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sexta-feira, 1 de junho de 2012

Recomendo a leitura atenta deste tema

 

Existência cristã hoje
Mario de França Miranda sj

A história do cristianismo nos demonstra como a mesma fé foi, ao longo dos séculos, vivida e expressa diversamente conforme os contextos sócio-culturais onde se encontravam os cristãos. Sua configuração concreta resultou da presença atuante de determinados fatores, que constituíam estímulos, obstáculos ou simplesmente desafios para os fiéis. Quanto mais o cristão assumiu com seriedade sua situação existencial, tanto mais significativa, vital e irradiante foi sua fé.
Vivemos hoje um difícil período da história que apresenta sérios desafios e que nos deixa perplexos com relação ao futuro mesmo da humanidade. O que pede este conturbado contexto para a vivência da fé? Que elementos da tradição cristã deverão ser enfatizados? Que objetivos deverão ser prioritários na evangelização?
Naturalmente não iremos responder adequadamente a tais questões, mas simplesmente apontar alguns elementos que nos parecem importantes para a vida da fé em nossos dias. Depois de uma apresentação descritiva do atual mal-estar que experimentamos, serão estudadas três características importantes na vivência atual da fé cristã: a experiência salvífica pessoal, a gratuidade nas relações humanas e a convivência com o diferente.
I. O atual mal-estar. Vivemos numa sociedade na qual convivem mentalidades, interpretações da realidade e comportamentos múltiplos e diferentes. O pluralismo que resulta destas muitas e diversas perspectivas, cada uma delas dotada de racionalidade e normatividade própria, sendo assim irredutíveis entre si, lançam sobre nossos contemporâneos a árdua tarefa de construírem sua identidade social com elementos dos mais variados gêneros. Falta-lhes aquele abrigo seguro e familiar, experimentado por seus antepassados, de uma sociedade homogênea em sua compreensão e em seu ethos, aceita por todos, possibilitando assim uma convivência espontânea devido a uma linguagem comum.
Além disso, qualquer grupo social, com suas experiências próprias, sucedidas em seu contexto vital e em seu horizonte cultural, sente-se sempre um pouco deslocado na atual sociedade. O saber humano experimenta um crescimento vertiginoso e a vida social se apresenta muito complexa. Nossos contemporâneos sentem-se como fragmentos de uma totalidade que os ultrapassa, incomoda, angustia. Suas referências e valores se vêem relativizados, enfraquecidos e marginalizados por outros marcos e critérios. Em vão buscam uma cosmovisão que lhes oriente e dinamize corações e mentes, liberdade e razão.
Esta situação é agravada pela proximidade inédita das diferentes culturas da humanidade, graças aos modernos meios de comunicação e às atuais facilidades de locomoção em nosso planeta. Tomamos consciência de que o nosso discurso, pretensamente universal, reflete, sobretudo, um determinado horizonte cultural, pressupõe mentalidades e categorias alheias a outras culturas, avalia diversamente realidades humanas comuns a todos. A assim chamada cultura globalizada não muda este quadro sócio-cultural. Pois seus elementos só são aceitos e vividos pelas culturas locais na medida em que são relidos e reinterpretados na perspectiva das mesmas. Além disso, a cultura globalizada, seja ela acionada ou não pelo capital e pelo consumo, deixa o ser humano sem resposta diante de questões, que lhe são vitais, como as que indagam sobre o sentido da vida, do sofrimento e da morte.
O cenário hodierno, contudo, ainda está incompleto. Ao pluralismo cultural devemos acrescentar o pluralismo religioso. Não se trata tanto de travarmos conhecimento com sistemas religiosos diferentes do nosso, olhados com curiosidade e medo por nos parecerem estranhos, mas inócuos por se expressarem em linguagens e categorias que nos são desconhecidas. O pluralismo religioso hoje, mais do que um problema teórico, formulado como o conflito das tradições religiosas, consiste principalmente numa questão existencial, experimentada e vivida por um número cada vez maior de nossos contemporâneos.
