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terça-feira, 22 de novembro de 2011

DIREÇÃO ESPIRITUAL - O MELHOR PARA SEGUIRMOS O CAMINHO COM RETIDÃO

 

 
Padres e vocações dos outros membros do povo de Deus.

Como povo real, a Igreja sente-se enraizada na “Lei do Espírito da vida (Rom 8, 2) e animada por ela. Ora, esta lei é essencialmente a lei da caridade (cf Tg. 2, 8) ou a lei perfeita da liberdade (cfr  Tg 1, 25). Por isso a Igreja cumpre sua missão quando leva todo fiel a descobrir e a viver sua própria vocaçâo na liberdade, e a conduzi-la ao seu cumprimento na caridade.

Em sua tarefa educativa, a Igreja visa, com uma atenção privilegiada, suscitar entre as crianças, os adolescentes e os jovens o desejo e a vontade de seguir Jesus Cristo em tudo e de perto. A obra educativa, que diz respeito à toda  a comunidade cristã como tal, deve dirigir-se a cada pessoa: Deus, com efeito, por seu apelo, une-se ao coração de cada homem, e o Espírito, que permanece dentro de cada discípulo (cf. Jo 3, 24) doa-se a cada cristão com seus carismas diversos e suas manifestações particulares. Cada um deve, pois, ser ajudado a receber o dom que lhe é confiado individualmente como a uma pessoa única e insubstituível, e ser ajudado a escutar as palavras que o Espírito de Deus lhe dirige.

Nessa perspectiva, a preocupação com as vocações ao sacerdócio poderá exprimir-se também numa proposição firme e persuasiva de direção espiritual.
É necessário redescobrir a grande tradição do acompanhamento espiritual pessoal, que sempre deu numerosos e preciosos frutos na vida da Igreja, atitude que pode ser completada, em determinados casos e em condições precisas, por formas de análises ou apoios psicológicos, mas não substituídas por ela.

As crianças, os adolescentes e os jovens serão convidados a descobrir e a apreciar o dom da direção espiritual, a procurá-lo, a fazer sua experiência, a pedi-lo com confiante insistência a seus educadores na fé. De seu lado, os Padres devem ser os primeiros a consagrar tempo e energia a essa obra de educação e apoio espiritual pessoal: jamais lamentarão ter negligenciado ou feito passar ao segundo plano outras coisas, mesmo belas e úteis, se isto for inviável para fazer crescer seu ministério de colaboradores do Espírito, a fim de esclarecer e conduzir aqueles que são chamados (Pastores dabo vobis, 40).

DIREÇÃO ESPIRITUAL RECEBIDA - PADRES COMPANHADOS

A prática da direção espiritual contribui muito também para a formação permanente dos Padres. É um meio clássico, que de nenhuma forma perdeu seu valor, não somente para assegurar a formação espiritual, mas também para promover e apoiar uma fidelidade e uma generosidade constante no exercício do ministério sacerdotal. Como escreveu o Papa Paulo VI, “a direção espiritual tem uma função muito bela e pode-se dizer que ela é indispensável para a educação moral e espiritual da juventude que quer compreender e seguir com toda lealdade sua vocação, qualquer que ela seja. E conserva uma importância benéfica a toda etapa da vida quando, com as luzes e a caridade de um conselheiro piedoso e prudente, nós pedimos a verificação de nossa retidão, assim como o reconforto no cumprimento generoso de nossos deveres. Este é um meio pedagógico muito delicado, mas de muito grande valor. É uma arte pedagógica e psicológica de grande responsabilidade para quem a exerce; é um exercício espiritual de humildade e de confiança para quem a recebe” (G.B. Montini, Carta pastoral sobre o sentido moral, 1961) (Pastores dabo vobis, 81).

O diretor espiritual deve ser, antes de qualquer outra coisa, um homem de Deus. Desta forma, então, deve conhecer os caminhos que a ele conduzem e deve, igualmente, ensiná-los a quem recorre à sua experiência, à sua sabedoria e comprovada prudência para percorrê-los, acompanhado por um guia seguro, sem se enganar e sem deixar-se enganar.

Ademais, é óbvio que entre o acompanhante e o acompanhado se instaure um relacionamento de simpatia, de verdadeira amizade e de grande respeito sem os quais a comunicação é com freqüência árida, mecânica, fria e difícil. É verdade e o demonstra de maneira bem clara a hagiografia dos homens de Deus: o relacionamento entre as pessoas que sinceramente buscam a face de Deus é entretecido de verdadeira amizade e, muitas vezes, de uma relação mais profunda que a paternidade e filiação. Certas expressões cheias de ternura e plenas de unção humana só eles as podem trocar. O bem que se querem e a chama da caridade divina que os une, consuma a ambos e os impele sempre mais para o mistério de Deus no qual desejam mergulhar totalmente e para sempre.

