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terça-feira, 1 de novembro de 2011

Vocação Universal à Santidade

1. A Vocação universal à santidade




























2.. O MILAGRE NAS CAUSAS DE CANONIZAÇÃO

2.1 O Caráter histórico

   Ao apresentar agora algumas reflexões sobre os milagres realizados por Jesus Cristo durante a sua vida terrena, terei como ponto de referência o Santo Padre, João Paulo II que, de Novembro de 1987 a Janeiro de 1988, dedicou a este tema sete discursos na sua audiência semanal, de quarta-feira, assim como outro discurso no dia 5 de Março de 1977 sobre a intercessão da Virgem Santíssima no milagre das bodas de Cana.
   São mais de quarenta milagres de Jesus narrados nos quatro Evangelhos. Este fato torna-se ainda mais importante a ter-se em conta o grande espaço que lhes é dedicado na referida narração, impedindo assim de clássica-los como algo acessório ou artificialmente incluído na narração. Neste sentido, destaca-se o Evangelho de São Marcos, no qual o número de versículos que se referem aos milagres alcança 31% da totalidade do texto e chaga a 47% se excluirmos os seis últimos capítulos sobre a paixão de Jesus Cristo. A este dado estatístico deve-se acrescentar que a narração dos milagres não se encontra no Evangelho, isolada do contexto, mas sim estreitamente entrelaçada com a doutrina de Jesus Cristo e com a reação dos testemunhos presenciais: que não teria sentido formular uma separação entre a pregação de Jesus e as suas obras – entre a doutrina que ensinou e os milagres que acompanharam – sendo-lhes atribuído um distinto peso histórico ou hermenêutico. O Teólogo não pode ignorar esta unidade, pois a economia da revelação é intrinsecamente caracterizada por se apresentar <<mediante ações e palavras intimamente ligadas entre si, de maneira que as obras realizadas por Deus no decorrer da historia da salvação manifestam  e reforçam a doutrina; e, por sua vez, as palavras proclamam as obras e fazem sobressair o mistério que elas encerram>>.  
  Para iniciar a sua catequese sobre o milagre, o Papa cita o testemunho de Pedro à multidão que se havia reunido à volta dos Apóstolos no dia de Pentecostes:<<Israelitas, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré, Homem acreditado por Deus junto de vós, com milagres, prodígios e sinais que Deus realizou por seu intermédio, como vos sabeis... vós o matastes, cravando-o numa cruz pela mão de gente perversa. Mas Deus ressuscitou-o, libertando-o dos grilhões da morte>> (At 2,22). Na economia da Encarnação e da Redenção tudo é gratuito, mas – como manifestação do seu amor  que chegou até o fim – Jesus Cristo não nos deixou só a mensagem e os meios de salvação, mas também quis torná-los acessíveis, por nós, reforçando-nos através dos milagres.
  Antes de analisar o significado dos milagres nos seus diferentes aspectos, João Paulo II adverte <<na necessidade de constatar que esses prodígios e sinais pertencem seguramente ao conteúdo integral dos Evangelhos, como testemunhos sobre Jesus Cristo que provem de testemunhos oculares. Não se pode excluir os milagres do texto e do contexto evangélico. A Análise, tanto do texto como do contexto fala a favor do seu caráter “histórico”; testemunha que são atos ocorridos na realidade e realizados efetivamente por Jesus Cristo.
