Como
o modo de andar ou de falar de uma pessoa pode demonstrar a santidade
de sua alma.
Cada época
histórica possui grandes homens característicos. Santo Odilon o foi
para a Idade Média: grandioso no sentido verdadeiro da palavra.
Apesar de possuir
grande valor pessoal, o que sobretudo transparecia em nosso santo
eram as graças sobrenaturais — incomparavelmente mais preciosas do
que qualquer valor pessoal — que adornavam sua alma.
Sua personalidade
tinha tal amplitude harmônica de aspectos, como não se encontra nos
grandes homens do tempo da Revolução.
O
modo de andar
Passemos a comentar
trechos de sua vida, retirados de uma ficha biográfica: “Comecemos
por seus méritos menores. E digamos que esse homem tinha um andar
grave, uma voz admirável, ele falava bem. Era uma alegria vê-lo.”
Ao descrever o porte
e o modo de ser do santo, o autor ressalta mais os sinais da virtude
do que a virtude propriamente dita.
O modo de andar das
pessoas as define muito, e por causa disso o biógrafo, contemporâneo
de Santo Odilon, julgou que deveria começar a descrevê-lo pelo
passo. O que é um passo grave? É um passo firme, varonil, de alguém
que, ainda que não tenha diante de si obstáculos visíveis, anda
vencendo. É um passo cheio de consequências e de ponderação.
Compostura
respeitosa
“Cada
um de seus movimentos exprimia honestidade. Sua fisionomia era
angélica e seu olhar sereno.”
Honestidade, no
francês antigo, significava compostura. Un honnête homme
significava um homem muito composto, muito digno. Vê-se, então, que
todo o modo de ser de Santo Odilon era cheio de compostura e de
dignidade.
É preciso ressaltar
também que na Idade Média o conceito de anjo não era o desse tipo
de anjinho gorduchinho, com ares de irresponsável. Não seria um
elogio dizer para alguém que ele tem aquela carinha. A ideia que o
medieval fazia dos anjos era a que está expressa nos vitrais
medievais: os grandes heróis do Céu; príncipes na presença do
Altíssimo.
Percebe-se, assim, o
que o autor quer dizer quando afirma que “sua fisionomia era
angélica”. Este era Santo Odilon, que grande figura!
Continua a ficha:
“Cada
dobra de seu hábito sacerdotal apresentava dignidade e mostrava o
respeito que ele tinha por si mesmo e pelos outros.”
Santo Odilon sabia
que era a “alma” do grande movimento de Cluny, o qual, por sua
vez, era a “alma” irradiante da Idade Média.
A verdadeira
humildade consiste em respeitar-se a si próprio como deve ser
respeitado.
Sabendo ser Superior
de uma Ordem religiosa, homem sagrado por Deus, ele se respeitava
enormemente. Vemos que o porte desse varão de Deus era, ao mesmo
tempo, principescamente angélico e cheio de humildade.
Alma
luminosa
Continua a narração:
“Ele
trazia consigo qualquer coisa de luminoso, que convidava a imitá-lo
e venerá-lo. A luz da graça, que estava nele, brilhava, por assim
dizer, no exterior, e manifestava a qualidade de sua alma.”
O autor soube fixar
essa luminosidade que havia em Santo Odilon, a qual nota-se em tantos
santos. Ela é algo difícil de descrever, pois trata-se de uma
luminosidade do olhar e de algo que paira em torno da personalidade.
Assim como há algo
que distingue um homem morto daquele que apenas dorme, há também
uma luz na fisionomia do santo, a qual o distingue de quem não o é.
“Seu
rosto exprimia a uma vez a autoridade e a benevolência.”
O autor acentua
muito bem os contrastes: autoridade e benevolência.
Imaginemos um
claustro medieval, repleto de ogivas, e Santo Odilon andando sozinho.
Ao longe, um noviço o vê e se ajoelha, Santo Odilon passa e o
abençoa.
É bem o contrário
daquilo que a Revolução procura incutir nas mentalidades: quem tem
autoridade é uma espécie de fera que subiu e, quando encontra a
oportunidade de pisar nos outros, fica contentíssima, como quem diz:
“Eu apanhei até subir; agora desconto nos que estão embaixo.”
Uma concepção da
autoridade não pode ser mais ordinária do que essa.
