Novembro
é o mês consagrado pela nossa devoção ao sufrágio das almas
do purgatório. Ainda estamos no Mês do Rosário, porque S.
S. Leão XIII, quando estendeu a toda Igreja o Mês do Rosário,
quis que a rainha das devoções a Maria fosse compreendida na
devoção dos fiéis como a devoção que une as três Igrejas. Vai o
Mês do Rosário até 2 de Novembro, para que o tesouro da rainha das
devoções marianas possa beneficiar a Igreja padecente. Novembro é
dedicado ao culto dos mortos, à devoção às almas do purgatório.
De primeiro a trinta deste mês, vamos relembrar nossos deveres de
justiça e de caridade para com nossos defuntos, vamos sufragar-lhes
as pobres almas que estão sofrendo no purgatório. Como é bela e
utilíssima esta devoção!
Nos dois primeiros
dias, unidos à Mãe Santíssima do Rosário, comecemos devota e
fervorosamente o Mês das Almas. Mês da saudade e mês do
sufrágio. A Igreja nos dá cada ano alguns meses destinados a
incentivar algumas devoções: Março, o mês do querido
Patriarca São José; Maio, o belo mês de Maria.
Cantamos o louvor de Nossa Senhora e estimulamos nosso amor e devoção
à Mãe de Deus e nossa Mãe. Junho traz-nos a piedade
do Coração Santíssimo de Jesus. É o mês do fervor, do
amor d’Aquele Coração que tanto amou os homens, mês de
reparação. Outubro, o belo mês do Rosário pelo
qual a Igreja quer incentivar nos fiéis zelo e amor pela rainha das
devoções a Maria. Finalmente, aí vem Novembro, o mês
das Almas. Porque em Novembro? Outubro veio a ser o mês do Rosário
porque nele está a festa da Virgem do Rosário. Em Novembro temos a
festa da Comunhão dos Santos — e o dias dos mortos.
Que mês seria mais próprio para o mês dos mortos, o mês das almas
do purgatório?
Vamos, pois, incentivar
nossa devoção, direi melhor, nossa compaixão pelas almas
sofredoras. Neste mês meditemos, rezemos, soframos, façamos tudo
que nos seja possível para que o purgatório receba mais sufrágios
e para que as lições deste dogma terrível e consolador a um
tempo, nos aproveitem bem.
Tenhamos compaixão das
pobres almas! Si soubéssemos o que elas padecem! Si tivermos uma fé
mais viva, sentiremos a necessidade de fazermos tudo ao nosso
alcance para que este mês seja rico de boas obras, rico de preces
fervorosas e sobretudo de Santas Missas e indulgências em favor do
purgatório.
Neste mês podemos
lucrar ricas indulgências...
...Uma indulgência de
três anos uma vez cada dia, si fizermos qualquer exercício em
sufrágio das almas; uma indulgência plenária para os que
fizerem todo o Mês das Almas, contanto que confessem e comunguem
e rezem pela intenção do Santo Padre o Papa num dia do mês. Aos
que assistirem os exercícios, indulgência de sete anos
cada dia do mês. E indulgência plenária na forma do
costume. (P. P. O. 543.)
No dia 2 de Novembro há
grande indulgência. Uma indulgência plenária cada vez a quem
visitar as igrejas rezando seis Padre Nossos e Ave Marias nas
intenções do Sumo Pontífice.
Vamos, pois, façamos
tudo pelas almas neste mês!
O dogma da Comunhão
dos Santos
Rezamos no
Credo: Creio na Comunhão dos Santos! Quanta gente não
pergunta curiosa, porque o ignora: “Que vem a ser
Comunhão dos Santos?” .Antes de começarmos a meditar nestes
dias de Novembro o dogma do purgatório, é mister, no dia de Todos
os Santos, no dia em que a Igreja vive o dogma da Comunhão dos
Santos, lembrarmos o que ele é e as riquezas espirituais que nos
trás. É o dogma da solidariedade dos fiéis. Santos, são os
cristãos na graça de Deus. Os primeiros cristãos eram assim
chamados. Santos, são os justos no céu, os que se salvaram e
estão na posse de Deus. Santos, são os justos que padecem no
purgatório. Não são verdadeiramente santas aquelas almas
confirmadas na graça e à espera da eterna visão do céu?
