela, posto que a liturgia é da Igreja.
Com este princípio como base, penso que a liturgia nos mosteiros de hoje deve ser uma liturgia que reflita o espírito e a letra dos livros litúrgicos renovados após a reforma litúrgica.
Sem nostalgias nem voltas a um passado romântico, os mosteiros estiveram na vanguarda do movimento litúrgico e, em linha com ele, deverão continuar sendo lugares onde se celebra e se vive a liturgia de hoje com o espírito de sempre.
A Regra de São Bento não tem nenhuma peculiaridade a respeito da Eucaristia ou ao restante dos sacramentos. É um documento do século VI; logo reflete a situação eclesial do momento.
Só no referente ao ofício divino –que agora chamamos de liturgia das horas– tem uma grande peculiaridade e originalidade. Ao largo do tempo e até hoje, têm existido na Igreja latina dois tipos de ofícios, o monástico e o ofício catedral ou clerical.
O ofício beneditino se funda em princípios de tradição monástica anterior, reúne e ordena elementos litúrgicos que em seu tempo aparecem no uso em diferentes igrejas. Tanto em seu conjunto como em inumeráveis detalhes o ofício divino da Regra beneditina tem uma grande originalidade.

–Qual tem sido a influência dos beneditinos na história da liturgia?
–P. Flores: Os monastérios beneditinos têm desde seu início um ofício divino diverso do clero diocesano e dos demais religiosos, baseando-se na distribuição que São Bento faz do saltério.
O princípio da Regra que se tem mantido categoricamente durante os séculos até agora é que «se atenda a que cada semana se recite íntegro o saltério de cento e cinqüenta salmos…» (RB 18). Há que admitir que não se trata aqui de uma –e menos ainda da– forma existencial da vida monástica beneditina, mas sim de seu modo de organizar algo tão importante como é a oração comunitária.
E também há que reconhecer que a piedade monástica desde o princípio em uma grande medida tem estado marcada pela piedade dos salmos.
Dado que é certo que os mosteiros beneditinos não devem ser museus de história da Igreja nem de história da liturgia, em conseqüência não se deveriam transformar nisso; não obstante, é muito legítima a esperança de que se possa manter nos monastérios beneditinos o Psalterium per hebdomadam, que tem mais de 1.500 anos de tradição, pelo menos no ofício monástico.
Mas os mosteiros beneditinos se adaptam ao tempo e ao lugar. O poder separar-se do princípio assumido pelo monacato de rezar os 150 salmos em um modo determinado já se prevê no mesmo capítulo 18 da regra beneditina: «sobretudo advertimos que se porventura a alguém não agradar esta distribuição de salmos, a ordene de outro modo, se lhe parecer melhor» (RB 18, 22) mas –acrescenta São Bento– mantendo o anterior princípio do saltério semanal.
–Como se organiza a distribuição dos salmos?
–P. Flores: A reforma do ofício divino nos monastérios beneditinos se baseia unicamente no Thesaurus Liturgiæ Horarum Monasticæ, preparado por e para a Confederação Beneditina, onde já se estabelecem outros modos de distribuição do saltério segundo as possibilidades dos diferentes monastérios.
Entre as quatro possibilidades que podem escolher os monastérios está o esquema A – ou da Regra –, o esquema B – Fuglister – que distribui o saltério em uma ou duas semanas com critérios exegéticos e bíblicos diferentes dos que em seu dia teve São Bento, mais outros dois esquemas que têm tido menos ressonância.
Portanto, hoje os diferentes mosteiros têm opção de optar por um ofício divino que responda mais às exigências do tempo, lugar e trabalho de cada mosteiro.
Alguns têm optado por manter o esquema tradicional beneditino; uma grande maioria segue hoje o esquema B com distribuição dos saltérios em uma ou duas semanas; alguns inclusive optaram por adotar a mesma liturgia das horas romana.
É, portanto, mais uma responsabilidade própria de cada mosteiro beneditino escolher um ou outro esquema, sabendo que entre os elementos da vida beneditina o Ofício Divino deve ocupar o primeiro lugar (RB 8, 20; 43, 3) e nada se deve antepor a ele.
–Que repercussão têm os monastérios beneditinos na vida litúrgica da Igreja?
