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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Ética Cristã e Ecologia

 

O ponto de partida da análise do problema tem de reconhecer a situação em que os humanos do século XXI colocaram a Terra, esse espaço que Deus criou e entregou aos humanos e que os humanos têm maltratado:
Assistimos a rápidas extinções de espécies: 10.000 espécies extintas
por ano, segundo cálculos de cientistas. Desflorestação maciça por efeito da
urbanização rápida e da intensificação da agro-indústria. Mudanças climáticas de contornos ainda desconhecidos mas preocupantes. Poluição industrial com ênfase particular na China e na Índia onde o crescimento económico galopante não está a ser acompanhado de medidas de proteção ambiental. Erosão do solo e desertificação em largas áreas de África, América do Sul e China.
Na tradição cristã, não existe oposição entre o bem comum e o caráter físico do Universo. O bem comum e o Universo estão diretamente ligados ao Criador e, por isso, são necessariamente bons. Na tradição bíblica, a vinda, a crucificação e a ressurreição de Cristo tiveram um propósito bem definido: anunciar a salvação.
Deus enviou o seu Filho para nos salvar. A necessidade de salvação resulta do pecado. A forma como os humanos maltratam a Terra e os restantes seres vivos é consequência do pecado. Esse propósito de salvação é válido não só para os humanos, mas também para todos os outros seres. Deus enviou o seu Filho, porque os homens não souberem cuidar de si próprios nem daquilo que Deus lhes ofereceu. O Antigo Testamento está repleto de alusões a esse facto. As referências a pragas, secas e outros cataclismos naturais são constantes e os textos acentuam o desagrado de Deus face àquilo que os homens têm feito. Os humanos deixaram de se portar como usuários da Terra. Em vez disso, portaram-se como donos descuidados. O resultado está à vista e manifesta-se através dos enormes
problemas ecológicos que afetam a Terra e a vida dos humanos e dos outros seres vivos. Não há limites para a avidez humana. São comuns as passagens da Bíblia onde se faz referência à associação entre a injustiça na distribuição das riquezas e a degradação ecológica (1).
“Ai daqueles que juntam casa a casa e acrescentam campo a campo, até não haver
mais terreno e serem os únicos a habitar no meio do país. Javé dos exércitos jurou ao meu ouvido: as suas muitas casas serão arrasadas, os seus palácios luxuosos ficarão desabitados”
(Isaías. 5:8-9).
Essa relação permite considerar que a tradição cristã deu forma e
significado ao conceito de ecojustiça. Até ao Iluminismo, a tradição cristã
sustentava a crença de que era Deus e não os humanos o locus principal de
consciência e de propósito moral no cosmos, sendo a criação, em primeiro lugar e sobretudo, uma possessão de Deus e não da Humanidade 2). Encarada desta forma, a relação dos humanos com a Terra muda de figura. Deus emprestou a Terra aos humanos e espera que eles façam bom uso dela, respeitando todos os outros seres criados, igualmente, por Deus. A idéia antropocêntrica, tão cara ao ideal iluminista, é estranha e contrária à tradição cristã. Se regressarmos à visão teocêntrica, não mais se justifica o abuso dos recursos naturais pelos humanos, seja com o fim de colocar esses bens ao serviço do progresso científico, tecnológico
e social, seja com o objetivo de usufruto desmedido e insensato pelos que

se apoderaram dessas riquezas. Há, portanto, limites para o uso dos bens naturais e esses limites radicam no respeito por todos os seres criados por Deus. Sendo Deus o criador de tudo o que existe, aos humanos apenas é dado o usufruto. A fruição dos bens criados por Deus deve fazer-se no respeito pelas leis divinas e pela lei natural, aquela plasmada nos textos bíblicos, esta desenvolvida e explicada pelos padres da Igreja, em particular Tomás de Aquino, a partir de uma simbiose criativa entre a filosofia de Aristóteles e a tradição cristã. Há várias parábolas de Jesus e
vários textos de S. Paulo que afirmam que as riquezas terrenas não são posse dos humanos mas sim de Deus. Na Primeira Carta aos Coríntios (3), S. Paulo afirma que não somos donos dos nossos corpos nem dos mistérios da fé, pois tudo isso pertence a Deus. O que Jesus trouxe de radicalmente novo foi a idéia da descoberta da categoria do amor, amor a Deus, amor aos nossos vizinhos e a todas as criaturas da Terra. Olhar para a relação dos humanos com a natureza em termos de amor por todas as criaturas tem grandes implicações. A forma como a agro-indústria cria e transporta os animais que se destinam a alimentar grande parte da população das nações capitalistas viola grosseiramente os ensinamentos
éticos de Jesus. O abate indiscriminado e maciço de árvores nas florestas tropicais fere igualmente esses ensinamentos. O próprio modo de vida preponderante nas sociedades capitalistas, assente no aumento continuado do poder aquisitivo, no consumismo desenfreado e na crença cega nos benefícios do progresso, da ciência e da tecnologia, contraria
igualmente a tradição cristã. A tradição cristã oferece uma resposta aos problemas ecológicos. Uma resposta que não assenta apenas na crença na ciência e na tecnologia, mas sobretudo no regresso aos ensinamentos éticos de Jesus: ama o teu próximo como a ti mesmo. Ama a Deus, aos vizinhos e a todos os seres criados por Deus. Com estes ensinamentos, a avidez, a ostentação e o vício são encarados como pecados a evitar. Sem esses pecados, os humanos ficam preparados para levarem uma vida centrada naquilo que é realmente importante e não na aparência
do que é importante. Só essa mudança de atitude e de vida pode quebrar o ciclo de abusos sobre a Natureza.
Notas
1) Nomeadamente em Isaías. 24:1-6 e Isaías.5:8-10
2) Northcott, M. (2007). Christian Ethics and Ecology. In Gill, R. (Org.). The
Cambridge Companion to Christian Ethics. Cambridge: Cambridge University Press
3) Carta aos Coríntios (1 Cor.6:19).
Outra Bibliografia
Northcott, M. (1996). The Environment and Christian Ethics. Cambridge: Cambridge
University Press

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Os primeiros cristãos


 

Aristides de Atenas († 130), ao imperador Adriano:

