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domingo, 4 de março de 2012

Vida de Santo Antão - por Santo Atanásio

  

1. Sobre a Obra:

1.1 - Introdução
Santo Atanásio de Alexandria, o autor da "Vida de Santo Antão", é o insigne patriarca de Alexandria. Santo Atanásio nasceu cerca do ano 295. Em 325, sendo diácono, acompanhou o patriarca Alexandre, seu predecessor, ao Concílio de Nicéia, onde foi condenada a heresia ariana. Foi consagrado bispo de Alexandria a 08 de junho de 328. Toda sua vida pastoral viu-se envolvida pela controvérsia e lutas desencadeadas pelo arianismo, constituindo-se ele um dos baluartes da verdadeira fé proclamada pelo Concílio de Nicéia. Por cinco vezes foi desterrado de sua sede, sob os imperadores Constantino, Constâncio, Juliano e Valente. Entre 335 e 337 esteve em Tróvoris; entre 339 e 346, em Roma; os três últimos desterros passou-os no deserto do Egito: 356-362, 362-363, 365-366. Voltando finalmente a Alexandria, morre em 373. Nada sabemos sobre sua formação, seus mestres, seus estudos. Segundo seu próprio testemunho, alguns de seus mestres morreram durante as perseguições; em conseqüência, eram cristãos. Em todo caso, seu âmbito era a Igreja. Sem vacilar entrega-se a seu serviço e à sua defesa. parece ser mais copta do que grego. Fala e escreve copta. Conhece seu povo, pois dele provém. Sua comunidade vai apoiá-lo sempre, através de todas as turbulências de sua vida agitada. Dos quarenta e cinco anos de sua atividade episcopal, passou quase vinte no desterro. Isto explica que a maior parte de suas obras tenham surgido da contenda anti-ariana. Não pretende fazer literatura, mas apenas ensinar e convencer. Fora de uma obra em duas partes (Contra os pagãos e Sobre a encarnação do Verbo), escrita em seus tempos de diácono do patriarca Alexandre, a maioria de suas obras teológicas se dedicam a rebater o arianismo e defender a fé nicena, e nelas predomina o tom polêmico, chegando à ironia e ao sarcasmo. (Três sermões contra os arianos, Apologia contra os arianos, Apologia ao imperador Constantino, Apologia sobre sua fuga, História dos arianos para os monges). Mas Santo Atanásio foi também pastor de almas. Infelizmente perderam-se muitas de suas obras, especialmente seus comentários à Sagrada Escritura. Entre seus escritos sobressaem suas cartas pastorais pascais e um tratado sobre a virgindade.  
1.2. Santo Atanásio e o monaquismo
Santo Atanásio não foi monge, mas acha-se em lugar muito destacado nas origens do movimento monástico.Sua vida, como a de todos os Padres da igreja do século IV, foi sumamente ascética. Ainda que seus estudos, segundo o testemunho de São Gregório Nazianzeno, não tenham sido especialmente amplos, possuía ele um grande domínio da Sagrada Escritura. Desde muito cedo parece ter estado em relação com os monges, particularmente com Santo Antão. Dois discípulos deste o acompanharam em seu desterro a Roma em 339, e entre os monges buscou e encontrou colaboradores durante sua luta anti-ariana, confiando a alguns deles sedes episcopais. Todas estas relações de amizade e mútua compreensão - os monges apoiaram amplamente a causa de Santo Atanásio, e este defendeu e propagou o nascente ideal no Oriente e no Ocidente - fizeram-se mais sólidas e profundas durante os três últimos desterros do bispo, na Tebaida e entre os monges pacomianos. Em face à resistência de muitos bispos, Santo Atanásio soube compreender o valor do movimento monástico, estimulou-o, influiu grandemente nele através de seu contato pessoal e de seus escritos, propagou seus ideais e o estabeleceu definitivamente como movimento de Igreja. É indubitável que, fora a ajuda de Deus e sua própria convicção e a adesão inquebrantável de seu povo de Alexandria, Santo Atanásio encontrou no apoio entusiasta do monaquismo copta um grande consolo em sua luta e em seus desterros. Aqui se destaca de modo especial a amizade de Santo Antão: segundo o historiador Sozomeno, escreveu ao imperador Constantino em favor de seu amigo, e não vacilou em apresentar-se na própria cidade de Alexandria. É indubitável também que, fora do influxo doutrinal, a presença de Santo Atanásio foi decisiva na orientação essencialmente escriturística e evangélica do movimento monástico. E, entre todas as suas obras, é sua "Vida de Santo Antão" a que constitui sua mais significativa contribuição ao desenvolvimento do espírito monástico. 
1.3. A "vida de Santo Antão"
Santo Atanásio escreveu a "Vida", segundo alguns, por ocasião de seu primeiro desterro no deserto, na Tebaida, encontrando-se entre os monges, 356-362; segundo outros, tê-la-ia escrito em sua volta definitiva a Alexandria, depois de 366. Atualmente já ninguém discute que tenha sido efetivamente Santo Atanásio o autor da "Vida". O que se discute entre os entendidos é, sim, o caráter dessa biografia, isto é, qual o seu gênero literário, a veracidade histórica de seu conteúdo, o próprio pensamento de Santo Antão. Parece haver acordo em aceitar que o substancial dos dados contidos na "Vida" corresponde ajustadamente à verdade histórica, Santo Antão, não é, pois, uma figura mítica, pura criação de Santo Atanásio, como tampouco o são as diversas circunstâncias e etapas de sua vida. No entanto, deve-se conceder que os diversos episódios, separadamente considerados, não têm todos a mesma qualidade. A maior dificuldade se apóia na apresentação da doutrina espiritual de Santo Antão e em alguns aspectos de sua luta contra os demônios; é evidente que se no essencial Santo Atanásio é fiel à figura de seu herói, não é menos certo que expõe suas próprias reflexões sobre o tema. Não cremos que se possa ir tão longe como afirmar que a "Vida" é um tratado de espiritualidade; ela é, efetivamente, uma biografia, que pretende credibilidade histórica (5:7), mas que tem, além dessa finalidade expressa, também outra, abertamente declarada: dar aos monges um modelo digno de imitação (4; 93,1.9; 94,1). É possível que Santo Atanásio tenha tomado em conta o gênero biográfico da antiguidade e que tenha inclusive conhecido determinadas biografias de autores pagãos que puderam ter-lhe servido de modelo. De qualquer modo, deseja demonstrar que o copta iletrado que foi Santo Antão superou amplamente todos aqueles heróis ou homens divinos, não por suas próprias forças, mas pela graça de Deus (5,10; 7,1; 38,3; 78,1.2; 84,1; 94,1). Dificuldades aparte apresentam os dois longos discursos dos caps. 16-43 (sobre o combate espiritual) o 72-80 (contra os arianos). Sabe-se que os historiadores antigos costumavam pôr na boca de seus heróis discursos ou sermões nos quais expunham seus próprios pontos de vista ou sintetizavam livremente as opiniões atribuídas a seus biografados. É provável que Santo Atanásio tenha também recorrido a este procedimento. Contudo, principalmente no primeiro dos discursos dever-se-á reconhecer que se trata do resultado de um influxo recíproco; dadas as íntimas relações entre Santo Atanásio e o mundo monástico do deserto, especialmente Santo Antão, os discursos espirituais refletem a sabedoria experimental dos monges, mas igualmente as reflexões e sabedoria pastoral do patriarca alexandrino. Pois bem, a conferência espiritual dos caps. 16-43, que constitui um quarta parte de toda a "Vida" é a que justamente