Santo
Afonso Maria de Ligório
Compilação
de textos do Santo Doutor,
pelo Pe.
Saint-Omer, C.SS.R.
I. Grande utilidade da leitura espiritual
A leitura espiritual nos é talvez tão
útil na tendência à perfeição como a oração, porque ela nos
conduz tanto à oração como à virtude, diz São Bernardo (De modo
bene viv., c. 59). "A meditação e a leitura espiritual, diz o
mesmo Santo, são excelentes meios para se vencer o demônio e
conquistar o Céu". Não podemos ter sempre nosso diretor
espiritual junto de nós para pedir-lhe conselho em todas as nossas
ações e, especialmente, em nossas dúvidas; a leitura espiritual,
porém, supre o seu lugar, dando-nos as luzes de que necessitamos e
os meios de evitar os enganos do demônio e do amor próprio, e de
viver segundo a Vontade de Deus. E por isso, segundo afirma Santo
Atanásio, não se encontrará um fervoroso servo de Deus que não
seja dado à leitura de livros espirituais.
Do mesmo modo, tanto quanto é
perniciosa a leitura de maus livros, é útil a leitura dos bons.
Como aquela precipita tantas vezes a mocidade na perdição, assim
esta é, muitas vezes a causa da conversão de muitos pecadores.
O autor dos livros bons é, em última
análise, o Espírito de Deus, ao passo que o demônio é
propriamente o inspirador dos maus. Este sabe esconder a muitos o
veneno de que estão impregnados esses livros, pretextando que, pela
leitura deles, se apropria um bom estilo ou uma reta norma de vida,
ou que, pelo menos, assim se aproveita convenientemente o tempo. Eu
afirmo, de minha parte, que não há coisa mais prejudicial que a
leitura de maus livros, particularmente para aqueles que desejam
levar uma vida devota.
Por maus livros entendo não só os
que a Santa Sé proibiu em razão de sua matéria herética ou
imoral, mas também todos os que tratam de amores profanos. Que
piedade poderá ter um cristão que se ocupa com a leitura de
romances ou de novelas amorosas? Que recolhimento de espírito terá
ele na meditação ou na santa Comunhão? Mas que mal poderão causar
os romances e poesias mundanas, que nada têm de indecoroso? -
perguntará alguém. Causam um mal imenso: excitam a sensualidade;
inflamam as paixões, que facilmente arrastam consigo a vontade, ou,
ao menos, a enfraquecem tanto que o demônio já encontra o coração
preparado para uma queda desastrosa no abismo do pecado, quando
sobrevêm uma ocasião para um amor impuro.
Um douto escrito diz que a heresia se
alastrou tanto e ainda se espalha cotidianamente, justamente em
conseqüência da leitura de tais livros, porque essa leitura
favorece a imoralidade, que aplaina o caminho para o erro. O veneno
de tais livros penetra pouco a pouco na alma, apodera-se do
entendimento, corrompe e perverte a vontade, e traz a morte à alma.
Em verdade, o demônio não possui talvez um meio mais seguro para
perverter os jovens do que a leitura de livros tão venenosos. Um só
livro dessa espécie pode bastar para perder toda uma família.
Por isso, querido leitor, se chegar
às tuas mãos um tal livro, lança-o imediatamente ao fogo, para que
não apareça mais; e, se és pai de família, faze o que estiver em
tuas forças para afastar de tua casa uma tal peste, se não quiseres
dar um dia rigorosas contas a Deus.
