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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Natal

 
Natal
O Natal está às portas, com as características de inevitabilidade e, ao mesmo tempo, imprevisibilidade. Com certeza, será o que Deus dele para nós quer: é graça e oferta, proposta e dom; dependerá, também, do que a gente com ele fizer: é tarefa e acolhida, resposta e missão.
Notáveis, a mistagogia espiritual, o itinerário vivencial e a pedagogia existencial que a liturgia natalina nos propõe... Os textos bíblicos da encarnação exemplificam a mais genuína “inculturação”: para os judeus, representados pelos pastores, a proclamação é feita por anjos, como ao judaísmo vai bem; para os pagãos, representados pelos magos, o anúncio é feito pela estrela, como à gentilidade convém. Uns e outros, apesar da noite escura e da vida dura ou apesar do Herodes cruel e da Jerusalém infiel, chegam a Belém e encontram “o Menino, com Maria, sua mãe” (Mt 2,10).
“Gloria Dei vivens homo” (Irineu, Adversus Haereses, IV. xx. 7), interpretou bem Irineu. Deus é glorificado quando o humano está realizado e com ele todo o universo sintonizado. Por isso, anjos e homens, judeus e pagãos, pobres e ricos, animais e plantas, estrelas e minerais, todos são incluídos na sinfonia cósmica da libertação que já é salvação. Nem é necessária muita fantasia para daí desbordar as consequências teológicas e antropológicas, sociológicas e ecológicas, políticas e éticas do nosso testemunho religioso e ministério presbiteral, para glória de Deus, em favor dos filhos e filhas seus.


“Do que serviria a vida se não fosse para corrigir os erros, vencer os preconceitos e a cada dia alegrar nosso coração e nossos pensamentos.” Romam Roland

Que neste Natal, o menino Jesus possa nascer no coração de cada ser humano, trazendo Paz, Saúde, Fé, Esperança e Caridade.
Um Santo Natal a todos!


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Sobre a mortificação

                                                                                       

 

Trazemos aos caros leitores ao longo dessa semana um longo texto de Adolph Tanquerey sobre um tema importante e pouco meditado muitas vezes por católicos. Tema tão importante que podemos dizer que refletiu a vida dos videntes de Fátima e o pedido da Virgem em suas mensagens em tal aparição: mortificação. O texto, por ser bastante longo, será postado em partes, diariamente. Esperamos ser de grande ajuda para melhor entendimento do sofrimento que todos passamos em conta de pecados cometidos, e como voluntariamente podemos oferecer pequenos sacrifícios dia a dia por nossas culpas e também pela salvação dos pecadores. 

Mortificação

A Mortificação contribui, com a penitência, para purificar das faltas passadas; mas o seu fim principal é premunir-nos contra as do presente e do futuro, diminuindo o amor do prazer, fonte dos nossos pecados.

O corpo chagado de Jesus é um autêntico retábulo de dores... Por contraste, vêm à memória tanto comodismo, tanto capricho, tanta negligência, tanta mesquinhez... E essa falsa compaixão com que trato a minha carne. Senhor!, pela Tua Paixão e pela Tua Cruz, dá-me forças para viver a mortificação dos sentidos e arrancar tudo o que me afaste de Ti. (Via Sacra)

I. Natureza da Mortificação 
Expressões bíblicas: para designar a mortificação. Encontramos sete expressões principais nos Livros Santos, para designar a mortificação sob os seus diversos aspectos.
1 - A palavra renúncia: «qui non renuntiat omnibus quae possidet non potest meus esse discipulus» apresenta-nos a mortificação como um ato de desprendimento dos bens exteriores, para seguirmos a Cristo. Assim fizeram os Apóstolos:«relictis omnibus, secuti sunt eum» 

2 - É também uma abnegação ou renúncia a si mesmo: «Si quis vuli post me venire, abneget semetipsum» E na verdade, o mais terrível dos nossos inimigos é o amor próprio desordenado; eis o motivo por que é forçoso desapegar-nos de nós mesmos.

3 - Mas a mortificação tem um lado positivo: é um ato que fere e atrofia as más tendências da natureza: «Mortifica te ergo membra vestra .. Si autem Spiritu facta carnis mortíficaveritis, vivetis » 

4 - Mais ainda é uma crucificação da carne e das suas concupiscências, pela qual cravamos, por assim dizer, as nossas faculdades à lei evangélica aplicando-as à oração, ao trabalho: «Qui sunt Christ, carnem suam crucifixerunt cum vitiis et concupiscentiis»

5 - Esta crucifixão, quando persevera, produz uma espécie de morte e de en terramento, pelo qual parecemos morrer completamente a nós mesmos e sepultar-nos com Jesus Cristo, para vivermos com Ele uma vida nova «Mortui enim estis vos et vita vestra est abscondita cum Cristo in Deo … Consepulti enim sumus cum illo per baptismum in mortem» .