apresenta o traço que costuma chocar o leitor não iniciado, o mundo horripilante dos demônios. Esse discurso foi caracterizado às vezes como verdadeira súmula de demonologia. Talvez não seja possível dar uma explicação absolutamente satisfatória desse fenômeno. Como todo documento antigo, incluído o Novo Testamento, também a "Vida" dá provavelmente mais lugar ao mundo do maravilhoso, e, portanto, do demoníaco. Muitos serão os fatores que influíram: incapacidade para discernir causas naturais; a convicção de que deuses e ídolos pagãos eram em realidade demônios, que se enfureciam contra os cristãos por sentir ameaçado seu domínio sobre o mundo; crenças populares; influxos de movimentos ocultistas. Não dando muita atenção, sem eliminá-las, no entanto, às representações demasiado realistas do mundo espiritual, fica o essencial de uma grande sabedoria feita de profunda observação e experiência vivida, unida ao carisma do discernimento e da direção espiritual. Finalmente, Santo Atanásio apresenta na "Vida" como tese fundamental, que a santidade ou perfeição cristã, animada pelo Espírito e refletida nas figuras bíblicas (especialmente São João Batista, Nosso Senhor Jesus Cristo, os Apóstolos) e nos mártires da Igreja, continuava ao alcance de todos. Podia mudar, sem dúvida, o quadro externo - agora, o monaquismo tal como Santo Antão o viveu -, mas a plenitude de vida do Espírito continuava sendo a mesma. Neste sentido, a "Vida" continua sendo um documento, não só monástico, mas simplesmente cristão, de perene atualidade. Isto explica também a imensa popularidade que a "Vida" teve em todos os tempos, a quantidade de traduções, desde as que, muito pouco depois da aparição do original grego, foram feitas do latim e do sírio, e constitui a razão mais profunda da versão castelhana (de onde vem esta portuguesa).  
1.4. Santo Antão
Para conhecer a vida de Santo Antão tem-se como texto fundamental a obra de Santo Atanásio. Fora dela citam-se por vezes outras fontes, mas que não dão as mesmas garantias de autenticidade. Com mais ou menos segurança se lhes atribuem algumas cartas, ditadas por ele em todo caso, pois não sabia grego. Menor segurança reveste a atribuição que de alguns apoftegmas se lhe faz tradicionalmente. Fora de dúvida estão, no entanto, as notícias contidas na carta que, por ocasião da morte de Santo Antão, escreveu ao amigo deste, São Serapião, bispo de Thmuis (ob. entre 339 e 353), como igualmente a menção do historiador Sozomeno (+ 439?) e o elogio de São Gregório Nazianzeno (+ 389/390). Valem também as menções na literatura pacomiana, ainda que por vezes adornadas com um traço bem legendário. As datas da vida de Santo Antão são inseguras. A mais certa é a de sua morte, no ano 356. Segundo a "Vida" (89,3), tinha nesta data cento e cinco anos de idade. Ainda que semelhante idade, certamente não comum, não seja de todo improvável na vida de um homem, pode, no entanto, estar excedida em alguns anos. Sendo assim, Santo Antão teria nascido entre 250 e 260. Como lugar de origem, costuma-se dar a aldeia de Coma (Kiman-el-Arus), no Egito médio, perto da antiga Heracleópolis. Seus pais eram camponeses abastados. Além de Antão, tinham uma filha. À morte dos pais, o jovem, de uns 18 a 20 anos, vendeu a propriedade, por amor ao Evangelho, distribuiu o dinheiro aos pobres, reservando apenas algo para sua irmã, menor que ele. Posteriormente distribuiu também isso, consagrando sua irmã ao estado de virgem cristã. Retirou-se ele à vida solitária, perto de sua aldeia natal, segundo o costume da época. É a etapa de sua formação monástica, de sua apaixonada dedicação à Escritura e à oração; é também o período de seus primeiros encontros com o demônio. Depois de um certo tempo, buscando uma confrontação mais direta com o demônio, vai viver num cemitério abandonado, encerrando-se um mausoléu. Ali sofre ataques violentíssimos dos demônios, mas sem se deixar amedrontar, persevera em seu propósito. Assim chega aos 35 anos. Empreende então a separação decisiva: vai para o deserto. A "Vida" assinala esse passo como algo totalmente insólito nessa época (11,1). Santo Antão cruza o Nilo e se interna na montanha, onde ocupa um fortim abandonado. Ali passou quase vinte anos (14,1), não se deixando ver por ninguém, entregue absolutamente só à prática da vida ascética. Pressionado pelos que queriam imitar sua vida, Santo Antão abandona a solidão e se converte em pai e mestre de monges. Conta cinqüenta e cinco anos, e junto ao dom da paternidade espiritual, Deus lhe concede diversos outros carismas. Em torno dele forma-se uma pequena colônia de ascetas (44). Nesta etapa conta-se também a descida de Santo Antão e de seus discípulos a Alexandria, por ocasião da perseguição de Maximino Daia (311), para confortarem os mártires de Cristo ou ter a graça de sofrerem eles próprios o martírio. Voltando à solidão, encontrou-a povoada demais para seus desejos. Fugindo então à celebridade, Santo Antão chega ao que a "Vida" chama "Montanha interior" (a "Montanha" exterior, ou Pispir (Deir-el-Mnemonn) havia sido até então sua residência, e nela permanece a colônia de seus discípulos), o Monte Colzim, perto do Mar Vermelho. Apesar de tudo, de vez em quando visita seus irmãos, e estes vão a ele. A "Vida" coloca neste tempo a maioria dos prodígios que lhe atribui. A pedido dos bispos e dos cristãos, empreende segunda vez o caminho de Alexandria, para prestar seu apoio à verdadeira fé na luta contra o arianismo. Os últimos anos de sua vida passou em companhia de dois discípulos. Vaticina sua morte, faz legado de suas pobres roupas e roga a seus acompanhantes que não revelem a ninguém o lugar de sua sepultura. Gratificado com uma última visão de Deus e de seus santos, morreu em grande paz. Ainda que a "Vida" diga explicitamente que Santo Antão não foi o primeiro anacoreta (3,3-5; 4,1-5), sustentando, por outro lado, que foi o primeiro a retirar-se ao deserto do Egito (11,1), e ainda que, além disso , seja muito difícil assinalar origens e iniciadores precisos num movimento humano tão complexo como o monástico, contudo, a figura se sobressai em forma tão extraordinária, que com razão é ele considerado pai da vida monástica e, especialmente, como modelo perfeito da vida solitária. Sua fama já em vida, acrescentada depois de sua morte sobretudo através das páginas da "Vida", é inteiramente justa. Ao celebrar sua festa, de acordo com muito antigas tradições, a 17 de janeiro, os cristãos reconhecemos o poder de Deus entre os homens, a força de sua sabedoria ao deixar-nos um exemplo em homem tão humilde, o dom de seu Espírito multiforme com a discrição e o alento fraterno do grande ancião. 
1.5. O deserto