Pois comunhão ou comunicação é a união dos
fiéis da terra, do céu e do purgatório. Formam eles as três
Igrejas — a Igreja militante, somos nós os que combatemos
neste mundo; a Igreja triunfante, os fiéis já no céu no
triunfo eterno da glória; e a Igreja padecente, os fiéis que
se purificam nas chamas do purgatório. Todos são membros de Cristo.
Todos formam o Corpo Místico de Cristo, nossa Cabeça. Estamos
todos unidos em Jesus Cristo como os membros unidos à cabeça. Que
sublime doutrina!
Cristo Nosso Senhor é
glorificado no céu pelos membros triunfantes; sofre no purgatório
nos seus membros padecentes; luta conosco neste mundo com os membros
militantes. Pois com esta doutrina admirável do Corpo Místico,
podemos nos auxiliar uns aos outros nesta sublime solidariedade em
Cristo e por Cristo.
As almas do purgatório já não podem
mais merecer, dependem de nós os que ainda temos à nossa
disposição os tesouros da Redenção e os méritos de Cristo.
Podemos ajudá-las, podemos socorrê-las e dependem de nós. Por sua
vez os Santos do céu juntos de Deus, na posse da eterna felicidade
podem nos valer nesta vida, podem interceder por nós. Então
recorremos à Igreja triunfante, pedindo socorro, e ajudamos por
nossa vez à Igreja padecente. Eis aí o que é o dogma da Comunhão
dos Santos. Podem os Santos dos céu ajudar as almas do
purgatório? Há relações entre a Igreja triunfante e a Igreja
padecente? Cremos que sim. Santo Tomás de Aquino o afirma.
Muitos autores o
ensinam. Os Santos não podem merecer no céu como nós aqui na
terra. Portanto, satisfazer pelas almas não podem, mas pedir e
interceder por elas muitos teólogos o afirmam com muito fundamento.
E demais, há uma oração da Igreja que nos autoriza esta crença.
Ei-la: “Ó Deus, que perdoais aos pecadores e que desejais a
salvação dos homens, imploramos a vossa clemência por
intercessão da Bem-aventurada Maria sempre Virgem e de todos os
Santos, em favor de nossos irmãos, parentes e benfeitores que saíram
deste mundo, a fim de que alcancem a bem-aventurança eterna”.
Outra
oração, “Fidelium”, repete a mesma súplica. Os
primeiros cristãos sepultavam os mortos junto do túmulo dos
Santos para lhes implorar a intercessão. Podemos pois crer que
os Santos, não como nós, mas intercedendo e pedindo, podem ajudar o
purgatório.
Como os Santos ajudam
as almas?
Já vimos que a sorte
das almas está em nossas mãos, porque só nós podemos merecer e
ganhar por elas. É vontade de Deus que elas dependam de nós.
“Deus, escreve o Pe. Faber, nos deu tal poder sobre a
sorte dos mortos, que esta sorte parece depender mais da terra que do
céu”. Somos nós os salvadores e auxiliadores das almas do
purgatório. A Igreja definiu que nossas orações podem valer
aos mortos, mas não há uma definição sobre a oração dos Santos
neste sentido. Por quê? Naturalmente, não houve necessidade de
qualquer definição. Os protestantes negaram o valor da intercessão
dos Santos em nosso favor, mas nada disseram a respeito da
intercessão dos Santos em favor das almas, porque negavam o
purgatório. Ora, a Igreja implora no Ritual a intercessão dos
Santos pelos mortos: “Subvenite... Santos do céu, vinde em
seu auxílio, Anjos do céu, vinde, recebei a sua alma... Como, pois,
os Santos ajudam os mortos?
1º Pedem que as
satisfações dos vivos sejam aceitas perante Deus.
2º Pedem a Deus que os
vivos sejam levados a ajudar os mortos e satisfazer por eles, que a
devoção pelas almas sofredoras se incentive cada vez mais.
