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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Quem é o Rufus? - Um Conto




Rufus nasceu no ano 95 d.C. em Óstia, uma pequena mas importante cidade que ficava a cerca de 30 km de Roma. Era o porto de mar mais próximo da capital romana, e daí lhe vinha a importância. Era um lugar de passagem de todas as culturas, línguas, costumes e religiões. O pai de Rufus era comerciante, coisa normal para quem vivia numa cidade como aquela.

Por volta do ano 110, quando Rufus tinha 15 anos e já trabalhava com o pai, foram numa das suas inúmeras viagens a Roma levar mercadoria para vender por lá no mercado. Durante esses dias por lá falava-se, ainda que à boca pequena, de alguém que tinha vindo prisioneiro de Antioquia, na Pisídia, que ficava quase num dos extremos do Império. Era um prisioneiro especial, porque não era violento e não era condenado por rebelião ou crime. Era um líder de uma seita que tinha surgido uns anos antes entre os judeus e que, ao chegar a Antioquia se passara a chamar dos “cristãos”. Porque seguiam um tal Cristo que, na língua dos judeus significava “Ungido por Deus”.
Este preso de quem se falava no mercado chamava-se Inácio. Rufus não sabia se estava para chegar ou se já tinha chegado, mas estava a acontecer qualquer coisa… Uma vez, estando com o pai, deu-se conta que alguns comerciantes e pessoas que estavam no mercado começaram a conversar entre si sobre esse tal Inácio e depois, discretamente, saíram juntos. Rufus foi atrás. Viu-os entrarem numa casa simples que ficava nas traseiras da Via Aurelia e fecharem a porta. Ele chegou e sentou-se no chão, encostado à parede da casa mesmo por baixo das portadas de madeira velha da janela. Apesar de eles falarem baixo, ele podia daí ouvir tudo o que diziam…

Um deles tinha uma cópia de uma carta que esse Inácio vindo de Antioquia tinha escrito àqueles a quem chamava de “irmãos”, preparando a sua chegada. Começou a ler a carta para os outros, e Rufus nunca mais esqueceu as coisas que ouviu…

Marcou-o profundamente a maneira como aquele prisioneiro que vinha de tão longe falava do tal Cristo nessa carta e manifestava desejo de imitá-lo. Falava de Cristo como Rufus sempre ouvira os seus conterrâneos falarem dos seus deuses, mas, ao mesmo tempo, ao contrário de tudo o que já tinha ouvido! Queria pertencer-lhe, dizia ele aos tais “irmãos de Roma” a quem dirigia a carta, queria “ser de Cristo”, e estava contente por poder sê-lo através do testemunho da morte pública no Coliseu da capital do Império.

Perdeu a noção do tempo enquanto ali agachado os escutava a ler e a comentar a carta. Já estava a ficar escuro quando acabaram e Rufus percebeu que iam sair de casa. Como que acordou com o arrastar dos bancos em que eles estavam sentados e ainda que quisesse levantar-se num salto não podia porque tinha as pernas dormentes. Foi a custo que se ergueu e voltou para o mercado onde o pai, já com a mercadoria arrumada esperava por ele impaciente. Roma podia ser uma cidade muito perigosa para um rapazinho como aquele.

Ficaram na cidade apenas mais um dia, o negócio tinha corrido bem, e voltaram para Óstia.
Aquela tarde nunca mais saiu da memória do jovem Rufus…

Cresceu e passados poucos anos já era ele quem tomava conta do negócio do pai. Um dia, negociando no porto de Óstia conheceu alguém que era de Antioquia. Imediatamente se lembrou daquela tarde em Roma uns anos antes e perguntou-lhe se tinha conhecido Inácio. O antioqueno, que se chamava Tito, confirmou que não estava mais ninguém a prestar atenção à conversa e disse-lhe que sim, que o tinha conhecido muito bem, que o amava de verdade, e perguntou a Rufus: “Também és de Cristo?”

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