
Em síntese: A
Filosofia ensina que a bilocação circunscritiva ou local e física é
totalmente impossível; seria a negação da distinção de SIM
e NÃO. No
caso de Santo Antonio pode-se admitir outro tipo de milagre, ou
seja, um fenômeno de retina; os irmãos terão visto o Santo a eles presente
de maneira psicológica ou mentalmente apenas.
A historiografia
atribui a Santo Antônio de Lisboa dois casos de bilocação. Muitos leitores
perguntam como terá sido possível. A seguir, proporemos o relato do fenômeno,
ao que se acrescentarão considerações filosófico-teológicas.
1. Falem os cronistas
Eis os dois relatos
que vêm ao caso:
"Entre os
relatos extraordinários da vida de Santo Antônio, existem referências a duas bílocações, ambas ocorridas no
sul da França. A primeira foi registrada na noite de Quinta-feira Santa, quando
ele pregava em uma igreja dedicada a São Pedro. Na mesma hora, a comunidade dos
irmãos do convento onde frei Antônio residia celebrava um ofício religioso, no
qual ele devia dirigir uma reflexão à comunidade.
Quando chegou o
momento estabelecido, o santo se fez presente no meio dos irmãos e dirigiu-lhes
a palavra. Todos ficaram profundamente comovidos, porque sabiam que, naquele
momento, frei Antônio estava na igreja de São Pedro. Segundo as biografias,
enquanto dirigia as palavras aos irmãos, ele se manteve em silêncio diante do
povo reunido na igreja de São Pedro. Ao término da reflexão, ele desapareceu,
deixando seus confrades atônitos.
Algo semelhante se
deu em Montpellier. Na
ocasião, Santo Antônio pregava em uma festa solene, à qual estavam presentes
diversos religiosos e fiéis. Ao iniciara homilia, ele se lembrou de que devia estar presente à
celebração comunitária dos frades. Com efeito, era costume que, de acordo com a
escala, os frades cantassem o Aleluia. Justamente naquele dia Santo Antônio
fora designado para a tarefa.
Enquanto lamentava o
esquecimento, permaneceu em silêncio. Então abaixou a cabeça e cobriu-a com o
capuz. Nesse exato momento, ele apareceu no meio dos frades, cantando o Aleluia na celebração conventual.
Enquanto isso em Montpellier, permaneceu silencioso perante o povo; em seguida, retomou o sermão interrompido, que concluiu de modo brilhante". (Mensageiro de Santo Antônio, abril 2006,
pp. 6s).
2. Que dizer?
Proporemos três observações:
2.1. Fatos históricos reais?
Antes do mais, seria preciso averiguar se os dois relatos acima são
fidedignos ou têm fundamento real. Sabe-se que os antigos e os medievais se compraziam em ler
façanhas portentosas atribuídas aos Santos. A crítica recente tem trazido à
tona vários casos de fantasia elaboradora de relatos fictícios na Hagiografía. A averiguação da historicidade dos relatos atrás narrados
é de importância fundamental.
2.2. Multilocação física?
A Filosofia ou a sã razão ensina o seguinte:
A multilocação circunscritiva ou local é metafisicamente impossível. Com
outras palavras: um corpo não pode estar, ao mesmo tempo, fisicamente presente
em dois lugares diferentes. A razão disto é que não se pode admitir que uma
determinada superfície seja maior do que ela mesma; mas, no caso da
multilocação corporal, tal superfície deveria ser maior do que ela mesma, pois
a localização circunscreve exatamente a superfície do corpo localizado; nada deste fica não
localizado. Para que estivesse simultaneamente localizado em outro ambiente, a
única superfície externa desse corpo deveria ser dupla e não única -
o que é absurdo.
A multilocação não circunscritiva é possível, pois não se faz por
quantidade física, mas por aplicação de virtude ou de atividade.
Assim Deus pode estar em
toda parte, porque não ocupa lugar e exerce sua ação
criadora e conservadora
em relação a todos os demais seres. Assim também é possível a real presença de
Cristo em muitas hóstias consagradas, pois Cristo se faz presente na Eucaristia
pela substância do seu corpo e do seu sangue, ficando intatos os acidentes do pão
e do vinho; Cristo, por conseguinte, está presente em todas as hóstias
consagradas mediante a quantidade e a localização do pão e do vinho. Visto que
a localização do pão e do vinho consagrados se multiplica, a presença
eucarística de Cristo se multiplica, havendo então multilocação não
circunscritiva.
2.3. Uma possível
explicação
Não é necessário
negar o milagre nos dois casos relatados. Deus pode ter interferido de tal modo
que na retina dos
frades respectivos se formou a imagem de Santo Antônio, imagem à qual
atribuíram a locução mencionada pelo relator. - Sem dúvida, esta explicação
supõe algo de muito extraordinário, mas é a única plausível para elucidar o
fenômeno da "bilocação" de Santo Antônio. - Dizendo isto, não estamos
cedendo ao racionalismo, pois admitimos milagres. Contudo a
bilocação, o círculo quadrado, o triângulo redondo, não são realidades
milagrosas porque nem são realidades; são conceitos contraditórios, que não
podem ter existência.
Santo Antônio
continua a ser um grande Santo mesmo sem o fenômeno da billocação.