Henrique Cláudio de Lima Vaz, S.J.
(Ouro Preto, 24 de agosto de 1921 — Belo Horizonte, 23 de maio de 2002) foi um padre
jesuíta, professor, filósofo e humanista brasileiro.
Juventude
e formação inicial
O Padre Vaz nasceu em Ouro
Preto. Era irmão de Dom José Carlos de Lima Vaz. Entrou na Companhia de Jesus
em 28 de março de 1938. Fez seus estudos filosóficos no antigo escolasticado
dos jesuítas em Nova Friburgo. Em 1945, foi para Roma estudar Teologia na Pontifícia
Universidade Gregoriana, onde concluiu o curso de licenciatura com uma
dissertação intitulada O problema da beatitude em Aristóteles e Santo Tomás.
Sua ordenação presbiteral deu-se
a 15 de julho de 1948. Completou sua
formação religiosa em Gandia, na Espanha. Voltando a Roma, obteve em 1953 o doutorado
em Filosofia pela Universidade Gregoriana, com a tese De dialectica et
Contemplatione in Platonis Dialogis, que versou sobre a dialética e a intuição
nos diálogos platônicos da maturidade.
Magistério
Lima Vaz trabalhou no
magistério filosófico universitário durante quase 50 anos. Primeiro na
Faculdade de Filosofia da Companhia de Jesus em Nova Friburgo (1953-1963), que
depois foi transferida para São Paulo (1963-1974)- período em que Lima Vaz
esteve ausente do ensino na falcudade - e, depois para o Rio de Janeiro (1975-1981)
e, novamente transferida para Belo Horizonte (1982-). Ensinou também em cursos
do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade
Federal de Minas Gerais de 1964 a 1986, da qual recebeu em 2001, o título de
Professor Emérito.
Ação
Popular
Nos anos 60 tornou-se mentor da
Juventude Universitária Católica (JUC) e da Ação Popular, na sua primeira fase.
Num cenário agitado e confuso como o da época, os artigos de Lima Vaz tiveram o
impacto de uma lufada de ar puro sobre uma geração cristã, que se sentia
asfixiada por uma tradição religiosa alheia aos desafios políticos e culturais
do seu tempo. Lima Vaz soube como ninguém oferecer uma análise crítica do
pensamento marxiano numa atitude intelectual firme e aberta ao debate,
criticando todo reducionismo intra-histórico pelo chamado à transcendência,
mas, ao mesmo tempo, questionando a posição tradicional a partir do pensamento
dialético.
Fé
e Razão
A religião e a fé, para Lima
Vaz, não eram algo extrínseco com o qual se relacionava: nelas vivia e delas se
alimentava espiritualmente. Por isso ele afirmava não experimentar conflitos
interiores a respeito da compatibilidade entre suas convicções religiosas e sua
vocação de filósofo. Desde o início deixou-se guiar pela diretriz de Santo
Agostinho: "crê para entenderes e entende para creres". Desta forma,
seu trabalho filosófico manteve-se rigorosamente dentro das exigências metódicas
e doutrinais da razão. E, todas as vezes que atingia as fronteiras onde a razão
se encontra com a fé, essa linha divisória era explicitamente traçada.
Erudição
Um erudito, Lima Vaz possuía
uma sólida e vasta cultura científica e humanística, bem como um amplo
conhecimento filosófico de todo o pensamento ocidental.
Vinculado fundamentalmente à Metafísica
clássica, possuía um vivo interesse pelo pensamento moderno e seus principais
representantes, deixando-se seriamente questionar pela modernidade. Grande
destaque deve ser dado, também, ao seu profundo conhecimento da obra de Hegel.
Nos seus últimos trabalhos
buscou analisar a realidade sociocultural contemporânea e a crise da
modernidade sob os aspectos filosóficos, éticos, políticos e religiosos. Nestas
suas investigações, tomou posição no debate de idéias a respeito do sentido
transcendente da existência humana e dos rumos de nossa civilização.
Síntese
Filosófica
Sua síntese filosófica pessoal
apoiava-se em três grandes influências: Platão, Tomás de Aquino e Hegel. Mas,
seu autor predileto é, sem dúvida, Tomás de Aquino. Lima Vaz via na obra de
Tomás de Aquino, especialmente na sua metafísica, tal profundidade, lucidez e
equilíbrio nas questões fundamentais que, ainda hoje, suas intuições são,
segundo Lima Vaz, capazes de fecundar a reflexão. E, nesta união fecunda de
elementos antigos, como a metafísica de Tomás de Aquino, e perspectivas
renovadoras, com ênfase na dialética hegeliana, Lima Vaz colocava-se em busca
de uma vida ética, onde fosse possível a realização da humanidade na liberdade,
na verdade, na beleza e na justiça.
Nos seus últimos escritos, Lima
Vaz busca recuperar a idéia de sistema no sentido da articulação ordenada do
pensamento, sem a qual não há leitura coerente da realidade, e a filosofia se
esvai em gratuitos jogos de linguagem. A partir desta idéia de sistema Lima Vaz
constrói, principalmente, sua Antropologia Filosófica e sua Ética Filosófica.