O deserto constitui, na revelação do Antigo e do Novo Testamento, um tema de atração particular. Sabemos que Israel teve no deserto as experiências mais imediatas da presença, do amor, da misericórdia de Deus, e que nele teve que lutar pela pureza de sua entrega, pela fidelidade a seu Deus. Para uma tradição, o deserto passou a ser inclusive um símbolo da relação mais pura, da frescura do primeiro amor entre Deus e Israel. Na medida, porém, em que Israel se fez sedentário, foi variando sua compreensão do deserto, e não viu nele senão algo terrível, cheio de ameaças e feras, onde ninguém podia viver. Deste modo, a meditação de sua própria história fê-lo perder a visão idílica de sua peregrinação pelo deserto, e apercebeu-se de que essa época esteve cheia de pecado, de ofensa a Deus, a tal ponto que em certo momento o deserto chegou a ser símbolo do juízo condenatório de Deus. Já se vislumbra nisto a oscilação na consideração do deserto como habitação privilegiada de Deus e como lugar de sua ausência, horrível, cheio de perigos e tentações. O Novo Testamento é igualmente devedor dessa dupla visão. É no deserto que São João Batista começa o anúncio do Reino de Deus, e para onde foge a Igreja perseguida do Apocalipse (12,5-6). É também a montanha solitária lugar preferido por Jesus para sua oração íntima. Mas o deserto é, além disso, morada do demônio, símbolo do obscuro e sem vida. Jesus é tentado no deserto e, segundo seu próprio ensinamento, esse é o lugar próprio dos demônios. Seja qual for a origem dessa dupla imagem do deserto, o essencial é que participa do paradoxo de tudo o que conforma a relação de Deus com o homem. Não há lugar, nem tempo, nem coisa, nem pessoa que goze da unidade que só é própria de Deus. Tudo está marcado com o signo da ambigüidade. Tudo pode ser sinal da presença de Deus, tudo pode ser também tentação para esquecê-lo. O deserto aparece então não sob a simplista concepção de uma fuga ou evasão do mundo, senão como aquela realidade de nosso mundo na qual, mais do que em nenhuma outra, se está com indefesa desnudez ante a única decisão que importa: por Deus ou contra ele. O deserto recorda ao homem sua pobreza e solidão essenciais, sem as quais não se pode compreender nem a riqueza da criação nem a graça que significa a comunidade e o serviço aos homens. É essa dupla visão caracterizada também pela "Vida". Santo Antão vai ao deserto, vai progressivamente em busca de maior solidão para poder se enfrentar com todas as incitações que pretendem envolvê-lo em sua complexidade, estorvando-lhe o caminho à recuperação de sua unidade. É o lugar de sua luta contra o demônio. À medida, porém, que seu progresso espiritual avança, o deserto se converte para ele em lugar privilegiado de seu encontro pessoal e místico com Deus. Esta é a finalidade verdadeira e última de toda austeridade, de toda vida ascética. Seria insensato crer que Santo Antão ou os monges esgotam sua vida na busca do demônio. Buscam primeiramente a Deus, mas sabem muito bem que esse caminho passa através de todas as ilusões demoníacas. As privações de todo tipo, a leitura e meditação da Palavra de Deus, a oração constante, são as armas para percorrer o caminho sem temer os perigos. Sua meta última é, porém, restaurar a imagem do homem tal como foi criado por Deus: dono, e não escravo do mundo, ao serviço do único Senhor do universo, e assinalar o estado último e definitivo, em que tudo é um, em que tudo é Sim e Amém.  
1.6. Texto da "Vida"
A "Vida de Santo Antão" foi escrita por Santo Atanásio em grego. Do texto grego se conhecem 165 manuscritos. Mais da metade deles se conservam na forma que receberam na compilação de Simeão Metafrasto, o hagiógrafo grego, em fins do século X. Este texto só teve até agora duas edições originais. A primeira foi feita por David Hoeschel em 1611; por este texto todo o século XVII conheceu a "Vida". Em 1698, os beneditinos da Congregação de São Mauro J. Loppin e B. de Montfaucon publicam a primeira edição crítica das obras de Santo Atanásio, a qual figura na Patrologia grega de Migne, t.26, col. 837-976. De fato, ambas as edições, salvo algumas variantes, continuam utilizando o texto metafrástico. Seria necessária uma edição crítica do texto grego. Do texto original há duas versões latinas e várias orientais. A versão latina mais conhecida é a devida ao presbítero Evágrio de Antioquia, que no ano 388 chegou a ser bispo de sua cidade; Evágrio era amigo de São Jerônimo, e dedicou sua tradução a Inocêncio, amigo comum de ambos, morto em 374. Esta versão é, pois, do tempo de Santo Atanásio, e deve ter sido feita pouco depois da publicação do original, o que demonstra sua ampla difusão e popularidade. Dom André Wilmart deu a conhecer em 1914 a existência de outra versão latina distinta, conservada num códice do Capítulo da Basílica de São Pedro, e publicou algumas partes. Gérard Garitte editou-a integralmente em 1939. Supõe-se hoje em dia, geralmente, que esta versão é também anterior à de Evágrio, mas a deste é que foi constantemente copiada e impressa. Aparece efetivamente na edição beneditina mencionada anteriormente, ao pé do texto grego, e é também a publicada por Migne, tanto na Patrologia grega como no vol. 73, col. 125-168, da Patrologia latina. Também existem versões coptas, árabes, etíopes, sírias, armênias e georgianas, algumas já editadas, outras entretanto inéditas.  
1.7. Nossa versão
Como já se explicou ao leitor no prólogo, o manuscrito original da tradução castelhana foi preparado sobre o texto latino de Evágrio de Antioquia. Dada a penúria de material patrístico em nossa região, só nos foi possível utilizar o volume da Patrologia grega por muito pouco tempo. De todo modo, revimos todo o manuscrito segundo esse texto. As variantes de Evágrio, que nos pareceram mais importantes, consignamo-las nas notas com a sigla: E. Foram-nos muito úteis as versões de René Draguet, Robert T. Meyer e Jean Bremond, assinaladas mais adiante na bibliografia. Desde já agradecemos todas as observações dos eruditos amigos sobre erros de tradução ou sugestões para sua melhor formulação. É este também o lugar para agradecer de todo o coração ao Pe. Elmar Boos, o.f.m. Cap. do Convento de São Francisco de Valdivia, por sua generosidade em obter para nossa biblioteca o "Patristic Greek Lexikon", de G.W.H. Lampe.  
1.8. Lacunas
Estamos muito conscientes de nossas insuficiências e lacunas. Em particular teríamos gostado de incluir a tradução das cartas e apoftegmas atribuídos a Santo Antão. Igualmente quiséramos ter podido incluir nesta "Introdução" uma resenha das traduções castelhanas da "Vida" e, sobretudo, uma exposição dos motivos mais salientes de sua doutrina espiritual. Mas, não só esta "Introdução" se teria estendido muito além do que já o foi, como também declaramos nossa incompetência neste ponto, maior ainda do que nos outros em que nos atrevemos a tocar.  
1.9. Bibliografia
Damos a lista das obras que mais nos serviram tanto para a redação desta Introdução, como para a preparação da tradução e das notas:
MIGNE, Patrologia grega, t. 26 (PG). 
MIGNE, Patrologia latina, t. 73 (PL). 
COLOMBAS, GARCIA M., El monacato primitivo, T. I BAC 351, Madrid, 1974, 376 p.
BREMOND, JEAN, Los Padres del Yermo. 
Prólogo de Henri Bremond. Aguilar, Madrid, s.a., 510 p. 
DRAGUET, RENE, Les Pères du Désert. Plon, Paris, 1949, 1 X - 333.
LAMPE, G.W.H., Patristic Greek Lexikon. Clarendon. Oxford, XLVII - 1568 p.
LORIE, L.T.H.A., Spiritual Terminology in the Latin Translation of the Vita Antonii (Latinitas Christianorum Primaeva XI). Dekker & van de Vegt, Nimega, 1955, XV - 180 p. 
MEYER, ROBERT T., The Life of Saint Anthony (Ancient Christian Writers, n. 10). 
The Newman Press, Westminster, Maryl., 1950, 130 p. 
Studia Anselmiana 38: Antonius Magnus Eremita. 
Cura BASILII STEIDLE OSB Herder, Roma, 1956, VIII - 306.