–P. Flores: Ao longo dos séculos, os mosteiros beneditinos têm sido lugares de irradiação espiritual e litúrgica; mais ainda, eles mantiveram durante a Idade Média a cultura e de suas escolas surgiram os personagens da Igreja do momento. Pensamos nos grandes mosteiros como Cluny, Saint Gall, etc.
Em 1909, precisamente em torno ao mosteiro belga de Mont César, dá início o «movimento litúrgico», pelas mãos de Lamberto Beauduin, que, por ser sacerdote dedicado ao mundo do trabalho, havia passado a ser monge beneditino no referido mosteiro. Deste movimento litúrgico se passou à reforma litúrgica à raiz do Concílio Vaticano II.
Foram os mosteiros beneditinos centros de irradiação espiritual e portanto litúrgica; pensemos em Solesmes (França), Beuron e Maria Laach (Alemanha), Montserrat e Silos (Espanha), Montecasino e Subiaco (Itália), Mredsous e o já citado de Mont César (Bélgica), etc.
Todos estes mosteiros têm suas portas abertas a seu tesouro mais precioso, sua oração litúrgica, de modo que a oração da comunidade que ali vive é compartilhada com hóspedes e visitantes que são introduzidos desse modo na grande oração da Igreja.
Isto pode considerar-se o apostolado monástico por excelência. Desse modo os mosteiros têm evangelizado. Também hoje existe um modo excelente de passar as «férias» indo a uma hospedagem monástica e participando das diferentes horas da jornada, ao compasso e com a ajuda dos monges e monjas beneditinos.
–O Papa Bento XVI recebeu a influência desta espiritualidade litúrgica beneditina?
–P. Flores: O Papa Bento XVI tem manifestado um grande amor e apreço pela ordem beneditina e por São Bento ao longo de sua trajetória. O fato de ter escolhido o nome do patriarca dos monges do ocidente é muito significativo, como ele mesmo explicou poucos dias depois de sua eleição.
A liturgia tem formado parte de sua vida, como ele mesmo disse em sua autobiografia, já desde seus anos de seminário. Visitava regularmente o mosteiro beneditino alemão de Scheyern, na Baviera, e todos os anos, na festa do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, vivendo em Roma, dirigia-se ao mosteiro das monjas beneditinas de Rosano, próximo a Florença, onde participava da liturgia das monjas e presidia pessoalmente a procissão do Corpo.

Os manuscritos de Qumran


Frei Ildo Perondi ildo.perondi@pucpr.br
Na primavera de 1947 foram descobertos os primeiros Manuscritos de Qumran. Esta foi considerada a maior descoberta de manuscritos da época moderna e a mais importante na região da Terra Santa. É certo que foi uma riqueza, mas também provocou muitas polêmicas e certa confusão.
No segundo semestre de 2004, alguns destes manuscritos e objetos estiveram expostos no Rio de Janeiro e depois em São Paulo. Ultimamente encontramos livros, publicações e reportagens muito boas em jornais, revistas e sites na Internet, mas também encontramos algumas publicações sensacionalistas e livros best sellers (como os de M. Baigent e R. Leigh) ou o recente livro O Código Da Vinci, de Dan Brown, também sensacionalista. Este tipo de publicação mais confunde que informa. São obras de amadores, ignorando todo o trabalho feito e esquecendo a contribuição e o bem que estes Manuscritos nos trouxeram.
Neste artigo procuraremos apresentar de forma resumida o que são os Manuscritos de Qumran ou do Mar Morto, a sua história, as polêmicas e a ajuda que trouxeram para a tradução e interpretação dos livros do AT, e também para uma melhor compreensão de muitos elementos que ajudaram na formação do NT e do Cristianismo.
1. Qumran
É o nome do lugar onde foram encontrados os primeiros manuscritos numa gruta. Situa-se perto do Mar Morto, em Israel. Em seguida foram encontradas novas grutas com outros manuscritos e objetos, não só em Qumran, mas em toda a região do Mar Morto, e por isso hoje se fala dos Manuscritos de Qumran ou do Mar Morto (ou do Deserto de Judá). Foram localizados também os restos dos edifícios onde se reunia a comunidade.
No ano 70 os romanos destruíram o Templo de Jerusalém, destruindo também a cidade e Israel deixou de existir como estado judaico (até 1948). Em seguida, os romanos conquistaram e destruíram a comunidade de Qumran e depois tomaram a fortaleza de Massada, localizada próximo a Qumran. E em 135 DC foi vencida a última resistência judaica.