Encontramos pessoas cultas e sensatas, ricas em qualidades humanas, exemplares no comportamento ético, mas que, com seriedade e empenho, professam uma outra tradição religiosa, que lhes ilumina e estrutura a vida. Estas pessoas pertencem cada vez mais ao nosso contexto vital, e não podemos negar que este fato acaba por afetar nossa fé. Sentimo-nos apenas como mais um grupo religioso, ao lado de outros. Nossa pertença a ele se deve ao fato de termos nascido num determinado país. Os próprios conteúdos da fé cristã, doutrinários ou morais, são então de certo modo relativizados e vistos como resultantes de opções pessoais.
O cristão já não conta, como no passado, com o respaldo da sociedade para a sua fé. Desapareceu na moderna sociedade a chamada “estrutura de plausibilidade”, que conferia umstatus objetivo às proposições da fé por serem aceitas por todos. Além disso, as instituições não conseguem se adequar ao desafio pluralista, tantas são as novas questões que surgem, de cunho cultural ou religioso. A problemática atualmente em curso na Igreja Católica com relação à inculturação da fé, ao diálogo inter-religioso e à bioética confirmam o que dissemos.
Por outro lado assistimos espantados, depois do século das luzes, do monopólio racionalista, da hegemonia científica, à busca desenfreada por religiosidades de alta voltagem emotiva por parte de muitos contemporâneos nossos. Tais religiosidades, saudadas precipitadamente como a volta do sagrado ou o retorno de Deus, indicam primeiramente as insuficiências próprias da racionalidade funcional e os sofrimentos gerados pelo imperativo categórico da produtividade.
Vistas com mais cuidado tais religiosidades aparecem mais como produtos elaborados pelas próprias dominantes culturais da nossa atual sociedade. A perspectiva individualista e hedonista, que hoje polariza o espaço cultural onde vivemos, interpreta e retoma as tradições religiosas existentes em função do bem-estar do indivíduo, valor supremo em nossos dias. Naturalmente se religião implica uma relação ao Transcendente (Deus) e um correspondente comportamento (ética), nos é difícil caracterizar como religiões tais religiosidades.
No fundo estamos às voltas com ideologias voltadas para a felicidade imediata do indivíduo, apenas envoltas em expressões e práticas religiosas, colhidas seletivamente de outros credos. A conseqüência mais imediata deste fenômeno consiste numa dificuldade a mais para os fiéis de hoje. Pois os símbolos cristãos, até então marcos seguros de sua fé e de sua caminhada para Deus, se encontram também por toda parte, assinalando conteúdos diversos, carentes de uma comunidade de fé que os viva, desenraizados, flutuantes, sujeitos a sincretismos nebulosos.
Podemos acrescentar, como mais um elemento do atual quadro social, a dificuldade que experimenta a autoridade religiosa para ser ouvida e obedecida. Hoje pesa bem menos o argumento da tradição e da autoridade. Tudo deve ser devidamente explicado e fundamentado. Tal fato é agravado pela incapacidade das instituições eclesiais de equacionar suas expressões e práticas a uma cultura pluralista e em rápidas mudanças.
Além disso, o individualismo, como traço cultural determinante na atual sociedade, questiona tradições e instituições na busca desenfreada pelo bem-estar do indivíduo, leva ao desinteresse pelo bem comum e pelas grandes causas, tende a relegar a religião à esfera do privado, a utiliza-la numa deformadora ótica terapêutica e a selecionar dela o que não estorva seu ideal de felicidade. Deste modo a adesão religiosa é sempre apenas parcial e aberta a outras crenças que ajudem na consecução do objetivo hedonista. Daí a ausência de referências sólidas onde possam nossos contemporâneos fundamentar suas vidas, ocasionando assim personalidades frágeis e inconstantes.
II. Características atuais da existência cristã
1) A importância da experiência salvífica. Já que a atual sociedade mais dificulta do que ajuda sua fé, não recebe o cristão da mesma um respaldo para sua vida na linha do Evangelho. Daí, portanto, a importância da experiência salvífica cristã, que deveria estar mais presente na teologia e atuante na pastoral, não restrita ao âmbito exclusivo da espiritualidade. Pois ação salvífica de Deus e experiência humana estão intimamente unidas. Vejamos.