3º Podem pedir a Nosso
Senhor que a libertação das almas se faça mais depressa por
uma intensidade das penas que abrevie este tempo mais longo de
sofrimento.
4º Podem rogar a Nosso
Senhor que pelos méritos e satisfações que tiveram eles
quando estavam neste mundo, possam ser utilizados estes méritos
pelas almas e poderão também oferecer os méritos do Cristo, de
Maria e de outros Santos.
Enfim, dizem seguros
teólogos, há muitos meios dos Santos poderem ajudar as santas almas
do purgatório. Esta crença é muito antiga na Igreja.
Encontramo-la nos monumentos, as devoções populares de
séculos, e é já tradicional na devoção de todo mundo católico,
recorrer à intercessão dos Santos em favor das almas do
purgatório.
No dia de Todos os
Santos a Igreja nos convida a meditar na grandeza e no poder da
santidade. Mostra-nos os modelos e pede-nos que os imitemos.
Glorifica os eleitos na beleza da sua Liturgia, cantando o
triunfo dos seus filhos no céu. Depois, ao cair da tarde, já se
ouvem dobrar os sinos, já nas Vésperas tudo se muda. Após as
Vésperas festivas de Todos os Santos, vem o luto e o Ofício dos
defuntos. Sucedem-se os Misereres e os De Profundis. É
a vez da Igreja padecente. Nestes dois dias, 1.º e 2 de Novembro,
vivemos o dogma da Comunhão dos Santos. As três Igrejas unidas,
orando, e numa admirável comunicação de graças e de méritos
e de sufrágios.
Este dia, dizia o Ven.
Olier, é talvez o maior dia da Liturgia da Igreja para os fiéis. É
o dia do Cristo Total, do Cristo unido a nós, do Corpo Místico
de Cristo, cabeça das três Igrejas. Como podemos utilizar a
intercessão dos Santos em favor das almas? Certamente, não há
dúvida alguma, eles na glória podem interceder por nós e nos
protegerem. Pois utilizemos esta intercessão em favor das almas. Que
eles nos ajudem a ajudar as almas. Que nos inspirem muita compaixão
e devoção pelas almas, que nos façam anjos de caridade das
benditas almas sofredoras. Eis como os Santos podem ajudar as almas.
Exemplo
A Obra Expiatória de
Montligeon publicou com aprovação da autoridade eclesiástica, o
seguinte fato:
No mês de Setembro de
1870, uma religiosa do Mosteiro das Irmãs Redentoristas de Malines,
na Bélgica, sentiu repentinamente uma profunda tristeza que não a
deixava dia e noite. A pobre Soror Maria Serafina do Sagrado Coração
tornou-se um enigma para si própria e a comunidade. Pouco depois,
chega a notícia da morte do pai da boa Irmã, nos campos de combate.
Desde este dia, a religiosa começou a ouvir gemidos angustiosos e
uma voz que lhe diz sempre:
— Minha filha
querida, tem piedade de mim! Tem piedade de mim!
No dia 4 de Outubro
novos tormentos para a Irmã e uma dor de cabeça insuportável. No
dia 14 à noite, ao deitar-se, viu ela entre a cama e a parede da
cela o pai cercado de chamas e imerso numa tristeza profunda.
Não pôde reter um grito de dor e de espanto. No dia 15 à mesma
hora, ao recitar a Salve Rainha, viu de novo o pai entre chamas. A
esta vista, perguntou a Irmã ao pai se havia ele cometido alguma
injustiça nos seus negócios.
— Não, responde ele,
não cometi injustiça alguma. Sofro pelas minhas impaciências
contínuas e outras faltas que não te posso dizer.
No dia 27, nova
aparição. Desta vez não estava cercado de chamas. Queixou-se de
que não era aliviado porque não rezaram bastante por ele.
— Meu pai, não sabes
que nós religiosas não podemos rezar o dia todo, temos os
trabalhos da Regra?
— Eu não peço isto,
diz ele, quero que apliquem por mim as intenções, as indulgências.
