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sábado, 15 de setembro de 2012

DEUS NO DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO


J. B. Libanio

A Igreja Católica até recentemente era a principal e quase única religião que norteava as sociedades em nosso Continente. As últimas décadas trouxeram modificação significativa nesse quadro. Em grande parte, tal mudança decorre do fenômeno de secularização. Este está corroendo o poder das religiões, entre elas o da Igreja Católica, como uma Instituição que dava normas para toda a sociedade. Com isso, a religião passou a ser uma questão pessoal. E, desta forma, multiplicaram-se suas expressões. É como se tirássemos de um colégio o uniforme, então veríamos os alunos virem cada um vestido a seu modo. O uniforme religioso católico está sendo substituído pelas inúmeras vestes das denominações religiosas. E o sistema capitalista aproveita inclusive para comercializar tal surto religioso.
Além disso, o novo fenômeno cultural da globalização tornou possível que expressões religiosas, até então rinconadas em regiões longínquas, fossem trazidas para dentro de cada casa. A pluralidade religiosa assumiu dimensões incomensuráveis.
Mais ainda. Abriu-se, dessa maneira, em nossos países da América Latina, amplo espaço, quer para as religiões africanas e ameríndias, quer para a entrada de tradições religiosas ancestrais do Oriente. Numa palavra, a fé cristã sente-se interpelada a um diálogo com as outras tradições religiosas.
Todo diálogo supõe duas atitudes fundamentais. Uma clareza de consciência da própria identidade e uma abertura ao diferente. Quem não sabe quem ele é, não pode dialogar. Quem está plenamente satisfeito consigo e se julga perfeito e completo, também não dialoga. Ora, isso que vale do diálogo interpessoal, aplica-se também ao diálogo inter-religioso.
O Cristianismo é a única religião cujo Deus é tripessoal. O Judaísmo e o Islamismo professam a fé num único Deus pessoal. Outras religiões, sobretudo orientais, trabalham com outra compreensão de Deus em que o lado pessoal ou é desconhecido ou menos explicitado. O Budismo, segundo alguns, chega a prescindir de Deus, para valorizar a experiência humana como fonte da religião.
Ao querer estabelecer um diálogo inter-religioso, o Cristianismo necessita manter a dupla atitude fundamental de clareza sobre sua identidade e de abertura às outras religiões. Pensar Deus no diálogo inter-religioso a partir da identidade cristã é pensá-lo como Pai. Aí está a nossa originalidade. É uma face do diálogo. A outra exigência do diálogo é o confrontar-se com o diferente das outras religiões. Dessa sorte, a compreensão de Deus Pai pode ser ampliada, enriquecida com a contribuição de outras tradições religiosas.

