
18.
MÉTODO DISCURSIVO E MÉTODO INTUITIVO. — 19. A INTUIÇÃO SENSÍVEL. — 20. A INTUIÇÃO
ESPIRITUAL. — 21. A INTUIÇÃO INTELECTUAL, EMOTIVA E VOLITIVA. — 22.
REPRESENTANTES FILOSÓFICOS DE CADA UMA. — 23. A INTUIÇÃO EM BERGSON. — 24. A
INTUIÇÃO EM DILTHEY. — 25. A INTUIÇÃO EM HUSSERL. — 26. CONCLUSÃO.
18. Método
discursivo e método intuitivo.
Em nossa lição anterior
havíamos tomado como tema o método da filosofia, e havíamos chegado ao ponto em
que a intuição se nos apresentava insistentemente na história do pensamento
filosófico como o método fundamental, principal, da filosofia moderna.
Descartes foi, na filosofia
moderna, o primeiro que, decompondo em seus elementos as atitudes com que nos
situamos ante o mundo exterior e ante as opiniões transmitidas dos filósofos,
chega a lima Intuição primordial, primária, da qual logo parte para reconstruir
todo o sistema da filosofia. Descartes faz, pois, da intuição o método
primordial da filosofia.
Mais tarde, depois de
Descartes, o método da intuição continua a florescer entre os filósofos
modernos. Empregam-no principalmente os filósofos idealistas alemães (Fichte,
Schelling, Hegel, Schopenhauer), e na atualidade o método da intuição é também
geralmente aplicado nas disciplinas filosóficas.
Assim, pois, pensei que
seria conveniente dedicar toda uma lição ao estudo demorado daquilo que é a
intuição, de quais são suas fórmulas principais, de como atualmente, na
filosofia do presente, ás distintas formas de intuição estão representadas por
diferentes filósofos e diversas escolas e tirar logo as conclusões desse estudo
para fixar em linhas gerais o uso que nós mesmos vamos fazer aqui da Intuição
como método filosófico.
A primeira coisa que nos
perguntaremos é: que é a intuição? Em que consiste a intuição?
A intuição se nos oferece,
em primeiro lugar, como um meio de chegar ao conhecimento de algo, e se contrapõe
ao conhecimento discursivo. Para compreender bem o que seja o método intuitivo
convém, por conseguinte, que o exponhamos em contraposição ao método
discursivo. Será mais fácil começar pelo método discursivo.
Como a palavra
"discursivo" indica, este método tem relação com a palavra
"discorrer" e com a palavra "discurso". Discorrer e
discurso dão a idéia, não de um único ato encaminhado para o objeto, mas de uma
série de atos, de uma série de esforços sucessivos para captar a essência ou
realidade do objeto.
Discurso, discorrer,
conhecimento discursivo é, pois, um. conhecimento que chega ao fim proposto
mediante uma série de esforços sucessivos que consistem em ir fixando, por
aproximações sucessivas, umas teses que logo são contraditas, discutidas cada
qual consigo mesma, melhoradas, substituídas por outras novas teses ou
afirmações e assim até chegar a abranger por completo a realidade do objeto, e,
por conseguinte, obter dessa maneira o conceito.
O método discursivo é, pois,
essencialmente um método indireto. Em lugar de ir o espírito direto ao objeto,
passeia, por assim dizer, ao redor do objeto, considera-o e contempla-o de
múltiplos pontos de vista: vai sitiando-o cada vez mais de perto, até que por
fim consegue forjar um conceito que se aplica perfeitamente a ele.
Frente a este método
discursivo está o método intuitivo. A intuição consiste exatamente no
contrário. Consiste num único ato do espírito que, de repente, subitamente,
lança-se sobre o objeto, apreende-o, fixa-o, determina-o com uma só visão da
alma. Por isso a palavra "intuição" tem relação com a palavra
"intuir", a qual, por sua vez, significa em latim "ver".
Intuição vale tanto como visão, como contemplação.
O caráter mais evidente do
método da intuição é ser direto, enquanto que o método discursivo é indireto. A
intuição vai diretamente ao objeto. Por meio da intuição obtém-se um
conhecimento imediato, enquanto por meio do discurso, do discorrer ou do
raciocinar, obtém—se um conhecimento mediato, ao final de certas operações
sucessivas.