Na época em que se descobriram os primeiros Manuscritos a região estava sob dominação inglesa, em seguida o território passou a fazer parte da Jordânia. Em 1948 Israel tornou-se um estado independente, porém somente em 1967, com a guerra dos seis dias, é que a região de Qumran e do Mar Morto passou a fazer parte do território de Israel.
2. O que são os Manuscritos?
Os manuscritos são escritos, em couro ou papiros, em sua maioria na língua hebraica, e alguns poucos em aramaico e grego, que foram encontrados nas 11 grutas. Alguns estavam em bom estado e outros estavam bastante deteriorados com o tempo e as condições onde foram guardados. Ao todo foram encontrados em torno de 800 documentos. Alguns estudiosos sugerem que alguns manuscritos sejam cópias de livros sagrados que os judeus do Templo esconderam aí, quando pressentiram que os romanos destruiriam Jerusalém. Alguns são apenas fragmentos (pedaços) de textos.
Em geral podemos dizer que os Manuscritos encontrados se classificam assim:
1) Manuscritos bíblicos: estes textos são cópias fiéis que os habitantes da região de Qumran (escribas) transcreveram dos livros do Antigo Testamento (cerca de 225 manuscritos). O Livro dos Salmos é que foi encontrado maior número de cópias, o segundo é o Deuteronômio; o terceiro é Isaías (curiosamente são também estes os três livros mais citados pelo NT). Somente dos livros de Ester e Neemias não foi encontrada nenhuma cópia (veja relação no final).
2) Apócrifos: Foram encontradas cópias de diversos livros que não entraram no cânon da Bíblia Hebraica, exemplo: apócrifo do Gênesis, de Henoc, de Noé, de Lamec, do Livro dos Jubileus, etc. É bom lembrar que na época em que foram escritos os Manuscritos a lista (cânon) dos livros do AT ainda não tinha sido concluída, embora já houvesse um certo consenso.
3) Comentários bíblicos: Foram encontrados muitos textos que eram comentários e interpretações que a comunidade escreveu sobre os livros do AT. Estes comentários são importantes para percebermos como uma comunidade judaica daquele tempo interpretava os textos sagrados. Além disso encontramos muitas cópias de targums e midraxes rabínicos (estudos e interpretações).
4) Livros da Comunidade: A comunidade também escreveu livros sobre a sua vida. São textos legais sobre a organização da comunidade, livros e textos litúrgicos, poéticos, apocalípticos, escatológicos, comerciais, etc. Os mais famosos são a Regra da Comunidade, o Rolo do Templo, o Documento de Damasco, a Carta Halákica, a Regra da Guerra, etc. Foi encontrado também um famoso Rolo de Cobre, um livro escrito em cobre. É um enigma, pois contém o mapa onde estão escondidos cerca de 60 tesouros (mais de 200 toneladas de ouro e prata), mas parece ser uma fantasia e jamais se encontrou qualquer coisa.
Além dos Manuscritos foi encontrada uma grande quantidade de outros materiais, importantes para o conhecimento da comunidade, como: cerâmicas, moedas, objetos de trabalho, vestuários, calçados, utensílios de cozinha e de trabalho, etc.
A data em que foram escritos os Manuscritos gerou muita controvérsia. A hipótese de que sejam uma farsa hoje está descartada. Os mesmos foram submetidos à análise com os métodos mais modernos, como o Carbono 14, e hoje cientificamente se pode afirmar que os mais antigos sejam do século III aC e os mais tardios não sejam depois do ano 68 dC.
3. Como foi a descoberta dos Manuscritos:
Na primavera de 1947 três beduínos da tribo Ta’amireh, que cuidavam do seu rebanho, na região de Qumran, se divertiam jogando pedras dentro das grutas. Um deles, porém, sentiu um som estranho. Voltou sozinho de madrugada e descobriu entre outras coisas, um vaso contendo manuscritos antigos. Os beduínos tentaram vendê-los, quase sem sucesso. (Outra versão indica que foi um beduíno que foi em busca de uma cabra perdida que se havia
refugiado em uma das grutas e fez as primeiras descobertas). O certo é que os beduínos chegaram a um senhor chamado Kando, que se converteu no intermediário para passar adiante os materiais descobertos. Como pensavam que eram escritos em siríaco, os beduínos foram encaminhados ao metropolita Mar Athanasius em Jerusalém, da Igreja Siro-jacobita (interessante que o porteiro vendo aqueles beduínos mal vestidos quase colocou tudo a perder, mandandoos embora!). O metropolita comprou os manuscritos por cerca de 100 dólares (tempos depois os vendeu nos USA por U$ 250.000 dólares).
