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domingo, 29 de julho de 2012

Criando-os Corretamente

Criando-os Corretamente
São Teófano, O Recluso
O conselho de um Santo sobre a formação de crianças

Índice:
Preâmbulo. Vida de São Teófano, o Recluso.

O Cristão Adulto

Como Começa a Vida Cristã em Nós. Zelo.

Batismo: O Adulto e a Criança

O Pântano: Confiar em Si Própio. Como a Vida Cristã Começa no Sacramento do Batismo. O Batismo para Crianças. O Objetivo de Nosso Batismo.

A Criança em Desenvolvimento

A Centralidade dos Pais. Necessidades Físicas. Alimentos. Movimento. Sentidos.

Formando Atitudes

A Mente. A Vontade. O Coração.


Raramente, um livro do passado chega às nossas mãos. Velho, quer de décadas, séculos, ou até da era pré-cristã. Entretanto, sente-se, às vezes, nele, uma atemporalidade. Apesar da sua época, sua mensagem é mais nova, atual do que as do jornal do dia a dia.
Provérbios, do Velho Testamento, seria um livro desses. Também, A Escada Santa, do século VI d. c., escrito por São João Clímaco.
Agora acho que encontrei outro.
Muitos anos atrás, um monge chamado Teófano, mais conhecido pelos seus escritos sobre oração e combate espiritual, escreveu um livro clássico intitulado The Path To Salvation. Esse livro é um sumário dos ensinamentos de São Teófano sobre a espiritualidade e desenvolvimento cristãos. Inclui um incrível material sobre como criar crianças para que elas venham a ser seguidoras de nosso Senhor Jesus Cristo e mantenedoras da chama dentro de Sua Santa Igreja. Pelos esforços de Lawrence Willians, uma tradução desta parte do The Path To Salvation foi publicada como livro nos primeiros anos da década de 80 (1980). Recentemente, o Sr. Willians procurou a Conciliar Press com o livro disponível para revisão e republicação. Acrescentamos então a divisão em capítulos, os subtítulos, partes introdutórias e intitulamos o trabalho Raising Them Rigth (Criando-os Corretamente).
Duas coisas me impactaram quando li esse material. Primeira: trata-se de sabedoria ortodoxa clássica sobre como formar crianças para Cristo. Segunda: não estou seguro em como responder, pois como pode um recluso monástico saber tanto sobre famílias e crianças?
Acredito que Raising Them Right é profético para o nosso tempo. Sua mensagem é um sopro fresco de esperança e promessa para pais e outros responsáveis por crianças. Que ele seja usado para a formação de incontáveis milhares de nossas crianças, e de nós, adultos, mais completamente à imagem e semelhança de Deus.
Fr. Peter E. Gillquist
Santa Bárbara, Califórnia.


Teófano, o Recluso (1815-94), nasceu em Chernavsk, perto de Orlov, na província central russa de Viatka. Seu nome de batismo foi George Vasilyevich Govorov. Seu pai foi um padre paroquial. Sua mãe, gentil e devota. Depois de freqüentar a escola Clerical, foi mandado a um seminário a fim de ser treinado para o Sacerdócio. Foi um aluno brilhante, terminando entre os primeiros de sua classe. Ainda nesse período de vida, seus professores descreveram-no como "disposto para a solicitude, gentil e silencioso." Depois do seminário, estudou quatro anos na Academia Teológica de Kiev. Nessa cidade, visitou as Grutas da Lavra Kievo-Pechersk (berço do monaquismo russo) e recebeu impressões duradouras da vida monástica.
Depois de graduar-se na academia, Teófano fez os votos monásticos e foi ordenado Presbítero. Seu grande preparo acadêmico fez com que avançasse rapidamente. Primeiro, em 1841, tornou-se professor principal da Academia Eclesiástica de São Petersburgo. Finalmente, foi feito Reitor do seminário Olenetz, em 1855, e da Academia São Petersburgo, em 1857.
Em 1847, Teófano foi enviado para servir durante sete anos na Palestina, Constantinopla e no Oriente Próximo como membro da Missão Ortodoxa na Terra Santa. Durante esse período, aprendeu grego e, através da leitura de muitos livros espirituais, encontrados nas bibliotecas do Oriente Próximo, tornou-se mais familiarizado com os Padres. Os últimos escritos de Teófano derivam, fortemente, desse contexto patrístico.
A 1º de junho de 1859, Teófano foi sagrado bispo. Serviu quatro anos na Cátedra de Tambov. Depois, transferido para a diocese de Vladimir. Dois anos após a sagração de Teófano, São Tikon de Zadonsk foi canonizado. Desde sua infância, o bispo Teófano nutriu um amor especial por São Tikon. A partir da canonização deste, conscientemente, começou a imitar seu exemplo de ascetismo.
Apesar de ser um bispo bondoso, um bom administrador e um poderoso pregador, Teófano tornou-se, progressivamente, enfastiado com o serviço público. Desejava uma vida de oração e reclusão. Em 1866, resignou ao trabalho ativo de administração da Diocese. Depois de pregar sua mensagem final para uma enorme multidão na Catedral de São Vladimir, retirou-se para um mosteiro remoto, escondido na grande floresta em Vishen. Aí permaneceu, em reclusão, até a sua morte vinte e oito anos depois.
Teófano foi feito Abade do mosteiro. Durante os primeiros seis anos de sua vida ali, teve participação ativa nos serviços monásticos. No entanto, no início de 1872, Teófano tornou-se um recluso. Manteve-se estritamente recluso, nunca saindo de sua cela, não vendo ninguém a não ser o confessor e o superior de seu mosteiro. Sua vida era uma vida de completa solidão. Como recluso pelo resto de sua vida, Teófano devotou-se à oração e ao ascetismo, à correspondência e trabalhos literários.
Sua disciplina pessoal era assombrosa. Sua alimentação diária consistia em nada mais que o rudimentar essencial: chá e uns poucos pedaços de pão. Durante os períodos de não jejum, um pouco de leite e um ou dois ovos. O mínimo suficiente para manter a saúde. Sua cela tinha dois espaços mobiliados muito simplesmente, incluindo uma pequena capela doméstica com tão somente os itens litúrgicos básicos necessários.
Durante os últimos anos de sua vida, celebrou a Sagrada Liturgia diariamente em sua capela, sozinho, sem nenhum auxiliar. Rezava continuamente a oração do coração e empenhou-se em se aperfeiçoar na prática da "oração da mente no coração."
Em acréscimo aos seus trabalhos ascéticos, gastava horas, todos os dias, correspondendo-se com pessoas de toda a Rússia. Recebia de vinte a quarenta cartas por dia e respondia a todas, fielmente. Apesar de nunca ter encontrado frente a frente as pessoas, com quem se correspondeu, deu orientações perspicazes para seus filhos espirituais através dessas cartas. Também ganhou com elas uma compreensão dos problemas contemporâneos que, de outra forma, lhe seria negada por seu estilo de vida recluso. Seu discernimento sobre situações contemporâneas e sobre a vida era, por natureza , profético. Uma boa parte dessa correspondência foi salva e compilada, encontrando-se, parcialmente, publicada em dez volumes. A maravilhosa antologia espiritual The Art Of Prayer deriva, principalmente, dessa correspondência.
Teófano levou com ele, para a reclusão, um conjunto de literatura espiritual, incluindo desde os primeiros padres até a teologia e filosofia contemporânea. Os pensamentos e os espíritos dos Padres preencheram seus conselhos e escritos. Gastou muito tempo traduzindo várias obras espirituais para o russo, tornando-as acessíveis àquele povo . Não foi só tradutor; escreveu muitos trabalhos ascéticos. Especialmente importantes são seus ensinamentos sobre o uso da "oração do coração." Escreveu material teológico e catequético num nível simples, básico, compreensível aos menos educados. Também escreveu comentários sobre as epístolas de São Paulo.
Por anos e anos, os fiéis da Rússia (e outros ao redor do mundo, quando seus trabalhos escritos tornaram-se conhecidos) reconheceram em Teófano um verdadeiro homem cheio de espírito e uma luz-guia na área da espiritualidade pessoal. Ainda, há pouco tempo, foi, final e oficialmente, reconhecido pela sua santidade de vida. Foi-lhe dado um lugar de honra especial na Igreja. Em um ato oficial do Sínodo local da Igreja Ortodoxa Russa, a 6 de junho de 1988, o bispo Teófano, o Recluso, juntamente com outros oito fiéis ortodoxos russos, foi oficialmente canonizado.
Que a vida de São Teófano seja um exemplo para nós todos!

