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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Aprofundado a Teologia Ascética e Mística


TEOLOGIA ASCÉTICA E MÍSTICA

“Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetre todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus. O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas “o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido”. (1 Co 2.9-15).


INTRODUÇÃO


O objeto próprio da Teologia Ascética e Mística é a perfeição da vida cristã.
Aprouve à divina Bondade comunicar-nos, além da vida natural da alma, uma vida sobrenatural, a vida da graça, que é uma participação da vida do próprio Deus, conforme o demonstramos em o nosso Tratado de Gratia. Como esta vida nos é dada em virtude dos merecimentos infinitos de N. S. Jesus Cristo, e como Ele é a sua causa exemplar mais perfeita, chama-se com razão vida crista.
Toda e qualquer vida necessita de se aperfeiçoar, e aperfeiçoa-se, aproximando-se do seu fim. A perdição absoluta é a consecução deste fim, que só no céu alcançaremos. Lá possuiremos a Deus pela visão beatífica e pelo amor puro, e assim chegará a nossa vida à sua plena evolução; então seremos com toda a verdade semelhantes a Deus, porque o veremos tal qual é, símiles ei erimus. quoniam videbimus eum sicuti est. Na terra não podemos adquirir senão uma perfeição relativa, aproximando-nos sem cessar dessa união intima com Deus que nos dispõe para a visão beatífica. Desta perfeição relativa é que vamos tratar.  Expostos os princípios gerais sobre a natureza da vida cristã, a sua perfeição, a obrigação de tender a essa perfeição e os meios gerais de a alcançar, descreveremos sucessivamente as três vias, purgativa, íluminativa e unitiva, pelas quais passam as almas generosas, ávidas de progresso espiritual.


NATUREZA DA TEOLOGIA ASCÉTICA


Seus diferentes nomes
A Teologia Ascética tem diversas denominações.
a) Chamam-na a ciência dos santos, e com razão, pois que nos vem dos santos que a ensinaram e, sobretudo a viveram, e é destinada a fazer santos, explicando-nos o que é a santidade e quais os meios de a alcançar.
b) Outros lhe dão o nome de ciência espiritual porque forma espirituais, isto é, homens interiores, animados do espírito de Deus.
c) Mas, como é uma ciência prática, apelidam-na também a arte da perfeição, por ter como fim conduzir as almas à perfeição cristã; ou ainda, a arfe das artes por não haver arte mais excelente que a de aperfeiçoar uma alma na mais nobre, das vidas, a vida sobrenatural.
d) Contudo, o nome que hoje mais freqüentemente lhe é dado é o de Teologia Ascética e Mística.
1) A palavra  Vishcsa Ascética vem do grego  (exercício, esforço)  e designa todo o exercício laborioso que se refira à educação física ou moral do homem. Ora a perfeição cristã supõe esforços que S. Paulo de bom grado compara aos exercícios de treino, a que se submetiam os lutadores, para assegurarem a vitória. Era, pois, natural designar pelo nome de Ascese os esforços da alma cristã em luta para alcançar a perfeição. Assim o fizeram Clemente de Alexandria e Orígenes e, após eles, um grande número de santos Padres.  Não é, pois de se estranhar que se tenha dado o nome de Ascética à ciência que trata dos esforços necessários para adquirir a perfeição crista.
2) Sem  embargo, durante  longos séculos, o termo  que prevaleceu, para designar esta ciência foi o de Teologia misterioso, secreto, e sobre tudo segredo religioso), porque ela ,Vhtsum Mística expunha os segredos da perfeição. Depois, houve uma época em que essas, duas palavras foram empregadas no mesmo sentido; mas veio a prevalecer o uso de reservar o nome de Ascética à parte da ciência espiritual que trata dos primeiros graus da perfeição até o limiar da contemplação, e o nome de Mística à que se ocupa da contemplação e da via unitiva.
3) Como quer que seja, resulta de todas estas noções que a ciência de que nos ocupamos é sem dúvida a ciência da perfeição cristã: eis o que nos vai permitir assinalar-lhe o lugar que lhe compete no plano geral da Teologia.


O SEU LUGAR NA TEOLOGIA 


4) Ninguém melhor que Santo Tomás fez compreender a unidade orgânica que reina na ciência teológica. Divide a Suma em três partes: na primeira trata de Deus primeiro princípio, que estuda em si mesmo, na Unidade da sua Natureza e na Trindade das suas Pessoas: e nas obras que criou, conserva e governa pela sua providência. Na segunda ocupa-se de Deus ultimo fim, para o qual devem tender os homens, orientando as suas ações para Ele sob a direção da lei e o impulso da graça, praticando as virtudes teologais e morais e os deveres particulares de cada estado. A terceira mostra-nos o Verbo Incarnado fazendo-se nossa via para chegarmos a Deus e instituindo os sacramentos para nos comunicar a graça, a fim de nos conduzir à vida eterna. Neste plano, a Teologia Ascética e Mística está em conexão com a segunda parte da Suma, sem deixar de se apoiar nas outras duas.
5) Mais tarde, sem se deixar de respeitar a sua unidade orgânica, dividiu-se a Teologia em três partes: a Dogmática, à Moral e Ascética.
a) O Dogma ensina-nos, o que é preciso crer sobre Deus, a vida divina, a comunicação que dela se dignou fazer às criaturas racionais e, sobretudo ao homem, a perda desta vida pelo pecado original, a sua restauração pelo Verbo Incarnado, a sua ação na alma regenerada, a sua difusão pelos sacramentos, a sua consumação na glória.
b) A Moral mostra-nos como devemos corresponder a este amor de Deus, cultivando a vida divina de que Ele se dignou outorgar-nos uma participação, como devemos evitar o pecado e praticar as virtudes e os deveres de estado que são de preceito.
c) Mas, quando se quer aperfeiçoar esta vida, passar além do que é estrito mandamento, e progredir na prática das virtudes duma maneira metódica, é a Ascética que intervém, traçando-nos regras de per feição.


SUAS RELAÇÕES COM O DOGMA E A MORAL


6) A Ascética é, pois, uma parte da Moral cristã, mas a parte mais nobre, aquela que tende a fazer de nós cristãos perfeitos. Se bem que se tornou um ramo especial da Teologia, conserva, não obstante, com o Dogma e a Moral relações íntimas.
1º – Tem o seu fundamento no Dogma. Quando quer expor a natureza da vida cristã, é ao Dogma que vai pedir luzes.  Efetivamente esta vida é uma participação da própria vida de Deus; é necessário, pois remontar ao seio da Santíssima Trindade, para lá encontrar o princípio e a origem dessa vida, seguir a sua história maravilhosa, ver como, outorgada a nossos primeiros pais, foi perdida por sua culpa e restaurada por Cristo Redentor; qual é o seu organismo e o seu modo de operar em nossa alma, por que misteriosos canais nela se difunde e aumenta,como se transforma em visão beatífica no céu.  Ora todas estas questões são tratadas na Teologia Dogmática.  Nem, se diga que se podem pressupor; se não se recordam numa síntese curta e viva, a Ascética parecerá sem base e exigir-se-ão às almas, sacrifícios, duríssimos, sem poderem Justificar por uma exposição de quanto Deus fez por nós.
2º – Apoia-se também na Moral e completa-a. Esta explica os preceitos que devemos praticar, para adquirir e conservar a vida divina. Ora a Ascética, que nos fornece os meios de a aperfeiçoar, supõe evidentemente o conhecimento e a prática dos mandamentos; seria perigosa ilusão descurar os preceitos sob color de cultivar os conselhos e pretender praticar as mais altas virtudes, antes de saber resistir às tentações e evitar o, pecado.
3º – Contudo a Ascética é indubitavelmente um ramo distinto da Teologia Dogmática e Moral. Com efeito, tem o seu objeto próprio: colige no ensino de Nosso Senhor, da Igreja e dos Santos tudo o que se refere à perfeição, natureza, obrigação, e meios da vida crista, e coordena todos estes elementos, de sorte que deles se forme uma verdadeira ciência. 1) Distingue-se do Dogma, que não nos propõe diretamente senão verdades que se devem crer, pois que, se é certo que se apóia nessas verdades, orienta-as para a pratica, utilizando-as para nos fazer compreender, gostar e realizar a perfeição cristã. 2) Distingue-se da Moral porque, se bem que relembra os mandamentos de Deus e da Igreja, fundamento de toda a. vida espiritual, propõe-nos os conselhos evangélicos, e, para cada virtude, um grau mais elevado que aquele que é estrita mente obrigatório. É, pois, com toda a razão a ciência da perfeição cristã.


