Nosso
Senhor Jesus Cristo voltará. Anunciaram-no os anjos no próprio dia da Ascensão:
“Este Jesus que, separando-se de vós, foi arrebatado ao céu, virá do mesmo modo
que o vistes ir para o céu”. À diferença de sua primeira vinda, humilde e
desconhecida, a segunda vinda do Verbo Incarnado será solene e gloriosa. Virá
“na glória de seu Pai com os santos anjos”, “com todos os seus santos” , “com
grande poder e majestade”, “em uma chama de fogo”, “no trono da sua majestade”.
Também se sabe que “aparecerá o sinal do Filho do Homem no céu”, em que a
maioria dos Padres da Igreja vê a Cruz, cuja imagem gloriosa se formará no céu.
O
tempo da Parusia
Embora
a segunda vinda do Messias seja dogma de fé, o momento de sua realização é
muito menos evidente, para não dizer incognoscível. Várias passagens da Sagrada
Escritura dissuadem quem queira determiná-lo: “Mas, quanto àquele dia e àquela
hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas só o Pai”. Será um acontecimento
súbito e imprevisível: “Assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao
ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem”; “como um ladrão virá o
dia do Senhor”. Por isso Nosso Senhor Jesus Cristo convida todos os homens,
presentes e futuros, à vigilância: “Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora
virá o vosso Senhor. Mas sabei que, se o pai de família soubesse a que hora
havia de vir o ladrão, vigiaria sem dúvida, e não deixaria minar a sua casa.
Por isso estai vós também preparados, porque não sabeis a que hora virá o Filho
do Homem”. O próprio Santo Tomás, doutor comum da Igreja, não deixa lugar a
dúvida quando fala do tempo do juízo final: “Como diz Santo Agostinho, não se
pode determinar o tempo que falta [antes do juízo], quanto ao mês, ano, século
ou milênio”.
Portanto,
não será supérfluo, e inclusive contra a vontade divina, discorrer sobre os
possíveis sinais da Parusia? Poderia ser assim, se a própria Sagrada Escritura
não nos proporcionasse certos sinais, por onde se pode conjeturar de algum modo
a maior ou menor proximidade do desenlace final. Por conseguinte, não nos é
proibido examinar esses sinais, porém, é preciso ter em conta que são muito
vagos e abstratos, e prestam-se a grandes confusões, sobretudo pelo caráter
evidentemente metafórico e ponderativo de muitos deles.
Reunamos,
pois, esses sinais, guardando-nos bastante de chegar a conclusões demasiado
concretas e simplistas, recordando estas palavras do Padre Antônio Royo Marín:
“A única coisa certa nesta matéria tão difícil e obscura é que ninguém
absolutamente sabe nada: é um mistério de Deus”.
Os principais
sinais precursores do fim do mundo
1. A pregação do
Evangelho em todo o mundo.
Anunciou-o
o próprio Jesus Cristo ao dizer a seus Apóstolos: “Será pregado este Evangelho
do reino por todo o mundo, em testemunho a todas as gentes; e então chegará o
fim”. E também: “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura”. E
em outro lugar: “Me sereis testemunhas em Jerusalém, e em toda a Judéia, e na
Samaria, e até às extremidades da terra”. O que se não deve entender no sentido
de que todos os povos se converterão ao cristianismo, senão unicamente que o
Evangelho se propagará suficientemente por todas as regiões do mundo, de
maneira que todos os homens que queiram possam converter-se a ele. Tampouco se
pode dizer que o fim do mundo virá imediatamente depois que o Evangelho haja
chegado aos confins da terra, mas apenas que não sobrevirá antes disso.
2. A apostasia
universal da fé cristã.
Anunciou-o
Nosso Senhor Jesus Cristo e repetiu-o São Paulo: “E levantar-se-ão muitos
falsos profetas, e seduzirão muitos. E, por causa de se multiplicar a
iniqüidade, se resfriará a caridade de muitos”. “Mas, quando vier o Filho do
homem, julgais vós que encontrará fé sobre a terra?”. “Ninguém de modo algum
vos engane: porque isto não será sem que antes venha a apostasia quase geral
dos fiéis, e sem que tenha aparecido o homem do pecado, o filho da perdição”.