É possível descrever os sentimentos e inclinações que um Cristão deve ter, mas isso está muito longe de ser tudo que é necessário para o direcionamento de alguém para a salvação! A coisa realmente importante para nós é uma vida real no espírito de Cristo. Porém, simplesmente menciona-se isso e quantas perplexidades afloram, quantas orientações são necessárias como resultado, quase a cada passo!
É verdade que se pode saber o objetivo final do homem: Comunhão com Deus. E pode-se descrever o caminho para isso: Fé, andar de acordo com os mandamentos, com a ajuda da graça divina. Precisa-se somente dizer em adição: Aqui está o caminho; comece a andar!
Isso é dito facilmente, mas como fazê-lo? Para a maioria, o verdadeiro desejo de andar, está faltando. A alma, atraída por uma outra paixão, repele, teimosamente, qualquer força compelidora e qualquer chamado! Os olhos desviam-se de Deus e não querem olhar para Ele. A lei de Cristo não vai de acordo com o gosto de alguém. Não há disposição sequer para ouvi-la.
Pode-se perguntar: Como alguém atinge o ponto no qual o desejo de andar para Deus, no caminho de Cristo, nasce? Que faz alguém para que essa lei imprima-se no coração, e agindo de acordo com essa lei, aja como de si próprio, não coagido, como se essa lei não estivesse simplesmente nele, mas sim como se procedesse dele mesmo?
Suponha que alguém virou-se para Deus. Suponha que esse alguém chegue a amar Sua lei. É isso o verdadeiro dirigir-se para Deus, o verdadeiro andar no caminho da lei de Cristo? Ter-se-á sucesso somente porque desejamos que assim seja? Não. Além de desejo, deve-se ter a força e o conhecimento para agir. Deve-se ter sabedoria ativa.
Qualquer um que entre no verdadeiro caminho de agradar a Deus, ou quem comece com a ajuda da graça, a empenhar-se na direção de Deus no caminho da lei de Cristo, será, inevitavelmente, ameaçado pelo perigo de perder o rumo nas encruzilhadas. De perder-se e perecer, imaginando-se salvo. Essas encruzilhadas são inevitáveis por conta das inclinações pecaminosas e da desordem das faculdades presentes no ser humano decaído, e que são capazes de apresentar as coisas sob uma falsa luz, para lograr e destruir o homem.
A isso é acrescentada a adulação de Satã, que é resistente a separar-se de suas vítimas. Quando vê alguém de seus domínios ir para a luz de Cristo, persegue-o e coloca armadilhas de todos os tipos para recapturá-lo. Muitas vezes, de fato, consegue!
Conseqüentemente, é necessário para alguém que já tem o desejo de andar no caminho do Senhor, que lhe sejam mostrados todos os desvios possíveis nesse caminho, de maneira que o viajante, sendo antecipadamente prevenido, tenha a possibilidade de ver os perigos que possam ser encontrados, e saiba como evitá-los.
Essas considerações gerais, inevitáveis para todos os que estão no caminho da salvação, tornam indispensáveis certas regras orientadoras da vida cristã. Por essas regras, pode ser determinado como obter-se o desejo salvífico da comunhão com Deus e o zelo para manter esse desejo. Como alcançar Deus sem infortúnio no meio de todas as encruzilhadas que, nesse caminho, podem ser encontradas a cada passo. Em outras palavras, como começar a viver a vida Cristã, e, tendo começado, como aperfeiçoar-se nela.
A semeadura e desenvolvimento da vida Cristã, são diferentes da semeadura e desenvolvimento da vida natural, devido ao caráter especial da vida Cristã e suas relações com nossa natureza. Um homem não nasce Cristão, mas torna-se Cristão depois do nascimento. A semente de Cristo cai no solo de um coração que já está batendo.
O homem como nascido naturalmente, é machucado e hostilizado pelas exigências do Cristianismo. O começo de uma vida verdadeiramente Cristã em um homem é como um descanso, uma recreação, a aquisição de novas forças de uma nova vida, enquanto que, por exemplo, numa planta, o início da vida é o surgimento de um broto na semente; um despertar daquilo que parece ser forças dormentes.
Além disso, suponha-se que o Cristianismo é recebido como uma lei, em que é tomada uma resolução de viver-se uma vida Cristã. Essa semente de vida (a resolução) não é circundada num homem por elementos a ele favoráveis. Além disso, o homem todo, seu corpo e sua alma, permanece inadaptado à nova vida, insubmisso ao jugo de Cristo. Assim, desse momento em diante, começa no homem uma labuta suarenta, um trabalho para educar todo o seu ser, todas as suas faculdades, de acordo com os padrões Cristãos.
É por isso que, enquanto nas plantas, o crescimento é o desenvolvimento gradual de faculdades, de maneira fácil e inconstrita, num Cristão é uma guerra consigo próprio, envolvendo muito trabalho, intenso e doloroso. O Cristão tem que dispor suas faculdades direcionadas, a algo para o qual não tem inclinação. Como um soldado, deve tomar cada palmo de solo, mesmo do seu próprio, e dos seus inimigos, por meio de batalhas, com a espada de duplo fio, forçando-se e opondo-se a si mesmo.
Finalmente, depois de longa labuta e exortações, os princípios Cristãos surgem vitoriosos, reinando sem oposição. Penetram na composição completa da natureza humana, dela deslocando demandas e inclinações hostis a eles próprios. Colocando-a num estado de impassividade e pureza, fazendo-a merecedora da bem aventurança dos puros de coração: Ver Deus neles próprios na mais sincera comunhão com Ele.
Tal é o lugar em nós da vida Cristã. Essa vida tem três estágios que podem ser chamados de:
1. Virar-se para Deus.
2. Purificação ou auto-correção.
3. Santificação.
No primeiro estágio, o homem vira-se das trevas para a luz, do domínio de Satã para Deus. No segundo, limpa a câmara de seu coração de toda impureza, de maneira a receber Cristo, o Senhor que está vindo para ele. No terceiro, o Senhor vem, toma Sua habitação no seu coração e comunga com ele. Esse é o estado da bem aventurada comunhão com Deus; objetivo de todos os trabalhos e esforços ascéticos.