DIFERENÇA ENTRE A ASCÉTICA E MÍSTICA


O que levamos dito aplica-se igualmente a uma e a outra.
A) Para as distinguir, pode-se definir a Teologia Ascética: a parte da ciência espiritual que tem por objeto próprio a teoria e a prática da perfeição cristã desde os seus princípios até o limiar da contemplação infusa. Fazemos começar a perfeição como desejo sincero de progredir na vida espiritual, e a Ascética conduzem a alma, através das vias purgativa e iluminativa, até à contemplação adquirida.
B) A Mística é a parte da ciência espiritual que tem por objeto próprio a teoria e a prática da vida contemplativa, desde a primeira noite dos sentidos e da quietude até o matrimônio espiritual.
a) Evitamos, pois, na definição que damos, fazer da Ascética o estudo das vias ordinárias da perfeição, e da Mística o estudo das vias extraordinárias. E a razão é que hoje se reserva antes o termo de extraordinário para uma categoria especial de fenômenos místicos, os que são graças gratuitamente dadas e se vêm acrescentar à contemplação como os êxtases e as revelações.
b) A contemplação é uma intuição ou vista simples e afetuosa de Deus ou das coisas divinas: chama-se adquirida, quando é fruto da nossa atividade auxiliada pela graça: infusa, quando, ultrapassando essa atividade é operada por Deus com o nosso consentimento.
c) E de propósito que reunimos num só e mesmo tratado a Teologia Ascética e Mística.
1) Sem dúvida que, entre uma e outra, há diferenças profundas que teremos cuidado de assinalar mais tarde; mas; há também entre os dois estados, ascético, e místico, uma certa continuidade que faz que um seja urna espécie de preparação para o outro, e que Deus utilize, quando o julga conveniente, as disposições generosas do asceta para o elevar aos estados, místicos.
2) Em todo o caso, o estudo da Mística, projeta muita luz sobre a Ascética e reciprocamente; porque os caminhos de Deus são harmônicos, e a ação tão poderosa que Ele exerce sobre as almas místicas faz melhor perceber, pelo relevo com que ela aparece, a sua ação menos vigorosa sobre os principiantes; assim as provações passivas, descritas por S. João da Cruz, fazem melhor compreender as securas ordinárias que se experimentam nos estados inferiores, e do mesmo modo entendem-se melhor as vias místicas, quando se vê a que docilidade, a que maleabilidade chega uma alma que, durante longos anos, se entregou aos árduos trabalhos da ascese. Estas duas partes duma mesma ciência esclarecem-se, pois, naturalmente e lucram em não serem separadas.


AS FONTES DA TEOLOGIA ASCÉTICA E MÍSTICA


Visto que a ciência espiritual é um dos ramos da Teologia, é evidente que as suas fontes são as mesmas que para esta: antes de tudo, as fontes que contêm ou interpretam o depósito da Revelação a Escritura e a Tradição: depois, as fontes secundárias, todos os conhecimentos que nos vêm da razão iluminada pela fé e pela experiência. Não temos, pois, aqui senão que notar o uso que delas se pode fazer na Teologia Ascética.   

O MÉTODO QUE SE DEVE SEGUIR


Para melhor se utilizarem as fontes que acabamos de descrever, que método se deve empregar? O método experimental, descritivo, o método dedutivo, ou enfim a união dos dois? Qual o espírito que deve presidir ao emprego destes métodos?
1º O método experimental, descritivo ou psicológico, consiste em observar em si ou nos outros, classificar, coordenar os fatos ascéticos ou místicos, para deles induzir os sinais ou notas características de cada estado, as virtudes ou disposições que convêm a da um deles; e isto, sem se inquietar com a natureza ou causa destes fenômenos, sem inquirir se eles procedem das virtudes, dos dons do Espírito Santo, ou de graças miraculosas. Este método, na sua parte positiva, tem numerosas utilidades; porquanto, é mister conhecer bem os fatos, antes de explicar a sua natureza e causa.
Mas, se se empregar exclusivamente: 
a) Não pode constituir uma verdadeira ciência. Não há dúvida que lhe subministra os fundamentos, a saber, os fatos e as induções imediatas que deles se podem tirar; pode até determinar quais são os meios práticos que geralmente dão melhor resultado. Sem embargo, enquanto se não sobe à natureza íntima e à causa destes fatos, trata-se antes de psicologia que de teologia; ou, se se descrevem minuciosamente os meios de praticar esta ou aquela virtude, não se mostra suficientemente a força íntima, o estímulo que ajuda a exercitar essa virtude.
b) Daqui o perigo de cair em opiniões mal fundadas. Se, na contemplação, não se distingue o que é miraculoso, como o êxtase, a levitação, do que constitui o seu elemento essencial, isto é, o olhar prolongado e afetuoso sobre Deus, sob a ação duma graça especial, poder-se-á daí concluir com demasiada facilidade que toda a contemplação é miraculosa: o que é contrário à doutrina comum.
c) Muitas das controvérsias sobre os estados místicos se atenuariam, se às descrições desses estados se acrescentassem as distinções e precisões que fornece o estudo teológico. Assim, a distinção entre a contemplação adquirida e infusa permite compreender melhor certos estados de alma muito reais e conciliar certas opiniões que, à primeira vista, pareciam contraditórias.
Do mesmo modo na contemplação passiva, há muitos graus: há uns em que basta o uso aperfeiçoado dos dons; outros há em que Deus tem de intervir para ordenar as nossas idéias e ajudar-nos a tirar delas conclusões surpreendentes: há outros enfim que mal se podem explicar senão por conhecimentos infusos. Todas  estas distinções são resultados de longas e pacientes investigações, há um tempo especulativas e práticas; se se fizessem, reduzir-se-ia o número das divergências que separam as diversas escolas.
2º O método doutrinal ou dedutivo consiste em estudar com cuidado o que nos ensinam acerca da vida espiritual a Escritura, a Tradição, a Teologia, em particular a Suma de Santo Tomás, em deduzir daí conclusões sobre a natureza da vida cristã, a sua perfeição, a obrigação e os meios de a ela tender, sem se preocupar suficientemente dos fatos psicológicos, do temperamento e do caráter dos dirigidos, das suas Inclinações, dos resultados produzidos sobre tal ou tal alma por este ou aquele meio e sem estudar por miúdo os fenômenos místicos descritos pelos Santos que os experimentaram, como Santa Teresa, S. João da Cruz, S. Francisco de Sales, etc., ou ao menos sem lhes dar a importância devida. Como estamos expostos a enganar-nos em nossas deduções, é prudente submetê-las à contraprova dos fatos. Se, por exemplo, se verifica que a contemplação infusa é assaz rara, far-se-ão certas restrições à tese sustentada por algumas escolas, a saber, que todos são chamados aos mais elevados graus da contemplação.
3º União dos dois métodos:
A) É necessário, pois, saber combinar harmonicamente os dois métodos. É em realidade o que f azia maior parte dos autores; há entre eles unicamente esta diferença, que uns se apóiam mais nos fatos e outros nos princípios. Nós esforçar-nos-emos por nos conservar entre os dois extremos, sem termos a pretensão de o haver conseguido.
a) Os princípios da Teologia Mística, deduzidos das verdades reveladas pelos grandes mestres, ajudar-nos-ão a melhor observar os fatos, a analisá-los de modo mais completo, a ordená-los de maneira mais metódica, a interpretá-los mais criteriosamente; não esqueceremos, efetivamente, que os místicos descrevem as suas impressões, sem quererem, muitas vezes ao menos, explicar a sua natureza. Os princípios ajudar-nos-ão também a investigar a causa dos fatos, tendo em conta as verdades já conhecidas, a coordená-los de maneira que deles se faça uma verdadeira ciência.
b) Por outro lado, o estudo dos fatos ascéticos e místicos corrigirá o que poderia haver de demasiado rígido e absoluto nas conclusões puramente dialéticas; porquanto, não pode haver oposição absoluta entre os princípios e os fatos; se, pois, a experiência mostra que o número dos místicos é restrito, não deve haver pressa em concluir que isto depende unicamente das resistências à graça. É útil também refletir por que é que nas causas de canonização se julga da santidade muito mais pela prática das virtudes heróicas do que pelo gênero de oração ou de contemplação; estes fatos poderão, efetivamente mostrar que o grau de santidade não está sempre e necessariamente em relação com o gênero e grau de oração.
B) De que modo fundir em um só estes dois métodos?       
a) É mister, primeiro, estudar a doutrina revelada, tal qual nos é fornecida pela Escritura e pela Tradição, compreendendo nela o magistério ordinário da Igreja; e, com o auxílio dessa doutrina, determinar, pelo método dedutivo, o que é a vida e a perfeição cristã, quais são os seus diferentes graus, a marcha progressiva seguida geralmente para chegar à contemplação, passando pela mortificação e pela prática das virtudes morais e teologais; em que consiste esta contemplação, quer nos seus elementos essenciais, quer nos fenômenos extraordinários que por vezes a acompanham.
b) A este estudo doutrinal é preciso ajuntar o método de observação: 1) examinar com cuidado as almas, as suas qualidades e defeitos, a sua fisionomia especial, as suas inclinações e repugnâncias, os movimentos da natureza e da graça que nelas se produzem; estes conhecimentos psicológicos permitirão determinar mais exatamente os meios de perfeição que mais lhes convêm; as virtudes de que têm maior necessidade e para as quais a graça as inclina, a sua correspondência a esta graça, os obstáculos que elas encontram e os meios que melhor resultado lhes dão para triunfar deles. 2) Para dilatar o campo da experiência, ler-se-ão as vidas dos Santos, sobretudo as que, sem dissimular os seus defeitos mostram a maneira progressiva como eles os combateram, como e por que meios praticaram as virtudes; passaram-se, e como, da via ascética à via mística, sob que influências. 3) É também na vida dos contemplativos que se estudarão os fenômenos diversos da contemplação, desde os primeiros lampejos indecisos até os mais elevados cimos, os efeitos de santidade produzidos por estas graças, as provações a que foram submetidos, as virtudes que praticaram. Tudo isso virá completar e por vezes retificar os conhecimentos teóricos que se tinham adquirido.
c) Com o, auxílio dos princípios teológicos e dos fenômenos místicos bem estudados e classificados, poder-se-á subir mais facilmente a natureza da contemplação, às suas causas, às suas espécies, distinguir o que há nela de normal e de extraordinário. 1) Perguntar-se-á em que medida os dons do Espírito Santo, são os princípios formais da contemplação, e como se devem cultivar, para a alma se pôr nas disposições interiores favoráveis à contemplação. 2) Examinar-se-á se os fenômenos devidamente verificados se explicam todos pelos dons do Espírito Santo, se alguns não supõem espécies infusas, e como estas operam na alma; ou, então, se é o amor que produz estes estados de alma sem conhecimentos novos. 3) Então é que se poderá ver melhor em que consiste o estado passivo e em que proporção a alma nele permanece ativa, a parte de Deus e da alma na contemplação infusa; o que é ordinário neste estado, e o que se torna extraordinário e preternatural. Assim se poderá estudar melhor o problema da vocação ao estado místico e do número maior ou menor dos verdadeiros contemplativos.
Procedendo assim, teremos mais probabilidade de chegar à verdade, a conclusões práticas para a direção? Das almas; um estudo deste gênero será não menos atraente que santificante.
4º Com que espírito se deve seguir este método? Seja qual for o método empregado é mister estudar estes árduos problemas com muita serenidade e ponderação, com o fim de conhecer a verdade, e não para fazer triunfar a todo o transe, o sistema que tem as nossas preferências.
a) Por conseguinte, importa destrinçar e pôr em evidência tudo o que é certo ou comumente admitido e rejeitar para segundo plano o que é matéria de debate. A direção, que se ha de dar às almas, não depende das questões controversas, senão das doutrinas comumente recebidas. Há unanimidade em todas as escolas para reconhecer que a abnegação e a caridade, o sacrifício e o amor são necessários a todas as almas, e em todas as vias, e que a combinação harmônica deste duplo elemento depende muito do caráter das pessoas que se dirigem. Todos admitem que não se deve jamais cessar de praticar o espírito de penitência, posto que ele tome diferentes formas segundo os diferentes graus de perfeição; que é preciso exercitar as virtudes morais e teologais de maneira cada vez mais perfeita, para chegar à via unitiva, e que os dons do Espírito Santo, cultivados com desvelo, dão à nossa alma uma maleabilidade que a torna mais dócil às inspirações da graça, e a preparam, se Deus a chamar, para a contemplação. Há igualmente acordo sobre este ponto importante, que a contemplação infusa é essencialmente gratuita, que Deus a dá a quem quer e quando quer; que, por conseguinte, ninguém se pode colocar a si mesmo no estado passivo, e que os sinais de vocação próxima a este estado são os que tão bem descreve S. João da Cruz. E uma vez chegados à contemplação, devem as almas por confissão de todos, progredir na conformidade perfeita com a vontade de Deus, na confiança ilimitada e, sobretudo na humildade, virtude que recomenda constantemente Santa Teresa.
Podem-se, pois, dirigir prudentemente as almas, ainda mesmo as que são chamadas à contemplação, sem se haverem resolvido todas as questões controversas, que são ainda problema para os autores contemporâneos.