1. Um Deus exclusivista

Muitos cristãos acostumaram-se a uma visão de Deus quase como propriedade particular. Temos o Deus verdadeiro. Todas as outras religiões possuem ídolos, falsos deuses. Transportam literalmente para nossos dias afirmações do Antigo Testamento. Esquecem que o contexto sócio-religioso é muito diferente. Lá, o povo de Israel estava ainda no início da elaboração de sua experiência de Deus. Cercado por muitas religiões poderosas, dificilmente conseguiria aquele povo pequeno e frágil expressar para si mesmo a sua identidade religiosa sem certo grau de radicalidade exclusivista.
Somente nesse contexto podemos entender os dizeres do salmista sobre as outras divindades: “Os ídolos são prata e ouro, obra de mãos humanas: têm boca e não falam, têm olhos e não vêem, têm ouvidos e não ouvem, têm nariz e não têm olfato, têm mãos e não apalpam, têm pés e não andam; não emitem sons com a garganta. Fiquem iguais a eles os que os fabricam e todos os que neles confiam (Sl 115,4-8)!
Assim pensaram os missionários quando aqui chegaram em relação às religiões indígenas. Da mesma maneira, foram tratadas, até faz pouco tempo, as divindades das religiões afro-americanas. Também diante das tradições religiosas do Oriente, os evangelizadores europeus refletiam essa mentalidade veterotestamentária. Evidentemente, tratar hoje as outras religiões nessa perspectiva seria fechar-se totalmente ao diálogo inter-religioso.
Um primeiro passo é modificar nossa visão de Deus Pai. Ele se deixa adorar, posto imperfeitamente, em outras religiões. É o mesmo e único Deus que tem muitos nomes. Sem a superação de posição intransigente e apologética, não se entendem não só as outras religiões, como também desconhece-se o nosso próprio Deus.
Confundia-se até recentemente a verdade do único Deus com o poder e a verdade da cultura ocidental. As grandes descobertas abalaram essa consciência, mas não suficientemente. A crise cultural do Ocidente, provocada pelas duas grandes guerras mundiais, pela tomada de consciência de suas perversidades, manifestadas na construção dos campos de concentração, no holocausto, no lançamento de bombas atômicas, na voracidade insaciável de um consumismo destruidor da natureza, levou também a questionar se sua visão de Deus não pagou tributo demasiado grande a tal cultura.
O Deus exclusivista do Ocidente serviu de pretexto para justificar as conquistas e dominação de muitos povos, para exterminar etnias e para perpetrar tantos outros crimes. De Pai esse Deus tinha muito pouco. Era mais o vingador de uma religião a serviço de potências invasoras. Chegou-se a escrever nos inícios da Colonização que a sabedoria de Deus tinha “guardado esses reinos durante tantos anos sem legítimos títulos, para que os reis de Espanha tivessem o mais alto e seguro de todos quantos se possuem no mundo”. Invoca-se a própria “sabedoria de Deus” para legitimar a colonização! De modo mais contundente, lê-se num documento da época: “Boas são as minas entre esses bárbaros (índios), pois Deus lhas (aos Reis de Espanha) deu para que fossem levadas a fé e a cristandade e a conservação nela, e para a sua salvação”.
Evidentemente houve vozes discordantes. Mais: vozes proféticas que gritaram contra essa visão de um deus colonialista. Em nosso Continente, Bartolomeu de las Casas foi uma delas. Pregava assim veementemente contra os colonizadores: “Todos vós estais em pecado mortal e nele viveis e morreis, por causa da crueldade e da tirania que usais com essas gentes inocentes. Dizei: Com que direito e com que justiça tendes em tão cruel e horrível servidão esses índios? Com que autoridade fizestes tão detestáveis guerras a essas gentes, mansas e pacíficas, que estavam em suas terras, onde tão infinitas delas, com morte e estragos nunca ouvidos, fizestes desaparecer?”