6 - Para exprimir esta morte espiritual. São Paulo serve-se doutra expressão: como, depois do batismo, há em nós dois homens, o homem velho que fica, ou a tríplice concupiscência, e o homem novo ou o homem regenerado, declara o Apóstolo que é nosso dever «despojar-nos do homem velho, para nos revestirmos do novo: expoliantes vos veterem hominem ... et induentes novum» .

7 - E, como isto se não faz sem combater, declara ainda que a vida é combate «bonum certamen celta vi», que os cristãos são lutadores ou atletas que castigam o seu corpo e reduzem a servidão.

De todas estras expressões e outras análogas, resulta que a mortificação compreende um duplo elemento: um negativo, o desprendimento, a renúncia, o despojamento; e outro positivo, a luta contra as más tendências, o esforço para as mortificar ou atrofiar, a crucificação, a morte da carne, do homem velho e das concupiscências, a fim de vivermos da vida de Cristo.
Expressões modernas: Hoje vai-se preferindo o uso de expressões mitigadas, que indicam o  fim que se pretende atingir, antes que o esforço que para isso se tem de empregar. Diz-se que é mister reformar-se a si mesmo, governar-se a si mesmo, fazer a educação da vontade, orientar a sua alma para Deus. Estas expressões são exatas, contanto que se saiba mostrar que ninguém pode reformar-se e governar-se a si mesmo, sem combater e mortificar as más tendências que em nós existem; que não se faz a educação da vontade, senão mortificando, disciplinando as faculdades inferiores, e que não há possibilidade de alguém se orientar para Deus se não desapegando-se das criaturas e despojando-se dos próprios vícios. Por outros termos, é necessário saber, como faz a Sagrada Escritura, reunir os dois aspectos da mortificação, mostrar o fim, para consolar, mas não dissimular o esforço necessário para o atingir.

Definição: Pode-se, pois, definir a mortificação: a luta contra as más inclinações, para as submeter à vontade, e esta a Deus. É menos virtude que um complexo de virtudes, o primeiro grau de todas as virtudes, que consiste em vencer os obstáculos, no intuito de restabelecer o equilíbrio das faculdades, a sua ordem hierárquica. Assim se vê mehor que a mortificação não é um fim, senão um meio; o homem não se mortifica senão para viver uma vida superior, não se despoja dos bens exteriores senão para melhor conseguir os bens espirituais, não se renuncia a si mesmo senão para possuir a Deus, não luta senão para gozar .,. paz, não morre a si mesmo senão para viver da vida de Cristo, da vida de Deus. A união com Deus, é, pois, o fim da motificação. Assim, melhor se compreende a sua necessidade. 



A oração de arrependimento

A oração de arrependimento é uma das orações mais apreciadas pela Igreja, e também uma das mais frequentes, ao longo de toda a liturgia da Quaresma: “Misericórdia, Senhor, porque pecámos” (4ª Feira de Cinzas); “Escuta, Senhor, e tem piedade de mim” (6ª Feira de Cinzas); “Tem piedade de mim e escuta a minha oração” (4ª Feira da 1ª semana da Quaresma); “Senhor, não nos trates na medida dos nossos pecados” (2ª Feira da 2ª semana da Quaresma).

Na Sagrada Escritura, os salmos de arrependimento e de perdão são mais abundantes do que os salmos de louvor (24 de arrependimento para 17 de louvor) e encerram belas súplicas do pecador ou do povo arrependido diante de Deus: “Não recordes os meus pecados de juventude e os meus delitos. Lembra-te de mim, Senhor, pelo teu amor e pela tua bondade”(Sl 25,7); “Levanta-te, Senhor, tem piedade de Sião; já é tempo de lhe perdoares” (Sl 102, 14).

A oração de arrependimento é muito importante aos olhos de Deus e não é exclusiva da Quaresma. Trata-se de uma oração para todos os dias do ano. Na verdade, a oração de arrependimento e de perdão deveria ser a primeira a fazer sempre que nos apresentamos, como pecadores que somos, diante de Deus três vezes santo.