Quem os considera com honestidade intelectual e competência cientifica não pode omiti-los irrefletidamente, como meras inversões posteriores>>.
   Não podemos nos deter numa exposição detalhada deste caráter histórico, de atos realmente acontecidos que exigiria, não só um estudo dos critérios gerais das ciências históricas aceitas também pelos exegetas para a sua aplicação à Sagrada Escritura, mas ainda uma analise pormenorizada dos milagres narrados nos Evangelhos, com uma referência a cada um deles no lugar e nas circunstâncias em que aconteceram. Contudo, temos que acrescentar algumas pontualizações antes de continuar.   
   Em primeiro lugar, ao afirmar-se a historicidade dos milagres de Jesus, estamos a referir que estes atos aconteceram realmente como nos são narrados, de forma que o relato de uma cura deve entender-se no sentido de que, por obra de Jesus Cristo, o doente ficou curado da doença que o afligia. O que lemos nos Evangelhos sobre os milagres não se reduz, pois, a um mero artifício literário sem se basear na realidade para que fique gravada nos ouvintes a doutrina de referência. Antes de concluir o seu Evangelho, São João adverte que <<Jesus na presença dos seus discípulos fez também muitos outros sinais>>, e acrescenta:<<Estes foram escritos para que acreditem que Jesus é o Filho de Deus, e para que acreditando, tenham a vida em seu nome>>. Era domínio publico a fama de Jesus passando pela terra a fazer milagres, como nos recorda São Pedro no dia de Pentecostes. Mas, todavia, a realidade dos milagres de Jesus Cristo não foi negada nem sequer por aqueles que usavam de subterfúgios para o condenar. Estes admitiam os prodígios, mas não aceitavam a sua realização em nome de Deus, pois atribuíam ao poder do príncipe dos demônios.
   Detendo-nos agora no significado dos milagres, devemos recordar que, acima de tudo, testemunham a condição e a missão messiânica de Jesus. A este respeito, é emblemático o episodio do paralítico de Cafarnaum, a quem Jesus disse: <<Filho, os teus pecados te estão perdoados>>. Alguns parentes murmuravam entre si: <<Blasfêmia. Não é o Deus que tem poder para perdoar os pecados?>> Jesus, conhecendo os seus pensamentos, respondeu: <<O que é mais fácil, dizer ao paralítico: Os teus pecados estão perdoados, ou disser-lhe: Levanta-te, toma o teu catre e anda? Pois para que saibais que o filho do homem tem poder na terra para perdoar os pecados – dirigiu-se ao paralítico – a ti te digo: Levanta-te, toma o teu catre e vai para casa. No mesmo instante levantou-se, tomou o catre e saiu na presença de todos>>.
   Do mesmo modo, acrescentamos que Jesus cristo, ao realizar esses prodígios, não atua como representante de Deus que o enviou, mas sim”em nome próprio, consciente do seu poder divino e, ao mesmo tempo, convicto da unidade profunda com o Pai>>. Diz ao leproso: <<Eu o quero limpo>> (Mc 5,41). E à filha de Jairo: <<Eu te digo: Levanta-te>> (Lc 7, 14-15).

