Eu tinha
a intenção de incluir no primeiro capítulo do meu livro, Aquinas: a
Beginner's Guide, um breve resumo da história do tomismo, mas, no final das
contas, o livro acabou ficando longo demais, e, uma vez que a seção em questão
não se encaixava perfeitamente no capítulo, meu editor e eu decidimos cortá-la.
Ainda assim, podendo ser útil para os leitores à procura de um resumo rápido
sobre a variedade (muitas vezes confusa) de escolas de pensamento que se
desenvolveram dentro da tradição tomista, apresento-o aqui. O texto começa um
pouco abruptamente, pois deveria aparecer imediatamente após a seção sobre
"a vida de Tomás de Aquino e funciona", e remete a algumas questões
levantadas ali. Eu o dividi em duas partes: a primeira aborda a história do
tomismo até meados do século XX e a segunda parte cobrirá tomismo analítico,
oferecendo algumas recomendações para outras leituras.
A
controvérsia sobre aristotelismo não acabou com o trabalho de Tomás de Aquino,
muito menos com a sua morte. Em 1270, enquanto Santo Tomás ainda estava vivo,
Stephen Tempier, o bispo de Paris, havia condenado várias proposições
associadas averroísmo, embora entre elas não houvesse qualquer tese defendida
pelo Aquinate. Depois de sua morte, contudo, em 1277, Tempier condenou 219
proposições, algumas das quais eram claramente encontradas em Santo Tomás. Isso
levou Santo Alberto Magno a Paris para defender seu ex-aluno, ao mesmo tempo
que outros dominicanos também se lançaram à tarefa de defender a doutrina de
seu irmão da Ordem dos Pregadores. Na verdade, o estudo de Santo Tomás tornaria-se
obrigatório dentro da ordem. A defesa dominicana e a consolidação do
ensinamento de Santo Tomás, que começaram logo após a sua morte, às vezes são
tomadas pelos historiadores como início do primeiro dos três períodos na
história do tomismo. Que ela foi uma empreitada bem-sucedida torna-se evidente
pelos fatos de Tomás de Aquino ser declarado santo pelo Papa João XXII em 1323,
e de dois anos depois, em 1325, as condenações Tempier de 1277 terem sido
revogadas pelo seu sucessor.
Da mesma
maneira que os dominicanos em geral haviam defendido Santo Tomas, os membros da
ordem franciscana estavam entre os seus mais ferozes críticos. A rivalidade
entre as duas ordens se tornariam ainda mais amargo com a influência dos
pensadores franciscanos João Duns Scoto (1266-1308) e Guilherme de Ockham
(1287-1347). Scoto e Ockham tendiam para o voluntarismo, que enfatiza a vontade
de Deus sobre o Seu intelecto e, portanto, torna Suas ações mais impenetráveis
para nossa compreensão racional do que o são na visão de Santo Tomás. Ockham é
notoriamente associado ao nominalismo, que nega a existência dos universais. Do
ponto de vista tomista, essas doutrinas ameaçavam minar a inteligibilidade do
mundo e os fundamentos racionais da ética e do nosso conhecimento de Deus. As posições
do Aquinate foram habilmente defendidas pelas teses similares de João Capreolo
(1380-1444), que ficou conhecido como Princeps Thomistarumor, o Primeiro
dos Tomistas.
O segundo
período na história do tomismo tem seu início às vezes datado aproximadamente
na época da Reforma protestante e do Concílio de Trento (1545-1563), que foi
convocado em reação a Reforma. Tomás de Vio, também conhecido como o Cardeal
Caetano (1469-1534), produziu um comentário importante sobre a Suma Teológica
que exerceria uma influência decisiva sobre a compreensão geral das doutrinas
de Santo Tomás. A ênfase de Caetano na continuidade com as posições de Santo
Tomás foi seguida pelos comentaristas posteriores, como Domingos Báñez
(1528-1604) e João Poinsot (1589-1644), que viria a ser conhecido como João de
Santo Tomás. Isto contrastou com a tendência dos pensadores da nova ordem
jesuíta, como Luís de Molina (1535-1600) e Francisco Suárez (1548-1617), de
combinar o pensamento de Tomás de Aquino com vários elementos não-tomista.
Essas tendências diferentes, grosseiramente associadas aos dominicanos e
jesuítas, respectivamente, deram origem às disputas doutrinárias por vezes
calorosas, sendo a mais famosa a controvérsia sobre a graça, o livre-arbítrio e
a presciência divina.