Fonte:
Padres do Deserto
Mosteiro da Virgem (Petrópolis-RJ)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Não a secularização da Igreja Católica

 

Estudo: Brasil cresce como 'exportador' de missionários cristãos
Quando os primeiros jesuítas chegaram ao Brasil, em 1549, comandados pelo padre Manuel da Nóbrega, o País era um vasto território a ser colonizado e catequizado.

 Mais de quatro séculos depois, o movimento de catequese vai hoje no sentido contrário: o Brasil se tornou um significativo "exportador" de missionários cristãos para o mundo, apontam estimativas de um recém-publicado estudo americano.

 E isso é parte de uma tendência de fortalecimento do cristianismo no sul do planeta, enquanto a Europa caminha para a secularização, explica o autor da pesquisa, professor Todd Jonhson, do Centro de Estudos do Cristianismo Global da Universidade Gordon-Conwell.

 Segundo cálculos de Johnson, havia no mundo cerca de 400 mil missionários cristãos em 2010, saídos de 230 países. Desses, 34 mil eram brasileiros - quantidade inferior apenas à dos evangelizadores americanos, que somavam 127 mil.

 O número de brasileiros é inédito, explica Johnson à BBC Brasil. Representa um aumento de 70% em relação ao ano 2000 (quando o país tinha cerca de 20 mil missionários no exterior) e tende a crescer. "A quantidade de missionários enviados pelo Sul global supera o declínio (do cristianismo) na Europa", diz o estudioso.

 "No caso da América Latina e do Brasil, isso se justifica por um senso maior de responsabilidade pelo mundo exterior, pela estabilidade econômica, por suas conexões de idioma com a África e por um desejo de oferecer uma evangelização que, diferentemente da praticada pelos EUA, não carrega o fardo de invasões".

 Johnson explica que o estudo inclui todos os grupos cristãos, de católicos romanos a protestantes, pentecostais e igrejas independentes. Ele ressalta que o número é uma "estimativa aproximada", já que muitos dos missionários não estão ligados a grandes congregações, e sim a pequenos grupos autônomos e difusos.

Vida em Moçambique
 Entre eles está a família de Marcos Teixeira, 36 anos, que desde 2007 atua como missionário em Moçambique pela Igreja Evangélica Congregacional de Bento Ribeiro (RJ).

 Ele contou à BBC Brasil que, nos últimos quatro anos, sua família construiu uma escola para crianças de três a cinco anos e uma escolinha de futebol para meninos de 9 a 17 anos. Eles também acompanham pacientes portadores de HIV.

 Sua rotina é contada no blog familiamatriju.blogspot.com (o nome é uma combinação de sílabas dos nomes dos integrantes da família, formada, além de Marcos, por sua mulher, Patrícia, 33 anos, e seus filhos Juliana, 8, e Carlos Eduardo, 1, nascido em Moçambique).

 Evangelizadores desde 2003, Marcos e Patricia dizem que anos antes já sentiam um "chamado" para ir à África, ao ouvir notícias sobre a guerra em Angola. Também já passaram por África do Sul e Bolívia. "Ainda não fomos a Angola, mas aprendemos a amar o povo moçambicano".

Passado colonizador
 O estilo missionário da família se insere no que Todd Johnson descreve como a principal mudança no cenário da evangelização: "antes, era uma ação que saía de um poder colonial rumo a uma colônia" - de Portugal ao Brasil, por exemplo. "Atualmente, quase toda a prática missionária não se encaixa mais nisso".

 Para Jorge Cláudio Ribeiro, professor do Departamento de Ciências da Religião da PUC-SP, as missões vão no rastro da própria imigração brasileira e latino-americana.

 "Muitos migrantes latinos mantêm o catolicismo nos EUA. Em geral, (os missionários) já buscam uma comunidade específica em que atuar. Vão atrás de uma freguesia", diz.

