Não é fora de propósito repetir, sobre
as eleições, as sábias normas dadas em outra época por S. Exa. Dom
Antônio de Castro Mayer, então bispo diocesano de Campos. São
princípios que devem orientar os católicos para que procedam de
acordo com a consciência cristã na opção política. Ei-las:
Costuma-se distinguir ação política e
ação político partidária. É admissível a participação do fiel na vida
política do país, sem que ele necessariamente se engaje num
determinado partido político.
Mas a abstenção político partidária não
pode levar o católico a ser indiferente a todos os partidos. Pois há
agremiações políticas que merecem explícita censura da Igreja, como o
Partido Comunista: este partido, e quem o favorecer, foi objeto de
reprovação e penas decretadas pela Santa Sé.
E quando a Igreja assume tal posição em
matéria política é porque está em perigo a própria organização e
condução da Coisa Pública: um partido político merece condenação da
Igreja quando seus estatutos e sua ideologia afirmam algo contra as
exigências do Direito Natural, da Moral Natural e da Doutrina
revelada por Deus.
Alguns católicos porém, não desejando de
modo algum o totalitarismo comunista e escandalizados com o abuso do
capitalismo selvagem, esquecendo-se no entanto da estruturação
orgânica preconizada pela Igreja para uma sociedade justa e cristã
(Leão XIII e Pio XI), apontam como única alternativa válida, o
socialismo.
Mas Pio XI, na encíclica Quadragésimo
Anno, em que especifica a distinção entre Comunismo e Socialismo, já
observava que “socialismo religioso, socialismo católico são
contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e
verdadeiro socialista”. Na ordem econômica, o Papa reivindica a
legitimidade do direito de propriedade pessoal e individual como
postulado da dignidade humana. E expõe com clareza a oposição radical
entre o Socialismo e o Catolicismo, oriunda da própria filosofia em
que se inspira e que constitui a alma do Socialismo. Esse é o motivo
por que, dizia o Papa, deve o fiel rejeitar o Socialismo mesmo quando
se aproxima da verdade e da justiça pregadas pela Igreja, “pois
ele concebe a sociedade de modo completamente avesso à verdade
cristã”.
E Pio XII, já em 14 de Setembro de 1952,
declara que no Socialismo “soçobram os mais altos valores: a
dignidade da família e a salvação eterna das almas”.
Bem, alguns vão protestar contra o que
dizemos sustentando que o comunismo e o socialismo mudaram:
“Comunista não come criancinhas, como diziam!”. Não come mas mata!
Pois o candidato do Partido Comunista, ateu confesso, defende
abertamente o aborto, que, cristã e cientificamente falando, é um
infanticídio, inteiramente contrário à moral, ao direito natural e à
doutrina revelada por Deus.
Donde vem o poder?
Diz a falsa teoria sociológica de
Jean-Jacques Rousseau, teoria esta posta em prática pela Revolução
Francesa, que todo o poder vem do povo, residindo neste a fonte de
toda a autoridade civil.
Esta teoria tomou corpo em todas as
democracias modernas. E desta doutrina procedem muitos desvarios: o
homem acha-se dono de si mesmo e dos seus destinos, faz e desfaz suas
próprias leis, sem levar na menor consideração a lei de Deus. É o
célebre mito da soberania popular. É o homem que quer se fazer deus.
Aliás esta sedutora tentação data dos primórdios da humanidade,
quando a serpente infernal, sugerindo aos nossos primeiros pais a
revolta contra Deus, segredou-lhes: “Sereis como deuses...!”.
E as conseqüências deste engodo do pai da mentira nós sofremos até
hoje!
Mas contra esta tese da origem popular
do poder está a palavra divina: “Não há autoridade que não venha
de Deus” (ROM. 13, 1). Todo o poder vem de Deus. Os homens
poderão até escolher o nome, a pessoa do governante, como acontece no
regime democrático, mas quem lhe dá o poder e autoridade é Deus. E
isso em qualquer forma de governo, monárquico, aristocrático ou
democrático.
Daí o respeito que devemos ter à
autoridade constituída: o seu poder vem de Deus.
Nosso Senhor reconheceu esta origem do
poder até no governador romano Pôncio Pilatos que iniquamente o
julgava (São João 19, 11). Ele estava abusando de um poder recebido
de Deus.