Nota do tradutor: Os mesmo vale dos divertimentos
atuais: teatros, cinemas, bailes, etc., e principalmente dos jornais
Além disso, deves notar bem, alma
cristã, que alguns livros não são em si mesmos maus, mas, em todo
caso, não podem concorrer para o teu bem espiritual e, por isso, a
leitura desses livros é prejudicial, porque te rouba muito tempo,
que poderias empregar em coisas úteis à tua salvação. São
Jerônimo, no retiro de Belém, lia com grande gosto os escritos de
Cícero, como ele conta à sua discípula Eustóquium, enquanto que
achava certa repugnância na leitura da Sagrada Escritura, cujo
estilo lhe parecia muito simples. Sobreveio-lhe, então, uma grave
enfermidade, na qual pareceu-lhe estar diante do tribunal de Jesus
Cristo. À pergunta do Senhor de quem ele era, respondeu o Santo: Eu
sou um cristão. Mentes, respondeu-lhe o divino Mestre, és um
ciceroniano, e não um cristão. E Jerônimo, por mandado do divino
Juiz, foi castigado por um Anjo. Ele prometeu emendar-se e, voltando
a si, percebeu que suas costas estavam todas feridas pelos açoites
que recebera nessa visão. Desde então, deixou o Santo a leitura das
obras de Cícero, e dedicou-se à leitura da Sagrada Escritura.
Não resta dúvida que, às vezes, se
encontra nos livros mundanos um ou outro pensamento que é proveitoso
para a vida espiritual, mas, como escreve São Jerônimo a uma de
suas discípulas, "por que procuras alguns grãos de ouro em tão
grande imundície?" (Ep. ad Fur.). Lê livros piedosos, onde
encontrarás ouro puro, sem mistura impura alguma.
[...]
Consideremos os preciosos
frutos que produz a leitura de bons livros.
Primeiramente, os bons livros
enriquecem o nosso coração de bons pensamentos e santos desejos, ao
passo que os maus livros enchem o nosso coração de pensamentos
mundanos e sumamente prejudiciais. Quem emprega seu tempo na leitura
de livros vãos, pelos quais nascem em sua alma uma multidão de
pensamentos mundanos e inclinações terrenas, não poderá de forma
alguma permanecer recolhido. Como poderá se ocupar com pensamentos
piedosos? Como se conservar na presença de Deus e fazer repetidos
atos de virtude? O moinho mói o que nele se põe; como se poderá
então esperar uma fina farinha quando se põe um fruto deteriorado?
Se alguém, que passou a maior parte
do dia na leitura de um livro profano, quer se entregar à oração
ou receber a Comunhão, em vez de pensar em Deus e fazer atos de amor
e confiança, estará sempre distraído, porque todas aquelas coisas
vãs que pouco antes leu, vêm-lhe novamente à lembrança. Pelo
contrário, quem lê, por exemplo, as máximas e exemplos dos Santos,
estará ocupado com santos pensamentos não só durante a oração,
mas também em toda ocasião, e estes o conservam quase
ininterruptamente unido a Deus.
Em segundo lugar, uma alma que está
como que embebida em bons pensamentos pela espiritual, está mais
preparada para repelir as tentações do demônio. São Jerônimo deu
o seguinte conselho a Sabina, sua filha espiritual: Procura ter
sempre um bom livro às mãos, para que te possas defender com esse
escudo contra os maus pensamentos.
Em terceiro lugar, a leitura
espiritual nos facilita o conhecimento das manchas de nossa alma e a
purificação das mesmas. São Jerônimo escreve a Demétrias que ela
devia servir-se da leitura espiritual como ''de um espelho''; pois,
assim como o espelho mostra as manchas no rosto, assim também a
leitura de livros espirituais nos aponta as manchas de nossa
consciência.
Em quarto lugar, pela leitura espiritual obtêm-se muitas luzes e inspirações divinas. "Quando rezamos falamos com Deus, quando lemos é Deus que nos fala'', diz São Jerônimo (Ep. ad Eust.). É o que diz também Santo Ambrósio (De offic., 1.1, c. 30): ''Falamos a Deus quando rezamos; ouvimo-l'O quando lemos''. Como já acima notamos, não podemos ter sempre à nossa disposição o nosso confessor, ou ouvir um pregador zeloso que nos sirva de guia por meio de suas instruções, no caminho do Céu; os livros espirituais, porém, nos oferecem uma compensação por isso.
