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terça-feira, 24 de julho de 2012



MENSAGEM FINAL
DO ENCONTRO NACIONAL
DA VIDA MONÁSTICA E CONTEMPLATIVA

(Aparecida/SP, 16-19 de junho de 2012)
“IDENTIDADE, MÍSTICA E MISSÃO”
Nossa pátria é o céu (Fl 3,20)
1.    Reunidos em Aparecida, lugar privilegiado da manifestação da fé do povo brasileiro, e onde se pode sentir mais de perto a maternidade carinhosa de Maria, por iniciativa da Conferência dos Religiosos do Brasil e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, com o incentivo e aprovação da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, acolhidos calorosamente pela Igreja Local, expressamos nossa alegria e gratidão por esta oportunidade de comunhão e convívio fraterno, reflexão e partilha de experiências, oração e celebração, que nos foram proporcionados. Vemos em tudo isto a solicitude da Igreja para com nossas famílias religiosas.
2.    Com o tema “identidade, mística e missão” e o lema “nossa pátria é o céu” (Fl 3,20), procuramos aprofundar a compreensão de que somos consagrados para responder ao olhar de amor do Senhor por todos nós: “não fostes vós que me escolhestes, fui eu que vos escolhi” (Jo 15,16). Somos gratos pelo chamado para a vida monástica e contemplativa, partilhado também por leigos que vivenciam nosso carisma na realidade secular. Reconhecemos que nossa fidelidade a Jesus exige sempre e de novo decisão e empenho, dimensões que marcam o povo de Deus que caminha na história, buscando corresponder à vida de cidadãos do céu (cf. Fl 3,20).
3.    Empenhamo-nos por aprofundar a compreensão de nossa vocação particular na Igreja, nossa identidade, mística e missão; o sentido de pertença e fidelidade criativa à Tradição de nossas famílias religiosas, a conservação do próprio patrimônio espiritual, a comunhão como possibilidade de experiência real do amor vivido e sua celebração diária na liturgia; a dimensão comunitária da experiência de fé, a corresponsabilidade no que diz respeito ao “único necessário” (Lc 10,42), cientes de que “nossa pátria é o céu” (Fl 3,20). Desejamos conservar, alimentar e aprofundar o amor, a fidelidade e a devoção filial à Igreja, ao sucessor de Pedro, em comunhão com a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Possamos, com a graça de Deus, receber a força de tornar visível pelo amor fraterno, a unidade da comunhão trinitária que nos abraça e abençoa. Reconhecemos humildemente a presença entre nós de atitudes contrárias às exigências do seguimento radical de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Fl 3, 18-19). Mas também temos a certeza de que Deus escolhe instrumentos frágeis para testemunhar no mundo seu amor (cf. 1Cor 1, 27-28), e acreditamos que Sua misericórdia é grande (1Pd 1,3).
4.    Somos desafiados no cotidiano pelas consequências da mudança de época em que nos encontramos. Isso faz com que os critérios de compreensão, os valores mais profundos, a partir dos quais se afirmam identidades e se estabelecem ações e relações entrem em crise. Sentimos tal realidade influenciando e desafiando nossa forma de vida. Desejamos, portanto, que nosso testemunho discreto e simples de amor vivido em todas as suas manifestações, possa ser resposta oferecida por nossas comunidades religiosas ao mundo. Em especial, com a Igreja, através da participação em seu mistério pascal e da ascese e da solicitude orante pela humanidade, suas necessidades e intenções, acolhendo as angústias e dores, as alegrias e esperanças dos homens e mulheres de nosso tempo.
5.    Confiamos na força do amor (cf. Ct 8,6). Por isso, “com os olhos fixos em Jesus” (Hb 12,1), vislumbramos um futuro mais harmonioso nas relações entre hierarquia e carisma, dimensões constitutivas da Igreja. Incentivamos uma pedagogia de mútua apreciação, desde os seminários e casas de formação, até a criação de espaços de autêntico diálogo e mútua colaboração.
6.    Renovamos nosso compromisso em testemunhar alegremente no silêncio da vida a força da fidelidade a nossos carismas. Por isso, entre expressões antigas e novas de vida monástica e contemplativa, assumimos o desafio de dar continuidade à experiência da gratuidade do amor e da comunhão entre nós e nossas famílias religiosas, vivida nestes dias em Aparecida. Propomo-nos favorecer e fomentar o caminho aqui iniciado, sob as bênçãos da Senhora Aparecida, pois, reconhecemos que da Igreja recebemos a fé e a consagração; e nela, com gratidão e alegria, nos consagramos ao Senhor sem reserva, característica dos adoradores que o Pai procura.

