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sábado, 4 de janeiro de 2014

Mais Além da Ternura




Os dicionários definem ternura como um sentimento de “suave comoção”, de “afeto doce e delicado”, de “atenção carinhosa”. O substantivo “ternura”, do Latim teneritia, remete ao afeto interior vivido com participação viva, afetuosa e dinâmica; implica uma atitude que orienta a sair do eu para encontrar-se com o tu, tendendo para ele, em uma relação real de dedicação e reciprocidade. Mas ternura não significa concessão à natureza humana. Ternura não é fraqueza; é força, sinal de maturidade e vigor interior, e desabrocha somente em um coração livre, capaz de ofertar e receber amor.
A ternura, na sua identidade mais profunda, se liga a duas exigências fundamentais e permanentes, inscritas no coração humano: desejar amar e saber que é amado; como tal, ela atinge todas as esferas da pessoa, desde a biológica à psicológica e espiritual até a sua vocação transcendente, e se realiza como escolha e estilo de vida em ordem a uma plena maturidade humano-cristã.
A ternura é a força do amor humilde. A ternura de Jesus revela o que de mais humano existe em Deus e o que de mais divino existe no homem.
A ternura é o dinamismo fundamental que exprime todas as dimensões do amor. A ternura é contemplação do ser amado, é entrega generosa e totalizante, é revelação do coração, é abertura à intimidade. Ela exprime o encantamento pelo outro e é disposição de intimidade. É a expressão do amor que envolve, mais espontaneamente, a totalidade do ser, na generosidade gratuita da entrega ao outro. Onde não houver ternura, dificilmente haverá amor.
Um dos dados mais seguros do agir histórico de Jesus é o seu fazer-se próximo dos marginalizados, dos indefesos e de todos os que se encontram em situação de dificuldade ou de necessidade. A acusação que lhe fazem de ser “um glutão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores” (Mt 11, 19), ao invés de uma censura, como pensavam os detratores, comprova a atitude nova assumida por Jesus, em nítida oposição a toda forma de segregação, e manifesta n’Ele o advento da soberania salvífica de Deus, o Reino prometido para os tempos messiânicos. Cada categoria de “últimos” – publicanos e prostitutas, endemoninhados, doentes, cegos e leprosos, pecadores, estrangeiros, mulheres, viúvas, crianças, pobres e ricos, inimigos, malfeitores, traidores – é objeto da ternura do Senhor, com a disponibilidade para ser seu Próximo, em uma dimensão de predileção e de perdão, de convite à conversão profunda e de oferta da salvação.
Jesus possui uma ternura de compaixão, de participação profunda, empática, na vivência de seus interlocutores. Não é um agir frio e indiferente. Essa ternura de compaixão é o sentimento que Jesus experimenta perante os dois cegos de Jericó: “Jesus se comoveu” (Mt 20, 34); ante a súplica de um leproso: “Movido de compaixão, estendeu a mão…” (Mc 1, 41); diante das lágrimas da viúva de Nahim: “Vendo-a, o Senhor teve compaixão dela e lhe disse: ‘Não chores!’” (Lc 7, 13); na presença das multidões que O seguiam: “Vendo as multidões, sentiu compaixão delas porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9, 36); por ocasião da primeira e da segunda multiplicação dos pães: “Sentiu compaixão delas” (Mt 14, 14); “Sinto compaixão desta multidão” (Mt 15, 32), para citar apenas alguns episódios. A plena humanidade de Jesus comporta historicamente uma plena assunção de seus sentimentos humanos, em particular da ternura como ato de afeição, como vivência orientada ao “bem-querer” e à piedade, à solicitude e ao cuidado dos outros.
A novidade absoluta da ternura de Jesus
A verdade sobre esse tipo de ternura por parte de Jesus pode ser intuída se pensarmos, por um momento, na parábola do bom samaritano. Com razão, os Padres da Igreja gostavam de afirmar, como primeiro grande samaritano, o Cristo. Ele, em primeiro lugar, como Filho de Deus feito homem, desceu, aproximou-se do homem ferido pelo pecado, curou-o e o conduziu à pousada (a Igreja), onde deixou como dom o que era necessário para a sua salvação completa (a Palavra de Deus, os Sacramentos da fé, a proximidade dos pastores e da comunidade). A atitude do samaritano é descrita como uma atitude de compaixão que se fez misericórdia, atenção e cura do ferido. Esse é o sentido da vinda de Jesus neste mundo e o valor de seu oferecimento na Cruz.
A ternura à qual a figura do bom samaritano remete não é somente uma qualidade ou virtude moral, mas uma modalidade de ser em correspondência à modalidade de ser própria do Filho de Deus feito homem e crucificado; como tal, implica uma abnegação total de si, até pagar com a própria vida. O imperativo conclusivo: “Vai e faze tu o mesmo” (Lc 10, 38) exprime esta vocação: os discípulos são colocados no encalço do Mestre, empenhados a viver uma mesma atitude de ternura, não com palavras, mas nos fatos e com gestos concretos.
A ternura se revela, assim, como uma atitude permanente, profunda e ativa, do comportamento de Jesus e de Seu modo de relacionar-se com os outros.