EXCELÊNCIA E NECESSIDADE DA TEOLOGIA ASCÉTICA


O pouco, que levamos dito sobre a natureza, fontes e método da Teologia Ascética permite-nos entrever a sua excelência e necessidade. A excelência tira-se do objeto. Ora o seu objeto é um dos mais nobres que é possível estudar, pois é uma participação da vida divina comunicada à alma e cultivada por ela com ardor infatigável. E, se analisarmos esta noção, veremos como este ramo da Teologia é digno da nossa atenção.
1º Aqui estudamos, antes de tudo, a Deus nas suas relações mais íntimas com a alma: a Santíssima Trindade que habita e vive em nós, comunicando-nos uma participação da sua vida, colaborando com as nossas boas obras, e por esse meio auxiliando-nos a aumentar sem interrupção em nós essa vida sobrenatural, a purificar a nossa alma, a aformoseá-la pela prática das virtudes, a transformá-la até que ela esteja madura para a visão beatífica. Pode-se imaginar coisa maior, mais excelente que esta ação de Deus que transforma as almas, para as unir e assemelhar a si mesmo de maneira tão perfeita?
2º Estudamos, em seguida, a própria alma na sua colaboração com Deus, desembaraçando-se pouco a pouco dos seus defeitos e imperfeições, cultivando as virtudes cristãs, esforçando-se por imitar as perfeições de seu divino modelo, apesar dos obstáculos que encontra dentro e fora de si mesma, cultivando os dons do Espírito Santo, adquirindo uma prodigiosa maleabilidade para obedecer aos mínimos toques da graça e, aproximando-se assim, cada dia de seu Pai celeste.  Se hoje se consideram todas as questões relativas à vida como as mais dignas de cativar a nossa atenção, que dizer duma ciência que trata da vida sobrenatural,  da participação da vida do próprio Deus, que descreve as suas origens, os seus progressos e o seu inteiro desenvolvimento no céu? Não será porventura o objeto mais nobre dos nossos estudos? E não é também o mais necessário?

AÇÃO DA MÍSTICA


É necessário ignorar absolutamente a história, para afirmar que a contemplação prejudica a ação: Diz M. Montmorand “Os verdadeiros místicos, são homens de senso prático e de ação, não de raciocínio e teoria. Tem o espírito da organização, o dom do comando e revelam-se muito bem dotados para os negócios. As obras, que fundam, oferecem condições de vida e duração; em conceber e dirigir as suas empresas dá prova de prudência e arrojo, e dessa justa apreciação das possibilidades que caracteriza o bom senso E, de feito, o bom senso parece ser a sua qualidade principal: um bom senso que não é perturbado por exaltação alguma doentia ou imaginação desordenada, e a que anda junto o mais raro poder de penetração”.  Pois não vemos, ao ler a História da Igreja, que a maior parte dos santos, que escreveram sobre a vida espiritual eram ao mesmo tempo homens de ciência e ação? Sirvam de testemunhas: Clemente de Alexandria, S. Basílio, S. Crisóstomo, S. Ambrósio, S. Agostinho, S. Bento, S. Gregório, S. Anselmo, S. Bernardo, S. Francisco de Assis, S. Alberto Magno, Santo Tomás, S. Boaventura, Catarina de Sena, Santa Teresa, S. Francisco de Sales, S. Vicente de Paulo, F.J. Spener, Madame Guyon, J. Wesley, George Fox, J. Woolman, T. Merton, J. Main e Henri J. M. Nouwen.


