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terça-feira, 22 de novembro de 2011

A Liturgia como catequese dos sentidos



Dom Paulo Domiciano, osb.

TODOS OS SENTIDOS ORAM

A oração cristã não é um processo de desencarnação, a fim de chegar mais depressa à Deus. No Evangelho, Jesus disse que “Deus é Espírito e aqueles que o adoram, é em espírito (en pneumati) e verdade que devem adora-lo” (Jo 4,24). “Espírito” aqui não quer dizer intelecto (nous), mas sim sopro divino (pneuma). Portanto, orar em espírito não quer dizer “colocar entre parênteses o uso de nossos sentidos”, fechar as portas da percepção, mas, ao contrário, abri-las, introduzir pneuma, sopro, em cada um deles, para que se tornem os órgãos do conhecimento de Deus. aliás, foi assim que os padres da Igreja o compreenderam, quando elaboraram a doutrina dos “sentidos espirituais”, isto é, dos sentidos espiritualizados, habitados, animados pelo Espírito de Deus. Nesta acepção, o ser humano, na antropologia cristã, não é o “túmulo da alma” (cf. Platão), mas o “Templo do Espírito” (cf. S.Paulo).
Orígenes, e em sua esteira, Gregório de Nissa, Macário, Diádoque de Fótice, Máximo o Confessor e Simeão o Novo Teólogo propuseram toda uma pedagogia dos sentidos espirituais, aliás estreitamente ligada à vida sacramental, pois se trata sempre de elevar-se do domínio sensível ao reino que está “além dos sentidos”, de “ir dessas realidades que passam para a realidade que não passa”. Os sentidos não são destruídos, mas transfigurados; eles se tornam sentidos divinos, que tornam o ser humano cada vez mais “capax Dei”.
“Um exame da questão fará dizer, conforme o termo da Escritura, que existe uma espécie de gênero, um sentido divino que o bem-aventurado encontra no presente, no dizer de Salomão: „encontrarás um sentido divino. E este sentido divino comporta duas espécies: a vista que pode fixar as realidades superiores aos corpos, das quais fazem parte os querubins e os serafins; o ouvido que percebe os sons cuja realidade não está no ar; o gosto para saborear o pão descido do céu e que dá a vida ao mundo; da mesma forma o olfato, que sente aqueles aromas de que fala Paulo, que se diz ser „para Deus o bom odor de Cristo; o tato, graças ao qual João afirma ter tocado com suas mãos „o Logos da Vida. Tendo encontrado o sentido divino, os bem-aventurados profetas olhavam divinamente, escutavam divinamente, saboreavam e sentiam também o aroma, por assim dizer, de um sentido que não é sensível; e tocavam o Logos pela fé, de modo que uma emanação lhes vinha de longe para curá-los. Assim, viam o que escrevem terem visto, ouviam o que dizem ter ouvido, experimentavam sensações da mesma ordem quando comiam – como eles o notaram – o „rolo de um livro que lhes era dado” (Orígenes. C.Cels.I,48)
Ainda para Orígenes, o Deus que habita uma “luz inacessível” pode ser dito apreensível de alguma maneira pelos sentidos e não somente pelo coração e pelo intelecto, porque ele se encarnou realmente em Jesus Cristo. Como dirá Irineu: “Jesus é o visível do Invisível”. Deus, ninguém jamais viu, nem jamais o verá. Deus não é apreensível, compreensível, a não ser em sua criação ou em sua “humanidade”.
Cristo se torna o objeto de cada sentido da alma. Ele se chama verdadeira luz para iluminar os olhos da alma; chama-se verbo para ser ouvido, pão para ser saboreado; assim também ele é chamado óleo da unção e nardo para que a alma se deleite no aroma do logos; ele se tornou “o verbo feito carne” palpável e apreensível, para que o ser humano inferior possa apreender o Verbo da vida. O
mesmo Verbo de Deus é tudo isto (Luz, Verbo etc), e se torna assim numa oração fervorosa e não permite que nenhum dos sentidos espirituais seja desprovido de graças (Orígenes. Cant.II).
 O que era desde o princípio,
 O que ouvimos,
 O que vimos com os nossos olhos,
 O que contemplamos,
 O que nossas mãos apalparam a respeito do Verbo da Vida.
 Porque a vida se manifestou...
 E nós testemunhamos(IJo 1, 1-2).

