
Gilbert
Keith Chesterton, como grande parte das mentes brilhantes que
surgiram no início do século XX na Europa, é um dos pensadores
brilhantes que o Brasil desconhece. Se você, leitor, também nunca
ouviu falar de Chesterton como um dois maiores escritores e
polemistas europeus, saiba que o banimento sofrido pelo autor aqui no
país pelas mentes “progressistas” e que não conseguiam ver num
pensador católico um exemplo de grandeza intelectual imperou sobre a
fama desse grande erudito reconhecido na Europa e nos Estados Unidos.
Me arrisco até a dizer que o poder intelectual de Chesterton é tão
grande quanto o desconhecimento de quem foi ele para a cultura
inglesa. Ortodoxia é a continuação de Hereges, livro no qual G. K.
Chesterton combate as teses de homens de inegáveis atributos
intelectuais, como Bernard Shaw e Bertrand Russell. Ortodoxia nada
mais é que uma resposta à crítica da época, que acusava
Chesterton de criticar apenas seus desafetos e nunca defender sua
crença. Mas a obra não é só isso; não se trata apenas de um
livro que ele expõe as contradições do pensamento de H. G. Wells e
a a arrogância de Nietzsche. Chesterton é mais que um adversário
ferrenho do cientificismo e do ateísmo moderno – é um marco do
cristianismo perdido há muito tempo. Como afirmou Philip Yancey, que
anota o prefácio do livro, Chesterton reconhecia que o comportamento
dos cristãos servia de forte argumento aos seus críticos.
Sobre
Tolstoi e Nietzsche, Chesterton não poupa as palavras, afirmando que
o escritor russo e sua predileção pela vida simples do campo, pela
compaixão, pelos camponeses e a miséria material, eram tantativas
de um aristocrata que queria viver na pobreza para entendê-la. Ao
contrário de Tolstoi, Joana d’Arc sim foi louvável porque foi
realmente pobre e louvou isso. É importante ressaltar que Chesterton
não é simplista a ponto de afirmar que Tolstoi é um nobre
doidivanas que come peru e arrota mortadela, como a intelligentzia
nacional. Não, Tolstoi foi mais que isso, e não chegou à
hipocrisia de um Luis Fernando Veríssimo ou de um Chico Buarque.
Tolstoi buscou a pobreza e o valor das coisas simples, mas o que
Chesterton põe em jogo é: o que é mais importante, SER simples e
procurar a beleza reclusa nos campos como Joana d’Arc ou TENTAR
SÊ-LO, como Tolstoi? Já Nietzsche, mente mais deturpada, Chesterton
usa também o exemplo da santa francesa para mostrar a frouxidão do
sempre enfermo – entenda-se aqui tanto a enfermidade física quanto
a mental – filósofo alemão. Enquanto Nietzsche elogiava a
bravura, os altos valores éticos, a busca do orgulho e da coragem
Joana d’Arc era tudo aquilo. Em uma das melhores passagens do
livro, Chesterton afirma que “(Joana d’Arc) não temia um
exército, enquanto Nietzsche tinha medo de uma vaca” e continua
afirmando que enquanto o filósofo tecia elogios aos guerreiros a
santa era uma guerreira superando Nietzsche que, assim como Tolstoi,
queria ser algo que não era enquanto que Joana d’Arc era os dois
ideais em uma pessoa só.
Chesterton
tem a coragem e originalidade de introduzir no seus argumentos contra
os adversários a “ética da Elfolândia”. Insere nos seus
argumentos a ética presente nos contos de fadas como fundador da
nossa moral. Os pilares dos nossos princípios éticos são os
passados de pai para filho. Como a autor diz – a tradição é a
democracia dos mortos, dos nossos antepassados que com sua
experiência se fazem presentes a partir da tradição. É essa
tradição e conceitos que são passados de geração em geração
com os contos de fadas. Como exemplos, a exaltação aos humildes na
história de Cinderela. A lição de que ninguém pode ser amável
sem ser amado antes é o cerne de A Bela e a Fera. Nesse capítulo,
os contos de fada são apresentados como o maravilhamento que
perdemos ao admirarmos as belezas e simplicidades mundo. Assim,
Chesterton enaltece a humildade perante os mistérios do mundo,
batend de frente com a ambição de onisciência dos cientificistas e
materialistas do início do século XX. O recado de Chesterton contra
os adeptos desse progressismo científico é claro: cientistas devem
cuidar apenas dos assuntos científicos, e não abordar tudo pela
ótica de sua ciência para julgar questões que estão fora de seu
alcance, como a moral ou teologia. É nesse recado aberto às
filosofias de H. G. Wells, Bertrand Russel, Bernard Shaw, que
Chesterton mostra o quão preocupante é uma sociedade baseada na
ética ateísta e materialista. Hoje podemos ver que esses pensadores
que Chesterton combateu foram os germens dos princípios éticos de
Peter Singer e do “novo ateísmo” de Richard Dawkins e Sam
Harris.
