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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A rica experiência do deserto

                                                

 

Grande parte da história do povo de Deus acontece no deserto. Na bíblia, o deserto significa lugar do encontro com Deus e da gestação do novo. Foi aí que o povo conseguiu fazer a travessia da escravidão para a liberdade; a passagem entre o Faraó que oprimia e o Deus Javé que liberta; a ponte entre o contentar-se com o pão e a busca da dignidade.
Foi também no deserto que o próprio Jesus se preparou para a missão, desarmando o diabo e superando as tentações. Antes dele, João Batista já abandonara o mundo e se refugiara no deserto. Lá recebeu a palavra de Deus, tornou-se “voz que clama no deserto”, convidando o povo a se preparar para receber o Messias.
Mas, por que será que a bíblia insiste tanto em colocar os grandes momentos do povo de Deus e as grandes decisões justamente no deserto? O que ele esconde e revela de tão importante? Que ligação existe entre o deserto, a quaresma, a Páscoa?
Ao ler a bíblia, percebemos que é no deserto que Deus fala ao coração do seu povo: “Eis que vou, eu mesmo, seduzi-la, conduzi-la ao deserto, e falar-lhe ao coração” (Os 2,16). Comparando seu povo à esposa, Deus diz que no deserto lhe falará ao coração e o seduzirá. Ali irá guiá-lo por uma coluna de nuvem; iluminar a sua noite com uma coluna de fogo (Ex 13,21); saciar a sua sede com a água do rochedo (Ex 17,6); oferecer como alimento o maná de cada dia (Ex 16,13ss); revelar as suas Leis e fazer com ele uma Aliança de amor.
O Frei Prudente Nery faz uma bela reflexão onde lembra que, no deserto, Deus permitiu que seu povo experimentasse a sede, para que pudesse perceber a preciosidade da água; que sentisse fome, para aprender o valor do pão e da partilha; que sofresse a solidão, para que compreendesse a importância e o valor dos irmãos. No deserto se viram perdidos, para reconhecer que precisavam de Deus; sentiram saudade do passado, para que aprendessem a valorizar a esperança; foram feridos pelo pecado, para que descobrissem a beleza do perdão.
O deserto nos ensina tudo isso. Só aprendemos a dar valor, quando perdemos algo ou não podemos ter. Somente passando necessidade, valorizamos a alegria de possuir. É na aridez do deserto que se descobre a necessidade de cavar fundo para buscar a água que dá vida. É na sua escuridão que se aprende a valorizar o brilho das estrelas. É na sua solidão e silêncio que se descobre a necessidade de prosseguir, sem se deixar dominar pelo desânimo e pelo cansaço: “Levanta-te e come, porque tens um longo caminho a percorrer” (1Rs 19,4-8).
Cada ano, durante a quaresma, a Igreja nos convida a fazer a experiência do deserto. Na liturgia do primeiro domingo, já vemos Jesus no deserto, sendo tentado, superando as tentações e se preparando para o ministério. Neste tempo, somos convidados a viver mais intensamente a oração, o jejum, a meditação da Palavra na busca da conversão. Desafiados a nos privarmos de algum alimento ou de algo que nos agrada, como forma de solidariedade, proporcionando o mínimo necessário aos que nada têm. Somos convidados a fazer a experiência da sede, para sentirmos o valor da água e ajudarmos a quem não a possui. Olhando para as pedras do deserto, somos desafiados a superar a dureza de nosso coração. “Tirarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um novo coração de carne” (Ez 36,26).
A experiência do deserto nos mostra que, enquanto há alguns que esbanjam e vivem na fartura, há outros que vivem do lixo ou sobrevivem das migalhas da nossa falsa “caridade”. Enquanto desperdiçamos ou nos entregamos à tentação do consumo exagerado, há milhões que não têm o mínimo para sobreviver. O maná do deserto, que não podia ser guardado, pois estragava de um dia para outro, nos ensina a buscar o “pão de cada dia”, pois se alguém acumula o pão para anos e anos, faltará certamente o pão de hoje e até o de ontem para milhões de irmãos. E isso dói no coração do Pai.
Deus nos convida ao deserto e quer falar ao nosso coração. É esse o lugar privilegiado do encontro com o Senhor da vida e com a vida dos irmãos. Tempo da gestação do novo. Caminho e garantia da Páscoa da libertação.
FONTE: Arquidiocese de Mariana/MG

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