19. A intuição
sensível
Existem na realidade
intuições? Existem; e o primeiro exemplo, e mais característico, da intuição, é
a intuição sensível, que todos praticamos a cada instante. Quando com um só
olhar percebemos um objeto, um copo, uma árvore, uma mesa, um homem, uma
paisagem, com um só ato conseguimos ter, captar esse objeto. Esta intuição é
imediata, é uma comunicação direta entre mim e o objeto.
Por conseguinte, fica claro
e evidente que existem intuições, embora não fosse mais que esta intuição
sensível; porém, esta intuição sensível não pode ser a intuição de que se vale
o filósofo para fazer o seu sistema filosófico. E não pode ser a intuição de
que se vale o filósofo por duas razões fundamentais. A primeira é que a
intuição sensível não se aplica senão a objetos que se oferecem aos sentidos,
e, por conseguinte, só é aplicável e válida para aqueles casos que, por
meio das sensações, nos
são imediatamente dados. Em vez disto, o filósofo
necessita tomar, como base do seu estudo, objetos que não se apresentam
imediatamente na sensação e na percepção sensível; tem que tomar como termo do
seu esforço objetos não sensíveis. Não pode servir-lhe por conseguinte a
intuição sensível.
Mas, além disto, há outra
razão que impediria ao filósofo usar a intuição sensível, e é porque esta, em
rigor, não nos proporciona conhecimento, pois como não se dirige mais que a um
objeto singular, a este que está diante de mim, que efetivamente está aí, a
intuição sensível tem o caráter da individualidade, não é válida mais que para
esse objeto particular que está diante de mim. Em vez disso, a filosofia tem
por objeto não o singular que está aí, diante de mim, mas objetos gerais,
universais. Por conseguinte, a intuição sensível, que está, pela sua essência,
atada à singularidade do objeto, não pode servir em filosofia, a qual, pela sua
essência, se encaminha à universalidade ou generalidade dos objetos.
20. A intuição
espiritual.
Se não houvesse mais
intuição que a intuição sensível, a filosofia ficaria muito mal servida.
Mas é o caso que há na nossa
vida psíquica outra intuição além da intuição sensível. Existe, digo, outra
intuição que, desde já, antes de trocar-lhe o nome, vamos denominar
"intuição espiritual". Assim, por exemplo, quando eu aplico o meu espírito
a pensar este objeto: "Que uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo
tempo", vejo sem necessidade de demonstração (a demonstração é discurso e
conhecimento discursivo), com uma só visão do espírito, com uma evidência
imediata, direta e sem necessidade de demonstração, que uma coisa não pode ser
e não ser ao mesmo tempo. O princípio de contradição, como o chamam os lógicos,
é, pois, intuído por uma visão direta do espírito, é uma intuição.
Quando eu digo que a cor
vermelha é distinta da cor azul, esta diferença entre o vermelho e o azul,
vejo-a também com os olhos do espírito mediante uma visão direta e imediata.
Eis um segundo exemplo de uma intuição que já não é sensível. É sensível a
intuição do vermelho, é sensível a intuição do azul, porém a intuição da
relação de diferença — a intuição de que o vermelho é diferente do azul — essa
já não é uma intuição sensível, porque seu objeto, que é a diferença, não é um
objeto sensível, como o azul e o vermelho.
Quando eu digo que a
distância de um metro é menor do que a distância de dois metros, esta
diferença, esta relação, é o objeto de uma intuição e não é um objeto sensível.
Por conseguinte a intuição,
que estes exemplos nos descobrem, não é uma intuição sensível. Existe, pois,
uma intuição espiritual, que se diferencia da intuição sensível em que seu
objeto não ó um objeto sensível. Esta intuição tampouco se faz por meio dos
sentidos, mas por meio do espírito.
Até agora vou falando do
espírito em geral, sem maior precisão. Mas agora é preciso ir depurando,
purificando, esclarecendo mais esta noção que já temos da intuição.
Se considerarmos os exemplos
com que ilustramos esta intuição espiritual, dar-nos-emos conta imediatamente
de que eles nos colocam diante de um gênero de objetos que são sempre relações,
e estas relações são de caráter formal. Referem-se à forma dos objetos. Não ao
seu conteúdo, mas a esse caráter, por assim dizer, exterior, que todos os
objetos têm de comum: a dimensão, o tamanho etc. Então, por meio da intuição
espiritual, no sentido em que a empregamos até agora, percebemos diretamente,
intuímos diretamente formas dos objetos: ser maior ou ser menor; ser grande ou
ser pequeno em relação a um módulo; poder ser ou não ao mesmo tempo. Mas todas
estas são formalidades.