Devemos tornar claro, para nós mesmos, quando e como a verdadeira vida Cristã começa, de modo a vermos se temos dentro de nós o início dessa vida. Se não a temos, devemos aprender como iniciá-la, já que isso depende de nós.
Ainda não é um sinal decisivo da verdadeira vida em Cristo, se alguém se chama de Cristão e pertence à Igreja de Cristo. "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos Céus" "...porque nem todos os que são de Israel são israelitas" (Mt. 7:21; Rm. 9:6). Alguém pode ser contado entre os Cristãos e não ser Cristão. Isso é sabido por todos.
Há um momento, e é um momento muito notável, que é marcado profundamente no curso de nossa vida, quando uma pessoa começa a viver de maneira Cristã. Esse é o momento quando começa a estar presente na pessoa as características distintivas da vida Cristã. Vida Cristã é zelo e força para permanecer em comunhão com Deus, por meio de ativo atendimento de Sua santa vontade, de acordo com nossa fé em nosso Senhor Jesus Cristo e com auxílio da graça de Deus, para a glória de Seu santíssimo nome.
A essência da vida Cristã consiste em comunhão com Deus, em nosso Senhor Jesus Cristo, em uma comunhão com Deus que usualmente no início, está escondido não só dos outros, mas de nós próprios. O testemunho desta vida que é visível, ou pode ser sentida em nós, é o ardor do zelo ativo em agradar só a Deus de uma maneira Cristã, com total sacrifício e ódio de tudo aquilo que se opõe a isso. Assim, quando esse zelo ardoroso começar, a vida Cristã terá o seu começo. A pessoa, na qual esse ardor é constantemente ativo, é uma pessoa que está vivendo de maneira Cristã.
Nesse ponto, devemos fazer uma pausa e prestar mais atenção nessa característica distintiva.
"Vim lançar fogo na terra," diz o Salvador, "e que mais quero, se já está aceso?" (Lc. 12:49). Ele aqui está falando da vida Cristã, e diz isso porque o testemunho visível dessa vida é o zelo por agradar a Deus que está no coração pelo espírito de Deus. Isso é como fogo, porque, como este devora o material no qual se propaga, assim também o zelo pela vida em Cristo, devora a alma que o recebe. Da mesma forma que, durante o período do incêndio, as chamas tomam conta de todo o edifício, também o fogo do zelo, uma vez recebido, abarca e preenche todo o ser de um homem.
Em outra passagem, o Senhor diz, "... cada um será salgado com fogo" (Mc. 9:49). Essa é também uma indicação do fogo do espírito que, em seu zelo, penetra todo nosso ser. Assim como sal, penetrando em matéria decomponível, preserva a mesma de ser decomposta, também o espírito do zelo, penetrando todo nosso ser, bane o pecado que corrompe nossa natureza, tanto no corpo como na alma. Bane o pecado, mesmo dos últimos lugares onde estava instalado em nós, salvando-nos assim do vício moral e da corrupção.
O apóstolo Paulo comanda: "não extingais o espírito (1Ts. 5:19) e não sejais vagarosos no cuidado: sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor (Rm. 12:11). Comanda isso para todos os Cristãos, de modo que possamos nos lembrar que o fervor do espírito, ou empenho ativo, é um atributo inseparável da vida Cristã.
Em outra passagem, o Apóstolo fala de si próprio assim: "... esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus" (Fp.3:13-14). E para outros ele diz: "correi de tal maneira que o alcanceis" (1Co. 9:24).
Isso significa que, na vida Cristã, o resultado do fervor do zelo é uma certa rapidez e vivacidade de espírito, com as quais as pessoas executam as obras agradáveis a Deus, desconsiderando-se, forçando-se e, voluntariamente, oferecendo como um sacrifício para Deus, todos os tipos de trabalhos, sem poupar-se.
Tendo um embasamento sólido em tal entendimento, pode-se facilmente concluir que um atendimento frio das regras da Igreja, como a rotina nos negócios, que é estabelecida pela nossa mente calculadora, ou como comportamento correto e digno e honestidade de conduta, não são indicadores de que a verdadeira vida Cristã esteja presente em nós.
Tudo isso é bom; porém, como não carrega em si o espírito de vida em Cristo Jesus, não tem absolutamente nenhum valor perante Deus. Essa coisas são então como as estátuas sem alma. Bons relógios também funcionam bem, mas quem dirá que existe vida neles? Dá-se o mesmo com o comportamento humano. "Eu sei as tuas obras, que tens nome de que vives, e estás morto" (Ap.3:1).
Essa boa ordem na conduta de alguém pode, mais do que qualquer outra coisa, conduzir esse alguém ao logro. Seu verdadeiro significado (da boa ordem da conduta) depende da disposição interna desse alguém, pela qual é possível que existam desvios significativos das reais justiça e retidão, nos atos justos e retos praticados.
Assim, enquanto refreando-se externamente de atos pecaminosos, pode-se ter uma atração por eles, ou um gosto vindo deles no coração. Igualmente, praticando-se atos de justiça externamente, pode-se não ter nesses atos o coração. Só o zelo verdadeiro quer ao mesmo tempo, em que faz o bem, em sua totalidade e pureza, perseguir o pecado em suas menores formas. Procura o bem como seu pão cotidiano e combate o pecado como a um inimigo mortal.
Um inimigo odeia o inimigo não só pessoalmente, mas também seus parentes e amigos, seus pertences, sua cor favorita e qualquer coisa em geral que possa lembrá-lo. Assim também, o zelo verdadeiro em agradar a Deus persegue o pecado em suas menores lembranças ou marcas, em sua zelosidade pela pureza perfeita. Se isso não está presente, quanta impureza pode esconder-se no coração!
Que sucesso se pode esperar quando não existe um zelo entusiástico pelo agradar Deus de maneira Cristã? Se surge algo que não dê trabalho, está-se pronto para fazê-lo; mas assim que um pequeno trabalho extra é exigido, ou então algum tipo de auto-sacrifício, imediatamente recusa-se, porque se é incapaz de fazê-lo. Portanto, não existe nada em que se possa confiar naquilo que move alguém para bons atos: a autocomiseração minará todas as fundações. E se qualquer outro motivo, além do já mencionado, surgir como causa dos bons atos, ele tornará esses atos, malignos.
Aqueles que expiavam por Moisés pouparam-se, porque tiveram medo. Os mártires, voluntariamente, foram para a morte porque estavam abrasados por um fogo interior. Um zeloso verdadeiro não faz só o que está de acordo com a lei, mas também o que foi aconselhado, seguindo cada boa sugestão que tenha sido impressa secretamente em sua alma. Faz não só aquilo que lhe foi dado fazer, mas age também como adquiridor de coisas boas. Está inteiramente envolvido com a única coisa boa que é sólida, verdadeira e eterna.
São João Crisóstomo diz: "Devemos ter fervor e muito fogo na alma em todo e qualquer lugar, preparado para estar armado contra a própria morte. De outro modo, é impossível receber o reino" (Homilia 31 sobre os Atos dos Apóstolos).
O trabalho de piedade e comunhão com Deus é um trabalho muito árduo e de muita dor, especialmente no início. Onde podemos achar força para suportar todos esses esforços? Com a ajuda da graça de Deus, podemos achá-la no zelo profundamente sentido.
Um comerciante, um soldado, um juíz ou um estudante têm trabalhos a fazer, os quais são cheios de cuidados e dificuldades. Como eles se sustentam no meio de seus trabalhos? Por entusiasmo e amor pelos seus trabalhos. Também, da mesma forma, não é possível sustentar-se com nada diferente no caminho da piedade. Sem entusiasmo e amor, estamos servindo a Deus num estado de morosidade, aborrecimento e falta de interesse.. Um animal, como a preguiça, também se move, mas com dificuldade, enquanto que para a veloz gazela ou para o ágil esquilo, o mover-se e movimentar-se é prazeroso. O zelo no agradar a Deus é o caminho para Deus que é cheio de consolações e que dá asas ao espírito. Sem zelo pode-se arruinar tudo.
Deve-se fazer de tudo para a glória de Deus, desafiando o pecado que habita em nós. Se não for assim, faremos tudo somente por hábito, porque parece "próprio," porque é assim que sempre foi feito, ou porque é do jeito que os outros fazem. Devemos fazer tudo que podemos, do contrário faremos algumas coisas e negligenciaremos outras, isso sem contrição nenhuma, ou mesmo sem nem ter consciência do que omitimos. Devemos fazer tudo com atenção e cuidado, como se todas fossem nossa tarefa principal. Do contrário, faremos tudo simplesmente como ocorrer.
Assim, está claro que, sem zelo, um Cristão é um pobre Cristão. É entorpercido, fraco, sem vida, nem quente nem frio, e esse tipo de vida, não é vida em hipótese alguma. Sabendo disso, empenhemo-nos em manifestarmo-nos como verdadeiros zeladores dos atos bons, de modo que estejamos de fato agradando a Deus, sem manchas nem máculas, ou qualquer outra dessas coisas.
Portanto, um testemunho verdadeiro da vida Cristã é o fogo do zelo ativo pelo agradar a Deus. Chega-se agora à questão: Como esse fogo é aceso? Quem o produz?
Esse zelo é produzido pela ação da graça. No entanto, não ocorre sem a participação de nossa vontade livre. A vida Cristã não é vida natural. Esse deveria ser o modo pelo qual a vida começa: como numa semente, o crescimento se inicia quando os nutrientes e o calor penetram no broto que está escondido dentro dela. Assim, a força de vida restauradora aparece. Do mesmo modo, também em nós, a vida Divina começa quando o Espírito de Deus penetra no coração e estabelece lá o início de vida de acordo com o Espírito. Limpa e junta, em um só, todos os traços obscurecidos e quebrados da imagem de Deus.
Um desejo e uma busca livre surgem (por uma ação de fora); então a graça desce (através dos Mistérios) e, unindo-se com nossa liberdade, produz um zelo poderoso. Mas não permitamos que ninguém pense que pode ele próprio dar nascimento a tal poder de vida. Deve-se orar por isso e estar pronto para recebê-lo. O fogo do zelo com força, isso é a graça do Senhor. O Espírito de Deus, descendo no coração, começa a agir nele com zelo que é, ao mesmo tempo, consumidor e totalmente ativo.
Para alguns aparecem os pensamentos: é necessário existir essa ação da graça? Não podemos, realmente, praticar bons atos por nós próprios? Afinal de contas, praticamos esse ou aquele bom ato, e se vivermos mais, praticaremos mais alguns. É, talvez, muito rara a pessoa que não levante questões como essas. Já outros dizem que, por nós próprios, não podemos fazer nada de bom. O que se trata aqui, não é só a questão de bons atos isolados, mas de dar renascimento a nossa vida completa, para uma nova vida, para a vida na sua integralidade, para uma vida que pode conduzir à salvação.
De fato, não é difícil fazer-se algo, que é até mesmo muito bom, como os pagãos também o fazem. Deixemos que alguém, intencionalmente, defina para si próprio o rumo de fazer o bem continuadamente, e que defina a ordem desse caminho, segundo o que é indicado nas palavras de Deus, e que não seja só por um mês ou por um ano, mas pela sua vida toda, e coloque como regra permanecer nessa ordem sem flutuações. Então, se ele permanecer fiel a isso, permitamos que se gabe de sua força. Caso contrário, é melhor que cale sua boca.
Quantos casos existiram no passado e no presente de um autoconfiante começo e construção de uma vida Cristã! E todos terminaram e continuam terminando em nada.
O homem constrói um pouco de sua nova ordem de vida, e joga isso fora. Como poderia ser diferente? Não há força. É característico somente da força eterna de Deus sustentar-nos imutáveis em nossa disposição, no meio das incessantes ondas das mudanças temporais. Por isso, devemos ser preenchidos com abundância com essa força. Devemos pedir por ela e recebê-la em ordem, e ela nos levantará e nos retirará da grande agitação da vida temporal.