DOS DIVERSOS GRAUS DE PERFEIÇÃO


A perfeição neste mundo tem seus graus e limites.
 Os graus, pelos quais a alma se eleva à perfeição, são numerosos; não se trata aqui de os enumerar todos, senão de assinalar os principais estádios. Ora, segundo a doutrina comum, exposta por Santo Tomás, distinguem-se três estádios principais, ou, como geralmente se diz, três vias, a dos principiantes a das almas em progresso, a dos perfeitos, segundo o fim principal que se tem em vista.  
a) No primeiro estádio, o principal cuidado dos principiantes é não perder a caridade que possuem; fazem, pois, esforços para o pecado, sobretudo o pecado mortal, e para triunfarem das más inclinações, das paixões e de tudo quanto lhes poderia fazer perder o amor de Deus. É a via purgativa, cujo fim é purificar a alma das suas faltas.
b) No segundo estádio, quer-se progredir na prática positiva das virtudes, e fortificar a caridade. O coração, já purificado, está por isso mesmo mais aberto à luz divina e ao amor de Deus: a alma com praz-se em seguir a Jesus e em imitar as suas virtudes, e, como segui-lo é caminhar na luz, por isso esta via se chama iluminativa.  A alma aplica-se a evitar não somente o pecado mortal, mas ainda o venial.
c) No terceiro estádio, os perfeitos não têm mais que um cuidado: aderir a Deus e ter nele as suas delícias. Procurando constantemente unir-se a Deus estão na via unitiva. O pecado faz-lhes horror, porque receiam desagradar a Deus e ofendê-lo; as virtudes atraem-nos, sobretudo as virtudes teologais, porque são meios de se unirem a Deus. E assim a terra lhes parece um desterro e, como S.Paulo Apóstolo, desejam morrer, para irem estar com Nosso Senhor Jesus Cristo (Fl 1.23).


AS TRÊS VIAS


Na autoridade da Sagrada Escritura e da Tradição
A) É incontestável que se poderiam encontrar no Antigo Testamento muitos textos relativos à distinção das três vias. Cf. Gn 37.23-28; 41.14-41; 45.1-9. Assim, Alvarez de Paz apoia-se neste passo, que lhe fornece a sua divisão: “Declina, a malo et fac bonum, inquire pacem et persequere eam”: Declina o mal, evita o pecado: eis claramente indicada a purificação da alma ou a via purgativa; fac bonum, faze o bem, ou pratica a virtude: é a  via iluminativa; inquire pacem, busca a paz, aquela paz que se não pode encontrar senão na intima união com Deus: temos aqui a via unitiva. É uma interpretação engenhosa do texto; há se veja, porém, nela uma prova decisiva.  
B) No Testamento Novo: a) podem-se aduzir, entre várias outras estas palavras de N. S. Jesus Cristo, que resumem a espiritualidade tal como é descrita pelos Sinópticos: A abnegação ou a renúncia, abneget semetipsum, eis o primeiro grau; o levar a cruz supõe já o exercício positivo das virtudes, ou o segundo grau; o sequatur me é, afinal, a união íntima com Jesus, a união com Deus, e, por conseguinte a via unitiva. Também aqui se encontra sem dúvida do fundamento duma distinção real entre os diferentes meios de perfeição, mas não uma prova peremptória. S. Paulo também não ensina de modo explícito a distinção das três vias; descreve, porém, três estados de alma, que deram lugar mais tarde a esta distinção.       
1) Relembrando o que faziam os atletas, com o fim de conquistarem uma coroa perecedoura, compara-se com eles e assevera que se esforça igualmente por correr e lutar, mas que, em vez de dar golpes no ar, castiga o seu corpo e o trata como escravo para evitar o pecado e a reprovação que o pune, 1Co 9.26,27. Eis perfeitamente assinalados os exercícios da penitência e da mortificação, sob o influxo dum temor salutar, com o fim de sopear a carne e purificar a alma. E quantas vezes não recorda aos cristãos que é indispensável se despojem do homem velho e crucifiquem a carne com seu vícios e concupiscências! É exatamente o que nós chamamos a via purgativa.
2) Escrevendo aos Filipenses, declara que ainda não chegou à perfeição, mas que segue o seu Mestre e se esforça por alcançá-la, não olhando para trás, mas lançando-se com ardor para a meta, para onde avança Fl 3.13,14. E acrescenta que todos aqueles, que tendem à perfeição, devem proceder do mesmo modo, Fl 3.15-17.  E noutra parte: “Imitadores mei estote, sicut et ego, Chrísti, sede meus imitadores como eu o sou de Jesus Cristo”. São estas precisamente as características, da via iluminativa, em que o dever principal é imitar a Nosso Senhor Jesus Cristo, 1Co 4. 16; 11.1.
3) Quanto à via unitiva, descreve-a S.Paulo sob as duas formas: a via unitiva simples, em que a alma se esforça por fazer viver constantemente Jesus em si mesma: “Vivo autem iam, non ego, vivit vero im me Christus, Gl 2.20; e a via unitiva extraordinária, acompanhada de êxtases, visões e revelações, Gl 1.12; IICo 12.1-4, (ápice da contemplação mística).
Há, pois, nas Epistolas de S. Paulo um fundamento real para a distinção das três vias, que a Tradição vai fixar com maior precisão.
A Tradição pouco a pouco vai precisando esta distinção, apoiando-a umas vezes sobre a diferença entre as três virtudes teologais, outras sobre os diversos graus de caridade.
a) Clemente de Alexandria é um dos primeiros autores que expõe o primeiro método. Para se chegar a ser gnóstico ou homem perfeito, é mister passar por diversos estádios: abster-se do mal por temor e mortificar as paixões; depois fazer o bem ou praticar as virtudes sob o influxo da esperança; praticar enfim o bem por amor de Deus. É essa mesma teoria que leva. Cassiano a distinguir três graus na ascensão da alma para Deus: o temor, que é próprio dos escravos, a esperança que convém aos mercenários que trabalham pela recompensa; a caridade, que é a característica dos filhos de Deus.
b) S. Agostinho coloca-se noutra perspectiva: como a perfeição consiste na caridade, distingue quatro graus na prática desta virtude: a caridade que começa, a caridade que progride, a caridade que é já crescida, a caridade dos perfeitos; como, porém, estes dois últimos graus se refere à via unitiva, a sua doutrina não difere, afinal, da dos seus predecessores. S. Bernardo distingue também três graus no amor de Deus: depois de haver mostrado que o homem começa por se amar a si mesmo, acrescenta que, sentindo a sua insuficiência, principia a buscar a Deus pela fé e a amá-lo por causa dos seus benefícios; depois, à força de o freqüentar, eleva-se a amá-lo não só pelos seus benefícios senão também por si mesmo; enfim acaba por amá-lo com amor completamente desinteressado. Finalmente Santo Tomás, aperfeiçoando a doutrina de S. Agostinho mostra claramente que há na virtude da caridade, três graus que correspondem às três vias ou três estádios.
A razão mostra, a legitimidade desta distinção. É evidente que, antes de chegar à união íntima com Deus, tem a alma primeiramente que se purificar das suas faltas passadas e premunir-se contra as futuras. A pureza de coração é, segundo o testemunho de Nosso Senhor Jesus Cristo, a primeira condição essencial para ver a Deus: para O ver claramente na outra vida, mas também para O entrever e alcançar a união com Ele nesta vida, Sl 24. 2,3; Mt 5.8.

