
Frei Ildo Perondi ildo.perondi@pucpr.br
Na primavera de 1947 foram descobertos os primeiros
Manuscritos de Qumran. Esta foi considerada a maior descoberta de manuscritos
da época moderna e a mais importante na região da Terra Santa. É certo que foi
uma riqueza, mas também provocou muitas polêmicas e certa confusão.
No segundo semestre de 2004, alguns destes manuscritos e
objetos estiveram expostos no Rio de Janeiro e depois em São Paulo. Ultimamente
encontramos livros, publicações e reportagens muito boas em jornais, revistas e
sites na Internet, mas também encontramos algumas publicações sensacionalistas
e livros best sellers (como os de M. Baigent e R. Leigh) ou o recente livro O
Código Da Vinci, de Dan Brown, também sensacionalista. Este tipo de publicação
mais confunde que informa. São obras de amadores, ignorando todo o trabalho
feito e esquecendo a contribuição e o bem que estes Manuscritos nos trouxeram.
Neste artigo procuraremos apresentar de forma resumida o que
são os Manuscritos de Qumran ou do Mar Morto, a sua história, as polêmicas e a
ajuda que trouxeram para a tradução e interpretação dos livros do AT, e também para
uma melhor compreensão de muitos elementos que ajudaram na formação do NT e do
Cristianismo.
1. Qumran
É o nome do lugar onde foram encontrados os primeiros
manuscritos numa gruta. Situa-se perto do Mar Morto, em Israel. Em seguida
foram encontradas novas grutas com outros manuscritos e objetos, não só em
Qumran, mas em toda a região do Mar Morto, e por isso hoje se fala dos
Manuscritos de Qumran ou do Mar Morto (ou do Deserto de Judá). Foram
localizados também os restos dos edifícios onde se reunia a comunidade.
No ano 70 os romanos destruíram o Templo de Jerusalém,
destruindo também a cidade e Israel deixou de existir como estado judaico (até
1948). Em seguida, os romanos conquistaram e destruíram a comunidade de Qumran
e depois tomaram a fortaleza de Massada, localizada próximo a Qumran. E em 135
DC foi vencida a última resistência judaica.
Na época em que se descobriram os primeiros Manuscritos a
região estava sob dominação inglesa, em seguida o território passou a fazer
parte da Jordânia. Em 1948 Israel tornou-se um estado independente, porém
somente em 1967, com a guerra dos seis dias, é que a região de Qumran e do Mar
Morto passou a fazer parte do território de Israel.
2. O que são os
Manuscritos?
Os manuscritos são escritos, em couro ou papiros, em sua
maioria na língua hebraica, e alguns poucos em aramaico e grego, que foram
encontrados nas 11 grutas. Alguns estavam em bom estado e outros estavam
bastante deteriorados com o tempo e as condições onde foram guardados. Ao todo
foram encontrados em torno de 800 documentos. Alguns estudiosos sugerem que
alguns manuscritos sejam cópias de livros sagrados que os judeus do Templo
esconderam aí, quando pressentiram que os romanos destruiriam Jerusalém. Alguns
são apenas fragmentos (pedaços) de textos.
Em geral podemos dizer que os Manuscritos encontrados se
classificam assim:
1) Manuscritos bíblicos: estes textos são cópias fiéis que
os habitantes da região de Qumran (escribas) transcreveram dos livros do Antigo
Testamento (cerca de 225 manuscritos). O Livro dos Salmos é que foi encontrado maior
número de cópias, o segundo é o Deuteronômio; o terceiro é Isaías (curiosamente
são também estes os três livros mais citados pelo NT). Somente dos livros de
Ester e Neemias não foi encontrada nenhuma cópia (veja relação no final).
2) Apócrifos: Foram encontradas cópias de
diversos livros que não entraram no cânon da Bíblia Hebraica, exemplo: apócrifo
do Gênesis, de Henoc, de Noé, de Lamec, do Livro dos Jubileus, etc. É bom
lembrar que na época em que foram escritos os Manuscritos a lista (cânon) dos
livros do AT ainda não tinha sido concluída, embora já houvesse um certo
consenso.
3) Comentários bíblicos: Foram encontrados muitos textos que
eram comentários e interpretações que a comunidade escreveu sobre os livros do
AT. Estes comentários são importantes para percebermos como uma comunidade
judaica daquele tempo interpretava os textos sagrados. Além disso encontramos
muitas cópias de targums e midraxes rabínicos (estudos e interpretações).