Passamos agora a nalisar e ver quando é que esses pensamentos de auto-satisfaçao ocorrem. Quando um homem está em uma condição calma, quando nada o está perturbando, nada o está logrando ou conduzindo-o ao pecado, então ele está pronto para todo tipo de vida santa e pura. Mas assim que o movimento de uma paixão ou uma tentação chega, onde estão todas as promessas? Um homem não diz com freqüência, a si próprio, quando conduz uma vida desregrada: "Daqui em diante eu não farei mais isso?" Mas logo que as paixões se tornem novamente sedentas, um novo impulso se levanta, e de novo ele se acha nos pecados!
O Pântano: Confiar em Si Própio
É ótimo refletir sobre o suportar ofensas quando tudo está indo de acordo com nossa vontade, e não contra nosso amor próprio. De fato, nesse caso seria muito estranho ter-se um sentimento de ofensa ou de ira, como os sentimentos aos quais costumam se entregar os outros. Mas encontremo-nos na condição oposta, e então um simples olhar..., nem mesmo uma palavra é necessária..., tira-nos completamente de nós próprios, transtornando-nos completamente!
Então, tu bem podes sonhar, confiando em ti próprio, em como levar uma vida Cristã sem nenhum auxílio do alto... enquanto tua alma estiver calma. Mas quando o mal que jaz nas profundezas do coração é levantado como poeira pelo vento, então em tua própria experiência tu encontrarás a condenação de tua própria presunção.
Quando pensamento após pensamento, desejo após desejo, um pior do que o outro, começam a perturbar a alma, então todo mundo esquece de si próprio e, involuntariamente, grita com o profeta: .".. as águas entraram até a minha alma. Atolei-me em profundo lamaçal onde não se pode estar em pé. Entrei na profundeza das águas onde a corrente me leva" (Sl. 69:1-2). "Oh! Salva-nos, Senhor, nós Te pedimos; ó Senhor, nós Te pedimos, prospera" (Sl. 118:25).
Freqüentemente acontece da seguinte maneira: Alguém sonha em permanecer no bem, confiando em si próprio, porém um rosto ou uma coisa vêm à imaginação. O desejo nasce, a paixão se levanta; o homem é atraído e cai. Depois disso, precisaria somente olhar para si próprio e dizer: Como foi ruim! Mas, a seguir, surge uma oportunidade para distração, e de novo esse homem está pronto para esquecer-se.
De novo, alguém te ofendeu, começa uma batalha, há recriminações e julgamentos. Algum meio injusto, mas conveniente de olhar para a situação, apresenta-se à tua mente. Tu aceita-o. Tu diminuis alguém, espalha a versão falsa para outros, confunde um outro. Depois de tudo isso tu te gabas da possibilidade de levar uma vida santa por conta própria, sem auxílio especial do alto. Onde estava tua força então? .".. na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca." (Mt.:26,41). Tu vês o bem e fazes o mal: "Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço" (Rm. 7:19). Estamos em cativeiro. Liberta-nos, ó Senhor!
Um dos primeiros estratagemas do inimigo, contra nós, é a idéia de confiarmos em nós próprios: isso é, se não renunciando-a, pelo menos não sentindo a necessidade do auxílio da graça. O inimigo nos diz: "Não ide para luz onde querem vos dar uma espécie de novos poderes. Vós já sois bons como sois!" O homem permite-se confiar nesse conselho e despreocupa-se. Ao mesmo tempo, o inimigo está jogando uma pedra (alguma coisa desagradável) em alguns. Em outros, está encaminhando para um lugar escorregadio (o logro das paixões); para outros ainda ele está cobrindo com flores um nariz fechado (boas condições enganosas). Sem olhar em torno, o homem empenha-se em ir mais e mais adiante. Não percebe que está se afundando cada vez mais, até que, finalmente, chega às grandes profundezas do mal, ao limiar do próprio inferno. Não deveria alguém, nesse caso, gritar para ele como para o primeiro Adão: "Homem, onde está tu? aonde foste?" Este grito é a ação da graça, a qual compele um pecador a olhar para si próprio pela primeira vez.
Por isso, se tu desejas começar a viver de modo Cristão, busca a graça. No minuto em que a graça desce e junta-se à tua vontade é o minuto em que a vida Cristã nasceu em ti: poderosa, firme e enormemente frutuosa.
Onde e como obter e receber a graça que dá o início da vida? A aquisição de graça e a santificação de nossa natureza por seu meio é realizada nos mistérios. Neles, nós nos oferecemos à ação de Deus, ou apresentamos a Deus nossa própria natureza sem valor. Ele, por sua ação, transforma-a. Foi agradável a Deus, de maneira a derrubar nossa mente orgulhosa, no início dessa verdadeira vida, esconder seu poder debaixo da cobertura de simples materialidade. Como isso acontece, não compreendemos, mas a experiência de todo Cristianismo testemunha que isso não acontece de outra maneira.
Os mistérios que, primariamente, se referem ao começo da vida Cristã são o batismo e o arrependimento. Portanto, as regras que dizem respeito ao começo de vida de um modo verdadeiramente Cristão, são expostas primeiro sob o título de batismo, e então sob o arrependimento.
Batismo é o primeiro mistério (sacramento) do Cristianismo. Ele torna um homem Cristão digno de lhe serem concedidos os dons da graça, também através de outros mistérios. Sem o batismo não se pode entrar no mundo Cristão e tornar-se um membro da Igreja. A sabedoria pré-eterna fez-se uma casa na terra, e a porta de entrada nessa casa é o mistério do batismo. Através dessa porta, as pessoas não só entram na casa de Deus mas, nela, também são vestidas com uma túnica digna desse batismo. Recebem um novo nome e um sinal que é impresso em todo o ser daqueles que estão sendo batizados, por meio do qual, mais tarde, tanto os seres celestes quanto os terrestres, os reconhecerão e os distinguirão.
"Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é" (II Co. 5:17), ensina o Apóstolo! Esta nova criatura torna-se Cristã no batismo. Das fontes batismais emergem homens completamente diferentes do que entraram. Como a luz é para as trevas, como a vida é para a morte, assim é o homem batizado oposto ao homem não batizado.
Concebido em iniqüidades, nascido em pecado, um homem, antes do batismo, carrega em si próprio todo o veneno do pecado, com todo o peso de suas conseqüências. Ele está em posição de desfavor de Deus, e é por natureza um filho da ira. Está arruinado, desordenado em si mesmo em relação às suas partes e forças que estão dirigidas, principalmente, para a multiplicação do pecado. Está em sujeição à influência de Satã, que age sobre ele com poder, por conta do pecado que nele habita. Como resultado de tudo isso, depois da morte ele é sem falha a criança do inferno, onde deve ser atormentado junto com seu príncipe e seus auxiliares e servos.
O batismo nos livra de todos esses males. Ele tira a maldição pelo poder da Cruz de Cristo e devolve as bênçãos. Aqueles que são batizados são as crianças de Deus, como o Senhor, Ele próprio, deu a elas o direito de ser: E, se nós somos filhos, somos herdeiros também, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo" (Rm. 8:17).
Todos esses são privilégios e dons espirituais externos. Mas o que acontece internamente? A cura da aflição e injúria do pecado. O poder da graça penetra no interno do ser e lá restaura a ordem divina em toda a sua beleza. Ela trata da desordem na estrutura e relacionamento das forças e partes, assim como muda a principal orientação do ser para si próprio em orientação para Deus, para agradar a Deus aumentando os bons atos desse ser.
Assim, o batismo é um renascimento ou um novo nascimento que coloca o homem em uma condição renovada. O apóstolo Paulo compara todos os batizados com o Salvador ressuscitado, dando-nos a compreensão que eles também têm a mesma natureza radiosa em sua renovação, como teve a natureza humana de nosso Senhor Jesus Cristo, através de Sua ressurreição em glória (Rm. 6:4).
Como a orientação de atividade numa pessoa batizada é modificada, pode ser constatada nas palavras do mesmo apóstolo, que diz, em outra passagem, que eles já "não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou" (II Co. 5:15). Pois, quanto a ter morrido, de uma vez, morreu para o pecado, mas, quanto a viver, vive para Deus" (Rm. 6:10) "... fomos sepultados com Ele pelo batismo na morte" (Rm. 6:4) "... que o nosso homem velho foi com Ele crucificado, para que o corpo de pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado" (Rm. 6:6).
Assim, a atividade completa de uma pessoa pelo poder do batismo, é desviada de si própria e do pecado para Deus e a justiça.
São remarcáveis as palavras do Apóstolo: "...para que não sirvamos mais ao pecado" (Rm. 6:6), bem como suas outras palavras: "Porque o pecado não terá domínio sobre vós" (Rm. 6:14). Isso nos dá o entendimento que o poder que, em nossa natureza desordenada e decaída, nos dirige para o pecado, não é inteiramente exterminado no batismo, mas é colocado em uma condição na qual não tem poder sobre nós, não tem domínio sobre nós e nós não o servimos. Mas ele ainda está em nós, vive e age, só não como nosso mestre e senhor. A primazia daí em diante pertence à graça de Deus e à alma que, conscientemente, dá-se a ela.
São Diadoque, explicando o poder do batismo, diz que, antes do batismo, o pecado habita no coração e a graça age de fora, mas, após o batismo, a graça assenta-se no coração e o pecado nos atrai de fora. Ele é banido do coração como um inimigo de uma fortaleza e instala-se externamente em partes do nosso corpo, de onde age por meio de ataques em um estado fragmentado. É por isso que existe um tentador constante, um sedutor, mas não mais um mestre; ele perturba e alarma, mas não comanda (Philokalia, parte 4).
Assim, a nova vida nasceu no batismo!
Agora, nossa atenção será dirigida a analisar como a vida Cristã começa através do batismo naqueles que foram batizados em criança e como isso ocorre. Nesse caso, o começo da vida Cristã é posto em ordem de maneira especial, que decorre do relacionamento da graça com a liberdade.
Tu já sabes que a graça desce sobre o livre desejo e busca, e que, somente por mútua cooperação desses dois elementos, é que é iniciada a nova vida de graça concedida, que vai de acordo tanto com a graça quanto com a natureza da pessoa livre. O Senhor doa graça livremente. Contudo, ele pede que um homem a procure e receba-a com desejo, dedicando-se inteiramente a Deus.
