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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

E Você Jovem, já Pensou em ser um Monge?

O que é ser um Monge?

O monge é um homem chamado pelo Espírito Santo a renunciar aos cuidados, desejos e ambições dos outros homens para dedicar toda a sua vida à procura de Deus. O conceito é conhecido. A realidade significada pelo conceito é um mistério. Pois, concretamente, ninguém na terra sabe com precisão o que seja "buscar a Deus" enquanto não se tiver posto em marcha para achá-LO. Homem algum pode dizer a outro em que consiste essa procura, se esse outro não for, ao mesmo tempo, iluminado pelo Espírito que fala em seu coração. Em suma, ninguém pode procurar a Deus a não ser que já tenha começado a encontrá-LO. Ninguém pode encontrar Deus sem que primeiro Deus o tenha encontrado. O monge é o homem que procura Deus porque por Ele foi achado.

Em resumo, um monge é um "homem de Deus".

Uma vez que todos os homens foram criados por Deus para que o pudessem encontrar, todos são, de certo modo, chamados a ser "homens de Deus". Mas nem todos são chamados a ser monges. Um monge, portanto, é alguém chamado a se dar exclusiva e perfeitamente ao único necessário a todos os homens - a busca de Deus. A outros é-lhes permitido procurar a Deus por caminho menos direto, levar no mundo uma vida digna, fundar um lar cristão. O monge põe essas coisas de lado, embora possam ser boas. Dirige-se a Deus pelo atalho direto, "recto trámite". Retira-se do "mundo". Entrega-se inteiramente à oração, à meditação, ao estudo, ao trabalho, à penitência, sob o olhar de Deus. A vocação do monge se distingue até das outras vocações religiosas, pelo fato de que ele se dedica essencial e exclusivamente à busca de Deus, em lugar da busca das almas para Deus.
Encaremos o fato de que a vocação monástica tem tendência a se apresentar ao mundo moderno como um problema e um escândalo.

Numa cultura basicamente religiosa, como a da Índia ou a do Japão, o monge é, por assim dizer, coisa normal. Quando a sociedade inteira está orientada para além da busca meramente transitória dos negócios e do prazer, ninguém se espanta de que homens dediquem a vida a um Deus invisível. Numa cultura materialista, porém, fundamentalmente irreligiosa, o monge se torna incompreensível porque ele "não produz nada". Sua vida parece completamente inútil. Nem mesmo os cristãos têm sido isentes dessa ansiedade por causa da aparente "inutilidade" do monge. Estamos acostumados com o argumento de que o mosteiro é uma espécie de dínamo que, embora não "produza" a graça, consegue esse bem-estar espiritual infinitamente precioso para o mundo.

Os primeiros Pais do monaquismo não se preocupavam com tais argumentos, se bem que possam ter valor quando bem aplicados. Eles não sentiam que a procura de Deus fosse algo que necessitasse ser defendido. Ou, antes, viam que se os homens não tivessem, em primeiro lugar, consciência de que Deus deve ser procurado, nenhuma outra defesa do monaquismo adiantaria.

Deus deve, então, ser procurado?

A mais profunda lei no ser do homem é a necessidade de Deus, de vida. Deus é vida. "Estava nele a vida e a vida era a luz dos homens E a luz brilhou nas trevas e as trevas não a compreenderam" (Jo 1,4-5). Compreender a luz que no meio delas brilha é a maior necessidade que têm nossas trevas. Por isso, deu-nos Deus como seu primeiro mandamento: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças". A vida monástica nada mais é do que a vida daqueles que tomaram o primeiro mandamento com a maior seriedade, e, como diz São Bento, "nada preferiram ao amor de Cristo".

Mas quem é Deus? Onde está?

O monaquismo cristão é busca de alguma pura intuição do Absoluto? Um culto do Bem supremo? A adoração da Beleza perfeita e imutável? O próprio vazio de tais abstrações torna o coração frio. O Santo, o Invisível, o Todo-Poderoso é infinitamente maior e mais real do que qualquer abstração inventada pelo homem. Mas Ele próprio disse: "O homem não me pode ver e viver"(Ex 33,20). Entretanto, o monge persiste em exclamar com Moisés: "Mostra-me a Tua face"(Ex 33,13).
O monge, portanto, é alguém que procura tão intensamente a Deus que está pronto a morrer para poder vê-LO. Por isso é que a vida monástica é um "martírio" bem como um "paraíso"; uma vida ao mesmo tempo "angélica" e "crucificada".
São Paulo resolve, do seguinte modo, o problema: "Deus que disse: ‘Do seio das trevas brilhe a luz foi quem fez brilhar sua luz em nossos corações, para que façamos brilhar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Jesus Cristo" (2Cor 4,6).
A vida monástica é a rejeição de tudo que obstrui os raios espirituais dessa misteriosa luz. O monge é alguém que deixa atrás de si a ficção e as ilusões de uma espiritualidade meramente humana, para mergulhar na fé em Cristo. A fé é a luz que o ilumina no mistério. É a força que se apodera das íntimas profundezas de sua alma e o entrega à ação do Espírito divino. Espírito de liberdade. Espírito de amor. A fé o segura e, como outrora fez com os antigos profetas, "firma-o sobre seus pés" (Ez 2,2) diante do Senhor. A vida monástica é vida no Espírito de Cristo, vida em que o cristão se dá inteiramente ao amor de Deus que o transforma na luz de Cristo.
"O Senhor é o Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, ali está a liberdade. E todos nós que, com o rosto descoberto, refletimos como espelhos a glória do Senhor, nós nos transformamos nesta mesma imagem, cada vez mais resplandecente, conforme a ação do Senhor, que é espírito" (2Cor 3,17-18). O que São Paulo diz da vida interior de todo 0 cristão, torna-se, em realidade, o principal objetivo do monge vivendo em solidão no claustro. Procurando a perfeição cristã, procura o monge a plenitude da vida cristã, a inteira maturidade da fé cristã. Para ele, "viver é o Cristo".

Para estar livre da liberdade dos filhos de Deus, renuncia o monge ao exercício da sua própria vontade, ao direito à propriedade, ao amor do conforto e do bem-estar, ao orgulho, ao direito de fundar uma família, à faculdade de dispor do seu tempo como bem entender, a ir aonde quer e a viver conforme bem lhe parece. Vive só, pobre, em silêncio. Por que? Por causa daquilo em que ele crê. Crê na palavra de Cristo que prometeu: "Em verdade vos digo: Não há ninguém que tenha abandonado a casa ou os pais, ou os irmãos, ou a esposa, ou os filhos, por causa do reino de Deus, e que não receba muito mais no tempo presente, e, no século futuro, a vida eterna" (Lc 18,29-30).
 
    O MONGE E O MUNDO

O mosteiro não é nem um museu, nem um asilo. O monge permanece no mundo que abandonou, e é, nele, uma força poderosa, embora oculta. Para além de todas as tarefas que poderão acidentalmente se ligar à vocação do monge, este age sobre o mundo pelo simples fato de ser monge. A presença dos contemplativos é para o mundo o que o fermento é para a massa, pois há vinte séculos o próprio Cristo declarou nitidamente que o Reino dos céus se assemelha ao fermento oculto em três medidas de farinha.

Mesmo sem nunca sair do mosteiro em que vive, nem pronunciar uma palavra ouvida pelos demais homens, está o monge inextricavelmente envolvido nos sofrimentos e problemas da sociedade a que pertence. Deles não lhe é possível escapar, nem ele o deseja. Não está isento de prestar serviço nas grandes lutas de seu tempo, antes, como soldado de Cristo, está designado para tomar parte nessa batalhas, combatendo no "front" espiritual, no mistério, pelo sacrifício de si próprio e pela oração. Isso ele faz unido a Cristo crucificado, unido também a todos aqueles por quem Cristo morreu. Está consciente de que o combate não está dirigido contra a carne e o sangue, e sim "contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos espalhados nos ares" (Ef 6,12).
O mundo contemporâneo está em plena confusão. Está atingindo o ápice da maior crise na história. Nunca, antes, houve tamanha reviravolta na raça humana inteira. Forças tremendas: espirituais, econômicas, tecnológicas e políticas estão em movimento. A humanidade se vê à beira dum abismo de nova barbaria; restam, todavia, ao mesmo tempo, possibilidades quase incríveis de soluções imprevistas, a criação de um mundo novo e de uma nova civilização, tal como jamais se viu.

Estamos enfrentando o Anticristo ou o Milênio; ninguém sabe dizer se um ou o outro.
Neste mundo em perpétua mutação, permanece o monge como baluarte de uma Igreja que não muda, contra a qual as portas do inferno não podem prevalecer. É verdade que a própria Igreja se adapta, porque é ela uma Corpo vivo, um organismo em constante crescimento. Onde há vida, tem de haver desenvolvimento. Na ordem monástica, também deverá manifestar-se adaptação, desenvolvimento, crescimento.
Diante de Deus, diante dos homens, diante do mundo de concupiscência, seu antagonista, está o monge carregado de tremenda responsabilidade, a responsabilidade de continuar a ser aquilo que seu nome significa: um monge, um homem de Deus. Não apenas alguém que abandonou o mundo, mas alguém capaz de representar Deus neste mundo que o Filho de Deus salvou pela morte na Cruz.
O mosteiro nunca poderá ser, simplesmente, o refúgio de uma arquitetura de falso estilo gótico, de cultura clássica, e de piedade convencional. Se o monge nada mais é do que um burguês bem estabelecido na vida, com os preconceitos e o bem-estar de um membro da classe média e a habitual mediocridade que daí deriva, descobrirá que sua vida não foi dedicada a Deus, e sim ao "serviço da corrupção", e desaparecerá com tudo que é efêmero.

Por outro lado, a vocação do monge proíbe-lhe descer à planície para tomar parte nas lutas que aí se travam. Só poderá considerar como tentações as opções que o mundo lhe oferece e as oportunidades de tomar posição em favor de uns ou contra outros. A vocação do monge chama-o exclusivamente ao que é transcendente. Está e deverá sempre se manter acima das facções humanas. Isso quer dizer que é susceptível de se tornar vítima de todas elas. Contudo, não deve renunciar à posição exclusivamente espiritual que lhe cabe, de maneira a proteger a própria pele ou ter um teto para si.

Todavia, nunca a vida monástica deverá ser de tal modo "espiritual" que chegue a impedir toda encarnação. Aqui também haveria infidelidade. O monge tem de permanecer real, e só o poderá ser mantendo-se em contacto com a realidade. Mas, para ele, a realidade está encarnada na Criação, obra de Deus, na humanidade, suas dores, suas lutas e seus perigos. Cristo, o Verbo, se encarnou de maneira a viver, sofrer, morrer e ressuscitar em todos os homens, libertando-os, assim, do mal, pela espiritualização do mundo material. O monge, portanto, permanece neste mundo em caos, mundo de carne em que ele e sua Igreja proclamam incansavelmente a primazia do espírito, mas fazem-no dando testemunho da realidade da Encarnação do Verbo. Para o monge, como para todo cristão, "viver é o Cristo". A comunidade monástica, já o vimos, vive da caridade e para a caridade, uma caridade que mantém a "lumen Christi", a luz de Cristo ardendo na escuridão de um mundo incrédulo. O mosteiro é um Tabernáculo em que o Altíssimo habita entre os homens, santificando-os e unindo-os a Si em seu Espírito. A comunidade monástica se dedica incansavelmente a todas as obras de misericórdia, em especial, às obras espirituais de misericórdia. Aos olhos do mundo, o mosteiro se ergue como incompreensível sacramento da misericórdia de Deus para com os homens. Incompreensível; portanto, incompreendido. Que há nisso de surpreendente? O próprio monge não consegue avaliar plenamente sua vocação; ainda menos pode ele compreendê-la. Contudo, a misericórdia de Deus está nele. Se assim não fosse, ele nada seria. Isso é algo que o monge não pode ignorar, se é verdadeiramente monge.