OUVIR

“Ouve, Israel... amarás...” Este é o primeiro mandamento dado à Israel: ouvir. Orar, na verdade, não pé em primeiro lugar falar com Deus, é antes calar-se para ouvir. E o que se ouve primeiro não é seu infinito silêncio, é o barulho de nossos pensamentos, de nossas representações, dos nossos conceitos, forjados ao longo dos séculos. Mesmo nesses barulhos é preciso ouvir alguma coisa de Deus. Ora, Deus não é “uma coisa que fala ou conversa” mas “Alguém” cuja presença ressoa em nós e às vezes faz nascer o canto, às vezes a palavra profética. Ecos poderosos e incertos desta Presença.
O povo de Israel é um povo da escuta, que vive no deserto, onde não há o que ver. Orar, para Israel, é escutar. Prestar atenção e, às vezes, resistir ao desejo de ouvir alguma coisa, até que o silêncio aprofunde em nós um desejo mais elevado. Compreender então que aquele que nos fala jamais nos dirá uma palavra...
Escutara faz-nos calar em todos os sentidos e, neste silêncio, aprendemos até que ponto o Outro é totalmente Outro e até que ponto Ele existe...

VER

“Eu te conhecia só por ouvir dizer, mas agora meus próprios olhos te viram. Por isso eu me retrato e me arrependo, eu me retrato sobre o pó e a cinza” (Jó 42, 5-6).
É assim que termina o livro de Jó. Tais palavras parecem nos indicar que existe uma certa superioridade da visão sobre a audição. A escuta mantém a distância; no olhar, a presença aparece em sua proximidade.
O grande desejo do homem é ver a face de Deus, ou seja, ver a Deus como Ele é. Mas sabemos, segundo a tradição vetero-testamentária, que é impossível ver a Deus e continuar vivendo, por isso só podemos ver as “costas de Deus”, ou seja, só podemos reconhecê-lo em suas obras, o seu “rastro”. De fato, para ver a Deus, o olhar precisa de uma morte, de uma purificação, assim como o ouvido. Do contrário, corre-se o risco de ver apenas uma miragem, uma projeção, visto que nosso olhar está muitas vezes carregado de lembranças, de julgamentos, de comparações...
Jesus sabia ver as coisas e as pessoas. Onde viam, por exemplo, uma adúltera, Jesus via uma mulher. Seu olhar não se detinha na máscara ou no disfarce, mas contemplava o rosto. Orar é compreender o rosto das coisas, isto é, sua presença, é tratá-las fraternalmente por tu, o que faz delas um sinal da ternura de Deus. É assim que podemos ver a Deus. Começamos a reconhecer sua
face oculta em toda a criação e particularmente em seus filhos e nosso irmãos. Passar da observação à contemplação, este é o movimento da oração dos olhos.

TOCAR

Ouvir e ver nos mantêm na proximidade. Mas a presença só se estreita pelo tocar. Aliás é a progressão indicada por João, como se o uso de cada sentido manifestasse um grau de intimidade particular com o Verbo da Vida.
O que nós ouvimos, vimos, apalpamos, precisa S. João, é “o que é desde o começo”. Nada temos a acrescentar, nada a inventar; trata-se de aplicar nossos sentidos ao que é, para que isto possa manifestar-se.
O tocar algumas vezes mete medo, como se estivesse ligado a uma sensoriedade mais densa do que a do escutar ou do ver, mais ligada à materialidade, ao peso das coisas.
Se na oração podemos ouvir o inaudível e ver o invisível, podemos ainda tocar e sentir o impalpável? Isso depende de como tocamos as coisas e as pessoas. Há pessoas que nos tocam como uma crosta, uma casca; outras que nos remexem até a seiva, até o cerne. Há mãos que nos achatam, nos coisificam, nos bestializam; e há mãos que nos pacificam, nos curam e algumas vezes até nos divinizam, quando nos impõem as mãos para a cura ou também para a comunicação da graça.
Ao final da parábola do filho pródigo (Lc 15, 11ss) o pai acolhe o filho com um abraço e cobre-o de beijos. Jesus nos revela, portanto, um Pai que se deixa sentir face-a-face, que nos aperta contra seu peito e transmite através desse gesto o seu amor misericordioso.
Recebemos dos monges antigos a tradição de que o trabalho é oração, que nossas mão oram quando trabalham. Se é assim, podemos dizer também que, quando cheias de amor e de respeito, nossas mãos rezam quando tocamos ou acariciamos. A oração do tocar é a oração de um corpo que não se agarra avidamente, que não se fecha ao outro. Tocar a Deus ou deixar-se tocar por Ele não é sentir-se esmagado, mas sentir-se cercado de espaço; sentir-se livre.