2. Dimensão pessoal de Deus

A visão cristã oferece no diálogo inter-religioso a originalidade de um Deus tripessoal. As outras religiões podem enriquecer-se, ao confrontarem-se com um Deus que é pessoa e comunidade. Como pessoa, não se perde em nenhum anonimato, nem se dissolve numa força cósmica ou psíquica, mas, posto diferente de nossas pessoas humanas, está diante de nós como um Sujeito. Na nossa maneira antropomórfica de falar de Deus, vemo-lO como quem fala, chama, interpela, ouve, sofre, ama, promete, realiza suas promessas. Essa dimensão de pessoa faz que também nós nos percebamos como sujeito, como pessoa diante dele. Se Deus fala, podemos ouvi-lo. Se interpela, podemos responder-lhe. Se ouve, podemos falar-lhe. Se ama, podemos amá-lo. Se promete, podemos confiar nele. Se realiza, podemos agradecer-lhe.
Essa relação pessoal permite à fé cristã traduzir-se em muitos ritos, símbolos, orações, cultos, práticas religiosas. Tudo, porém, só pode ser interpretado como expressão de diálogo entre pessoas, entre sujeitos, nunca como manipulação que traduz o desejo de tratar o outro como objeto. Em muitas expressões religiosas, somos tentados a tratar a Deus como objeto ou deixar-nos tratar por ele dessa maneira. De ambos riscos a concepção pessoal de Deus nos livra. E ela serve, por isso mesmo, de pedra de toque para as outras tradições religiosas também elas purificarem-se dessa mesma tentação. As magias e outros ritos semelhantes transformam a Deus em objeto. E a concepção da história como destino divino reduz-nos a objetos. Um Deus pessoal reconduz-nos à verdadeira trilha religiosa.
A visão cristã vai mais longe. Fala-nos que esse Deus é Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo e enviador do Espírito Santo. Ele é tripessoal, é Trindade, é comunidade. Não está perdido na solidão de um monoteísmo fechado, nem no anonimato de uma força infinita. Ao entendermos a Deus como Trindade, nós nos compreendemos também diferentemente, a saber, como um ser comunitário. A religião, que nasce dessa experiência, não pode ser feita de ritos de isolamento, mas visa à vida comunitária. A sua solidão mística deixa-se povoar pela abertura à comunidade, tanto na oração como na caridade.
O outro lado do diálogo é abrir-se ao diferente, às outras expressões religiosas. Não pode naturalmente ser à custa da própria identidade. O Cristianismo não pode evidentemente abrir mão da Trindade para dialogar. Simplesmente porque deixaria de ser Cristianismo. Mas a visão tripessoal de Deus pode enriquecer-se com a contribuição das outras tradições religiosas.
Evidentemente não se pode entender essa reflexão como se tratasse de “deuses” diferentes. Existe um só Deus, e é dele que todos falam. Entretanto, nem todos o compreendem igualmente nem dispõem dos mesmos elementos, das mesmas experiências religiosas, das mesmas tradições culturais, das mesmas revelações, das mesmas capacidades de penetração reflexiva. Há um único Ser divino e muitas apreensões. Por isso, vale a pena perseguir as tratativas de Deus no interior de outras religiões.
Há um adágio védico que diz: “O Ser é um só - os sábios o chamam com vários nomes”. Afirmação profunda que pode ajudar a não absolutizar nossas projeções culturais de Deus. Os conceitos Pai, Pessoa, Natureza que são para nós decisivos na compreensão de Deus, da Trindade, não podem ser talmente radicalizados a ponto de a filosofia ocidental fechar as portas a um diálogo com outras culturas em que pai, pessoa, natureza exprimam conotações outras. Os nossos sábios - desde os profetas do Antigo Testamento até o Sábio maior Jesus Cristo - nomearam a Deus com muitos nomes. Para nós, o nome mais lindo, sublime é o de Pai. Retivemo-lo na oração, no credo, nas expressões litúrgicas. Mas ele não esgota a totalidade da compreensão de Deus. O papa João Paulo I quis acrescentar-lhe o nome de mãe, para não prendê-lo nas malhas masculinas da paternidade.
As tradições religiosas orientais cultivam muito a dimensão de Deus “Mistério”. Mistério divino de muitas faces. Ele possibilita genuínas experiências religiosas. E nessas experiências, salienta-se, por exemplo, na tradição hindu, a Transcendência. Podemos correr o risco na nossa cultura ocidental de construir um Deus tão próximo de nós, que termine diminuído na sua natureza de Mistério Absoluto. Lêem-se na tradição Upanixade esses belíssimos versículos, que se dirigem a Brahman que é, ao mesmo tempo, transpessoal e pessoal. Referem-se a um Ser que está para além de todo conhecimento humano, que “não é assim nem assim” e “diverso do que é conhecido e também para além do que é desconhecido”.
“O olho não vos alcança
não vos alcança a palavra e nem mesmo o pensamento.
Não sabemos, não conhecemos
de que modo possa ser ensinado.
Ele é diverso do que é conhecido
e também para além do que é desconhecido.
Assim ouvimos dos antigos
que nô-lo hão explicado.
O que não pode ser expresso com a palavra
o que por meio do qual a palavra vem expressa
isto, saiba, que é o Brahman (...)
O que não pode ser pensado com o pensamento
o que por meio do qual, dizem, o pensamento vem pensado
isto, saiba, que é o Brahman (...)”
Temos, é claro, na tradição cristã também esse rosto de Deus, mas muito menos acentuado. Por isso, o diálogo inter-religioso acorda em nós tais sentimentos e experiências de Deus.