A
filosofia antiga e medieval em geral, e o tomismo em particular, enfatizava a
metafísica sobre epistemologia, e a realidade objetiva sobre a nossa
consciência subjetiva dela. A ordem correta de investigação, desde esse ponto
de vista, é primeiro determinar a natureza do mundo e o lugar dos seres humanos
dentro dele, para então, nessa base, investigar como os seres humanos adquirem
o conhecimento do mundo. A filosofia moderna, começando com René Descartes
(1596-1650), inverte essa abordagem, tendendo a começar com perguntas a
respeito de como podemos ter conhecimento do mundo, e só então passar a
considerar o mundo como tal, baseada em nosso conhecimento sobre ele. Em
particular, tanto o racionalismo de Descartes quanto o empirismo de escritores
como Locke, Berkeley e Hume, começam com o sujeito individual
consciente ou o Eu, desenvolvem uma teoria sobre como esse Eu pode saber alguma
coisa, e então determinam o que deve ser a realidade em geral, de acordo com as
suas respectivas teorias do conhecimento.
Um dos
resultados desse método subjetivista foi problematizar a realidade objetiva e
senso comum de uma forma que não havia sido para Aristóteles e Tomás de Aquino.
Dessa maneira, o ceticismo começou a parecer uma ameaça séria, e o idealismo (a
visão de que o mundo material é uma ilusão e que só a mente em si é real)
também se colocou como uma opção séria. Outra conseqüência foi que, mesmo
quando algum tipo de realidade objetiva era reconhecida, eram levantadas
dúvidas sobre a possibilidade de conhece-la além do que os sentidos podiam nos
dizer diretamente. Assim, os grandes sistemas metafísicos, do tipo apresentado
por Platão, Aristóteles e Tomás de Aquino, foram colocados em dúvida. A
filosofia de Emmanuel Kant (1724-1804) foi uma expressão especialmente influente
da hostilidade à metafísica tradicional, ao distinguir entre
"fenômenos" (o mundo como ele aparece para nós, dos quais podemos ter
conhecimento) e "noumena" (o mundo como ele existe em si, que
não podemos conhecer).
Tomistas
do século XIX, como Joseph Kleutgen (1811-1883), tentaram reavivar a tradição
aristotélico-tomista em face destes desenvolvimentos modernos, e seus esforços
foram amplamente auxiliados pela encíclica Aeterni Patris (1879), do
Papa Leão XIII, que clamava por uma renovação do tomismo e da filosofia
escolástica em geral. O resultado foi um movimento neo-tomista e
neo-escolástico, que marcou uma terceira fase na história do tomismo, dominando
o pensamento católico romano até o Concílio Vaticano II (1962-65), e que tem
influenciado significativamente a compreensão moderna do pensamento de Santo
Tomás até os dias de hoje. Várias das escolas de pensamento que se descrevem
como "tomista" se desenvolveram ao longo do século passado, cada uma
representando uma resposta diferente aos temas e pressupostos característicos
da filosofia moderna. Uma vez que tiveram uma influência tão profunda no debate
contemporâneo sobre o pensamento de Santo Tomás, valerá a pena descrever
brevemente as principais posições:
1. O
neo-tomismo escolástico: tendência dominante no tomismo durante as primeiras
décadas após o renascimento provocado pela encíclica de Leão XIII, essa
abordagem se reflete em muitos dos manuais e livros didáticos amplamente
utilizados em colégios católicos e seminários antes do Concílio Vaticano II.
Devido a sua ênfase em seguir a tradição interpretativa dos grandes
comentadores de Santo Tomás (como Capreolo, Caetano e João de Santo Tomás) e a
sua desconfiança das tentativas de sintetizar o tomismo com categorias e
pressupostos não-tomistas, ela também tem sido por vezes rotulada como
"tomismo de estrita observância". Ademais, seu foco era menos sobre a
exegese histórica dos textos do Aquinate do que sobre a execução do programa de
desenvolvimento de um sistema rigorosamente trabalhado da metafísica tomista
numa crítica geral da filosofia moderna. Sua fé filosófica central está
resumida nas famosas "Vinte e quatro teses tomistas" aprovadas pelo
Papa Pio X. Reginald Garrigou-Lagrange (1877-1964) talvez seja o seu maior
representante.