SABOREAR

À força de ouvir bem, ver bem, e tocar bem, a Presença tornou-se mais familiar. O contato foi estabelecido. Será que podemos avançar mais um passo na intimidade? O Salmo nos convida a isto : “Provai como é bom o Senhor”. Trata-se de provar e saborear esta Presença. “Como é doce ao paladar a tua promessa! Mais que o mel na boca” (Sl 129,103) Orar é ter o gosto de Deus. “Que ele me beije com os beijos de sua boca”, diz o primeiro versículo do Cântico dos Cânticos.
“Por que a Escritura não diz: que ele me ame, em vez de „que ele me dê um beijo? Pelo beijo, os amigos trocam seus espíritos (seus sopros), pois o beijo se dá na boca, fonte do espírito (pneuma). Quando os espíritos de dois amigos se encontram por um beijo, boca a boca, esses espíritos não se separam mais um do outro. Daí que a morte por um beijo é tão desejável: a alma recebe um beijo do Senhor, e ela se une assim ao Espírito Santo para não mais separar-se dele” (Zohar II 124b).
Esta linguagem pode exasperar-nos, mas se Deus “fala aos humanos” por que não se dirá também que “Ele os abraça”? A tradição nos diz que Moisés teria morrido com um beijo de Deus, indicando desta maneira, de modo simbólico, em que estado de união o havia levado sua oração.
Deus, na experiência de oração, não é sem sabor, ainda que nenhum sabor, nenhuma comparação possa aproximar-se da Realidade que Ele é. Os padres da Igreja – seguindo os rabinos – retomarão este tema do gosto na oração e do beijo místico a propósito da Eucaristia. O sacramento é o sinal sensível de uma realidade invisível, como o beijo da mãe a seu filho é o sinal sensível do amor que ela tem por ele. A Eucaristia é o sinal sensível do amor que Deus tem por nós. Ele se faz nosso pão, nosso vinho; Ele quer ser saboreado, conhecido do interior.
Sabemos bem quais as repercussões, o corpo humano, de um beijo nos lábios e o frêmito íntimo que ele pode excitar.
A oração saborosa é uma entrada na câmara nupcial, mistério da união do criado com o Incriado. Deus é então experimentado, dirá Santo Agostinho, como “totalmente Outro que eu mesmo e mais eu do que eu mesmo”.

O CHEIRO

Depois do abraço, o corpo do outro deixou no nosso próprio corpo um pouco de seu perfume e pode-se permanecer ainda por muito tempo como que impregnado de sua presença... De novo, é a metáfora amorosa que parece mais adequada que a metáfora conceitual para descrever a vivência desta forma de oração: “Meu Bem-Amado é para mim como um sachê de mirra entre os meus seios” (Ct 1,13).
Não há imagem mais bela, dirão os rudes ascetas do deserto, para descrever os mais altos graus da oração do coração. A presença de Deus nos impregna totalmente, por dentro e por fora, e todos os nosso atos são como a aura perfumada de Cristo vivendo em nós, o “bom odor do ressuscitado” como nos vai dizer São Paulo.
Por toda parte, nenhuma tradição ignora o poder do incenso. Na verdade, seu papel é fazer-nos entrar num novo estado de consciência, despertar-nos à beleza da Presença. Então pode-se não querer mais ouvir nada, fechar os olhos, “apenas respirar” e, em cada inspiração, sentir espalhar-se em todos os membros a própria Presença do Vivente.
Difundir seu perfume simboliza igualmente o ato pelo qual a pessoa se entrega totalmente a Deus em sua oração. É o ato de amor por excelência: pensemos em Maria Madalena aos pés de Jesus.
Quando dizemos com o Salmo: “Que minha oração suba a Ti como o incenso”, isto quer dizer que nós nos entregamos a Deus na “nossa essência, como na nossa existência”. Tudo lhe pertence doravante, como o grão de incenso pertence à chama.
Orar não é buscar sensações. Muito menos é comprazer-se nelas, mas é acolhê-las, caso apareçam, como um dom de Deus. Sobre isso, já nos precaveram os grandes mestres da mística, como Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz. Convém utilizar tais sensações com discernimento: dos sentidos como da razão existe uma utilização divina, natural ou demoníaca.
A utilização divina ou celeste é a utilização que podemos fazer dos sentidos na oração: orientá-los para Deus e dirigir-nos a Ele com todo o nosso ser. A utilização natural ou terrestre é a utilização que podemos fazer dos sentidos na meditação, para ouvir melhor, ver, saborear, tocar, respirar “o que É”. A utilização demoníaca, por sua vez, é a utilização que podemos fazer dos sentidos num narcisismo estéril e esquizóide que nos corta do Real. A pessoa se fecha então (estar no inferno [enfer] = estar fechado) numa seqüência desconexa de sensações que são tomadas como toda a realidade, absolutizadas do relativo que é de novo uma forma de idolatria.