 Mesmo no atual período pós-colonial, ele opina que as missões ainda seguem sendo uma força política, que lança mão de "enviados" para evangelizar pessoas de outras religiões. "Além disso, é uma atividade econômica, uma fonte de emprego".

 Johnson também vê laços econômicos com a atividade missionária. "Pode ser uma atividade rentável para as igrejas que estimulam as doações e para os chamados 'grupos de prosperidade' (igrejas baseadas na Teologia da Prosperidade, movimento que prega o bem-estar material do homem)".

Dificuldades
 Para a família evangelizadora de Marcos Teixeira, porém, os recursos são escassos. "Sem (apoio) contínuo, vivemos com muitas dificuldades, tiramos sustento do que a igreja nos dá para viver em Moçambique. Muitas vezes tiramos das nossas compras para suprir as necessidades dos nossos programas, porque a maioria das crianças (atendidas) só se alimenta das refeições que oferecemos".

 As dificuldades também foram de adaptação no país do leste africano. "Quando chegamos a Moçambique, sofremos roubos, nossa casa era invadida constantemente. Deu vontade de desistir, mas sempre sentíamos Deus nos fortalecendo", disse Marcos por e-mail.

 Ele também se preocupa com o futuro da filha mais velha, Juliana, por achar a educação precária no país africano. Acha que ficará ali por mais dois anos, mas pensa em dar continuidade a seus projetos. "A maior alegria é deixar (pessoas locais) qualificadas para desempenhar o papel que a gente se propôs a desenvolver".

 Indo além do legado, Todd Johnson opina que os missionários cristãos em missão no exterior também devem respeitar lideranças locais. "Uma área potencial de conflito é o paternalismo, a ideia de que 'essas pessoas (locais) não são maturas o suficiente para liderar sua igreja'. É uma atitude similar ao colonialismo".

sábado, 25 de fevereiro de 2012

João Evangelista – Teólogo – A Águia do Céu - Para Estudo e Lectio Divina


João – como ele mesmo afirma – era “o discípulo que Jesus amava” de modo especial, sem dúvida por causa da missão extraordinária que lhe iria confiar, qual seja a de substituí-lo no amparo à Maria Santíssima.
O Apóstolo  predileto era discípulo de João Batista, quando este, vendo Jesus disse: “Eis o Cordeiro de Deus!” O Evangelista, junto com André, irmão de Pedro, seguiu imediatamente o Salvador.
Pouco depois, já formado o Colégio apostólico, João e seu irmão Tiago, juntamente com Pedro, foram os três mais achegados ao Mestre, e presenciaram a transfiguração no Tabor, a agonia mortal no Getsêmani e outros fatos de maior importância. Na Ultima Ceia, João reclinou a cabeça no peito de Jesus, como que haurindo então as idéias centrais de suas Epístolas e Evangelho; a divindade de Cristo, as maravilhas da graça e a caridade fraterna.
Quando os demais apóstolos abandonaram o Mestre no início da Grande da grande Jornada do sofrimento, João o acompanhou até o Calvário junto a Virgem Maria. E ele foi como testamento sublime que Jesus lhe confiou quando disse: “Eis a tua Mãe!” (Jo 19,7).
Ao anúncio da ressurreição, João correu com Pedro até o sepulcro. Depois, às margens do lago de Tiberíades, reconheceu a Jesus ressuscitado.
Pelo ao menos até o Concílio de apostólico de Jerusalém, João aí permaneceu. Juntamente com Pedro e Tiago, era considerado “coluna” da Igreja (Gál 2,9).
Antiga tradição refere que ele evangelizou a Ásia Menor, onde governou a Igreja de Éfeso, provavelmente logo depois de ter abandonado Jerusalém, durante a perseguição que vitimou o apóstolo Tiago (At 12, 1-3).
De fato, quando Paulo, por volta do ano 52, esteve na Cidade Santa, já não encontrou Pedro nem João.
Tertuliano, pelos fins do século II, nos diz que o apóstolo da caridade foi levado a Roma, onde o imperador Demociano o fez lançar numa caldeira de óleo fervente, da qual saiu ileso, sendo em seguida exilado para Patmos, pequena ilha de uns 40 km² no mar Egeu, onde escreveu o Apocalipse.
Sob o império de Nerva, que reinou após a morte de Domiciano, de 96 a 98, João regressou a Éfeso, onde escreveu as três Epístolas e o Evangelho. Aí mesmo faleceu quase centenário, entre os anos 98 e 100, encerrando-se então a Revelação Bíblica e a Era apostólica. Uma Igreja construída nas montanhas  perto de Éfeso, guarda os sagrados despojos do apóstolo.

Comentário:

O Quarto Evangelho supõe os Sínodos já bem conhecidos. O cristianismo estava muito espalhado e começavam a surgir algumas heresias. Contra a dos gnósticos é que João transcreve os discursos e provas com que o Messias atestava a própria divindade. No Dizer de São Jerônimo, “João provou, com fatos, que Jesus Cristo é verdadeiramente Deus”.
Realmente, o quarto Evangelho tem em mira complementar a narração dos sínodos , salientando as provas da divindade do Verbo que se fez carne e é a luz do mundo, luz que o mundo não quis receber. Daí os freqüentes debates entre Jesus e os fariseus, que o rejeitam.
Mas então, por que os sínodos quase nada relatam desses discursos de Cristo na Judéia, e suas discussões com os Judeus?
Por esta razão muito simples; porque não se relacionam diretamente com o escopo pelo qual os sinóticos escreveram, e porque estes narraram quase exclusivamente o ministério na Galiléia. Note-se ainda que foi muito breve o ministério em Jerusalém e na Judéia, onde se deram tais discursos e debates, quase sempre diante dos rabinos, que eram bons conhecedores da Sagrada Escritura. Comparem-se com o estilo da pregação ao povo mais simples da Galiléia.
Tudo João conservava vivo na memória e repetia sem cessar em suas alocuções aos fiéis da Ásia Menor.
Pela sua sublimidade especial, João mereceu dos Padres gregos o título de “Teólogo” e seu principal escrito era chamado o “Evangelho espiritual”.
Apesar da diferença considerável entre os sinóticos e o quarto evangelho, a figura de Cristo mostra-se perfeitamente igual nos quatro; humano, misericordioso e ao mesmo tempo firme e claro em sua afirmações e atitudes.
Um exame até superficial do texto demonstra claramente que o “discípulo que Jesus amava” é mesmo João, que com Pedro e Tiago formavam o trio mais próximo do Redentor, no grupo dos doze.
Recentes descobertas comprovam a historicidade do quarto Evangelho e a exatidão das particularidades aí referidas: o poço de Jacó em Sicar (Jo 4,5), os cinco pórticos da piscina de Betésda (Jo 5,2), e o estrado lageado Litóstrotos ou Gábata (Jo 19,13). O autor insiste em afirmar que presenciou o que descreve (Jo 1,14; 19,35); esses e vários outros pormenores sobre lugares e costumes da Palestina o demonstram.
Diversas passagens desse livro santo já se encontram nos Padres apostólicos em inícios do segundo século.
A seguir, Polícrates, Irineu, Justino, Teófilo de Antioquia, e o famoso fragmento  ou Cânon muratoriano são alguns nomes que fazem referência expressa ao mesmo Evangelho de João.
Papias, por exemplo, entre os anos de 110 a 130, lembra que desde a mocidade procurava interrogar os discípulos diretos dos apóstolos sobre o que estes haviam ensinado. E escreveu, no seu livro Esclarecimentos: “O Evangelho de João foi publicado e comunicado às Igrejas pelo próprio João ainda em vida”.
Após o sublime prólogo (Jo 1, 1-18), que mereceu para o apóstolo o apelido de “Águia do Céu”, o quarto evangelho pode dividir-se em quatro partes, além dos dois epílogos ( Jo 20, 30-31e 21, 24-25):