O metropolita consultou Sukenik, um professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. A partir disso, iniciouse uma longa história em que a descoberta foi levada a sério, os beduínos conseguiram novos manuscritos, porém devido à situação de conflito na região, alguns desses manuscritos foram levados aos Estados Unidos. Iniciaram-se também as escavações e novas buscas na região, coordenadas por G. L. Harding (jordaniano) e pelo Pe. Roland de Vaux, da Escola Bíblica de Jerusalém, que escavaram e estudaram o local, fazendo estudo da comunidade e em várias expedições fizeram novas descobertas. Porém, os beduínos lembrando que seus avós contavam a história de um caçador que havia seguido uma lebre numa gruta, foram de novo os protagonistas e descobriam duas grutas (chamadas Gruta 4) onde foi encontrado o maior e melhor número de material (era o resto da Biblioteca central da comunidade de Qumran).
Foi construído em Jerusalém um local especial para colocar e proteger todo este material, o chamado “Santuário do Livro”, em forma da tampa de uma jara, semelhante àquela em que foram encontrados os primeiros manuscritos. É onde hoje se encontra todo o material e está sob a custódia do Museu de Jerusalém, hoje administrado pelo Estado de Israel. Segundo J. Strugnell, cerca de quatro rolos devem estar desaparecidos ou se perderam para sempre.
4. A Comunidade de Qumran:
R. de Vaux e sua equipe tentaram estudar quem foi esta comunidade que viveu ali e produziu todo este material. Baseados nas escavações e também em historiadores da época como Plínio, o Velho, Fílon e Flavio Josefo, chegou-se à conclusão que a comunidade começou a ser povoada cerca de 700 anos antes de Cristo. Porém, somente uns 200 anos aC. é que teve a organização como grupo essênico separado. Esta sofreu uma forte destruição com o terremoto de 31 aC e depois deve ter ressurgido, até ser destruída pelos romanos e teve seu fim por volta dos anos 100 dC. Alguns traços desta comunidade:
a) Tinham uma forte vida comunitária, com normas para a admissão, formação e vivência interna. Seguiam uma disciplina rígida, rezavam e faziam penitência, tinham os bens praticamente em comum. Liam, interpretavam e davam muita importância às Escrituras. Esperavam o fim dos tempos, onde eles, os “filhos das luzes”, combateriam ao lado de Deus contra os “filhos das trevas”;
b) A princípio parece que era uma comunidade constituída somente de homens, porém nos cemitérios foram descobertas ossadas também de mulheres (que podiam ser de visitantes ou familiares que vivam nas proximidades);
c) Uma figura importante na comunidade era o Mestre da Justiça;
d) Tinham uma forte expectativa messiânica, porém eram dois os Messias esperados: um de linha mais política, seria o descendente de David e o segundo seria o Messias Sacerdote, descendente de Aarão;
e) Seguiam um calendário de 364 dias.
O mais provável é que esta comunidade fosse um grupo de essênios, em uma comunidade de mais ou menos 200 pessoas. Alguns poucos sugerem que poderiam ser saduceus, zelotes, etc.
5. O Novo Testamento e Qumran Surgiram várias hipóteses indicando que alguns dos personagens do NT seriam provenientes de Qumran ou tiveram contatos com esta comunidade. De fato, quem visita hoje Qumran na recepção vê um filme que informa sobre um personagem que esteve na comunidade, mas que foi expulso por não se adaptar à comunidade. Este personagem é identificado como o Profeta João Batista. E se lermos os evangelhos sinóticos vemos que os traços de João Batista (a radicalidade da sua proposta) têm muito a ver com a comunidade de Qumran. Outros sugerem que Tiago “irmão do Senhor” (cf. At 12,17; 15,13; Gl 1,19, etc.) pudesse ter ligações com a comunidade e Robert Eisenman até chegou a afirmar que este Tiago seria o Mestre da Justiça da comunidade. Nesses textos, segundo Eisenman, se falaria dos primeiros cristãos e em particular emergiria na sua plena luz o contraste que dividia a corrente de Tiago e aquela de Paulo. Encontramos também alguns que até chegaram a sugerir que o Apóstolo Paulo viesse desta Comunidade (é bom lembrar que o próprio Apóstolo Paulo várias vezes afirma seu passado como fariseu e nunca como essênio).