É, pois, um dever para nós submeter-nos a Deus em todos os acontecimentos prósperos ou adversos, nas calamidades públicas ou nos infortúnios privados, nas intempéries das estações, na miséria e no sofrimento, nos lutos que nos ferem como nas alegrias, na desigual repartição dos dons naturais, na pobreza como na riqueza, nos reveses como nos triunfos, nas aridezes como nas consolações, na doença como na saúde, na morte com os sofrimentos e incertezas que a acompanham. Como dizia o santo Job: “Se recebemos os bens da mão de Deus, por que não havemos de receber também os males: Si bona. suscepimus de manu Dei, mala quare non suscipiamus”? Comentando estas palavras, S. Francisco de Sales admira-lhes a beleza: “Ó meu Deus, como esta palavra é de grandíssimo amor! Ele pensa, ótimo que foi da mão de Deus que recebeu os bens, testemunhando que não havia estimado tanto os bens, por serem bens, quanto por virem da mão do Senhor. E, sendo Isto assim, conclui que então é mister suportar amorosamente as adversidades visto procederem da mão do mesmo Senhor, tão amável, quando distribui aflições, como quando dá consolações”. É que na verdade as aflições nos dão ensejo de melhor testemunhar o nosso amor a Deus: amá-lo, quando nos cumula de bens, é coisa fácil; mas só ao amor perfeito compete receber os males da sua mão, pois que estes não são amáveis senão por causa da mão daquele que os dá.
Este dever de submissão ao beneplácito de Deus nos acontecimentos adversos é dever de justiça e obediência, visto ser Deus o nosso Supremo Senhor que tem toda a autoridade sobre nós; dever de sabedoria, porque seria loucura querer escapar à ação da Providência, quando só na humilde resignação encontramos a paz; dever de interesse, pois que a vontade de Deus não nos envia provações senão para nosso bem, a fim de nos exercitar na virtude e de nos fazer adquirir merecimentos; mas, sobretudo dever de amor, já que o amor é o dom de si mesmo até à imolação.
c) Todavia, para facilitar às almas provadas a submissão à vontade divina, enquanto não têm Che gado ainda ao amor da cruz, é bom sugerir-lhes alguns meios, para lhes suavizar os sofrimentos. Dois remédios as podem aliviar, um negativo e outro positivo. 1) O primeiro é não os agravar com uma falsa táctica: ha quem colecione os seus males passados, presentes e futuros e forme com eles uma espécie de montanha, que lhes parece insuportável. É o contrário que se deve fazer: basta a cada dia o seu cuidado: “sufficit diei malitia sua”. Em vez de avivar as chagas do passado, já cicatrizadas, é preciso ou não tornar a pensar mais nelas ou não pensar senão para ver os frutos que delas se colheram: os méritos adquiridos, o crescimento na virtude, produzido pela paciência, o hábito de sofrer. Assim se atenua a dor, porque um mal não nos aflige senão quando lhe damos atenção: uma maledicência, uma calúnia, um insulto não nos magoam, senão quando os revolvemos no espírito com amargura. Quanto ao futuro é loucura preocupar-se dele. É prudente sem dúvida prevê-lo, para nos prepararmos para ele, na medida em que nos for possível; mas pensar de antemão nos males que nos podem suceder, entristecendo-nos com isso, é malbaratar o tempo e as  energias sem proveito nenhum; porque enfim esses males pode bem ser que nunca venham a suceder. Quando sobre nós desabarem, então será tempo de os suportar com o auxílio da graça, que nos será dada para os suavizar. Neste momento não a temos; e, entregues às nossas próprias forças, não podemos deixar de sucumbir sob o peso da carga que nos impomos a nós mesmos. Não é mais prudente lançarmo-nos nos braços do nosso Pai celestial, desterrando implacavelmente, por malfazejos e perversos, os pensamentos ou imagens que nos representem sofrimentos passados ou futuros?
O remédio positivo é, no momento em que se sofre, pensar nas grandes utilidades do sofri mento. O sofrimento e um educador, um manancial de merecimentos. É, um educador, isto é, uma fonte de luz e de força: lembra-nos que na terra somos degredados, a caminho para a pátria, e que não devemos divertir-nos a colher as flores das consolações, já que a verdadeira felicidade não se encontra mais que no céu. Ora, como disse o poeta: “Quando o exílio é suave demais, faz-se dele a pátria!”
É também uma força: o hábito do prazer afrouxa a atividade, amolece as energias e prepara vergonhosas capitulações; pelo contrário, o sofrimento, não por si mesmo, senão pela reação que provoca, retesa e acrescenta as nossas energias e torna-nos apto às másculas virtudes, como se viu no decurso da grande guerra.
É igualmente um manancial de merecimentos, para nós e para os outros. Pacientemente suportado, por Deus e em união com Jesus Cristo, o sofrimento merece-nos um peso eterno de glória, como S.Paulo relembra sem cessar aos primeiros cristãos: “Eu tenho para mim que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção alguma com a glória futura que se manifestará em nós… Porquanto, o que é aqui para nós de tribulação momentânea e ligeira, produz em nós, de modo inteiramente maravilhoso, no mais alto grau, um peso eterno de glória, Rm 8.18; 2Co 4.17; Cl 1.24. Tudo, pois, nos convida a confirmar a nossa vontade com a de Deus, ainda mesmo no meio das provações; vejamos quais são os seus graus.


GRAUS DE CONFORMIDADE COM A VONTADE DE DEUS


S. Bernardo distingue três graus desta virtude que correspondem aos três graus da perfeição cristã: “O principiante, movido pelo temor, suporta a cruz de Cristo com paciência; o proficiente, movido pela esperança, leva-a com certa alegria; o perfeito, consumado em caridade, abraça-a com ardor”.
A) Os principiantes, sustentados pelo temor de Deus, não amam o sofrimento, ante o procuram evitar; contudo, antes querem sofrer que ofender a Deus, e, posto que gemendo sob o peso da Cruz, suportam-na com paciência: são resignados. 
B) Os proficientes sustentados pela esperança e desejo dos bens celestes, e sabendo que cada sofrimento nos vale um peso eterno de glória, não buscam ainda a cruz, mas levam-na de bom grado, com certa alegria.
C) Os efeitos, guiados pelo amor vão mais longe: para glorificarem a Deus, que amam, para se conformarem mais perfeitamente com Jesus Cristo, vão ao encontro das cruzes, desejam-nas, abraçam-nas com ardor, não que elas sejam amáveis por si mesmas, mas porque nos são um meio de testemunhar o nosso amor a Deus e a Jesus Cristo. Como os apóstolos regozijam-se de terem sido julgados dignos de ser ultrajados pelo nome de Jesus; como S. Paulo sentem-se inundados de gozo no meio das suas tribulações. Este ultimo grau chama-se a entrega total a Deus; volta remos a falar dele mais tarde, ao tratarmos do amor de Deus.


EFICÁCIA SANTIFICADORA DA CONFORMIDADE COM A VONTADE DE DEUS


Do que fica dito, resulta evidentemente que esta conformidade com a vontade de Deus não pode deixar de nos santificar, pois que une a nossa vontade, e, por conseguinte, as nossas demais faculdades Aquele que é a fonte de toda a santidade. Para melhor o realizarmos, vejamos como ela nos purifica, nos reforma e nos conforma com Jesus.
Uma vez assim purificada e reformada a alma, tem que se adornar das virtudes cristãs positivas, que a tornarão mais semelhante a Jesus Cristo; aplica-se, pois, a segui-lo passo a passo, a reproduzir progressivamente as suas disposições interiores, praticando ao mesmo tempo as virtudes morais e teologais: as primeiras abrandam-na e fortificam-na, as segundas começam já a uni-la positivamente com Deus; tanto umas como outras se praticam paralelamente, segundo as necessidades do momento e as inspirações da graça.
Para melhor realizar este empenho, vai a alma aperfeiçoando a oração, que se torna cada vez mais afetiva, e esforça-se por amar e imitar a Jesus Cristo. Por este processo avança na via iluminativa, porque seguir a Jesus, é seguir a luz: qui sequitur me non ambulat in tenebrís.
E chega enfim o momento em que, purificada já das suas faltas, abrandada e fortificada, dócil às inspirações do Espírito Santo, a alma não aspira senão à união intima com Deus: busca-O por toda a parte, até no meio das ocupações mais absorventes; une-se a Ele e goza da sua presença. A sua oração simplifica-se cada vez mais: é um olhar afetuoso e prolongado sobre Deus e sobre as coisas divinas, sob a direção do Divino Espírito Santo.