A intuição espiritual nos
exemplos que acabo de oferecer é, pois, uma intuição puramente formal. Se não
houvesse outra na -vida do filósofo, mal andaria ele. Se não pudesse ter mais
intuições que intuições formais, também não poderia construir a sua filosofia
porque com simples formalismos não se pode penetrar na essência, na realidade
roesma das coisas, como o filósofo pretende mais do que nenhum outro pensador.
Porém, há na vida do
filósofo outra intuição que não é puramente formal, há outra intuição que, para
contrapô-la a intuição formal, chamaremos "intuição real". Há outra
intuição que penetra no fundo mesmo da coisa, que chega a captar sua essência,
sua existência, sua consistência. Esta intuição que vai diretamente ao fundo da
coisa é a que aplicam os filósofos. Não uma simples intuição espiritual, mas
uma intuição espiritual de caráter real, por contraposição à intuição de
caráter formal a que antes me referia. E esta intuição de caráter real, esta
saída do espírito, que vai tomai contacto com a íntima realidade essencial e
existencial dos objetos, esta intuição real, podemos, por sua vez, dividi-la em
três classes, segundo predomine nela, ao verificá-la, por parte do filósofo, a
atitude espiritual, ou a atitude emotiva, ou a atitude volitiva.
21. A intuição
intelectual, emotiva e volitiva.
Quando na atitude da
intuição o filósofo põe principalmente em jogo suas faculdades intelectuais,
então temos a intuição intelectual. Esta intuição intelectual tem no objeto seu
correlato exato. Já sabemos que todo ato do sujeito, todo ato do espírito na
sua integridade, se encaminha para os objetos, e o ato do sujeito tem então
sempre seu correlato objetivo, consistente, para tal intuição, na essência do
objeto. A intuição intelectual é um esforço para captar diretamente mediante um
ato direto do espírito, a essência, ou seja, aquilo que o objeto é.
Mas existe, além. disso,
outra atitude intuitiva do sujeito em que atuam predominantemente motivos de
caráter emocional. Esta segunda espécie de intuição, que chamamos intuição emotiva,
tem também seu correlato no objeto. O correlato a que se refere
intencionalmente a intuição emotiva já não é a essência do objeto, já não é
aquilo que o objeto é, mas o valor do objeto, aquilo que o objeto vale.
No primeiro caso a intuição
nos permite captar o éidos, como se diz em grego, a essência ou a consistência
do objeto. No segundo caso, ao contrário, o que captamos não é aquilo que o
objeto é, mas aquilo que o objeto vale, ou seja, se o objeto é bom ou mau, agradável
ou desagradável, belo ou feio, magnífico ou mísero.
Todos estes valores que
estão no objeto são captados por uma intuição predominantemente emotiva.
E existe uma terceira
intuição na qual as motivações internas do sujeito, que se coloca nessa
atitude, são predominantemente volitivas. Esta terceira intuição em que os
motivos que se entrechocam são derivados da vontade, derivados do querer, tem
também seu correlato no objeto. Não se refere nem â essência, como a intuição
intelectual, nem ao valor, como a intuição emotiva. Refere-se à existência, à
realidade existencial do objeto.
Por meio da intuição
intelectual propende o pensador filosófico a desentranhar aquilo que o objeto
é. Por meio da intuição emotiva propende a desentranhar aquilo que o objeto vale,
o valor do objeto. Por meio da intuição volitiva desentranha, não aquilo que é,
senão que é, que existe, que está aí, que é algo distinto de mim. A existência
do ser manifesta-se ao homem mediante um tipo de intuição predominantemente
volitiva.
22. Representantes
filosóficos de cada uma.
Estes três tipos de intuição
estão representados amplamente na história do pensamento humano.
A intuição intelectual pura
encontramo-la na Antigüidade, em Platão; na época moderna, em Descartes e nos
filósofos idealistas alemães, sobretudo em Schelling e Schopenhauer.
A intuição emocional ou
emotiva também está amplamente representada na história do pensamento humano.