É interessante ver o paralelismo de certos termos com os escritos do NT. Um dos vocábulos que mais chamou a atenção é “os muitos” ou “maioria” que encontramos em At 15,12 e em 2Cor 2,5-6 e no relato da Eucaristia de Mt 26,27-28; Mc 14,23-24; Lc 22,20. Em Qumran encontramos o mesmo termo seja em relatos jurídicos e celebrativos.
Encontramos também outras expressões como: “justiça de Deus”, “pobres em espírito”, “obras da lei”, “Igreja / Assembléia de Deus”, “a sorte dos santos”, “o Senhor do céu e da terra”, etc. que não são encontrados nos textos rabínicos da época.
Textos como 2Ts 2,7 “o mistério da iniqüidade”; o tema paulino da “justificação pela fé” (cf. Rm 3,21-24; Gl 2,16), a figura de Melquisedec lembrada na Carta aos Hebreus, a expressão “ele será chamado Filho de Deus” de Lc 1,35-37, entre outros, também são encontrados nos escritos Qumrânicos.
No entanto, se existem paralelos, encontramos também divergências. E. Stauffer enumera pelo menos oito pontos diferentes entre a comunidade de Qumran e as primeiras comunidades cristãs: 1) um clericalismo maior em Qumran; 2) mais ritualismo e cerimônias; 3) o preceito de amar os filhos da luz e odiar os filhos das trevas; 4) o militarismo e a preparação para a guerra “apocalíptica”; 5) a supervalorização do calendário; 6) o caráter esotérico; 7) a expectativa dos dois Messias; 8) o relacionamento diverso com o Templo, com os sacerdotes de Jerusalém e com a Lei.

6. Problemas com a publicação dos Manuscritos
No início a Equipe responsável pelo cuidado dos Manuscritos e pela sua divulgação e publicação era constituída de um pequeno grupo, chefiada pelo Pe. de Vaux, da Escola Bíblica de Jerusalém. Devemos recordar que muitos fatores atrapalharam o trabalho. Basta lembrar que o território passou por mudanças políticas importantes: Inglaterra, Jordânia e depois Israel. Houve dificuldade de recursos econômicos e mesmo humanos (pessoas capazes de traduzir e interpretar os documentos). Falta de recursos para a aquisição dos Manuscritos. Tudo isso fez com que, passados 40 anos das primeiras descobertas, muitos textos ainda não eram de conhecimento público. Surgiram suspeitas sobre as descobertas e sobre os seus conteúdos, falou-se até em conspiração. Mesmo entre os biblistas católicos e protestantes criou-se um mal estar, tanto que J. Fitzmyer qualificou como um “escândalo” esta demora. Era inadmissível que documentos assim importantes ficassem em segredo, mas praticamente sem razão, e que não fossem de domínio público.
É certo que devido à falta de recursos, financeiros e humanos, a morte de R. de Vaux (que foi substituído por J. Strugnell – inglês, presbiteriano e depois católico – já velho), houve atraso nas traduções e publicações. Além disso, a Equipe queria publicar os textos com uma interpretação que fosse unânime entre os diversos membros. Tudo isso deu margem a inúmeras especulações.
Por isso na década de 90 houve uma mudança na Equipe, mais recursos e pessoas foram colocados à disposição e assim hoje todos os Manuscritos já foram divulgados, pelo menos através de fotografias. Hoje faltam somente uns poucos textos para serem publicados e traduzidos. Em português temos a excelente obra publicada pela Vozes: Textos de Qumran, de Florentino Garcia Martinez (tradução de Valmor da Silva), que traz praticamente todos os textos já publicados.
7. Questões e polêmicas com o Cristianismo
É certo que documentos dessa importância e que têm algo a dizer sobre a própria comunidade de Qumran, mas também sobre o judaísmo, o cristianismo e a própria cultura mundial, tendem a causar polêmicas e divergências.