O preenchimento dessa condição no arrependimento e no batismo de adultos é claro. Mas como é o preenchimento dessa condição no batismo de crianças? Uma criança não tem o uso da razão e liberdade. Conseqüentemente, ela não pode preencher, para o início da vida Cristã, por sua conta, o desejo de se dedicar a Deus. No entanto, essa condição deve ser absolutamente preenchida. O modo particular pelo qual a vida (cristã) começa no caso de batismo de crianças depende de como essa condição é preenchida.
A graça desce sobre a alma de uma criança e nela produz exatamente os mesmos resultados, como se sua liberdade tivesse tido participação nisso, mas, sob a condição de que, no futuro, a criança que, então não estava cônscia de si própria e por isso não agiu pessoalmente, quando chegar à consciência, deseje voluntariamente dedicar-se a Deus, receba por sua própria vontade a graça que tem se mostrado em atividade nela, alegre-se que isso exista, agradeça que tal tenha sido feito para ela, e confesse que se, no momento de seu batismo, tivesse recebido entendimento e liberdade, não teria agido de outra maneira e não teria desejado outra coisa.
Para o bem dessa futura livre dedicação de si própria a Deus, e a vinda conjunta de liberdade e graça, a graça divina dá à criança tudo e, mesmo sem a participação dela, produz nela tudo que é natural para a graça produzir, com a promessa que o desejo essencial e sua auto-dedicação a Deus será feita sem falha. Esta é a promessa que os padrinhos fazem, quando eles declaram a Deus diante da Igreja que essa criança, quando chegar à consciência, mostrará precisamente aquele uso da liberdade que é demandado para se obter graça, tomando sobre si próprios a obrigação de fato, de trazer para esse estado a criança de quem são padrinhos.
Assim, através do batismo, a semente da vida em Cristo é colocada na criança e passa nela a existir. Está lá, apesar de parecer não existir: age como uma força educativa na criança. Vida espiritual, concedida pela graça do batismo, na criança, torna-se propriedade do homem e é manifestada em sua forma completa em concordância não só com a graça, mas, também, com o caráter da criatura racional a partir de quando, essa criatura, atingindo a consciência, dedique-se por sua própria vontade a Deus e aproprie-se do poder da graça que está em si, recebendo-a com desejo, alegria e gratidão. Até esse momento (anterior à consciência), a verdadeira vida Cristã está ativa na criança, mas como se não fosse do seu conhecimento, age nela mas como se ainda não lhe pertencesse. A partir do minuto de sua consciência e escolha, torna-se sua, não só pela graça mas, também, pela liberdade.
Por causa desse intervalo mais prolongado, ou menos entre o batismo e a dedicação de alguém a Deus, o início da vida Cristã, através da graça do batismo na criança, é alargado, por assim dizer, em um período indefinido de tempo, durante o qual a criança amadurece e é formada como um cristão na Santa Igreja no meio de outros cristãos, como foi formada, corporeamente, no ventre de sua mãe.
Medite, ó leitor, um pouco mais sobre esse ponto. Para nós será absolutamente necessário definir como pais, padrinhos e educadores devem se comportar em relação à criança batizada, que lhes é confiada pela Santa Igreja do Senhor.
É mais do que óbvio que, após o batismo da criança, uma questão muito importante coloca-se diante dos pais e padrinhos: Como conduzir o batizado de modo a que, quando atinja a consciência, venha a reconhecer as forças doadoras de graça internas a ele, aceitando-as com um desejo alegre, junto com as obrigações e modo de vida que elas exigem? Essa questão coloca-nos face a face com o modo Cristão de educação de crianças, ou com a educação que está de acordo com as demandas da graça do batismo, e que tem como objetivo a preservação dessa graça.
De maneira a deixar claro como se deve agir em relação a uma criança batizada, com esses objetivos em mente, devemos lembrar a idéia acima mencionada: a graça recobre o coração e nele habita quando há nesse coração um movimento de afastar-se do pecado e virar-se para Deus. Se essa atitude é manifestada em atos, passam a ser concedidos todos os outros dons da graça e todas as características de alguém que esteja habitando na graça: o favor de Deus, a co-herança com Cristo, o permanecer fora da esfera de Satã, fora do risco de ser condenado ao inferno. Assim que esta atitude da mente e do coração diminui ou é perdida, imediatamente, o pecado começa de novo a possuir o coração, e, através do pecado, as amarras de Satã são postas sobre o indivíduo, e o favor de Deus e a co-herança com Cristo são-lhe retiradas. A graça numa criança enfraquece e sufoca o pecado, mas este pode de novo voltar à vida e crescer, se lhe são dados alimentos e liberdade.
Por isso, a atenção total daqueles que têm a obrigação de preservar íntegra a criança cristã, que foi recebida da fonte batismal, deve ser dirigida à não permissão do pecado, sob qualquer forma, tomar possessão novamente dessa criança, esmagando o pecado e tornando-o impotente por todos os meios, despertando e fortalecendo a orientação da criança para Deus. Deve-se agir de modo que esta atitude no cristão, em crescimento, venha a crescer por si própria, ainda que sob a orientação de alguém, e que venha a ficar mais e mais habituado a prevalecer sobre o pecado, dominando-o pela certeza de agradar a Deus, e cresça acostumado a exercitar seus poderes de espírito e corpo de modo a que venham a trabalhar não para o pecado mas para o serviço de Deus.
Que isso é possível é evidente pelo fato que aquele que nasceu e foi batizado é inteiramente uma semente do futuro, ou um campo cheio de sementes. A nova atitude regada nele pela graça do batismo não é algo só pensado e imaginado, mas é algo real, isto é, também uma semente de vida.
O ponto para o qual tudo nesse processo deveria ser dirigido é o seguinte: que esse homem novo, quando chegar à consciência, possa reconhecer-se não somente como um homem racional e livre, mas, ao mesmo tempo, como uma pessoa que entrou em obrigação para com o Senhor, com Quem seu fardo eterno está unido inseparavelmente. Que ele não venha somente reconhecer-se como tal, mas também se descubra capaz de agir de acordo com essa obrigação e que venha a enxergar que sua atração proeminente é essa.
A questão que se levanta é: como isso pode ser conseguido? Como se deveria agir em relação a uma criança batizada de maneira que ela, vindo a atingir a idade própria, não deseje outra coisa do que ser um verdadeiro cristão? Em outras palavras, como criar essa criança de maneira cristã?
Para responder a essas perguntas não nos propomos a examinar tudo em detalhe. Limitar-nos-emos a uma análise geral do assunto "criação cristã," tendo em mente mostrar como, em todas as circunstâncias, apoiar e reforçar o lado bom na criança e como tornar sem força e esmagar o que é ruim.
Nesse ponto, antes de tudo, nossa atenção deveria ser dirigida para a criança no berço, antes que qualquer capacidade tenha despertado nela. A criança está viva; conseqüentemente, pode-se influenciar sua vida. Deve-se pensar, aqui, na influência dos Santos Mistérios, e, com eles, no conjunto completo da vida de acordo com a Igreja, e, ao mesmo tempo, na fé e piedade dos pais. Tudo isso junto constitui uma atmosfera salvadora em torno da criança. Por isso a vida de graça que foi concebida na criança é instilada misticamente.
A comunhão freqüente dos Santos Mistérios de Cristo (dever-se-ia acrescentar, tão freqüente quanto possível) junta esse novo membro ao Senhor da maneira mais viva e ativa através de seus puríssimos Corpo e Sangue. Santifica esse novo membro, dá-lhe paz interior e torna-o inacessível aos poderes das trevas. As pessoas que seguem esse conselho notam que, nos dias em que a criança recebe a Santa Eucaristia, ela é imersa em uma calma profunda sem movimentos fortes de todas suas necessidades naturais, mesmo daquelas que são sentidas mais fortemente em crianças. Às vezes, a criança é preenchida com alegria e um estado de espírito no qual ela está pronta a abraçar a cada um de todos, como se fossem seus próprios.
Freqüentemente a Sagrada Comunhão é acompanhada também por milagres. Santo André de Creta, em sua infância, não falou por longo tempo. Quando seus pais, pesarosos, voltaram-se para a oração e para a recepção da graça, durante a comunhão, o Senhor, por sua graça, soltou as amarras de sua língua, que, mais tarde, deu de beber à Igreja correntes de eloqüência e sabedoria.. Um médico, por sua própria observação, testemunha que, na maioria dos casos de doenças, muito raramente tem necessidade de usar qualquer tipo de ajuda médica.
Uma influência muito grande é exercida sobre a criança ao levá-la à Igreja com freqüência, fazendo-a beijar a Santa Cruz, o Evangeliário, os Ícones, cobrindo as meninas com os véus. Da mesma forma, em casa, colocando-a freqüentemente em frente aos Ícones, fazendo-se sempre o sinal da cruz nela, aspergindo-a com água benta, queimando-se incenso, fazendo-se o sinal da cruz sobre o berço, sobre a camisa, e em tudo o mais ligado a ela, a bênção de um padre e levar Ícones da Igreja para casa. Os ofícios, e tudo o mais da Igreja, de maneira maravilhosa, aquecem e nutrem a vida de graça na criança e é sempre a mais segura e impenetrável proteção contra os ataques dos poderes invisíveis das trevas, que em todos os lugares estão prontos para penetrar na alma em desenvolvimento, para infectá-la com sua atividade.
Por detrás dessa proteção visível existe outra invisível: O anjo da guarda colocado pelo Senhor, para proteger a criança, desde o primeiro segundo do seu batismo. O anjo vigia-a e, por sua presença invisível, influencia-a. Quando necessário, inspira os pais a saber o que precisam fazer para uma criança que está em perigo.
Todas essas fortes proteções e suas inspirações poderosas e ativas podem ser dissolvidas e tornadas infrutíferas por descrença, descuido, impiedade e má vida dos pais. Isso ocorre quando os meios, aqui mencionados, não são usados, ou são usados de maneira imprópria; a influência interna dos pais sobre a criança é especialmente importante. É verdade que Deus é misericordioso para com os inocentes, mas existe um laço que não conseguimos entender entre as almas dos pais e a alma da criança. Não podemos definir a extensão da influência dos primeiros sobre esta.
Ao mesmo tempo, quando os pais exercem má influência, em alguma extensão, Deus ainda tem pela criança misericórdia e condescendência. Algumas vezes ocorre que essa concessão divina cessa. Então, as causas que haviam sido preparadas dão seu fruto. Por isso, o espírito de fé e piedade dos pais deve ser visto como o meio poderoso de preservação, desenvolvimento e reforço da vida de graça nas crianças.