Pelo contrário, a
autoridade existe para fazer o bem. Sua missão é cumprir a
benevolência. Benevolência quer dizer querer o bem dos outros.
“Para
os bons, ele se mostrava risonho e acolhedor, mas, para os orgulhosos
e rebeldes, se tornava tão terrível que era difícil conseguirem
fitar seu olhar.”
Que verdadeira
maravilha! Eu tenho entusiasmo por essa arma do homem que é o olhar.
Quão poucos homens a possuem! O autor dessa ficha soube ver o olhar
terrível de Santo Odilon. Isso é admirável! Terrível como um
exército em ordem de batalha!
“Seus
olhos brilhavam com brilho singular: eram olhos acostumados às
lágrimas.”
Como o mundo moderno
não compreende mais isso! O mundo moderno só gosta dos olhos
habituados a rir; olhos estultos e néscios, os quais só dizem o que
sente o egoísmo. O mundo antigo compreendia qual era o valor dos
olhos habituados a chorar pelas coisas santas. Chorar pela Paixão de
Nosso Senhor, chorar pelos pecados, pelos outros e por si. O pranto
sagrado transforma o interior do olhar e o faz luminoso como uma
linda rosácea banhada pelos raios do sol.
“Mesmo
em viagem, Santo Odilon trazia sempre um livro nas mãos. Enquanto
viajava a cavalo, sua alma refazia as forças através da leitura.”
Não entendamos isso
à maneira moderna, onde o indivíduo tira do bolso um livrinho e lê
comodamente. Devemos pensar que os livros do tempo de Santo Odilon
eram in-fólios, pesadões, feitos em pergaminho.
Apesar disso ele
tinha sempre um livro consigo. Quer dizer, ele aproveitava todos os
pequenos interstícios para ler alguma coisa e assim desenvolver seu
espírito na meditação das coisas celestes.
Ademais, a locomoção
não era como hoje em dia! Viajava-se a cavalo ou a burro. E as
estradas, como eram? As mais precárias possíveis. As menores
distâncias eram transpostas em longos períodos.
Imaginemos, então,
que cena pitoresca: o cavalo trotando e Santo Odilon com uma das mãos
na rédea e com a outra segurando um pergaminho escrito com umas
letras enormes; ele enrola a folha que terminou de ler, pensa um
pouco, coloca essa folha num saco, e tira outra página. O animal
andando em meio de precipícios, onde Santo Odilon para e pede o
auxílio do Anjo da Guarda! “Gloria tibi, Domine”... E
continuava.
Autoridade
e benevolência, virtudes indissociáveis
“Santo
Odilon difundia a caridade fraterna por sua própria feição, antes
de ensiná-la. E ele a ensinava, sobretudo por seus atos. “Amando
seus irmãos com o interno calor de sua alma, o santo queria
engrandecer a cada um deles, e levá-los ao amor de Deus. Jamais
desprezava ou rejeitava pessoa alguma; por sua caridade —
verdadeiramente divina — ele convidava a todo o mundo, sem nenhuma
reserva, a aproveitar de sua indulgência, pois aquele que é
verdadeiramente grande arde nesse desejo de amar o próximo.”
Santo Odilon foi
abade de Cluny numa época em que a íntima conjugação das
instituições temporais e espirituais fazia de um abade um
personagem de grande importância. E, tomando em consideração que
Cluny representava a maior abadia francesa do tempo, ser seu abade
significava ser um dos homens mais consideráveis da estrutura
política e social da Idade Média.
Ademais, o mosteiro
de Cluny possuía os direitos feudais sobre grande quantidade de
terras, e isso dava a Santo Odilon não só o poder espiritual, mas
também o material. Ele, por sua reputação pessoal, pelo prestígio
de sua santidade e cultura, estava elevado muito acima de seus
contemporâneos.
Esse homem, tão
insigne por uma porção de circunstâncias, sabia, entretanto, ser
muito paterno para com os monges colocados sob a sua jurisdição.
Então, o biógrafo
mostra como ele se aproximava de cada um com afeto, entrando em seus
problemas pessoais para resolvê-los, e fazendo junto a cada um o
papel de Bom Pastor.
Continua a ficha:
“Pois,
como é natural, quanto mais alto é um homem, tanto maior é a
caridade que ele tem para com os seus irmãos.”