Vejamos as principais:
a) John Allegro: Entre os membros da equipe havia um pesquisador chamado John Allegro, inglês agnóstico.
Devido a divergências com o grupo, ele se retirou fazendo fortes acusações dizendo que a equipe estava escondendo documentos da Gruta 4. Segundo ele, haviam manuscritos que poderiam prejudicar o Cristianismo e que havia uma conspiração do Vaticano para impedir a divulgação dos mesmos. Ele mesmo se pôs a publicar manuscritos por conta (e que depois se revelaram de péssima qualidade. Strugnell fez cem páginas de notas de correções ao seu livro). Allegro atribui as origens do Cristianismo aos efeitos de um alucinógeno. Quase na mesma direção, está a interpretação de Bárbara A. Thiering que vê João Batista como o Mestre da Justiça e Jesus como o Sacerdote Ímpio.
b) Textos do NT em Qumran? J.O’Callaghan, jesuíta espanhol, insistiu nos anos 70 que havia descoberto partes de textos do NT em Qumran na gruta 7 (nesta gruta foram descobertos também textos escritos em grego). Segundo ele, seriam textos de Marcos, Atos dos Apóstolos, Romanos, 1Timóteo, Tiago e 2Pedro. Esta hipótese foi assumida também pelo alemão C. Thiede e fez sucesso, mas também logo foi contestada. Primeiro, porque a grafia não é tão igual; segundo porque a 2Pedro é colocada pela maioria dos biblistas como o último escrito do NT (portanto foi escrita depois da destruição de Qumran); terceiro porque não foi encontrado nenhum livro do NT, mas somente alguns fragmentos com textos parecidos; quarto porque o material é muito fragmentado e não permite nenhuma hipótese segura. O texto encontrado (7Q5) e que O’Callaghan supõe seja de Mc 6,52-53, e pode ser traduzido assim: “porque [não] haviam compreendido o fato dos pães estando o seu coração endurecido. Terminada a travessia chegaram ao território de Genesaré e chegaram à terra. Apenas desceram...” O texto não fala de Jesus e poderia muito bem se referir a um outro fato, com outro grupo, ainda que se pareça com o texto de Marcos. Por isso, hoje se exclui a possibilidade que qualquer uma das 11 grutas contenha algum texto da literatura cristã primitiva.
c) Jesus era de origem essênia? Alguns autores procuram comparar as práticas, os costumes, as propostas entre Jesus e as primeiras comunidades cristãs com os essênios e descobrem muitas semelhanças. Por isso, afirmam que o cristianismo seria de origem essênia. Esta hipótese também é fraca, pois temos todos os textos do NT que comprovam a origem judaica de Jesus na Galiléia. Embora com isso não se negue que alguns membros do grupo de Jesus possam ter tido ligações com a comunidade de Qumran (João Batista e outros).
d) O caso do Messias assassinado ou que assassinou: Um dos textos que mais causou polêmicas foi 4Q285. O fragmento estava em certa parte corrompido e foi passível de várias interpretações, por isso não foi logo divulgado. Isso ajudou a aumentar as suspeitas. Os estudiosos sugerem várias traduções: “E esses assassinaram (ou: assassinarão) o príncipe da comunidade, o reben[to de Davi]”. O texto pode ser interpretado tanto no passado como no futuro. Outros preferem: “O príncipe da comunidade o matará (ou: o matou)”. Poderia também ser: “O príncipe da comunidade, o rebento de Davi, o matará” ou: “matará o ímpio”. Tudo isso traz um certo paralelo com o NT. Em 1991 R. Eisenman publicou um livro (à revelia do comitê e desrespeitando até os direitos autorais) onde diz revelar textos inéditos, um dos quais que falava da execução capital de um Messias e insiste que este Messias seja Jesus e que por isso o texto não havia sido tornado público. Poucos são os que aceitam esta hipótese, já que Eisenman optou pela tradução menos segura. Em 1992, ele publica outro livro juntamente com M. Wise. Porém, em seguida, Wise se retratou das interpretações feitas (cf. se pode ver na apresentação da edição italiana feita por E. Jucci). No entanto, estas publicações tiveram o mérito de tornar públicos muitos dos manuscritos que demoravam para serem publicados..
