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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Chesterton e sua ortodoxia


Gilbert Keith Chesterton, como grande parte das mentes brilhantes que surgiram no início do século XX na Europa, é um dos pensadores brilhantes que o Brasil desconhece. Se você, leitor, também nunca ouviu falar de Chesterton como um dois maiores escritores e polemistas europeus, saiba que o banimento sofrido pelo autor aqui no país pelas mentes “progressistas” e que não conseguiam ver num pensador católico um exemplo de grandeza intelectual imperou sobre a fama desse grande erudito reconhecido na Europa e nos Estados Unidos. Me arrisco até a dizer que o poder intelectual de Chesterton é tão grande quanto o desconhecimento de quem foi ele para a cultura inglesa. Ortodoxia é a continuação de Hereges, livro no qual G. K. Chesterton combate as teses de homens de inegáveis atributos intelectuais, como Bernard Shaw e Bertrand Russell. Ortodoxia nada mais é que uma resposta à crítica da época, que acusava Chesterton de criticar apenas seus desafetos e nunca defender sua crença. Mas a obra não é só isso; não se trata apenas de um livro que ele expõe as contradições do pensamento de H. G. Wells e a a arrogância de Nietzsche. Chesterton é mais que um adversário ferrenho do cientificismo e do ateísmo moderno – é um marco do cristianismo perdido há muito tempo. Como afirmou Philip Yancey, que anota o prefácio do livro, Chesterton reconhecia que o comportamento dos cristãos servia de forte argumento aos seus críticos.

Sobre Tolstoi e Nietzsche, Chesterton não poupa as palavras, afirmando que o escritor russo e sua predileção pela vida simples do campo, pela compaixão, pelos camponeses e a miséria material, eram tantativas de um aristocrata que queria viver na pobreza para entendê-la. Ao contrário de Tolstoi, Joana d’Arc sim foi louvável porque foi realmente pobre e louvou isso. É importante ressaltar que Chesterton não é simplista a ponto de afirmar que Tolstoi é um nobre doidivanas que come peru e arrota mortadela, como a intelligentzia nacional. Não, Tolstoi foi mais que isso, e não chegou à hipocrisia de um Luis Fernando Veríssimo ou de um Chico Buarque. Tolstoi buscou a pobreza e o valor das coisas simples, mas o que Chesterton põe em jogo é: o que é mais importante, SER simples e procurar a beleza reclusa nos campos como Joana d’Arc ou TENTAR SÊ-LO, como Tolstoi? Já Nietzsche, mente mais deturpada, Chesterton usa também o exemplo da santa francesa para mostrar a frouxidão do sempre enfermo – entenda-se aqui tanto a enfermidade física quanto a mental – filósofo alemão. Enquanto Nietzsche elogiava a bravura, os altos valores éticos, a busca do orgulho e da coragem Joana d’Arc era tudo aquilo. Em uma das melhores passagens do livro, Chesterton afirma que “(Joana d’Arc) não temia um exército, enquanto Nietzsche tinha medo de uma vaca” e continua afirmando que enquanto o filósofo tecia elogios aos guerreiros a santa era uma guerreira superando Nietzsche que, assim como Tolstoi, queria ser algo que não era enquanto que Joana d’Arc era os dois ideais em uma pessoa só.

Chesterton tem a coragem e originalidade de introduzir no seus argumentos contra os adversários a “ética da Elfolândia”. Insere nos seus argumentos a ética presente nos contos de fadas como fundador da nossa moral. Os pilares dos nossos princípios éticos são os passados de pai para filho. Como a autor diz – a tradição é a democracia dos mortos, dos nossos antepassados que com sua experiência se fazem presentes a partir da tradição. É essa tradição e conceitos que são passados de geração em geração com os contos de fadas. Como exemplos, a exaltação aos humildes na história de Cinderela. A lição de que ninguém pode ser amável sem ser amado antes é o cerne de A Bela e a Fera. Nesse capítulo, os contos de fada são apresentados como o maravilhamento que perdemos ao admirarmos as belezas e simplicidades mundo. Assim, Chesterton enaltece a humildade perante os mistérios do mundo, batend de frente com a ambição de onisciência dos cientificistas e materialistas do início do século XX. O recado de Chesterton contra os adeptos desse progressismo científico é claro: cientistas devem cuidar apenas dos assuntos científicos, e não abordar tudo pela ótica de sua ciência para julgar questões que estão fora de seu alcance, como a moral ou teologia. É nesse recado aberto às filosofias de H. G. Wells, Bertrand Russel, Bernard Shaw, que Chesterton mostra o quão preocupante é uma sociedade baseada na ética ateísta e materialista. Hoje podemos ver que esses pensadores que Chesterton combateu foram os germens dos princípios éticos de Peter Singer e do “novo ateísmo” de Richard Dawkins e Sam Harris.