Bem-aventurado Ruysbroeck

 
Louvor dos pobres voluntários.
"Mas, o primeiro fruto que nasce da boa vontade é a pobreza voluntária, que é o segundo degrau na escada da vida daquele que ama. Aquele que é pobre espontaneamente, leva uma vida livre e desembaraçada da preocupação por todas as coisas temporais que não lhe são necessárias.
Pois, como um sábio mercador, ele trocou a terra pelo céu ; adequando seus costumes à esta sentença do Senhor Jesus, pela qual está dito : Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro: Lc 16. Non potestis servire Deo et mammonae. E tendo abandonado e desprezado tudo o que podia possuir de amor ou de afeição terrestre, comprou a pobreza voluntária, isto é, o campo no qual descobriu o reino de Deus.
Assim, bem-aventurados os pobres de espírito, isto é, da vontade, ou, os pobres voluntários, porque deles é o reino dos céus: Mt. 5 Beati pauperes spiritu, quoniam ipsorum est regnum coelorum. O reino de Deus. O que é? O reino de Deus é caridade e amor, é o experimento e o exercício de todas as obras boas, de tal modo que aquêle que é pobre de espírito, desta maneira, seja enormemente misericordioso, bom, clemente e caridoso em relação a todos aquêles que tem necessidade de seu socorro; e que se esforça por lhes ser útil, de maneira todavia, que ele possa declarar, em virtude do julgamento do Cristo, e dar testemunho, por causa do grande benefício de Deus e dos dons recebidos de Ele, que pôs todo seu zelo nos atos de misericórdia, e que se entregou. Pois, nas coisas terrestres, não há nada inerente; pois, tudo o que há, é comum a Deus e a todos aquêles que pertencem a família de Deus. Bem-aventurado, com certeza, o pobre voluntário que nada de caduco e efêmero possúi , para seguir a Cristo, e receber cem vezes mais a prova das virtudes; esperando a Glória de Deus e a vida eterna: Mt.19 Deique expectat gloriam et vitam sempiternam. A loucura do avaro. Mas, ao contrário, aquele que é avaro é estranhamente imprudente e insensato, pois ele troca o céu pela terra, ainda que seja certo que ele deva perdê-la cêdo : O pobre de espírito escala os céus : o avaro se precipita no Tártaro. Mt. 19 Se um camelo pode passar por um buraco de uma agulha, também o avaro que se agarra (aos bens da terra) poderá entrar nos céus.
E ainda que ele seja pobre de bens terrestres, se, entretanto ele não preferir a Deus sobre todas as coisas, se morrer na avareza, certamente perecerá.
O avaro escolhe a casca da noz em vez da amêndoa, a casca em vez da gema do ovo. E no entanto, em verdade, aquele que ama o ouro e possui os bens da terra, não faz senão se alimentar de um veneno mortal, e beber na fonte da eterna aflição. E quanto mais bebe, mais sua sede se torna ardente; e quanto mais fica repleto de bens, mais ele os deseja. E ainda que ele possua muitos bens, entretanto, ele não está contente: falta-lhe tudo o que não está com ele; mas o que ele tem lhe parece pouca coisa ou nada. E ele não é amado por ninguém. Pois, como ele está a mercê do mal da avareza, ele não merece ser amado. Porque o avaro se parece com os abraços de Satã. Pode-se comparar, não sem razão, aos abraços do demônio. Pois tudo que se apodera, não quer mais largar: mas, retém na medida, até o último suspiro, tudo o que ele puder adquirir, até mesmo pela artimanha ou pela fraude. Então, queira ou não, perde todas as coisas; e a dor eterna logo se apodera dele: e isto é mais que certo, como é semelhante ao inferno que, qualquer que seja o nome dos condenados que ele recebe, não diz jamais: Prov. 30 7 é demasiado; e ainda que ele tenha tragado um grande número, não se sente melhor por isso. Mas, tudo o que ele agarrou, retém fortemente, e sempre, com a goela escancarada, alcança novos hóspedes para o Tártaro .
Por isso, fiquemos em guarda para não contrair a peste da avareza, 1 Tim. 6  que é como a raiz de todos os vícios, de toda improbidade, e de toda malícia."