Fuge (foge): em sentido
negativo, fugir, deixar a cidade, deixar as futilidades, deixar as paixões,
deixar aquilo que afasta de Deus, fugir do que arrasta para o pecado (pecado é hamartia
– errar o alvo, o esquecimento do Ser; ao contrário de anamnesis – “fazei anaminesis
de mim”). “O mundo é o mundo do esquecimento” (Marcos, o Eremita). O mundo é de
morte, pois “jaz no maligno”. Em sentido positivo, fuga é fugir para Deus
e para tudo o que leva a Ele, “fugir para o Alguém, fugir para o Único, fugir
unificado para o único Um”. Sair do mundo e o mundo sair de dentro de ti.
Sentido psicológico e sociológico: fuga como necessidade vital do ser humano.
Fuga da opressão, das relações senhor/escravo (fuga do Egito), das competições
hierárquicas, da necessidade de “status”. Fugir para evitar os males
psicossomáticos. “Fugir para fora do mundo para Alguém que não é deste mundo,
para se perceber que o mundo não tem em si seu sentido e fim” (Arsênio). Fuga
implica em movimento, saída. Figuras bíblicas: Abraão, Jacó, os israelitas,
Elias, João Batista, Jesus, Paulo. Jesus “fugiu dos céus, dos seus pais, dos
seus perseguidores, dos seus aduladores, do mundo e dos seus discípulos”.
Tace
(cala-te):
“quem domina a língua domina o corpo” (Tiago). “De toda palavra ociosa que o
homem disser dela dará conta no dia do juízo”, “a boca fala do que está cheio o
coração”, “pela tua palavra será justificado ou condenado”, “o que sai da boca
é que torna alguém impuro” (Jesus). “Não é preciso fazer silêncio, pois ele já
existe”. “Derrubar uma árvore faz mais barulho do que o crescimento de toda uma
floresta”. Calar-se para ouvir a Deus. Calar-se para ser capaz de Deus. Calar
porque Deus habita no silêncio. “O Senhor está no seu Santo Templo, cale-se
diante d’Ele toda terra” (Hc 2.20). “O julgar pode ser uma inconsciente
autoprojeção sobre o outro”. “Quando ninguém lhe parece impuro, então te
tornaste puro” (Isaac o Sírio). “A oração surge do silêncio e ao silêncio
retorna”. “Tua palavra surge do silêncio e ao silêncio retornará”. “Que teu
verbo venha de Deus e retorne para Deus”. Os perigos do muito falar (Anselm
Grun): a curiosidade, pois leva a falar demais dos outros. “Um monge nunca deve
andar atrás de saber como é este ou aquele; tais perguntas apenas o afastam da
oração e levam às calúnias e às conversas vãs; por isso, o melhor é calar-se
inteiramente” (Apo 996). O julgamento. “Quando dois irmãos marcavam para
conversar, Satanás enviava para aquele local o demônio da maledicência”. A vaidade.
“A tagarelice é o trono da vanglória, onde ela senta-se em juízo sobre si mesma
e toca o trombone sobre si para o mundo inteiro” (São João Clímaco). A dispersão
interior. “Assim como as portas do banho quando ficam sempre abertas
rapidamente deixam o calor escoar-se de dentro para fora, assim também quem
muito fala, mesmo que fale coisas boas, deixa sua lembrança fugir pelo portão
da sua voz” (Diádoco). “Assim como para comer carne é preciso matar, é
impossível falar muito, mesmo sobre coisas boas sem tocar as ruins” (S. Bento).
“Às vezes, deformamos uma coisa ao falar muito a respeito dela” (H. Nouwen).
Cuidado com o silêncio doentio: “o que torna os mortos tão pesados é o
peso das palavras que não souberam dizer”. Pela terapia, “faça sair o veneno da
goela da serpente”. “Que teu silêncio não seja irresponsável”.
Quiesce (tranquiliza-te): repouso,
descanso, paz, hesychia, shalom. É a paz interior decorrente do casamento da
alma com Deus. “Encontra a paz interior e uma multidão será salva ao teu lado”
(Serafim). “Um ser de paz comunica sua calma ao mundo inteiro”. “O
verdadeiro homem espiritual não é o homem poderoso, e sim o homem manso”. “Deus
busca entre os homens um lugar para o seu repouso”. “Deus não pode repousar em
um coração agitado”. “E vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe
e aos que estavam perto” (Ef 2.17). “Ora, o fruto da justiça semeia-se na paz,
para os que exercitam a paz” (Tg 3.18). Jesus é o nosso Shabbat, daí, fugimos
para estar com Ele e n’Ele. “Todo trabalho deve conduzir ao descanso” (Leloup).