4) Livros da Comunidade: A comunidade também escreveu livros
sobre a sua vida. São textos legais sobre a organização da comunidade, livros e
textos litúrgicos, poéticos, apocalípticos, escatológicos, comerciais, etc. Os
mais famosos são a Regra da Comunidade, o Rolo do Templo, o Documento de
Damasco, a Carta Halákica, a Regra da Guerra, etc. Foi encontrado também um
famoso Rolo de Cobre, um livro escrito em cobre. É um enigma, pois contém o mapa
onde estão escondidos cerca de 60 tesouros (mais de 200 toneladas de ouro e
prata), mas parece ser uma fantasia e jamais se encontrou qualquer coisa.
Além dos Manuscritos foi encontrada uma grande quantidade de
outros materiais, importantes para o conhecimento da comunidade, como:
cerâmicas, moedas, objetos de trabalho, vestuários, calçados, utensílios de cozinha
e de trabalho, etc.
A data em que foram escritos os Manuscritos gerou muita
controvérsia. A hipótese de que sejam
uma farsa hoje está descartada. Os mesmos foram submetidos à análise com os
métodos mais modernos, como o Carbono 14, e hoje cientificamente se pode
afirmar que os mais antigos sejam do século III aC e os mais tardios não sejam
depois do ano 68 dC.
3. Como foi a
descoberta dos Manuscritos:
Na primavera de 1947 três beduínos da tribo Ta’amireh, que
cuidavam do seu rebanho, na região de Qumran, se divertiam jogando pedras
dentro das grutas. Um deles, porém, sentiu um som estranho. Voltou sozinho de madrugada
e descobriu entre outras coisas, um vaso contendo manuscritos antigos. Os
beduínos tentaram vendê-los, quase sem sucesso. (Outra versão indica que foi um
beduíno que foi em busca de uma cabra perdida que se havia
refugiado em uma das grutas e fez as primeiras descobertas).
O certo é que os beduínos chegaram a um senhor chamado Kando, que se converteu
no intermediário para passar adiante os materiais descobertos. Como pensavam
que eram escritos em siríaco, os beduínos foram encaminhados ao metropolita Mar
Athanasius em Jerusalém, da Igreja Siro-jacobita (interessante que o porteiro
vendo aqueles beduínos mal vestidos quase colocou tudo a perder, mandandoos embora!).
O metropolita comprou os manuscritos por cerca de 100 dólares (tempos depois os
vendeu nos USA por U$ 250.000 dólares).
O metropolita consultou Sukenik, um professor da Universidade
Hebraica de Jerusalém. A partir disso, iniciouse uma longa história em que a
descoberta foi levada a sério, os beduínos conseguiram novos manuscritos, porém
devido à situação de conflito na região, alguns desses manuscritos foram
levados aos Estados Unidos. Iniciaram-se também as escavações e novas buscas na
região, coordenadas por G. L. Harding (jordaniano) e pelo Pe. Roland de Vaux,
da Escola Bíblica de Jerusalém, que escavaram e estudaram o local, fazendo
estudo da comunidade e em várias expedições fizeram novas descobertas. Porém,
os beduínos lembrando que seus avós contavam a história de um caçador que havia
seguido uma lebre numa gruta, foram de novo os protagonistas e descobriam duas
grutas (chamadas Gruta 4) onde foi encontrado o maior e melhor número de
material (era o resto da Biblioteca central da comunidade de Qumran).
Foi construído em Jerusalém um local especial para colocar e
proteger todo este material, o chamado “Santuário do Livro”, em forma da tampa
de uma jara, semelhante àquela em que foram encontrados os primeiros manuscritos.
É onde hoje se encontra todo o material e está sob a custódia do Museu de
Jerusalém, hoje administrado pelo Estado de Israel. Segundo J. Strugnell, cerca
de quatro rolos devem estar desaparecidos ou se perderam para sempre.