O espírito da criança não tem movimento nos primeiros dias, meses ou até mesmo nos primeiros anos. É impossível comunicar-lhe qualquer coisa para que ela assimile pelos meios usuais de comunicação, mas pode-se influenciá-la por outro meio.
Há um certo meio especial de comunicação entre almas, pelo coração. Um espírito influencia outro por meio de sentimentos. A facilidade de exercer tal influência sobre a alma de uma criança, está em proporção direta da plenitude e profundidade dos sentimentos dos pais pela criança.

O pai e a mãe agem como se fossem desaparecer na criança e põem toda sua alma no bem-estar dela. E se o espírito dos pais é penetrado com piedade, não é possível que, deste modo, de alguma maneira, a alma da criança não seja influenciada.
O melhor agente condutor nesse respeito são os olhos. Enquanto nos outros sentidos a alma permanece escondida, os olhos abrem-se aos outros. Eles são o ponto de encontro de uma alma com outra. Que os olhos sejam usados para transmissão de santos sentimentos das almas do pai e da mãe para a alma da criança. Essas almas não podem ajudar a alma da criança, mas podem ungi-la com esse óleo sagrado.
É necessário que no olhar dos pais haja não só amor, o que é tão natural, mas também a fé de que em seus braços encontra-se mais do que uma simples criança. Os pais devem ter a esperança de que Aquele que pôs esse tesouro sobre seus cuidados como um vaso de graça, venha a fornecer-lhes também meios suficientes para preservá-lo. Finalmente deve existir oração incessante feita no espírito, gerada pela esperança decorrente da fé.
Quando, desse modo, os pais protegem o berço de sua criança, com esse espírito de sincera piedade, colocando-a, ao mesmo tempo, nas mãos do anjo da guarda e dos Santos Mistérios da completa vida em Igreja , agindo nela interna e externamente, tudo isso formará em torno do recém-nascido uma atmosfera espiritual, na qual será gerado seu caráter, da mesma forma que o sangue, princípio da vida animal, tem derivadas muitas de suas características da atmosfera circundante.
É dito que um frasco novo preserva, por muito tempo, às vezes permanentemente, o odor do que tenha sido posto nele. O mesmo pode ser dito sobre a atmosfera que circunda a criança. Ela penetra de modo doador de graça e salvador nas formas de vida que estão sendo estabelecidas na criança e coloca seu selo sobre a mesma. Existe também aqui uma proteção que não pode ser penetrada pela influência dos espíritos malignos.
Tendo começado desse modo, desde o berço, deve-se continuar posteriormente, durante todo o período de desenvolvimento da criança: na infância, na adolescência e na juventude. A Igreja, sua vida e os Santos Mistérios são como um tabernáculo (tenda) para as crianças, e elas deveriam estar sob ela sem deixá-la.
Os exemplos indicam quão salvífico e frutuoso é isso (como as vidas do profeta Samuel e de São Teodoro Sikioto - Abr’. 22; e outros). Esses meios podem, sozinhos, substituir todos os outros meios de criação, e, na verdade, assim foi feito em muitos casos com sucesso. O antigo método de criação consistia básica e precisamente nisso.
Quando os poderes de uma criança começam a despertar, um após outro, os pais e outros que as estejam criando devem dobrar sua atenção, pois, ao mesmo tempo em que, sobre a influência dos meios que foram indicados, o amor de Deus crescerá nelas e dirigirá seus poderes para Ele, o pecado que nelas permanece, também não dormirá, e tentará tomar posse desses mesmos poderes.
A conseqüência inevitável desse fato é uma guerra interna. Desde que as crianças são incapazes de conduzirem-se por si próprias, seus lugares devem ser, compreensivelmente, tomados pelos pais. Visto que essa guerra deve ser conduzida pelos poderes das crianças, os pais devem observar, atentamente, os primeiros movimentos do despertar desses poderes, para que possam, desde o primeiro minuto, dar a eles um direcionamento harmônico com o objetivo principal para o qual devem ser dirigidos.
Assim começa a guerra dos pais com o pecado que habita na criança. Apesar desse pecado não dispor de ponto de apoio, mesmo assim age, e, para encontrar um ponto bom para descansar, tenta tomar posse dos poderes do corpo e da alma. Não se deve permitir que o pecado consiga esse ponto, porém se deve arrancar esses poderes da mão do pecado e dá-los a Deus.
A fim de que isso seja feito com bom fundamento e com conhecimento racional da confiabilidade dos meios que foram escolhidos, deve-se deixar claro para si próprio o que o pecado deseja, o que o alimenta, e como, precisamente, ele se apossa de nós. As coisas fundamentais que despertam e dirigem alguém para o pecado são: arbitrariedade da mente (ou curiosidade) com relação às faculdades mentais; vontade própria com relação à faculdade da vontade, e prazeres com relação à faculdade dos sentidos.
Dessa forma, deve-se dirigir e conduzir os poderes em desenvolvimento da alma e do corpo de maneira a não entregá-los ao cativeiro dos prazeres centrados em si mesmo. Estes são cativeiros pecaminosos. Ao contrário, deve-se treinar a criança em como separar-se desses carcereiros e como dominá-los, e , tanto quanto possível, torná-los impotentes e inócuos. Essa é a coisa mais importante no início da criação de uma criança. Toda criação posterior poderá ser colocada em harmonia com esse início. Olhemos, de novo, agora com esse enfoque, as principais atividades do corpo, da alma e do espírito.
Em primeiro lugar, são despertadas as necessidades do corpo e, desde então, permanecem em estado constante de viva atividade até a própria morte. É essencial que se as coloque dentro de seus próprios limites e que se dê a elas a força do hábito, de maneira a mais tarde, ter-se menos perturbações delas provindas.
O primeiro requisito para a vida do corpo é o alimento. Com relação à moralidade, está aí a sede da paixão pelos prazeres da carne, ou a arena para a nutrição e desenvolvimento do corpo. Assim, deve-se alimentar a criança de maneira que, desenvolvendo a vida do corpo, fornecendo-lhe força e saúde, não se inicie em sua alma os prazeres da carne.
Não se deve considerar que a criança é pequena (e por isso não precisa dessa preocupação). Desde os primeiros anos, deve-se começar a restringir a carne que tem inclinação por crua materialidade. Faz-se necessário treinar a criança para a sua não dependência pela carne, para que, na adolescência, juventude e nos anos que se seguirem, ela possa, com facilidade e voluntariamente, ter controle sobre suas necessidades.
A primeira tentativa feita é muito importante. Muito do que acontece, subseqüentemente, depende de como alimentar a criança. Sem que se note, podemos nela desenvolver o gosto pelo prazer e imoderação no comer, que são as duas formas do pecado de glutoneria - as duas tendências que podem surgir com o comer e que são tão ruidosas para o corpo e para a alma.
Por isso, até mesmo médicos e professores aconselham:
1.     Que se selecione um alimento saudável e adequado, de acordo com a idade da criança. Um alimento é adequado para um bebê, outro para uma criança, outro, ainda, para um adolescente e para um jovem adulto.
2.     Sujeitar o uso de alimentos a regras definidas (também adaptadas à idade), nas quais deveriam estar definidos os horários, as quantidades e os modos de alimentação.
3.     Não afastar-se dessas regras estabelecidas sem necessidade. Desse modo a criança é treinada a não pedir comida sempre que, a qualquer momento, queira comer, mas a esperar pelo horário determinado. Aqui encontram-se as primeiras tentativas de exercitar-se alguém em negar seus próprios desejos.
Quando uma criança é alimentada toda vez que chora, e toda vez que pede para comer, ela é tão enfraquecida por isso, que, mais tarde, não conseguirá recusar comida, a não ser com grande sofrimento. Ao mesmo tempo, isso acostuma a criança a ter atendida a sua vontade, pois ela vai tendo sucesso em conseguir tudo que ela pede ou chora por.