Na antigüidade encontramo-la no filósofo Plotino; mais tarde, em alto grau,
levada a um dos mais sublimes níveis da história do pensamento, encontramo-la
em Santo Agostinho. Na filosofia de Santo Agostinho, a intuição emotiva chega a
refinamentos e resultados extraordinários. Depois de Santo Agostinho, durante
toda a Idade Média, combatem e lutam ‘uns contra outros os partidários da
intuição intelectual e da intuição emotiva. As escolas, principalmente dos
franciscanos, de caráter místico, contrapõem-se ao racionalismo de S. Tomás.
Corre por toda a Idade Média este duplo fluir dos partidários de uma e de outra
intuição.
Por último, a intuição
emotiva, que em alguns casos não deixa de estar tingida de um elemento
religioso, encontra-se em dois pensadores modernos, nos quais quase não foi
notada até agora. Um ó Espinosa. Em muitíssimos livros de filosofia se diz que
Espinosa não faz uso da intuição; que Espinosa demonstra suas proposições more
geométrico, como puras demonstrações de teoremas de geometria, onde o elemento
discursivo abafa por completo toda intuição. Todavia, isto é mera aparência. Na
realidade, no fundo da filosofia de Espinosa, existe como que uma intuição
mística; chega um momento, no último livro da Ética de Espinosa, em que, sob a
forma de uma demonstração geométrica, aparece a intuição emotiva, que rompe os
moldes lógicos da demonstração e se faz patente ao leitor, não sem uma comoção
verdadeiramente tremenda da alma; é quando Espinosa, ao chegar quase ao término
de seu livro, sente-se elevado, sente-se sublimado no propósito filosófico que
desde o começo o anima, e escreve esta frase como o enunciado de um de seus
teoremas: "Sentimus experimur que nos esse aeternos", que quer dizer:
"Nós sentimos e experimentamos que somos eternos". Aí se vê bem até
que ponto toda esta crosta de teoremas e de demonstrações estava recobrindo uma
intuição palpitante de emoção, uma intuição quase mística da identidade do
finito com o infinito e da eternidade no próprio presente.
Outro que, por estranho que
pareça, pretende também esta intuição emotiva é nada menos que o filósofo
inglês Hume. Para Hume a existência do mundo exterior e a existência do nosso
próprio eu não podem ser objeto de intuição intelectual; não podem ser objeto
nem de intuição intelectual nem de demonstração racional. Não se pode
demonstrar a ninguém que o mundo exterior existe ou que o eu existe. A única
coisa que se pode fazer é convidar alguém a dizer se acredita que existe o
mundo exterior ou se crê que existe o eu, porque a idéia que temos do mundo
exterior não é mais que um belief, uma crença. Cremos, temos fé; nossa crença
no mundo exterior e na realidade de nosso eu é um ato de fé.
Quanto à intuição volitiva,
tem na história da filosofia porta-vozes e representantes bem autorizados,
dentre os quais aquele que talvez mais profundamente chegou a sentir esta
intuição de caráter volitivo é o filósofo alemão Fichte. Fichte faz depender a
realidade do universo e a própria realidade do eu de uma afirmação voluntária
do eu. O eu voluntariamente se afirma a si mesmo; cria-se, por assim dizer, a
si mesmo; põe-se a si mesmo. E ao pôr-se a si mesmo, põe-se exclusivamente como
vontade, não como pensamento; como uma necessidade de ação, como algo que
necessita realizar-se na ação, na execução de algo querido e desejado. E para
que algo seja querido e desejado, o eu, ao pôr-se a si mesmo, põe-se, melhor dito,
propõe a si obstáculos para seu próprio desenvolvimento, com o objetivo de
poder transformar-se em solucionador de problemas, em ator de ações, em algo
que rompe esses obstáculos. A realização de uma vida, que consiste era dominar
obstáculos, é para Fichte a origem de todo o sistema filosófico. Aqui temos na
sua maior plenitude uma intuição de caráter volitivo.
De modo que na história da
filosofia moderna os três tipos principais de intuição estão ampla e
magnificamente representados.
Na filosofia contemporânea,
a dos filósofos que vivem ainda ou desapareceram faz pouco tempo, a intuição
constitui também a forma fundamental do método filosófico. Em uma ou outra
modalidade, a intuição constitui, em toda a filosofia contemporânea, o
instrumento principal de que o filósofo se vale para lograr as aquisições de
seus sistemas.