4. A Comunidade de
Qumran:
R. de Vaux e sua equipe tentaram estudar quem foi esta comunidade
que viveu ali e produziu todo este material. Baseados nas escavações e também
em historiadores da época como Plínio, o Velho, Fílon e Flavio Josefo, chegou-se
à conclusão que a comunidade começou a ser povoada cerca de 700 anos antes de
Cristo. Porém, somente uns 200 anos aC. é que teve a organização como grupo
essênico separado. Esta sofreu uma forte destruição com o terremoto de 31 aC e
depois deve ter ressurgido, até ser destruída pelos romanos e teve seu fim por
volta dos anos 100 dC. Alguns traços desta comunidade:
a) Tinham uma forte vida comunitária, com normas para a
admissão, formação e vivência interna. Seguiam uma disciplina rígida, rezavam e
faziam penitência, tinham os bens praticamente em comum. Liam, interpretavam e
davam muita importância às Escrituras. Esperavam o fim dos tempos, onde eles,
os “filhos das luzes”, combateriam ao lado de Deus contra os “filhos das
trevas”;
b) A princípio parece que era uma comunidade constituída
somente de homens, porém nos cemitérios foram descobertas ossadas também de
mulheres (que podiam ser de visitantes ou familiares que vivam nas
proximidades);
c) Uma figura importante na comunidade era o Mestre da
Justiça;
d) Tinham uma forte expectativa messiânica, porém eram dois
os Messias esperados: um de linha mais política, seria o descendente de David e
o segundo seria o Messias Sacerdote, descendente de Aarão;
e) Seguiam um calendário de 364 dias.
O mais provável é que esta comunidade fosse um grupo de
essênios, em uma comunidade de mais ou menos 200 pessoas. Alguns poucos sugerem
que poderiam ser saduceus, zelotes, etc.
5. O Novo Testamento e Qumran Surgiram várias hipóteses
indicando que alguns dos personagens do NT seriam provenientes de Qumran ou tiveram
contatos com esta comunidade. De fato, quem visita hoje Qumran na recepção vê
um filme que informa sobre um personagem que esteve na comunidade, mas que foi
expulso por não se adaptar à comunidade. Este personagem é identificado como o
Profeta João Batista. E se lermos os evangelhos sinóticos vemos que os traços
de João Batista (a radicalidade da sua proposta) têm muito a ver com a
comunidade de Qumran. Outros sugerem que Tiago “irmão do Senhor” (cf. At 12,17;
15,13; Gl 1,19, etc.) pudesse ter ligações com a comunidade e Robert Eisenman
até chegou a afirmar que este Tiago seria o Mestre da Justiça da comunidade.
Nesses textos, segundo Eisenman, se falaria dos primeiros cristãos e em
particular emergiria na sua plena luz o contraste que dividia a corrente de
Tiago e aquela de Paulo. Encontramos também alguns que até chegaram a sugerir
que o Apóstolo Paulo viesse desta Comunidade (é bom lembrar que o próprio
Apóstolo Paulo várias vezes afirma seu passado como fariseu e nunca como
essênio).
É interessante ver o paralelismo de certos termos com os escritos
do NT. Um dos vocábulos que mais chamou a atenção é “os muitos” ou “maioria”
que encontramos em At 15,12 e em 2Cor 2,5-6 e no relato da Eucaristia de Mt 26,27-28;
Mc 14,23-24; Lc 22,20. Em Qumran encontramos o mesmo termo seja em relatos
jurídicos e celebrativos.
Encontramos também outras expressões como: “justiça de Deus”,
“pobres em espírito”, “obras da lei”, “Igreja / Assembléia de Deus”, “a sorte
dos santos”, “o Senhor do céu e da terra”, etc. que não são encontrados nos
textos rabínicos da época.
Textos como 2Ts 2,7 “o mistério da iniqüidade”; o tema
paulino da “justificação pela fé” (cf. Rm 3,21-24; Gl 2,16), a figura de
Melquisedec lembrada na Carta aos Hebreus, a expressão “ele será chamado Filho
de Deus” de Lc 1,35-37, entre outros, também são encontrados nos escritos
Qumrânicos.
No entanto, se existem paralelos, encontramos também
divergências. E. Stauffer enumera pelo menos oito pontos diferentes entre a
comunidade de Qumran e as primeiras comunidades cristãs: 1) um clericalismo
maior em Qumran; 2) mais ritualismo e cerimônias; 3) o preceito de amar os
filhos da luz e odiar os filhos das trevas; 4) o militarismo e a preparação
para a guerra “apocalíptica”; 5) a supervalorização do calendário; 6) o caráter
esotérico; 7) a expectativa dos dois Messias; 8) o relacionamento diverso com o
Templo, com os sacerdotes de Jerusalém e com a Lei.
