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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Mistica Medieval

A Você que não conhece esta obra, uma nota para entendimento:

Bosco Deleitoso - também Boosco Deleitoso em português medieval - é uma obra literária mística escrita em Portugal na Idade Média. O livro foi escrito por um monge anônimo do Mosteiro de Alcobaça entre os finais do século XIV e o início do século XV. É considerada uma das mais importantes obras espirituais da literatura portuguesa.



Boosco Deleitoso 

INTRODUÇÃO
A 24 dias de Maio do ano da Encarnaçam de Nosso Salvador e Redentor Jesu Cristo de mil quinhentos e quinze, na mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa, saía dos prelos de Hermão Campos, bombardeiro del-rei nosso Senhor, um livro intitulado Boosco deleitoso, em que se continham enxempros e falamentos muito aproveitosos pera mantimento espiritual dos corações.

Nas proximidades do dia 24 de Maio do ano da graça de 1950, decorridos, portanto, mais de quatro séculos, e nesta não menos nobre e leal cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, anima-se o venerando cimélio quinhentista a defrontar-se, tímido e receoso, com o sorriso escarninho e compassivo de leitores mal preparados para acolher-lhe com proveito e simpatia as graves e severas lições.
Receio por demais justificado, pois nada menos pretende o ingênuo moralista de Quinhentos do que dirigir ardente defesa da vida solitária às almas enredadas em negócios mundanaaes, convidando-as, com irritante afinco, a procurarem, sequer no fim de agitada e estéril existência, o assessêgo balsâmico e pacificador do ermo.
É lícito duvidar que o douto razoamento consiga convencer numerosos adeptos e conquistar largo proselitismo. Não duvidamos, no entanto, que qualquer amante apaixonado de nosso formoso idioma, se lhe não falecer animo para superar galhardamente as primeiras dificuldades inerentes à leitura de qualquer texto arcaico, não saberá resistir aos encantos desta prosa equilibrada, límpida e fluente como caprichoso regato a serpear, despreocupado e borborejante, por ameno vergel, comprido de toda sorte de animálias e atapetado com formoso manto multicor de flores de desvairados matizes. Para quem possui algum conhecimento, superficial embora, de nosso remoto passado, palpita em. toda sua pujança e singeleza nos períodos símprezes e desataviados do Boosco a alma candorosa e singela de nossa Idade Média, saturada de intenso e vigoroso idealismo cristão.
O Boosco constitui uma raridade bibliográfica. Se não falha nossa informação, deste livro são conhecidos apenas dois ou, quando muito, três exemplares: um, incompleto — pois lhe falta a página de rosto e o preâmbulo na Biblioteca Nacional de Lisboa; outro, na livraria que foi del-rei D. Manuel II e que poderá ser aquele mesmo de que afirma a História da literatura portuguesa ilustrada, de Albino Forjaz de Sampaio, I, 1929, p. 154, ter sido vendido em leilão, há poucos anos, pelo livreiro Armando Tavares, exemplar que fora da livraria de Joaquim Pereira da Costa.
Pelo que respeita a data da composição, "posto que impressa no primeiro quartel do século XVI, ensina o saudoso mestre ). Leite de Vasconcelos, a páginas 136 de suas Lições de Filologia Portuguesa, 2. edição, 1926, esta obra representa uma fase lingüística muito mais antiga, dos começos do século XV ou ainda dos fins do século XIV. Talvez não passe de reprodução de uma obra impressa no século XV, de que não se conhece hoje nenhum exemplar, pois não é natural que imprimissem pela primeira vez no século XVI um antigo texto manuscrito sem o modernizarem".
Véu ainda mais impenetrável encobre a pessoa do autor. A páginas 94 de sua Portuguese Literature (p. 113 da tradução portuguesa), contenta-se o simpático lusitanista. e penetrante crítico Aubrey F. G. Bell com ponderar que, "no seu principal assunto; o elogio da vida solitária, este livro faz lembrar o título do tratado atribuído a D. Felipa de Lencastre — Tratado da vida solitária, tradução do latim de Lourenço Justiniano. Mas o De vita solitaria deste último é inteiramente diverso do Boosco deleitoso, que parece composto antes do nascimento de D. Felipa, em 1437". Tão-pouco elucida o problema el-rei D. Manuel II no extenso estudo que consagra ao Boosco em Livros antigos portugueses, Maggs Bros, Londres, I, 1929, p. 287-299. O mesmo se dá com Agostinho de Campos na citada História da literatura portuguesa ilustrada, I, p. 174-175.