Se não me ajudares, eu te hei de atormentar. Deus o permitiu! Oh!
Minha filha, lembra-te que te ofereceste a Nosso Senhor como
vítima. Eis a consequência. Olha, olha, minha filha, esta
cisterna cheia de fogo em que estou mergulhado! Somos aqui centenas.
Oh! Se soubessem o que é o purgatório, haviam de sofrer tudo,
tudo para evitar e para aliviar as almas que lá estão cativas.
Deves ser uma religiosa muito santa, minha filha, e observar bem a
Santa Regra, ainda nos pontos mais insignificantes. O purgatório
das religiosas, oh! É uma coisa terrível, filha!
Soror Maria Serafina
viu, realmente, uma cisterna em chamas donde saiam nuvens negras
de fumo. E o pai desapareceu como que abrasado, sufocado
horrorosamente, sedento, a abrir a boca mostrando a língua
ressequida:
— Tenho sede, minha
filha, tenho sede!
No dia seguinte a mesma
aparição dolorosa:
— Minha filha, há
muito tempo que eu não te vejo!
— Meu pai, ontem
mesmo...
— Oh! Parece-me uma
eternidade... Se eu ficar no purgatório três meses, será uma
eternidade... Estava condenado a diversos anos, mas devo a Nossa
Senhora, que intercedeu por mim, ficar reduzida a pena a alguns meses
apenas.
Esta graça de poder
vir pedir orações, o bom homem alcançou pelas suas boas obras,
pois era extremamente caridoso e devoto de Maria. Comungava
em todas as festas da Virgem e ajudou muito na fundação de uma casa
de caridade das Irmãzinhas dos pobres da Diocese.
Soror Maria Serafina
fez diversas perguntas ao pai:
— As almas do
purgatório conhecem os que rezam por elas e podem rezar por
nós?
—Sim, minha filha.
—
Estas almas sofrem ao saberem que Deus é ofendido no meio de suas
famílias e no mundo?
— Sim.
A Irmã, orientada pelo
seu confessor e pela Superiora, continuou a interrogar o pai:
— É verdade, meu
pai, que todos os tormentos da terra e dos mártires estão muito
abaixo do sofrimento do purgatório?
— Sim, minha filha, é
bem verdade tudo isso. . .
Perguntou se todas as
pessoas que pertencem à Confraria do Carmo são libertadas no
primeiro sábado depois da morte do purgatório.
— Sim, respondeu ele,
mas é preciso ser fiel às obrigações da Confraria.
— É verdade que há
almas que devem ficar no purgatório até cinquenta anos?
— Sim. Algumas estão
condenadas a expiar os seus pecados até o fim do mundo. São almas
bem culpadas e estão abandonadas. Há três coisas que Deus pune e
que atrai a maldição sobre os homens: a violação do dia do
domingo pelo trabalho, o vício impuro que se tornou muito comum, e
as blasfêmias. Oh! Minha filha, as blasfêmias são horríveis e
provocam a ira de Deus.
Desde este dia até à
noite de Natal, sempre aparecia a Soror Maria Serafina a
alma atormentada do seu bom pai, pela qual ela e a comunidade oravam
e faziam penitências. Na primeira missa do Natal, a boa Irmã viu
seu pai à hora da elevação, brilhante como o sol, de uma beleza
incomparável.
— Acabei meu tempo de
expiação, filha, venho te agradecer e às tuas Irmãs as orações
e sufrágios. Rezarei por todas no céu.
E ao entrar na cela, de
madrugada, viu a Irmã Serafina mais uma vez a alma do pai
resplandecente de luz é de beleza, dizendo:
— Pedirei para
tua alma, filha, perfeita conformidade com a vontade de
Deus e a graça de entrar no céu sem passar pelo purgatório.
E desapareceu num
oceano de luz e de beleza.
Estes fatos se deram de
Outubro a Dezembro de 1870 e passaram pelo crivo de um severo e
rigoroso exame das autoridades eclesiásticas antes de
serem publicados e divulgados amplamente pela Obra
Expiatória de Nossa Senhora de Montiglion, na França.