“Os cristãos ó rei, vagando e buscando, acharam a verdade conforme pudemos achar em seus livros, estão mais próximos que os outros povos da verdade e do conhecimento certo, pois crêem no Deus criador do céu e da terra, naquele em quem tudo é e de quem tudo procede, que não tem outro Deus por companheiro e do qual eles mesmos receberam os preceitos que guardam no coração, com a esperança e expectativa do século futuro. Por isso, não cometem adultério, não praticam a fornicação, não levantam falso testemunho, não recusam devolver um depósito, não se apropriam do que não lhes pertence. Honram pai e mãe, fazem bem ao próximo e, quando em juízo, julgam com equidade. Não adoram os ídolos semelhantes aos homens. O que não desejam lhes façam os outros não o fazem também; não comem alimentos de sacrifícios idolátricos, pois são puros. Exortam os que os afligem, a fim de fazê-los amigos. Suas mulheres, ó rei, são puras como virgens, suas filhas são modestas. Seus homens se abstém de toda união ilegítima e da impureza, esperando a retribuição que terão no outro mundo. Aos escravos e escravas, bem como a seus filhos – se os têm – persuadem a tornar-se cristãos, em razão do amor que lhes dedicam, e quando se tornam, chamam-nos indistintamente irmãos. Não adoram a deuses estranhos e vivem com humildade e mansidão, sem qualquer mentira entre eles. Amam-se uns aos outros, não desprezam as viúvas. Protegem o órfão dos que os tratam com violência. Possuindo bens, dão sem inveja aos que nada possuem. Avistando o forasteiro, introduzem-no na própria casa e se alegram por ele, como se fora verdadeiro irmão: pois se dão o apelativo de irmãos, não segundo o corpo, mas segundo o espírito e em Deus. Se algum pobre passa deste mundo, alguém sabendo, encarrega-se – na medida de suas forças – de dar-lhe sepultura. Se conhecem um encarcerado ou oprimido por causa do nome do seu Cristo, ficam solícitos a seu respeito e se possível libertam-no. Quando um pobre ou necessitado surge entre eles e não possuem abundância de recursos para ajudá-lo, jejuam dois ou três dias para obter o necessário para o seu sustento. Guardam com diligência os preceitos do seu Cristo, vivem reta e modestamente – conforme lhes ordenou o Senhor Deus. Todas as manhãs e horas louvam e glorificam a Deus pelos benefícios recebidos, dando graças por seu alimento e bebida. Mesmo se acontece que um justo – entre eles – passa deste mundo, alegram´se e dão graças a Deus, ao acompanharem o cadáver, como se emigrasse de um lugar para outro. E assim como quando nasce um filho louvam a Deus, também se ele morre na infância glorificam a Deus, por quem atravessou o mundo sem pecados. Mas vendo alguém morrer na malícia e nos pecados, choram amargamente e gemem por ele, supondo-o ir ao castigo. Tal é, ó rei, a constituição da lei dos cristãos e tal a sua conduta”. (Apologia)

Da Carta a Diogneto:

Esta Carta é um dos mais antigos documentos que conta a vida dos primeiros cristãos; é de um autor desconhecido, que escreveu a Diogneto; é do século II. Em seguida, temos um trecho da Carta: “Dai a cada um o que lhe é devido: o imposto a quem é devido; a taxa a quem é devida; a reverência a quem é devida; a honra a quem é devida [Rom 13,7]. Os cristãos residem em sua própria pátria, mas como residentes estrangeiros. Cumprem todos os seus deveres de cidadãos e suportam todas as suas obrigações, mas de tudo desprendidos, como estrangeiros... Obedecem as leis estabelecidas, e sua maneira de viver vai muito além das leis... Tão nobre é o posto que lhes foi por Deus outorgado, que não lhes é permitido desertar” (5,5; 5,10;6,10). Os cristãos não diferem dos demais homens pela terra, pela língua, ou pelos costumes. Não habitam cidades próprias, não se distinguem por idiomas estranhos, não levam vida extraordinária. Além disso, sua doutrina não encontraram em pensamento ou cogitação de homens desorientados. Também não patrocinam, como fazem alguns, dogmas humanos... Qualquer terra estranha é pátria para eles; qualquer pátria, terra estranha. Tem a mesa em comum, não o leito. Vivendo na carne, não vivem segundo a carne. Na terra vivem, participando da cidadania do céu. Obedecem às leis, mas as ultrapassam em sua vida. Amam a todos, sendo por todos perseguidos... E quando entregues à morte, recebem a vida. Na pobreza, enriquecem a muitos; desprovido de tudo, sobram-lhes os bens. São desprezados, mas no meio das desonras, sentem-se glorificados. Difamados, mas justo; ultrajados, mas benditos, injuriados prestam honra. Fazendo o bem são punidos como malfeitores; castigados, rejubilam-se como revificados. Os judeus hostilizam-nos como alienígenas; os gregos os perseguem, mas nenhum de seus inimigos pode dizer a causa de seu ódio. Para resumir, numa palavra, o que é a alma no corpo, são os cristãos no mundo: como por todos os membros do corpo está difundida a alma, assim os cristãos, por todas as cidades do universo...”

SOBRE OS MARTÍRIOS DOS CRISTÃOS

Santo Inácio de Antioquia (†107):


“De viagem da Síria para Roma estou lutando com feras, por terra e por mar, de noite e de dia. Acorrentado a dez leopardos, os milicianos da minha escolta militar... Espero poder enfrentar com alegria as feras que estão preparando para mim, e peço a Deus que eu possa encontrá-las prontas a lançarem-se sobre mim. Se não quiserem, eu mesmo as instigarei para que me devorem num instante... Vocês tenham compaixão de mim. Eu sei muito bem o que é útil para mim. Somente agora começo a ser discípulo. Não me deixo impressionar por coisa alguma, visível ou invisível, para poder unir-me a Cristo Jesus. Fogo, cruzes, feras, lacerações, desconjuntura dos ossos, o corpo reduzido a pedaços, as piores torturas caiam sobre mim: importante é unir-me a Jesus Cristo. Que proveito poderão dar-me os prazeres do mundo ou os reinos da terra? Nenhum. Para mim é melhor morrer por Jesus Cristo, do que reinar sobre toda a terra. A minha vida é busca contínua daquele que morreu por nós: quero aquele que por nós ressuscitou. Vejam, meu nascimento se aproxima. Nada melhor podeis fazer por mim, do que deixar que eu seja sacrificado a Deus... Rogo-vos, não tenhais para comigo uma benevolência inoportuna! Deixem-me ser pasto das feras, pelas quais chegarei a Deus. Sou o trigo de Deus, moído pelos dentes das feras para tornar-me o pão duro de Cristo... Quando o mundo não puder mais ver o meu corpo, serei verdadeiramente discípulo de Cristo.” (Carta aos Romanos)

São Policarpo (†156) – Diante do martírio no anfiteatro de Esmirna.

“Eu te bendigo [Senhor] por me terdes julgado digno deste dia e dessa hora, digno de ser contado no número dos vossos mártires... guardastes vossa promessa, Deus da felicidade e da verdade. Por essa graça e por todas as coisas, eu vos louvo, vos bendigo e vos glorifico pelo eterno e celeste sacerdote, Jesus Cristo, vosso Filho bem amado. Por Ele, que está conosco e com o Espírito, vos seja dada a glória, agora e por todos os séculos. Amém.” (Martírio 14,2´3)