Sobre este assunto, o Catecismo da Igreja Católica (CIC) diz-nos o seguinte: “O pedido de perdão é o primeiro movimento da oração de petição. Lembremos as palavras do publicano: “Tem compaixão de mim que sou pecador” (Lc 18,13). É o começo de uma oração limpa e pura. A humildade confiante repõe-nos na luz da comunhão com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo, bem como dos homens uns com os outros” (CIC 2631). A oração do fariseu não agrada a Deus porque está vazia de qualquer insinuação de arrependimento ou de perdão. Pelo contrário, Deus escuta de imediato a oração daquele que, arrependido, se humilha diante d’Ele.

Os monges da Igreja Oriental Ortodoxa privilegiam a oração que brota do arrependimento sobre todas as outras. A recitação da oração da “filocalia” é contínua entre eles: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, tende piedade de mim, que sou pecador”. São Siluão de Athos dizia que “a oração que fazemos unicamente por rotina, sem termos o coração arrependido dos nossos pecados, não é aceitável por Deus” . Inversamente, e conforme diz S. João de Cárpatos, quando na oração invocamos o nome de Jesus e dizemos: “Tem piedade de mim que sou pecador”, a voz do Senhor responde-nos em segredo: “Filho, os teus pecados são-te perdoados”.

A oração de arrependimento tem que brotar do mais profundo do coração e não dos lábios. Basta que nos reconheçamos pecadores no íntimo do nosso ser e logo Jesus nos está a perdoar. Cristo disse à pecadora pública que, em casa de Simão, Lhe cobriu os pés de beijos e, em silêncio, os banhou com as suas lágrimas e os ungiu com perfumes: “Os teus pecados estão perdoados” (Lc 7, 48). Mas Jesus também gosta de escutar dos nossos lábios as mesmas palavras que escutou de Bartimeu, o cego de Jericó; “Jesus, tem compaixão de mim” (Mc 10, 47).

Na Eucaristia, a Igreja utiliza com frequência a oração de arrependimento. No início costumamos dizer: “Confesso...que pequei muitas vezes por pensamentos, palavras e obras por minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa”. Ou podemos dizer: “Senhor, tem misericórdia de nós porque pecámos contra Ti.” Ou apenas : “ Senhor, tem piedade. Cristo, tem piedade.”

Ao rezarmos o Pai Nosso, repetimos: “Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Não há verdadeira oração de arrependimento se não perdoarmos aos nossos inimigos, cujos pecados, misteriosa e eclesialmente, também são nossos. Talvez esta seja uma das razões por que as orações de arrependimento na Missa se dizem no plural: “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.”

Às vezes existem almas que, pela grande confiança que têm no perdão de Deus ou pela provável inocência das suas vidas, evitam a oração tão eclesial de arrependimento. Todavia, esta oração, por múltiplas razões, continua a ser útil e necessária para todos. O facto de nos aproximarmos de Deus com a humildade do pecador e com fé na Sua misericórdia torna-nos agradáveis a Deus, que exalta os humildes.

Todos necessitamos desta súplica de perdão porque todos pecámos e fomos privados da glória de Deus (Rm 3, 23). Segundo S. João na sua primeira carta, se dizemos “não pecámos”, estamos a mentir a Deus (1 Jn 1, 10), que em Jesus nos redimiu das nossas faltas: “ Não chames a contas o Teu servo pois ninguém é justo na Tua presença” (Sl 143/142, 2).

Por solidariedade espiritual, humana e eclesial, temos de começar a nossa oração pedindo, no plural, o perdão dos pecados inumeráveis dos homens de todos os tempos, para que Deus nos perdoe e a nossa oração Lhe seja agradável: “Dos meus olhos correm rios de água porque a tua lei já não é cumprida” (Salmo 119/118, 136).

O Espírito Santo tem como tarefa convencer o mundo no que diz respeito ao pecado da sua falta de fé e de amor (cf. Jo 16, 8-9) e “dar ao coração do homem a graça do arrependimento e do perdão” (CIC 1433). De certa maneira solidária, o pecado daquele que não se quer arrepender é meu e, portanto, eu posso arrepender-me, unido a ele, dos “nossos pecados”. E “o mínimo que ele pode fazer é arrepender-se comigo visto que nos tornámos um só “(Jean Lafrance).

A maravilhosa oração de arrependimento não é própria apenas do tempo da Quaresma; é própria de todos os tempos e de todas as horas. A oração de perdão não é boa apenas para os pecadores (todos o somos!). É perfeitamente apropriada para os justos, que pedem perdão a Deus pelos pecadores, que são um só com eles. “Senhor Jesus, tem piedade de mim que sou pecador”. Amen.

Pe. Ceferino Santos, S.J.
in: nº 73 de “Nuevo Pentecostés”;