Sobre os pontos acima, é bom lembrar que eminentes estudiosos encarregados da publicação dos manuscritos sempre afirmaram que, embora se encontrem muitos paralelos, não existe nada nos textos que tenha ligação direta com o nascimento do Cristianismo na Galiléia. Também em nenhum dos textos se encontra o nome de Jesus. Segundo F. G.
Martinez, as últimas análises dos Manuscritos feitas com carbono 14, comprovam que os mesmos são anteriores ao cristianismo e portanto, “excluem definitivamente as teorias de uma origem zelota ou judeu-cristã dos manuscritos”.
O que percebemos é que alguns (como O’Callaghan) gostariam de ver em Qumran e no Mar Morto indícios de Jesus e dos textos do Novo Testamento. Não precisamos disso para a credibilidade da nossa fé. Outros, em outro extremo, querem fazer “provocações” e sugerir que Jesus e o cristianismo tenham origens essênias. Nem isso está nos Manuscritos. Jesus continua sendo de origem judaica e o cristianismo continua com sua origem na Galiléia.
Embora seja verdade que o pensamento de Jesus algumas vezes se aproximasse das idéias dos essênios, porém a prática de Jesus e das primeiras comunidades se distanciava muito do extremismo deles.
8. A importância dos Manuscritos
Os manuscritos de Qumran e do Mar Morto foram, sem dúvida, a maior descoberta do milênio passado para a crítica literária e para o estudo da Bíblia, pois voltamos a ter acesso a cópias de textos bíblicos da época de Cristo e alguns até dos séculos II-III aC. Tanto a religião judaica, como o cristianismo, foram duas religiões muito perseguidas na história, por isso foi difícil preservar os originais ou cópias antigas dos textos sagrados. Para se ter uma idéia, antes desta descoberta, tínhamos a Bíblia Hebraica de Soncino do ano 1477; a Bíblia Rabínica (com massora, isto é, anotações que os escribas faziam nas margens das páginas copiadas) de 1518, já impressa com a descoberta de Gutenberg e a obra de Jacob Ben Chayyion, o famoso textus recceptus de 1524/1525. Em 1929 surgiu a BHS, a Bíblia Hebraica de Kittel e P. Kahle, baseada no Código de Leningrado de 1008. Então, estes manuscritos de Qumran e do Mar Morto nos forneceram cópias com cerca de mil anos mais antigas dos livros do AT. Tudo isso ajudou a corrigir e melhorar as traduções da Bíblia.
Para o mundo judaico, além da contribuição bíblica, a descoberta abriu o caminho para o acesso a manuscritos e materiais de dois mil anos, bem como as escavações e o conhecimento de uma comunidade de um grupo judaico (os essênios), que contribuem também para entender melhor a história dos últimos anos da existência do estado de Israel (antes de ser destruído pelos romanos). E proporcionou um grande conhecimento da literatura hebraica pré-cristã.
Para o cristianismo, também a maior importância está nas descobertas bíblicas, mas também em poder conhecer melhor o ambiente, as estruturas, idéias do mundo judaico da época de Jesus e de uma comunidade que tinha pontos em comum e pontos divergentes com o cristianismo.
Porém, com J. C. Vanderkam podemos afirmar: “Sustentando que o Jesus histórico era o Messias, no itinerário que conduziu à época escatológica, os cristãos se colocaram muito além em comparação com os essênios de Qumran, os quais esperavam que os seus Messias viriam em um futuro imediato”.
Concluindo, podemos dizer que tinha razão a afirmação do exegeta bíblico W. F. Albright quando soube da descoberta dos Manuscritos: “Parabéns pela maior descoberta de manuscritos dos tempos modernos”. E em outra ocasião: “É fácil de perceber que esta nova descoberta revolucionará os estudos neotestamentários e logo renderá superados os manuais que tratam do ambiente do NT e da crítica textual e da interpretação do AT”.