2.2 Os milagres de Jesus como sinal  


   Os milagres de Jesus revestem o caráter de sinal. Mostram, em primeiro lugar, o seu poder salvífico. As curas milagrosas relativas às doenças corporais, assim como outros prodígios, estão dirigidas à salvação das almas e à redenção do mundo inteiro.
   Com elas, Jesus Cristo manifesta o seu poder de salvar o homem do mal e destaca que o objetivo principal da sua vinda ao mundo é libertá-lo do mal espiritual, isto é do pecado: <<Todos os “milagres, prodígios e sinais” de Cristo estão em função da sua própria revelação como Messias, como filho de Deus: daquele a quem pertence em exclusivo o poder de libertar o homem do pecado e da morte.
Daquele que é em verdade o salvador do mundo>>. Os milagres evidenciam <<o poder supremo de Jesus Cristo sobre a natureza e sobre as suas leis.
Quando se realiza os milagres com o seu próprio poder, Jesus revela-se também com Filho consubstancial do Pai e igual a Ele no domínio da criação>>.
   Mas, há ainda milagres que apresentam outros aspectos que são complementares relativamente ao significado fundamental da prova do poder divino  do Filho do Homem, em relação com a economia da salvação.
(...) Pode-se afirmar que os milagres de Cristo – manifestação da onipotência divina relativamente ao universos criado, perfeita evidência no seu poder messiânico  sobre os homens e sobre as coisas – são, ao mesmo tempo, os <<sinais>> mediante os quais se revela a obra divina da salvação e se realiza de forma definitiva na história do homem, a economia salvífica que Cristo
introduz, a qual fica assim inscrita neste mundo visível, que é sempre  obra divina. (...) Mediante  estes sinais, os homens são preparados para acolher a salvação que Deus lhes oferece no seu Filho.
Esta é a finalidade essencial de todos os milagres e sinais realizados por Jesus Cristo aos olhos dos seus contemporâneos, como também dos milagres que no decorrer da história serão realizados pelos Apóstolos e discípulos de Jesus recorrendo ao poder salvífico do seu Nome: <<Em nome de Jesus o Nazareno, levanta-te e anda!>> (At 3,6).              
   Além disso, os milagres de Jesus são sinais não só da vontade salvífica de Deus, mas também do seu amor salvífico; brotam da fonte que é o coração misericordioso de Deus, que vive e vibra no Coração humano de Cristo.
Há neles aquilo que o Papa intuía <<uma unidade lógica>>, que mostra com derivam da economia salvífica de Deus e revela o seu amor por nós: também que esse amor redentor não se dirige apenas às almas, mas também aos corpos e a toda a criação.
   Os relatos de Jesus Cristo também se entrelaçam com a chamada à fé, chamada esta que se manifesta de duas formas: em primeiro lugar, a fé precede o milagre e constitui uma condição para que este se realize. Jesus, antes de realizar o prodígio que lhe pedem, exige que se acredite que o coração do homem não se feche a Ele. Dirá a Jairo antes de ressuscitar a sua filha: <<Não temas, tem somente fé>> (Mc 5,36). Da mesma forma, o pai do jovem lunático pedia ao Senhor: <<Se podes algo, compadece-te de nós e ajuda-nos>>. Jesus disse-lhe: <<Se podes...! Tudo é possível ao que crê!>>. Em seguida o pai do jovem exclamou: <<Creio, Senhor ajuda a minha incredibilidade>> (Mc 9, 22-24), e o jovem ficou curado. Ouvimos dos lábios de Jesus Cristo: <<A tua fé te salvou>>, <<a tua fé te curou>>, <<mulher grande é tua fé, que se faça o que tu queres>>. A necessidade da fé como abertura do coração aparece com evidência no relato de São Marcos sobre o escândalo dos habitantes de Nazaré, quando Jesus Cristo ensinava na Sinagoga. Por isso, prossegue o evangelista, O Senhor <<não podia ali realizar obras maravilhosas: somente curou alguns poucos enfermos impondo-lhes as mãos. E estava admirado com a incredulidade deles>> (Mc 6, 1-6).
   Em segundo lugar, a fé surge depois do milagre, provocada na alma dos que o presenciam: <<O milagre é um sinal do poder e do amor de Deus que salvam o homem em Cristo, Mas, precisamente por isto, é ao mesmo tempo um chamado ao homem à fé> Deve levar a acreditar>>.
   Assim, os milagres mostram a existência da ordem sobrenatural, que é objeto da fé; fazem experimentar, de madeira palpável, que a ordem da natureza não esgota a realidade existente. O milagre, constitui um sinal de que esta ordem e, ao mesmo tempo, faz-nos saber que o destino do homem é o Reino de Deus, (...) os milagres fazem parte do projeto da <<nova criação>> e estão, por isso, em relação com a ordem da salvação.
São sinais salvíficos que chamam à conversão e a fé>>.
   Como resumo desta parte de nossa exposição, concluímos que a pessoa e a santidade de Jesus Cristo, a sua vida e obras, a sua mensagem e os milagres que realizou estão harmoniosamente unidos entre si e constituem uma unidade indivisível, de modo que ficaria focalizado sob perspectiva falsa, sendo, portanto, ineficaz, o propósito de abalizá-los como peças soltas, só exteriormente relacionados entre si.

 
Do Livro: O Milagres nas causas de canonização.
Autor: Ricardo Quintana Bescós.     


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