O primeiro erudito de língua portuguesa que conseguiu levantar uma ponta do véu foi Mário Martins, em artigo publicado na revista lisbonense Brotéria, vol. XXXVIII, 1944, p. 361-373, onde cita, de Arturo Farinelli, Itália e Spagna, Torino, I, 1929, o primeiro estudo — Petrarca in Ispagna nell' Età Media. Suas investigações evidenciaram o seguinte facto: o imortal cantor de Laura não é tão só "responsável pela lacrimosidade preciosista e o incurável dolor de amor, que se arrasta, sensualmente, no pastoralismo espanhol e lusitano"; dele proveio, outrossim, aos povos da Península, o amor profundo da soledade, no sentir de Karl Vossler. Poesie der Einsamkeit in Spanien, 1935 (trad. esp. La soledad en Ia poesie espanola. Madrid, 1941). O Boosco esclarece um capítulo de nossa história literária, pois em escrito algum português é tão acentuada como nele a influência do De vita solitária de Petrarca.
Iniciado na quaresma de 1346, o De vita solitária só veio a ser concluído cerca de dez anos mais tarde em Milão, dedicando-o seu autor ao bispo de Cavaillon, no actual departamento francês de Vaucluse (em italiano, Valchiusa), Filipe de Cabassoles, mais tarde patriarca de Jerusalém c cardeal. É o elogio da solidão e do silêncio, enquanto libertam das fastidiosas preocupações quotidianas e proporcionam tranqüilidade de espírito. Divide-se em duas partes. A primeira constitui uma ardente apologia da vida solitária, em que o conceito eremítico e religioso da solidão se confunde de contínuo com a idéia literária do bucolismo clássico: ao romper da alva o solitário, descansado e feliz, procura a paz e o silêncio de um bosque vizinho; ali, sentado em tapete de flores, saúda o raiar do sol e, alegre, com voz que lhe brota espontânea do peito, entoa louvores ao Senhor, enquanto seus devotos suspiros se acompanham com o cascatear buliçoso de cristalino regato ou os suaves lamentos das aves. Enchem-lhe os dias a prece, o estudo e honesto espaçar. Sem o conforto das letras, aliás, encarece o grande pré-renascentista italiano, a solidão é exílio, prisão, tormento; ao cultor das letras, pelo contrário, é pátria, liberdade, prazer — solitudo sine litteris, exsilium est, carcer, aculeus; adhibe litteras, patria est, libertas, delectatio (I, 3, 4, p. 35). Alternando a fadiga com o repouso, o solitário ocupa-se em ler e escrever: lê o que escreveram os antigos, escreve o que hão-de ler os vindoiros. Sua solidão é amenizada pelo espectáculo de uma natureza aprazível e amena, por visitas de amigos, pelo trato freqüente dos livros; "seja o ócio modesto e suave, não repulsivo; seja a solidão tranqüila, não agreste —¦ solidão, em suma, não selvatiqueza, e tal que quem a procura deva admirar-lhe a humanidade." Na segunda parte, Petrarca multiplica exemplos, desde os patriarcas e profetas bíblicos até os anacoretas da Tebaida, e inúmeros povoadores do ermo, como S. Francisco e S. Celestino V, reabilitado intencionalmente, ao que parece, contra o juízo infamante de Dante, que afirma, no canto II do Inferno: vidi e conobbi l'ombra di colui che fece per viltade il gran rifiuto. Do prior dos Camaldutenses, que lhe estranhara a omissão de seu S. Romualdo entre tantos solitários, de muito menor fama, recebeu Petrarca os dados para o Supple-mentum Romualdinum, 77, 4, 2. Junto com exemplos cristãos, e a-par dos Brâmanes e solitários de regiões hiperbóteas, não podiam faltar os predilectos filósofos e poetas clássicos, desde Horácio a Virgílio, de Cícero a Sêneca e aos grandes vultos da história de Roma.