Se, em certo sentido, o monge se mantém acima das divisões da sociedade humana, não quer isso dizer que não lhe caiba um lugar na história das nações. Sempre teve e terá por vocação uma atitude de simpatia e compreensão para com todo movimento cultural e social que favoreça o desenvolvimento do espírito humano; por vocação, continuará a fazê-lo. Os beneditinos se celebrizam por seu humanismo, e ninguém ignora que os monges preservaram as tradições culturais da Antigüidade. Os monges serão sempre parte integrante de qualquer sociedade que favoreça a verdadeira liberdade, pois os próprios monges são centros de liberdade espiritual e transcendente. Como tal, o mosteiro representa, neste mundo, a caridade divina de que todas as liberdades e comunhões humanas nada mais são do que a sombra.

Por isso é que importa ao monge, acima de tudo, ser aquilo que seu nome significa: um solitário, alguém que, pelo desapego de tudo, se tornou "só". Mas, na solidão e no desapego, o monge está de posse duma vocação à caridade que atinge dimensões muito maiores do que a de qualquer outra. Pois aquele que tudo abandonou tudo possui, aquele que deixou a companhia dos homens permanece com todos pela caridade de cristo que nele vive, e aquele que renunciou a si próprio por amor a Deus é capaz de se dedicar à salvação de seus irmãos, com o poder irresistível do próprio Deus.


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Mistica Medieval

A Você que não conhece esta obra, uma nota para entendimento:

Bosco Deleitoso - também Boosco Deleitoso em português medieval - é uma obra literária mística escrita em Portugal na Idade Média. O livro foi escrito por um monge anônimo do Mosteiro de Alcobaça entre os finais do século XIV e o início do século XV. É considerada uma das mais importantes obras espirituais da literatura portuguesa.



Boosco Deleitoso 

INTRODUÇÃO
A 24 dias de Maio do ano da Encarnaçam de Nosso Salvador e Redentor Jesu Cristo de mil quinhentos e quinze, na mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa, saía dos prelos de Hermão Campos, bombardeiro del-rei nosso Senhor, um livro intitulado Boosco deleitoso, em que se continham enxempros e falamentos muito aproveitosos pera mantimento espiritual dos corações.