2.
Tomismo existencial: Etienne Gilson (1884-1978), o principal proponente dessa
abordagem do tomismo, enfatizava a importância da exegese histórica, mas também
tirava a ênfase na continuidade do Aquinate com a tradição aristotélica,
destacando ao invés a originalidade de sua doutrina do ser ou da existência.
Ele também criticou o foco dos neo-escolásticos na tradição dos comentadores, e
dado aquilo que ele considerava como sua ênfase insuficiente sobre o ser ou a
existência, acusou-os de "essencialismo" (para aludir a outra metade
da distinção de Santo Tomás entre o ser e a essência). A leitura de Santo Tomás
feita por Gilson, ao apresentar uma distinta "filosofia cristã"
tendia, pelo menos na visão de seus críticos, a embaçar a distinção de Santo
Tomás entre a filosofia e a teologia. Jacques Maritain (1882-1973) introduziu
na metafísica tomista a noção de que a reflexão filosófica começa com uma
"intuição do ser", e na ética e na filosofia social, procurou
harmonizar tomismo com o personalismo e com a democracia pluralista. Apesar de
o "tomismo existencial" ser por vezes apresentado como um contraponto
ao existencialismo moderno, a razão principal para a etiqueta “existencial” é a
ênfase que esta abordagem coloca na doutrina da existência de Santo Tomás.
Proponentes contemporâneos incluem Joseph Owens e John F. X. Knasas.
3.
Tomismo de Laval ou Forest River: Esta corrente enfatiza os fundamentos
aristotélicos da filosofia de Santo Tomás, em particular a idéia de que a
construção de uma metafísica coerente deva ser precedida por uma sólida
compreensão da ciência natural, tal como interpretada à luz de uma filosofia
aristotélica da natureza. Dessa forma, ela faz questão de mostrar que às
ciências físicas modernas pode e deve ser dada tal interpretação. Charles
De Koninck (1906-1965), James A. Weisheipl (1923-1984), William A. Wallace, e
Benedict Ashley são alguns de seus representantes. A corrente é por vezes
chamada "tomismo de Laval", por conta da Universidade de Laval, em
Quebec, onde De Koninck era professor. O rótulo alternativo "tomismo de
Forest River" vem de um subúrbio de Chicago, onde fica o Albertus
Magnus Lyceum para a Ciência Natural, cujos membros estão associados a essa
corrente. Ela também é por vezes chamada "tomismo aristotélico" (para
realçar o contraste com o tomismo existencial de Gilson), embora, uma vez que
neo-tomismo escolástico também enfatiza a continuidade do Aquinate com
Aristóteles, este rótulo parece um pouco inapropriado. (Há escritores, como o
tomista contemporâneo Ralph McInerny, que apresentam influências tanto do
neo-tomismo escolástico quanto do tomismo de Laval ou River Forest, já que as
abordagens não são necessariamente incompatíveis.)
4.
Tomismo transcendental: diferentemente das primeiras três escolas, essa
corrente, associada a Joseph Marechal (1878-1944), Karl Rahner (1904-1984) e
Bernard Lonergan (1904-1984), não se opõe numa ataque à filosofia moderna, mas
procura conciliar o tomismo com uma abordagem cartesiana subjetivista do
conhecimento em geral, e com a epistemologia kantiana em particular. Parece
justo dizer que a maioria dos tomistas que, de modo geral, toleram diversas
abordagens do pensamento de Santo Tomás de Aquino, consideram que o tomismo
transcendental cedeu demais para a filosofia moderna para contar genuinamente
como uma variedade de tomismo, estritamente falando. Essa escola de pensamento
tem, em todo caso, sido muito mais influente entre os teólogos do que entre os
filósofos.
5.
Tomismo de Lublin: Essa corrente, cujo nome deriva da Universidade de Lublin,
na Polônia, onde ela se condensou, às vezes também é chamada de "tomismo
fenomenológico". Como o tomismo transcendental, ela procura combinar o
tomismo com certos elementos da filosofia moderna, embora de uma forma que seja
menos radicalmente revisionista. Em particular, ela busca utilizar o método
fenomenológico de análise filosófica associada com Edmund Husserl e o
personalismo de escritores como Max Scheler para articular a concepção tomista
da pessoa humana. Seu proponente mais conhecido é Karol Wojtyla (1920-2005),
que se tornou o papa João Paulo II.