As modalidades em que esta
intuição se apresenta na filosofia contemporânea são muito variadas. Seja dito
de passagem, existe na filosofia contemporânea um imoderado afã de
originalidade. Cada filosofo pretende ter um sistema. Se nós quiséssemos seguir
em todos os seus variados matizes as divergências que há entre este, esse e
aquele, essas pequenas divergências que há entre um e outro, com suas
preocupações de originalidade e de dizer o que ninguém disse, perder-nos-íamos
numa selva de minúcias, muitas vezes pouco significativas.
Fazendo uma classificação
geral e tomando as principais figuras do pensamento contemporâneo, podemos
encontrar até três modalidades no uso do método da intuição.
Estas três modalidades vamos
expô-las com os nomes dos filósofos que melhor as representam.
Temos primeiramente a
intuição como a emprega e pratica Bergson. A segunda modalidade está
representada principalmente por Dilthey. A terceira modalidade está representada
por Husserl, que formou uma escola bastante extensa pelo número de seus
seguidores e que costumava levar o nome de "escola fenomenológica".
Vamos tentar caracterizar
brevemente a classe de intuição que cada um desses três pensadores preconiza
como o método da filosofia.
23. A
intuição em Bergson.
Para Bergson a filosofia não
pode ter outro método que o da intuição. Qualquer outro método que não seja a
intuição falsearia radicalmente a atitude filosófica. Por quê? Porque Bergson
contrapõe (até que ponto com verdade, isso não vou discuti-lo agora) a
atividade intelectual e a atividade intuitiva. Para Bergson a atividade
intelectual consiste em fazer o que fazem os cientistas; consiste em fazer o
que fazem os homens na vida ordinária; consiste em tomar as coisas como coisas
inertes, estáticas, compostas de elementos que se podem decompor e recompor,
como o relojoeiro decompõe e recompõe um relógio. O cientista, o economista, o
banqueiro, o comerciante, o engenheiro, tratam a realidade que têm diante de si
como um mecanismo cujas bases se podem desconjuntar e logo tornar a se juntar.
O cientista, o matemático, considera as coisas que têm diante de si como coisas
inertes, que estão aí, esperando que ele chegue para dividi-las em partes e
fixar para cada elemento suas equações definidoras e logo reconstruir essas
equações.
Segundo Bergson, este
aspecto da realidade que o intelecto, a inteligência, estuda desta maneira, é o
aspecto superficial e falso da realidade. Debaixo dessa realidade mecânica que
pode se decompor e recompor à vontade, debaixo dessa realidade que ele chama
realidade já feita, está a mais profunda e autêntica realidade, que é uma realidade
que se faz, que é uma realidade impossível de decompor em elementos comutáveis,
que é uma realidade fluente, que é que é, por conseguinte, uma realidade no
fluir do tempo, que se escapa das mãos tão logo queremos aprisioná-la; como
quando jogamos água numa cesta de vime e ela escapa pelas aberturas.
Do mesmo modo, para Bergson
o intelecto realiza sobre essa realidade profunda e movediça uma operação
primária que consiste em solidificá-la, em detê-la, em transformar o fluente em
inerte. Deste modo facilita-se a explicação, porque, tendo transformado o
movimento em imobilidade, decompõe-se o movimento em uma série infinita de
pontos imóveis.
Por isso, para Bergson,
Zenão de Eléa, o famoso autor dos argumentos contra o movimento, terá razão no
terreno da intelectualidade, e não terá jamais razão no terreno da intuição
vivente. A intuição vi-vente tem por missão abrir passagem através dessas
concreções do intelecto, para usar uma metáfora. A primeira coisa que fez o
intelecto foi congelar o rio da realidade, convertê-lo em gelo sólido, para
poder entendê-lo e manejá-lo melhor; porém falseia-o ao transformar o líquido
em sólido, porque a verdade é que, por baixo, é líquido, e o que tem que fazer
a intuição é romper esses artificiais blocos de gelo mecânico para chegar
à/’fluência mesma da vida, que corre sob essa realidade mecânica.
A missão da intuição é,
pois, essa: opor-se à obra do intelecto, ou daquilo que Bergson chama o
pensamento, ia pensée. Por isso, no seu último livro chegou talvez ao máximo
refinamento na história da filosofia, que consiste em ter colocado no titulo
mesmo do seu livro a última essência do seu pensamento: Intitula-o La pensée et
le mouvant: "O pensamento e o movente". Intelectual é o pensamento.
Mas o aspecto profundo e real é o movimento, a continuidade do fluir do mudar,
ao qual só por intuição podemos chegar.