Essa apostasia da fé não será total e absoluta em todo o gênero humano, já que
a Igreja não pode perecer. Contudo, é difícil precisar seu verdadeiro alcance e
significação. Alguns teólogos interpretam-na no sentido de que a maioria das
nações e povos, como sociedades políticas, renunciarão ao cristianismo, de
forma que os princípios, leis, escolas, organização familiar e, em geral, toda
a vida pública, serão contrários às normas da fé.
Ao
mesmo tempo, a vida individual da maior parte dos homens será levada por vias
contrárias ao cristianismo, conquanto nunca faltarão de todo almas sinceras que
conservarão sem mácula o espírito cristão até o fim dos séculos. Essa perda
generalizada da fé será, então, a preparação e a obra da vinda do Anticristo.
3. A conversão dos
judeus.
Em
contraste com essa apostasia quase geral verificar-se-á a conversão de Israel
anunciada por São Paulo: “Eu não quero, irmãos, que vós ignoreis este mistério,
isto é que uma parte de Israel caiu na cegueira até que tenha entrado na Igreja
a plenitude dos Gentios, e assim todo o Israel se salve, como está escrito:
Virá de Sião o libertador, e afastará a impiedade de Jacó”. Também profetizou-a
Oséias: “Os filhos de Israel estarão durante muitos dias sem rei e sem
príncipe, sem sacrifício e sem altar (...); e, depois disto, os filhos de
Israel voltarão, e buscarão o Senhor seu Deus, e Davi, seu rei; e, no fim dos
tempos, olharão com respeitoso temor para o Senhor e para os bens que ele lhes
terá feito”. Quando se realizará essa volta de Israel à verdadeira fé, em que
medida e proporção e com quais manifestações externas? Eis outros tantos
mistérios que absolutamente ninguém pode aclarar.
4. A vinda do
Anticristo
A
palavra “Anticristo”tem duas acepções distintas na Sagrada Escritura. Pode
designar qualquer manifestação do espírito anticristão, adverso a Nosso Senhor
Jesus Cristo: o pecado, a heresia, perseguição etc. Neste sentido fala São João
quando diz: “Já agora há muitos Anticristos”. Mas, em seu sentido próprio, a
palavra “Anticristo” designa uma pessoa sumamente inimiga de Nosso Senhor Jesus
Cristo e da Igreja, que aparecerá ao fim do mundo.
Segundo
esta acepção, falam os apóstolos São João e São Paulo nos textos seguintes:
“Ouvistes dizer que o Anticristo vem (...) Este é um Anticristo, que nega o Pai
e o Filho”, “Ninguém de modo algum vos engane: porque isto não será sem que
antes venha a apostasia quase geral dos fiéis, e sem que tenha aparecido o
homem do pecado, o filho da perdição, o qual se oporá a Deus, e se elevará
sobre tudo o que se chama Deus, ou que é adorado, de sorte que se sentará no
templo de Deus, apresentando-se como se fosse Deus. (...). E vós agora sabeis o
que é que o retém, a fim de que seja manifestado a seu tempo. Porque o mistério
da iniqüidade já se opera, somente que aquele que agora o retém, retenha-o até
que seja tirado do meio. E então se manifestará esse iníquo (a quem o Senhor
Jesus matará com o sopro da sua boca, e destruirá com o resplendor da sua
vinda); a vinda dele é por obra de Satanás com todo o poder e com sinais e
prodígios mentirosos, e com todas as seduções da iniqüidade para aqueles que se
perdem, porque por sua culpa não abraçaram o amor da verdade para serem
salvos”.
Destas
e de outras citações, interpretadas à luz dos comentários dos Padres e teólogos
da Igreja, pode chegar-se às seguintes conclusões:
a)
O Anticristo virá nos últimos tempos, antes da Parusia.
b)
Será uma pessoa real, não um demônio incarnado ou um homem aparente.
c)
Será um indivíduo (o homem de iniquidade, o filho de perdição”) e não uma
coletividade ou série de pessoas, apesar de que terá muitos seguidores.
d)
Seduzirá muitos por sua pregação, prodígios e mentiras.
e)
Será morto pelo “sopro da boca” de Nosso Senhor Jesus Cristo.
f)
Sua vinda postergar-se-á até que desapareça um misterioso obstáculo que o
detém.