Sobre a obra de Petrarca, cf. Pio Rajna. Il códice vaticano dei trattato De vita solitaria di Francesco Petrarca, na Miscellanea Ceriani, Milano, 1910 p. 640 e seg., A. Avena. La composizione dei trattato De vita solitária, na Rassegna critica delia letteratura italiana, XII, 1907. — Natalino Sapegno. Il Trecento, na Storia letteraria d'Italia, do editor Francisco Vallardi, Milão, 4a reimpressão, 1948, p. 223, 273, 631. — Na edição nacional de Petrarca da editora florentina Sansoni, deverá figurar o De vita solitária, entregue à competência de A. Roncaglia. Ao lado da tradução italiana de L. Asioli, Milão, Hoepli, 1927, dispusemos apenas do texto latino publicado por Ant. Altamura, ed. Gaspare Casella, Nápoles, 1943, muito mal acolhido pela crítica italiana. Veja-se, por exemplo, o que escreve a revista Leonardo, nova série, dez. de 1946, p. 355-356.
Se com o tratado de Petrarca cotejarmos o Boosco deleitoso, verificaremos que quási a metade do livro impresso por Hermão de Campos reproduz o De v ita solitária, ou seja, com leves falhas e interpolações, do capítulo XVI ao capítulo CXVII. O próprio D. Francisco, nobre solitário, que desempenha o papel de protagonista, não passa de Francisco Petrarca. Não quer isto dizer que todas aquelas páginas sejam mera tradução, mais ou menos literal, do latim petrarquista, porquanto o nosso inteligente compilador conseguiu apresentar-nos um conjunto mais espiritual, menos erudito, mais poético: inspipirando-se em ascetismo mais profundamente cristão, contenta-se com aduzir o pensamento de clássicos como Cícero ou Virgílio, em-vez de transcrever-lhes as formais palavras, e transforma seu arrazoado em solene cenário onde, um após outro, comparecem, devidamente caracterizados, os apologistas da vida do ermo. Escusamos largas transcrições para justificar a dependência de nosso livro em relação a Petrarca. Apenas citaremos, a título de exemplo, algumas frases a esmo, contrapondo os dizeres do Boosco referentes a S. Bento, e os correspondentes do De vita solitária, II, 4 (p. 91-92 da edição Altamura):
Sed ubi iam dux occidentalium monachorum Benedictus remanet? At quis eum Christi fidelium non novit? Quis sanctum iuvenile consilium non audivit? Qui, quamvis a prima aetate virtutum hospes, voluptatum hostis, arduam caeli viam esset ingressus, ut compendiosius tamen ac tutius pergeret, Romam Nursiamque dimisit, quarum in altera educatus, ortus ex altera, utriusque ámorem usu ac natura contraxerat; vicit tamen carnales affectus animae cura petiitque felix puer, non modo solitudinem, sed desertum et illud immane, sed devotum specus, quod qui viderunt vidisse quodammodo paradisi limen credunt.
Boosco, cap. 189, fl, 43 d- 44 a, (na presente edição, n. 513, p. 200) - Mas u nos fica, irmaão, o guiador dos monges do Ocidente, Sam Beento? E qual é o fiel cristaão que o nom conhoce? E quem nom ouviu o seu conselho, sendo êle mancebo? Como quer que êle, dês a sua primeira idade, fosse hóspede de virtudes e êmígoo das deleitações carnaaes, e começasse de andar pela alta carreira do ceeo, pero, por tal que andasse mais toste e mais seguramente, leixou a cidade de Roma, em que foi criado, e a cidade de Nurça, em que naceu, as quaes êle amava muito polo uso e polo natureza. E pero venceu as afeições carnaaes, com o cuidado que havia da sua alma, e, seendo moço, foi-se pera o deserto, meteu-se em ua rocha cavada e mui devota, e é tal que aqueles que a vêem, parece-lhes que vêem portal do paraíso.
A versão do Boosco é, por vezes, tão literal, que o confronto com o original latino permite esclarecer dúvidas de interpretação ou eliminar lapsos gráficos. Comparem-se, por exemplo, os seguintes lanços do De vita solitaria com os correspondentes do Boosco:
I, 7, 4, p. 56: optimo quisque ingenio totum se in cognitione et in scientia collocaret; cap. 46, fl. 26 a, n. 338, t. 1 1 — 12, p. 117: qualquer homem que houvesse boõ engenho alogaria si meesmo todo em conhocimento e em ciência.
I, 2, 1, p. 22: telam negotii orditur, por onde se conclui que são negócios urdidos como teia os negócios ateados do cap. 17, fl. 11 b, n. 138, l. 13-14, p. 48.
I, 2, 2, p. 23: turpibus latebris clientium suorum se furatur adspectibus; cap. 19, fl. 12 a, n. 147, l. 12-13, p. 51: escondendo-se deles temporemente. (O turpibus de Petrarca impõe a correcção torpemente).