Nas proximidades do dia 24 de Maio do ano da graça de 1950, decorridos, portanto, mais de quatro séculos, e nesta não menos nobre e leal cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, anima-se o venerando cimélio quinhentista a defrontar-se, tímido e receoso, com o sorriso escarninho e compassivo de leitores mal preparados para acolher-lhe com proveito e simpatia as graves e severas lições.
Receio por demais justificado, pois nada menos pretende o ingênuo moralista de Quinhentos do que dirigir ardente defesa da vida solitária às almas enredadas em negócios mundanaaes, convidando-as, com irritante afinco, a procurarem, sequer no fim de agitada e estéril existência, o assessêgo balsâmico e pacificador do ermo.
É lícito duvidar que o douto razoamento consiga convencer numerosos adeptos e conquistar largo proselitismo. Não duvidamos, no entanto, que qualquer amante apaixonado de nosso formoso idioma, se lhe não falecer animo para superar galhardamente as primeiras dificuldades inerentes à leitura de qualquer texto arcaico, não saberá resistir aos encantos desta prosa equilibrada, límpida e fluente como caprichoso regato a serpear, despreocupado e borborejante, por ameno vergel, comprido de toda sorte de animálias e atapetado com formoso manto multicor de flores de desvairados matizes. Para quem possui algum conhecimento, superficial embora, de nosso remoto passado, palpita em. toda sua pujança e singeleza nos períodos símprezes e desataviados do Boosco a alma candorosa e singela de nossa Idade Média, saturada de intenso e vigoroso idealismo cristão.
O Boosco constitui uma raridade bibliográfica. Se não falha nossa informação, deste livro são conhecidos apenas dois ou, quando muito, três exemplares: um, incompleto — pois lhe falta a página de rosto e o preâmbulo na Biblioteca Nacional de Lisboa; outro, na livraria que foi del-rei D. Manuel II e que poderá ser aquele mesmo de que afirma a História da literatura portuguesa ilustrada, de Albino Forjaz de Sampaio, I, 1929, p. 154, ter sido vendido em leilão, há poucos anos, pelo livreiro Armando Tavares, exemplar que fora da livraria de Joaquim Pereira da Costa.
Pelo que respeita a data da composição, "posto que impressa no primeiro quartel do século XVI, ensina o saudoso mestre ). Leite de Vasconcelos, a páginas 136 de suas Lições de Filologia Portuguesa, 2. edição, 1926, esta obra representa uma fase lingüística muito mais antiga, dos começos do século XV ou ainda dos fins do século XIV. Talvez não passe de reprodução de uma obra impressa no século XV, de que não se conhece hoje nenhum exemplar, pois não é natural que imprimissem pela primeira vez no século XVI um antigo texto manuscrito sem o modernizarem".
Véu ainda mais impenetrável encobre a pessoa do autor. A páginas 94 de sua Portuguese Literature (p. 113 da tradução portuguesa), contenta-se o simpático lusitanista. e penetrante crítico Aubrey F. G. Bell com ponderar que, "no seu principal assunto; o elogio da vida solitária, este livro faz lembrar o título do tratado atribuído a D. Felipa de Lencastre — Tratado da vida solitária, tradução do latim de Lourenço Justiniano. Mas o De vita solitaria deste último é inteiramente diverso do Boosco deleitoso, que parece composto antes do nascimento de D. Felipa, em 1437". Tão-pouco elucida o problema el-rei D. Manuel II no extenso estudo que consagra ao Boosco em Livros antigos portugueses, Maggs Bros, Londres, I, 1929, p. 287-299. O mesmo se dá com Agostinho de Campos na citada História da literatura portuguesa ilustrada, I, p. 174-175.
O primeiro erudito de língua portuguesa que conseguiu levantar uma ponta do véu foi Mário Martins, em artigo publicado na revista lisbonense Brotéria, vol. XXXVIII, 1944, p. 361-373, onde cita, de Arturo Farinelli, Itália e Spagna, Torino, I, 1929, o primeiro estudo — Petrarca in Ispagna nell' Età Media. Suas investigações evidenciaram o seguinte facto: o imortal cantor de Laura não é tão só "responsável pela lacrimosidade preciosista e o incurável dolor de amor, que se arrasta, sensualmente, no pastoralismo espanhol e lusitano"; dele proveio, outrossim, aos povos da Península, o amor profundo da soledade, no sentir de Karl Vossler. Poesie der Einsamkeit in Spanien, 1935 (trad. esp. La soledad en Ia poesie espanola. Madrid, 1941). O Boosco esclarece um capítulo de nossa história literária, pois em escrito algum português é tão acentuada como nele a influência do De vita solitária de Petrarca.
Iniciado na quaresma de 1346, o De vita solitária só veio a ser concluído cerca de dez anos mais tarde em Milão, dedicando-o seu autor ao bispo de Cavaillon, no actual departamento francês de Vaucluse (em italiano, Valchiusa), Filipe de Cabassoles, mais tarde patriarca de Jerusalém c cardeal. É o elogio da solidão e do silêncio, enquanto libertam das fastidiosas preocupações quotidianas e proporcionam tranqüilidade de espírito. Divide-se em duas partes. A primeira constitui uma ardente apologia da vida solitária, em que o conceito eremítico e religioso da solidão se confunde de contínuo com a idéia literária do bucolismo clássico: ao romper da alva o solitário, descansado e feliz, procura a paz e o silêncio de um bosque vizinho; ali, sentado em tapete de flores, saúda o raiar do sol e, alegre, com voz que lhe brota espontânea do peito, entoa louvores ao Senhor, enquanto seus devotos suspiros se acompanham com o cascatear buliçoso de cristalino regato ou os suaves lamentos das aves. Enchem-lhe os dias a prece, o estudo e honesto espaçar. Sem o conforto das letras, aliás, encarece o grande pré-renascentista italiano, a solidão é exílio, prisão, tormento; ao cultor das letras, pelo contrário, é pátria, liberdade, prazer — solitudo sine litteris, exsilium est, carcer, aculeus; adhibe litteras, patria est, libertas, delectatio (I, 3, 4, p. 35). Alternando a fadiga com o repouso, o solitário ocupa-se em ler e escrever: lê o que escreveram os antigos, escreve o que hão-de ler os vindoiros. Sua solidão é amenizada pelo espectáculo de uma natureza aprazível e amena, por visitas de amigos, pelo trato freqüente dos livros; "seja o ócio modesto e suave, não repulsivo; seja a solidão tranqüila, não agreste —¦ solidão, em suma, não selvatiqueza, e tal que quem a procura deva admirar-lhe a humanidade." Na segunda parte, Petrarca multiplica exemplos, desde os patriarcas e profetas bíblicos até os anacoretas da Tebaida, e inúmeros povoadores do ermo, como S. Francisco e S. Celestino V, reabilitado intencionalmente, ao que parece, contra o juízo infamante de Dante, que afirma, no canto II do Inferno: vidi e conobbi l'ombra di colui che fece per viltade il gran rifiuto. Do prior dos Camaldutenses, que lhe estranhara a omissão de seu S. Romualdo entre tantos solitários, de muito menor fama, recebeu Petrarca os dados para o Supple-mentum Romualdinum, 77, 4, 2. Junto com exemplos cristãos, e a-par dos Brâmanes e solitários de regiões hiperbóteas, não podiam faltar os predilectos filósofos e poetas clássicos, desde Horácio a Virgílio, de Cícero a Sêneca e aos grandes vultos da história de Roma.
Sobre a obra de Petrarca, cf. Pio Rajna. Il códice vaticano dei trattato De vita solitaria di Francesco Petrarca, na Miscellanea Ceriani, Milano, 1910 p. 640 e seg., A. Avena. La composizione dei trattato De vita solitária, na Rassegna critica delia letteratura italiana, XII, 1907. — Natalino Sapegno. Il Trecento, na Storia letteraria d'Italia, do editor Francisco Vallardi, Milão, 4a reimpressão, 1948, p. 223, 273, 631. — Na edição nacional de Petrarca da editora florentina Sansoni, deverá figurar o De vita solitária, entregue à competência de A. Roncaglia. Ao lado da tradução italiana de L. Asioli, Milão, Hoepli, 1927, dispusemos apenas do texto latino publicado por Ant. Altamura, ed. Gaspare Casella, Nápoles, 1943, muito mal acolhido pela crítica italiana. Veja-se, por exemplo, o que escreve a revista Leonardo, nova série, dez. de 1946, p. 355-356.
Se com o tratado de Petrarca cotejarmos o Boosco deleitoso, verificaremos que quási a metade do livro impresso por Hermão de Campos reproduz o De v ita solitária, ou seja, com leves falhas e interpolações, do capítulo XVI ao capítulo CXVII. O próprio D. Francisco, nobre solitário, que desempenha o papel de protagonista, não passa de Francisco Petrarca. Não quer isto dizer que todas aquelas páginas sejam mera tradução, mais ou menos literal, do latim petrarquista, porquanto o nosso inteligente compilador conseguiu apresentar-nos um conjunto mais espiritual, menos erudito, mais poético: inspipirando-se em ascetismo mais profundamente cristão, contenta-se com aduzir o pensamento de clássicos como Cícero ou Virgílio, em-vez de transcrever-lhes as formais palavras, e transforma seu arrazoado em solene cenário onde, um após outro, comparecem, devidamente caracterizados, os apologistas da vida do ermo. Escusamos largas transcrições para justificar a dependência de nosso livro em relação a Petrarca. Apenas citaremos, a título de exemplo, algumas frases a esmo, contrapondo os dizeres do Boosco referentes a S. Bento, e os correspondentes do De vita solitária, II, 4 (p. 91-92 da edição Altamura):
Sed ubi iam dux occidentalium monachorum Benedictus remanet? At quis eum Christi fidelium non novit? Quis sanctum iuvenile consilium non audivit? Qui, quamvis a prima aetate virtutum hospes, voluptatum hostis, arduam caeli viam esset ingressus, ut compendiosius tamen ac tutius pergeret, Romam Nursiamque dimisit, quarum in altera educatus, ortus ex altera, utriusque ámorem usu ac natura contraxerat; vicit tamen carnales affectus animae cura petiitque felix puer, non modo solitudinem, sed desertum et illud immane, sed devotum specus, quod qui viderunt vidisse quodammodo paradisi limen credunt.
Boosco, cap. 189, fl, 43 d- 44 a, (na presente edição, n. 513, p. 200) - Mas u nos fica, irmaão, o guiador dos monges do Ocidente, Sam Beento? E qual é o fiel cristaão que o nom conhoce? E quem nom ouviu o seu conselho, sendo êle mancebo? Como quer que êle, dês a sua primeira idade, fosse hóspede de virtudes e êmígoo das deleitações carnaaes, e começasse de andar pela alta carreira do ceeo, pero, por tal que andasse mais toste e mais seguramente, leixou a cidade de Roma, em que foi criado, e a cidade de Nurça, em que naceu, as quaes êle amava muito polo uso e polo natureza. E pero venceu as afeições carnaaes, com o cuidado que havia da sua alma, e, seendo moço, foi-se pera o deserto, meteu-se em ua rocha cavada e mui devota, e é tal que aqueles que a vêem, parece-lhes que vêem portal do paraíso.
A versão do Boosco é, por vezes, tão literal, que o confronto com o original latino permite esclarecer dúvidas de interpretação ou eliminar lapsos gráficos. Comparem-se, por exemplo, os seguintes lanços do De vita solitaria com os correspondentes do Boosco:
I, 7, 4, p. 56: optimo quisque ingenio totum se in cognitione et in scientia collocaret; cap. 46, fl. 26 a, n. 338, t. 1 1 — 12, p. 117: qualquer homem que houvesse boõ engenho alogaria si meesmo todo em conhocimento e em ciência.
I, 2, 1, p. 22: telam negotii orditur, por onde se conclui que são negócios urdidos como teia os negócios ateados do cap. 17, fl. 11 b, n. 138, l. 13-14, p. 48.
I, 2, 2, p. 23: turpibus latebris clientium suorum se furatur adspectibus; cap. 19, fl. 12 a, n. 147, l. 12-13, p. 51: escondendo-se deles temporemente. (O turpibus de Petrarca impõe a correcção torpemente).
I, 2, 7, p, 28: v i g il e m sobrietatem implorat; cap. 26, (fl. 14 d, n. 179, l. 8, p. 60: que lhe dê temperança vigravil, (vocábulo que, à vista do latim vigilem , se deverá identificar com o português vigilante).
I, 2, 9, p. 29: sollicitatus litteris, interpellatus nuntiis, (lanço que torna compreensível o texto do cap. 28, fl. 15 b, n. 185, l. 9-11, p. 66: cuidoso com cartas que lhe enviarom e chamarom per messegeiros).
II, 1, 11, p. 85: quidquid consules deliberant; cap. 84, fl. 41 d, n. 495, l. 2, p. 190: qualquer cousa que os cônsules livram (ou seja, deliberam).
II, 1, 12, p. 86: secretum horti an gulum pro solitudine habuit; cap. 85, fl. 42 a, n. 498, l. 14-15, p. 191: apartastes-vos em quanto de uu horto (isto é, em canto, ou ângulo);
II, 2, 3, p. 90: mortem ut ingressum vitae et labo-ris sui praemium amabat; cap. 88, fl. 43 d, n. 511, l. 18-19, p. 199: assi como entrada de vila e galardom de seu trabalho (lapso manifesto, por "entrada de vida" ).
II, 7, p. 121: ad v erb osam Graeciae philosophiam et deliciosam mollitiem transfugisset; cap. 96, fl. 48 b, n. 547, l. 20-21, p. 220: fuge-se pera a soombrosa filosofia de Grécia. (Será temerário ler: "verbosa filosofia"?).
II, 8, 2, p. 128: vacuum Tibur aut imbelle Tarentum; cap. 99, fl. 49 d, n. 559, l, 5, p. 227: o ermo de Nubelle Tarentum. (Nosso compilador não procurou verter o adjectivo imbelle , em lanço transcrito de Horácio. Epíst, I, 7, 45, e apenas tresleu nu~ a sílaba i m~).
II, 2, 1, p. 97: horridum habitaculum; cap. 86, fl. 42 c, n. 501, l. 24, p. 194: morada espantosa e mui espessa. (Afigura-se recomendável a leitura áspera),
Dos equívocos aqui sinalados de relance, alguns levam a admitir que o compilador do Boosco não compreendeu, aqui e acolá, o original de Petrarca, contentando-se com transcrevê-lo materialmente; outros parecem corroborar a hipótese de eles representarem uma leitura errônea do original, inédito ou impresso, que serviu de base à impressão de 1515. Em abono deste modo de ver, pedimos vénia para aduzir mais alguns exemplos.
Ao descrever a "miséria" do homem ocupado em negócios na hora do jantar, escreve Petrarca, I, 2, 3, p. 24: circumstant canes aulici muresque domestici; lanço assim reproduzido pelo Boosco, cap. 20, fl. 12 c, n. 154, l. 4-7, p. 53; "estam arredor dele os caães do paaço, que som os mais e maiores seus chegados, e os mures domésticos, que som os servidores da casa". Salvo engano, nunca existiu em português o vocábulo mures.
No cap. 36 do Boosco, fl. 19 d, n. 251, l. 8, p. 87, o ancião a que se refere Terêncio em sua comédia Adelphoe — no dizer de Petrarca, I, 4, 1, p. 37: meminerit Terentiani senis in Adelphis — passa a ser "o velho filósofo dom Terenciano".
Em II, 3, 3, p. 97, alude Petrarca a Arnulfo, eremita no termo de Metz e bispo daquela cidade: territorii Metensis eremicola atque eiusdem urbis episcopus. Pois bem, deste incompreendido territorii fêz o Boosco, cap. 94, //. 46 b- c, n. 534, l. 2-3, p. 211, a cidade de Teritónia...
No cap. 68, fl. 37 d- 38 a, n. 459, l. 8-9, p. 172, o diversorium viatorum , "pousada de caminheiros", de Petrarca, II, 1, 8, p. 81, foi treslido diversorum viatorum, "dos desvairados caminheiros", por mais inverosímil que seja o equívoco, com a circunstância agravante de o mesmo cochilo ocorrer outrossim no cap. 45, fl. 24 c, n. 319, l. 10-11, p. 110.
Distração muito parecida deparamos no cap. 84, fl. 41 d, n, 495, l. 11-14, p. 190, onde a exclamação latina de Petrarca, II, 1, 11, p. 85, credo, edepol, "creio, por Pólux!", vem transformada em "aquela casa que chamam Edepol".
Seja como fôr, significativas coincidências com o texto de Petrarca não escasseiam no Boosco, que nem sequer omite, por exemplo, o trocadilho de fama com fame — I, 2, 2, p. 23: non potius deserti famem quem diserti fama m concupierit; cap. 19, fl. 12 a, n. 147, l. 7-8, p. 51: ante nom cobiiçou fazer vida em o deserto com fame, ca haver a fama do põboo (pena foi não contrapor a fame do deserto à lama do diserto... ) — ou reflexões ingênuas como a do cap. 38, fl. 20 d, n. 264, l. 14-17, p. 92, onde, referindo-se à singeleza do solitário, pondera que, no ermo, não há "quem faça engano senom aos peixes, tomando-os com o anzolo, e aas aves, tornando-as com visco ou com o laço", mera transcrição de Petrarca, I, 4, 3, p. 39: quem praeter pisces hamo, quem praeter feras ac volucres visco fallat aut laqueo?
A partir do capítulo CXVIII, desaparece para sempre da cena D. Francisco solitário. Não nos cabe indagar aqui se, afora as partes do Boosco directamente tomadas do De vita solitária, houve nele influência de outros escritos de Petrarca. Seria instrutivo, por exemplo, averiguar a procedência do lanço consagrado ao mal identificado frade da ordem dos Pregadores, Dom Vicêncio, que não figura no De vita solitária, mas de quem refere o autor daquele trecho que "o conhecera mui bem, ca muitas vezes o vira e falara com ele" (cap. 49, fl. 27 c- 28 c, n. 361-373, p. 125-129). £ certamente de origem italiana a invectiva contra modas estrangeiras, "que mudam a honra de Itália em costumes bárbaros" (cap. 59, fl. 34 d, n. 432, /. 10-11, p. 159), talvez mera adaptação, mais livre, de I, 9, 3, p. 63:... molestiarum mearum prima et máxima, ex humani generis, atque in primis Italiae, commiseratione proveniens, unde olim virtutum exemplaria petebantur, quam, heu, nunc video peregrinorum rituum imitatione corruptam et domitarum a se gentium, ut quondam spolíis, sic nunc erroribus exundantem. É de notar, aliás, que há, no Boosco , pelo menos mais duas alusões à Itália.
As últimas partes do livro têm caracter mais acentuada-mente ascético. Já resolvido a mudar de vida, o solitário concentra-se na consideração da miséria humana, esboçada em termos vigorosos e impressionantes (cap. 113, fl. 58 b- 59 b, n. 622-627, p. 265-209).
Por fim, purificado de todo, o penitente está preparado para os arroubos da mais sublime contemplação, em que recebe os últimos retoques da graça, até ser triunfal-mente introduzido na glória celestial. Há, nesses capítulos, dificuldades de compreensão provenientes, não de imperícia do escritor, mas do próprio assunto: trata-se de realidades sublimes "que nom podem entender senom aqueles que as provarem" (cap. 149, fl. 73 a, n. 735, l. 6-8, p. 334).
Tão-pouco figura no De vita solitária a primeira parte do Boosco. No capítulo inicial, o pecador arrependido é conduzido a um bosque muito espesso de aprazíveis árvores, em que docemente gorjeiam muitos passarinhos, perto de um lindo campo de muitas ervas e (roles de bõo odor — lugar-comum fartamente explorado pela literatura pastoril. Tenha-se presente, por exemplo, nosso continuador da tradição petrarquista, Fr. Heitor Pinto, que, logo no capítulo I do diálogo consagrado a vida solitária, I, 1843, p. 305, é convidado a "sentar-se e lograr deleitosa floresta, coberta de uas viçosas ervas que, meneadas de temperado vento, faziam uns verdes claros e escuros graciosos". Depois de orar para ser livre das trevas da morte, aparece ao mesquinho pecador um mancebo vestido de panos brilhantes como fogo e cuja face era clara como o sol quando nace em tempo da grande queentura. Este glorioso guiador o leva à residência encantada das Virtudes — Justiça, Misericórdia, Ciência da Sagrada Escritura, Fé, Esperança, Caridade. . . — que lhe dirigem insistentes exortações, até encontrar-se, no capítulo XVI, com o nosso já conhecido D. Francisco solitário. A alegoria — será escusado lembrá-lo — é artifício literário de que o gênio artístico da Idade Média costumava lançar mão para dar forma expressiva a conceitos abstractos; e a esta tendência não conseguiu subtrair-se de todo Francisco Petrarca, rico embora de pressentimentos modernos. Quanto ao glorioso guiador, lembra-nos, — para não falarmos na Beatriz de Dante — o encontro, no proêmio do Secretum, com a figura deífica e refulgente, em quem Petrarca reconhece a Verdade, talvez idêntica à Donna piu bella assai che il sole, da canção 119.
No tocante à presente edição, bastará reafirmar aqui que envidámos esforços, para tornar o precioso cimélio acessível ao maior número possível de leitores. Para isso, subdividimos o livro - seu tanto arbitrariamente, cumpre reconhecê-lo — em partes distintas, que, de algum modo, lhe quebrem a monotonia; simplificámos a grafia, sem prejuízo, claro está, da genuidade do texto; introduzimos pontuação, abrimos alíneas, sinalámos com tipo itálico as leves inovações que julgámos necessárias para dar ao texto sentido satisfatório; lançámos mão, numa palavra, de todos os recursos que se nos afiguraram aconselháveis, em ordem a apresentarmos ao leitor moderno o que alguém poderá denominar, se lhe aprouver, edição ad usum Delphini. Para o gosto mais apurado de medievistas sabedores reseriamos o fac-símile do texto de 1515, que fará parte de nossa Biblioteca fac-similar e crítica de literatura medieval e quinhentista, integrada, como fica dito em apêndice do presente volume, nos Anexos do Dicionário Medieval c Clássico.
O segundo volume será constituído por excursos elucidativos e extenso glossário.
O Boosco despertara o interesse do malogrado filólogo português Abílio Roseira, que lhe preparava uma edição crítica quando morte prematura veio arrebatá-lo aos estudos filológicos. A notícia é-nos dada pelo distinto humanista Rebelo Gonçalves em Filologia e Literatura, São Paulo, 1937, p. 234. Sem pretendermos substituir aquele erudito, faremos quanto em nós couber para levarmos a bom termo o dificultoso empreendimento.
Mas é tempo de cortarmos por mais delongas. Está à porta, aguardando por nós — e estaria impaciente, se defeito coubesse em anjo — o nosso amável guiador, a convidar-nos com gesto amigo e benevolente sorriso: me duce, carpe viam.
Rio, 2 de Fevereiro de 1950
Augusto Magne