“Não trabalhar um dia é tão mandamento quanto não roubar ou adulterar”. “Fiz
sossegar a minha alma” (Sl 131.1-2). “Não andeis preocupados por coisa alguma”
(Jesus). “Colocai toda sua ansiedade sobre Deus” (Paulo). “A principal obra da hesychia
(sossego da alma) é a ameriminia (despreocupação) perfeita de todas as coisas,
razoáveis ou não” (João Clímaco). “Quem abre a porta às preocupações razoáveis,
abre também às que não são”. A quietude interior é um estado de alma que não
sofre nenhuma partilha: ou é total, ou não existe. “Um pequeno cisco atrapalha
a visão, uma pequena preocupação faz a alma perder a paz”. Eliminar a
preocupação passa pelo contentamento: “deseja tudo o que tens e tens tudo o que
desejas”. “Não está em paz quem se compara com os outros”. “Onde há inveja, não
há paz”. “Só os humildes vivem em paz”. “Só vive em paz quem se coloca como
último de todos e servo dos demais”. Acima de tudo, a paz não é algo que se
conquista, mas um dom recebido: Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la
dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize (Jo
14.27).
Tratamento (terapeia)
das paixões (pathos).
A
contemplação de si faz com que os padres dos desertos fossem os primeiros
psicólogos. “Vou para o deserto para poupar o mundo de mim mesmo”. O ser humano
em estado patológico identificado nos logismoi (pensamentos): gastrimargia
(gula); philarguia (avareza); porneia (obsessão sexual); orgè (cólera,
patologia do irascível); lupè (tristeza, melancolia, sentir-se um lixo); acedia
(perda de entusiasmo pela vida espiritual, depressão, impulso de morte, tudo
foi inútil, demônio do meio dia); kenodoxia (inflação do ego, vanglória); uperèphania
(orgulho). O objetivo é alcançar um estado de “apathea” (ausência de paixões =
patologias). Evágrio Pôntico escreveu sobre esse tema no Oriente, e foi trazido
ao Ocidente por João Cassiano, em que a “apathea” foi traduzida por “puritas
cordis” (pureza de coração).
Ascética: exercício,
batalha, luta, renúncia, “usufruir o máximo do mínimo” (palavras, natureza,
alimentação, bens, etc). “A verdadeira ascese consiste em saborear” (Anselm
Grün). “Portanto, para alcançar a pureza de coração e o amor, é necessário que
façamos tudo quanto realizamos por meio das obras ascéticas; pois elas são os
instrumentos que podem libertar nosso coração de todas as paixões prejudiciais
que nos atrapalham no progresso para a plenitude do amor. Assim, nós praticamos
o jejum, as vigílias noturnas, o recolhimento, a meditação nas Sagradas
Escrituras, etc., por almejarmos a pureza de coração, que consiste no amor.
Assim, o que quer que façamos, devemos fazê-lo a fim de tornar-nos
verdadeiramente amantes. É por isso que o amor é normativo em tudo. Atingi-lo é
a finalidade de nosso agir...” (João Cassiano) “Se a humanidade não assumir uma
postura ascética diante da existência, corre o risco de destruir o mundo”
(dimensão ecológica, L. Boff). Mas também há a advertência contra a ascese
exagerada, o que não era incomum: “Há alguns que desgastaram seus corpos por
meio da penitência. Mas por ter-lhes faltado o discernimento, acabaram se
afastando de Deus” (Antão, Apot 8).
Caridade: “ter o
mínimo para que possa dividir o máximo com o meu próximo”.
Theosis: deificação;
divinização do ser; Cristo vivendo em si (Gl 2.20); divinos por coparticipação
(2 Pe 1.4); tornar-se semelhante a Ele (I Jo 3.2), é o objetivo de Deus na vida
dos eleitos (Rm 8.29). Salvação é participação na natureza divina. “Deus se fez
homem para que o homem pudesse se tornar deus” (Atanásio de Alexandria). Deus
realiza estes atos na vida dos fiéis, na concepção oriental, por intermédio
principalmente dos sacramentos, que em princípio, não tinham um número
limitado, pois em Cristo, toda a realidade é sacramental. Sacramento é o meio
natural pelo qual a graça sobrenatural de Deus se revela, ou o meio visível
pelo qual a graça invisível se manifesta. Exemplos de sacramentos: a natureza
(Sl 19.1); a eucaristia (1 Co 10.16); a Palavra (Ef 5.15); a oração (Tiago
5.14); a congregação (Mt 18.20).
"Onde há vontade, há um Caminho"

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