O amor por Deus os fez encontrar e a própria chama; purificando-os, leva-os à simplicidade e à pureza originais. Omnia munda mundis, diz o famoso ditado que ninguém jamais pôde contradizer.

A escolha do diretor espiritual

Em virtude de todos os dotes humanos e espirituais, por causa da sabedoria, da experiência, da prudência e da santidade de vida, a escolha do diretor espiritual é de particular interesse para o cristão que se decidiu por caminhar pela difícil e alegre senda da santidade. Trata-se - é evidente - de algo muito importante que requer, por parte da alma, oração e paciência para evitar escolhas apressadas. Às vezes, é o próprio Senhor que, com palavras claras e sinais mais que evidentes, manifesta à alma o diretor que tem as capacidades para conduzi-la aos vértices mais altos da perfeição. Na prática, isto significa que é o próprio Deus a escolher o diretor espiritual que mais convém à alma. Mas, via de regra, as coisas não acontecem deste modo. Na maior parte dos casos, é a alma quem deverá encarregar-se de achá-lo, escolhendo “de flor em flor”, sem pressa, considerando o grande auxílio que receberá de um diretor espiritual iluminado e capaz.

O que manifestar ao diretor espiritual

A primeira preocupação do diretor espiritual é aquela de conhecer, o melhor que puder, quem se volta a ele para ser acompanhado no itinerário da própria santificação. Conhecer, aqui, tem sentido amplo e abraça todos os componentes que se referem à consciência, à liberdade, aos elementos de alguma forma determinantes ou não, mas que exercem, muitas vezes sem que a pessoa o saiba, uma certa influência nas escolhas a fazer. Nisto, o diretor pode ser ajudado pelas assim chamadas “ciências humanas”: psicologia, biologia, sociologia e antropologia cultural. Hoje em dia, ninguém pode negar a existência de condicionamentos ante as escolhas que se fazem. Tais condicionamentos devem ser, tanto quanto possível, eliminados ou neutralizados para as escolhas que valem uma vida.

O conhecimento se estende não só ao passado, mas também ao presente.
O passado deve ser conhecido para saber de onde se vem, quais foram os caminhos percorridos, quais foram os momentos, bons ou não, que deixaram sinais e levaram a decisões importantes.

O presente deve, ele também, ser conhecido para se ter uma idéia clara das bases sobre as quais se continua a construir o homem novo.
Neste trabalho, o diretor deve ser ajudado pela pessoa que a ele se confia, a qual deve manifestar-se com simplicidade, sem esconder, sem aumentar ou diminuir as suas responsabilidades. Os subterfúgios, o lusco-fusco, as penumbras, o colocar em evidência intencionalmente qualidades e conquistas, aqui, serviriam apenas para transmitir uma falsa, quando não deletéria, distorcida imagem da própria pessoa.

O que é a direção espiritual?

Antes de mais nada, devemos notar que o espaço de tal precioso e delicado trabalho não se restringe unicamente ao espiritual; abraça o homem inteiro, com suas inclinações, seus instintos, suas paixões, fraquezas e virtualidades. A direção espiritual, enquanto ciência especulativa e prática, vê o homem assim como é, ou seja, no seu ser, no seu operar e no seu vir-a-ser concreto e real. Na verdade, ela se ocupa de todas as situações existenciais nas quais o homem vem a se encontrar e o ajuda no seu crescer e amadurecer como homem e como cristão. São quatro as verdades que constituem o fundo necessário para ativar o serviço da direção espiritual: a absoluta perfeição de Deus, a redenção do homem, a sua capacidade de perfeição e as situações concretas - ambiente, educação e cultura - em que esta se atua para cada um em particular.

O ser humano, sendo composto de matéria e espírito, nas atenções que lhe são voltadas, nunca pode ser dividido em áreas diversas, em compartimentos independentes e não interativos e complementares.

É verdade que houve uma cultura cujos arautos, de cunho tipicamente platônico e maniqueu, induziram à divisão do homem em ser material e pneumático, com o conseqüente desprezo do corpo e a exaltação da alma. Mas, tudo isso, embora ainda desponte em ambientes saudosistas do passado, já está em vias de extinção.