O sono também deve ser submetido a medidas equivalentes, bem como o aquecer e o refrescar e todos os outros confortos que são necessários na criação de alguém, tendo-se, sem engano na mente, não incendiar a paixão por prazeres sensuais, mas treinar a criança a negar-se. Isso deve ser observado, estritamente, durante todo o período de desenvolvimento da criança, obviamente adaptando-se às regras e suas aplicações às circunstâncias e idades, mas não em sua essência, até que a criança estando com essas regras, firmemente estabelecidas, pegue-as em suas próprias mãos.
A segunda função do corpo é o movimento. Seu órgão são os músculos, nos quais residem o poder e a força do corpo: os recursos para o trabalho. Em relação à alma, é a sede da vontade, e facilmente desenvolve a vontade própria. O desenvolvimento controlado e sensível dessa função, dando ao corpo estímulos e animação, treina alguém para o trabalho e forma o hábito da estabilidade.
Ao contrário, um desenvolvimento instável e irregular deixado à vontade da criança, desenvolve em algumas a hiperatividade e a desatenção. Em outra, lentidão, falta de vida, indolência. Nas primeiras, vontade própria e desobediência tornam-se lei. Ligada a isso podem ser encontradas: agressividade, cólera e irrestrição nos desejos próprios. No segundo caso, permanecem imersas na carne, dadas aos prazeres sensuais.
Por isso, deve-se ter em vista que, ao reforçar-se os poderes do corpo, não se deve inflamar a vontade própria destruindo-se o espírito por conveniência da carne. Para evitar isso, as coisas mais importantes são moderação, um programa definido e supervisão. Permitamos que a criança brinque, mas seja no lugar, na hora e do modo que forem indicados a ela.
A vontade dos pais deve ser impressa em cada passo, obviamente de maneira geral e não detalhada. Sem isso, o comportamento da criança pode ser facilmente corrompido. Depois de agradar-se, de acordo com sua vontade própria, a criança sempre fica resistente a obedecer mesmo nas menores coisas. Se isso acontece, mesmo que só em ocasiões isoladas, o que dizer então se essa questão da atividade corporal for inteiramente negligenciada? Como será difícil, mais tarde, desenraizar a vontade própria, que tão rapidamente instala-se no corpo como em uma fortaleza! O pescoço não se dobrará, as mãos e os pés não se movimentarão e os olhos nem mesmo desejarão olhar como foram instruídos.
Ao contrário, uma criança torna-se pronta a obedecer a qualquer tipo de ordem quando, desde o início, não se dá total liberdade a seus movimentos. Além disso, não existe melhor treinamento para sentir-se mestre do próprio corpo, do que forçá-lo a movimentar-se de acordo com ordens.
A terceira função do corpo são os nervos. Dos nervos vêm os sentidos, que podem ser os meios de observação, ou então alimento para a curiosidade, normalmente com mais ênfase na segunda hipótese. Falaremos aqui do propósito geral dos nervos como o centro da sensualidade do corpo, ou da capacidade de receber impressões externas que são desagradáveis para ele.
A esse respeito, deve-se tornar uma regra treinar o corpo a suportar todo o tipo de influência externa sem infortúnio, seja do ar frio, água, mudança de temperatura, calor, frio, dor, ferimentos e assim por diante. Aquele que tiver adquirido tal hábito é o mais afortunado dos homens, capaz das ações mais difíceis em qualquer tempo e em qualquer lugar. A alma, em tal homem, é a senhora total do corpo. Ao contrário, virar-se-á com um certo desejo para aquelas coisas que podem trazer perigo para o corpo. Isso é muito importante.
O pior mal para o corpo é amá-lo e comiserar-se por ele. Isso leva embora toda autoridade da alma sobre o corpo e torna-a escrava dele. Por outro lado, alguém que não tente preservar excessivamente o corpo, não será perturbado em qualquer coisa que faça, pela apreensão nascida de um amor cego pela vida. Quão afortunado é aquele que é treinado desde a infância!
Aqui é o ponto para conselhos médicos sobre o banho, horas e locais para andar e vestir. A coisa mais importante é manter o corpo não em um estado em que ele receba só impressões agradáveis, porém, ao contrário, mantê-lo mais sob a impressão daquelas coisas que lhe causem perturbação. Recebendo impressões agradáveis, o corpo regala-se, mas recebendo impressões desagradáveis ele é fortificado. Na primeira condição, a criança torna-se temerosa de tudo. Na outra, fica pronta para qualquer coisa e é capaz de continuar, pacientemente, o que tenha começado.
Tal atitude para com o corpo é prescrita pela ciência de educar crianças. Aqui, só indicaremos como esses conselhos são úteis, também para o desenvolvimento da vida cristã, porque o seu seguimento zeloso, protege da entrada na alma do veneno maligno dos prazeres sensuais, da vontade própria, do amor pelo corpo e da auto-comiseração e forma na criança as disposições que são opostas a estas. Em geral, treina a criança a ser a mestra de seu corpo e não ficar submissa a ele. Isso é muito importante na vida Cristã, que, por sua natureza, é distante da sensualidade e de todo tipo de prazer da carne.
Deste modo, não deveríamos deixar à decisão arbitrária o desenvolvimento do corpo das crianças, mas mantê-lo sob disciplina estrita desde o primeiro momento, até que, mais tarde, ele possa ser dado nas mãos da própria, como um órgão já adaptado à vida cristã e não hostil a ela.
Aqueles pais Cristãos, que amam verdadeiramente suas crianças, não devem procurar preservar nada. Nem mesmo seus corações de pais, de maneira a dar essa coisa boa às suas crianças, pois do contrário seu amor e atenção ou darão poucos frutos ou serão inteiramente infrutíferos.
O corpo é o habitat das paixões, principalmente das mais furiosas, como lascívia e raiva. É também o órgão através do qual os demônios penetram na alma ou instalam-se perto dela. Não é necessário que se diga que, nesse processo, não se deve deixar fora de vista a influência da vida em Igreja e tudo o que nela afeta o corpo, pois esse próprio corpo será santificado e a vida voraz e animal da criança será refreada.
Não discutiremos tudo isso aqui. Só indicaremos o tom principal das influências sobre o corpo. A própria vida dará os detalhes para aqueles que deles precisarem. De acordo com esse contorno geral, pode-se aprender também como tratar o corpo em todas as outras fases da vida, pois a questão é a mesma em todos nós.
Junto com a manifestação das necessidades corporais, as capacidades inferiores da alma também não são lentas em se expressar. Logo a criança começa a olhar mais atentamente um objeto ou outro; um mais, outro menos, pois um lhe agrada mais, outro menos. Esses são os primeiros passos do exercício dos sentidos, após os quais seguem imediatamente um despertar da atividade de imaginação e memória. Essas capacidades colocam-se no ponto de transição entre a atividade do corpo e da alma. As duas atuam conjuntamente. Assim, o que é feito por uma, é comunicado imediatamente à outra.
Julgando pela importância que elas têm, no presente, em nossas vidas, quão bom e salutar é santificar esses primeiros passos fazendo com que eles ocorram no reino da fé.
As primeiras impressões permanecem profundamente enraizadas na memória. Deveríamos lembrar que a alma aparece no mundo, nua. Ela cresce, torna-se rica em conteúdo interno, assumindo várias formas de atividade somente mais tarde. O primeiro material, o primeiro alimento para a sua formação, ela recebe do mundo exterior, dos sentidos, através da imaginação. É evidente de per si, de que, natureza ou primeiros objetos dos sentidos e imaginação, deveriam ser, de maneira a não atrapalhar, mas, ainda mais, até mesmo ajudar a vida Cristã que ora está se formando.
É bem sabido que, da mesma forma como o primeiro alimento tem significativa influência no temperamento do corpo, também os primeiros objetos com os quais a alma se ocupa têm uma poderosa influência no caráter da alma ou no tom de sua vida.