6. Problemas com a publicação dos Manuscritos
No início a Equipe responsável pelo cuidado dos Manuscritos e
pela sua divulgação e publicação era constituída de um pequeno grupo, chefiada
pelo Pe. de Vaux, da Escola Bíblica de Jerusalém. Devemos recordar que muitos fatores
atrapalharam o trabalho. Basta lembrar que o território passou por mudanças
políticas importantes: Inglaterra, Jordânia e depois Israel. Houve dificuldade
de recursos econômicos e mesmo humanos (pessoas capazes de traduzir e interpretar
os documentos). Falta de recursos para a aquisição dos Manuscritos. Tudo isso
fez com que, passados 40 anos das primeiras descobertas, muitos textos ainda
não eram de conhecimento público. Surgiram suspeitas sobre as descobertas e
sobre os seus conteúdos, falou-se até em conspiração. Mesmo entre os biblistas
católicos e protestantes criou-se um mal estar, tanto que J. Fitzmyer
qualificou como um “escândalo” esta demora. Era inadmissível que documentos
assim importantes ficassem em segredo, mas praticamente sem razão, e que não
fossem de domínio público.
É certo que devido à falta de recursos, financeiros e
humanos, a morte de R. de Vaux (que foi substituído por J. Strugnell – inglês,
presbiteriano e depois católico – já velho), houve atraso nas traduções e
publicações. Além disso, a Equipe queria publicar os textos com uma
interpretação que fosse unânime entre os diversos membros. Tudo isso deu margem
a inúmeras especulações.
Por isso na década de 90 houve uma mudança na Equipe, mais
recursos e pessoas foram colocados à disposição e assim hoje todos os
Manuscritos já foram divulgados, pelo menos através de fotografias. Hoje faltam
somente uns poucos textos para serem publicados e traduzidos. Em português
temos a excelente obra publicada pela Vozes: Textos de Qumran, de Florentino
Garcia Martinez (tradução de Valmor da Silva), que traz praticamente todos os textos
já publicados.
7. Questões e polêmicas com o Cristianismo
É certo que documentos dessa importância e que têm algo a
dizer sobre a própria comunidade de Qumran, mas também sobre o judaísmo, o
cristianismo e a própria cultura mundial, tendem a causar polêmicas e
divergências.
Vejamos as principais:
a) John Allegro: Entre os membros da equipe havia um
pesquisador chamado John Allegro, inglês agnóstico.
Devido a divergências com o grupo, ele se retirou fazendo
fortes acusações dizendo que a equipe estava escondendo documentos da Gruta 4.
Segundo ele, haviam manuscritos que poderiam prejudicar o Cristianismo e que
havia uma conspiração do Vaticano para impedir a divulgação dos mesmos. Ele
mesmo se pôs a publicar manuscritos por conta (e que depois se revelaram de
péssima qualidade. Strugnell fez cem páginas de notas de correções ao seu
livro). Allegro atribui as origens do Cristianismo aos efeitos de um
alucinógeno. Quase na mesma direção, está a interpretação de Bárbara A.
Thiering que vê João Batista como o Mestre da Justiça e Jesus como o Sacerdote
Ímpio.
b) Textos do NT em Qumran? J.O’Callaghan, jesuíta espanhol,
insistiu nos anos 70 que havia descoberto partes de textos do NT em Qumran na
gruta 7 (nesta gruta foram descobertos também textos escritos em grego).
Segundo ele, seriam textos de Marcos, Atos dos Apóstolos, Romanos, 1Timóteo,
Tiago e 2Pedro. Esta hipótese foi assumida também pelo alemão C. Thiede e fez
sucesso, mas também logo foi contestada. Primeiro, porque a grafia não é tão
igual; segundo porque a 2Pedro é colocada pela maioria dos biblistas como o
último escrito do NT (portanto foi escrita depois da destruição de Qumran);
terceiro porque não foi encontrado nenhum livro do NT, mas somente alguns
fragmentos com textos parecidos; quarto porque o material é muito fragmentado e
não permite nenhuma hipótese segura. O texto encontrado (7Q5) e que O’Callaghan
supõe seja de Mc 6,52-53, e pode ser traduzido assim: “porque [não] haviam compreendido
o fato dos pães estando o seu coração endurecido. Terminada a travessia
chegaram ao território de Genesaré e chegaram à terra. Apenas desceram...” O
texto não fala de Jesus e poderia muito bem se referir a um outro fato, com
outro grupo, ainda que se pareça com o texto de Marcos. Por isso, hoje se
exclui a possibilidade que qualquer uma das 11 grutas contenha algum texto da
literatura cristã primitiva.