O Vaticano II confirmou a doutrina da Igreja sobre este assunto e recordou que, com relação ao corpo, é preciso evitar os extremos que o rebaixam exageradamente ou, pelo contrário, que o exaltam sem medida. Desprezar o corpo significa condenar a obra de Deus. A antropologia cristã sempre o olhou com muito respeito, porque o considera um dom da onipotência criadora de Deus. O Concílio, então, admoesta dizendo ao homem que “não pode, portanto, desprezar a vida corporal; deve, pelo contrário, considerar seu corpo como bom e digno de respeito”. Mas, também a exaltação excessiva do corpo não corresponde à visão cristã. Hoje, o culto do corpo, ultrapassando todas as medidas e equilíbrio, transformou-se numa idolatria. Não se vê outra coisa. Tenta-se tudo para torná-lo um fim em si mesmo e o centro de todas as atenções. É incalculável o que se gasta para deixá-lo atraente e provocante. Deste modo, sacrifica-se a dimensão espiritual do homem e se peca por excesso. É claro que o homem, por tudo aquilo que é, deve amar a Deus não só com todo o coração e com toda a mente, mas ainda com toda a carne. Eis o motivo pelo qual ele deve glorificar o Senhor também com o corpo. Contudo, devido ao caos introduzido pelo pecado, o cristão é chamado a lutar para impedir que o corpo se torne escravo das perversas inclinações do coração.

Pensar apenas na alma, esquecendo-se do corpo, não seria correto, nem corresponderia à verdade, pois dividiria aquilo que Deus uniu substancialmente. Todo trabalho que incida de modo direto ou indireto sobre o homem enquanto tal, deve ter em conta a unidade substancial entre espírito e matéria. Qualquer dicotomia o privaria do essencial. Afinal, uma parte nunca é o todo!

O fato está em que a visão cristã da realidade corpórea do homem é constitutiva da unidade e integridade do ser humano e, assim, qualquer afirmação de uma componente sem se considerar a outra vai contra a realidade e lhe bloqueia os princípios dinâmicos do vir-a-ser original. De que maneira o homem se colocaria no mundo sem a mediação da sua corporeidade?

Partir da consideração do homem espiritual enquanto ser no mundo e em situação, sem atentar à sua materialidade, seria um grave erro, porque a existência humana é o ponto de encontro entre finito e infinito, num contexto histórico concreto no qual se atua continuamente a sua materialidade com ressonâncias imediatas tanto na vertente psíquica, como na espiritual. A compreensão da existência humana na sua totalidade, pelo contrário, permite posturas realísticas nos seus confrontos e salva a realidade da sua unidade substancial. A tensão para uma existência ideal, projetada no absoluto, não pode, para ser real, prescindir do contingente concreto com o qual deve, de fato, continuamente defrontar-se. Por isso, julgamos que o critério fundamental para iniciar e conduzir o acompanhamento espiritual deve ser o reconhecimento, no homem, da dualidade na unidade; e é tal unidade que deve ser subjetivamente a preocupação objetiva. Este critério de avaliação parece-nos urgente, sobretudo nos dias de hoje. Não porque o conceito clássico da ascese tenha se tornado obsoleto, mas porque a divisão existencial do homem, no seu conjunto, é menos jansenista e se serve de dados mais claros e completos, que sempre lhe salvam a unidade substancial.

Uma vez afirmado tudo isso, podemos definir a direção espiritual como a ajuda oferecida por uma pessoa sábia, prudente e de experiência a quem, para ser nova criatura, decide empenhar-se na escuta de Deus e deseja atingir a perfeição para a qual o Senhor pessoalmente o chamou.

Uma definição, também essa bem ampla, é a dada por William A. Barry e J. Connolly: “Definimos, então, a direção espiritual como o auxílio que o cristão presta a outro para torná-lo atento nos confrontos com Deus que lhe fala pessoalmente, para dispô-lo a lhe responder e fazê-lo capaz de crescer na intimidade com ele, assumindo as conseqüências desta relação”.

Outra definição, digamos, mais científica é a seguinte: “Ciência e arte de conduzir as almas à própria perfeição, segundo a vocação pessoal”.

Segundo esta definição, que poderíamos chamar clássica, a direção espiritual é ciência e arte. Ciência, enquanto deduz suas conclusões lógicas a partir de princípios certos e demonstráveis; arte, porque requer do diretor espiritual não pouca habilidade para conduzir as almas à santidade. Não basta dizer às almas o que devem fazer para agradar a Deus e quais são as virtudes que devem praticar para atingir a perfeição de seu estado. É preciso também a destreza para movê-las à ação, para instá-las a adquirir a virtude. Assim, se todos podem possuir a ciência, o engenho é de poucos. Na nossa opinião, para guiar as almas, ciência e habilidade nunca podem estar separadas. Quem não as possui não pode assumir esta responsabilidade.

Pe. Emílio Carlos Mancini


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