O cristianismo resulta da iniciativa totalmente gratuita de Deus, ao vir encontrar-se com o homem para lhe comunicar vida e salvação. É o que testemunha a Sagrada Escritura. Deus se revela ao se doar a seu povo: são feitos históricos, iluminados pela Palavra, e não apenas informações sobre Deus. Esta revelação salvífica chega à sua plenitude em Jesus Cristo, em suas palavras e obras, em sua morte e ressurreição. Ela significa, portanto, a autodoação do próprio Deus, felicidade plena do ser humano, que o convida a participar de sua vida, ao acolher na fé a oferta salvífica feita na pessoa de Jesus Cristo.
Este acolhimento, contudo, não resulta de uma avaliação teórica ou de uma argumentação racional, embora ambas não estejam excluídas. A autodoação de Deus é, de certo modo, experimentada pelo ser humano. Mesmo que nos seja difícil esclarecer esta afirmação, devemos mantê-la. Sabemos que a experiência humana sempre foi um tema complexo e discutido na filosofia. Hoje, depois dos debates havidos entre os filósofos nos últimos séculos, estamos conscientes de que não experimentamos a realidade sem que a vejamos numa determinada perspectiva, contexto ou horizonte cultural, afirmação esta que se estende a qualquer tipo de conhecimento humano, mesmo o científico.
Deste modo a realidade objetiva nesta experiência subjetiva aflora sempre no interior de uma estrutura mental (mindset) ou de uma linguagem. É esta que me fornece as categorias que possibilitam a realização da experiência como experiência humana, a qual identifica, interpreta e conhece o experimentado. Assim a experiência humana acontece sempre dentro de um quadro interpretativo, mas sem se subordinar totalmente a este último. De fato a experiência goza de certa autonomia, que se manifesta quando apresenta componentes que questionam e fazem explodir o modelo que a interpretava. A mudança ocasionada no modelo interpretativo abre a possibilidade de novas experiências e leituras, a demonstrar a historicidade como característica das experiências humanas e vetar que as mesmas se julguem definitivas.
A experiência religiosa se justifica como as demais experiências humanas pela perspectiva de leitura da realidade. Uma definição descritiva a vê como uma resposta ao que é percebido como último, a qual resposta envolve toda a pessoa, é dotada de peculiar intensidade e leva à ação. A iniciativa é de “outro”, o “último”, que relativiza as demais realidades, e cuja intensidade indica uma mudança qualitativa na consciência do sujeito que resulta numa reorganização da própria vida.
A experiência salvífica cristã se deve à iniciativa de Deus e é por Ele determinada. Resulta da ação de Deus no ser humano e na história, mesmo que não consigamos dar uma explicação racional satisfatória para esta atuação. Naturalmente esta experiência acontece sempre dentro de um quadro interpretativo. Porém não se reduz a ele, pois a realidade experimentada goza de certa autonomia. E esta realidade é exatamente a ação salvífica de Deus, o que nos permite falar de uma revelação de Deus.
A experiência de salvação, feita pelos discípulos com Jesus de Nazaré, será testemunhada, expressa e transmitida pelos escritos neotestamentários, à luz do mistério pascal que constitui assim seu quadro interpretativo. Daí, podermos afirmar o caráter cristológico de toda experiência cristã. Jesus Cristo é o único e exclusivo hermeneuta da nossa experiência salvífica. Esta afirmação pressupõe nossa adesão a Jesus de Nazaré como Filho de Deus. Este dado significa mais do que uma perspectiva teórica de interpretação, pois devemos assumir a existência mesmo de Jesus Cristo, já que somos seus seguidores. Quanto mais a vivermos tanto mais rica e plena será nossa experiência da salvação de Deus.