Martírio dos Primeiros Cristãos de Roma

Na primeira perseguição contra a Igreja, desencadeada pelo imperador Nero, depois do incêndio da cidade de Roma no ano 64, muitos cristãos foram martirizados com atrozes tormentos. Este fato é testemunhado pelo escritor pagão Tácito (annales 15,44) e por São Clemente, bispo de Roma, papa, na sua Carta ao Coríntios (cap.5´6), do ano 96: “Deixemos de lado os exemplos dos antigos e falemos dos nossos atletas mais recentes. Apresentemos os generosos de nosso tempo. Vítimas do fanatismo e da inveja, sofreram perseguição e lutaram até à morte. Tenhamos diante dos olhos os bons apóstolos. Por causa de um fanatismo iníquo, Pedro teve de suportar duros tormentos, não uma ou duas vezes, mas muitas; e depois de sofrer o martírio, passou para o lugar que merecia na glória. Por invejas e rivalidades, Paulo obteve o prêmio da paciência: sete vezes foi lançado na prisão, foi exilado e apedrejado, tornou-se pregoeiro da Palavra no Oriente e no Ocidente, alcançando assim uma notável reputação por causa da sua fé. Depois de ensinar ao mundo inteiro o caminho da justiça e de chegar até os confins do ocidente, sofreu o martírio que lhe infligiram as autoridades. Partiu, pois, deste mundo para o lugar santo, deixando-nos um perfeito exemplo de paciência. A estes homens, mestres de vida santa, juntou-se uma grande multidão de eleitos que, vítimas de um ódio iníquo sofreram muitos suplícios e tormentos, tornando-se, desta forma, para nós um magnífico exemplo de fidelidade. Vítimas do mesmo ódio, mulheres foram perseguidas, como Danaides e Dircéia. Suportando graves e terríveis torturas, correram até o fim a difícil corrida da fé e mesmo sendo fracas de corpo, receberam o nobre prêmio da vitória. O fanatismo dos perseguidores separou as esposas dos maridos, alterando o que disse nosso pai Adão: É osso dos meus ossos e carne de minha carne (cf. Gn 2,23). Rivalidades e rixas destruíram grandes cidades e fizeram desaparecer povos numerosos. Escrevemos isto, não apenas para vos recordar os deveres que tendes, mas também para nos alertarmos a nós próprios. Pois nos encontramos na mesma arena e combatemos o mesmo combate. Deixemos as preocupações inúteis e os vãos cuidados, e voltemo-nos para a gloriosa e venerável regra da nossa tradição. Consideramos o que é belo, o que é bom, o que é agradável ao nosso Criador. Fixemos atentamente o olhar no sangue de Cristo e compreendamos quanto é precioso aos olhos de Deus seu Pai esse sangue que, derramado para nossa salvação, ofereceu ao mundo inteiro a graça da penitência.”

Martírio de São Policarpo (†156)