I, 2, 7, p, 28: v i g il e m sobrietatem implorat; cap. 26, (fl. 14 d, n. 179, l. 8, p. 60: que lhe dê temperança vigravil, (vocábulo que, à vista do latim vigilem , se deverá identificar com o português vigilante).
I, 2, 9, p. 29: sollicitatus litteris, interpellatus nuntiis, (lanço que torna compreensível o texto do cap. 28, fl. 15 b, n. 185, l. 9-11, p. 66: cuidoso com cartas que lhe enviarom e chamarom per messegeiros).
II, 1, 11, p. 85: quidquid consules deliberant; cap. 84, fl. 41 d, n. 495, l. 2, p. 190: qualquer cousa que os cônsules livram (ou seja, deliberam).
II, 1, 12, p. 86: secretum horti an gulum pro solitudine habuit; cap. 85, fl. 42 a, n. 498, l. 14-15, p. 191: apartastes-vos em quanto de uu horto (isto é, em canto, ou ângulo);
II, 2, 3, p. 90: mortem ut ingressum vitae et labo-ris sui praemium amabat; cap. 88, fl. 43 d, n. 511, l. 18-19, p. 199: assi como entrada de vila e galardom de seu trabalho (lapso manifesto, por "entrada de vida" ).
II, 7, p. 121: ad v erb osam Graeciae philosophiam et deliciosam mollitiem transfugisset; cap. 96, fl. 48 b, n. 547, l. 20-21, p. 220: fuge-se pera a soombrosa filosofia de Grécia. (Será temerário ler: "verbosa filosofia"?).
II, 8, 2, p. 128: vacuum Tibur aut imbelle Tarentum; cap. 99, fl. 49 d, n. 559, l, 5, p. 227: o ermo de Nubelle Tarentum. (Nosso compilador não procurou verter o adjectivo imbelle , em lanço transcrito de Horácio. Epíst, I, 7, 45, e apenas tresleu nu~ a sílaba i m~).
II, 2, 1, p. 97: horridum habitaculum; cap. 86, fl. 42 c, n. 501, l. 24, p. 194: morada espantosa e mui espessa. (Afigura-se recomendável a leitura áspera),
Dos equívocos aqui sinalados de relance, alguns levam a admitir que o compilador do Boosco não compreendeu, aqui e acolá, o original de Petrarca, contentando-se com transcrevê-lo materialmente; outros parecem corroborar a hipótese de eles representarem uma leitura errônea do original, inédito ou impresso, que serviu de base à impressão de 1515. Em abono deste modo de ver, pedimos vénia para aduzir mais alguns exemplos.
Ao descrever a "miséria" do homem ocupado em negócios na hora do jantar, escreve Petrarca, I, 2, 3, p. 24: circumstant canes aulici muresque domestici; lanço assim reproduzido pelo Boosco, cap. 20, fl. 12 c, n. 154, l. 4-7, p. 53; "estam arredor dele os caães do paaço, que som os mais e maiores seus chegados, e os mures domésticos, que som os servidores da casa". Salvo engano, nunca existiu em português o vocábulo mures.
No cap. 36 do Boosco, fl. 19 d, n. 251, l. 8, p. 87, o ancião a que se refere Terêncio em sua comédia Adelphoe — no dizer de Petrarca, I, 4, 1, p. 37: meminerit Terentiani senis in Adelphis — passa a ser "o velho filósofo dom Terenciano".
Em II, 3, 3, p. 97, alude Petrarca a Arnulfo, eremita no termo de Metz e bispo daquela cidade: territorii Metensis eremicola atque eiusdem urbis episcopus. Pois bem, deste incompreendido territorii fêz o Boosco, cap. 94, //. 46 b- c, n. 534, l. 2-3, p. 211, a cidade de Teritónia...
No cap. 68, fl. 37 d- 38 a, n. 459, l. 8-9, p. 172, o diversorium viatorum , "pousada de caminheiros", de Petrarca, II, 1, 8, p. 81, foi treslido diversorum viatorum, "dos desvairados caminheiros", por mais inverosímil que seja o equívoco, com a circunstância agravante de o mesmo cochilo ocorrer outrossim no cap. 45, fl. 24 c, n. 319, l. 10-11, p. 110.