(DEDICATÓRIA)
1. (1, v) A muito esclarecida e devotíssima reinha dona Lianor, molher do poderoso e mui manífico rei dom Joam segundo de Portugal, como aquela que sempre foi enclinada a toda virtude e bem-fazer, zelosa grandemente de sua salvaçam e de toda alma cristaã, mandou emprimir o seguinte livro chamado Boosco deleitoso, veendo Sua Alteza nele tanta duçura espritual e prosseguindo êle com tantos enxempros e figuras, por convidar a muitos aa doutrina de nosso Redentor Jesu Cristo, em nome do qual começa o dito livro. Primeiramente, o prólogo do autor.
(PRÓLOGO)
2. Em nome do Nosso Senhor Jesu Cristo, em que é toda nossa vida.
Este livro é chamado Boosco deleitoso porque, assi como o boosco é lugar apartado das gentes e áspero e ermo, e vivem enele animálias espantosas, assi eneste livro se conteem muitos falamentos da vida solitária e muitos dizeres, ásperos e de grande temor pera os pecadores duros de converter. Outrossi, em no boosco há muitas ervas e árvores e froles de muitas maneiras, que som vertuosas pera a saúde dos corpos e graciosas aos sentidos corporaaes. E outrossi há i fontes e rios de limpas e craras águas, e aves, que cantam docemente, e caças pera mantiimento do corpo.
3. E assi eneste livro se conteem enxempros e falamentos e doutrinas muito aproveitosas e de grande consolaçom e mui craras pera a saúde das almas e pera mantiimento espritual dos coraçoões dos servos de Nosso Senhor, e pera aqueles que estam fora do caminho da celestrial cidade do paraíso poderem tornar aa carreira e ao estado de salvaçom e poderem alcançar aquela maior perfeiçom, que o homem pode haver enesta presente vida, e haver o maior prazer e aquela maior dolçura e consolaçom espritual, que a alma pode receber enquanto está em no corpo e, depois desta vida, haver e possuir a grória perdurávil, tomando enxem-pro de uü homem pecador, que todo esto encalçou em vida apartada e solitária dos negócios do mundo, segundo êle reconta de si meesmo, dizendo assi. (2, a)
CAPITULO II
8. Seendo eu, mezquinho pecador, em tal estado, ia muito amiúde andar e espaçar per uu campo mui fremoso, comprido de muitas ervas e froles de boõ odor. Mais nunca se de sobre mi partiam aquelas treevas mui escuras, que me cercavom em-derredor e dentro em a minha conciência. E acerca daquele campo estava uu boosco mui espesso de árvores mui fremosas, em que criavom muitas aves, que cantavom mui docemente, como quer que o boosco era escuro com névoa que havia em êle.
9. E andando eu per aquele campo, ouvindo os doces cantares das aves e mirando as fremosas froles, dizia muitas vezes ao Senhor Deus:
— Senhor, amercea-te de mi! Quem me livrará destas treevas de morte?
E as aves do boosco me respondiam:
— A graça de Deus per Jesu Cristo te livrará. Entom tive mentes aa minha parte deestra, e vi estar uu mancebo mui fremoso, vestido de vestiduras de fogo mui esprandecente, e a face dele era crara como o sol, quando nace em o tempo da grande queentura. E êle estava cingido com uua cinta de ouro, e em uua (2, c) maão tiinha uua segur mui aguda de aço mui luzente encastoada em ouro, e em na sua cabeça trazia uua grilanda de pedras preciosas, e trazia aas mui esprandecentes em seus pees.
10. E eu preguntei-lhe, assi como homem espantado, que voz era aquela daquelas aves, e êle me disse:
— Estas aves som os santos doutores que ordenarom a santa escritura, e eles te confortam e eles te amoestam e eles te ameaçam muitas vezes, segundo tu bem sabes. E tu, cuberto de trevas, nom queres entender pera te correger e pera bem obrar. Homem, pára mentes em sua doutrina e correge tua vida e confia em na misericórdia de Deus, ca tanto e mais quer êle livrar os mizquinhos da sua mizquin-dade, como eles mesmos querem, ca êle os convida que lhe peçam misericórdia.
11. E certamente nom convidaria êle os homeês, que lhe pidissem, se lhes êle dar nom quisesse. Mas êle diz: "Pidide e receberedes". E, porém haja vergonça a priguiça dos homeês, ca mais lhes quer êle dar, que eles querem receber; e mais se quer êle amercear, ca os homeês querem seer livres da mizquindade, e muitas vezes oferece a misericórdia de Deus ao homem aquêlo que êle nom ousa de pedir; ca a sua misericórdia melhor é sobre todas as vidas, ca por muito louvada que seja qualquer vida dos homeês, confusom será a ela, se fôr escoldrinhada sem misericórdia; e a sua misericórdia é sobre todas as suas obras, e a sua propiadade é amercear-se e perdoar. E porém, amigo, toma fiúza e esperança em a misericórdia do Senhor e nom desesperes com tristeza, ca com tal tristeza é derribado o esprito do homem em perfundeza de desesperaçom: mais consiira que o Senhor Deus é justo e dereito.
12. E porém nom deves teer em pouco os teus pecados; pero, consiirando que êle é piadoso, nom queiras desesperar, mas have temor da tua fraqueza e espera sempre na misericórdia do Senhor Deus e da beenta Virgem sua Madre, Maria, que é madre de misericórdia; ca, como quer que ela seja mui louvada em todas as virtudes e se alegrem os homeês com a sua virgindade e se (2, d) maravilhem da sua humildade, pero a sua misericórdia é mais doce e mais saborosa aos mizquinhos, e com maior amor se abraçam com ela e da sua misericórdia se lembram e a chamam mais amiúde que as outras suas virtudes. E porém, amigo, a tua alma, que é seca, vaa-se trigosamente a esta fonte, e a tua mizquindade recorra-se com todo cuidado a esta alteza da misericórdia da beenta Virgem, ca ela escança vinho de consolaçom pera os tristes e desconsolados.
13. Quando eu, triste e mezquinho pecador, ouvi estas palavras daquele mui esprandecente mancebo, esforçou-se o meu coraçom, e respondi enesta guisa:
— Senhor, todo o meu merecimento o amerceamento é de Deus, e porém queiro tomar teu conselho, ca entendo que de todo nom perecerei, porque o Senhor é misericordioso, e a sua beenta Madre, que nunca falece aaquêles que a chamom em nas suas necessidades.
CAPÍTULO III
14. Tanto que esto houve dito, tomei já quanto esforço em meu coraçom e comecei a dizer ao esprandecente mancebo:
— Senhor, rogo-te, por Deus, que me digas quem és, que tam grande cuidado hás do meu bem.
E êle me respondeu, dizendo:
— Amigo, nom me conhoces? E eu lhe disse:
— Certamente nom, ca nunca te vi, nem outra criatura semelhável a ti.
15. E êle me respondeu:
— Verdade dizes ca nunca me viste; mas, se bem acordado fosses, bem te devia nembrar, que muito amiúde me sentiste, ca, dês o dia em que tu naceste, sempre fui teu companheiro e me trabalhei de te guardar e pera te levantar e espertar do sono do pecado e, de noite, pera aproveitares em bem obrar; e trabalhei de afastar de ti os maaus espritos, e te ensinar e certificar em nas cousas duvidosas, e seer teu guiador, que nom errasses, e acorrer-te toste-mente, que nom caísses.
16. E trabalhei de te ajudar contra os enemigos e de luitar contigo, pera te fazer usado em bem, e muitas vezes te trouve aa memória os teus pecados, por haveres deles vergonça, e amostrei a ti a vontade de Deus, que nom errasses, e trabalhei de te tirar os embargos pera servires mais livremente ao Senhor; e amiúde te visitei, por nom pecares (3, a) e amansei as tuas tentações, que nom fosses vencido.
17. E orei ao Senhor Deus, merecendo a mi e a ti; ca sabe por certo que eu som o anjo de Deus, que som dado a ti pera te fazer estas cousas todas, que te disse, e eu fiz quanto em mi foi; ca por mi nom faleceu, se te bem quiseres lembrar; mas, como revel e malicioso e fraco e mezquinho, nom te quiseste ajudar do meu proveito e consentiste, pola maior parte, ao anjo maau, que é contrairo a mi e a ti e ao Senhor Deus, que deu-me a ti por guardador; e fezeste-me haver muita tristeza em os teus caimentos; e como quer que com razom te devia desemparar de todo, pero, porque eu da tua consolaçom som consolado e do teu padecimento hei compaixom, ainda quero usar contigo de meu ofício e quero te guiar per tal caminho, per que possas achar consolaçom e remédio aas tuas mizquindades e tribulaçoões, se nom quiseres seer revel como ataaqui foste.
18. Quando eu esto ouvi, fiquei todo espantado, que nom sabia que fezesse nem que dissesse, e caí em terra, assi como morto. E êle me levantou da terra e disse-me:
— Homem fraco e coitado, está sobre teus pees.
E tanto esforço senti da sua palavra e de uu odor mui precioso que saía da sua boca, que estive levantado; e, dês i, lancei-me em terra e adorei-o. E êle me levantou outra vez da terra, e eu fiquei-me ante êle em giolhos, e disse-lhe:
— Oo santo anjo do Senhor, que és meu guardador, pola piadade do Senhor, rogo-te que salves e defendas e governes a mi, que som dado em tua encomenda.
E entom lhe disse mais:
— Senhor, rogo-te que me digas porque trazes taaes vistiduras de fogo esprandecente, e porque trazes esta segur em tua maão e a vara de ouro e a grilanda e as aas em os pees e a cinta.
19. E êle me respondeu enesta guisa:
— A coroa das pedras preciosas, que eu e os outros anjos trazemos em as cabeças, demostra a mui grande riqueza que havemos de muitas e desvairadas virtudes, que som demostradas pelas pedras preciosas; e as vistiduras de fogo sinificam o ardor da caridade e da boa vontade; e som assi luzentes, porque todos somos cubertos de lume em os intendimentos. E a cinta de ouro é (3, b) porque todos os anjos somos em uu coraçom juntos e apertados em virtudes; e as aas, que trazemos em os pees, som porque mui tostemente nos movemos pera adereçar as cousas da terra sem nosso abaixamento, e nom há em nós cousa pesada nem terreal. E a vara que trago em a mão é porque nós, sô Deus, regemos as cousas que som sô o ceeo, e julgamos as cousas dereitas. E a segur que trago em a outra mão é porque nós havemos virtude e poder pera talhar e quebrantar os maaos.