O evento da Cruz é seu cumprimento e expressão máxima. Essa ternura de Jesus é revolucionária, diante daquele contexto legalista e daquela cultura fechada e excludente. A ternura de Jesus é um gênero único, não se move daquilo que seja humanamente forte, mas do quanto seja fraco e aparentemente insignificante, como mostrará ter compreendido perfeitamente S. Paulo, ao tratar da sabedoria da Cruz, “loucura para os pagãos e escândalo para os judeus”, mas “poder de Deus e sabedoria de Deus” para os crentes (cf. 1Cor 1, 17– 4, 13).
A ternura de Jesus se apresenta, portanto, como uma modalidade existencial, para além de uma virtude; trata-se de algo vivido por Ele em pelo menos dois níveis: como ternura de solidariedade e de amizade – “ser com”; e como ternura de oblação e de serviço – “ser para”. Viver a ternura, para Jesus, significa “ser com” e “ser para”, compartilhando solidariamente a condição dos homens e assumindo o pecado do mundo, Inocente como é, no lugar de todos e de cada um. Jesus conhece demasiado bem o mal que existe no homem e não teme denunciá-lo com determinação, mas o que é essencial para Ele é levar a todos o feliz anúncio da salvação.
A santidade é rejeição do pecado. E Jesus o rejeita, denunciando com vigor os vícios exibidos ou secretos, os compromissos e as hipocrisias, mas sem se afastar da gente que convoca à salvação. Sua ternura não corresponde à filantropia dos filósofos ou dos intelectuais que se limitam a falar dela do alto de suas cátedras, elaborando até exposições eruditas ou românticas, mas sem tocar nem sequer com um dedo aqueles aos quais se dirigem. A santidade se conjuga em Jesus com a grande participação na vivência das pessoas e na sua existência histórica. Santidade e proximidade se encontram ligadas n’Ele em uma admirável síntese vital.
O termo “santidade”, a partir do evento de Cristo, adquire um novo significado, que, talvez nós ainda desconheçamos.
A figura de Jesus de Nazaré representa uma novidade absoluta que conduz à superação daquela contraposição presente nas religiões (sagrado – onde está Deus/profano – onde não está Deus) e no Antigo Testamento (santo é o “separado” de todo o resto). Jesus é o Christós, o ungido, o consagrado por excelência e vive Sua Santidade não em termos de separação física, mas de oferta de Si ao Pai por todos. Em Jesus, santidade é um acontecimento de amor realizado no coração da vida até a morte de Cruz. É na oferta de Si que o Unigênito consagra a Si mesmo para a santificação do mundo (cf. Jo 17,19). É nesse nível que se situa o paradoxo santidade-proximidade de Cristo. E é a ternura que consente em realizá-lo: a santidade é ternura; a proximidade é ternura. Uma e outra nascem do Amor e conduzem ao Amor.
A ternura exprime uma das qualidades mais belas do amor: a bondade. Amar é ser bom. A ternura é generosa, tudo dá, tudo faz pelo bem do outro, tudo desculpa, tudo perdoa. Só a ternura pode curar os corações feridos e voltar a unir aqueles a quem a infidelidade separou. Os atributos da ternura são os mesmos com que S. Paulo descreve a caridade (cf. 1Cor 13). É por isso que, na Sagrada Escritura, a ternura é o principal atributo do amor de Deus por nós. Só assim Deus nos podia amar, sendo bom, misericordioso e cheio de compaixão.
Se nos perguntarmos de onde brota a ternura de Jesus, sua dileção solícita, sua constante disponibilidade em acolher nossa condição humana e a compartilhá-la, a compreender o mal oculto no homem e a perdoá-lo, de onde deriva sua generosidade até a oblação de Si na Cruz, a resposta é uma só: brota do amor terníssimo do Pai de quem Se sente Filho, pelo qual veio ao mundo e ao qual entende obedecer integralmente, glorificando-O ao fazer Sua vontade (cf. Jo 17, 1.4); e brota da presença do Espírito que O faz exultar de alegria (cf. Lc 10. 21). A ternura de Jesus, assim, brota da ternura do Pai e é orientada totalmente a dar testemunho dela. O conteúdo da sua intimidade filial é a raiz de Seu ser e de Seu agir.
A incapacidade de ternura é o efeito mais dramático do pecado no coração humano, aquilo a que o Evangelho chama “dureza do coração”, retraimento sobre si mesmo como egocentrismo, rejeição de diálogo e abertura. A incapacidade de ternura significa a incapacidade de amar e sublinha a necessidade da transformação, pela graça, desse coração empedernido.
O Deus de Jesus Cristo pede a todos nós que nos façamos, uns com os outros e uns para os outros, evangelizadores de Sua ternura, dizendo “sim” à vida, na contemplação do mistério da Trindade, origem da ternura e pátria a qual ela está radicalmente orientada.
No centro de todo anúncio de ternura permanecerá sempre o Kyrios, o Ressuscitado, centro focal da história humana. Deus é a fonte inesgotável e o cume de toda ternura para aqueles que se deixam amar por Ele e n’Ele aprendem a amar ternamente a vida e cada realidade pequenina da criação. A questão é ser plenamente consciente disso, deixando-se envolver pela ternura de Deus como por um amável seio materno.
Fonte:
ROCCHETTA, C., “Teologia da Ternura – um Evangelho a descobrir”, São Paulo, Paulus, 2002.


 

"Onde há vontade, há um Caminho"


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