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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A oração de arrependimento

A oração de arrependimento é uma das orações mais apreciadas pela Igreja, e também uma das mais frequentes, ao longo de toda a liturgia da Quaresma: “Misericórdia, Senhor, porque pecámos” (4ª Feira de Cinzas); “Escuta, Senhor, e tem piedade de mim” (6ª Feira de Cinzas); “Tem piedade de mim e escuta a minha oração” (4ª Feira da 1ª semana da Quaresma); “Senhor, não nos trates na medida dos nossos pecados” (2ª Feira da 2ª semana da Quaresma).

Na Sagrada Escritura, os salmos de arrependimento e de perdão são mais abundantes do que os salmos de louvor (24 de arrependimento para 17 de louvor) e encerram belas súplicas do pecador ou do povo arrependido diante de Deus: “Não recordes os meus pecados de juventude e os meus delitos. Lembra-te de mim, Senhor, pelo teu amor e pela tua bondade”(Sl 25,7); “Levanta-te, Senhor, tem piedade de Sião; já é tempo de lhe perdoares” (Sl 102, 14).

A oração de arrependimento é muito importante aos olhos de Deus e não é exclusiva da Quaresma. Trata-se de uma oração para todos os dias do ano. Na verdade, a oração de arrependimento e de perdão deveria ser a primeira a fazer sempre que nos apresentamos, como pecadores que somos, diante de Deus três vezes santo.

Sobre este assunto, o Catecismo da Igreja Católica (CIC) diz-nos o seguinte: “O pedido de perdão é o primeiro movimento da oração de petição. Lembremos as palavras do publicano: “Tem compaixão de mim que sou pecador” (Lc 18,13). É o começo de uma oração limpa e pura. A humildade confiante repõe-nos na luz da comunhão com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo, bem como dos homens uns com os outros” (CIC 2631). A oração do fariseu não agrada a Deus porque está vazia de qualquer insinuação de arrependimento ou de perdão. Pelo contrário, Deus escuta de imediato a oração daquele que, arrependido, se humilha diante d’Ele.

Os monges da Igreja Oriental Ortodoxa privilegiam a oração que brota do arrependimento sobre todas as outras. A recitação da oração da “filocalia” é contínua entre eles: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, tende piedade de mim, que sou pecador”. São Siluão de Athos dizia que “a oração que fazemos unicamente por rotina, sem termos o coração arrependido dos nossos pecados, não é aceitável por Deus” . Inversamente, e conforme diz S. João de Cárpatos, quando na oração invocamos o nome de Jesus e dizemos: “Tem piedade de mim que sou pecador”, a voz do Senhor responde-nos em segredo: “Filho, os teus pecados são-te perdoados”.

A oração de arrependimento tem que brotar do mais profundo do coração e não dos lábios. Basta que nos reconheçamos pecadores no íntimo do nosso ser e logo Jesus nos está a perdoar. Cristo disse à pecadora pública que, em casa de Simão, Lhe cobriu os pés de beijos e, em silêncio, os banhou com as suas lágrimas e os ungiu com perfumes: “Os teus pecados estão perdoados” (Lc 7, 48). Mas Jesus também gosta de escutar dos nossos lábios as mesmas palavras que escutou de Bartimeu, o cego de Jericó; “Jesus, tem compaixão de mim” (Mc 10, 47).

Na Eucaristia, a Igreja utiliza com frequência a oração de arrependimento. No início costumamos dizer: “Confesso...que pequei muitas vezes por pensamentos, palavras e obras por minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa”. Ou podemos dizer: “Senhor, tem misericórdia de nós porque pecámos contra Ti.” Ou apenas : “ Senhor, tem piedade. Cristo, tem piedade.”

Ao rezarmos o Pai Nosso, repetimos: “Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Não há verdadeira oração de arrependimento se não perdoarmos aos nossos inimigos, cujos pecados, misteriosa e eclesialmente, também são nossos. Talvez esta seja uma das razões por que as orações de arrependimento na Missa se dizem no plural: “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.”

Às vezes existem almas que, pela grande confiança que têm no perdão de Deus ou pela provável inocência das suas vidas, evitam a oração tão eclesial de arrependimento. Todavia, esta oração, por múltiplas razões, continua a ser útil e necessária para todos. O facto de nos aproximarmos de Deus com a humildade do pecador e com fé na Sua misericórdia torna-nos agradáveis a Deus, que exalta os humildes.

Todos necessitamos desta súplica de perdão porque todos pecámos e fomos privados da glória de Deus (Rm 3, 23). Segundo S. João na sua primeira carta, se dizemos “não pecámos”, estamos a mentir a Deus (1 Jn 1, 10), que em Jesus nos redimiu das nossas faltas: “ Não chames a contas o Teu servo pois ninguém é justo na Tua presença” (Sl 143/142, 2).

Por solidariedade espiritual, humana e eclesial, temos de começar a nossa oração pedindo, no plural, o perdão dos pecados inumeráveis dos homens de todos os tempos, para que Deus nos perdoe e a nossa oração Lhe seja agradável: “Dos meus olhos correm rios de água porque a tua lei já não é cumprida” (Salmo 119/118, 136).

O Espírito Santo tem como tarefa convencer o mundo no que diz respeito ao pecado da sua falta de fé e de amor (cf. Jo 16, 8-9) e “dar ao coração do homem a graça do arrependimento e do perdão” (CIC 1433). De certa maneira solidária, o pecado daquele que não se quer arrepender é meu e, portanto, eu posso arrepender-me, unido a ele, dos “nossos pecados”. E “o mínimo que ele pode fazer é arrepender-se comigo visto que nos tornámos um só “(Jean Lafrance).

A maravilhosa oração de arrependimento não é própria apenas do tempo da Quaresma; é própria de todos os tempos e de todas as horas. A oração de perdão não é boa apenas para os pecadores (todos o somos!). É perfeitamente apropriada para os justos, que pedem perdão a Deus pelos pecadores, que são um só com eles. “Senhor Jesus, tem piedade de mim que sou pecador”. Amen.

Pe. Ceferino Santos, S.J.
in: nº 73 de “Nuevo Pentecostés”;

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