Carta Circular da Igreja de Esmirna


“A Igreja de Deus, estabelecida em Esmirna, à Igreja de Deus estabelecida em Filomélia e a todas as comunidades da Igreja santa e universal, onde quer que esteja: a misericórdia, a paz e a caridade de Deus Pai, de Jesus Cristo nosso Senhor, superabundem em vós. Escrevemos-vos, irmãos, a respeito dos mártires e do bem-aventurado Policarpo, cujo martírio foi, por assim dizer, o selo final, que pôs termo à perseguição. Na verdade, quase todos os acontecimentos anteriores se efetuaram para que o Senhor nos mostrasse do céu o martírio narrado no Evangelho. Policarpo esperou tranqüilamente ser entregue, como o Senhor, para que aprendêssemos, com seu exemplo, a não ter em mira somente o que nos concerne, mas também os interesses do próximo (Fl 2,4). Realmente, a caridade verdadeira e firme consiste em não desejar apenas a própria salvação, mas a dos irmãos. Felizes, pois, e generosos todos estes martírios que se deram conforme a vontade de Deus. Pois é dever da nossa piedade tudo atribuir ao poder de Deus. Deveras, quem não admiraria a generosidade desses mártires, a sua paciência, e amor ao Mestre? Dilacerados pelos açoites a ponto de se tornar visível a estrutura íntima da carne, das veias e das artérias, suportaram tudo com tal firmeza que os circunstantes se compadeciam e choravam. Eles, porém, chegaram a tanto heroísmo, que de nenhum se ouviu grito ou se viu lágrima. Assim, esses generosos mártires de Cristo mostraram que naquela hora em que sofriam não estavam mais no corpo; mais ainda que o próprio Cristo, presente, se entretinha com eles. Confiando unicamente na graça de Cristo, desprezavam os sofrimentos do mundo e, por uma hora de tormento, se resgatavam do castigo eterno. O fogo dos algozes cruéis parecia-lhes frio; querendo fugir do fogo que não se apaga eternamente, fitavam com os olhos do coração os bens reservados aos que perseveram até o fim – “bens que o ouvido não ouviu, os olhos não viram, nem subiram ao coração do homem”, (1Cor 2,9), mas que o Senhor lhes mostrava porque já não eram homens e sim anjos. Com a mesma coragem, outros enfrentaram sofrimentos horríveis; lançados às feras, estirados sobre conchas marinhas, torturados por toda sorte de suplícios, que o tirano prolongava para ver se seria possível induzi-los a renegar. Mas apesar de Satanás ter maquinado muitas coisas contra eles, graças a Deus nada alcançou. Pois Germânico fortaleceu pela heróica resistência, no seu maravilhoso combate com as feras, a pusilanimidade de outros. Querendo o cônsul persuadi-lo a ter compaixão da sua juventude, Germânico, ao contrário, com pancadas excitou a fera contra si, na ânsia de livrar-se quanto antes da convivência daquela gente iníqua e criminosa. Por isso o povo, espantado diante do heroísmo dos cristãos, dessa raça que ama a Deus e é amada por ele, gritou: “Abaixo os ateus! (Ateus aqui seriam os cristãos). Tragam Policarpo !” Um apenas, chamado Quinto, frígio e recentemente chegado da Frígia, ao ver as feras, acovardou-se. Esse, justamente, tinha desafiado espontaneamente o poder público e incitado outros a fazerem o mesmo. Mas não resistiu às instâncias repetidas do procônsul, fez juramento e ofereceu. Eis por que, irmãos, não louvamos os que se entregam espontaneamente a si mesmo; de mais a mais não é isso que ensina o Evangelho. Policarpo, o mais admirável longe de se perturbar ao receber esta notícia, quis permanecer na cidade. Muitos, entretanto, o persuadiram a retirar – se. E ele se retirou para uma pequena casa de campo, a pouca distância, onde permaneceu, com poucos amigos, nada fazendo senão rezar dia e noite por todos e por todas as igrejas conforme o seu hábito. E quando rezava teve uma visão, três dias antes de ser preso. Viu seu travesseiro pegando fogo. Voltando-se para os que estavam com ele, disse-lhes: “ Devo ser queimado vivo”. Como prosseguissem em buscá-lo, transferiu-se Policarpo para outra casa de campo. Logo depois chegaram seus perseguidores, e como não o achassem, prenderam dois jovens escravos, um dos quais, vencido pela tortura, lhes deu a indicação. Já então não lhe era mais possível escapar, uma vez que os traidores eram de sua própria casa. O chefe de polícia, que com razão tinha o nome de Herodes, apressou-se em conduzir Policarpo para o estádio. Assim devia ele obter sua parte na herança do Cristo a quem aderira; ao passo que os traidores, parte no castigo de Judas. Numa Sexta-feira, mais ou menos pela hora da ceia, partiram os perseguidores com um destacamento de cavalaria, armado na forma habitual, “como se procurassem um ladrão” (Mt 26,55). Servia-lhes de guia um escravo. Chegando alta noite foram encontrar Policarpo no primeiro andar da pequena casa. Teria tido tempo de buscar outro refúgio; mas não o quis, dizendo: “Seja feita a vontade de Deus”. Informado da presença dos soldados, desceu e conversou com eles, que ficaram pasmos vendo sua idade e sua calma, e perguntaram entre si por que capturar com tanto empenho um ancião como aquele. Policarpo, entretanto, mandou servir-lhes comida e bebida à vontade e pediu-lhes apenas o prazo de uma hora para rezar livremente. Tendo eles consentido, Policarpo começou de pé a sua oração; a graça divina transbordava nele de tal maneira que pelo espaço de duas horas não pôde interrompê-la. Todos os que ouviram se encheram de espanto e muitos se arrependeram de perseguir a um ancião tão cheio do amor de Deus. Concluindo a oração, na qual se lembrara de todos que havia conhecido, grandes e pequenos, nobres e humildes e da Igreja católica de toda parte do mundo, chegou o momento da partida. Montando um jumento foi conduzido para a cidade, já na manhã do grande Sábado. Vieram a seu encontro Herodes, o chefe de polícia, e Niceto, seu pai, os quais o fizeram sentar-se consigo no carro e tentaram persuadi-lo: “Que mal pode haver em dizer: César é Senhor, oferecer o sacrifício, e dizer as coisas que o seguem, para salvar-se ?” A princípio não respondeu, mas como insistissem, disse-lhes Policarpo: “Não teria o que me aconselhais! “ Perdida assim, a esperança de seduzi-lo, insultaram-no com palavras ameaçadora e jogaram-no do carro com tanta precipitação que feriu na queda a parte anterior da perna. Policarpo nem sequer voltou-se, mas prosseguiu alegremente o caminho para o estádio, depressa como se nada houvesse sofrido. Aí, reinava tal tumulto que ninguém podia fazer-se ouvir. Quando ele entrou, foi ouvida uma voz do céu, dizendo: “Coragem, Policarpo, seja homem!” Ninguém viu quem falou, mas a voz foi ouvida pelos irmãos presentes. No momento em que Policarpo chegou e a multidão soube que estava preso, aumentou o barulho. Foi levado à presença do procônsul, que iniciou o interrogatório, perguntando se de fato era Policarpo. Recebida a resposta afirmativa tentou persuadi-lo a renegar a fé: “Respeita a tua velhice” . E seguiram-se os argumentos usuais, em tais circunstâncias. “Jura pela sorte de César, renega as tuas idéias e dize: Morte aos ateus!” Policarpo então, voltando-se para a multidão do estádio, fixando firmemente com um olhar severo aquela ralé criminosa, elevou a mão contra ela e disse, com os olhos voltados para o céu: “Morte aos ateus”. Insistiu ainda o procônsul: “Faze o juramento e eu te libertarei. Insulta ao Cristo”. Respondeu Policarpo: “Há oitenta e seis anos que o sirvo e nunca me fez mal algum. Como poderia blasfemar meu Rei e Salvador?” Como de novo insistisse, dizendo: “Jura pela sorte de César”, replicou Policarpo: Se esperas, em vão, que vá jurar pela sorte de César, simulando ignorares quem sou, ouve o que te digo com franqueza: sou cristão! Se, por acaso, quiseres aprender a doutrina do cristianismo, concede-me o prazo de um dia e presta atenção!” Disse-lhe o procônsul: “Experimenta persuadir o povo”. Respondeu-lhe Policarpo: “ Julgo que diante de ti devo explicar-me, pois aprendemos a honrar devidamente os princípios e as autoridades estabelecidas por Deus quando não são nocivas à nossa fé. Quanto àquela gente, porém, não a julgo digna de ouvir a minha justificação”. Nem com isso desistiu o procônsul: “Tenho feras”, disse, “às quais te lançarei, se não te converteres”. “Faze-as vir”, respondeu Policarpo; “impossível para nós uma conversão do melhor ao pior; o bem é poder passar dos males à justiça”. De novo, o procônsul: “Se não te convertes, se desprezas as feras, eu te farei consumir pelo fogo”. Policarpo: “Ameaças com o fogo que arde um momento e logo se apaga. Não conheces o fogo do juízo que há de vir e da pena eterna onde serão queimados os inimigos de Deus. Mas, que esperas ainda? Dá a sentença que te apraz !” Proferindo estas e outras palavras, transbordaram nele a generosidade e a alegria e no seu rosto resplandeceu a graça. Não somente o interrogatório não o perturbou, mas foi o procônsul quem perdeu a calma. Este mandou então o arauto proclamar por três vezes no estádio: “Policarpo acaba de confessar-se cristão”. Mal tinha anunciado, a multidão de gentios e judeus de Esmirna prorrompeu em gritos furiosos e desenfreados: “Eis o mestre da Ásia, o pai dos cristão, o blasfemador dos nossos deuses, o que induz tantos outros a não mais honrá-los com sacrifício e orações”. E assim gritando, exigiram do asiarca Filipe que lançasse um leão sobre Policarpo. Ele recusou-se, observando que isso era impossível, pois os combates de feras haviam sido proibidos. Ocorreu imediatamente outra idéia à multidão gritando, a uma só voz: “Que Policarpo seja queimado vivo!” Com efeito, era preciso que se cumprisse a visão do travesseiro. Tinha visto em chamas, quando estava em oração e voltando-se para os fiéis que o rodeavam dissera em tom profético: “Devo ser queimado vivo”. E isso foi feito mais rapidamente do que falado. O povo saiu à busca de lenha nos armazéns e nos banhos, e, como sempre nestas ocasiões, os judeus eram os mais ardorosos. Armada a fogueira, Policarpo despiu as suas vestes, desatou o cinto, tentou desamarrar as sandálias, o que já não fazia, pois os fiéis sempre se apressavam em ajudá-lo, no desejo de tocar-lhe o corpo, no qual muito antes do martírio já brilhava o esplender da santidade de sua vida. Rapidamente cercaram-no com as coisas trazidas para o fogo. Quando os algozes quiseram amarrá-lo, disse-lhes: “Deixa-me livre. Quem me dá forças para suportar o fogo, dar-me-á igualmente a de ficar nele imóvel sem necessitar deste vosso cuidado”. Não o fixaram, amarram-lhe apenas as mãos. Policarpo, de mãos ligadas às costas, cordeiro de escolha tomado de um grande rebanho para o sacrifício, holocausto agradável preparado ao Senhor, olhando o céu disse: “Senhor, Deus onipotente, Pai de Jesus Cristo, teu Filho amado e bendito, pelo qual te conhecemos: Deus de toda a família dos justos que vive na tua presença – eu te bendigo por me haveres julgado digno deste dia e desta hora, digno de participar no número dos mártires, do cálice do teu Cristo para a ressurreição da vida eterna do corpo e da alma, na incorruptibilidade do Espírito Santo! Recebe-me, hoje, com eles, na tua presença como sacrifício agradável e perfeito e o que me havias preparado e revelado realiza-o agora, Deus da verdade. Por isto e por tudo eu te louvo, te bendigo, te glorifico por teu Filho, Jesus Cristo, nosso eterno Sumo Sacerdote no céu. Por ele, com ele e o Espírito Santo, glória seja dada a ti, agora e nos séculos futuros. Amém”. Pronunciado este amém e completa a oração, os algozes atearam o fogo e levantou-se uma grande chama. Nós – a quem foi dado ver – vimos um prodígio (e para anunciá-lo aos outros fomos poupados), o fogo tomou uma forma de cúpula, como a vela de um barco batido pelo vento e envolveu o corpo do mártir por todos os lados. Ele estava no meio, não como carne queimada, mas como um pão que se assa ou como ouro ou para candentes, na fornalha. Sentimos então um odor suave como o do incenso ou de outra essência preciosa. Vendo, afinal que o fogo não conseguia consumir o corpo, os ímpios mandaram o executor transpassá-lo com o punhal. E quando isto foi feito, saiu da ferida tal quantidade de sangue que apagou o fogo. E toda a multidão ficou pasma ao verificar tão grande diferença entre os infiéis e os eleitos. Um destes era certamente Policarpo, o admirável mártir bispo da Igreja católica de Esmirna, que, em nossos dias foi verdadeiramente apóstolo e profeta, pela doutrina, pois toda a palavra saída da sua boca já foi ou será realizada. Mas o espírito maligno, invejoso, perverso adversário do povo dos justos, conhecendo a vida de Policarpo, imaculada desde o começo, e vendo que agora, depois do seu admirável martírio, recebera a coroa da imortalidade e entrara na posse da recompensa eterna, que ninguém poderia mais disputar ou roubar, fez tudo que pôde para impedir que seu corpo fosse levado por nós, embora muitos desejassem possuir seus santos despojos, Satanás sugeriu a Nicete, pai de Herodes e irmão de Alceu, que fosse ter com o governador para pedir-lhe que não entregasse o corpo. “Seriam capazes”, disse Niceto, “de abandonar o crucificado, para adorar a Policarpo”! ´ Disse tudo isso instigado e apoiado pelos judeus, que nos espiavam quando queríamos tirar o corpo do fogo. Ignoravam que nunca poderemos abandonar o Cristo que sofreu para a salvação dos que se salvam no mundo inteiro, inocente pelos pecadores. Como havíamos de adorar a outro? Ao Cristo adoramos como Filho de Deus, aos mártires amamos como discípulos e imitadores do Senhor, dignos da nossa veneração pela fidelidade inquebrantável ao seu Rei e Mestre. Oxalá pudéssemos unir-nos a eles e tornar-nos seus condiscípulos!. Vendo o centurião a oposição dos judeus, fez queimar publicamente o corpo, conforme o costume pagão. Deste modo pudemos mais tarde recolher seus restos, mais preciosos do que pedras raras e mais valiosos do que ouro, para depositá-los em lugar conveniente, onde todos, quando possível, nos reunimos com a ajuda do Senhor, para celebrar com alegria e júbilo o dia do seu nascimento pelo martírio, em memória dos que combateram antes de nós, preparando-nos e fortificando nos para as lutas futuras. Eis a história do bem-aventurado Policarpo. Com os outros cristão de Filadélfia foi o duodécimo martirizado em Esmirna. Mas dele principalmente se conservou a memória, e até os pagãos falam em toda parte. Não foi somente mestre pela doutrina, foi mártir extraordinário, cujo martírio conforme o Evangelho de Cristo todos desejam imitar. Triunfou sobre o governador iníquo por sua paciência e conquistou assim a coroa da incorruptabilidade. Por isso participa da alegria dos apóstolos e dos justos, glorifica a Deus, Pai todo ´ poderoso, e bendiz a nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador das nossas almas e guia dos nossos corpos, Pastor da Igreja católica espalhada pela terra. Pedistes uma narração pormenorizada dos acontecimentos. Mas por enquanto fizemos redigir, por nosso irmão Marcião, somente um resumo. Lida esta carta mandai-a aos irmãos que moram mais longe para que também louvem ao Senhor pelas escolhas que faz entre os seus servos. A Deus, que na sua graça e liberalidade pode fazer entrar no seu reino eterno a todos nós por Jesus Cristo, seu Filho unigênito – glória, honra, poder e majestade pelos séculos! Saudai todos os santos. Saudações dos nossos e de Evaristo, que escreve esta carta, e de toda a sua casa. O santo Policarpo sofreu o martírio no dia dois do mês Xanthicos (22 de fevereiro), sétimo dia antes das calendas de Março, num Sábado, à hora oitava (2 horas da tarde). Quem o prendeu foi Herodes, sob o pontificado de Filipe de Trales, sendo procônsul Estácio Quadrado, no reinado eterno de nosso Senhor Jesus Cristo, a quem sejam glória, honra, majestade e o trono de geração em geração. Amém.” (Patrologia Grega 5, 1029´1045).