Fora
dessas conclusões, não se pode saber nada com certeza a respeito do Anticristo
e do tempo de sua vinda.
5. A aparição de
Elias e Enoque.
“É
outro sinal misterioso, que só de uma maneira muito confusa pode apoiar-se
sobre a Sagrada Escritura”. A respeito de Elias, a Sagrada Escritura diz o
seguinte: “Eis que vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o dia grande e
horrível do Senhor. E ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração
dos filhos a seus pais; para não suceder que venha e fira a terra com anátema”.
E em outro lugar: “Tu [Elias], de quem está escrito que no tempo dos julgamentos
virás para abrandar a ira do Senhor, para reconciliar o coração dos pais com os
filhos, e para restabelecer as tribos de Jacó”. Também, ao descer do monte
Tabor no dia da Transfiguração: “E os dicípulos o interrogaram, dizendo: Por
que dizem, pois, os escribas que Elias deve vir primeiro? E ele, respondendo,
disse-lhes: Elias certamente há de vir, e restabelecerá todas as coisas”.
De
Enoque diz a Sagrada Escritura: “E [Henoc] andou com Deus e desapareceu, porque
Deus o levou”. E no livro do Eclesiástico: “Henoc agradou a Deus, e foi
transportado ao paraíso, para exortar no fim do mundo as nações à penitência”.
E o próprio São Paulo diz: “Pela fé foi arrebatado Henoc deste mundo, para que
não visse a morte, e não foi encontrado, visto que Deus o arrebatou”. Muitos
Santos Padres – entre os quais se contam São Jerônimo e Santo Agostinho –
aplicam a Elias e Enoque o misterioso episódio das duas testemunhas que lutarão
contra o Anticristo e serão mortos, para depois ressuscitar gloriosamente: “E
darei às minhas duas testemunhas o poder de profetizar, revestidas de saco,
durante mil, duzentos e sessenta dias. (...). E, depois que tiverem acabado de
dar o seu testemunho, a fera, que sobe do abismo, fará guerra contra eles, e
vencê-los-á, e matá-los-á”. Todavia, outros Padres e expositores sagrados dão
outras interpretações muito diversas, pelo que é forçoso concluir que nada
absolutamente se pode afirmar sobre esse particular.
6. Grandes
calamidades naturais e públicas.
Nosso
Senhor fala de guerras e catástrofes: “Ouvireis falar de guerras e de rumores
de guerras. Olhai, não vos turbeis; porque importa que estas coisas aconteçam,
mas não é ainda o fim. Porque se levantará nação contra nação, e reino contra
reino, e haverá pestilências, e fomes, e terremotos em diversos lugares. E
todas estas coisas são o princípio das dores”. Alude também a fenômenos no céu:
“E, logo depois da tribulação daqueles dias, escurecer-se-á o sol, e a lua não
dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potestades dos céus serão
abaladas. E então aparecerá o sinal do Filho do homem no céu”. Em outro lugar
indica “E haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas, e na terra consternação
dos povos pela confusão do bramido do mar e das ondas”, recordando assim as
palavras do profeta Joel: “E farei aparecer prodígios no céu e na terra, sangue
e fogo, e turbilhões de fumo. O sol converter-se-á em trevas, e a lua em
sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor”.
Porém,
os Santos Padres e exegetas concordam todos em dizer que a interpretação dessas
palavras está cheia de dificuldade e mistérios. Escutemos a Santo Tomás: “Quais
são esses sinais, não é fácil saber. Porque os sinais que lemos no Evangelho,
como diz Santo Agostinho, não pertencem unicamente à vinda de Cristo para o
juízo, mas também ao tempo da destruição de Jerusalém, e ao advento com que
Cristo visita continuamente sua Igreja. De tal modo que, se se adverte
cuidadosamente, nenhum deles se pode ter como pertencente ao futuro advento,
como diz Ele mesmo; porque os sinais que se listam no Evangelho, como guerras,
terrores e coisas semelhantes, já existiram desde o princípio do gênero humano;
a não ser que se diga que então se agravarão mais e mais. Entretanto, até que
ponto seu crescimento anuncia a proximidade de sua vinda, é coisa completamente
incerta”.