DO AMOR DE DEUS


“Amo a Deus até a loucura, por todos aqueles que não o amam”. Santa Teresinha do Menino Jesus, Doutora da Igreja


SUA NATUREZA


O primeiro objeto da caridade de Deus, que, por ser a plenitude do ser, da beleza e da bondade, é infinitamente amável. É Deus, considerado em toda a infinita realidade das suas perfeições, e não tal atributo divino em particular. Demais, a consideração dum atributo só, como a misericórdia, facilmente nos conduz à consideração de todas as perfeições. E depois, não é necessário conhecê-las por menores; as almas simples amam a Deus Nosso Senhor tal qual a fé no-lo dá a conhecer, sem analisar os seus atributos. Para elucidar a noção do amor de Deus, explicaremos o preceito que no-lo impõe, o motivo em que se apóia e os diferentes graus pelos quais chegamos ao amor puro.
O preceito. A) Já formulado no Antigo Testamento, é renovado e proclamado por Cristo Senhor Nosso como o resumo da Lei e dos Profetas: “Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu espírito”. É dizer que devemos amar a Deus sobre todas as coisas e com todas potências da nossa alma.
É o que explica excelentemente S. Francisco de Sales. “É o amor que deve prevalecer sobre todos os nossos amores e reinar sobre todas as nossas paixões: e é o que Deus reclama de nós, que entre todos os nossos amores o seu seja o mais cordial, dominando sobre todo o nosso coração; o mais afeiçoado, ocupando toda a nossa alma; o mais geral, empregando todas as nossas potências; o mais elevado, enchendo todo o nosso espírito, e o mais firme, pondo em exercício toda a nossa força e vigor”. E conclui com um magnífico rapto de amor: “Eu sou Vosso, Senhor, e não devo ser senão para Vós; a minha alma é Vossa, e não deve viver senão para Vós; a minha vontade é Vossa, e não devo amar senão para Vós; o meu amor é Vosso, e não deve tender se não para Vós. Devo amar-Vos como meu primeiro princípio, pois sou de Vós; devo amar-Vos mais do que meu ser, pois o meu ser subsiste por Vós; devo amar-Vos mais que a mim mesmo, pois sou tudo para Vós e em Vós”.
B) O preceito da caridade é, pois, sobre maneira extenso; em si, não tem limites, porque a medida de amar a Deus é amá-lo sem medida, S.Bernardo de Claraval; obriga-nos, pois, a tender incessantemente para a perfeição e a nossa caridade deve ir sempre crescendo até à morte. Segundo a doutrina de Santo Tomás, a perfeição da caridade é imperada como fim; é, pois, necessário querer alcançá-la. Disse: a perfeição consiste essencialmente no amor de Deus e do próximo amado por Deus”. S. Agostinho também afirma que a perfeição consiste na caridade.
Quanto aos graus do amor, distingue quatro S. Bernardo. O homem ama-se, primeiramente, a si mesmo por si mesmo; porque é carne e incapaz de gostar outra coisa diversa de si mesmo 2) Depois, sentindo a sua insuficiência, começa a buscar a Deus pela fé e a amá-lo como um auxílio necessário; neste segundo grau, ama a Deus, não ainda por Deus, mas por si mesmo. 3) Dentro em breve, porém, à força de tratar é freqüentar a Deus como um arrimo necessário, vai vendo pouco a pouco como Deus é suave e começa á amá-lo por si mesmo. 4) Enfim, o último grau, que bem poucos alcançam na terra, é amar-se a si mesmo unicamente por Deus, e, por conseguinte, amar a Deus exclusivamente por si mesmo.
Deixando de parte o primeiro grau, que não é mais que o amor de si mesmo restam três graus de amor de Deus, que correspondem aos três graus de perfeição que já expusemos.  


PAPEL SANTIFICADOR DO AMOR DE DEUS


A caridade é em si a mais excelente e, por isso mesmo, a mais santificante das virtudes; já o provamos, mostrando que ela constitui a própria essência da perfeição, que encerra todas as virtudes e lhes dá uma perfeição especial, fazendo convergir os seus atos para Deus, amado sobre todas as coisas.
É o que declara S. Paulo em linguagem lírica: “Se eu falar as línguas dos homens e dos anjos, mas não tiver caridade, sou como o metal que soa ou como o sino que tine. E, se eu tiver o dom de profecia e conhecer todos os mistérios e quanto se pode saber, e se tiver toda a fé, até o ponto de transportar montanhas, mas não tiver caridade, não sou nada. E, se eu distribuir todos os meus bens no sustento dos pobres, e se entregar o meu corpo para ser queimado, se, todavia não tiver caridade, nada disto me aproveita.
A caridade é paciente, é benigna; a caridade não é invejosa, não obra temerária nem precipitadamente, não se ver distintamente nele todas estas virtudes e grandezas… E, como cada uma destas coisas é o mesmo, ser de Deus em um só suposto seu, que é o Pai ou o Filho ou o Espírito Santo, sendo cada atributo destes o mesmo Deus, e sendo Deus infinita luz e infinito rogo divino…
Há casos, sem dúvida, em que a luz não é tão distinta, em que permanece obscura e confusa; mas ainda então, impressiona vivamente a alma, conforme expusemos. Mas produz, sobretudo a contemplação um amor ardentíssimo, que, segundo S. João da Cruz, é caracterizado por três excelências principais.
a) Primeiro ama a Deus a alma, não de si mesma, mas por Ele; o que é uma excelência admirável, porque ama assim pelo Espírito Santo, como o Pai e o Filho amam; o que o próprio Filho declara em São João: “A fim que o amor com que Tu me amaste, esteja neles, e eu também esteja neles.”“.
b) A segunda excelência é amar a Deus em Deus: porque nesta união ardente a alma se absorve em amor de Deus, e Deus se entrega à alma com grande veemência. 
c) A terceira excelência do amor supremo é que a alma ama a Deus neste estado pelo que Ele é; quer dizer, ama-o não somente porque Ele se mostra para com ela generoso, bom e glorioso, etc., mas muito mais ardentemente, porque Ele é tudo isto essencialmente.
Podemos acrescentar, com S. Francisco de Sales, que esse amor para com Deus é tanto mais ardente quanto é certo que se baseia num amor experimental. Do mesmo modo que aquele que “com uma vista bem clara sente e ressente o agradável esplendor do belo sol nascente”, aprecia melhor a luz que o cego de nascimento, que dela não conhece mais que a descrição, assim aquele que goza de Deus pela contemplação O ama muito melhor que quem O não conhece mais que pelo estudo: “Porque a experiência dum bem no-lo torna mais amável que todas as ciências que dele se puderem ter”. Assim acrescenta ele, Santa Catarina de Gênova amou mais a Deus que o subtil teólogo Ocham; este o conheceu melhor por ciência, aquela por experiência, e esta experiência conduziu-a muito mais avante no amor seráfico.
O que aumenta ainda mais este amor, é que ele facilita a contemplação e esta por seu turno acrescenta o amor: “Porque, tendo o amor excitado em nós a atenção contemplativa, esta atenção faz nascer reciprocamente um amor maior e mais fervoroso o qual enfim é coroado de perfeição, tanto que goza do que ama… o amor estimula os olhos a fitar cada vez mais atentamente a beleza tão amada, e a vista força o coração a amá-lo cada vez mais ardentemente.” É o que explica como os Santos amaram tanto. Este amor é acompanhado, em seu grau superior, da prática de todas as virtudes, morais, em particular da humildade, da conformidade com a vontade divina, da entrega total a Deus, e por isso mesmo, da alegria e paz espiritual, até mesmo no meio das provações, por vezes terríveis, que experimentam os místicos.


A quem concede Deus a revelação?


Sendo a contemplação um dom essencialmente gratuito concede-a Deus a quem quer, quando quer e como quer. Geralmente, contudo, e de modo normal, não a concede senão às almas bem preparadas.
Por exceção, e de maneira extraordinária, concede às vezes Deus a contemplação a almas desprovidas de virtudes, a fim de as arrancar às garras do demônio.
É, pois, conveniente não contundir as duas questões; e pode-se admitir que a contemplação é o prolongamento normal da vida espiritual, sem afirmar que todas as almas em estado de graça são chamadas à união transformante. Acrescentemos, que a aquisição da santidade e a direção das almas, que a ela tendem, não dependem da solução deste problema tão árduo. Quando se insiste na cultura dos dons do Espírito Santo, assim como no desprendimento perfeito de si mesmo e das  criaturas, quando se conduzem pouco a pouco as almas à oração de simplicidade e se lhes ensina a escutar a voz de Deus e à seguir as suas inspirações põem-se desse modo no caminho que conduz à contemplação; o resto pertence a Deus. Só Ele pode apoderar-se destas almas, e, segundo a graciosa comparação de Santa Teresa, colocá-las no ninho, isto é, no repouso contemplativo.     
Com o comum dos autores, pensamos que a contemplação infusa pertence à via unitiva. Há sem dúvida, casos excepcionais, em que Deus eleva à contemplação almas menos perfeitas, precisamente com o fim de as aperfeiçoar mais eficazmente. Mas habitualmente não o faz.    
Há, contudo, autores de marca, como o P. Garrigou-Lagrange, que colocam na via iluminativa a purificação dos sentidos e a oração de quietude. Apoiam-se em S. João da Cruz, que escreve na noite escura: “A purificação passiva dos sentidos é comum; produz-se no maior número dos principiantes… Os proficientes ou adiantados encontram-se na via iluminativa; é nela que Deus sustenta e robustece a alma para a contemplação infusa”. Conhecemos este texto, há muito tempo, mas com o tradutor do grande místico, H. Hoornaert interpretamos este passo diversamente.
S. João da Cruz não fala, nas suas diversas obras, senão da contemplação infusa; ora, nesta contemplação, há principiantes, proficientes e perfeitos: os principiantes são, para ele, os que vão entrar na purificação passiva dos sentidos: eis o motivo porque fala deles desde o primeiro capítulo na Noite escura; os adiantados são os que entraram na contemplação infusa, a quietude e a união plena; os perfeitos são os que atravessaram a noite do espírito e estão na noite
extática ou união transformante. É, pois, um aspecto diferente. E depois, sob o ponto de vista didático que deve dominar num compêndio, importa aproximar tudo quanto se refere, aos diferentes gêneros de contemplação, a fim de fazer por esse meio realçar melhor a sua natureza e diversos graus. Eis a razão por que julgamos dever conservar o plano comumente seguido.  Mas apresso-me a acrescentar que Deus cujos caminhos são tão variados como admiráveis, não segue sempre as divisões lógicas que tentamos esboçar; o importante para o diretor é seguir os movimentos da graça e não precedê-los.  


