Judas Iscariotes (em
hebraico יהודה איש־קריות, Yehudhah ish Qeryoth; em grego bíblico Iouda
Iskariôth - Mc 3, 19; 14, 10; Lc 6; 16 - ou Iouda Iskariotes - Mt 10, 4; Lc 22,
3; Jo 12, 4) foi um dos 12 apóstolos de Jesus Cristo, que, de acordo com os
Evangelhos, veio a ser o traidor que entregou Jesus Cristo aos seus
capturadores por 30 moedas de prata. Era filho de Simão de Queriote (Jo 6, 71;
13, 26). Judas, em grego Ioudas, é uma helenização do nome hebraico Judá (יהודה,
Yehûdâh, palavra que significa "abençoado" ou "louvado"),
sendo, por sinal, o nome de apóstolo que mais vezes aparece nos Evangelhos
(vinte vezes) depois do de Simão Pedro.
Etimologia de Iscariotes
São várias as explicações
etimológicas que, ao longo dos tempos, foram surgindo para o nome
"Iscariotes". A mais provável é uma conotação política, ligando-o ao
grupo dos sicários, uma ramificação do grupo dos zelotes que perpetrava
violentos ataques – geralmente com punhais, e daí o seu nome latino de sicarii
– contra as forças romanas na Palestina. Por isso, se argumenta que Judas
Iscariotes, alegadamente, teria sido um membro deste grupo e que o seu nome
seria a transliteração de homem do punhal, em hebraico ish sicari. Outros
derivam o seu nome do aramaico saqar, palavra que significava alguém
"mentiroso", que é "falso".
Outra possibilidade é que
Iscariotes fosse usado como apelido, em hebraico ish Qeryoth, que significa
homem de Queriote. (João 6:71; 13:26) Também, podia ser designado
filho/descendente/natural de Queriote. Queriote – de acordo com a interpretação
inicialmente veiculada por São Jerónimo – seria o nome simplificado da aldeia,
ou mais provavelmente um conjunto de aldeias, de Queriote-Ezron (Josué 15:21) –
nome que significa "cidades de Ezron" – localizada na província
romana da Judéia (no território da Tribo de Judá) e que é comumente
identificada com a moderna Qirbet el-Qaryatein, situada a cerca de 20 km a Sul
de Hébron.
O seguimento apostólico
Judas Iscariotes foi
escolhido como um dos 12 apóstolos de Jesus Cristo, sendo apresentado, na
listagem dos seus nomes, sempre em último lugar (Mateus 10, 2-4; Marcos 3,
16-19; Lucas 6, 13-16). Mais tarde, ele tornou-se infiel e iníquo, conforme
apresentado no Novo Testamento. Era o encarregado da bolsa do dinheiro dos
apóstolos: «tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava» (João 12, 6). Teria
demonstrado exteriormente a sua fraqueza na cena da unção com óleo perfumado em
Betânia, onde testemunhou que estava mais apegado ao dinheiro do que
propriamente aos gestos concretos com que Jesus demonstrava a sua missão (João
12, 1-6).
Embora os Evangelistas digam
claramente que «Jesus sabia, desde o princípio, quem eram os que não criam, e
quem era o que o havia de entregar» (João 6, 64) e tivesse sido, de algum modo,
aduzido e predito, caso se leia o Salmo 55 como uma referência ao que viria a
suceder com Jesus, que o traidor seria um "amigo íntimo" - «Pois não
era um inimigo que me afrontava; então eu o teria suportado […] Mas eras tu,
homem meu igual, meu guia e meu íntimo amigo» (Salmo 55, 12-13) -, não é certo
nem correto afirmar-se que estivesse predestinado quem seria o traidor.
A traição
Judas entregou Jesus por 30
moedas de prata (Mateus 26, 15; 27, 3), que provavelmente seriam siclos e não
denários como frequentemente se julga e afirma. Esse era o preço de um escravo
(Êxodo 21, 32). De acordo com o autor do Evangelho de Mateus, os principais
sacerdotes decidiram não colocar essas moedas no Tesouro do Templo de
Jerusalém, mas, em vez disso compraram um terreno no exterior da cidade para
sepultar defuntos (Mateus 27, 6.7). Segundo Zacarias, profeta do Antigo
Testamento, a vida e o ministério do prometido Messias (ou Cristo) seria
avaliado em 30 moedas de prata (Zacarias 11, 12-13). Isto significava que,
segundo a leitura dos acontecimentos feita pelo evangelista Mateus, os líderes
religiosos judaicos foram induzidos a avaliar a vida e ministério de Jesus de Nazaré
como dotada de bem pouco valor.
A motivação da sua ação é
justificada ou explicada, nos Evangelhos, de diferentes modos. Assim, nos
Evangelhos mais antigos, os de Mateus e de Marcos, tal deveu-se à sua avareza
(Mateus 26, 14-16; Marcos 14, 10-11). Já nos Evangelhos de Lucas e de João o
seu procedimento é subordinado à influência direta de Satanás - ο σατανας -
(Lucas 22, 3; João 13:2. 27) sobre as suas ações.