Naturalmente as gerações posteriores, que viveram esta experiência cristã em outros contextos, experimentaram e expressaram esta salvação diversamente, embora sempre no interior de um horizonte aberto pelos primeiros discípulos. Pois esta tradição de experiências e de expressões ao longo da história, com seus acertos e insuficiências, é parte integrante do nosso atual quadro interpretativo. Podemos dizer o mesmo numa perspectiva eclesiológica: nosso atual quadro interpretativo nos foi transmitido por uma comunidade de fé, considerada sincronica e diacronicamente.
Porém a atual comunidade eclesial tem o ônus de experimentar e expressar a salvação de Deus, conforme vem atestada no Novo Testamento, como salvação para seus contemporâneos. Estes vivem num contexto vital e num horizonte cultural peculiar, com desafios e ameaças existenciais novas, que exigem outras expressões. A ação do Espírito Santo possibilita experiências salvíficas neste contexto inédito, e a comunidade eclesial deve ser capaz de capta-las como tais e formula-las com novas expressões, significativas para hoje.
Deus continua atuando na história, de modo que as experiências salvíficas continuam acontecendo. Mas a atual sociedade é pluralista, complexa e instável. Daí a dificuldade de um discurso universalmente convincente e a necessidade de se enfatizar a importância destas experiências para fundamentar e fortalecer a fé do cristão, que será um “místico”, ou simplesmente não será mais cristão. Daí também a urgência de uma pastoral mistagógica e de uma pedagogia da oração nas comunidades.
2) A gratuidade como critério cristão. Nunca, em toda a história da humanidade, a sociedade e a cultura foram dominadas pelo fator econômico como em nossos dias. Naturalmente a preocupação por satisfazer as necessidades básicas sempre esteve presente na existência humana. E tais necessidades estiveram sempre na raiz de opções políticas e de invasões armadas acontecidas no passado. Mas o fator econômico era equilibrado por outros valores, de cunho simbólico, como a arte, a religião, o amor à pátria, para citar alguns. Deste modo não havia uma hegemonia esmagadora como em nossos dias.
De fato, hoje a vida social se estrutura toda ela em torno da economia, fator determinante dos conglomerados humanos, da divisão do trabalho, da configuração do ensino, do nascimento das instituições, das atividades artísticas, desportivas e, em alguns casos, até religiosas. Tudo vem considerado na perspectiva de gerar capital, produzir lucros, aumentar os dividendos comerciais. Tudo vale pelo seu valor de troca, até obras de arte ou expressões da fé.
A racionalidade própria da economia se impôs aos demais setores sociais. E como assistimos a uma oferta inédita de bens que devem ser vendidos para que sobrevivam as indústrias e se mantenha em movimento a sociedade capitalista, vivemos numa cultura não só pragmática e utilitarista, mas altamente consumista. O consumismo traduz para hoje o materialismo de vida, a idéia dominante de felicidade humana, o critério decisivo para o reconhecimento social, a forma mais generalizada do egoísmo humano.
A mensagem evangélica vai noutra direção. Ela nos revela um Deus que é amor, que nos chama à vida e nos salva gratuitamente. Tal nos ensinou Jesus de Nazaré por suas palavras e ações. Sua existência manifesta a confiança, o abandono, a obediência total ao Pai, o absoluto de sua existência, juntamente com um amor comprometido por seus semelhantes, especialmente pelos mais desfavorecidos. Uma existência descentrada de si, polarizada pelo “outro”, livre diante do poder, da fama, da riqueza e do prazer. Uma existência em conflito com o egoísmo, a vaidade, a cobiça humana. Uma existência reveladora de Deus como amor incondicionado pelos seres humanos, representação distinta de outras daquele tempo. Uma existência que experimentou incompreensões, conflitos, humilhações, sofrimentos, morte violenta e prematura. “Veio para o que era seu, e os seus não o acolheram” (Jo 1,11).
Esta existência caracterizada pela doação total de si, passa pela paixão e morte de cruz, e é reconhecida por Deus como uma existência única, tão preciosa a seus olhos que Ele não permite que desapareça, salvando-a e ressuscitando-a. O mistério pascal expressa assim o que foi a existência de Jesus Cristo, sua humilhação e sua glorificação. Ele exprime também o que deve ser a existência do cristão.