Oração de São Pio de Pietrelcina (Padre Pio) - Depois da Comunhão

Ficai comigo, Senhor, porque Vossa presença me é necessária para não Vos esquecer. Bem sabeis quão facilmente Vos abandono...
Ficai comigo Senhor, porque sou fraco e preciso de Vossa fortaleza para não cair tantas vezes.
Ficai comigo Senhor, porque sois minha vida e sem Vós me esmorece o fervor.
Ficai comigo Senhor, porque sois minha luz e sem Vós me acho em trevas.
Ficai Senhor
comigo, para me mostrardes Vossa vontade.
Ficai Senhor comigo, porque desejo amar-Vos muito e estar sempre em Vossa companhia.
Ficai comigo Senhor, se quereis que eu Vos seja fiel.
Ficai comigo Jesus, porque minha alma, conquanto paupérima, todavia quer ser para Vós um habitáculo de consolação, um ninho de amor. Ficai, Jesus, comigo, que entardece e o dia se vai... isto é, a vida passa... a morte se avizinha... avizinha o juízo, a eternidade... e é mister redobrar minha forças para não desfalecer no caminho, e para tal preciso de Vós. Entardece e vem a morte... Inquietam-me as trevas, as tentações, a aridez, as cruzes, as penas, e ah! como preciso de Vós, meu Jesus, nesta noite de exílio.
Ficai, Jesus comigo, pois preciso de Vós nesta noite da vida e dos perigos.
Fazei que eu Vos conheça como Vos conheceram os discípulos de Emaús ao partir do pão, isto é, que a união Eucarística seja a luz que dissipa as trevas, a força que me sustenta e a única felicidade do meu coração.
Ficai, Senhor comigo, porque, ao chegar a morte, quero estar unido a Vós, se não pela Santa Comunhão, ao menos pela graça e pelo amor.
Ficai, Jesus, comigo! Não Vos peço Vosso divino consolo, pois não o mereço, mas o dom de Vossa santíssima presença. Oh! sim, Vo-lo peço!
Ficai, Senhor, comigo! Busco somente a Vós, o Vosso amor, a Vossa graça, a Vossa vontade, o vosso Espírito, porque Vos amo e não peço recompensa alguma, senão aumento de amor..
Amor sólido, prático. Amar-Vos com perfeição por toda a eternidade. Assim seja.