Se a ordem de ação prescrita para o corpo e para as capacidades inferiores é estritamente mantida, disso a alma receberá uma esplêndida preparação para uma atitude verdadeiramente boa. No entanto, isso é só uma preparação. A atitude mesmo deve ser formada por uma ação positiva em todos os seguintes poderes: mente, vontade e coração.
Nas crianças, o poder de pensar manifesta-se rapidamente. Chega ao mesmo tempo que o falar e cresce acompanhando o desenvolvimento deste. Por isso, a formação da mente deve ser iniciada concomitantemente com as primeiras palavras. A coisa mais importante a ter-se em mente é que devem existir conceitos e julgamentos justos, de acordo com os princípios Cristãos, acerca de tudo que a criança encontre ou que chegue à atenção dela: o que é certo e o que é errado; o que é bom e o que é mau. É muito simples fazer-se isso por meio de conversações comuns e questões ordinárias. Os pais devem conversar entre si, freqüentemente. As crianças ouvem tudo e, quase sempre, assimilam não só as idéias, como também a entonação de voz e gestos.
Os pais, quando falarem, devem chamar as coisas pelos seus nomes próprios. Por exemplo: Qual é o significado da vida presente? Como ela termina? De onde vêm todas as coisas? O que são os prazeres? Que valor tem certos costumes?
Que os pais falem com suas crianças e expliquem diretamente a elas, ou, de preferência, contando histórias. É bom, por exemplo, vestir-se bem? É agradável quando se recebe louvor? Ou que eles perguntem às crianças, o que elas acham de uma coisa ou de outra, corrigindo então seus erros. Em pouco tempo, por esses meios simples, pode-se comunicar princípios corretos para o julgamento das coisas, e esses princípios não serão apagados por um longo tempo, e podem mesmo a vir a permanecer por toda a vida.
Dessa maneira, o pensamento mundano e iníquo e a curiosidade insaciável são suprimidos em sua própria raiz. A verdade liga a mente àquilo que a satisfaz, mas o pensamento mundano não satisfaz e, por isso, acende a curiosidade. Faz-se um grande favor à criança, preservando-a desse pensamento mundano. Isso está antes delas começarem a ler livros.
Mais adiante, não se deve, seja por que razão for, dar às crianças livros com conceitos corruptos. Suas mentes serão então preservadas inteiras, em saúde santa e divina. É inútil não tentar exercitar a criança dessa maneira, na suposição de que ela ainda é pequena. A verdade é acessível a qualquer um. Que uma pequena criança Cristã é mais sábia que os filósofos, a experiência já demonstrou. Essa experiência é repetida, algumas vezes hoje em dia, mas nos primeiros tempos (no Cristianismo) mostrava-se por toda parte.
Por exemplo, durante o período do martírio, crianças pequenas discursavam sobre Cristo, o Salvador, sobre a loucura da adoração de ídolos, sobre a vida futura e sobre diversos assuntos correlatos a esses. Isso acontecia porque suas mães e pais haviam explicado a elas essas coisas, em conversas simples. Essas verdades tornaram-se então próximas ao coração, que começou a entesourá-las, o que é o meio de tornar alguém pronto a morrer por elas.
Uma criança tem muitos desejos. Qualquer coisa capta sua atenção, a atrai, e dá nascimento a desejos. Sendo incapaz de distinguir o bem do mal, ela deseja tudo, e está pronta a fazer de tudo para obter o que deseja. Uma criança largada a si própria torna-se indomável e obstinada. Por essa razão, os pais devem observar, cuidadosamente, o desabrochar dessa atividade da alma.
O meio mais simples de confinar a vontade dentro de limites adequados consiste em dispor a criança a não fazer nada sem permissão. Elas devem ser sequiosas de correr para os pais e perguntar: "Posso fazer isso ou aquilo?" Elas devem ser persuadidas por sua própria experiência e por experiência de outros mostrando-lhes que atender seus desejos próprios sem pedir é perigoso. Devem ser postas em um estado mental no qual cheguem até mesmo a temer seus próprios desejos. Essa disposição é a mais afortunada, e, ao mesmo tempo, a mais fácil de ser implantada na criança. Como elas, em sua maior parte, dirigem suas questões para os adultos, constatando sua própria ignorância e fraqueza, esse estado de coisas só tem que ser elevado e colocado como lei absoluta para elas.
A conseqüência natural de tal atitude será total obediência e submissão em tudo, à vontade dos pais, mesmo quando for contra a vontade própria, a disposição a negar-se em muitas coisas, e o hábito e a habilidade de fazer isso. A coisa mais importante, a convicção baseada na experiência, que não se deve obedecer a si próprio em tudo, é a coisa mais compreensível para as crianças pela sua própria experiência, porque elas desejam muitas coisas, e, freqüentemente, essas coisas são nocivas para seus corpos e almas.
Enquanto se está treinando uma criança a não fazer sua própria vontade, deve-se também treiná-la a fazer o bem. Para isso, os pais devem dar um bom exemplo de vida para o bem e habituar suas crianças com pessoas cujas preocupações não sejam prazeres e julga mentos, mas a salvação da alma. As crianças adoram imitar. Quão cedo elas aprendem a copiar a mãe ou pai! Aqui ocorre algo similar ao que ocorre com instrumentos afinados identicamente.
Ao mesmo tempo, deve-se inspirar as crianças às boas obras. Primeiramente, deve-se ordenar-lhes fazerem boas obras. A seguir, conduzi-las a fazerem boas obras por si próprias. As boas obras, mais comuns nesse contexto, são: esmola, compaixão, misericórdia, condescendência com os outros e paciência. Não é difícil treiná-las a fazer essas coisas. Oportunidades para tal ocorrem a cada minuto. Tem-se só que usá-las.
Se a mente, a vontade e os poderes inferiores estiverem agindo do modo descrito, é completamente esperado e natural que o coração esteja disposto a ter sentimentos justos e verdadeiros e que adquira o hábito de gostar daquilo que é verdadeiramente para ser gostado e que não tenha simpatia por qualquer coisa que, a título de prazer, injeta veneno na alma e no corpo. O coração é a capacidade de testar e sentir satisfação.
Quando o homem estava em união com Deus, encontrava delícias nas coisas divinas e sagradas pela Sua graça. Depois de sua queda, deturpou seu gosto e tornou-se sedento do que é sensual. A graça do batismo removeu esse gosto deturpado, mas a sensualidade está de novo pronta a encher o coração. Não se deve permitir isso; deve-se guardar o coração.
O meio mais efetivo para a educação do verdadeiro gosto no coração é uma vida centrada na Igreja, na qual todas as crianças, em seu crescimento, devem ser mantidas infalivelmente. Simpatia pelo que é sagrado, prazer em permanecer nesse meio sagrado por causa de sua quietude e calor, separação do que é brilhante e atrativo na vaidade mundana, tudo isso não pode ser melhor implantado no coração do que por uma vida centrada em Igreja. O prédio da Igreja, seus cânticos, seus ícones são os primeiros objetos de arte excelentes em conteúdo e poder.
Deve-se lembrar que é de acordo com o gosto do coração que a futura mansão eterna será dada, e que o gosto no coração será aquele formado aqui na terra. É evidente, assim, que teatros, shows e coisas similares não são adequados para Cristãos.
Uma alma que tenha sido acalmada e ordenada dessa maneira, não atrapalhará, de acordo com sua desordem natural, o desenvolvimento do espírito. O espírito se desenvolve mais facilmente do que a alma, revelando seus poderes e atividade mais cedo do que a alma.
Ao espírito pertence: 1) o temor de Deus (correspondendo à mente), 2) a consciência (correspondendo à vontade); e 3) oração (correspondendo aos sentidos). O temor de Deus faz nascer a oração e torna a consciência clara.
Não há necessidade de dirigir tudo isso ao outro mundo, o invisível. As crianças já têm uma predisposição para isso, e assimilam esses sentimentos. Especialmente a oração é introduzida com muita facilidade e age não pela língua, mas pelo coração. É por isso que as crianças, desejosamente, e sem fadiga, participam das orações em casa e nos ofícios da Igreja e ficam felizes em fazê-lo. Sendo assim, não deveriam ser privadas desta parte de sua educação, mas, pouco a pouco, deveriam ser conduzidas ao santuário de nossos sentimentos. Quanto mais cedo for introduzido o temor de Deus e nascer a oração, mais sólida a devoção pelo resto da vida.
Em algumas crianças, esse espírito manifesta-se, espontaneamente, mesmo entre obstáculos evidentes para o seu surgimento. Isso é muito natural. O espírito de graça recebido no batismo, se não foi enfraquecido por um desenvolvimento impróprio do corpo e da alma, só pode dar vida ao nosso espírito, e o que pode impedi-lo de manifestar-se em seu poder?
A consciência,entretanto, exige um controle estrito. Conceitos justos, paralelos ao bom exemplo dos pais e outros meios de ensinar o bem, e a oração iluminam a consciência e nela imprimem fundações suficientes para a boa atividade subseqüente. No entanto, o mais importante é que deve-se formar na criança uma atitude de integridade e consciência. Consciência é algo extraordinariamente importante na vida, mas tão fácil quanto formá-la é sufocá-la na criança.
A vontade dos pais é, para a criança pequena, a lei da consciência e de Deus. Que os pais de acordo com seu melhor entendimento, dêem seus comandos, de maneira tal, que as crianças não sejam forçadas a transgredi-los. Se elas o transgridem, devem ser dispostas tanto quanto possível ao arrependimento.
O que a geada é para as flores, é a transgressão da vontade dos pais para uma criança. Ela não consegue olhar os pais nos olhos. Não deseja receber amabilidade. Quer correr e estar sozinha. Ao mesmo tempo, sua alma se torna rude e começa a crescer agressiva. É uma boa atitude dispô-la algum tempo ao arrependimento, de maneira que, sem medo, com confiança e lágrimas, possa a vir a dizer: "Eu fiz algo de errado."
Não é necessário ressaltar que tudo isso diz respeito só às coisas comuns; mas o que é bom é que assim é formada uma fundação para um caráter futuro constante e verdadeiramente religioso, que se levanta imediatamente após uma queda, e é formada a capacidade de um rápido arrependimento e de limpar-se ou renovar-se com lágrimas.
Demos aqui a ordem de uma vida de criança. Que a criança cresça nela, e o espírito de devoção, nela se desenvolverá mais ainda. Os pais devem seguir todos os movimentos dos poderes nascentes da criança, e dirigir tudo para um único fim.
Essa é a regra: Inicie com a primeira respiração da criança. Comece tudo ao mesmo tempo. Não só uma coisa. Faça tudo isso incessantemente e regularmente, por degraus, sem saltos, com paciência e expectativa, observando uma sábia gradualidade, tomando nota dos resultados e fazendo uso deles, não considerando coisa alguma desimportante em assunto tão importante. Não esmiuçaremos detalhes aqui, pois temos a idéia de indicar somente a direção mais importante para um salutar crescimento.


Título Original: Raising Them Right
Mont Hermon, Califórnia
Originalmente Publicado com o Título: The Path To Salvation
Pela Eastern Orthodox Press, Etna, Califórnia
Folheto Missionário número P55a
466 Foothill Blvd, Box 397, La Canada, Ca 91011
Editor: Bishop Alexander (Mileant)

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