                                                  I Parte: Manifestação de Jesus (Jo 1,19 –*21 )
                                                 II Parte: Pregação de Jesus e oposição dos Ju-
                                                    deos (Jo 5-12).    
                                                III Parte: Discursos e oração na Última Ceia
                                                   (Jo 13--17).
                                                 IV Parte: Paixão, morte e ressurreição de Jesus
                                                   (Jo 18—*21).
                                      
(o asterisco (*) faz referência a capítulos integrais).
  

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Estudo dos Anjos - Angeologia

 

Há, no mundo, muitas crenças sobre os anjos. Há antigas lendas que influenciam a crença de muitos ao redor do mundo. A existência dos anjos é verdadeira mas não da forma como todos dizem. Queremos ver o que diz a Bíblia sobre a sua existência e obra. Se não existissem os anjos, muitos versículos da Bíblia ficariam sem explicação.

Seres Criados

Os anjos não são eternos como Deus mas foram criados por Deus (Sal 148:2,5; Col 1:16). Mesmo que a Bíblia mostrando que os anjos foram criados por Deus, a Bíblia não é tão clara sobre quando foram criados. Alguns usam Jó 38:7 para dizer que os anjos foram criados assim que a terra foi feita outros determinam Gênesis 1:1, na sua referência aos “céus” para incluir os anjos. Podem dizer o quiserem pois tudo não passa de opiniões. Somente é seguro dizer que até o fim da criação (Gên. 2:1) os anjos foram criados (Êx. 20:11; Ne. 9:6).

Seres Espirituais e Incorpóreos

Os anjos não têm carne (Luc 24:39), não se casam (Mat. 22:30, portanto, não há sexo), são seres espirituais, sem matéria (I Sam 16:14; Mat. 8:16; 12:45; Luc 7:21; 8:2,32,33; 11:26; Atos 19:12; Efés 6:12; Heb 1:14). A sua qualidade de espírito e incorpóreo se vê por poderem estar presentes em pouco espaço (Mat. 12:45; Luc 8:2,30) e serem invisíveis (Col 1:16). Mesmo os anjos podendo aparecer em forma de homem (Atos 1:10) são espíritos (Heb 1:14) e tomam a forma de homem para nos ajudar. O homem está em um grau inferior aos anjos (Heb 2:7)
Alguns símbolos são usados, dentro da Bíblia, para apresentar os anjos tais como: “vento” (Salmos 104:4) ou “fogo abrasador” Heb 1:7) mas, também são citados como sendo espíritos (Mat. 22:30) e presentes na igreja, com atuações específicas (I Cor 11:10).
Pelo fato de terem sidos criados, os anjos são finitos, têm em começo, são limitados e não têm apetites e desejos carnais. Mesmo sendo espíritos e incorpóreos, não são onipresentes. Essa é uma qualidade reservada somente para Deus.

Seres Racionais, Morais e Imortais
Racionais

Os anjos têm uma inteligência nata e não adquirida (Boyce). A inteligência dos anjos é superior a dos homens (II Sam 14:20). Através da igreja Deus ensina a “multiforme sabedoria de Deus” que é conhecida pelos “principados e potestades nos céus”, uma clara referência aos anjos (Efés 3:10). Mesmo os anjos conhecendo tanto, não são oniscientes (Mat. 24:36; I Ped 1:12).
Que anjos possuem vontade é claramente anunciado (I Pedro 1:12) pois anelam investigar aquilo que não são capazes de entender. A obra da salvação é melhor entendida pelo pecador salvo. A glória da salvação não é conhecida pelos descrentes (I Cor 1:23; 2:14) e nem pelos anjos sejam eles bons ou maus.
II Ped 2:11 mostra que os anjos decidem por não fazer uma ação e essa decisão revela que eles são seres racionais.

Morais

A natureza moral dos anjos pode ser vista através do princípio em eles são abençoados se obedecem ou castigados se desobedecem. Tal tratamento indica tanto a capacidade quanto a responsabilidade. Os anjos que obedecem são chamados anjos santos (Mat. 25:31; Mar 8:38; Luc 8:26; Atos 10:22; Apoc 14:10), anjos eleitos (I Tim 5:21) ou anjos de luz (II Cor 11:14). Os anjos 

Imortais

A qualidade de ser imortal pode ser vista através da afirmação de Jesus (Luc 20:35,36). Os anjos bons e os maus têm existência contínua. Os bons permanecem sob o favor de Deus e os maus recebem o castigo pela eternidade.
O fato de os anjos terem grande poder (Sal 103:20; Col 1:16; Efés 1:21; 3:10; Heb 1:14) também revela as suas qualidades de inteligência, vontade e moral. O poder que eles possuem deve ser exercitado na medida do querer de Deus. Esse controle indica inteligência, vontade e moral.

Condição Original

De tudo que a Bíblia mostra sobre o assunto somente podemos concluir que a condição original dos anjos é boa (Gên. 1:31, “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom”). Judas ensina que os anjos maus “não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação” (Judas 1:6) dando-nos a entender que no princípio, estavam na própria habitação, junto dos bons em obediência. Aqueles que caíram, pecaram (II Ped 2:4).
Por Deus ser o Criador, e absolutamente santo (Gên. 18:25; Hab. 1:13), a Sua criação também não teria pecado (Bancroft, p. 286).

