No
livro “Sobre a acusação de si mesmo”, Jorge Mário Bergoglio, na época,
Arcebispo de Buenos Aires, agora Papa Francisco, expõe sobre esse tema na
Assembleia Arquidiocesana. Com linguagem simples, o texto extrapola a dimensão
temporal e regional, tornando-se um presente para a humanidade inteira.
Bergoglio
propõe como grande penitência e mortificação o acusar a si mesmo, ou seja,
o recolhimento pessoal diante de si, dos outros e de Deus das faltas cometidas.
Visto que o preocupa o crescente vício de acusar, apontar e condenar, atitudes
bastante presentes no meio eclesial atualmente. Baseia suas reflexões e
apontamentos a partir de São Doroteu de Gaza, monge e abade do século VI e VII.
O
espírito da unidade eclesiástica e cristã se vê prejudicado pela fofoca. “Há
homens de juízo temerário, detratores, maldizentes, murmuradores, suspeitos do
que não veem, procurando acusar o que nem mesmo suspeitam” (Sermão 47),
nos dizeres de Santo Agostinho. Neste caso, a pessoa fabrica suas suspeitas.
Falar mal dos outros é um mal para toda a Igreja. Grupos que lutam para impor a
hegemonia de seu pensamento e de sua preferência são recorrentes, falta o
respeito e a caridade.
Bergoglio
propõe uma atitude no coração, acusar-se a si mesmo. Essa atitude, no entanto,
implica valentia pouco comum para abrir a porta a coisas desconhecidas e deixar
que os outros vejam além da própria aparência. Essa proposta vai ao encontro de
um exacerbado individualismo, de uma crescente parcialidade na vida de
comunidade, dentro de um enfraquecimento da verdade, real ou parcial, aparente
ou falaciosa, e de um espírito de suspeita e desconfiança, onde sempre se
encontra razões para se defender dos próprios erros, faltas e mediocridades.
Nesta
superficial, fragmentada e volátil situação Deus não está presente, pois é o
Senhor do tempo real, do passado constatável e do presente discernível. É o
Senhor do futuro, da Promessa que pede confiança e abandono. Segundo o Beato
jesuíta, Fabro, “nem sempre o demônio tenta com uma mentira, pode ser a
tentação uma verdade, mas vivida no mau espírito”.
Na
Doutrina de Doroteu de Gaza, é o próprio demônio que semeia a suspeita no
coração para dividir. Fenomenologia inversa da Encarnação do Verbo: o demônio
busca dividir (por meio da suspeita) para depois confundir; o Senhor, no
entanto, apresenta-se sempre Deus e Homem – indivise et inconfuse –
indivisível e não confuso. Ao semear a suspeita o demônio busca convencer por
falácias, configura uma regra distorcida no coração, distorce toda a realidade
“fizeram-me sem razão”. Daí o sentimento de ‘colecionador de injustiças’,
espiritualidade de vítima e de complô.
Tais
atitudes demonstram uma inteligência doente, onde se encontra orgulho de seu
valor intelectual. Esquece-se de que o pecado original a afetou.
Inteligências profundamente feridas, doentes e destruidoras. Uma
inteligência doente falseia as inteligências ao redor, mantém sua doença devido
a uma paixão que aprisiona a verdade (cf. Rm 1,18ss). Uma inteligência que é
sadia pronuncia palavras que nascem do coração e produz pontes e não de uma
mente doente e produz muros.
Junto
a essa atitude existe o estado de ansiedade, fruto combinado da ira e preguiça,
daí se desconhece a paz própria da confiança no Senhor. No mecanismo da
suspeita –sob roupagem de amor a verdade- esconde-se uma refinada busca de
prazer (prazer sigiloso), onde se produz cascatas de argumentos na busca de
salvaguardar uma vontade por traz das ideias. Move-se no pêndulo em busca de
gozos imaginários para defender-se de temores imaginários. Suspeita e
desconfiança conduz os homens à típica amargura de acusar a Deus. Atitudes
eticistas que, pela fantasia condenam a priori, sob aparência de suspeita
qualquer aproximação dos outros. A acusação de si mesmo, ou o ‘desprezo’ de si
mesmo, espanta a suspeita e dá lugar para a ação de Deus, que é e faz a união
dos corações.
Ao
acusar, o coração se abaixa, abaixamento do Verbo, abaixamento da Cruz,
que é o que possibilita o acesso a Deus, o acesso ao irmão é realizado pelo
próprio Cristo. Conduz a humildade, caminho da humilhação, caminho de luta, mas
de vitória garantida. Deve-se lutar, submeter-se à tentação, atrair o diabo,
mas por fim, vencer com Cristo.
A
mansidão cristã transcende o âmbito das regras e dos bons costumes para
alcançar – na mansidão do cordeiro – sua raiz profunda e seu modelo acabado.
Quem acusa a si mesmo abre espaço para a misericórdia de Deus, sempre se
aproxima bem dos outros, como o bom samaritano, e nessa aproximação é o próprio
Cristo que realiza o acesso aos outros de forma pacífica e humilde, como
descrito nos capítulos 2 e 3 do clássico livro ‘Imitação de Cristo’. O
caminho reto nos ensina a acusar a si mesmo, o caminho tortuoso acusar o
próximo.
"Onde há vontade, há um Caminho"

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