Segundo o espírito
que sopra no mundo depois do Protestantismo e da Revolução
Francesa, tem-se a errada ideia de que quanto mais um homem é
elevado, mais ele despreza os que estão abaixo de si; o superior vê
no inferior um concorrente, o qual quer subir e necessita ser
espancado para não ter êxito; o inferior, por sua vez, vê no
superior um tirano que está lhe explorando e precisa ser derrubado.
Desse modo, em qualquer lugar onde haja um degrau hierárquico, há
uma luta entre superior e inferior.
Na história de
Santo Odilon vemos o contrário. Quanto mais elevado está um homem,
mais ele deve tender à bondade, à proteção dos inferiores e a
exercer uma autoridade benfazeja.
Onde está o
fundamento da ideia de autoridade, como ela era exercida por Santo
Odilon?
São Tomás de
Aquino explica, esplendidamente, que o superior está para com o
inferior como uma imagem de Deus. Quer dizer, ele deve proteger o
menor, orientá-lo, guiá-lo, à semelhança de como Deus protege
todas as suas criaturas.
Na ordem
estabelecida por Deus, os anjos são desiguais, o superior guia o
inferior.
Isso se verifica
também no mundo humano. Os mais eminentes — por seu poder, talento
ou autoridade — devem representar a Deus junto aos que estão
abaixo de si e fazer-lhes bem.
Segundo essa
consideração, quanto mais alta é a autoridade de alguém, maior é
a responsabilidade que ele tem de fazer bem aos outros.
Por isso os súditos
devem amar especialmente suas autoridades e querer bem aos que estão
constituídos numa dignidade especial.
Este é o princípio
que rege a Santa Igreja Católica. Por exemplo, numa paróquia, não
é razoável que um fiel ame o seu Vigário e espere dele toda
proteção e apoio? Mas, o fiel deve amar ainda mais ao Bispo. E, por
isso, não há motivos para esperar maior bondade do Bispo do que do
Vigário? E o Papa, não deve ser ainda mais venerado? E não há
também motivos para esperar mais indulgência dele do que do
Prelado?
A
“poluição” do mundo moderno
Essas são
considerações que nos descansam da brutalidade de todos os dias!
Não é verdadeiro
que nos despolui pensar nisso?
Quando leio nos
jornais matérias referentes à poluição em nossas cidades, tenho
vontade de dizer: “Vocês não percebem que o que mais polui o
mundo contemporâneo é o homem contemporâneo? Não há chaminé que
polua mais do que a Revolução!” A verdadeira despoluição se
daria quando tivéssemos na terra verdadeiros “Santos Odilons”...
Ó Cruz, meu refúgio, ó Cruz, meu caminho e minha força, ó Cruz,
estandarte inexpugnável, ó Cruz, arma invencível!
A Cruz repele todo mal, a Cruz afugenta as trevas. Pela Cruz, percorrerei o caminho que conduz a Deus. A Cruz é minha vida, mas para ti, ó inimigo, ela é a morte. Que minha nobreza seja a Cruz de Nosso Senhor.
A Cruz repele todo mal, a Cruz afugenta as trevas. Pela Cruz, percorrerei o caminho que conduz a Deus. A Cruz é minha vida, mas para ti, ó inimigo, ela é a morte. Que minha nobreza seja a Cruz de Nosso Senhor.
(Invocação à Cruz, por Santo
Odilon, Abade de Cluny)
Ó Cruz, meu refúgio, ó Cruz, meu
caminho e minha força, ó Cruz, estandarte inexpugnável, ó Cruz,
arma invencível!
A Cruz repele todo mal, a Cruz afugenta as trevas. Pela Cruz, percorrerei o caminho que conduz a Deus. A Cruz é minha vida, mas para ti, ó inimigo, ela é a morte. Que minha nobreza seja a Cruz de Nosso Senhor.
A Cruz repele todo mal, a Cruz afugenta as trevas. Pela Cruz, percorrerei o caminho que conduz a Deus. A Cruz é minha vida, mas para ti, ó inimigo, ela é a morte. Que minha nobreza seja a Cruz de Nosso Senhor.
(Invocação à Cruz, por Santo Odilon, Abade de
Cluny)
"Onde há vontade, há um Caminho"