Relação dos Manuscritos bíblicos encontrados:
Gênesis 15 Salmos 36
Êxodo 17 Provérbios 2
Levítico 13 Jó 4
Números 8 Cântico dos Cânticos 4
Deuteronômio 29 Rute 4
Josué 2 Lamentações 4
Juízes 3 Eclesiastes 3
1-2 Samuel 4 Ester 0
1-2 Reis 3 Daniel 8
Isaías 21 Esdras 1
Jeremias 6 Neemias 0
Ezequiel 6 1-2 Crônicas 1
12 Profetas 8
Também foram encontradas cópias de alguns livros deuterocanônicos que não vieram a fazer parte da Bíblia Hebraica: Tobias (4 cópias em aramaico e uma em hebraico); Eclesiástico (alguns fragmentos); Carta de Jeremias = Baruc 6 (foi encontrada uma cópia em grego); Salmo 151, que se encontra na LXX (uma cópia).
Bibliografia
DONNINI, D. Cristo e Qumran. La chiave di un rapporto controverso.
EISENMAN, R. – WISE, M. Manoscritti segreti di Qumran. Edizione italiana a cura di Elio Jucci (Piemme, Asti 21994).
JUCCI, E. I manoscritti ebraici di Qumran: A che punto siamo? in: http://dobc.unipv.it/SETH/achepunt.htm
JUCCI, E. Qumran. A cinquant’anni dalla ricorrenza della scoperta dei manoscritti, in:
MACKENZIE, J. L.. Dicionário Bíblico. Verbete: “Qumran” (Paulus, São Paulo 72002).
MARTINEZ, F. G. Textos de Qumran. Tradução de Valmor da Silva (Vozes, Petrópolis 1995)
MOLINA, C. As relíquias que o Mar Morto conservou por mais de 2 mil anos. (O Estado de S. Paulo, 25/11/2004,
Caderno 2, pg. D3).
VANDERKAM, J. C. Manoscritti del Mar Morto. Il dibattito recente oltre le polemiche (Città Nuova, Roma 21997).
OBS. Para a elaboração deste texto utilizei muito o livro de James C.Vanderkam, que é atualmente membro da Equipe responsável
pela tradução e divulgação dos Manuscritos. Além disso, ele mesmo no seu livro – parodiando Lucas – afirma que fez uma boa
pesquisa para poder informar melhor todos os fatos ocorridos desde a descoberta dos manuscritos até os dias atuais. Esperamos que o
livro seja publicado no Brasil.
Este texto está em: http://www.presbiteros.com.br/B%EDblia/Qumran%201.htm

O Apostolo Paulo - o Santo dos Gentios


O APÓSTOLO DAS GENTES
Aquele que é chamado “o Apóstolo das Gentes”, ou seja, das Nações, não conheceu Jesus em vida, na cidade de Jerusalém ou nas estradas da Galiléia, como os Doze Apóstolos. É o primeiro a ter tido como experiência apenas a do Ressuscitado, como a terão depois todos os cristãos. Esse judeu nascido em Tarso (atualmente no leste da Turquia), que recebera do rabino Gamaliel, o Ancião, um ensinamento rigoroso da Lei, e que é também cidadão romano, recebe como missão precisa ir pregar a Palavra de Deus a todos os homens: primeiro em Antioquia e na Ásia Menor, depois na Grécia e em Roma.

Com Paulo, em poucos anos e de maneira ardente, “de Sião sairá a Lei e de Jerusalém, a Palavra do Senhor”, como fora profetizado pelo profeta Miquéias (4,2). Esse “sairá” no duplo sentido do termo. Paulo dará testemunho do ensinamento recebido de seus antepassados e do que ele mesmo experimentou: Cristo ressuscitado!

Paulo é o personagem mais bem conhecido da primeira geração cristã, tanto pelas cartas (sete indubitavelmente autênticas) que escreveu quanto pela história de sua vida narrada por Lucas nos Atos dos Apóstolos. Suas cartas representam para nós uma fonte excepcional. Sua figura, todavia, continua a ser misteriosa. De um lado, essas cartas percorrem apenas quinze anos de sua vida. De outro, os Atos, que trazem seu itinerário, são escritos vinte anos depois de sua morte, com o tom apologético da época. Daremos, portanto, preferência aos dados contidos nas cartas de Paulo e em sua cronologia, que coincide, na maior parte das vezes, com a duração de seus deslocamentos (por exemplo, a data do “Concílio de Jerusalém”).
Pode-se considerar que Paulo tenha cerca de dez anos menos que Jesus.
A seguir, apresentamos as cartas relativas às viagens de Paulo, às quais se segue o relato da vida do apóstolo, em vinte quadros.