CONTEMPLAR A BELEZA DO SENHOR


A contemplação de Deus pode começar com uma pétala colorida, com uma flor perfumada, com um fruto exuberante, com um jardim, com um gramado, com um pomar, com um bosque, com um campo coberto de girassóis ou com um trigal.
A contemplação de Deus pode começar na Selva Amazônica, no Pantanal Mato-grossense, nas Cataratas do Iguaçu, no Parque Nacional do Araguaia, na Reserva Biológica Augusto Ruschi, nas praias do Ceará, na Ilha de Fernando de Noronha ou na Gruta de Maquine.
A contemplação de Deus pode começar ao nascer do sol, no sol a pino, ao pôr do sol, no nevoeiro, na tempestade, no relâmpago, na trovoada, na bonança, na escuridão da noite, ao luar ou sob a luz das estrelas.
A contemplação de Deus pode começar numa maternidade, num cemitério, na alegria, na tristeza, na euforia, na depressão, no centro cirúrgico, na Unidade de Tratamento Intensivo, na cama de um hospital, numa cadeira de rodas, no banco dos réus, na cela de uma cadeia, no ermo, no exílio, na melancolia ou no banzo.
A contemplação de Deus pode começar no sentimento de culpa, sob o peso esmagador da mão dele, no arrependimento, na confissão de pecado, no perdão, na conversão, na remoção da parede divisória entre Deus e o homem, na remoção do orgulho, na remoção do preconceito, na remoção da má vontade, na remoção da incredulidade e na remoção da cegueira voluntária.
A contemplação de Deus pode começar no deserto, nas montanhas, num acampamento religioso, numa reunião à beira-mar, num retiro espiritual, na capela, na catedral, no mosteiro, no quarto do hotel, na leitura das Escrituras Sagradas, no cântico, na meditação, na oração, na solidão, no celibato ou na companhia do cônjuge.
A rigor, a vida só começa com a contemplação de Deus, de onde viemos e para onde vamos. A contemplação de Deus dá sentido à vida. Ao contemplar Deus, o ser humano contempla também o galardão da renúncia, o galardão da disciplina e o galardão da fé, e é capaz de desvalorizar o que a sociedade valoriza, e valorizar o que a sociedade desvaloriza (Hb 11.23-29). A contemplação perseverante e progressiva de Deus leva à plenitude da contemplação e a satisfação da mais velha e da mais forte aspiração humana, a de ver Deus face a face: “Uma coisa peço ao Senhor, e a buscarei: que eu posse morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor, e meditar no seu templo” (Sl 27.4). Daí o entranhável anseio descrito no Salmo 42: “A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando irei e me verei perante a face de Deus?”
 “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida” (1Jo 1. 1)


A ORAÇÃO CONTEMPLATIVA


“A oração contemplativa ajuda-nos a despertar para a realidade na qual estamos imersos”. Dom Thomas Keating,OCSO, Mestre de Espiritualidade Cristã
Qual é o objetivo da Oração Contemplativa? A esta questão os antigos escritores responderiam a uma só voz: união com Deus. Juliana de Norwich declara: “Toda a razão pela qual oramos é ser unidos na visão e na contemplação daquele a quem oramos”. Boaventura, um seguidor de São Francisco, diz que nosso objetivo final é a “união com Deus”, que é um relacionamento puro, onde não vemos “nada”. E Madame Guyon escreve: “Chegamos agora à fase última da experiência cristã. União divina. Isto não pode ser realizado apenas por nossa própria experiência. A meditação não trará a união divina, nem tampouco o amor, a adoração, seu sacrifício ou sua devoção o farão… Ao fim será preciso um ato de Deus para transformar essa união em realidade”.
Essa linguagem nos lembra as grandes declarações de união feitas por Jesus no discurso do Cenáculo: “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vocês”; “Eu sou a videira, vós sois os ramos”; “Tenho-vos dito isto para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa”: “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti. Que eles também sejam um em nós.” (Jo 15,4,5,11;17,21)
União com Deus não significa a perda de nossa identidade. Longe de causar qualquer perda de identidade, a união faz surgir a personalidade plena. Tornamo-nos tudo o que Deus nos criou para ser. Os contemplativos às vezes falam de sua união com Deus por meio da analogia de uma acha no fogo: a fulgurante acha está tão unida ao fogo que é fogo, enquanto, ao mesmo tempo, permanece madeira. Outros usam a comparação de um ferro incandescente numa fornalha: “Nossas personalidades são transformadas, não perdidas, na fornalha do amor de Deus.”


DOIS PREPARATIVOS VITAIS


Como atingimos este alvo de união com Deus? Embora a união seja inteiramente uma obra de Deus sobre o coração, há dois preparativos vitais no nosso lado da equação: amor a Deus e pureza de coração.
A Oração Contemplativa começa no amor a Deus. Ele é, de fato, o motor que coloca todo o empreendimento em ação. Em outras palavras, recebemos o seu amor por nós e retornamos o seu amor. (…) Após termos atravessado o caminho que corta toda a linguagem obscura, quase ininteligível dos contemplativos, somos reduzidos à simples confissão de Walter Hilton: a contemplação é “amor abrasado por devoção”. Como o amor tem o seu caminho perfeito, ele nos leva à pureza de coração. Quando somos perpetuamente bombardeados pela experiência extasiante do amor divino, é apenas natural desejar ser como o Amado,
(…) A impureza é fatal à união com Deus. O puro e o impuro jamais poderão ser unidos. Para que duas coisas se tornem uma só, precisam ter naturezas semelhantes. (…) “É por isto que Deus mandou fogo ao mundo”, escreve Madame Guyon, “a fim de destruir tudo o que é impuro em você… deixá-lo apto à união divina”.
Há três passos básicos para chegarmos à Oração Contemplativa, e já vi que com freqüência uma simples descrição deles ajuda imensamente as pessoas.
Aprendizado da rememoração
O primeiro passo tem sido tradicionalmente chamado de rememoração. Significa a mera rememoração de nós mesmos ate ficarmos unidos ou inteiros. Basil Pennington usa a frase oração centralizadora. Sue Monk Kidd chama-a de oração de presença. Os antigos quacres usavam o termo concentrar. Todos eles se referem à mesma experiência. A idéia é nos livrar de todas as distrações rivais até estarmos verdadeiramente presentes no lugar onde nos encontramos.
Eis aqui uma forma de abordar a rememoração. Comece sentando-se confortavelmente, e depois, com vagar e deliberação, solte toda a tensão e ansiedade. Conscientize-se da presença de Deus no ambiente.(…) Precisamente por estar o Senhor presente conosco, podemos nos descontrair e soltar tudo, pois em sua presença nada conta realmente, nada tem importância, a não ser dar-lhe a nossa atenção. Permitimos que distrações e frustrações íntimas se derretam diante dele como a neve diante do sol. Permitimos que ele acalme as tempestades que rugem dentro de nós ao dizer: “Paz, aquieta-te”. Permitimos que seu grande silêncio acalme o nosso ruidoso coração.