Martírio de São Cipriano (†258), bispo de Cartago Atas Proconsulares


“No dia décimo oitavo das calendas de outubro pela manhã, grande multidão se reuniu no campo de Sexto, conforme a determinação do procônsul Galério Máximo. Este, presidindo no átrio Saucíolo, no mesmo dia ordenou que lhe trouxessem Cipriano. Chegado este, o procônsul interrogou-o: “És tu Táscio Cipriano?” O bispo Cipriano respondeu: “Sou”. O procônsul Galério Máximo: “Tu te apresentastes aos homens como papa do sacrílego intento?” Respondeu o bispo Cipriano: “Sim”. O procônsul Galério Máximo disse: “Os augustíssimos imperadores te ordenaram que te sujeites às cerimônias”. Cipriano respondeu: “Não faço”. Galério Máximo disse: “Pensa bem!” O bispo Cipriano respondeu: “Cumpre o que te foi mandado; em causa tão justa, não há que discutir”. Galério Máximo deliberou com o seu conselho e, com muita dificuldade, pronunciou a sentença, com esta palavras: “Viveste por muito tempo nesta sacrílega idéia e agregaste muitos homens nesta ímpia conspiração. Tu te fizeste inimigo dos deuses romanos e das sacras religiões, e nem os piedosos e sagrados augustos príncipes Valeriano e Galieno, nem Valeriano, o nobilíssimo César, puderam te reconduzir à prática de seus ritos religiosos. Por esta razão, por seres acusado de autor e guia de crimes execráveis, tu te tornarás uma advertência para aqueles que agregaste a ti em teu crime: com teu sangue ficará salva a disciplina”. Dito isto, leu a sentença: “Apraz que Tarcísio Cipriano seja degolado à espada”. O bispo Cipriano respondeu: “Graças a Deus”! Após a sentença, o grupo dos irmãos dizia: “Sejamos também nós degolados com ele”. Por isto houve tumulto entre os irmãos e grande multidão o acompanhou. E assim Cipriano foi conduzido ao campo de Sexto. Ali tirou o manto e o capuz, dobrou os joelhos e prostrou-se em oração ao Senhor. Retirou depois a dalmática, entregando-a aos diáconos e ficou de alva de linho e aguardou o carrasco, a quem, quando chegou, mandou que os seus lhe dessem vinte e cinco moedas de ouro. Os irmãos estenderam diante de Cipriano pano de linho e toalha. O bem-aventurado quis vedar os olhos com as próprias mãos. Não conseguindo amarrar as pontas, o presbítero Juliano e o subdiácono Juliano o fizeram. Desde modo morreu o bem-aventurado Cipriano. Seu corpo, por causa da curiosidade dos pagãos, foi colocado ali perto, de onde, à noite, foi retirado e, com círios e tochas, hinos e em grande triunfo, levado ao cemitério de Macróbio Candiano, administrador, existente na via Mapaliense, junto das piscinas. Poucos dias depois, morreu o procônsul Galério Máximo. Mártir santíssimo Cipriano foi morto, no dia décimo oitavo das calendas de outubro, sob Valeriano e Galieno imperadores, reinando, porém, nosso Senhor Jesus Cristo, a quem a honra e a glória pelo séculos dos séculos. Amém. “ (Acta, 3´6: CSEL 3,112´114)

Martírio de s. Pedro e s. Paulo

Narrado por Eusébio (†340), Bispo de Cesaréia.