Aprendendo com os Padres do Deserto - Apotegmas

Sobre Deus
1. “Se o homem não fala a seu coração: “Deus e eu estamos sozinhos no mundo, nunca encontrará descanso”, dizia o abade Alônio.
2. Dizia o abade Mios: “Obediência traz obediência. Se alguém obedece a Deus, Deus lhe obedece”.
3. “Se um homem realmente quisesse, um dia apenas, do amanhecer ao anoitecer, lhe seria suficiente para alcançar a medida da divindade”, dizia o abade Monio.
4. Disse um ancião: “Ó homem, se quiseres viver segundo a lei de Deus, deves ter como protetor o próprio autor da lei”
5. Dizia um ancião: “Se o teu pensamento mora em Deus, a força de Deus mora em ti”.
6. Disse um ancião: “Nunca dei um passo sem saber onde colocar os pés. Parava para refletir, sem ceder, até que Deus me tomasse pela mão”.
7. Um ancião disse: “Quando um se faz louco pelo Senhor, na mesma proporção o Senhor o tornará sábio”.
8. Disse o abade Iperéquio: “Conserva sempre o Reino dos Céus no espírito, e logo o receberás em herança”.
9. O abade Moisés afirmou: “É inútil tudo o que um homem pode pensar a respeito do que existe debaixo do céu. Somente quem persevera na recordação de Jesus está na verdade”.
10. Disse um ancião: O esforço e a solicitude por não pecar têm uma única finalidade: não afastar de nossa alma a Deus que nela habita”.
11. Gregório disse: “Que a tua obra seja pura pela presença do Senhor e não pela exibição”.
12. Perguntou-se ao nosso santo pai Atanásio, arcebispo de Alexandria: “De que modo o Filho é igual ao Pai?” Respondeu: “Como a visão nos dois olhos”.
13. Disse um ancião: “Faço aquilo de que o homem tem necessidade: temer o julgamento divino, odiar o pecado, amar a virtude, e invocar a Deus sem cessar”
14. Disse um ancião: “José de Arimatéia tomou o corpo de Jesus e o envolveu com um sudário limpo e num sepulcro novo, isto é, num homem novo. Que cada um tenha o máximo cuidado de não pecar, para não ultrajar a Deus que nele habita, e para não expulsá-lo de sua alma. O maná foi dado a Israel para alimentar-se no deserto, mas ao verdadeiro Israel foi dado o Corpo de Cristo”.
15. Dizia um ancião: “Um homem não pode ser bom mesmo se tenha a vontade de sê-lo e se esforce com todas as suas forças, se Deus não habita nele, pois ninguém é bom senão Deus”.
16. Disse um ancião: “Deus habita naquele no qual nada penetra de estranho”.
17. Dizia um ancião: “Suporta o opróbrio e a aflição pelo nome de Jesus com humildade e coração contrito. Revela diante dele a tua fraqueza e ele será tua força”.
18. Disse o abade Amun: “Suporta todo homem assim como Deus te suporta”.
19. Disse um ancião: “Se o homem faz a vontade do Senhor, jamais deixa de ouvir a voz interior”.
20. O abade Jacó disse [a um irmão]: “Força teu coração a ir ao Senhor”. E o irmão disse: “Como, meu pai?” E respondeu-lhe o ancião: “Como Jesus forçou seus discípulos a entrarem na barca, do mesmo modo força o teu coração a ir ao Senhor”.
21. Disse o abade João: “Esta palavra está escrita no Evangelho: “Quando Jesus chamou Lázaro para fora do sepulcro, suas mãos e pés estavam amarrados e seu rosto envolvido num pano; Jesus o desatou e o despediu. Nós, portanto, temos as mãos e os pés amarrados e nosso rosto está coberto com um pano obra das mãos do inimigo. Se, portanto, escutamos Jesus, ele nos livrará de tudo isso e nos libertará da escravidão de todos esses maus pensamentos. Então seremos filhos do Senhor, receberemos em herança as promessas e seremos filhos do Reino Eterno”.
Sobre a Paz
1. Os sacerdotes da região visitaram as celas dos monges das redondezas. Num deles habitava Pastor. O abade Anub se apresentou e disse: “Convidamos esses sacerdotes para hoje aceitarem, aqui, os dons de Deus, preparando um ágape”. Pastor, que estava em pé, assim permaneceu por longo tempo, sem responder. O abade Anub retirou-se, entristecido. Aqueles que estavam sentados ao lado dele, perguntaram-lhe porque não tinha respondido. “Isso não me pertence”, respondeu-lhes, “porque já estou morto; um morto não fala. Por isso, não me considerai como se estivesse no meio de vós”.
2. Alguns irmãos foram visitar um santo ancião que habitava num local deserto. Encontraram, na vizinhança, crianças que apascentavam as ovelhas e falavam entre si de modo enervante. Os irmãos viram o ancião, abriram-lhe seus sentimentos e tiveram proveito com suas respostas. Depois lhe disseram: “Pai, porque aceitas ao teu derredor estas crianças e não lhes ordenas de parar com esse barulho?”  O ancião respondeu: “Irmãos, acreditai, há dias em que gostaria de fazer isso, mas me controlo, dizendo: Se não suporto esses gritos, como poderei suportar uma grande provação, se Deus permitir que se me apresente? Deste modo, não digo nada, para habituar-me a suportar tudo aquilo que acontece”.
3. Um irmão perguntou a um ancião: “Qual é a cultura da alma que produz frutos?” Respondeu o ancião: “Nisto consiste a cultura da alma: a paz do corpo, muitas preces corporais, não prestar atenção nos erros dos outros, mas nos seus. Se o homem persevera nisso tudo, sua alma não demorará a produzir frutos”.
4. Perguntou-se a uma ancião: “Por que acontece que eu me canso sempre? Porque ainda não conheces a meta”, respondeu.
5. Num dia, um noviço resolveu renunciar ao mundo. Disse ao ancião: “Quero ser monge”. O ancião respondeu: “Não conseguirás”. E o outro: “Conseguirei”. O ancião disse: “Se realmente queres, vai, renuncia ao mundo e depois vem morar em tua cela”. Ele foi, doou o que possuía, guardou para si cem moedas e retornou ao ancião. O ancião lhe disse: “Vai morar em tua cela”. Ele foi. Enquanto lá estava, seus pensamentos lhe disseram: “A porta está velha e deve ser trocada”. Foi, e disse ao ancião: “Meus pensamentos me dizem: A porta está velha e deve ser trocada”. O ancião lhe respondeu: “Ainda não renunciaste ao mundo; vai, renuncia ao mundo e depois volta aqui”.  Ele foi, doou noventa moedas, guardou dez e disse ao ancião: “ Eis, renunciei ao mundo”. Disse-lhe o ancião: “Vai, habita tua cela”. Ele foi. Enquanto lá estava, seus pensamentos lhe disseram: O teto é velho e deve ser refeito”. Dirigiu-se ao ancião: “Meus pensamentos me dizem: o teto é velho e deve ser refeito”. Disse-lhe o ancião: “Vai, renuncia ao mundo”. O irmão foi, doou as dez moedas e retornou ao ancião: “Eis: renunciei ao mundo”. Enquanto estava em sua cela, seus pensamentos lhe disseram: “Tudo é muito velho, virá um leão e me devorará”. Expôs esses pensamentos ao ancião, que lhe disse: “Eu gostaria que tudo caísse encima de mim e que um leão viesse devorar-me, para ser libertado desta vida. Vai, habita tua cela e reza a Deus”.
6. Um ancião tornou-se bispo. Piedoso e pacífico, não repreendia ninguém, suportando com paciência as culpas e os pecados de cada um. Acontece que seu ecônomo não administrava corretamente os negócios da Igreja e alguns vieram reclamar ao bispo: “Por que não repreendes este ecônomo tão negligente?” O bispo aceitou a repreensão. No dia seguinte, os acusadores do ecônomo retornaram ao bispo, irritados contra ele. Advertido, o bispo se escondeu em algum lugar e não o acharam. Procuraram-no muito tempo, finalmente o descobriram e lhe disseram: “Por que te escondeste?” Ele respondeu: “Porque aquilo que consegui alcançar em sessenta anos, à força de pedir a Deus, vós o quereis roubar-me em dois dias”.
7. Dizia um ancião: “Os santos que possuem Deus recebem, como recompensa pela sua impassibilidade, quer as coisas daqui de baixo quer as futuras, pois ambas são de Cristo, e aqueles que possuem a Cristo possuem também seus bens. Aquele que tem o mundo, isto é, as paixões, mesmo se possui o mundo não tem nada a não ser as paixões que o dominam”.
8. Freqüentemente o abade Agatão dava este conselho ao seu discípulo: “Nunca pegues, para ti, algo que não gostarias de  imediatamente dar a alguém”.
9. Perguntou-se a um velho: “Que significa prestar contas de uma palavra inútil?” Respondeu: “Toda palavra dita a respeito de um objeto material é coisa inútil, pois somente as palavras ditas a respeito da salvação da alma não são inúteis. Por outro lado, é melhor escolher o silêncio total, porque, enquanto dizes o bem, junto vem o mal”.
10. Disse um ancião: “Se tu habitas no deserto como hesicasta. Não te consideres como alguém que faz algo de importante, mas, pelo contrário, considera-te como um cão chutado pela multidão e acorrentado porque mordia e assaltava o povo”.
11. O abade Antônio profetizou ao abade Amun: “Tu terás muito progresso no temor de Deus”. Depois o conduziu para fora da cela e mostrou-lhe uma pedra: “Põe-te a injuriar esta pedra”, disse-lhe, “maltrata-a sem parar”. Quando Amun parou, santo Antônio perguntou-lhe se a pedra respondera alguma coisa. “Não”, disse Amun. “Pois bem! Também tu”, acrescentou o ancião, “deves alcançar esta perfeição e imaginar que ninguém te ofende”.
12. Dizia o abade Macário: “Essas três coisas são capitais e é bom tê-las presente sem descanso: em todo momento devemos nos recordar da morte, morrer para todo homem e o pensamento deve estar constantemente unido a Nosso Senhor. De fato, se a todo momento não se tem presente a própria morte não se será capaz de morrer para todo homem; e se não se é capaz de morrer para todo homem, não se será capaz de estar constantemente diante de Deus”.
13. Disse um ancião: “Fugi do amor que as coisas perecíveis inspiram, porque esse amor passa e morre com elas”.
14. Disse um ancião: “Quando deixo o fuso cair, penso primeiro na morte para depois apanhá-lo novamente”.
15. Paisio, o irmão do abade Pastor, contraiu uma amizade particular com um monge de fora. O abade Pastor não aceitava isso; levantou-se e correu a dizer ao abade Amona: “Meu irmão Paisio tem uma amizade particular com um e isso não me dá sossego”. “Abade Pastor, tu ainda estás vivo!”, respondeu Amona. “Retorna à tua cela e convence-te no coração de que já estás na sepultura há um ano”.
16. Perguntou-se a um ancião: “Por que tenho medo quando caminho no deserto?”. “Porquer ainda estás vivo”, respondeu.
17. Dizia ainda o abade Macário: “Luta por todas as mortes. Pela morte do corpo: isso significa que, se não tens a morte do espírito, luta pela morte do corpo. E então a morte do espírito te será dada como lucro. E aquela morte te fará morrer para todo homem e, em seguida, poderás adquirir a capacidade de estar constantemente vivente com Deus no silêncio”.
Sobre  a  Oração
1. Apenas te levantas após o sono, em primeiro lugar a tua boca renda glória a Deus e entoa cânticos e salmos; a primeira preocupação que prende o espírito no início do dia, o espírito passa a moê-la como uma pedra durante todo o dia, seja grão, seja joio. Por isso, sê sempre o primeiro a jogar o grão, antes que o teu inimigo jogue joio.
2. Aconteceu um dia que os anciãos se dirigiram ao abade Abraão, o profeta da região. Interrogaram-no a respeito do abade Banê: “Estivemos conversando com o abade Banê a respeito da clausura na qual ele agora se encontra; ele nos disse estas graves palavras: ele julga que toda a ascese e todas as esmolas que fez no passado foram uma profanação”. E o santo velho Abraão respondeu-lhes e disse: “Falou corretamente”. Os anciäos, pelo caminho, lamentaram sua vida, que também fora daquele modo. Mas o abade Abraão lhes disse: “Por que vos afligis? De fato, durante o tempo em que o abade Banê distribuía as esmolas, talvez tenha conseguido alimentar uma vila, uma cidade, um povoado. Mas, agora, é possível a Banê levantar as duas mãos a fim de que o trigo cresça com abundância pelo mundo inteiro. Agora já lhe é possível pedir a Deus que perdoe os pecados de toda essa geração”. E os anciãos, após tê-lo ouvido, se alegraram por existir um suplicante que intercedia por eles.
3. Um irmão dirigiu-se a um ancião que morava no Monte Sinai e lhe perguntou: “Pai, ensina-me como se deve rezar, porque ofendi muito a Deus”. O ancião lhe disse: “Filhinho, eu, quando rezo falo assim: Senhor, permite-me servir-te como servi a Satanás e de amar-te como amei o pecado”.
4. Se és vagaroso para levantar-te de noite para a liturgia, não alimentes o teu corpo, pois a Escritura diz: “O preguiçoso não deve comer”. E eu te digo: como no mundo aquele que rouba recebe severa condenação, a mesma condenação Deus reserva para quem não se levanta para a liturgia, exceto no caso de doença ou de muito trabalho, pois, tanto do doente como do trabalhador, Deus exige uma liturgia espiritual, que pode ser oferecida a Deus deixando o corpo de lado.
5. Dizia abade Evágrio: “Se te foge a coragem, reza. Reza com temor e tremor, com ardor, sobriedade e vigilância. Assim deve-se rezar, sobretudo por causa dos nossos inimigos invisíveis que são malvados e espertos no mal e exatamente neste ponto nos armarão ciladas”.
6. O abade Macário, interrogado sobre o modo de rezar, respondeu: “Não é necessário falar muito na oração, mas muitas vezes estendamos as mãos e digamos: Senhor, tem piedade de nós, como tu queres e como tu sabes. Quando tua alma está angustiada, diz: Socorro! E Deus terá misericórdia de nós, pois sabe o que precisamos”.
7. Diziam os anciãos: “A oração é o espelho da alma”.
8. Um irmão foi visitar um dos abades da laura de Suca, nas colinas de Jericó e lhe disse: “Então, Pai, como estás?”. O ancião respondeu: “Mal”. Disse o irmão: “Por que, Pai?”. Respondeu o ancião: “Porque há trinta anos me conservo de pé diante de Deus durante a minha oração, e agora me amaldiçoo a mim mesmo, dizendo a Deus: Não tenhas piedade de todos aqueles que fazem o mal e sejam  malditos aqueles que se afastam de teus mandamentos. E eu, que sou um mentiroso, todo o dia grito a Deus: Condena a todos aqueles que mentem. E eu, que vivo pensando em comer, digo: No meio da noite acordei-me para louvar-te. Não tenho, absolutamente, compunção alguma e digo: Sofri no meu pranto e minhas lágrimas noite e dia substituíram meu pão. Eu, que tenho no coração pensamentos perversos, digo a Deus: A meditação de meu coração está sempre diante de ti. E eu, que nunca jejuo, digo: Meus joelhos estão enfraquecidos por causa de meus jejuns. E cheio de orgulho e de prazer da carne sinto-me ridículo salmodiando: Olha minha humildade e meu sofrimento e perdoa-me todos os meus pecados. E eu, que ainda não estou pronto, digo: Meu coração está pronto, ó Deus. E, numa palavra, todo o meu Ofício e a minha oração retornam a mim como reprovação e vergonha”. O irmão disse ao ancião: “Penso, Pai, que Davi disse tudo isso por si mesmo”. Então o ancião disse, chorando: “Que dizes, irmão? Certamente, se nós não observamos aquilo que salmodiamos diante de Deus, seremos condenados”.