Já chegou o fim do
mundo?
Tratemos
de aplicar o dito, na medida em que possamos, à situação do mundo de hoje.
Parece claro que já se pregou o Evangelho no mundo inteiro, especialmente com
os meios de comunicação atuais, através dos quais se pode chegar a informar-se
desde qualquer lugar do orbe. Tampouco se pode negar que a apostasia geral da
fé cristã é uma realidade, tanto no nível das sociedades como dos indivíduos.
Já não existem países católicos e poucos são os que continuam professando a fé
católica em sua integralidade.
Os
próprios homens da Igreja, inspirados por um espírito neomodernista, fizeram-se
colaboradores de uma “apostasia silenciosa”, reconhecida pelo próprio João
Paulo II.
Quanto
aos quatro outros sinais da Parusia, por outro lado, não se pode afirmar que já
se cumpriram, embora pareça indiscutível que os tempos atuais são propícios
para a vinda do Anticristo. Portanto, ainda em nossos dias, se verifica o que
Nosso Senhor dizia a seus Apóstolos: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem
a hora”.
Como esperar o fim
do mundo?
A
modo de conclusão citemos uma palavras de São Paulo aos Tessalonicenses.
Convencidos falsamente da iminência da Parusia, os habitantes de Tessalônica
estavam cheios de terror e abatimento. Ao invés de estimulá-los ao bem, o
pensamento do fim do mundo turbava-os e paralisava sua vida espiritual. Alguns
descuidavam de seu dever de estado, deixavam levar-se pela indiferença, com a
mesma apatia com a que o condenado à morte espera, desconsolado, sua degolação.
São Paulo escreveu sua segunda Epístola aos Tessalonicenses para lutar contra
esse espírito destrutivo que leva ao desânimo: “Ouvimos dizer que alguns entre
vós andam inquietos, nada fazendo, mas ocupando-se em coisas vãs”. “Permanecei,
pois, constantes, irmãos, e conservai as tradições que aprendestes”. “E o mesmo
Nosso Senhor Jesus Cristo (...) console os vossos corações, e os confirme em
toda a boa obra e palavra”. “O Senhor, pois, dirija os vossos corações no amor
de Deus, e na paciência de Cristo”. “Não vos canseis nunca de fazer bem”.
Atualmente, continua existindo a mesma tentação. Ao ver que se cumpriram alguns
sinais da Parusia, poderíamos adotar uma atitude passiva, desesperada, nessa
crise que sacode a Igreja, pensando mais ou menos conscientemente: “Salvemos o
que possamos salvar. Salvemos nossas almas, nossas famílias. Já é muito. Mas
não busquemos mais. Não busquemos restabelecer o reinado social de Nosso Senhor
Jesus Cristo nem a Cristandade. Tampouco faz falta manter contato com as
autoridade romanas imbuídas de modernismo, para tratar de mostrar-lhes os erros
que corroem a Igreja desde o Concílio Vaticano II. Não vale a pena, porque já
está predito: a situação não vai mudar. É a grande apostasia profetizada pela
Sagrada Escritura. Acerca-se o fim do mundo”.
Pensar
dessa maneira, seria esquecer que não temos ainda nenhuma certeza a respeito da
iminência da Parusia. Seria “cansarmo-nos de fazer o bem”, o contrário do que
nos pede São Paulo. A um soldado pede-se-lhe que lute por seu rei até a morte.
O mesmo, com fervor e ânimo ainda maiores, se exige do católico, que pela
confirmação foi feito soldado do Rei eterno. Não é tempo de se baixarem os
braços. Confiemos na graça, e quando sejamos presa da tentação do desânimo ao
ver a amplitude e dificuldade da obra, recordemos que, pela ajuda divina, David
venceu Golias, e digamos com Santa Joana D'arc: “Lutemos, e Deus dará a
vitória!”
Revista Iesus Christus no. 127. Título
original: "Ya Llegó el fin del mundo? La Biblia y los signos de la
Parusia". Tradução: Permanência