“Estando Nero no poder, realizou práticas ímpias e tomou as armas contra a própria religião do Deus do universo. Descrever de que malvadez foi capaz este homem não é tarefa da presente obra, pois muitos já transmitiram seus feitos em precisos relatos e poderá talvez alguém agradar-se de aprender a grosseira demência desse estranho homem, que, levado por ela e sem a menor reflexão, produziu a morte de inumeráveis pessoas e a tal extremo fez chegar seu ardor homicida que não se deteve ante os entes mais próximos e caros, fazendo perecer sua mãe, seus irmãos, sua esposa e muitíssimos outros familiares, mortos de várias maneiras, como se fossem adversários e inimigos. Mas deve-se saber que ao dito faltava acrescentar ter sido ele o primeiro imperador que se mostrou inimigo da piedade para com Deus. Dele faz menção o latino Tertuliano, quando diz: “Consultai vossas memórias. Nelas encontrareis que Nero foi o primeiro a perseguir esta doutrina sobretudo quando, após ter submetido o oriente, era cruel em Roma para com todos. Nós nos gloriamos de ter alguém como ele por autor de nosso castigo, pois quem o conhece pode entender que Nero nada condenaria que não fosse um grande bem”. Ele, portanto, proclamado primeiro inimigo de Deus entre os que mais o foram, levou sua exaltação ao ponto de fazer degolar os Apóstolos. Diz-se efetivamente que, sob seu império, Paulo foi decapitado na mesma Roma, e Pedro foi crucificado. E desta referência dá fé o título de Pedro e Paulo que predominou para os cemitérios daquele lugar até o presente. Não menos o confirma um varão chamado Caio, o qual viveu quando Zeferino era bispo de Roma. Disputando por escrito com Proclo, dirigente de seita catafriga, diz, acerca dos mesmos lugares em que estão depositados os despojos sagrados dos mencionados apóstolos, o que segue: “Eu, porém posso mostrar-te os troféus dos apóstolos, pois, se fores ao Vaticano ou ao caminho de Óstia, encontrarás os troféus dos que fundaram esta igreja”. Que os dois sofreram martírio na mesma ocasião, afirma-o Dionísio, bispo de Corinto, na correspondência travada com os romanos, com os termos seguintes: “Nisto também vós, por meio de semelhante admoestação, conjugastes as plantações de Pedro e Paulo, a dos romanos e a dos coríntios, porque, depois de plantarem ambos em nossa Corinto, ambos nos instruíram e, depois de ensinarem também na Itália, no mesmo lugar, sofreram os dois o martírio na mesma ocasião. Sirva igualmente isto para maior confirmação dos fatos narrados.” (LIV. II, c. 25; p.g. 20, 280s ´ História Eclesiástica).


Martírio de Santa Perpétua, Santa Felicidade e dos Mártires de Cartago

Santa Perpétua morreu na arena de Cartago, norte da África, aos 22 anos de idade, no dia 7 de março de 203, com o catequista e mais 6 catecúmenos, na perseguição do imperador Setímio Severo. Ela escreveu na prisão um diário até o dia do martírio (Paixão de Perpétua e Felicidade); era mãe de um filhinho de colo. Tertuliano completou a narração do martírio. Felicidade estava grávida e deu à luz dois dias antes de morrer. “Despontou o dia da vitória dos mártires. Saíram do cárcere e entraram no anfiteatro, como se fossem para o céu, de rosto radiante e sereno; e se algum tinha a fisionomia alterada, era de alegria e não de medo. Perpétua foi a primeira a ser lançada aos ares por uma vaca louca e caiu de costas. Levantou-se imediatamente e, vendo Felicidade caída por terra, deu-lhe a mão e ergueu-a. Ficaram ambas de pé. Saciada a crueldade do povo, foram reconduzidas à porta chamada Sanavivária. Alí Perpétua foi recebida por um catecúmeno chamado Rústico, que permanecia sempre a seu lado. E como que despertando do sono (até este momento estivera em êxtase do espírito), começou a olhar ao redor e, para o espanto de todos, perguntou:”Quando é que seremos expostas àquela vaca?”Ao lhe responderem que já tinha acontecido, não quis acreditar, e só se convenceu quando viu no corpo e nas suas vestes a marca dos ferimentos recebidos. Depois, chamando para junto de si o seu irmão e aquele catecúmeno, disse-lhes: “Permaneçam firmes na fé e amai-vos uns aos outros; não vos escandalizeis com os nossos sofrimentos”. Por sua vez Sáturo, em outra porta do anfiteatro, animava o soldado Prudente com estas palavras: “Até este momento, tal como te havia afirmado e predito, não fui ainda ferido por nenhuma fera. Mas agora, crê de todo o coração: vou avançar de novo para alí, e com uma só dentada do leopardo morrerei”. E, imediatamente, já no fim do espetáculo, foi lançado a um leopardo; este, com uma só dentada, lhe derramou tanto sangue, que o povo, sem saber o que dizia, dando testemunho do seu segundo batismo, aclamava: “Foste lavado, estás salvo! Foste lavado, estás salvo!”Realmente estava salvo quem deste modo foi lavado. Então Sáturo, disse ao soldado Prudente: “Adeus! Lembra-te da fé e de mim; que estas coisas não te perturbem, mas te confirmem!”Pediu-lhe depois o anel que trazia no dedo e, mergulhando-o na ferida, devolveu-o como uma herança, deixando-lhe como penhor e lembrança do sangue. Em seguida, já esgotado, foi deitado com os outros no lugar de costume para o golpe de misericórdia. O povo, no entanto, exigia em alta voz que fossem levados para o meio do anfiteatro aqueles que iam receber o golpe final; pois queriam ver com os próprios olhos, cúmplices do homicídio, a espada penetrar nos corpos das vítimas. Os mártires levantaram-se espontaneamente e foram para onde o povo queria; depois deram uns aos outros o ósculo santo, para coroarem o martírio com este rito de paz. Todos receberam o golpe da espada, imóveis e em silêncio; especialmente Sáturo, que fora o primeiro a subir e o primeiro a entregar a alma. Até o último instante ia confortanto Perpétua. E esta, que desejava ainda experimentar maior dor, exultou ao sentir o golpe em seus ossos, puxando ela própria para a sua garganta a mão indecisa do gladiador inexperiente. Talvez esta mulher de tanto valor, temida pelo espírito do mal, não pudesse ser morta de outra maneira senão querendo ela própria. Oh mártires cheios de força e ventura! Verdadeiramente fostes chamados e escolhidos para a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.”(Cap. 18.20´21: edit. van Beck, Noviomagi, 1936, pp.42.46´52)

O Martírio de São Fabiano, Papa (236´250)

Da Carta que São Cipriano enviou aos presbíteros e diáconos de Roma ao tomar conhecimento da morte do Papa Fabiano:

“Quando era ainda incerta entre nós a notícia da morte desse homem justo, meu companheiro no episcopado, recebi de vós, caríssimos irmãos, a carta que me enviastes pelo subdiácono Cremêncio; por ela fiquei completamente a par da sua gloriosa morte. Muito me alegrei, porque a integridade do seu governo foi coroado com um fim tão nobre. Por isso, quero congratular-me convosco, por terdes honrado a sua memória com um testemunho tão esplêndido e tão ilustre. Destes-nos a conhecer a lembrança gloriosa que conservais de vosso pastor, que é para nós um exemplo de fé e fortaleza. Realmente, assim como é um precedente pernicioso para os seguidores e queda que os preside, pelo contrário, é útil e salutar o testemunho de um bispo que dá aos irmãos o exemplo de firmeza na fé. Mas, parece que, antes de receber esta carta, a Igreja de Roma dera à Igreja de Cartago testemunho da sua fidelidade na perseguição. A Igreja permanece firme na fé, embora alguns tenham caído, seja porque impressionados com a repercussão suscitada por serem pessoas ilustres, seja porque vencidos pelo medo dos homens. Todavia, nós não os abandonamos, embora tenham se separado de nós. Antes, os encorajamos e aconselhamos a fazerem penitência, para que obtenham o perdão daquele que pode concedê-lo. Pois se perceberem que foram abandonados por nós, talvez se tronem piores. Vede, portanto, irmãos, como deveis proceder também vós: se corrigirdes com exortações aqueles que caíram, e eles forem novamente presos, proclamarão a fé para reparar o erro anterior. Igualmente vos lembramos outros deveres que haveis de levar em conta: se aqueles que caíram nesta tentação começarem a tomar consciência de sua fraqueza, se se arrependerem do que fizeram e desejam voltar à comunhão da Igreja, devem ser ajudados. As viúvas e os indigentes que não podem valer-se a si mesmos, os encarcerados ou os que foram afastados para longe de suas casas, devem ter quem os ajude. Do mesmo modo, os catecúmenos que estão presos não devem se sentir desiludidos na sua esperança de ajuda. Saúdam-vos os irmãos que estão presos, os presbíteros e toda a Igreja de Roma que, com a maior solicitude, vela sobre todos os que invocam o nome do Senhor. E também pedimos que vos lembreis de nós.(Ep – 9,1,8, 2,2,3: CSEL 3,488´489,487´488)