9. Se fazes teu trabalho manual na cela e chega a hora da oração, não digas: “Terminarei de trançar meu cesto e depois me levantarei”, mas levanta-te logo e paga a Deus a dívida da oração; do contrário, pouco a pouco cairás no costume de relaxar na oração e o teu Ofício e a tua alma se tornarão desertos de todo trabalho espiritual e corporal. Pois é desde o amanhecer que se mostra a tua vontade.
10. Dizia um ancião: “Nada faças sem rezar e nunca te arrependerás”.
11. Dizia o abade Epifânio: “Conhece-te a ti mesmo e nunca cairás. Dá trabalho à tua alma, isto é, a oração contínua e o amor de Deus, antes que alguém a leve a maus pensamentos; e reza para que o espírito do erro se afaste de ti”.
12. Dizia um ancião: “Assim como uma só boca não pode ao mesmo tempo pronunciar duas palavras que possam ser reconhecidas e entendidas, do mesmo modo acontece com a oração impura que o homem proclama diante de Deus”.
13. Perguntam os irmãos: “Qual é a oração pura?” O velho disse: “Aquela que é breve nas palavras e grande nas obras. Pois, se as obras não superam o pedido, nada mais são do que palavras vazias, semente que não dá fruto. Se não fosse assim, por que aconteceria pedirmos sem receber enquanto que a graça superabunda de misericórdia? Um é o modo dos penitentes, o outro é o modo dos humildes; os penitentes são mercenários, os humildes, filhos”.
"Foge, Cala, Descansa"
1. O abade Pastor dizia: “Quaisquer que sejam teus sofrimentos, a vitória sobre eles está no silêncio”.
2. Num dia em que os irmãos estavam reunidos em Scete, alguns anciãos quiseram provar o abade Moisés: com ar de desprezo perguntaram-lhe: “Por que esta espécie de etíope vem morar no meio de nós?”. O pai calou-se, ouvindo estas palavras. Retornando à assembléia, aqueles que o tinham injuriado perguntaram: “Não estás perturbado?”. Ele respondeu: “Estou, mas não falo nada”.
3. Um irmão disse ao abade Pastor: “Segundo teu parecer, se vejo alguma coisa posso comentá-la?”.  Respondeu o ancião: “Quem responde antes de ouvir, comete uma bobagem e cai na confusão. Portanto, fala se te perguntam; de outro modo, cala”.
4. Alguns irmãos de Scete quiseram ver o abade Antônio. Subiram numa barca e nela encontraram um ancião que também queria procurar Antônio, mas os irmãos não sabiam de nada. Sentados na barca, conversavam a respeito dos apotegmas dos pais, das Escrituras e de seus trabalhos manuais. O ancião, por sua vez, permanecia em silêncio. Chegados ao porto, ficaram sabendo que também o ancião se diriga ao abade. Tendo chegado junto a Antônio, ele lhes disse: “Vocês encontraram nesse ancião um bom companheiro de viagem. E tu, Pai, estiveste junto de bons irmãos!”. Respondeu o ancião: “É verdade, mas a casa deles não tem portas: entra quem quer na estalagem e solta o burro!”. Falava assim porque os irmãos diziam tudo o que lhes vinha à cabeça.
5. Quando o abade Arsênio residia em Canope, veio de Roma para vê-lo uma virgem de família senatorial, muito rica e temente a Deus. Acolhida pelo arcebispo Teófilo, ela lhe pediu para que insistisse junto ao ancião a fim de que a recebesse. O arcebispo dirigiu-se ao ancião e lhe disse: “Uma senhora de família senatorial vem de Roma e deseja ver-te”. Mas o ancião não quis vê-la. Quando soube da resposta, a senhora fez selar sua cavalgadura e disse: “Tenho fé que Deus me permitirá vê-lo, pois não vim para ver um homem: deles existem muitos em nossa cidade. Vim para ver um profeta”.  Quando ela chegou perto da cela do ancião, por uma divina disposição ele se encontrava na soleira. Vendo-o, a mulher prostrou-se a seus pés. Indignado, ele a ergueu e fixando-a, falou-lhe: “Pois bem, se queres ver meu rosto, olha!”. Ela, porém, confusa, não o olhou. Acrescentou o velhinho: “Não querias falas de minhas obras?  A elas tu deves prestar atenção! Por que ousaste fazer uma viagem semelhante? Não sabes que és uma mulher e que não deves andar por aí? Retornarás agora a Roma, para contar que viste Arsênio e para fazer do mar uma estrada para a vinda de outras mulheres?”. “Se é vontade de Deus que eu retorne a Roma”, respondeu-lhe ela, “não permitirei a nenhuma mulher que venha aqui. Reza por mim e lembra-te sempre de mim”. Ele respondeu: “Peço a Deus que cancele tua lembrança de meu coração”. A estas palavras, ela ficou perturbada. E, na viagem de retorno a Roma, adoeceu. Advertido, o arcebispo foi consolá-la e se informar sobre sua doença. “Ah”, disse-lhe ela, “como seria melhor se eu não tivesse estado lá! Eu disse ao velhinho: Lembra-te de mim, e ele me respondeu: “Peço a Deus de cancelar tua lembrança de meu coração! Morro de dor”. “Não sabes que és uma mulher”, falou-lhe o arcebispo, “e que o inimigo combate os santos por meio da mulher? Por isso o velhinho falou-te assim. Mas ele sempre rezará por tua alma”. Assim ela teve o coração curado e voltou para casa feliz.
6. O abade Arsênio, quando ainda estava no palácio imperial, rezou assim: “Senhor, mostra-me a estrada que conduz à salvação”. Então ouviu uma voz que lhe disse: “Arsênio, foge do mundo e serás salvo”. Depois de ingressar na vida monástica, rezou ainda do mesmo modo e ouviu a voz dizer: “Arsênio, foge do mundo, cala e pratica a hesychia. Estas são as raízes do não-pecar”.
7. O arcebispo Teófilo, de feliz memória, num dia, acompanhado por um magistrado, visitou Arsênio. O arcebispo pediu-lhe uma palavra. O ancião ficou um tempo calado e depois falou: “Se lhes disser uma palavra, vocês a observarão?” Prometeram que sim. Então falou o ancião: “Se  escutarem dizer: lá está Arsênio, não o procurem!”.
8. Disse um ancião: “Deve-se fugir, sem exceção, de todos os obreiros da iniqüidade, sejam amigos ou parentes, possuam a dignidade de sacerdotes ou de príncipes; evitar sua companhia nos trará intimidade e amizade com Deus”.
 9. “A que serve agradar aos homens, se ofendo ao Senhor meu Deus? Testemunha disso é o divino Apóstolo que disse: “Se eu ainda agradar aos homens, não serei o servo de Cristo”. Rezemos, portanto, ao Senhor, dizendo: Jesus, nosso Deus, protege-nos de seus louvores e de suas críticas. E nada façamos para agradar-lhes, pois seus louvores não nos podem fazer entrar no Reino dos Céus, nem suas críticas têm o poder de impedir-nos de entrar na vida eterna, pois eles não possuem aquilo que nos faz nela entrar. Sabei, portanto, ó amados, que devemos prestar contas de toda palavra inútil; fujamos dela como se foge de uma serpente”.
10. Num dia, o abade Arsênio chegou perto de um caniço agitado pelo vento. O ancião disse aos irmãos: “O que é isso que se move assim?” “São os caniços”, responderam. “Na verdade, se alguém permanece na paz e ouve o grito de um passarinho, o seu coração não possui a paz. Pior ainda sois vós, que sois agitados como esses caniços”.
11. Disse um ancião: “Para um irmão, é a mesma coisa querer brigar com um adversário ou com o diabo”.
12. Disse um ancião: “Sem a vigilância dos lábios, é impossível ao homem progredir mesmo em uma única virtude; pois, antes das virtudes, está a vigilância dos lábios”.
13. Um ancião dizia:  “O silêncio está cheio de vida, mas a morte está escondida na palavra farta”.
14. O abade Isaías disse: “Prefere calar a falar, pois o silêncio entesoura e o falar dispersa”.
Sobre  a  Humildade
1. Um irmão perguntou a um ancião: “A vanglória me atormenta: o que devo fazer?” Respondeu-lhe o ancião: “Tens razão: foste tu quem fez o céu e a terra”. O irmão, tocado pelo arrependimento, disse: “Perdoa-me, pois eu não fiz coisa nenhuma”.
2. Um irmão perguntou ao abade Poemen se era melhor viver sozinho ou com o próximo. O velho respondeu: “Aquele que lamenta sempre e somente a si mesmo, pode viver em qualquer lugar. Mas, se se glorifica, então não se dará bem em lugar algum”.
3. Um ancião disse: “Não é humilde aquele que se difama a si mesmo, mas aquele que recebe com alegria as injúrias, as afrontas e as críticas do próximo”.
4. O abade Pastor disse: “O homem deve incessantemente respirar a humildade e o temor de Deus do mesmo modo que inala e expele o ar através das narinas”.
5. Num dia, o arcebispo Teófilo dirigiu-se ao Monte de Nítria e o abade do Monte veio-lhe ao encontro. “Pai”, perguntou-lhe o arcebispo, “o que encontraste de mais vantajoso neste caminho?” Respondeu o ancião: “Acusar-me e repreender-me sem trégua”. “De fato, não existe outro caminho”, replicou o arcebispo.
6. O abade Antônio disse ao abade Pastor: “A grande obra do homem é atirar a culpa sobre si mesmo diante de Deus e esperar a tentação até o último sopro de sua vida”.
7. Um irmão interrogou o abade Sisoé:  “Vejo, examinando-me, que a recordação de Deus nunca me abandona”. Disse-lhe o ancião: “Não é grande coisa que a tua alma esteja com Deus. Seria grande se tu tomasses consciência de que és inferior a todas as criaturas. Este pensamento, unido ao trabalho físico: eis o que corrige e conduz à humildade”.
8. Um ancião dizia: “Se nós nos aplicamos à humildade, não teremos necessidade de castigo. Muitos males nos vêm por causa do orgulho. De fato, se o anjo de Satanás foi dado ao Apóstolo para castigá-lo, por medo de que ele se levante, com maior razão, a nós que vivemos no orgulho, é o próprio Satanás que nos será dado, para nos importunar até que nos humilhemos”.
9. O abade Antônio perscrutava a profundidade dos julgamentos de Deus; e perguntou: “Senhor, por que alguns morrem após uma breve existência e outros chegam à velhince? Por que para alguns falta tudo e para outros há extrema abundância de bens? Por que os malvados são ricos e os bons são atirados na pobreza?” Uma voz respondeu-lhe: “Antônio, cuida de ti mesmo: estes são os julgamentos de Deus e nada te serve entendê-los.
10. Disse o abade Evágrio: “O início da salvação é condenar-se a si mesmo”.
11. O abade Moisés disse ao irmão Zacarias: “Diz-me o que devo fazer”. A estas palavras, o outro atirou-se a seus pés, dizendo: “Pai, logo tu me interrogas?” Retrucou o ancião: “Crê, Zacarias, meu filho, eu vi o Espírito Santo descer sobre ti; por isso sou obrigado a interrogar-te”. Então Zacarias tirou o capuz, colocou-o debaixo dos pés e, pisoteando-o, disse: “Se não somos pisoteados desse jeito, não podemos ser monges”.
12. Certa vez, o abade Teodoro comia com os irmãos. Erguiam os copos com respeito e sem dizer nada, nem mesmo o costumeiro “Perdoai-me”. Então o abade Teodoro disse: “Os monges perderam seu título de nobreza: a palavra “Perdoai-me”.
13. Disse o abade Pastor: “Prostrar-se diante de Deus, não dar-se nenhuma importância, jogar fora a própria vontade: eis os instrumentos com os quais a alma pode trabalhar”.
14. Disse o abade Pastor: “Não dês importância a ti mesmo, mas permanece ligado a quem se comporta bem”.
15. O abade Olímpio, de Scete, era escravo. A cada ano descia a Alexandria para levar seu ganho aos patrões. Esses vinham ao seu encontro para saudá-lo, mas o ancião colocava água numa pequena bacia e a apresentava para lavar-lhes os pés. “Não, Pai, não te incomodes!”, diziam seus patrões. “Eu sei que sou vosso escravo”, respondia, “e vos agradeço por me deixarem livre para servir a Deus. Em troca, lavarei vossos pés e recebereis aquilo que lucrei”. Os outros insistiam e, como não queriam ceder, Olímpio disse-lhes: “Crede-me: se não quereis receber o meu dinheiro, fico aqui para servir-vos”. Deste modo os patrões, cheios de deferência, deixaram-no fazer o que queria; e, à sua partida, acompanhavam-no com honra e davam-lhe o necessário para que em seu lugar distribuísse esmolas. Tudo isso o tornou célebre em Scete.
16. Disse o abade Pastor: “Um irmão perguntou ao abade Alônio o que significava desprezar-se a si mesmo. Respondeu o ancião: “Consiste em rebaixar-se abaixo dos animais e saber que eles não serão condenados”.”.
17. Disse o abade Pastor: “A humildade é a terra que o Senhor requisitou para realizar o sacrifício”.
18. Um ancião disse: “Por qualquer provação que te afligir, culpa-te somente a ti mesmo, dizendo: “Aconteceu-me por minha culpa, por causa de meus pecados”
19. Certa vez, algumas pessoas foram a Tebaide visitar um ancião. Levavam consigo um homem atormentado pelo demônio, para que o ancião o curasse. Após longamente orar, o ancião disse ao demônio: “Retira-te desta criatura de Deus!”. O demônio respondeu: “Retiro-me, mas antes te faço uma pergunta: “Responde-me: quem são os cabritos e quem são as ovelhas?”. Respondeu-lhe o ancião: “Os cabritos, sou eu; quanto às ovelhas, Deus o sabe”. A esta palavras, o demônio urlou: “Retiro-me por causa de tua humildade!”. E logo foi-se embora.
20. Um irmão perguntou a um ancião: “Indica-me somente uma coisa para eu guardar, para que eu viva fazendo isso!”. Disse-lhe o ancião: “Se puderes ser injuriado e suportar as injúrias, é algo grandioso, que supera todas as virtudes”.
21. Um ancião disse: “A terra na qual o Senhor mandou cultivar é a humildade”.
22. Um ancião disse: “Conseguiste observar o silêncio? Não creias ter feito um ato de virtude. Prefere dizer: “Sou indigno de falar”.”
23. Disse um ancião: “Se o moleiro não cobre os olhos do animal que gira o moinho, ele se voltará e comerá todo o seu trabalho. Assim, por uma disposição divina, nós recebemos um véu que nos impede de ver o bem que fazemos, de louvarmo-nos a nós mesmos e, deste modo, perder nossa recompensa. É pelo mesmo motivo que, de vez em quando, somos abandonados aos pensamentos impuros e nada vemos além deles; deste modo nós condenamos os nossos olhos e tais pensamentos são para nós um véu que cobre o pouco de bem que fazemos. Com efeito, quando o homem se acusa, não fica sem recompensa”.
24. Um irmão disse a um ancião: “Se um irmão me dirige palavras profanas, tu me permites, Pai, de dizê-lo para não fazer mais?”. Disse-lhe o ancião: “Não”. E o irmão disse: “Por que?”. Respondeu o ancião: “Porque nem nós somos capazes de observar isso e é de se temer que, dizendo ao próximo para não fazê-lo, estejamos nós no perigo de fazê-lo”.  Disse o irmão: “O que, então, se deve fazer?”. Disse-lhe o ancião: “Se soubermos calar, ao próximo basta o nosso exemplo”.
25. Perguntou-se a um ancião: “O que é a humildade?”. Ele disse: “É como se o teu irmão pecar contra ti e tu o perdoares antes que ele te peça desculpas”.