3. Dimensão histórica de Deus

Avancemos nosso encontro inter-religioso. A tradição bíblico-cristã apresenta a maravilhosa face de um Deus imerso e comprometido com a história humana. Nesse compromisso, Ele se põe sempre ao lado da vida e das lutas dos seres humanos que a buscam. Não os criou e deixou-os abandonados, como um grande arquiteto, que depois de construir a casa, afasta-se definitivamente dela, para que os seus habitantes façam aí o que quiserem. Vela, assiste, compromete-se até o extremo de enviar seu Filho unigênito a participar fisicamente dessa história.
Mais: nesse compromisso, Ele dá especial atenção àquelas pessoas e seres que estão sofrendo por causa da injustiça e opressão. Dessa maneira, faz descortinar para os fracassados da história horizonte de esperança de construção de mundo melhor. E para todos os outros seres humanos, enquanto mortais, anuncia a vitória definitiva sobre a morte pela ressurreição. Quantas tradições religiosas não conhecem um rosto de Deus assim! Essa nossa contribuição é insubstituível, maravilhosa.
Da nossa parte, descuidamos muito a natureza. A história nos fascinou tanto que dessacralizamos o cosmos, destruímos a casa dos homens, o Planeta Terra. Esquecemos que a Terra é também morada de Deus. As tradições religiosas orientais prezam muito essa dimensão e vêm-nos corrigir uma teologia ecocida, fundada numa leitura deturpada do mandato divino inicial de dominar e de submeter a Terra: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei e subjugai a terra! Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre tudo que vive e se move sobre a terra!” (Gên 1,28).
Naturalmente um diálogo sério com outras tradições nos leva a conhecê-las a fundo. Mesmo que a maioria das pessoas não tenha condição de fazê-lo, no entanto difunde-se um clima, uma sensibilidade religiosa, vindo de tradições hinduístas, budistas e de outras tantas. Elas têm despertado nova percepção da relação do divino com a natureza. Reconstroem uma sacralidade perdida. Atendem para um Absoluto, sob vários nomes, que se oculta nas “aparências” da multiplicidade dos fenômenos. Remetem-nos a uma experiência de presença do Mistério em todas as coisas. Ajudam-nos a encontrar o equilíbrio entre a dupla experiência de Deus, fundamental na vida de todos nós, a saber em todo criado e nos acontecimentos históricos, própria da tradição bíblico-cristã

Conclusão

O ponto crucial do diálogo inter-religioso é a concepção de Deus. Todas as religiões, de certa maneira, referem-se, em última instância, a Deus. Elas exprimem os caminhos dos seres humanos para Deus e de Deus para os seres humanos. O Cristianismo contribui de maneira excelente, anunciando um Deus Pai que manifesta seu infinito amor à humanidade, enviando o Filho e o Espírito Santo. Essa face amorosa de Deus Pai resgata a humanidade de seus medos profundos. Há ainda religiões povoadas de carrancas, de “deuses” terríveis, mediadas por sacerdotes não menos despóticos e opressores. A imagem final de Deus, transmitida por seu Filho Jesus, é de infinita ternura e compaixão. Por isso, Jesus bateu-se fortemente contra o mundo sacerdotal de seu tempo, que ainda estava preso a uma imagem rígida e dura de Deus. Numa palavra, o Cristianismo mostra a face extremamente libertadora de Deus e anuncia-nos a todos a Boa Nova de seu infinito amor salvador.