Distração muito parecida deparamos no cap. 84, fl. 41 d, n, 495, l. 11-14, p. 190, onde a exclamação latina de Petrarca, II, 1, 11, p. 85, credo, edepol, "creio, por Pólux!", vem transformada em "aquela casa que chamam Edepol".
Seja como fôr, significativas coincidências com o texto de Petrarca não escasseiam no Boosco, que nem sequer omite, por exemplo, o trocadilho de fama com fame — I, 2, 2, p. 23: non potius deserti famem quem diserti fama m concupierit; cap. 19, fl. 12 a, n. 147, l. 7-8, p. 51: ante nom cobiiçou fazer vida em o deserto com fame, ca haver a fama do põboo (pena foi não contrapor a fame do deserto à lama do diserto... ) — ou reflexões ingênuas como a do cap. 38, fl. 20 d, n. 264, l. 14-17, p. 92, onde, referindo-se à singeleza do solitário, pondera que, no ermo, não há "quem faça engano senom aos peixes, tomando-os com o anzolo, e aas aves, tornando-as com visco ou com o laço", mera transcrição de Petrarca, I, 4, 3, p. 39: quem praeter pisces hamo, quem praeter feras ac volucres visco fallat aut laqueo?
A partir do capítulo CXVIII, desaparece para sempre da cena D. Francisco solitário. Não nos cabe indagar aqui se, afora as partes do Boosco directamente tomadas do De vita solitária, houve nele influência de outros escritos de Petrarca. Seria instrutivo, por exemplo, averiguar a procedência do lanço consagrado ao mal identificado frade da ordem dos Pregadores, Dom Vicêncio, que não figura no De vita solitária, mas de quem refere o autor daquele trecho que "o conhecera mui bem, ca muitas vezes o vira e falara com ele" (cap. 49, fl. 27 c- 28 c, n. 361-373, p. 125-129). £ certamente de origem italiana a invectiva contra modas estrangeiras, "que mudam a honra de Itália em costumes bárbaros" (cap. 59, fl. 34 d, n. 432, /. 10-11, p. 159), talvez mera adaptação, mais livre, de I, 9, 3, p. 63:... molestiarum mearum prima et máxima, ex humani generis, atque in primis Italiae, commiseratione proveniens, unde olim virtutum exemplaria petebantur, quam, heu, nunc video peregrinorum rituum imitatione corruptam et domitarum a se gentium, ut quondam spolíis, sic nunc erroribus exundantem. É de notar, aliás, que há, no Boosco , pelo menos mais duas alusões à Itália.
As últimas partes do livro têm caracter mais acentuada-mente ascético. Já resolvido a mudar de vida, o solitário concentra-se na consideração da miséria humana, esboçada em termos vigorosos e impressionantes (cap. 113, fl. 58 b- 59 b, n. 622-627, p. 265-209).
Por fim, purificado de todo, o penitente está preparado para os arroubos da mais sublime contemplação, em que recebe os últimos retoques da graça, até ser triunfal-mente introduzido na glória celestial. Há, nesses capítulos, dificuldades de compreensão provenientes, não de imperícia do escritor, mas do próprio assunto: trata-se de realidades sublimes "que nom podem entender senom aqueles que as provarem" (cap. 149, fl. 73 a, n. 735, l. 6-8, p. 334).
Tão-pouco figura no De vita solitária a primeira parte do Boosco. No capítulo inicial, o pecador arrependido é conduzido a um bosque muito espesso de aprazíveis árvores, em que docemente gorjeiam muitos passarinhos, perto de um lindo campo de muitas ervas e (roles de bõo odor — lugar-comum fartamente explorado pela literatura pastoril. Tenha-se presente, por exemplo, nosso continuador da tradição petrarquista, Fr. Heitor Pinto, que, logo no capítulo I do diálogo consagrado a vida solitária, I, 1843, p. 305, é convidado a "sentar-se e lograr deleitosa floresta, coberta de uas viçosas ervas que, meneadas de temperado vento, faziam uns verdes claros e escuros graciosos". Depois de orar para ser livre das trevas da morte, aparece ao mesquinho pecador um mancebo vestido de panos brilhantes como fogo e cuja face era clara como o sol quando nace em tempo da grande queentura. Este glorioso guiador o leva à residência encantada das Virtudes — Justiça, Misericórdia, Ciência da Sagrada Escritura, Fé, Esperança, Caridade. . . — que lhe dirigem insistentes exortações, até encontrar-se, no capítulo XVI, com o nosso já conhecido D. Francisco solitário. A alegoria — será escusado lembrá-lo — é artifício literário de que o gênio artístico da Idade Média costumava lançar mão para dar forma expressiva a conceitos abstractos; e a esta tendência não conseguiu subtrair-se de todo Francisco Petrarca, rico embora de pressentimentos modernos. Quanto ao glorioso guiador, lembra-nos, — para não falarmos na Beatriz de Dante — o encontro, no proêmio do Secretum, com a figura deífica e refulgente, em quem Petrarca reconhece a Verdade, talvez idêntica à Donna piu bella assai che il sole, da canção 119.