A ORAÇÃO DA QUIETUDE




À medida que vamos nos acostumando à graça unificadora da rememoração, somos conduzidos a, um segundo passo da Oração Contemplativa, que Teresa de Ávila chama de “oração da quietude”. Através da rememoração, já removemos todos os obstáculos do coração, todas as distrações da mente, todas as vacilações da vontade. As graças divinas do amor e da adoração perpassam sobre nós como ondas do oceano. Enquanto isso acontece, experimentamos uma atenção aos movimentos divinos. Somos aquietados no centro do nosso ser. A experiência é mais profunda do que o mero silêncio ou a ausência de palavras. Existe silêncio, com certeza, mas é um silêncio de quem está ouvindo… Nosso espírito está na ponta dos pés – alerta e pronto a ouvir.
Diz François Fénelon: “Fique quieto, e escute a Deus. Deixe que seu coração esteja em tal estado de preparo que seu Espírito possa imprimir em você aquelas virtudes que lhe agradarão. Deixe que tudo dentro de você ouça a Deus. O silêncio de toda afeição exterior e terrena e dos pensamentos humanos dentro de você é essencial se desejarmos ouvir a sua voz”. Esse tipo de escuta de fato envolve um silenciar de toda “afeição exterior e terrena”. São João da Cruz usou a expressiva frase “minha casa sendo agora toda aquietada”. Nessa única linha ele nos ajuda a ver a importância de aquietar todos os sentidos físicos, emocionais e psicológicos.
Enquanto esperamos diante do Senhor, recebemos graciosamente um espírito dócil. Digo “graciosamente” porque, sem um espírito dócil, qualquer palavra de Deus que possa vir para nos guiar à verdade apenas servirá para endurecer o nosso coração. Resistiremos a toda e qualquer instrução, a menos que sejamos dóceis. Mas, se somos verdadeiramente dispostos e obedientes, o ensinamento do senhor é vida e luz. O objetivo, naturalmente, é trazer esta posição de ouvir em oração à experiência cotidiana. Isto não vem a nós imediatamente, contudo, com o passar do tempo, experimentamos mais e mais uma atenção íntima ao Sussurro Divino através de todos os movimentos da vida. (…).


ÊXTASE ESPIRITUAL


O último passo para chegar à oração contemplativa é o êxtase espiritual. O êxtase é bem diferente dos outros dois passos que mencionei, pelo fato de não ser uma atividade que executamos, mas uma obra que Deus opera em nós. Nossa responsabilidade aqui é a de ter uma abertura e receptividade contínuas para que o Espírito repouse sobre nós. Além disso, a questão do êxtase fica por conta de Deus, não nossa. Você sem dúvida se lembra da experiência do apóstolo Paulo de ser levado ao terceiro céu, onde ouviu coisas que não teve permissão para revelar (2Co 12,1-5). (…) Conquanto extraordinária, ela não é única. Ouça este testemunho de Theodore Brakel, um pietista holandês do século dezessete; “Fui… transportado a tal estado de gozo e meus pensamentos foram de tal forma atraídos ao alto que, ao ver a Deus com os olhos de minha alma, senti-me com ele. Senti-me transportado ao ser de Deus e ao mesmo tempo eu estava tão cheio de júbilo, paz e doçura que não o posso expressar. Com meu espírito eu estava inteiramente no céu por dois ou três dias.”
O êxtase é a Oração Contemplativa elevada à potência n. Mesmo as autoridades reconhecidas na vida contemplativa descobriram ser ele uma experiência passageira e não sua dieta normal. E ele pode ser um pouco mais do que você ou eu realmente esperamos; e está bem assim, porque não sendo algo que fazemos, mas que Deus dá, apenas ele sabe quando estamos prontos. Ademais, (…) talvez você se sinta a quilômetros de distância de tais experiências. Em vez de tentar escalar as alturas do êxtase espiritual, você talvez espere apenas conseguir atravessar a semana seguinte. Se isto de alguma forma descreve os seus sentimentos, não perca o ânimo. (…) Mesmo que experimentemos muito pouco, isto deve bastar; pois este pouco é suficiente para que possamos vislumbrar o coração amoroso de Deus, todo cheio de graça e misericórdia, acolhendo-nos à mesa da Comunhão do Espírito.


CONCLUSÃO


Santa Devoção: “Vivamos neste presente séculos sóbrio, justo e piamente” (Tito 2.12) Não existe devoção sem fé, pois “sem fé ninguém pode agradar a Deus”, nem sequer chegar-se a ele (Hb 11.6). A devoção começa com a fé e continua com uma disposição contínua e crescente de glorificar a Deus. A fé é um alvo muito alto que precisa ser alcançado, mas não é o teto do mundo. A fé faz a ligação, coloca o homem na presença de Deus, apresenta um ao outro. A convivência, a comunhão, a amizade, dependem mais da devoção do que da fé. A devoção constrange o homem a se oferecer a Deus. Dá-lhe disposição e diligência para tanto. A devoção não dispensa a obediência, mas faz muito mais que a obediência. A devoção acaba com a secura da religião. Torna a prática religiosa agradável, desejável e procurável. Não se limita aos domingos, mas percorre todos os dias da semana e todas as semanas do ano. A devoção prende o homem a Deus mais do que o temor do Senhor. Foi a devoção que levou Davi a não beber a água do poço de Belém, derramando-a como libação ao Senhor, porque aquela água quase custou a vida de três de seus valentes (2Sm 23.14-17). Foi a devoção que levou Maria, irmã de Lázaro e Marta, a derramar sobre os pés de Jesus o nardo de trezentos denários e enxugá-los com seus próprios cabelos (Jo 12.3). A plenitude da devoção ocorre não necessariamente quando eu guardo todos os mandamentos, mas quando vou além e o amo de todo o meu coração, de toda a minha alma, de todo o meu entendimento e de todas as minhas forças (Dt 6.4-5; Mc 23.30). Nem sempre a disciplina me leva à devoção, mas a devoção sempre inclui a disciplina e a ultrapassa. O jovem rico que se aproximou de Jesus observava os dez mandamentos, mas amava mais suas riquezas que a Deus (Mt 19.16-22). Não conhecia nem experimentou a plenitude da devoção. A plenitude da devoção é buscar o Senhor de todo o coração (Dt 4.29), é servir a Deus de todo o coração (Dt 10.12, 11,13), é louvar a Deus de todo o coração (Sl 9.1) e é amar a Deus de todo o coração (Dt 6.5). Viver a santa devoção é viver piedosamente em oração, jejum e no estudo da gloriosa Palavra de Deus. Disse o pai do Pietismo F.J. Spener: “Não basta escutarmos a Palavra apenas com os ouvidos, pois devemos deixá-lo penetrar em nossos corações, para que com ele possamos escutar a voz do Espírito Santo, ou seja, com grande emoção e conforto sentir a confirmação do Espírito Santo e o poder da Palavra”. Devemos possuir um desejo ardente e profundo pela devoção sagrada. Diz Santo Agostinho: “A vida inteira do Cristo é um santo desejo”. A busca pelas coisas grandes, firmes e misteriosas que se refere o profeta Jeremias 33.3, é a nossa caminhada espiritual na Teologia Ascética e Mística. A nossa vida devota ao bom Deus na graça de Cristo e na iluminação do Divino Espírito Santo deve ser abissal e hipotalássica. “A minha alma está anelante, e desfalece pelos átrios do Senhor; O meu coração e a minha carne chamam pelo Deus vivo, Sl 84.2”.


BIBLIOGRAFIA
Este trabalho foi baseado na obra magistral de AD. Tanquerey, Compêndio de Teologia Ascética e Mística, 5ª edição, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1955.
ALSON, Roger. História da Teologia Cristã: 2000 anos de tradição e reformas, São Paulo: Vida, 2001.
FOSTER, Richard J. O refúgio da alma, Campinas, United Press, 1998.
Meditação Cristã – Boletim do Rio de Janeiro, Novembro, 2000, p. 2.
Meditação Cristã – Boletim do Rio de Janeiro, Abril, 2000, p. 8.
Revista Ultimato, março, 1997, pp. 8 e 66.
Pe. Inácio José do Vale é pároco da Paróquia São Paulo Apóstolo
e professor de História de Igreja na Faculdade de Teologia de Volta Redonda
e-mail; pe.inaciojose.osbm@hotmail.com


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