Desafios atuais aos estudos das religiôes
Silas Guerriero
Os estudos das religiões, ou ainda, o estudo das razões do ser humano crer e elaborar religiões, sempre foi um grande desafio. Afinal, trata-se daquilo em que muitos depositam os fundamentos de uma verdade última ou, como dizia Feuerbach, a esperança da “satisfação imediata, absoluta e ilimitada de todos os nossos desejos subjetivos”. Como compreender algo que não pode ser proferido, mas apenas sentido nas mais profundas experiências do ser? Já ouvimos alhures que “religião não se discute!”. Ora, fosse assim perderíamos a oportunidade de compreender mais amplamente a nós mesmos. A capacidade de produzir símbolos e construir mundos que só existem em nossa imaginação, transcendentes da experiência sensorial e empírica, é algo que só os humanos possuem e que nos diferencia das demais espécies. Religião se discute, sim. E a ciência tem muito a dizer sobre ela.
Não é de hoje que as ciências se debruçam sobre o fenômeno religioso. A filosofia e todas as outras humanidades, desde o alvorecer de cada uma delas, buscaram sempre colocar luz sobre o mistério. Porém, muitas vezes essa tentativa veio no sentido de desmerecimento daquelas verdades faladas pela religião, tratando o crente como alguém que insistia em permanecer ligado aos mundos encantados das “fantasias” religiosas. Desde a filosofia clássica, que procurou desbancar a mitologia, até a ciência moderna, com o discurso de que a racionalidade científica suplantaria as ilusões da fé, essas investidas foram marcadas pelo desmerecimento do fenômeno religioso, acabando por não percebê-lo em sua complexidade. Por outro lado, os estudos valorativos restringiram-se, muitas vezes, a olhares de dentro, buscando a compreensão racional dos mistérios da fé a partir do universo religioso do próprio pensador, terminando, muitas vezes, por colocar compreensões particulares como verdades absolutas e inquestionáveis.
Uma postura muito comum de nosso tempo é acreditar que as crenças só existem porque não temos explicação para muitas coisas que acontecem na natureza. O mistério fica reduzido, dessa forma, a uma limitação temporária de nossos instrumentos de medição. Quanto mais a ciência avançar sobre o desconhecido, mais afastará qualquer explicação sobrenatural. A religião estaria, dessa maneira, reduzida a uma incapacidade cognitiva. A resposta da religião acaba sendo, muitas vezes, uma defesa intransigente de seus pontos de vista, recusando-se a enxergar aquilo que a ciência descobre. Clonagem e pesquisa com células-tronco embrionárias de seres humanos são apenas algumas faces visíveis do debate atual, sem falar na grande polêmica que envolve o ensino do criacionismo. Ao colocarmos religião e ciência no mesmo patamar, incorremos no erro de não perceber suas especificidades e de ficar discutindo interminavelmente quem tem mais razão. Como disse Jay Gould, religião e ciência não podem ser confundidas, pois são dois pilares distintos do conhecimento humano, cada um cobrindo uma faceta da existência humana.
Dessa maneira, como podemos defender o ponto de vista de que a ciência pode estudar as religiões? Sem dúvida que a ciência tem muito a dizer sobre o fenômeno religioso, mesmo que seja uma fala externa. É claro que quando falamos em religião estamos entendendo uma infinidade de coisas e que a própria expressão não faz sentido para muitas culturas diferentes da ocidental. Esse já é um primeiro desafio. Para as ciências da religião, tudo aquilo que está no campo das crenças, sejam mitos, doutrinas, verdades religiosas ou mesmo a magia, diz respeito ao universo simbólico religioso e é passível de compreensão. Para a religião, nem tudo pode ser colocado no mesmo balaio, pois parte sempre de uma verdade absoluta e a crença do outro acaba sendo vista como pura crendice, adoração de ídolos ou simples ato mágico. Estamos muito acostumados a enxergar a religião identificada com uma igreja, pois essa é a tradição histórica da nossa sociedade. Mas, restritos dessa maneira, deixaríamos de lado uma infinidade de sistemas de crenças diversos que cumprem a mesma velha função de atribuir sentido à nossa existência. Todos eles procuram organizar e estruturar a vida social e individual, alimentam nossas esperanças de viver num mundo mais justo e tornam suportáveis a dor e o sofrimento.