No tocante à presente edição, bastará reafirmar aqui que envidámos esforços, para tornar o precioso cimélio acessível ao maior número possível de leitores. Para isso, subdividimos o livro - seu tanto arbitrariamente, cumpre reconhecê-lo — em partes distintas, que, de algum modo, lhe quebrem a monotonia; simplificámos a grafia, sem prejuízo, claro está, da genuidade do texto; introduzimos pontuação, abrimos alíneas, sinalámos com tipo itálico as leves inovações que julgámos necessárias para dar ao texto sentido satisfatório; lançámos mão, numa palavra, de todos os recursos que se nos afiguraram aconselháveis, em ordem a apresentarmos ao leitor moderno o que alguém poderá denominar, se lhe aprouver, edição ad usum Delphini. Para o gosto mais apurado de medievistas sabedores reseriamos o fac-símile do texto de 1515, que fará parte de nossa Biblioteca fac-similar e crítica de literatura medieval e quinhentista, integrada, como fica dito em apêndice do presente volume, nos Anexos do Dicionário Medieval c Clássico.
O segundo volume será constituído por excursos elucidativos e extenso glossário.
O Boosco despertara o interesse do malogrado filólogo português Abílio Roseira, que lhe preparava uma edição crítica quando morte prematura veio arrebatá-lo aos estudos filológicos. A notícia é-nos dada pelo distinto humanista Rebelo Gonçalves em Filologia e Literatura, São Paulo, 1937, p. 234. Sem pretendermos substituir aquele erudito, faremos quanto em nós couber para levarmos a bom termo o dificultoso empreendimento.
Mas é tempo de cortarmos por mais delongas. Está à porta, aguardando por nós — e estaria impaciente, se defeito coubesse em anjo — o nosso amável guiador, a convidar-nos com gesto amigo e benevolente sorriso: me duce, carpe viam.
Rio, 2 de Fevereiro de 1950
Augusto Magne






(DEDICATÓRIA)
1. (1, v) A muito esclarecida e devotíssima reinha dona Lianor, molher do poderoso e mui manífico rei dom Joam segundo de Portugal, como aquela que sempre foi enclinada a toda virtude e bem-fazer, zelosa grandemente de sua salvaçam e de toda alma cristaã, mandou emprimir o seguinte livro chamado Boosco deleitoso, veendo Sua Alteza nele tanta duçura espritual e prosseguindo êle com tantos enxempros e figuras, por convidar a muitos aa doutrina de nosso Redentor Jesu Cristo, em nome do qual começa o dito livro. Primeiramente, o prólogo do autor.
(PRÓLOGO)
2. Em nome do Nosso Senhor Jesu Cristo, em que é toda nossa vida.
Este livro é chamado Boosco deleitoso porque, assi como o boosco é lugar apartado das gentes e áspero e ermo, e vivem enele animálias espantosas, assi eneste livro se conteem muitos falamentos da vida solitária e muitos dizeres, ásperos e de grande temor pera os pecadores duros de converter. Outrossi, em no boosco há muitas ervas e árvores e froles de muitas maneiras, que som vertuosas pera a saúde dos corpos e graciosas aos sentidos corporaaes. E outrossi há i fontes e rios de limpas e craras águas, e aves, que cantam docemente, e caças pera mantiimento do corpo.