Segue-se disso a gravidade do abuso de
poder: o governante está extravasando, abusando de um dom, de um
carisma, de um poder que lhe foi dado pelo próprio Deus. Que severas
contas darão a Deus os governantes!
E o pior castigo que Deus pode dar a um
povo infiel são os maus governantes: “Farei que tenham meninos por
príncipes, e pirralhos que lhes dêem ordens” (Isaías 3, 4).
É o célebre adágio popular: o povo tem o
governo que merece.
Que Nossa Senhora Aparecida nos proteja
e dê sempre bons governantes à nossa Pátria!
A esquerda e a direita
Aí estão duas etiquetas largamente
usadas no mundo político, religioso, artístico etc. Costumam apelidar
intelectuais de esquerda (“que honra”), políticos de direita (“que
horror”), e assim por diante. Mas, na verdade, direita e esquerda são
termos nebulosos, equívocos, geradores de confusão.
A própria distinção entre direita e
esquerda é geralmente iniciativa da esquerda, tomada pela esquerda em
proveito da esquerda.
Existe uma direita, muito temerosa de
sê-lo, com muito receio de ser chamada de direita. Por isso mesmo
costuma se intitular a si própria de “centro”, ou talvez “centro
direita”, tal é o pavor que inspira o termo “direita”.
Costumam aureolar – e geralmente é a
esquerda que o faz – o conceito de esquerda com certa simpatia. Ser
de esquerda é ser aberto, favorável ao progresso, com uma moral mais
moderna, mais jovem, científico, anti-ditatorial, mais democrático.
Agora, ser de direita, para essa
mentalidade fabricada, é ser radical, totalitário, ditatorial,
autoritário, militarista, antiprogressista, fascista, nazista etc.
Tais são os rótulos, criados pela
esquerda e em proveito da esquerda. O interessante é que a esquerda
se designa a si mesma e a direita é designada pela esquerda. É da
“direita” aquele que a esquerda designa ou denuncia como tal. E ela
empurra para a direita, por tática, pessoas e movimentos que de
direita nada têm. É a esquerda que lança o jogo “esquerda contra a
direita” e fixa as regras do jogo.
Que grande festa! Lançam para a direita
o ex-socialista Mussolini. Representam a Hitler, demagogo socialista
e revolucionário, como a um homem de direita. Como a um homem de
direita a Charles de Gaulle, que chegou ao poder em 1944 com os
comunistas e governando com eles.
Outra mentira é dizer que o
ditatorialismo seja nota característica da direita. O comunismo
sempre foi ditatorial e se define a si mesmo como “ditadura do
proletariado”. Fidel Castro é esquerdista e ditador. Gorbachev, Deng,
Ciao Ping, Daniel Ortega etc. são ditadores e são de esquerda.
Esquerda é que é sinônimo de ditadura e totalitarismo e não a direita
como querem nos fazer crer.
Também não é verdade que o militarismo
seja sempre de direita. Fidel, Mao, Stalin, Daniel Ortega só se
apresentam, ou se apresentavam, fardados.
Outro equívoco fabricado pela esquerda é
designar os regimes nazista e fascista como direitistas. E até os
colocam como “extrema direita”! Mas, na verdade, nazismo e fascismo
estatizaram a economia e a educação, portanto com todas as
características da esquerda.
Um grande equívoco
A história é mestra da vida. E os erros
do passado nos ajudam a evitar os fracassos futuros.
Segundo declarações dos Padres cubanos,
a revolução de Fidel Castro teve, no seu início e durante todo o
período mais duro da conquista do poder, a colaboração franca,
corajosa e entusiasta de católicos. A maioria dos guerrilheiros de
Sierra Maestra era constituída de católicos, que lutavam com o
rosário na mão, animados e acompanhados por Padres católicos.