As ciências da religião procuram compreender a dimensão religiosa em suas múltiplas dimensões, tanto na questão da percepção individual e subjetiva de que existe um mundo transcendente, quanto nas inúmeras manifestações, sejam de ordem ritualística, doutrinária, ética, social, econômica e política que formam os rostos visíveis das religiões. Não devem questionar, sob o risco de perder sua validade científica, a validade e veracidade de um ou outro discurso religioso. Esse é, sem dúvida, um desafio enorme. O olhar científico impõe uma postura externa, mas ao mesmo tempo esse distanciamento do objeto nunca é alcançado em sua totalidade e isso não significa, também, que o cientista deve ser um descrente. Diz apenas que o cientista deve seguir um ateísmo metodológico, caso contrário acabaria estabelecendo juízos de valor que poderiam enaltecer sua fé em detrimento das demais.
O cientista deve empreender uma compreensão histórica do desenvolvimento daquela religião em particular que pretende estudar. Isso implica na compreensão de que cada religião possui suas peculiaridades em termos de doutrinas, conjunto mitológico, práticas, rituais etc. Não pode, sob hipótese alguma, deixar de perceber as relações dessa religião com as demais esferas da vida social.
Pelo fato da religião ser multidimensional, apenas um olhar não dá conta de uma compreensão satisfatória. O cientista deve lançar mão, portando, de um conjunto de disciplinas auxiliares como a história, a sociologia, a antropologia, a psicologia etc. Ganha corpo, nos dias atuais, uma compreensão da religião que leve em consideração aspectos das ciências cognitivas e da própria biologia. Nesse sentido, ao estudar as particularidades de cada religião, o cientista pode contribuir para uma compreensão dos elementos que caracterizam a religião em geral, acima das especificidades particulares e cada vez mais enraizada na própria natureza da espécie humana.
No campo acadêmico, os estudos das religiões devem vencer uma barreira ainda muito presente. O início desses estudos esteve muito ligado às faculdades confessionais e à teologia. Tratava-se, portanto, de um olhar interior. Assim, os cursos de ciências da religião nasceram marcados por essa característica umbilical, embora procurassem uma independência. Quando as universidades laicas despontaram, trataram logo de expelir tais estudos, pois o que se almejava era uma racionalidade isenta de qualquer crença. Além do mais, não era necessário gastar tempo estudando algo que tinha seus dias contados. É sintomático o fato de que há apenas um programa de pós-graduação em ciências da religião radicado em uma universidade pública, a Universidade Federal de Juiz de Fora. A universidade brasileira trata a religião como se fosse, ainda, uma preocupação menor que deveria ficar restrita às instituições religiosas. Do outro lado, todos os demais programas de ciências da religião estão sediados em universidades confessionais, nas quais, salvo algumas exceções, a luta para deixar de ser uma teologia disfarçada ainda se faz muito presente.
Podemos dizer que começamos hoje a formar uma nova geração de estudiosos das religiões que estarão mais livres desses condicionantes e aptos a empreender pesquisas mais amplas. Um novo horizonte começa a despontar no meio. Só com estudos de cunho científico é que poderemos avançar não apenas na compreensão da religião em si, mas acerca de todas as suas conseqüências na vida social contemporânea.
A permanência do velho duelo ciência versus religião propicia empecilhos ao próprio avanço da ciência, visto que a religião se vê portadora de um direito de interferência no campo alheio. Tal é o caso das pressões exercidas sobre os deputados nas votações de projetos de lei sobre questões polêmicas que envolvem as experiências com a vida. Por outro lado, se guardadas as devidas distâncias, um diálogo entre as partes pode ser bastante benéfico. Recentes pesquisas, realizadas por cientistas da área de medicina contratados por testemunhas de Jeová, propiciaram novos conhecimentos no campo da hematologia e cirurgias sem necessidade de transfusão de sangue. As novas religiões, por sua vez, também acabam contribuindo para os estudos de programas de ação sustentável, principalmente nas áreas de ecologia, quando se pautam numa visão holística da natureza como um bem sagrado.
Ainda que permaneçam distantes, as religiões podem contribuir através dos seus questionamentos sobre os rumos que a própria ciência empreende, tanto no que se relaciona à responsabilidade ética dos cientistas, quanto na questão de um controle social sobre as novas tecnologias. A religião e todas as suas derivadas, como as mitologias em geral, auxiliam no resgate da dimensão humana que muitas vezes a ciência perdeu.
Silas Guerriero é professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP.

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