Ao
contrário do pessimismo e fatalismo de alguns filósofos, Chesterton
defendeu seu sentimento de alegria e reconforto para com o Universo.
Em um exercício de imaginação, pede para que cada um deixe de lado
a visão materialista do Universo como um lugar imenso e frio e
comece a olhá-lo como um lugar aconchegante, nos incita a ter amor
pelas coisas do Universo. Chesterton nos explica que quando
rejubilamo-nos pela existência do Universo, esse é um bom motivo
para amá-lo, mas a tristeza perante ele é um motivo muito maior
para também assim fazê-lo. Assim como as maiores demonstrações de
patriotismo se dão em situações críticas, em que a pátria nos
desaponta profundamente, fazendo com que mostremos a ela o nosso amor
agindo para surtir mudanças, do mesmo modo devemos agir para com o
Universo. Cada vez que nos desapontamos com este, devemos respeitá-lo
como respeitamos a nossa nação.
E
Chesterton vai mais além: afirma, sabiamente, que o homem mais apto
a destruir o lugar que ama é aquele que o ama por algum motivo.
Somente posso considerar como amor sobre algo a contemplação a um
objeto pelo qual não espero nada em troca, já é completo em si,
constituído de elementos inexplicáveis que me fazem amá-lo. O
perigo se encontra nos homens que precisam de algum motivo para
amá-lo, assim como são perigosos os homens que necessitam de
pretexto para amar o país. Eis o caso dos grandes ditadores. Por
trás desse motivo para amar a sua pátria está velado uma alma
destruidora em potencial. Ao não ver seus desejos saciados, esse
homem considera seu amor a pátria um erro, um tempo perdido em um
serviço inútil, e então volta-se contra ela em fúria
incontrolável. Não é por acaso que o genial Goethe afirmou que
“contra nada somos mais severos que com os erros que abandonamos”.
Esse processo, portanto, não passa de uma punição retroativa à
pátria pelos ideais e ações inúteis do homem revoltado ao ver
seus motivos de amar a pátria destruídos. Esses homens dizem-se
patriotas, mas exercem o patriotismo apenas se seus desejos de poder
e revolução forem plenamente satisfeitos. A partir do momento em
que esse revoltado assume o poder, vicia-se nele, buscando a
perpetuação do poder temporal, nunca saciando a sanha de cada vez
mais buscar e concentrar o poder na sua pessoa.
Chesterton
é tão cativante que a leitura de seu livro sobre São Francisco de
Assis e São Tomás de Aquino que o grande filósofo tomista Etiénne
Gilson, impressionou-se tanto com a biografia do santo de Roccaseca
que afirmou: “Considero, sem comparação alguma, que é o melhor
livro nunca antes escrito sobre São Tomás. Só um gênio podia
fazer algo assim. Todo o mundo admitirá, sem nenhuma dúvida, que se
trata de um livro inteligente; mas os poucos leitores que tiverem
passado vinte ou trinta anos estudando São Tomás de Aquino e
publicado dois ou três volumes sobre o tema terão de reconhecer que
a chispa de gênio de Chesterton lhes deixou ao rés do chão a
erudição. Tudo o que eles tentavam expressar desajeitadamente em
fórmulas acadêmicas foi expressado por Chesterton. Esse homem foi
um dos pensadores mais profundos que jamais existiram.”
Já
sobre Ortodoxia, Gilson afirma que é “a melhor obra de apologética
produzida no século”. Não chego nem perto do conhecimento de
Gilson, mas endosso o que o medievalista afirma. E tal concordância
se deve à admiração a Gilson e à transformadora experiência que
é ler Ortodoxia.
"Onde há vontade, há um Caminho"