Seu último livro, Raízes da Modernidade, propõe para o nosso tempo, tempo de
incertezas e de renovadas articulações, o humanismo teocêntrico como itinerário
para a realização plena do ser humano em sua existência pessoal e social.
Cultivou uma vida recolhida,
simples, sem ostentação, impondo-se um ritmo de trabalho disciplinado e
austero.
O Padre Vaz veio a falecer em
Belo Horizonte no dia 23 de Maio de 2002, devido a complicações
pós-operatórias.
Bibliografia
Obras
de Lima Vaz
Livros
Escritos de Filosofia I:
Problemas de Fronteira, São Paulo: Loyola, 1986
Escritos de Filosofia II: Ética
e Cultura, São Paulo: Loyola, 1988.
Escritos de Filosofia III:
Filosofia e Cultura, São Paulo, 1997.
Escritos de Filosofia IV:
Introdução à Ética Filosófica I, São Paulo: Loyola, 1999.
Escritos de Filosofia V: Introdução
à Ética Filosófica II, São Paulo: Loyola, 2000.
Escritos de Filosofia VI:
Ontologia e História (2a. edição), São Paulo: Loyola, 2001.
Escritos de Filosofia VII:
Raízes da Modernidade, São Paulo: Loyola, 2002.
Antropologia Filosófica I, São
Paulo: Loyola, 1991.
Antropologia Filosófica II, São
Paulo: Loyola, 1992.
Experiência Mística e
Filosófica da Tradição Ocidental, São Paulo: Loyola, 2000.
Obras sobre Lima Vaz
AQUINO, M. F. "Experiência
e Sentido I", Síntese, n.47, 1989, pp.29-50
AQUINO, M. F. "Experiência
e Sentido II", Síntese, n.50, 1990, pp.31-54.
AQUINO, M. F. "Metafísica
da subjetividade e linguagem I", Síntese, n.61, 1993, pp. 199-218.
AQUINO, M. F. "Metafísica
da subjetividade e linguagem II", Síntese, n.67, 1994, pp. 495-528.
AQUINO, M. F. "Metafísica
da subjetividade e linguagem III", Síntese, n.71, 1995, pp. 453-488.
AQUINO, M. F. "Sistema e
Liberdade: a propósito de 'Ontologia e História'", Síntese, n.55, 1991,
pp.499-504.
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Dissertação de mestrado. Faculdade de Filosofia do Mosteiro de S. Bento - São
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SHIMMI, R.A. "Lima Vaz e a
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Padre
Vaz, filósofo de um mundo em busca de sentido
Com a morte do padre Henrique
Cláudio de Lima Vaz, professor emérito
da UFMG, o pensamento brasileiro perde seu mais expressivo filósofo. Seu trajeto filosófico estende-se por toda a filosofia ocidental, num arco que vai de Platão até o exame da modernidade mais recente, sobre a qual versa seu último livro, Raízes da Modernidade, que não chegou a ver impresso, pois saiu da editora no exato dia em que morreu.
da UFMG, o pensamento brasileiro perde seu mais expressivo filósofo. Seu trajeto filosófico estende-se por toda a filosofia ocidental, num arco que vai de Platão até o exame da modernidade mais recente, sobre a qual versa seu último livro, Raízes da Modernidade, que não chegou a ver impresso, pois saiu da editora no exato dia em que morreu.
Dono de um conhecimento
prodigioso de toda a tradição clássica, lida nas fontes originais e
intensamente meditada, não ficou preso à exegese erudita dos textos. O
conhecimento da metafísica grega, aliada ao estudo dos autores cristãos, deu a
seu pensamento a densidade necessária para enfrentar o criticismo moderno. Dois
autores despontam como referência obrigatória: Santo Tomás, espécie de norte
magnético a indicar a direção, e Hegel, esse novo Aristóteles enciclopédico que
se aventura a rememorar toda a cultura ocidental.
Para chegar a Hegel, contudo,
há que se atravessar a imensa barragem das três críticas de Kant. Padre Vaz
estudou-as com exemplar cuidado. Para sair de Hegel, no entanto, a modernidade
exige um rito de passagem por Marx. Henrique Vaz não se esquivou dessa
passagem, mas realizou-a como que de modo preventivo, antes mesmo de iniciar-se
em Hegel.