Por isso, para Bergson, a
metáfora literária é o instrumento mais apropriado para a expressão filosófica.
O filósofo não pode fazer definições porque as definições se referem ao estático,
ao quieto, ao imóvel, ao mecânico e ao intelectual. Mas a verdade última é o
morente e fluente que há debaixo do estático, e a essa verdade não se pode
chegar por meio de definições intelectuais: a única coisa que pode fazer o
filósofo é mergulhar nessa realidade profunda; e logo, quando voltar à
superfície, tomar a pena e escrever, procurando, por melo de metáforas e sugestões
de caráter artístico e literário, levar o leitor a verificar por sua vez essa
mesma intuição que o autor verificou antes dele. A filosofia de Bergson é um
constante convite para que o leitor seja também filósofo e faça também ele as
mesmas intuições.
24. A intuição em Dilthey.
Passaremos agora a tentar
caracterizar em poucas palavras a intuição em Dilthey.
A intuição em Dilthey pode
ser caracterizada rapidamente com o adjetivo "volitivo". A intuição
de Dilthey é a intuição volitiva a que, faz alguns instantes, me referia.
Também para Dilthey, como para Bergson, o intelectualismo, o idealismo, o
racionalismo, todos aqueles sistemas filosóficos para os quais a última e mais
profunda realidade é o intelecto, o pensamento, a razão, todas essas filosofias
para Dilthey são falsas, são insuficientes.
Para Dilthey não é a razão,
não é o intelecto que nos descobre a realidade das coisas. A realidade, ou,
melhor dito ainda, a "existência" das coisas, a existência viva das
coisas, não pode ser demonstrada pela razão, não pode ser descoberta pelo entendimento,
pelo intelecto. Tem que ser intuída com uma intuição de caráter volitivo, que
consiste em percebermo-nos a nós mesmos como agentes, como seres que, antes de
pensar, querem, apetecem, desejam. Nós somos entes de vontade, de apetites, de
desejos, antes que entes de pensamentos. E queremos enquanto somos entes de
vontade. Mas nosso querer tropeça com dificuldades. Essas dificuldades nas
quais tropeça nosso querer convertemo-las em coisas. Essas dificuldades são as
que nos dão, imediata e intuitivamente, notícias da existência das coisas; e
uma vez que nossa vontade, ao tropeçar com resistências, chega a lutar contra
elas, converte essas resistências em existências.
A existência das coisas é,
pois, dada à nossa intuição volitiva como resistência delas. Por isso o
primeiro vislumbre de filosofia existencial está em Dilthey.
Há um filósofo francês, não
direi pouco conhecido, mas sim menos conhecido, Maine de Biran, que viveu em
meados do século XIX e cuja atuação filosófica passou, não direi despercebida,
mas sim pouco percebida. Maine de Biran foi talvez o primeiro que denunciou
esta origem volitiva da existencialidade, que denunciou em nós uma base para
afirmação da existência alheia, de existência das coisas e dos outros homens,
uma base nas resistências que se opõem à nossa vontade, e estudou demoradamente
a contribuição essencial que as sensações musculares dão na psicologia à
formação da idéia do eu e das
coisas.
Dilthey considera como a
intuição fundamental da filosofia e esta intuição volitiva que nos revela as
existências. De outra parte isto o leva também a considerar que na vida humana
a dimensão do passado é essencial para o presente. Assim como o que rodeia o
homem se lhe apresenta primordialmente em forma de obstáculos e resistências à
sua ação, do mesmo modo o presente tem que se nos apresentar como o limite a
que chegam hoje os esforços procedentes do passado. E assim a dimensão do
histórico e do pretérito faz entrada no campo da filosofia de um modo
completamente distinto daquele que tivera na filosofia idealista alemã de
começos do século XIX.
25. A intuição
em Husserl.
Por último, direi algumas
palavras sobre a intuição fenomenológica de Husserl.
A intuição fenomenológica de
Husserl, para caracterizá-la em termos muito gerais, e, por conseguinte, muito
vagos, teria que ser relacionada com o pensamento platônico. Husserl pensa que
todas as nossas representações são representações que devemos olhar de
dois pontos de vista. Desde logo, um ponto de vista psicológico segundo o qual
têm uma individualidade psicológica como fenômenos psíquicos; todavia, como
todos os fenômenos psíquicos, eles contêm a referência intencional a um objeto.