Número dos Anjos

A Bíblia nunca dá um número exato de anjos, mas isso não quer dizer que há um pequeno número. Varias vezes a Bíblia dá-nos razão dizer que o número é enorme.
• Deut 33:2 - dez milhares de santos
• Sal 68:17 - vinte milhares, milhares de milhares
• Mar 5:9,15 - muitos
• Mat. 26:53 - doze legiões (cada legião é composta entre 3.000 - 6.000, Berkhof)
• Heb 12:22 - muitos milhares
• Apoc 5:11 - milhões de milhões, e milhares de milhares (Dan 7:10)

Apoc 12:4 relata que a terça parte das “estrelas do céu” foi lançada para a terra. Há os que dizem que isso refere-se aos anjos que caíram, o império Romano ou até os pastores que não ficaram fieis no ministério (Gill). Se esse fosse o número de anjos maus que caíram, para cada anjo mau, há dois anjos bons. Isso é confortante mesmo que não queremos duvidar da suficiência da onipotência de Deus.
Qualquer que seja o número de anjos, eles não são criados instantemente. O número atual de anjos não aumenta (Berkhof).

A Ordem dos Anjos Bons

Existe uma organização entre os anjos. Satanás é chamado o pai (João 8:44) e Miguel é chamado por arcanjo (Judas 1:9) que mostra claramente a existência de ordem entre eles. Os anjos bons são chamados “filhos de Deus” por terem uma origem divina. Os anjos maus têm o nome de: anjos do diabo (Mat. 25:41; Apoc 12:7) mostrando a existência de uma ordem entre eles.

Nomes Diferentes  

São usados vários nomes que nos levam a distinguir ordens angélicas. As obras, o relacionamento com Deus ou os atributos dos anjos podem ser vistos pelos nomes atribuídos a eles: “Filhos de Deus” (Jó 1:6; 2:1; Sal 29:1; 86:6), deuses ou anjos de Deus (Sal 97:7; 138:1; Heb 1:6), seus exércitos (Sal 103:21), servos (Jó 4:18),espíritos (Heb 1:14), santos (Jó 15:15; Sal 89:5,7; Zac 14:5; Dan 8:13), vigias (Dan 4:13, 17) e vários outros nomes em Col 1:16; Efés 1:21 dos quais podemos citar o Sr. E. C. Dargan:
“tronos .... sendo o mais elevado, próximo a Deus e assim chamados, tanto por estarem perto de Deus e sustentarem o trono de Deus como por sentarem eles mesmos sobre tronos aproximando-se mais perto de Deus em glória e dignidade; depois “domínios”, ou senhorios, aqueles que exercem poder ou senhorio sobre os inferiores ou homens; depois “principalidades”, ou “principados”, os de dignidade principesca; finalmente, “potestades”, ou autoridades, aqueles que exercem poder ou autoridade sobre a ordem angélica mais baixa, logo acima do homem.” (citado por T. P. Simmons, p. 135,136).
Os anjos citados em Col 1;16 e Efés 1:21 não são os tipos mas de graus ou dignidades diferentes (Berkhof).


Querubins e Serafins

Os querubins mencionados em Gên. 3:24, estão guardando a entrada ao Paraíso, Êx. 25:18, estão olhando ao propiciatório (Sal 80:1; 99:1; Isa 37:16; Heb 9:5). Eles constituem o carro pelo qual Deus desce ao mundo (II Reis 2:11; Sal 18:10) e são representados pelos seres vivos para mostrar poder e majestade (Ezequiel 1 e Apoc 4, entre outros). Mais do que outras criaturas os querubins revelam o poder, a majestade e a gloria de Deus, guardando a sua santidade no jardim, tabernáculo, templo e na sua descida à terra (Berkhof).
Os serafins só estão citados em Isa 6:2,6 como servos ao redor do trono de Deus. Cantam louvores e estão de prontidão para fazer o que o SENHOR mandar. Talvez a sua obra seja preparar aqueles que querem aproximar-se apropriadamente de Deus (Berkhof).
Sobre os querubins e serafins E. C. Dargan ensina que não são “como seres atuais senão como aparências simbólicas ilustrando verdades da atividade e do governo divino.” (Simmons, p. 136).

Miguel e Gabriel

O anjo Miguel e o anjo Gabriel são os únicos anjos mencionados pelo nome.
Miguel é mencionado em Dan 10:9-13; 10:21; 12:1; Judas 1:9; e Apoc 12:7-9. A sua posição é tida como sendo ‘arcanjo’ (Judas 1:9) e “um dos primeiros príncipes” (Dan 10:13). Parece ser um guerreiro valente que batalha por Jeová.
Gabriel é usado em Daniel 8:16; 9:21 e Luc 1:19,26. Gabriel disse: “assisto diante de Deus” (Luc 1:19). Há sete anjos que “estavam diante de Deus” e há a especulação de que Gabriel seja um destes. O seu trabalho é mediar e interpretar revelações divinas (Dan 8:16). Foi Gabriel que profetizou o nascimento de João Batista (Luc 1:5-19) e de Cristo (Luc 1:26-37).

Anjos de Guarda

Apesar de a tradição e os historiadores gostarem da idéia de um anjo, ou dois (um bom e o outro mau), designados a cada homem, ou pelo menos aos eleitos, a Bíblia não dá credito pleno e claro a essa idéia. Deus é quem cuida dos Seus pela Sua presença e poder. Um anjo seria muito inferior à essa presença divina. A doutrina que supõem um anjo de guarda alimenta uma pratica de adoração aos anjos. Note que havia mais de um anjo nestes casos: Gên. 28:12; II Reis 6:16,17; Mat. 4:11; Luc 16:22. 4

O Serviço dos Anjos Bons
Serviço Usual

O serviço usual deve ser entendido como a ocupação geral dos anjos bons. Eles têm o privilégio de louvar a Deus dia e noite (Sal 103:20; 148:2; Isa 6:1-6; Apoc 5:11). Heb 1:14 revela que a sua obra inclui o ministério aos herdeiros da salvação; alegria na conversão dos herdeiros (Luc 15:10), estão atualmente protegendo os herdeiros (Sal 34:7; 91:11) e, especialmente, os pequeninos (Mat. 18:10). Os anjos estão presentes na igreja (I Cor 11:10; I Tim 5:21) até mesmo conhecendo através dos cultos, sobre a multiforme sabedoria de Deus (Efés 3:10; I Ped 1:12). Esses anjos transportam os salvos para o “seio de Abraão” (Luc 16:22).