A sensação pode, portanto, ser um ícone, uma imagem ou um ídolo:

1. um ícone, quando ela nos coloca na presença de Deus; realidade visível que nos conduz à Realidade Invisível;
2. uma imagem, quando ela nos revela a beleza de toda superfície, mas sem penetrar em sua profundidade;
3. um ídolo, quando nós somos “alienados” à sua forma particular e somos tentados a tomá-la pela “única realidade”.

A LITURGIA

Deus quis dar-se a comunicar com o homem dando-se a si mesmo como Palavra mais eloqüente. O homem, por sua vez, para corresponder a essa comunicação, responde dentro de sua condição humana, utilizando-se do símbolo para isso.
A liturgia é uma dinâmica de DOM-ACOLHIMENTO, que tem sua origem no seio da própria Trindade e que se estende sobre a criação. Deus se doa e o homem o acolhe. Por sua vez o homem busca corresponder ao dom e isso se faz no símbolo. A liturgia, portanto, é este espaço onde acontece a manifestação e o encontro entre Deus e criação. É o lugar da epifania de Deus.
A liturgia na tradição antiga, que é o lugar da oração comum, vai ser também o lugar da purificação e da unificação de todos os sentidos. Poderíamos dizer, que a liturgia promove a catequese, a educação dos sentidos e os redireciona para Deus. Esta liturgia dirige-se, de fato, não apenas ao intelecto e ao coração, mas também a todos os sentidos:

1. aos ouvidos, pelos cantos e pela Palavra proclamada,
2. aos olhos, pelos ícones e pelas luzes,
3. ao tato, pela postura, pelas prostrações, pelas procissões, pela dança (porque não!) e pelo contato com os ícones e com os irmãos, pelas imposições das mãos e pelas unções,
4. ao paladar, pela Eucaristia,
5. ao olfato, pelo incenso, pelo perfume das flores e dos santos óleos.

Nenhum sentido deve ser excluído do louvor. É o ser humano inteiro que deve entrar na Presença; é o próprio processo da Transfiguração. A liturgia é a oração de todos os sentidos unidos, como “ovelhas racionais”, a chamado do Verdadeiro Pastor.

VIGÍLIA PASCAL – A MÃE DE TODAS AS VIGÍLIAS

1. bênção do fogo e preparação do círio pascal

- todos estão reunidos ao redor do fogo: sentem o seu calor e são iluminados por ele - o fogo é abençoado e incensado: todos podem sentir o perfume do incenso que sobe ao céu, ao ar livre - o círio é gravado com o sinal da cruz e os grãos de incenso são nele cravados; é símbolo de Cristo, luz do mundo, Alfa e Omega, presente em nosso meio, ontem, hoje e sempre; é um sinal visual muito marcante

2. procissão

- o círio é aceso e levado até a porta da Igreja pelo diácono que o apresenta aos fiéis anunciando Lumen Christi e o povo aclama Deo Gratias; é a primeira aclamação que se ouve no silêncio da noite
- os fiéis entram na igreja em trevas, nada vêm. Começam a acender suas velas no círio pascal e a igreja aos poucos vai se iluminando; a luz do ressuscitado nos permite enxergar em meio às trevas. - em tons crescentes, o diácono ainda proclama o Lumen Christi por mais duas vezes: há um crescente no volume das vozes que ecoam dentro da igreja. Nosso coração começa a se encher de júbilo.

3. Exultet – Proclamação da Páscoa

4. Liturgia da Palavra – leituras e salmos cantados

- após a última leitura do AT o Gloria é entoado e os sinos repicam anunciando a alegria da Igreja - o diácono anuncia uma grande alegria: o Aleluia - Evangelho e homilia

5. Liturgia batismal

- Ladainha - benção da água: introduz-se o círio dentro da água, sinal de que é o próprio Cristo quem santifica a água em que serão lavados os novos membros da Igreja - profissão de fé - rito do batismo e da crisma (no caso de adultos) - renovação das promessas batismais - aspersão da água

6. liturgia eucarística

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