Os conturbados anos 60 da vida
brasileira fizeram-no compreender as urgências da política e impuseram-lhe a
tarefa de uma leitura crítica e cristã do pensamento marxiano. Para entender o
mundo moderno, aconselhava Hegel, substitua-se a prece matutina pela leitura
dos jornais; Vaz corrige o mestre alemão: a leitura após a prece dará, sem
dúvida, frutos melhores. A juventude católica não haveria de renunciar à fé
pela política, deveria antes dar o testemunho da fé na própria militância
política. Seus escritos daquela época não deixam dúvida quanto a esta opção
definitiva. Em sua última entrevista, Padre Vaz fala de sua participação
política naqueles anos, do trabalho com a Juventude Universitária Católica
(JUC) e com o Movimento de Educação de Base, bem como de textos, como Cristianismo
e Consciência Histórica, de 1961, que exerceram considerável influência nos
movimentos cristãos, embora, modestamente, dissesse que "eram textos de
reflexão, não de ação". Os estudos sobre Hegel desenvolvem-se a partir de
1970, na UFMG, através de uma série de cursos sobre o filósofo da Fenomenologia
do Espírito, que se estenderam até sua aposentadoria, em 1987. Foram cursos
memoráveis sobre a Fenomenologia, a Ciência da Lógica, a Enciclopédia das
Ciências Filosóficas e a Filosofia do Direito. Vem desta época seu renome como
especialista na filosofia de Hegel, da qual, de fato, tornou-se tão conhecedor
quanto já era da filosofia platônica.
Tão importantes quanto os
estudos sobre Hegel são os livros que publicou nos últimos anos: a série dos Escritos
de Filosofia, em cinco volumes, sendo três sobre ética; os dois volumes sobre Antropologia
Filosófica; e o breve, mas substancial Experiência Mística e Filosofia na
Tradição Ocidental. Por fim, o livro póstumo ao qual já me referi: Raízes da
Modernidade.
Quero, porém, deter-me em duas
obras fundamentais para entender a trajetória intelectual e o caminho
espiritual de Padre Vaz: os dois volumes sobre antropologia filosófica e o
livro sobre a mística. A primeira parte da Antropologia expõe criticamente as
concepções sobre o homem na filosofia ocidental, enquanto a segunda empreende
uma discussão dos conceitos subjacentes à idéia de uma antropologia filosófica.
A filosofia crítica de Kant
formulou três perguntas fundamentais: Que posso saber?; Que devo fazer?; Que
posso esperar? A primeira é teórica e deve ser respondida pela ciência; a
segunda, prática, deve ser respondida pela filosofia (ética); a terceira,
religiosa, só pode ser respondida pela fé. Resumiu as três questões numa única:
Que é o homem?
Henrique Vaz aprofunda a
questão. Após o exame histórico, retoma o problema em sua origem e estuda as
categorias que permitem compreender o homem: objetividade, intersubjetividade e
transcendência. Cada categoria ultrapassa a antecedente, mas a mantém
implícita. Assim, a categoria de intersubjetividade não nega que o homem seja
um objeto, mas indica que é um objeto que nega a si próprio para tornar-se
sujeito; a intersubjetividade "sublima" a categoria de objeto, ao
mostrar que o sujeito espiritual estabelece com outro sujeito uma relação eu-tu,
base da comunidade espiritual e humana do nós. Cada eu é o outro de um outro.
Esta segunda categoria permite pensar os conceitos de espírito e pessoa. A
terceira categoria, transcendência, conserva a intersubjetividade, mas, ao
mesmo tempo, a transcende na direção do Absoluto. Em capítulo inspirado, mostra
que a noção de transcendência perturba a inércia do pensamento e o leva à
reflexão radical que forma o impulso que move a filosofia: "a reflexão
sobre a transcendência", escreve ele, "constitui a terra natal da
filosofia" (Antropologia, vol. II, p. 114). Esta tese permite-lhe
descobrir a presença do Absoluto: o fim não poderia advir se não estivesse
antes no princípio. A Antropologia Filosófica culmina num capítulo sobre a
categoria de pessoa, articulada entre o tempo e a eternidade. "O ser e o
modo dessa eternidade permanecem inacessíveis à demonstração filosófica. Dela,
no entanto, uma figura ou imagem transparecem justamente nesse dinamismo da
auto-afirmação e nesse surto profundo do eu sou que passa além de todo eidos
finito e tende à plenitude infinita do ser" (vol. II, p. 236). A demonstração
filosófica não vai além da indicação de um caminho transcendente que o homem
deve percorrer. É a versão conceptual da sede de infinito que experimentamos em
nossa vida finita e incompleta.
A antropologia filosófica
culmina no conceito de homem como pessoa e espírito, deixando claro que o
espírito é uma exigência que não se satisfaz com qualquer determinação finita.
Assim, a antropologia filosófica não pode ser aprisionada na precariedade da
vida mate-rial. Ela deve, pois, transformar-se em cristologia, pois o homem é
incapaz de ser o mediador de si mesmo no caminho do Absoluto. Cristo é o
mediador absoluto.
Na missa comemorativa de seus
80 anos, Henrique Vaz reiterou sua profissão de fé diante dos discípulos e
amigos que foram saudá-lo: "Eu amo o Cristo". Nove meses depois, na
missa de corpo presente, a comunidade, em resposta, cantou: "... e neste
Homem / o homem enfim se descobriu". Ecce homo. Deus o acolha entre os
santos.