Por que os católicos colaboram com a
implantação de um regime comunista anti-cristão? Porque, iludidos
pelas aparências, caíram num grave equívoco. Na aparência, os
católicos e os comunistas tinham o mesmo objetivo: libertar a pátria
de um governo tirânico. Mas na verdade, enquanto os católicos
desejavam acabar com os desmandos de um regime corrupto, os
Fidel-castristas queriam sim, aproveitando-se daquela situação,
implantar um outro regime, mais tirânico ainda, no qual seriam os
donos de uma nação escravizada, subordinada a Moscou. Os comunistas
de então, como fazem os de agora, exploravam as injustiças que havia
e lamentavam os desmandos, angariando assim a adesão de muita gente
de reta intenção. E terminavam por apresentar o comunismo como
solução para os problemas e erros, não declarando, porém, que ele é
uma escravidão e tirania muito pior. E foi assim que um país de
imensa maioria católica caiu sob a dominação do comunismo.
Nosso Senhor ordenou que aliássemos a
simplicidade da pomba à prudência da serpente. Tenhamos cuidado com
os que se aproveitam de situações adversas para apresentar o
comunismo e o socialismo como solução. O engodo é sempre o mesmo: a
luta contra a miséria e a injustiça, que realmente existem, e cujo
combate comove todas as pessoas de bem. E assim, essas pessoas de boa
fé, não vendo que por detrás de considerações humanitárias há um fim
perverso, acabam dando a sua colaboração para a implantação do regime
comunista que, ao invés de corrigir os abusos, se constituirá na mais
tremenda ditadura e tirania.
Reforma agrária –
reflexões
A Igreja como guardiã da Lei Natural e
da Lei Positiva de Deus, defende o direito de propriedade, como aliás
o defende também a nossa Carta Magna. O 7º Mandamento da Lei de Deus
“Não furtar”, supõe evidentemente que cada um tenha o direito de
possuir o que é seu. Verdade reafirmada no 10º Mandamento: “Não
cobiçarás a mulher do teu próximo, nem a sua casa, nem o seu campo...
nem o seu boi... nem coisa alguma que lhe pertença” (Dt. 5, 21).
Ademais, a Bíblia narra que os
Patriarcas possuíam grandes propriedades com a bênção de Deus; por
exemplo, Abraão, Lot e Jó.
Assim, a Reforma Agrária compulsória, de
estilo socialista e confiscatório, não encontra respaldo na doutrina
cristã e na Lei de Deus.
Além disso, apresentar a Reforma Agrária
como solução para os problemas sociais é mera ilusão. O meio
universal de prover às necessidades da vida é o trabalho, quer se
exerça em terreno próprio quer no alheio. Por isso a Igreja advoga
que haja trabalho remunerado com justiça. E o justo salário, que a
doutrina católica ensina e com o qual onera a consciência dos
patrões, é o salário que seja suficiente para o sustento do
trabalhador e de sua família e lhe dê condições de formar um modesto
pecúlio que lhe ofereça tranqüilidade no futuro.
Mas o trabalho não é só trabalho manual.
Também o trabalho intelectual, técnico, administrativo, do
proprietário por exemplo, é trabalho e deve ser defendido e bem
remunerado.
Outrossim a Reforma Agrária
confiscatória e fragmentadora até hoje não deu certo em parte alguma.
Estão aí os exemplos de Cuba, El Salvador e do México, onde tiveram
que vender os minifúndios distribuídos para aglutiná-los novamente
porque a produção se transformara num fracasso. Ademais a insegurança
e inquietação provocadas pelo espectro da Reforma Agrária conduz à
queda de produção, cujo saldo é a fome, sem falar no recrudescimento
da luta de classes, com mortos e feridos cujas notícias enchem nossos
jornais.
Ao invés da Reforma Agrária que só
traria prejuízos, o que o Brasil precisa é de uma política agrária,
uma verdadeira reforma agrícola, baseada na função subsidiária do
Estado, com maior assistência ao homem do campo, técnica e
financeiramente, revisão da legislação trabalhista tornando-a
igualmente justa para patrões e empregados; maior segurança aos
pequenos e médios proprietários; maio difusão da parceria e do
colonato; maior fixação do trabalhador na terra, propiciando melhor
atendimento sanitário, hospitalar e educacional dos proprietários aos
seus colonos e suas famílias, resolvendo assim em grande parte o
problema dos bóias-frias; incentivo ao cooperativismo baseado na
livre iniciativa e no direito de propriedade; tudo isso impregnado da
verdadeira caridade e fraternidade cristãs.
Citado do livro "Quer agrade Quer
desagrade" do Pe. Fernando Arêas Rifan, disponível para baixar no
Especial Campos do
Site da
FSSPX do Brasil