Ao contrário do pessimismo e fatalismo de alguns filósofos, Chesterton defendeu seu sentimento de alegria e reconforto para com o Universo. Em um exercício de imaginação, pede para que cada um deixe de lado a visão materialista do Universo como um lugar imenso e frio e comece a olhá-lo como um lugar aconchegante, nos incita a ter amor pelas coisas do Universo. Chesterton nos explica que quando rejubilamo-nos pela existência do Universo, esse é um bom motivo para amá-lo, mas a tristeza perante ele é um motivo muito maior para também assim fazê-lo. Assim como as maiores demonstrações de patriotismo se dão em situações críticas, em que a pátria nos desaponta profundamente, fazendo com que mostremos a ela o nosso amor agindo para surtir mudanças, do mesmo modo devemos agir para com o Universo. Cada vez que nos desapontamos com este, devemos respeitá-lo como respeitamos a nossa nação.

E Chesterton vai mais além: afirma, sabiamente, que o homem mais apto a destruir o lugar que ama é aquele que o ama por algum motivo. Somente posso considerar como amor sobre algo a contemplação a um objeto pelo qual não espero nada em troca, já é completo em si, constituído de elementos inexplicáveis que me fazem amá-lo. O perigo se encontra nos homens que precisam de algum motivo para amá-lo, assim como são perigosos os homens que necessitam de pretexto para amar o país. Eis o caso dos grandes ditadores. Por trás desse motivo para amar a sua pátria está velado uma alma destruidora em potencial. Ao não ver seus desejos saciados, esse homem considera seu amor a pátria um erro, um tempo perdido em um serviço inútil, e então volta-se contra ela em fúria incontrolável. Não é por acaso que o genial Goethe afirmou que “contra nada somos mais severos que com os erros que abandonamos”. Esse processo, portanto, não passa de uma punição retroativa à pátria pelos ideais e ações inúteis do homem revoltado ao ver seus motivos de amar a pátria destruídos. Esses homens dizem-se patriotas, mas exercem o patriotismo apenas se seus desejos de poder e revolução forem plenamente satisfeitos. A partir do momento em que esse revoltado assume o poder, vicia-se nele, buscando a perpetuação do poder temporal, nunca saciando a sanha de cada vez mais buscar e concentrar o poder na sua pessoa.

Chesterton é tão cativante que a leitura de seu livro sobre São Francisco de Assis e São Tomás de Aquino que o grande filósofo tomista Etiénne Gilson, impressionou-se tanto com a biografia do santo de Roccaseca que afirmou: “Considero, sem comparação alguma, que é o melhor livro nunca antes escrito sobre São Tomás. Só um gênio podia fazer algo assim. Todo o mundo admitirá, sem nenhuma dúvida, que se trata de um livro inteligente; mas os poucos leitores que tiverem passado vinte ou trinta anos estudando São Tomás de Aquino e publicado dois ou três volumes sobre o tema terão de reconhecer que a chispa de gênio de Chesterton lhes deixou ao rés do chão a erudição. Tudo o que eles tentavam expressar desajeitadamente em fórmulas acadêmicas foi expressado por Chesterton. Esse homem foi um dos pensadores mais profundos que jamais existiram.”

Já sobre Ortodoxia, Gilson afirma que é “a melhor obra de apologética produzida no século”. Não chego nem perto do conhecimento de Gilson, mas endosso o que o medievalista afirma. E tal concordância se deve à admiração a Gilson e à transformadora experiência que é ler Ortodoxia.

 


"Onde há vontade, há um Caminho"

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