Cada uma de nossas
representações é, pois, em primeiro lugar, uma representação singular. Em
segundo lugar, esta representação singular é o representante, o mandatário,
diremos, de um objeto, Assim, se eu quero pensar o objeto Napoleão, não posso
pensá-lo de outra maneira que representando-me Napoleão, mas a representação
que eu tenho de Napoleão terá que ser singular: ora imagino-o montado a cavalo
na ponte de Arcole, ora suponho-o na batalha de Austerliz, com a cabeça baixa e
a mão enfiada na sua túnica; ora figuro-o desesperado, após a derrota de
Waterloo. Cada uma dessas representações por si mesma é singular; mas as três,
embora sejam totalmente distintas umas das outras, referem-se ao mesmo objeto
que é Napoleão.
Pois bem: a intuição
fenomenológica consiste em olhar para uma representação qualquer, prescindindo
de sua singularidade, prescindindo ,do seu caráter psicológico particular,
colocando entre parente ses a existência singular da coisa; e então, afastando
de si essa existência singular da coisa, para não procurar na representação
senão aquilo que tem de essencial, procurar a essência geral, universal, na
representação particular. Considerar, pois, cada representação particular como
não particular, colocando entre parênteses, eliminando de nossa contemplação, aquilo
que tem de particular, para não olhar senão aquilo que tem de geral; e uma vez
que conseguirmos lançar o olhar intuitivo sobre aquilo que cada representação
particular tem de geral, teremos nessa representação, embora particular,
plasticamente realizada a essência geral. Teremos a idéia, como ele diz,
renovando a terminologia de Platão, e por isso se trata aqui, para Husserl, de
uma intuição do tipo que denominamos intelectual.
Temos, pois, em linhas
gerais aproximadamente o seguinte: que Bergson nos representa a intuição de
tipo emotivo; que Dilthey nos representa a intuição
existencial volitiva; e Husserl representa a
intuição intelectual à maneira de Platão ou talvez também à maneira de
Descartes.
26. Conclusão.
Para terminar, é conveniente
que tentemos extrair dessa análise que fizemos da intuição, algumas conclusões
pessoais para nosso estudo da filosofia, para nossas excursões no campo da
filosofia.
É preciso considerar que
estas três classes de intuição que se repartem em grandes linhas o campo
metódico filosófico contemporâneo têm, cada uma delas, sua justificação num
lugar do conjunto do ser. O erro consiste em querer aplicar uniformemente uma
só delas a todos os planos e a todas as camadas do ser.
Evidentemente, nas camadas
do ser que estão dominadas pela construção intelectual das ciências
matemáticas, físicas, das ciências biológicas, das ciências jurídicas e
sociais, aquelas camadas onde o ser
significa já, sem
preocupar-se da origem delas, existência e essência, nessas camadas o importante,
o filosòficamente importante é a descrição das essências. Fazer descrição
daquilo que os objetos são.
Para estas camadas do ser,
evidentemente, a intuição fenomenológica de Husserl é o instrumento mais
apropriado; a intuição intelectual é aquela que, tendo nós posto o objeto
diante de nós, submete o às categorias do ser estático, do ser existente; o
método mais eficaz para esta camada de ser será evidentemente a intuição
fenomenológica, que procura furar as representações desse ser, dessa coisa, para
chegar à coisa mesma, prescindindo da singularidade e particularidade da
representação.
Todavia, se o objeto que nos
propomos captar for pré-intelectual, for essa vivência do homem antes que o
homem tenha resolvido crer que há coisas, então teremos que descobrir essa
vivência do homem, anterior à crença na existência das coisas, como um puro e
simples viver, mas um viver que sente os obstáculos, que tropeça com
resistência, com dificuldades. E justamente ao tropeçar com resistências e
dificuldades, dá a essas resistências o valor de existências e, tendo-as
convertido em existências, lhes confere o ser, e, uma vez que lhes conferiu o
ser, então já são essências, às quais pode aplicar-se a intuição intelectual.
De sorte que estes três
tipos de intuição não são contraditórios mas antes podem todos ser usados na
filosofia contemporânea e nós os usaremos segundo as camadas de realidade em
que estiverem situados os objetos a que nos consagramos. Em nossas excursões
pelo campo da filosofia, seremos fiéis ao método da intuição, se umas vezes
aplicarmos a intuição fenomenológica e outras a intuição emotiva, ou, melhor
ainda, a intuição volitiva.