Exortação ao martírio, de Orígenes (184´254)


“Se passamos da morte para a vida (1Jo 3,14), ao passarmos da infidelidade para a fé, não nos admiremos se o mundo nos odeia. Com efeito, quem não tiver passado da morte para a vida, mas permanecer na morte, não pode amar aqueles que abandonaram a tenebrosa morada da morte, para entrar na morada feita de pedras vivas, onde brilha a luz da vida. Jesus deu a sua vida por nós (1Jo 3,16); portanto, também nós devemos dar a vida , não digo por ele, mas por nós, quero dizer, por aqueles que serão construídos, edificados, com o nosso martírio. Chegou o tempo, cristãos, de nos gloriarmos. Eis o que está escrito: E não só isso, pois nos gloriamos também de nossas tribulações, sabendo que a tribulação gera a constância, a constância leva a uma virtude provada, a virtude provada desabrocha em esperança; e a esperança não decepciona. Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm 5,3´5). Se, à medida que os sofrimentos de Cristo crescem para nós, cresce também a nossa consolação por Cristo (2Cor 1,5), acolhamos com entusiasmo os sofrimentos de Cristo; e que eles sejam muitos em nós, se desejamos realmente obter a grande consolação reservada para todos os que choram. Talvez ela não seja igual medida para todos. Pois se assim fosse, não estaria escrito: à medida que os sofrimentos de Cristo crescem em nós, cresce também a nossa consolação. Aqueles que participam dos sofrimentos de Cristo, participarão também da consolação que ele dará em proporção aos sofrimentos suportados por seu amor. É o que nos ensina aquele que afirmava cheio de confiança: Assim como participais dos sofrimentos, participareis também da consolação (cf. 2Cor 1,7). Da mesma forma Deus fala através do Profeta: No momento favorável, eu te ouvi e no dia da Salvação, eu te socorri (cf. Is 49,8; 2Cor 6,2). Haverá, por acaso, tempo mais favorável do que esta hora, quando por causa do nosso amor a Deus em Cristo somos publicamente levados prisioneiros neste mundo, porém, mais como vencedores do que como vencidos? Na verdade, os mártires de Cristo, unidos a ele, destroçam os principados e as potestades, e com Cristo triunfam sobre eles. Deste modo, tendo participado de seus sofrimentos, também participam dos merecimentos que ele alcançou com a sua coragem heróica. Que outro dia de salvação haverá tão verdadeiro como aquele em que deste modo partireis da terra? Rogo-vos, porém, que não deis a ninguém motivo de escândalo, para que o nosso ministério não seja desacreditado; mas em tudo comportai-vos como ministros de Deus com grande paciência (cf. 2Cor 6,3´4), dizendo: E agora Senhor, que mais espero ? Só em vós eu coloquei minha esperança ! (Sl 38,8). (Nn 41´42: PG 11, 618´619) (Séc. III)

Santo Agostinho e o Agostinismo



O livro é uma introdução à vida e a obra do bispo de Hipona (354-430 d.C.). A obra divide-se em duas partes. A primeira, intitulada “Santo Agostinho” é por sua vez subdividida em a Vida, a Obra e o Homem. s. Na segunda parte, chamada “O Agostinismo”, Marrou discorre sobre a influência do pensamento agostiniano ao longo da história. Nascido em Tagaste, África (Argélia atual), Agostinho era um “romano da África”, pois sua religião e a sua família estavam já profundamente romanizadas: Agostinho saiu de um meio social relativamente humilde, pois seu pai, Patrício, era um pequeno proprietário pertencente à classe dos curiales, notáveis provinciais esmagados pela responsabilidade coletiva em matéria fiscal – o que podemos traduzir por pequena burguesia em vias de proletarização” (p. 14) Nestas condições, o melhor caminho pra ascensão social era uma boa educação, notadamente a educação nas artes liberais, tais como a retórica. Para sua educação dependeu da ajuda do patrocínio de um amigo da família, Romaniano. Enquanto estudava, deu aulas para sobreviver. Ensinou retórica em Tagaste, Cartago, Roma e Milão. Durante esta época, uniu-se a uma concubina com a qual teve um filho, Adeodato. Mas aquele tipo de relacionamento feria tanto as normas da sua classe social, quanto as normas da Igreja Católica, da qual a sua mãe, Mônica, era devota. Esta planejava para ele um casamento que lhe permitisse adequar-se às normas da Igreja bem como ascender socialmente. Para atender a estas ambições, deixou a mulher com a qual vivia. O casamento planejado, no entanto, nunca aconteceu. Por esta época, as inquietações espirituais e filosóficas de Agostinho o levaram a procurar o Cristianismo. Mas decepcionou-se com a “impureza” gramatical e literária da Bíblia. Além disso, as dificuldades com uma vida de castidade o afastavam da moral cristã. Aproximou-se, então, do Maniqueísmo, movimento religioso, que ensinava que a realidade era formada por dois princípios absolutos, iguais e antagônicos: o Bem e o Mal. Durante algum tempo, tornou-se ouvinte do movimento, mas, aos poucos, foi se dando conta que a tal consistência filosófica do grupo era fictícia. Neste período, enquanto ensinava retórica em Milão, tornou-se freqüentador da igreja onde pregava o bispo Ambrósio. Acompanhava as pregações inicialmente por interesse na sua retórica. Terminou também por se interessar pela sua exegese alegórica, que o ajudou a lidar com as dificuldades do texto bíblico. Também entrou em contato com o neo-platonismo cristão, uma maneira de ver a teologia que permitiu a Agostinho vencer suas resistências filosóficas em relação ao Cristianismo. Para que acontecesse a sua conversão faltava ainda renunciar as ambições temporais e abraçar a vida de fé. O momento dramático acontece em agosto de 386, quando a leitura de uma passagem da carta de Paulo aos Romanos o convence definitivamente a fazer tal renúncia. Tornar-se cristão, para Agostinho, bem como para muitos dos seus contemporâneos, significava abraçar um ideal contemplativo. Com essa intenção, refugia-se com sua mãe e alguns amigos, numa propriedade rural em Cassiciacum, para um período de oração e estudos.



terça-feira, 3 de julho de 2012

Carta de Guigo I

 



