Silêncio e oração
Fr. Enzo Bianchi, prior da Comunidade Monástica de Bose, Itália
A tradição espiritual e ascética
sempre reconheceu a essencialidade do silêncio para um verdadeiro caminho
espiritual e de oração. “A oração tem como pai o silêncio e como mãe a
solidão”, disse um grande homem espiritual. Só o silêncio, de facto, torna possível
a escuta, isto é, o acolhimento em si não só da Palavra, mas também da presença
daquele que fala. Assim, o silêncio abre o cristão à experiência da inabitação
de Deus: o Deus que procuramos seguindo na fé Cristo ressuscitado, é o Deus que
não é estranho a nós mas habita em nós. Diz Jesus no quarto Evangelho: “Se
alguém me tem amor, há de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e nós
viremos a ele e nele faremos morada” (Jo 14,23). O silêncio é linguagem de
amor, de profundidade, de presença do outro.
Infelizmente, hoje o silêncio é
raro, é a coisa que mais falta ao homem moderno, assoberbado por murmúrios,
bombardeado por mensagens sonoras e visuais, derrubado da sua interioridade,
quase caído longe dela.
É preciso confessar: temos
necessidade do silêncio! Temos necessidade dele de um ponto de vista puramente
antropológico, porque o homem, que é um ser de relação, comunica de modo
equilibrado e significativo apenas graças à relação harmónica entre palavra e
silêncio. Contudo, temos necessidade de silêncio também do ponto de vista
espiritual, como alimento primário da nossa oração e da vida interior. Para o
cristianismo o silêncio é uma dimensão não apenas antropológica, mas teológica:
sozinho no monte Horeb, o profeta Elias ouviu primeiro um vento impetuoso,
depois um terramoto, em seguida um fogo e por fim o “murmúrio de uma brisa
suave” (1 Re 19,12). Ao ouvir esta última, Elias cobriu o rosto com um manto e
colocou-se na presença de Deus. Deus torna-se presente a Elias no silêncio, um
silêncio eloquente. A revelação do Deus bíblico não passa só pela palavra, mas
acontece também no silêncio.
Inácio de Antioquia diz que
Cristo é “a Palavra que procede do silêncio”. O Deus que se revela no silêncio
e na palavra exige a escuta do homem e para a escuta é essencial o silêncio.
Não se trata, por certo, de abster-se simplesmente de falar, mas do silêncio
interior, aquela dimensão que nos devolve a nós próprios, que nos coloca sobre
o plano do ser, diante do essencial. “No silêncio está inserido um maravilhoso
poder de observação, de clarificação, de concentração sobre as coisas
essenciais” (Dietrich Bonhoeffer). É do silêncio que pode nascer uma palavra
aguda, penetrante, comunicativa, sensata, luminosa, ousaria mesmo dizer
terapêutica, capaz de consolar. O silêncio é o guardião da interioridade.
É verdade que se trata de um
silêncio definido tão negativamente como sobriedade e disciplina no falar, até
chegar à abstenção das palavras, mas que passa deste primeiro momento para uma
dimensão interior, isto é, o fazer calar os pensamentos, as imagens, as
revoltas, os juízos, os murmúrios que nascem no coração.
De facto, é “do interior do
coração dos homens que saem os maus pensamentos” (Mc 7,21). É difícil o
silêncio interior, aquele que se joga no coração, lugar de luta espiritual, mas
este silêncio profundo gera caridade, atenção, acolhimento, empatia diante do
outro.
Sim, o silêncio escava no mais
profundo de nós um espaço para fazer habitar o Outro, para deixar permanecer na
sua Palavra, para radicar em nós o amor pelo Senhor; ao mesmo tempo, em ligação
a isto, dispõe-nos à escuta inteligente, à palavra medida, ao discernimento do
coração do outro, daquilo que o queima no seu íntimo e que está encerrado no
silêncio do qual nascem as suas palavras. O silêncio, então aquele silêncio,
suscita em nós a caridade, o amor pelo irmão e, por consequência, a capacidade
de intercessão, de oração pelo outro, bem como a ação de graças pelo encontro
que aconteceu. Assim o duplo mandamento do amor de Deus e do próximo é cumprido
por quem sabe guardar o silêncio. Por isso, Basílio pôde dizer: “O silencioso
torna-se fonte de graça para quem escuta”. Neste ponto, pode repetir-se, sem
receio de cair em mera retórica, a afirmação de E. Rostand: “O silêncio é o
canto mais perfeito, a oração mais alta”. Ao conduzir à escuta de Deus e ao
amor pelo irmão, à caridade autêntica, isto é, à vida em Cristo (e não a um
vazio interior genérico e estéril), o silêncio é oração verdadeiramente cristã
e agradável a Deus. É este o silêncio que chega a nós de uma longa história
espiritual, é o silêncio procurado e praticado pelos hesicastas para obter a
unificação do coração, é o silêncio da tradição monástica finalizado no
acolhimento em si da palavra de Deus, é o silêncio da oração de adoração da presença
de Deus, é o silêncio caro aos místicos de qualquer tradição religiosa e, acima
de tudo, é o silêncio do qual é rica a linguagem poética, é o silêncio que
constitui a própria matéria da música, é o silêncio essencial a qualquer ato
comunicativo.
O silêncio, acontecimento de
profundidade e de unificação, torna eloquente o corpo, conduzindo-nos a habitar
o nosso corpo, a habitar a nossa vida interior, guiando-nos ao habitare secum
tão precioso para a tradição monástica. O corpo habitado pelo silêncio torna-se
revelação da pessoa. O cristianismo contempla Jesus como Palavra feita carne,
mas também como silêncio de Deus: os evangelhos mostram um Jesus que, quanto
mais se adentra na paixão, cada vez mais se cala, entra no silêncio, como
cordeiro sem voz, como aquele que, conhecendo a verdade, sabendo o indizível
fundo da realidade, não pode nem quer trair o inefável com a palavra, mas
guarda-o com o silêncio. Jesus que “não abre a sua boca” mostra o silêncio como
aquilo que é verdadeiramente forte, faz do seu silêncio um ato, uma ação. E
precisamente por isso poderá fazer também da sua morte um ato, um gesto de um
vivente, para que seja claro que por trás da palavra e do silêncio, aquilo que
é verdadeiramente salvífico é o amor que vivifica um e outro.
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