3. E assi eneste livro se conteem enxempros e falamentos e doutrinas muito aproveitosas e de grande consolaçom e mui craras pera a saúde das almas e pera mantiimento espritual dos coraçoões dos servos de Nosso Senhor, e pera aqueles que estam fora do caminho da celestrial cidade do paraíso poderem tornar aa carreira e ao estado de salvaçom e poderem alcançar aquela maior perfeiçom, que o homem pode haver enesta presente vida, e haver o maior prazer e aquela maior dolçura e consolaçom espritual, que a alma pode receber enquanto está em no corpo e, depois desta vida, haver e possuir a grória perdurávil, tomando enxem-pro de uü homem pecador, que todo esto encalçou em vida apartada e solitária dos negócios do mundo, segundo êle reconta de si meesmo, dizendo assi. (2, a)
CAPITULO II
8. Seendo eu, mezquinho pecador, em tal estado, ia muito amiúde andar e espaçar per uu campo mui fremoso, comprido de muitas ervas e froles de boõ odor. Mais nunca se de sobre mi partiam aquelas treevas mui escuras, que me cercavom em-derredor e dentro em a minha conciência. E acerca daquele campo estava uu boosco mui espesso de árvores mui fremosas, em que criavom muitas aves, que cantavom mui docemente, como quer que o boosco era escuro com névoa que havia em êle.
9. E andando eu per aquele campo, ouvindo os doces cantares das aves e mirando as fremosas froles, dizia muitas vezes ao Senhor Deus:
— Senhor, amercea-te de mi! Quem me livrará destas treevas de morte?
E as aves do boosco me respondiam:
— A graça de Deus per Jesu Cristo te livrará. Entom tive mentes aa minha parte deestra, e vi estar uu mancebo mui fremoso, vestido de vestiduras de fogo mui esprandecente, e a face dele era crara como o sol, quando nace em o tempo da grande queentura. E êle estava cingido com uua cinta de ouro, e em uua (2, c) maão tiinha uua segur mui aguda de aço mui luzente encastoada em ouro, e em na sua cabeça trazia uua grilanda de pedras preciosas, e trazia aas mui esprandecentes em seus pees.
10. E eu preguntei-lhe, assi como homem espantado, que voz era aquela daquelas aves, e êle me disse:
— Estas aves som os santos doutores que ordenarom a santa escritura, e eles te confortam e eles te amoestam e eles te ameaçam muitas vezes, segundo tu bem sabes. E tu, cuberto de trevas, nom queres entender pera te correger e pera bem obrar. Homem, pára mentes em sua doutrina e correge tua vida e confia em na misericórdia de Deus, ca tanto e mais quer êle livrar os mizquinhos da sua mizquin-dade, como eles mesmos querem, ca êle os convida que lhe peçam misericórdia.
11. E certamente nom convidaria êle os homeês, que lhe pidissem, se lhes êle dar nom quisesse. Mas êle diz: "Pidide e receberedes". E, porém haja vergonça a priguiça dos homeês, ca mais lhes quer êle dar, que eles querem receber; e mais se quer êle amercear, ca os homeês querem seer livres da mizquindade, e muitas vezes oferece a misericórdia de Deus ao homem aquêlo que êle nom ousa de pedir; ca a sua misericórdia melhor é sobre todas as vidas, ca por muito louvada que seja qualquer vida dos homeês, confusom será a ela, se fôr escoldrinhada sem misericórdia; e a sua misericórdia é sobre todas as suas obras, e a sua propiadade é amercear-se e perdoar. E porém, amigo, toma fiúza e esperança em a misericórdia do Senhor e nom desesperes com tristeza, ca com tal tristeza é derribado o esprito do homem em perfundeza de desesperaçom: mais consiira que o Senhor Deus é justo e dereito.
12. E porém nom deves teer em pouco os teus pecados; pero, consiirando que êle é piadoso, nom queiras desesperar, mas have temor da tua fraqueza e espera sempre na misericórdia do Senhor Deus e da beenta Virgem sua Madre, Maria, que é madre de misericórdia; ca, como quer que ela seja mui louvada em todas as virtudes e se alegrem os homeês com a sua virgindade e se (2, d) maravilhem da sua humildade, pero a sua misericórdia é mais doce e mais saborosa aos mizquinhos, e com maior amor se abraçam com ela e da sua misericórdia se lembram e a chamam mais amiúde que as outras suas virtudes. E porém, amigo, a tua alma, que é seca, vaa-se trigosamente a esta fonte, e a tua mizquindade recorra-se com todo cuidado a esta alteza da misericórdia da beenta Virgem, ca ela escança vinho de consolaçom pera os tristes e desconsolados.
13. Quando eu, triste e mezquinho pecador, ouvi estas palavras daquele mui esprandecente mancebo, esforçou-se o meu coraçom, e respondi enesta guisa:
— Senhor, todo o meu merecimento o amerceamento é de Deus, e porém queiro tomar teu conselho, ca entendo que de todo nom perecerei, porque o Senhor é misericordioso, e a sua beenta Madre, que nunca falece aaquêles que a chamom em nas suas necessidades.