26. Há muito tempo um irmão era atormentado pelo demônio da impureza e, apesar de seu muito esforço, não conseguia livrar-se dele. Uma vez, enquanto participava da Sinapse, sentiu-se atormentado pela paixão mais do que de costume; decidiu então vencer as maquinações do demônio e pedir aos irmãos que rezassem por ele nessa intenção. E, vencendo qualquer vergona, ficou nú diante de todos os irmãos e mostrou a ação de Satanás: “Rezai por mim, meus pais e irmãos”, disse, “porque lá se vão quatorze anos que enfrento esse combate”; e imediatamente ficou livre do combate, graças à humildade que tinha demonstrado.
27. Disse um dos pais: “Os Pais penetravam no interior através da austeridade e nós, se pudermos, entremos no bem através da humildade”.
28. Dizia sempre um ancião que morava no Egito: “Não há caminho mais curto do que o caminho da humildade”.
29. Disse o abade Sisoé: “Quem trabalha e pensa que fez alguma coisa, recebe aqui sua recompensa”.
30. Disse um ancião: “A humildade não é um dos pratos do banquete, mas o tempero que dá sabor a todos os pratos”.
31. Ouvi contar de um ancião que dizia: “A quem possui a humildade de espírito é dada uma cobertura para sua moradia e uma tampa para sua marmita”.
32. Disse o abade Poemen: “A alma não alcança a humildade em nada se tu não lhe racionares o pão, isto é, se tu não a reduzires a alimentar-se apenas do necessário”.
33. Contava-se que um ancião vivia no hesicasmo nas partes planas do país e tinha um leigo cristão a seu serviço. Aconteceu que o filho deste adoeceu. Por muito tempo o pai suplicou ao ancião de ir rezar por seu filho e o ancião partiu com ele. Correndo à frente, o leigo entrou em sua casa e gritou: “Vinde ao encontro do anacoreta”. Quando o ancião percebeu-os vindo ao seu encontro com as tochas, teve a idéia de tirar a roupa, entrar no rio e por-se a lavá-la ficando nú. Quando o servidor o viu. cheio de vergonha disse ao povo: “Ide embora, pois o ancião perdeu o juízo”. Depois, dirigiu-se a ele e perguntou: “Pai, por que fizeste isso? Todo dizem: “O ancião está com o demônio no corpo”. Respondeu-lhe o ancião: “Era exatamente isso que eu queria”.
34. Por obra do demônio, o bispo de uma cidade caiu na fornicação. Num dia, quando se reunia na igreja e ninguém sabia de seu pecado, confessou-se diante do povo e disse: “Pequei”. Em seguida depôs o pálio sobre o altar e disse: “Não posso mais ser vosso bispo”. Todos choraram e gritaram: “Que este pecado caia sobre nós, mas conserva o episcopado”. Ele respondeu: “Se vós quereis que eu conserve o episcopado, fazei o que eu vos digo”. Mandou fechar as portas da igreja e deitou-se no chão diante de uma porta lateral e disse: “Aquele que passar sem me pisar com os pés, não terá parte com Deus”. Fizeram como ele pedia e, quando o último saiu, veio uma voz do céu e disse: “Por causa de sua grande humildade eu lhe perdoei o pecado”.
35. Disse o abade João, discípulo do abade Giacomo: “Meu irmão Macário me disse enquanto morria: “Duas coisas que fiz neste mundo me atormentam: comprei uma esteira para um irmão e exigi-lhe energicamente o pagamento e, tecendo, fiz dois pares de lenços com uma medida um pouco inferior, porque me faltava um pouco de fio”.
36. Um irmão interrogou um dos pais a respeito de um pensamento blasfemo: “Pai, minha alma está oprimida sob um pensamento blasfemo, tem piedade de mim e diz-me de onde vem e o que devo fazer”. O ancião respondeu: “Este pensamento nos vem porque falamos, desprezamos e criticamos; ele é sobretudo uma conseqüência do orgulho, da vontade própria, da negligência na oração, da cólera e da fúria, coisas todas que são, precisamente, os sinais do orgulho. Realmente, o orgulho faz-nos entrar nas paixões que enumerei, e delas nasce o pensamento blasfemo. E se esse pensamento ganha espaço na alma, o demônio da blasfêmia o entrega ao demônio da impureza. Muitas vezes o leva até à perda dos sentidos, e se o homem não o reencontra, está perdido”.
37. Perguntou-se ao abade Elias: “Como nos salvaremos nestes tempos?”. Ele respondeu: “Nos salvaremos pelo fato de não nos darmos valor”.
Sobre  a  Custódia  da  Mente
1. Dizia o abade Sisoé: “Corrige as inclinações de teu corpo e nada será exigido de teu coração”.
2. Um dia perguntou-se ao abade Agatão: “O que é melhor: a ascese corporal ou a custódia da mente?”. “Os homens”, repondeu, “são como as árvores; o trabalho corporal é a folhagem e a custódia da mente é o fruto: ora, todas as árvores que não dão fruto, está escrito, serão cortadas e lançadas ao fogo. Com relação aos frutos, portanto, deve-se vigiar o que nos acontece, isto é, guardar nossa mente. Também temos necessidade da sombra e da beleza da folhagem, que representam a ascese corporal”. De resto, o abade Agatão era muito dedicado e infatigável no trabalho; sustentava-se sozinho; assíduo no trabalho manual, contentava-se com pouco alimento e roupas simples.
3. Disse um ancião: “Por acaso acreditais que Satanás quer introduzir em vós todos os pensamentos? Não. É por meio de um únicop pensamento que vence a alma e espera conduzi-la à perdição. Planta nela esse único pensamento, não necessita de outro. Portanto, ficai atentos para não demonstrar agrado por um único mau pensamento”.
4. Disse um ancião: “Missão do monge é afastar para longe os próprios pensamentos”.
5. Conta-se que nas Celas vivia um ancião de dura ascese. Num dia em que recitava o Ofício, um santo homem veio à sua cela e de fora notou que ele lutava contra os próprios pensamentos. “Até quando”, dizia, “por uma única palavra perderei todo o resto?”. O que estava fora imaginou que estivesse discutindo com alguém: bateu, para entrar e conseguir um acordo entre eles. Entrando, porém, viu que não havia ninguém além do velho. E como tinha liberdade de falar com ele, perguntou: “Pai, com quem discutias?” “Com os meus pensamentos”, repondeu. “Veja: decorei quatorze livros e não ouvi mais nenhuma palavra fora daqui. Quando fui cumprir a obra de Deus, tinha esquecido tudo: somente aquela única, pobre palavra, estava em minha mente no momento de rezar o Ofício. Eis a razão pela qual brigava com meus pensamentos”.
6. Um irmão perguntou a um dos pais: “Ficamos contaminados se pensamos coisas reprováveis?”. Após ter examinado a questão entre si, alguns pais disseram: “Sim, certamente que nos contaminamos”. Outros, pelo contrário, disseram: “Não, pois se nos contaminasse seria impossível a salvação, porque nós somos frágeis; pelo contrário, é possível salvar-se desde que não realizemos corporalmente aquilo que pensamos”. O irmão que tinha feito a pergunta julgou insatisfatórias as respostas dadas pelos pais, pois eram discordantes. Dirigiu-se a um ancião mais experimentado e o consultou sobre este ponto. Respondeu-lhe o ancião: “Pede-se de cada pessoa que faça aquilo que lhe é possível”. O irmão insistiu: “Em nome do Senhor, peço-te que me expliques esta palavra”. Disse o velhinho: “Suponhamos que aqui se encontre um vaso e que é impossível vê-lo sem desejá-lo. Entram dois irmãos; um alcançou grandes virtudes com a ascese da vida e o outro, poucas. Se o espírito do monge perfeito fica perturbado ao ver este vaso e se diz: “Quero tê-lo imediatamente, mas afasta o desejo, não fica contaminado. Quanto àquele que ainda não atingiu um alto grau de virtude, se deseja esse vaso e por muito tempo rumina esse pensamento porque o desejo o consome, mas de fato não o rouba, também ele não se contamina”.
7. Um irmão disse ao abade Sisoé: “Por que as minhas paixões não vão embora?”. “Os instrumentos das paixões estão contigo”, respondeu-lhe, “mas se lhes pagares a fiança, irão embora”.
8. O abade Geronte de Petra disse: “Muitos daqueles que são tentados pelos caprichos do corpo não pecam com o corpo, mas cometem impurezas com o pensamento. E, mesmo conservando a virgindade do corpo, cometem impureza com sua alma. Portanto, amados meus, fazei como está escrito: “Cada um guarde seu coração com cuidadosa vigilância”.
9. Um irmão perguntou ao abade Arsênio: “O que devo fazer, Pai? Um pensamento me angustia: como não consigo nem jejuar nem trabalhar, devo ao menos visitar os doentes. Isso merece recompensa”. O ancião viu aí a semente do diabo: “Adiante”, repondeu-lhe, “come, bebe, dorme; apenas não sai de tua cela”. Pois sabia que a fidelidade à cela torna o monge tal como deve ser. Três dias depois, o irmão foi atingido pela indolência. Tendo encontrado alguma pequena palma, quebrou-a, e no dia seguinte começou a fazer uma corda. Quando teve fome, disse: “Eis mais alguma pequena palma: vou terminá-la e depois comerei”. Isso feito, disse ainda: “Quero ler um pouco, e depois comerei”. E, depois de ter lido: “Recitemos ainda algum salmo breve, e depois comeremos sem escrúpulos”. E deste modo, com o auxílio de Deus, pouco a pouco progredia, até tornar-se aquilo que devia ser,  e dominando seus maus pensamentos, venceu-os.
10. Um irmão, perseguido pelo pensamento de abandonar o mosteiro, abriu-se com seu abade. Ele respondeu: “Permanece na cela, oferece teu corpo como garantia às quatro paredes de tua cela. Não te preocupes com aquele pensamento. Que teu pensamento vá aonde quiser, mas que teu corpo não saia da cela”.
11. O abade Amon interrogou o abade Pastor a respeito de pensamentos impuros e vãos desejos do coração humano. Respondeu o abade: “Um machado pode gloriar-se de alguma coisa sem aquele que o usa para cortar? Pois bem: não cultives esses pensamentos e ficarão sem efeito em ti”.
12. Também o abade José interrogou o abade Pastor a respeito de pensamentos impuros. Respondeu-lhe o abade Pastor: “Se prendemos uma serpente ou um escorpião num vaso e depois o tapamos, após certo tempo serão sufocados. A mesma coisa acontece com os maus pensamentos que o demônio faz germinar em nós; pouco a pouco serão sufocados pela paciência de quem os teve.
13. Um irmão visitou o abade Pastor e lhe disse: “Vêm-me muitos pensamentos e me põem em perigo”. Então o ancião levou-o a céu aberto e lhe disse: “Estende teu hábito e dentro dele prende o vento!” O irmão respondeu: “Não posso fazer isso!”. “Portanto”, respondeu o ancião, “se não podes fazer isso, muito menos podes impedir o surgimento desses pensamentos; mas, o que podes fazer é resistir-lhes”.
14. Um irmão interrogou um ancião: “O que fazer? Uma multidão de pensamentos me ataca e não sei como resistir”. Disse o ancião: “Nunca lutes contra todos, mas contra um só. Porque todos os pensamentos dos monges têm apenas uma cabeça. Portanto, é necessário examinar qual seja realmente esse único pensamento e qual a sua natureza, para depois lutar contra ele. Então todos os outros pensamentos perderão sua força”.
15. Quando o abade Pastor se preparava para ir ao Ofício, primeiro se sentava, à parte, por uma meia hora, para desvencilhar-se dos pensamentos. Depois saía.
16. “A cada pensamento que aparece”, diziam os velhos, “pergunta: “És dos nossos ou vens do inimigo?”. E ele será obrigado a confessar-te”.
17. Disse um ancião: “O esquecimento é a raiz de todos os males”.
18. Um irmão atormentado pelos maus pensamentos sofria muito e, pela sua grande humildade, dizia: “Eu, com tais pensamentos, não posso alcançar a salvação”. Dirigiu-se então a um grande ancião e recomendou-se a suas orações para que se livrasse desses pensamentos. Disse-lhe o ancião: “Isso não te serve, meu filho”. Mas ele insistia com veemência. E como o ancião rezou, Deus livrou o irmão do combate; e imediatamente ele caiu na presunção e no orgulho. E dirigiu-se ao ancião para pedir-lhe que retornassem os pensamentos e a humildade que possuía.
19. Se és atacado por pensamentos impuros, não os escondas, mas conta-os logo ao teu diretor espiritual e assim os dominarás. Pois, na medida em que escondemos os próprios pensamentos, eles se multiplicam e ganham força. Do mesmo modo que uma serpente sai de sua toca e foge correndo, assim os maus pensamentos, uma vez denunciados, desaparecem. Como um verme a madeira, assim os maus pensamentos corróem o coração. Quem manifesta seus pensamentos logo fica curado; quem os esconde, comete o pecado do orgulho. Pois, se não tens confiança suficiente em alguém para revelar-lhe tuas lutas, essa é a prova de que não tens humildade. A quem é humilde todos parecem santos e bons, enquanto que a si mesmo se considera o único pecador. Por outro lado, se alguém invoca a Deus com todo o coração e interroga um homem a respeito de seus pensamentos, o homem lhe responde ou, mais ainda, é Deus que responde como se deve pela mediação do homem, ele que abriu a boca da burrinha de Balaão, mesmo se o interrogado for indigno e pecador.
20. Um irmão perguntou a um ancião: “Que devo fazer, Pai, para combater os pensamentos que vêm das paixões?”. Ele respondeu: “Invoca o Senhor, para que os olhos de tua alma enxerguem os socorros que Deus envia  ao homem para serem sua defesa e protegê-lo”.
21. Um irmão perguntou a um ancião: “Que devo fazer quando meus pensamentos me perturbam?”. Ele respondeu: “Diz-lhes: Me dizem respeito? Que devo fazer com vocês?”. E terás o descanso. Não contes contigo para nada, joga tua vontade fora, não tenhas nenhuma preocupação, e os pensamentos fugirão para longe de ti”.
22. Um irmão interrogou um ancião e lhe disse: “Que queres que eu faça com esses maus pensamentos que penetram em meu coração?”. Respondeu-lhe o ancião: “Vê a veste que guardas no baú e lá esqueces, sem tirá-la nem sacudi-la: vai se perder, não terá mais nenhuma utilidade para ninguém. Mas, se tu sacodes a veste e constantemente a vestes, não se estragará, mas se conservará. Assim acontece com os maus pensamentos, se tu falas deles e os alimentas, eles fincarão sempre mais a raíz em teu coração, crescerão e não te abandonarão. Se, pelo contrário, tu não falares deles, em vez de alimentá-los os odiares, morrerão e abandonarão teu coração”.
23. Falou um ancião a respeito dos pensamentos impuros: “É por negligência que nos os toleramos; porque, se estivéssemos convencidos de que Deus habita em nós, nunca introduziríamos em nós qualquer coisa estranha: o Cristo Senhor, que vive em nós e conosco é testemunha de nossa vida. Por isso, nós que o carregamos e o contemplamos, não devemos distrair-nos mas santificar-nos, porque ele é santo. Firmemo-nos na Rocha, e o rio pode lançar contra nós suas ondas e não haverá nem temor nem queda. Canta a alma tranqüila: “Os que confiam no Senhor, são semelhantes ao monte Sion: nunca será agitado quem habita Jerusalém”.

“Ditos e Feitos dos Pais do Deserto"
Rusconi Editores - tradução de padre José Artulino Besen