Em quarto lugar, pela leitura espiritual obtêm-se muitas luzes e inspirações divinas. "Quando rezamos falamos com Deus, quando lemos é Deus que nos fala'', diz São Jerônimo (Ep. ad Eust.). É o que diz também Santo Ambrósio (De offic., 1.1, c. 30): ''Falamos a Deus quando rezamos; ouvimo-l'O quando lemos''. Como já acima notamos, não podemos ter sempre à nossa disposição o nosso confessor, ou ouvir um pregador zeloso que nos sirva de guia por meio de suas instruções, no caminho do Céu; os livros espirituais, porém, nos oferecem uma compensação por isso.
Conforme Santo Agostinho (Enarr. in ps. 30,
ser. 2), são eles outras tantas cartas de Nosso Senhor, por meio das
quais nos avisa de iminentes perigos, nos mostra o caminho da
salvação, nos ensina a suportar as adversidades, ilumina-nos e
inflama-nos em Seu santo amor. Quem, pois, desejar salvar-se, deve
ler amiúde essas cartas do Céu.
Quantos Santos não foram levados,
pela leitura de um bom livro, a abandonar o mundo e a se consagrar a
Deus! É notório que Santo Agostinho, que viveu muitos anos preso
nos laços dos vícios e paixões, ao ler uma epístola de São
Paulo, abriu os olhos à luz divina e começou a tender à santidade.
Igualmente Santo Inácio de Loyola encetou uma vida perfeita em
conseqüência da leitura da vida dos Santos. Por acaso tomou-a nas
mãos para distrair-se no seu leito de enfermo, a que estava
condenado por ter sido ferido no ataque a Pamplona; com isso
converteu-se e tornou-se o fundador da Companhia de Jesus, que é uma
Ordem sumamente benemérita da Igreja. São João Colombini, ao ler,
quase que contra a sua vontade, um livro espiritual, tomou a
resolução de abandonar o mundo, começou uma santa vida e tornou-se
o fundador de uma Ordem religiosa. Na história das Carmelitas se
narra que uma nobre dama de Viena, que pretendia tomar parte de uma
diversão mundana, ao ficar sabendo que esta não se realizaria,
cheia de raiva, começou a ler um livro espiritual, que, por acaso,
lhe caiu nas mãos. Esse livro inspirou-lhe um tal desprezo pelo
mundo, que renunciou a todas as suas vaidades e fez-se carmelita.
A leitura de bons livros não foi
proveitosa aos Santos unicamente em sua conversão, mas em toda a sua
vida, para se manterem firmes no caminho da perfeição e fazerem
cada vez maiores progressos nele. São Domingos beijava seus livros
espirituais e apertava-os amorosamente ao coração, dizendo: ''Estes
livros dão-me o leite que me sustenta''. O grande servo de Deus,
Tomás de Kempis, não conhecia maior consolação do que esconder-se
em um canto de seu quarto com um livro que tratasse das coisas
espirituais. São Filipe Néri empregava todo o tempo livre na
leitura de livros espirituais, principalmente da vida dos Santos.
Oh! Como é útil tomar a vida dos
Santos por objeto de nossa leitura espiritual! Os livros que tratam
das virtudes ensinam-nos o que devemos fazer; na história dos Santos
vemos, porém, o que de fato fizeram tantos homens e mulheres,
rapazes e donzelas, que eram homens como nós. Mesmo que a meditação
dos exemplos dos Santos não nos trouxesse outro proveito, nos
obrigaria a nos humilharmos profundamente, porque, lendo as grandes
coisas que os Santos praticaram, devemos certamente nos envergonhar
de ter feito e de fazer ainda tão pouco por Deus. Santo Agostinho
dizia de si mesmo: ''Ó meu Deus, quando eu considerava os exemplos
de Vossos servos, envergonhava-me de minha preguiça e sentia arder
em mim o fogo de Vosso santo amor'' (Conf., I. 9, c. 2). São
Francisco de Assis, ao pensar nos Santos e em suas virtudes,
sentia-se abrasar em chamas de amor divino (S. Boav., Vita S. Franc.,
c. 9).