CAPÍTULO III
14. Tanto que esto houve dito, tomei já quanto esforço em meu coraçom e comecei a dizer ao esprandecente mancebo:
— Senhor, rogo-te, por Deus, que me digas quem és, que tam grande cuidado hás do meu bem.
E êle me respondeu, dizendo:
— Amigo, nom me conhoces? E eu lhe disse:
— Certamente nom, ca nunca te vi, nem outra criatura semelhável a ti.
15. E êle me respondeu:
— Verdade dizes ca nunca me viste; mas, se bem acordado fosses, bem te devia nembrar, que muito amiúde me sentiste, ca, dês o dia em que tu naceste, sempre fui teu companheiro e me trabalhei de te guardar e pera te levantar e espertar do sono do pecado e, de noite, pera aproveitares em bem obrar; e trabalhei de afastar de ti os maaus espritos, e te ensinar e certificar em nas cousas duvidosas, e seer teu guiador, que nom errasses, e acorrer-te toste-mente, que nom caísses.
16. E trabalhei de te ajudar contra os enemigos e de luitar contigo, pera te fazer usado em bem, e muitas vezes te trouve aa memória os teus pecados, por haveres deles vergonça, e amostrei a ti a vontade de Deus, que nom errasses, e trabalhei de te tirar os embargos pera servires mais livremente ao Senhor; e amiúde te visitei, por nom pecares (3, a) e amansei as tuas tentações, que nom fosses vencido.
17. E orei ao Senhor Deus, merecendo a mi e a ti; ca sabe por certo que eu som o anjo de Deus, que som dado a ti pera te fazer estas cousas todas, que te disse, e eu fiz quanto em mi foi; ca por mi nom faleceu, se te bem quiseres lembrar; mas, como revel e malicioso e fraco e mezquinho, nom te quiseste ajudar do meu proveito e consentiste, pola maior parte, ao anjo maau, que é contrairo a mi e a ti e ao Senhor Deus, que deu-me a ti por guardador; e fezeste-me haver muita tristeza em os teus caimentos; e como quer que com razom te devia desemparar de todo, pero, porque eu da tua consolaçom som consolado e do teu padecimento hei compaixom, ainda quero usar contigo de meu ofício e quero te guiar per tal caminho, per que possas achar consolaçom e remédio aas tuas mizquindades e tribulaçoões, se nom quiseres seer revel como ataaqui foste.
18. Quando eu esto ouvi, fiquei todo espantado, que nom sabia que fezesse nem que dissesse, e caí em terra, assi como morto. E êle me levantou da terra e disse-me:
— Homem fraco e coitado, está sobre teus pees.
E tanto esforço senti da sua palavra e de uu odor mui precioso que saía da sua boca, que estive levantado; e, dês i, lancei-me em terra e adorei-o. E êle me levantou outra vez da terra, e eu fiquei-me ante êle em giolhos, e disse-lhe:
— Oo santo anjo do Senhor, que és meu guardador, pola piadade do Senhor, rogo-te que salves e defendas e governes a mi, que som dado em tua encomenda.
E entom lhe disse mais:
— Senhor, rogo-te que me digas porque trazes taaes vistiduras de fogo esprandecente, e porque trazes esta segur em tua maão e a vara de ouro e a grilanda e as aas em os pees e a cinta.
19. E êle me respondeu enesta guisa:
— A coroa das pedras preciosas, que eu e os outros anjos trazemos em as cabeças, demostra a mui grande riqueza que havemos de muitas e desvairadas virtudes, que som demostradas pelas pedras preciosas; e as vistiduras de fogo sinificam o ardor da caridade e da boa vontade; e som assi luzentes, porque todos somos cubertos de lume em os intendimentos. E a cinta de ouro é (3, b) porque todos os anjos somos em uu coraçom juntos e apertados em virtudes; e as aas, que trazemos em os pees, som porque mui tostemente nos movemos pera adereçar as cousas da terra sem nosso abaixamento, e nom há em nós cousa pesada nem terreal. E a vara que trago em a mão é porque nós, sô Deus, regemos as cousas que som sô o ceeo, e julgamos as cousas dereitas. E a segur que trago em a outra mão é porque nós havemos virtude e poder pera talhar e quebrantar os maaos.

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