A existência de Jesus Cristo mostra-o como dom de Deus aos homens e revelação do amor de Deus. A gratuidade que constitui a existência de Jesus Cristo é a gratuidade do próprio Deus.Viver esta gratuidade é o que melhor caracteriza a existência cristã em nossos dias. Será necessariamente uma existência contra-cultural, que incomodará os seguidores da lógica dominante e provocará conflitos até com aqueles que nos são mais caros. Será uma existência considerada tola e absurda por muitos, desconhecida aos olhos do mundo.
Esta existência caracterizada pela gratuidade constitui o melhor testemunho cristão para nossa sociedade, escravizada ao dinheiro e ao consumo, ao individualismo e ao hedonismo. Pois aponta para uma realidade espiritual, transcendente, meta-histórica, suficientemente capaz de atuar em muitos homens e mulheres, levando-os a relativizar o fascínio exercido pelos bens deste mundo.
O enfraquecimento da fé em Deus é, sem dúvida, também nos países tradicionalmente cristãos, uma preocupante realidade em nossos dias. Muitos vivem em meio a símbolos cristãos, entre os quais o vocábulo Deus, que pouco afetam sua vida cotidiana. Há um evidente esvaziamento das expressões cristãs, constituindo mais representações de uma cultura do que de uma fé. A fé autêntica implica que a realidade de Deus atue, modifique e estruture a existência do ser humano. Caso contrário Deus se resume a apenas um vocábulo, componente da nossa cultura.
A falta de fé leva à imanentização da escatologia, ao querer no presente o que nos é prometido no futuro, a esquecer que Deus é a felicidade plena do ser humano, a qual não pode ser confundida com qualquer bem-estar por nós imaginado e almejado. Viver a gratuidade é testemunhar Deus, é reconhecer a vida atual como realidade provisória, penúltima, passagem para uma realidade definitiva. Viver a gratuidade é atestar a realidade do que não vemos, mas cremos, esperamos e amamos. Viver a gratuidade é viver com seriedade e coerência a mensagem evangélica.
3) A convivência com o diferente. Durante vários séculos o cristianismo, como realidade histórica, se configurou como cristandade. Limitado, sobretudo, ao continente europeu constituía a religião hegemônica, moldando a cultura e a sociedade, oferecendo uma cosmovisão e umethos aceitos e partilhados por todos, proporcionando-lhes uma identidade social e religiosa. A tradição era, sem dificuldade, acolhida pelo indivíduo.
A emancipação progressiva dos vários setores constitutivos da vida humana, como a política, a ciência, a economia, a cultura, privou o cristianismo de sua base social e relegou-o a ser apenas um dos setores desta nova cultura no plural. A racionalidade e a normatividade próprias de cada setor prescindem da fé e gozam de uma autonomia inédita. Neste sentido a secularização, não o secularismo, foi conseqüência do processo de crescimento e de complexidade do próprio saber humano.
A instância única de significação da época de cristandade se vê então rodeada de múltiplas fontes de sentido, que a relativizam, enfraquecem e regionalizam. Neste momento se vê o cristianismo diante de uma tarefa de enormes dimensões. Pois a pretensão cristã de ser o sentido último de toda a realidade, perde credibilidade cada vez que deixa fora de sua cosmovisão qualquer setor da humanidade ou da história. Assim impõe-se com urgência o conhecimento dos outros setores da sociedade e da cultura, para ilumina-los com a luz do Evangelho. Esta difícil tarefa, ainda em pleno curso, se vê agravada pela aceleração das mudanças sócio-culturais.
Para o cristão tal situação é deveras incômoda, pois inevitavelmente tem contato cotidiano com vários “mundos”, cada qual oferecendo linguagens e valores diferentes, nem sempre em consonância com sua fé. Ele sente então que lhe falta o respaldo da sociedade para sua vida cristã e se surpreende, por vezes, como um estranho nesta cultura pluralista. A construção de sua identidade pessoal e religiosa se torna penosa, questionada, angustiante.
