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sexta-feira, 13 de julho de 2012

Thomas Merton — Poesia e Contemplação


Excertos da tradução do Mosteiro da Virgem - Petrópolis
VIII
 
NA vida monástica, podia encontrar-se, segundo Bernardo, três vocações: a de Lázaro, o penitente, a de Marta, ativa e dedicada serva da comunidade monástica nos serviços caseiros, e a de Maria, a contemplativa. Maria escolhera (disse São Bernardo) a "melhor parte". E não havia motivos para que ela invejasse Marta ou deixasse de lado sua contemplação, sem que isso lhe fosse pedido, para participar dos trabalhos de Marta. A parte de Maria é, por natureza, preferível às duas outras e lhes é superior. Sente-se, ao ler nas entrelinhas de São Bernardo, que isso tinha de ser dito, pois não era de todo raro Maria invejar Marta. A parte de Maria não era, de fato, sempre desejável pela maioria.
O próprio São Bernardo soluciona o problema dizendo que, afinal, Marta e Maria são irmãs e devem morar juntas, na mesma casa, em paz. Uma completa a outra. Mas narealidade, a verdadeira plenitude monástica consiste, sobretudo, na união das três vocações: a de penitência, a de trabalho ativo (no cuidado da vida espiritual das pessoas, acima de tudo) e a contemplativa. Mas quando Bernardo fala do cuidado da vida interior das pessoas, refere-se ao dever de instruir e guiar outros monges, antes do que a obras apostólicas fora do Mosteiro. Todavia, a necessidade de pregadores e pessoas dedicadas ao trabalho pastoral e apostólico era aguda no século doze.
Para São Bernardo, a vida contemplativa é o que lia de normal para o monge. É o que ele deve sempre desejar, sempre preferir. Entretanto, a vida ativa tem também seus direitos. A contemplação deve ser sempre desejada e preferida. A atividade deve ser aceita, porém jamais procurada. Por fim, a plenitude da vida monástica encontra-se na união de Marta, Maria e Lázaro numa só pessoa. Geralmente a pessoa que reúne em si esses três elementos será um abade como o próprio Bernardo o foi.1
Não se deve, é claro, imaginar que tanto São Gregório como São Bernardo estão sempre preocupados com a contemplação deste ponto de vista problemático. Por causa do grande número de atividades em suas próprias vidas, ambos expressam com ardor sua ânsia de silêncio e de oração contemplativa. Entretanto, sempre admitem que a contemplação não lhes é estranha na vida de trabalhos apostólicos em que se veem empenhados. De fato, pressentimos que a experiência contemplativa deles é, de algum modo, mais profunda e mais rica precisamente por causa das graças místicas concedidas para ajudá-los a pregar aos outros.
Em todo caso, onde a contemplação faz parte de um problema e de um conflito, é sempre essa oposição real ou imaginária ã ação que surge imediatamente, quando acontemplação é definida a priori como "um repouso de qualquer ação exterior".
Não conheço nenhum texto em que o moderno "problema" da contemplação versus liturgia seja tratado extensivamente ou levado a sério pelos Pais da vida monástica. Este problema não existia para eles. No máximo, poderíamos deduzir isso do fato de que Gregório e Bernardo nunca se viram privados da participação na Liturgia das Horas e celebrações da Igreja, exceto quando em viagem pelas estradas. Daí seus lamentos, por se verem privados da "contemplação", não serem lamentos em relação à "liturgia". E, consequentemente, por "contemplação" parecem ter significado algo situado para além da oração litúrgica. Contudo, creio que seguir na direção desse argumento resultaria apenas em criar confusão num ponto onde já existe mais do que suficiente desentendimento.
Consideremos simplesmente o lugar concedido por São Bernardo à oração individual separadamente da oração comunitária. O assunto pode aqui parecer ninharia ao leitor não familiarizado com a vida monástica. Entendia-se que o monge cisterciense podia passar o tempo em oração contemplativa na Igreja do mosteiro quando as Consuetudines2 prescreviam leitura meditativa ou estudo no claustro. Não é essa a questão. O ponto em foco é saber se era permitido ou não mais um elemento de solitude e separação (temporária) dos irmãos. São Bernardo o permite, embora com hesitação. Os cistercienses eram e talvez sejam a Ordem que tem sempre mais fortemente insistido na vida comum cenobítica. Porém, mesmo no contexto cisterciense, pode São Bernardo declarar:
Senta-te a sós (sede itaque solitarias), nada tenhas com as aglomerações, nada com as multidões ... Ó alma santa, permanece só e guarda-te para Ele somente, entre todos.3
 
O emprego do topos neoplatônico "só com o só" é um tanto fora do comum em Bernardo de Claraval. Apoia-se evidentemente na clássica referência do Evangelho ao Cristo em oração a sós na montanha. E, na mente de Bernardo, refere-se antes de mais nada à solidão interior. O Cristo vem em segredo apenas àqueles que penetraram no aposento interior do coração e fecharam sobre si a porta. E, no entanto, Bernardo acrescenta explicitamente :
Contudo não será perda de tempo separar-te, mesmo fisicamente (corpore), quando puderes fazê-lo de maneira conveniente, especialmente na hora da oração (tempore orationis).(Ibid.)
 
Isso se refere, não a qualquer tempo prescrito para a oração mental, mas aos momentos em que o monge desejará espontaneamente orar em solidão. Deve ser entendido que, conforme a tradição monástica, supõe-se que as ações do mongenão devam ser governadas em seus mínimos pormenores por regulamentações externas, mas que se deve deixar lugar para a "regra de oração" do próprio monge. Isso o levará, em resposta às inspirações da graça, a dar mais tempo à oração do que a Regra em realidade prescreve. Do mesmo modo ele fará livremente mais do que está prescrito na Regra, em matéria de jejum e autodisciplina. O monge tem de ser nisso guiado pela inspiração interior da graça e pela bênção exterior da obediência. As duas coisas podem ser aceitas como a vontade de Deus para omonge ao planejar sua própria vida interior e contemplativa.
Pedro o Venerável, contemporâneo de São Bernardo e Abade de Cluny, foi menos hesitante e até mais explícito do que Bernardo ao incentivar a oração individual solitária. Não só era permitido aos monges das comunidades de Cluny viverem em completa solidão como eremitas, ou reclusos, mas a fortiori os cenobitas podiam dedicar um tempo excepcionalmente longo à oração Ou à meditação em lugares recolhidos fora do conjunto da comunidade. Pedro o Venerável conta-nos em seu De Miraculis (uma espécie de Fioretti Cluniacense) de um certo monge beneditino de seu tempo que "utilizava uma pequenina capela num afastado e alto recanto numa torre, como se fora uma cela, e que amava esse lugar mais do que qualquer outro do mosteiro para a sua oração. Ali permanecia ele dia e noite atento à divina contemplação (divinae theoriae intentas). Pela mente, elevava-se acima de todas as coisas mortais. A todo instante, na companhia dos santos anjos, permanecia, pela visão interior, na presença do Criador.4

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