São Gregório Magno conta que, em
seu tempo, vivia em Roma um homem, chamado Sérvulo, que era muito
doentio e devia esmolar a sua subsistência. Dava uma parte das
esmolas que recebia aos outros pobres e a outra a empregava na compra
de bons livros. Ele não sabia ler e, por isso, pedia àqueles que
ele abrigava em sua choupana durante a noite, que lhos lessem. Dessa
maneira alcançou uma grande paciência nos sofrimentos, diz S.
Gregório, e uma admirável sabedoria nas coisas celestes. Ao morrer,
pediu aos seus amigos que lhe lessem alguma coisa; antes, porém, de
expirar, interrompeu-os, dizendo: Calai-vos, calai-vos; não ouvis
como todo o Céu ressoa com cânticos e aprazível música? Logo
depois expirou. Apenas deu o último suspiro, espalhou-se em seu
quarto um cheiro celestial, que testemunhava a santidade desse
mendigo que, pobre em bens terrenos, porém rico em virtudes e
merecimentos, deixara este mundo.
II. Maneira de se fazer a leitura espiritual
Para tirar grande proveito da leitura espiritual,
devemos observar as seguintes regras:
1. Antes de começar a ler, devemos pedir a Deus
que nos ilumine a respeito do que vamos ler. Já se disse acima que
Nosso Senhor mesmo se digna falar conosco na leitura espiritual; por
isso, devemos dizer-lhe, tomando o livro nas mãos: ''Falai, Senhor,
que Vosso servo escuta''. Fazei-me conhecer a Vossa Vontade, pois Vos
quero obedecer em tudo.
2. Na leitura espiritual não devemos ter a
intenção de contentar o nosso desejo de saber ou até nosa
curiosidade, mas unicamente procurar crescer no amor de Deus. Quando
se lê para se aumentar seus conhecimentos, não é isso leitura
espiritual, mas um simples estudo. É coisa pior, porém, ler-se por
pura curiosidade, como fazem alguns que, por assim dizer, devoram os
livros e nada mais têm em vista do que a satisfação de sua
curiosidade. Que proveito poderão tirar de tal leitura? Todo o tempo
que empregam nisso é perdido. Muitos leem, e leem muito, diz São
Gregório (Hom. in Ezeq.), e, apesar disso, seu espírito não fica
saciado, porque leem só por curiosidade.
3. Para tirar proveito dos livros espirituais
devemos lê-los com vagar e ponderação.''Pela leitura espiritual
tua alma deve ser alimentada'', diz Santo Agostinho. Ora, querendo
alimentar-se convenientemente, não se deve engolir a comida, mas
antes, mastigá-la bem. Pondera, pois, bem, o que lês, e procura
aplicá-lo a ti mesmo. E se o que leste te causou uma forte
impressão, segue o conselho de Santo Efrém (De pat. et. cons.
saec.) e torna a ler repetidas vezes.
4. Se recebemos uma luz especial durante a
leitura, ao se nos depar um belo pensamento ou uma ação virtuosa
que nos comove o coração, devemos parar um pouco, para elevar a
nossa mente a Deus, fazer um propósito, um ato de piedoso afeto e
uma fervorosa súplica a Deus. Não faz nenhum mal se, entretanto, se
escoa todo o tempo determinado para a leitura, pois um proveito maior
do que o sobredito não podemos tirar da leitura espiritual. Muitas
vezes a leitura de algumas linhas é mais proveitosa do que a de uma
página inteira.
5. Finalmente, antes de fechar o livro, alma
cristã, deves reter na memória algum pensamento piedoso que
encontraste, para te ocupares com ele durante o dia, à semelhança
do que se costuma fazer quando se passa por um jardim, apanhando-se
uma flor para levá-la consigo.
"Onde há vontade, há um Caminho"