c) Jesus era de origem essênia? Alguns autores procuram
comparar as práticas, os costumes, as propostas entre Jesus e as primeiras
comunidades cristãs com os essênios e descobrem muitas semelhanças. Por isso,
afirmam que o cristianismo seria de origem essênia. Esta hipótese também é
fraca, pois temos todos os textos do NT que comprovam a origem judaica de Jesus
na Galiléia. Embora com isso não se negue que alguns membros do grupo de Jesus
possam ter tido ligações com a comunidade de Qumran (João Batista e outros).
d) O caso do Messias assassinado ou que assassinou: Um dos
textos que mais causou polêmicas foi 4Q285. O fragmento estava em certa parte
corrompido e foi passível de várias interpretações, por isso não foi logo
divulgado. Isso ajudou a aumentar as suspeitas. Os estudiosos sugerem várias
traduções: “E esses assassinaram (ou: assassinarão) o príncipe da comunidade, o
reben[to de Davi]”. O texto pode ser interpretado tanto no passado como no
futuro. Outros preferem: “O príncipe da comunidade o matará (ou: o matou)”. Poderia
também ser: “O príncipe da comunidade, o rebento de Davi, o matará” ou: “matará
o ímpio”. Tudo isso traz um certo paralelo com o NT. Em 1991 R. Eisenman publicou
um livro (à revelia do comitê e desrespeitando até os direitos autorais) onde
diz revelar textos inéditos, um dos quais que falava da execução capital de um
Messias e insiste que este Messias seja Jesus e que por isso o texto não havia
sido tornado público. Poucos são os que aceitam esta hipótese, já que Eisenman
optou pela tradução menos segura. Em 1992, ele publica outro livro juntamente
com M. Wise. Porém, em seguida, Wise se retratou das interpretações feitas (cf.
se pode ver na apresentação da edição italiana feita por E. Jucci). No entanto,
estas publicações tiveram o mérito de tornar públicos muitos dos manuscritos
que demoravam para serem publicados..
Sobre os pontos acima, é bom lembrar que eminentes estudiosos
encarregados da publicação dos manuscritos sempre afirmaram que, embora se
encontrem muitos paralelos, não existe nada nos textos que tenha ligação direta
com o nascimento do Cristianismo na Galiléia. Também em nenhum dos textos se
encontra o nome de Jesus. Segundo F. G.
Martinez, as últimas análises dos Manuscritos feitas com
carbono 14, comprovam que os mesmos são anteriores ao cristianismo e portanto,
“excluem definitivamente as teorias de uma origem zelota ou judeu-cristã dos
manuscritos”.
O que percebemos é que alguns (como O’Callaghan) gostariam de
ver em Qumran e no Mar Morto indícios de Jesus e dos textos do Novo Testamento.
Não precisamos disso para a credibilidade da nossa fé. Outros, em outro extremo,
querem fazer “provocações” e sugerir que Jesus e o cristianismo tenham origens
essênias. Nem isso está nos Manuscritos. Jesus continua sendo de origem judaica
e o cristianismo continua com sua origem na Galiléia.
Embora seja verdade que o pensamento de Jesus algumas vezes
se aproximasse das idéias dos essênios, porém a prática de Jesus e das
primeiras comunidades se distanciava muito do extremismo deles.
8. A importância dos Manuscritos
Os manuscritos de Qumran e do Mar Morto foram, sem dúvida, a
maior descoberta do milênio passado para a crítica literária e para o estudo da
Bíblia, pois voltamos a ter acesso a cópias de textos bíblicos da época de
Cristo e alguns até dos séculos II-III aC. Tanto a religião judaica, como o
cristianismo, foram duas religiões muito perseguidas na história, por isso foi
difícil preservar os originais ou cópias antigas dos textos sagrados. Para se
ter uma idéia, antes desta descoberta, tínhamos a Bíblia Hebraica de Soncino do
ano 1477; a Bíblia Rabínica (com massora, isto é, anotações que os escribas
faziam nas margens das páginas copiadas) de 1518, já impressa com a descoberta
de Gutenberg e a obra de Jacob Ben Chayyion, o famoso textus recceptus de
1524/1525. Em 1929 surgiu a BHS, a Bíblia Hebraica de Kittel e P. Kahle,
baseada no Código de Leningrado de 1008. Então, estes manuscritos de Qumran e
do Mar Morto nos forneceram cópias com cerca de mil anos mais antigas dos
livros do AT. Tudo isso ajudou a corrigir e melhorar as traduções da Bíblia.