Carta de Guigo I
A um amigo sobre a Vida Solitária
Ao Reverendo…, Guigo, o menor dos servos da Cruz que estão em Chartreuse: « Viver e morrer por Cristo » (Cf. Fl 1,21).
1 Um imagina feliz o outro. A meu ver, aquele que o é verdadeiramente não é o ambicioso que luta para conseguir honras altivas num palácio, mas aquele que escolhe levar uma vida simples e pobre no deserto, que gosta de aplicar-se à sabedoria no repouso 1, e deseja com ardor permanecer sentado e solitário no silêncio (Cf. Lm 3,28).
2 Porque, brilhar nas honras, estar elevado em dignidade, é, a meu ver, cosia pouco tranqüila, exposta a perigos, sujeita a cuidados, suspeita para muitos, e para ninguém segura. Alegre no princípio, equívoca com a prática, é triste no seu termo. Aplaude os indignos, indigna-se contra os bons, e a maioria das vezes, zomba de uns e de outros. Fazendo muitos infelizes, não faz ninguém feliz, nem satisfeito.
3 Em compensação, a vida pobre e solitária, pesada no começo, fácil no seu curso, torna-se no fim celeste. Está firme nas provas, confiante nas incertezas, modesta no êxito. É frugal na alimentação, simples no vestir, reservada nas palavras, casta nos costumes, e objeto dos maiores desejos porque não deseja absolutamente nada. Sente muitas vezes o aguilhão do arrependimento pelos seus pecados passados, evita-os no presente e previne-se contra eles no futuro. Espera na misericórdia, mas não contam com os seus méritos. Aspirando vivamente aos bens celestiais, rejeita os da terra. Esforça-se por adquirir uma conduta provada, mantém-se nela com perseverança, e guarda-a para sempre. Entrega-se aos jejuns pelo hábito da Cruz, mas aceita alimentos por exigência do corpo. Dispõe uma e outra coisa com a mais perfeita medida; com efeito, domina a gula sempre que decide comer, e o orgulho, sempre que quer jejuar. Dedica-se ao estudo, mas sobretudo das Escrituras e de obras religiosas nas quais o miolo do sentido a mantém mais ocupada que a escuma das palavras. E, o que é mais surpreendente e mais admirável, permanece sem cessar no repouso, e, ao mesmo tempo, nunca está ociosa2. Multiplica as suas ocupações, de modo a faltar-lhe a maioria das vezes o tempo mais que atividades diversas. E lamenta-se mais freqüentemente da falta de tempo que do aborrecimento do trabalho.
4 E que mais dizer? É um belo tema aconselhar o repouso 3, mas semelhante exortação exige um espírito senhor de si que, cuidadoso com o seu próprio bem, desdenhe intrometer-se nos assuntos públicos ou alheios; um espírito que sirva sob Cristo na paz de forma a evitar ser simultaneamente soldado de Deus e defensor do mundo, e que saiba perfeitamente que não pode gozar aqui com este século e reinar no outro com o Senhor.
5 Mas estas coisas e outras semelhantes são muito pouco se te lembras do que bebeu sobre o patíbulo Aquele que te convida a reinar com Ele. De bom ou mal grado, importa-te seguir o exemplo de Cristo na sua pobreza, se queres ter parte em Cristo nas suas riquezas. « Se participamos nos seus sofrimentos, diz o Apóstolo, « reinaremos também com Ele » (Rm 8,17), « Se morremos com Cristo, viveremos também com Ele » (2Tim 2, 11-12). O próprio Mediador respondeu aos dois discípulos que Lhe pediam para se sentarem um à sua direita e o outro à sua esquerda : « Podeis beber o cálice que Eu vou beber? » (Mt. 20, 21-22)4. Mostrava-nos deste modo que se chega aos festins prometidos dos Patriarcas e ao néctar das taças celestes pelos cálices das amarguras terrestres.
6 E porque a amizade já alimenta a confiança e que tu, meu apreciado amigo em Cristo, sempre me foste caro desde o dia em que te conheci, exorto-te, animo-te e peço-te, visto que és prudente, ponderado, sábio e muito hábil, que subtraias ao mundo esse pouco da tua vida que ainda não foi consumido; não tardes em queimá-lo para Deus, como um sacrifício vespertino (Ps 140,2), depondo-o sobre o fogo da caridade (Cf. Lv 1,17), a fim de que, a exemplo de Cristo, sejas tu próprio sacerdote e também « Vitima (em sacrifício de) agradável odor para Deus » (Ef 5,2)5 e para os homens.
7 Mas, a fim de compreenderes mais plenamente para onde tende o ardor de todo este discurso, indico brevemente à prudência do teu juízo qual é o voto do meu coração e ao mesmo tempo o seu conselho: como homem de coração generoso e nobre, abraça o nosso gênero de vida, tendo em vista a tua salvação eterna, e, feito novo recruta de Cristo, vigiarás, fazendo uma guarda santa no campo da milícia celeste, depois de teres posto à cinta a tua espada (2Tm 2,11-12), por causa dos temores da noite (Ct 3,8).
8 Portanto, como se trata para ti duma coisa boa no seu empreendimento, fácil na sua realização e feliz no seu acabamento, peço-te que ponhas na consecução de um tão justo “negócio” tanta aplicação quanta a graça divina para tal te conceder. Onde e quando deves fazê-lo, deixo a escolha decisiva disso à tua sagacidade. Mas não creio de forma nenhuma que um prazo ou demora nisso seja algo vantajoso para ti.
9 Mas não me alongarei mais sobre tal assunto, receoso de que este discurso rude e deselegante te moleste como freqüentador do Palácio e da Corte. Tenha, pois, esta carta um fim e uma medida, coisa que não terá nunca o meu grande afeto por ti.


Notas :
Como nos diz o estudioso do Monacato Primitivo dos Padres do Deserto, Dom García Colombás, osb (BAC nº. 588, p. 653 y 693), o ideal dos monges orientais que eles designavam com a palavra hesychía, apátheia, os monges ocidentais o traduziam com o vocábulo repouso, quies, puritas cordis, pax, etc. Quando aqui nos fala Guigo do otium do contemplativo, se está referindo a esse ideal, ao qual já fazia referência São Bruno nas suas cartas (Cf., p.e.: Ad Radulphum., 4 e 7; Ad Fratres, 2), no qual já se tinha exercitado aos pés de Jesus Maria de Betânia, como o mesmo Guigo nos fala nos seus Consuetudines Cartusiæ, XX, 2. 
 Guigo emprega nesta carta os mesmos termos utilizados por São Bruno ao dirigir-se a seu amigo Raul: Aqui se pratica um repouso bem ocupado, se repousa numa sossegada atividade (Ad Radulphum.¨6)
Ao aconselhar aqui Guigo a seu amigo o repouso, o otium contemplativo, devemos entender que o faz nas duas facetas que isso comporta. A este respeito, Dom G. Colombás fez notar que o ideal dos monges do Deserto levava consigo, por um lado, como estado de vida, a hésychia material, ou permanência repousada na solidão do ermo, e por outro lado, a hésychia interior, ou repouso silencioso, como estado da alma a que se ordena a primeira (Idem. Pág. 692). Tudo isso exige do solitário a seria ascese de negar-se a se mesmo e carregar a cruz de cada dia, como bom soldado de Cristo.
Perante estas citações da Palavra de Deus, o quinto sucessor de Bruno centraliza a genuína milícia do monge, no deserto, em sua inserção no mistério pascal de Cristo.
O apreço de Guigo pela dimensão sacerdotal da vida do monge, como membro de Cristo pelo Batismo (Cf. 1Pd 2, 9), fica aqui uma vez mais patente com esta citação do Apóstolo (Cf. Ef 5,2)