Além deste pluralismo cultural, a proximidade inédita das grandes religiões torna o distante e inócuo pluralismo religioso do passado uma realidade desafiante, dentro mesmo dos países tradicionalmente cristãos. A hodierna teologia das religiões, na linha do otimismo salvífico do Concílio Vaticano II, pede do cristão respeito e diálogo com as religiões não cristãs. Embora reconheça nelas elementos que não se ajustam à mensagem evangélica, não lhes pode negar, contudo, abrigarem realidades provenientes da ação do Espírito Santo, que vetam uma condenação indiscriminada das mesmas. Dificilmente poderá o cristão manter-se completamente impermeável à diversidade religiosa que o rodeia. Dificilmente não se surpreenderá ele próprio a olhar sua fé cristã na perspectiva das outras crenças, tecendo comparações, fazendo juízos e ganhando novas compreensões, com o perigo do sincretismo ou da justaposição de elementos contraditórios.
Dentro do próprio cristianismo encontramos o diferente nas Igrejas Ortodoxas e nas comunidades evangélicas. Também aqui o Vaticano II deu um grande passo entrando no movimento ecumênico e pondo fim aos anátemas do passado. A ansiada unidade cristã, contudo, caminha lentamente, pois desfazer equívocos, desarmar espíritos, acolher o diferente, reconhecer-lhe valores, exige coragem e isenção, humildade e conhecimento, que pressupõem necessariamente graça de Deus e também tempo.
Hoje, mais conscientes do contexto sócio-cultural onde se originaram as diferenças e as separações no interior do cristianismo, reconhecemos a possibilidade de se expressar a verdade cristã com acentuações diversas. Este fato possibilita aceitarmos uma unidade diferenciada e enriquecermos nossa compreensão da fé com a contribuição dos nossos irmãos separados. A proximidade das outras religiões nos facilita ver o que temos em comum e urge que nos empenhemos pela unidade do cristianismo, salvaguardada a verdade cristã, e com o devido reconhecimento das acentuações próprias de cada denominação cristã.
E até mesmo no interior da Igreja Católica não podemos evitar o pluralismo. Os diferentes contextos sociais, as diferentes mentalidades, as diferentes situações existenciais vividas por cada um, os diferentes níveis de formação alcançados, tudo isto faz com que se capte e expresse a mesma doutrina católica com traços peculiares. Além disso, os diversos grupos e movimentos presentes na Igreja enfatizam diferentemente os valores cristãos. Não podemos considerar nossas leituras e expressões como as únicas válidas. Hoje respeitamos mais as diferentes culturas encontradas neste planeta e afirmamos não ser necessário sair de sua cultura para se tornar católico. Daí resulta a pluralidade de expressões da mesma fé conforme os diferentes países, pluralidade esta que devemos aceitar com naturalidade.
Esta diversidade religiosa, inevitável em nossos dias, pede primeiramente dos fiéis umaformação espiritual e teológicamais consistente, talvez fator secundário num tempo de cristandade, mas hoje uma necessidade urgente. Pede também, em segundo lugar, que se viva a identidade católica dinamicamente, na inevitável interação contínua com o outro diferente. Esta exigência proíbe o refugiar-se em comunidades-gueto, dando as costas à diversidade cultural e religiosa, numa palavra, à própria sociedade.
Um terceiro postulado diz respeito à Igreja, Particular e Universal. É fundamental que esta identidade dinâmica não só seja vivida e expressa na comunidade eclesial, mas que se deixe por elainterpelar. De fato, ela deve ser reconhecida como católica pelos demais membros da Igreja, aí incluído o magistério eclesiástico. Aqui há toda uma tarefa pastoral que não só incentive o católico a expressar sua fé a partir de seu “mundo”, mas também o eduque para estar aberto e atento à reação da restante comunidade. Só com esta atitude responsável chega na verdade o católico à maioridade na Igreja, podendo assumir ativamente a missão evangelizadora que compete a todos.


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