Para o mundo judaico, além da contribuição bíblica, a
descoberta abriu o caminho para o acesso a manuscritos e materiais de dois mil
anos, bem como as escavações e o conhecimento de uma comunidade de um grupo
judaico (os essênios), que contribuem também para entender melhor a história
dos últimos anos da existência do estado de Israel (antes de ser destruído
pelos romanos). E proporcionou um grande conhecimento da literatura hebraica
pré-cristã.
Para o cristianismo, também a maior importância está nas
descobertas bíblicas, mas também em poder conhecer melhor o ambiente, as
estruturas, idéias do mundo judaico da época de Jesus e de uma comunidade que
tinha pontos em comum e pontos divergentes com o cristianismo.
Porém, com J. C. Vanderkam podemos afirmar: “Sustentando que
o Jesus histórico era o Messias, no itinerário que conduziu à época
escatológica, os cristãos se colocaram muito além em comparação com os essênios
de Qumran, os quais esperavam que os seus Messias viriam em um futuro imediato”.
Concluindo, podemos dizer que tinha razão a afirmação do
exegeta bíblico W. F. Albright quando soube da descoberta dos Manuscritos: “Parabéns
pela maior descoberta de manuscritos dos tempos modernos”. E em outra ocasião:
“É fácil de perceber que esta nova descoberta revolucionará os estudos
neotestamentários e logo renderá superados os manuais que tratam do ambiente do
NT e da crítica textual e da interpretação do AT”.
Relação dos Manuscritos
bíblicos encontrados:
Gênesis 15 Salmos 36
Êxodo 17 Provérbios 2
Levítico 13 Jó 4
Números 8 Cântico dos Cânticos 4
Deuteronômio 29 Rute 4
Josué 2 Lamentações 4
Juízes 3 Eclesiastes 3
1-2 Samuel 4 Ester 0
1-2 Reis 3 Daniel 8
Isaías 21 Esdras 1
Jeremias 6 Neemias 0
Ezequiel 6 1-2 Crônicas 1
12 Profetas 8
Também foram encontradas cópias de alguns livros
deuterocanônicos que não vieram a fazer parte da Bíblia Hebraica: Tobias (4
cópias em aramaico e uma em hebraico); Eclesiástico (alguns fragmentos); Carta
de Jeremias = Baruc 6 (foi encontrada uma cópia em grego); Salmo 151, que se
encontra na LXX (uma cópia).
Bibliografia
DONNINI, D. Cristo e Qumran. La chiave di un rapporto
controverso.
EISENMAN, R. – WISE, M. Manoscritti segreti di Qumran. Edizione
italiana a cura di Elio Jucci (Piemme, Asti 21994).
JUCCI, E. I manoscritti ebraici di Qumran: A che punto siamo?
in: http://dobc.unipv.it/SETH/achepunt.htm
JUCCI, E. Qumran. A cinquant’anni dalla ricorrenza della
scoperta dei manoscritti, in:
MACKENZIE, J. L.. Dicionário Bíblico. Verbete: “Qumran”
(Paulus, São Paulo 72002).
MARTINEZ, F. G. Textos de Qumran. Tradução de Valmor da Silva
(Vozes, Petrópolis 1995)
MOLINA, C. As relíquias que o Mar Morto conservou por mais de
2 mil anos. (O Estado de S. Paulo, 25/11/2004,
Caderno 2, pg. D3).
VANDERKAM, J. C. Manoscritti del Mar Morto. Il dibattito
recente oltre le polemiche (Città Nuova, Roma 21997).
OBS. Para a elaboração deste texto utilizei muito o livro de
James C.Vanderkam, que é atualmente membro da Equipe responsável
pela tradução e divulgação dos Manuscritos. Além disso, ele
mesmo no seu livro – parodiando Lucas – afirma que fez uma boa
pesquisa para poder informar melhor todos os fatos ocorridos
desde a descoberta dos manuscritos até os dias atuais. Esperamos que o
livro seja publicado no Brasil.
Este texto está em: http://www.presbiteros.com.br/B%EDblia/Qumran%201.htm