Serviço Temporário

Os anjos trabalham durante tempos de transição especiais (patriarcas, a entrega da Lei, a era da conquista da terra prometida, durante o exílio e a restauração do povo de Deus à sua terra e o nascimento, ressurreição e ascensão do Senhor Jesus Cristo) e em resposta à queda dos homens no pecado. Quando terminou o período da revelação divina especial cessou o serviço temporário de intermediários dessas revelações, comunicar as bênçãos ao povo de Deus e executar o Seu juízo sobre os Seus inimigos. Esse serviço só se reiniciará na volta corpórea de Cristo (Berkhof, p. 148). Os versículos que mostram esse serviço sendo feito são: II Sam 24:16,17; II Reis 19:35; I Cron. 21:15,16; II Cron. 32:21; Atos 12:23.

A Ordem dos Anjos Maus e Suas Obras
Anjos Maus

Os anjos maus começaram como anjos bons e deixaram a sua habitação (Judas 1:6; II Ped 2:4). Eles se opõem a Deus e colocam barreiras diante da Sua obra obedecendo a vontade de Satanás (Dan 10:10-14; Zac 3:1; Luc 22:31). Eles afligem o povo de Deus (Mat. 17:15-18; Luc 13:16; II Cor 12:7), atuam como empecilhos diante do povo de Deus (Efés 6:11,12; I Tess 2:18) e procuram enganar os eleitos (II Cor 11:13,14; Mat. 24:24).

Espíritos ou Demônios

Os espíritos maus ou os demônios (considerados por muitos termos sinônimos e um tipo de anjo mau, Mat. 9:34; 12:24; 25:41 - Bancroft; Cloud) são distintamente diferentes pois têm trabalhos separados dos anjos maus (Atos 23:8,9, “nem anjo nem espírito ... uma e outra coisa”). Fazem um trabalho mais pessoal, sujo e violento do que os anjos maus em geral. Têm a prática de habitar nos corpos (Mat. 4:24; 8:16, 28-34; 12:43; Atos 8:6,7; 16:16) e nos ídolos dos descrentes (Lev 17:7; Deut 32:17; I Cor 10:20). Adivinhação e astrologia têm como objetos de adoração aos demônios (Deut 18:10-12; II Crôn 33:6; Atos 16:16-18; 19:13-19). Em comparação aos anjos maus, os demônios são mais impuros (Mat. 12:43-45; Mar 5:8; Luc 4:33-36) e violentos (Mat. 8:28; Mar 9:18,22; Luc 9:39; Apoc 16:14). Note que há um grau de impureza entre eles (Mat. 12:43-45). Há muitas doenças afligidas pelos espíritos maus (físicas: mudez - Mat. 9:32,33; cegueira - Mat. 12:22; doença esquelética - Luc 13:11-13 e mentais: nudez, loucura - Luc 8:26-35; Marcos 9:18, 22).
Os espíritos ou demônios não têm outro fim, revelado pelas Escrituras, a não ser igual aos anjos maus que estão entregues “às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo” (II Ped 2:4; Judas 1:6). As ‘cadeias’ não os limitam a um lugar mas sim à uma condição (escuridão e condenação) (Berkhof, p.149). O lugar será o lago de fogo (Mat. 25:41; Apoc 20:10).
Pela adivinhação e astrologia é praticada a abominação diante do Senhor. Deus quer receber toda a glória. Os que praticam essas abominações não estão buscando ao Senhor e sim aos demônios (Deut 18:10-12; Atos 16:16-18, “espírito de adivinhação”; 19:13-19; II Cron. 33:6)

Satanás

Satanás é o líder de todos os anjos maus sendo chamado o seu pai (João 8:44), o seu príncipe (Mat. 9:34; Efés 2:2) . Sua principal obra é opor-se a Deus (Isa 14:13,14; Atos 13:10). Ele ataca ao homem por que o homem é o principal objeto das suas obras (Gên. 1:26). As Escrituras o apontam como aquele que originou o pecado (Gên. 3:1-3; Ezequiel 28:15; João 8:44; II Cor 11:3; I João 3:8; Apoc 12:9; 20:10) e o deus de toda a impureza (João 12:31; II Cor 4:4) mostrando não a sua soberania mas o controle sobre tudo o que Deus entregou na sua mão. Satanás é de grande poder mas não onipotente, tem influência mas não é soberano (Mat. 10:28; 12:29; Apoc 20:2). O destino de Satanás é o lago de fogo (Mat. 25:41; Apoc 20:10) (Berkhof).

A Nossa Atitude diante dos Anjos Bons e Maus

Deus é o único digno de honra e glória e deve ficar claro que nenhum anjo bom ou mau deve ser servido, adorado ou temido como Deus (Rom. 11:36; Apoc 4:11; 22:8,9). Mesmo o crente, filho de Deus, por estar em Jesus Cristo, tendo uma posição acima dos espíritos maus (Efés 6:16; Heb 2:14; I João 4:4) não é recomendado entrar em contenda com qualquer ser bom ou mal (II Tim 2:24; Judas 1:9), mas os resistir aproximando-se de Deus (Tiago 4:7) sendo firme na fé (I Ped 5:9). A vitória se dá pela força de Cristo (Fil. 4:13) e não da carne (Efés 6:10-18). Há necessidade de sermos submissos ao Senhor para termos a vitoria e é razão suficiente para que não sermos auto confiantes em nossos relacionamentos com as forças do mal. Uma vida morta às concupisciências da carne e ativa em obediência à Palavra de Deus, é a melhor defesa para não cair nos laços do diabo (Efés 6:12-18; I Tim 1:18,19).
Satanás é ativo e os seus anjos estão sempre prontos para lhe obedecer, daí o crente ser instruído a ser vigilante e obediente à Palavra de Deus (I Ped 5:8; II Cor 2:10, 11) nunca dando a mínima oportunidade a Satanás (Efés 4:27). Enche o seu ser com as meditações de Cristo, a Palavra de Deus, e não precisará se preocupar com as concupisciências da carne (Gal 5:16). Assim será sempre pronto a ter a vitória nas lutas que venham (Tiago 4:7,8)

Bibliografia

BANCROFT, Emery H., DD. Christian Theology, Systematic and Biblical, Zondervan Publishing House, Grand Rapids, 1971.
BERKHOF, L, Systematic Theology, Wm E. Eerdmans Publishing Co., Grand Rapids, 1972.
Bíblia Sagrada, Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, São Paulo, 1/94.
BOYCE, James Pettigru, DD, LL.D. Abstract of Systematic Theology, Christian Gospel Foundation, sd
CLOUD, D. W. Way of Life Encyclopedia of the Bible and Christianity, Ver. 2.0, Topic: Devils; Way of Life Literature, Washington, sd.
GILL, John. Commentary on the Whole Bible, Online Bible, Ver. 7.0, Canada, 1997,
GOETZ, David. The Doctrine of Angels, Kirksville, sd.
SIMMONS, Thomas Paul, D.Th. Um Estudo Sistemático de Doutrina Bíblica, Challenge Press, Little Rock, 1985.