A morte
Os autores do Novo
Testamento, relendo à luz da sua Fé as escrituras do Antigo Testamento,
procuraram, de algum modo, mostrar que a morte de Judas fora análoga à que as
Escrituras apresentavam para o "desesperado" (II Samuel 17:23: «Vendo
Aitofel que se não tinha seguido o seu conselho, albardou o jumento, e
levantou-se, e foi para sua casa [...], se enforcou e morreu») e para o
"ímpio" (Sabedoria 4:19: «Em breve os ímpios tornar-se-ão cadáver sem
honra, objeto de opróbrio para sempre entre os mortos: o Senhor os precipitará
de cabeça para baixo, sem que digam palavra, e os arrancará de seus
fundamentos. Serão completamente destruídos, estarão na dor e sua memória
perecerá.»).
Assim, no caso do Mateus
27:5 se relata que Judas Iscariotes ao sentir remorsos decide suicidar-se por
enforcamento: «E Judas, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e
foi-se enforcar», e no livro dos Atos 1:18, o seu autor conta que caiu de
cabeça para baixo, rebentando ruidosamente nos rochedos pelo meio: «Adquiriu um
campo com o salário de seu crime. Depois tombando para frente arrebentou ao
meio e todas as vísceras se derramaram». Procurando-se harmonizar e combinar os
dois relatos da sua morte pode-se dizer que Judas se terá enforcado, mas que a
corda - ou o ramo da árvore onde esta estava atada - se terá quebrado. A vaga
por ele deixada - segundo Atos 1:26 - foi preenchida por Matias.
Duas lições da traição de
Judas Iscariotes, segundo o Papa
Intervenção na audiência geral sobre o apóstolo que traiu Jesus
A traição de Judas Iscariotes a Jesus oferece duas lições, segundo Bento XVI: Cristo respeita a liberdade do ser humano e espera o arrependimento do pecador, pois é misericordioso.
O Papa expôs estas
conclusões aos 30.000 peregrinos que participaram nesta quarta-feira, na praça
de São Pedro, da audiência geral, dedicada a apresentar a figura do apóstolo
que por trinta moedas de prata entregou seu Mestre aos membros do Sinédrio.
Para o bispo de Roma,
compreender a vida de Judas significa compreender também aspectos decisivos do
mistério da relação do homem com Deus.
Inclusive após sua morte,
não é possível oferecer um juízo definitivo, reconheceu: «Ainda que ele tenha
se afastado para se enforcar, não nos corresponde julgar seu gesto, pondo-nos
no lugar de Deus, que é infinitamente misericordioso e justo».
Repassando as páginas dos
quatro evangelhos, o bispo de Roma sublinhou antes de tudo que ele fazia parte
dos doze apóstolos, como Pedro, João ou Tiago.
«Por que ele traiu Jesus?»,
perguntou o Papa ao falar do apóstolo que cumpria as funções de ecônomo.
«Alguns recorrem à avidez
pelo dinheiro; outros oferecem uma explicação de caráter messiânico: Judas
teria ficado decepcionado ao ver que Jesus não entrava no programa de
libertação político-militar de seu próprio país», respondeu.
O Papa constatou que os
evangelhos «insistem em outro aspecto: João diz expressamente que “o diabo
tinha posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, o propósito de
entregá-lo”».
O Novo Testamento, recordou,
«vai muito além das motivações históricas e explica o sucedido baseando-se na
responsabilidade pessoal de Judas, que cedeu miseravelmente a uma tentação do
Maligno».
«Em todo caso, a traição de
Judas continua sendo um mistério -- assegurou. Jesus o tratou como um amigo,
mas, em seus convites a segui-lo pelo caminho das bem-aventuranças, não forçava
sua vontade nem o impedia de cair nas tentações de Satanás, respeitando a
liberdade humana.»
E quando uma pessoa peca,
como Judas, citando o capítulo V da «Regra» de São Bento de Núrsia (480-547),
exortou a «não desesperar nunca da misericórdia de Deus», pois, como diz a
primeira carta de João, «Deus é maior que nossa consciência» (3, 20).
O Papa tirou, portanto duas
lições.
«A primeira – assinalou:
Jesus respeita a nossa liberdade. A segunda: Jesus espera que tenhamos a
disponibilidade para arrepender-nos e para converter-nos; é rico em
misericórdia e perdão.»
«De fato, quando pensamos no
papel negativo que Judas desempenhou, temos de situá-lo na maneira superior com
que Deus dispôs os acontecimentos», indicou.
Sua traição, continuou aprofundando,
«levou à morte de Jesus, que transformou este tremendo suplício em um espaço de
amor salvífico e na entrega de si mesmo ao Pai».
«Em seu misterioso projeto
de salvação -- declarou --, Deus assume o gesto injustificável de Judas como
motivo de entrega total do Filho pela redenção do mundo.
Ao final de sua intervenção,
o pontífice fez referência também a Matias, que substituiu Judas Iscariotes por
decisão dos onze apóstolos, depois de ter demonstrado fidelidade a Cristo
durante a sua vida pública.
«Tiramos daqui uma última
lição -- assegurou: ainda que na Igreja não faltem cristãos indignos e
traidores, a cada um de nós corresponde contrabalançar o mal que eles realizam
com nosso testemunho limpo de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.»
Com esta meditação, o Papa
concluiu a série de intervenções sobre os doze apóstolos que começou no dia 17
de maio. Elas fazem parte de um conjunto de catequeses sobre as origens da
Igreja e sua relação com Cristo, começada em 15 de março.