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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Aprendendo com os Padres do Deserto - Apotegmas

Sobre Deus
1. “Se o homem não fala a seu coração: “Deus e eu estamos sozinhos no mundo, nunca encontrará descanso”, dizia o abade Alônio.
2. Dizia o abade Mios: “Obediência traz obediência. Se alguém obedece a Deus, Deus lhe obedece”.
3. “Se um homem realmente quisesse, um dia apenas, do amanhecer ao anoitecer, lhe seria suficiente para alcançar a medida da divindade”, dizia o abade Monio.
4. Disse um ancião: “Ó homem, se quiseres viver segundo a lei de Deus, deves ter como protetor o próprio autor da lei”
5. Dizia um ancião: “Se o teu pensamento mora em Deus, a força de Deus mora em ti”.
6. Disse um ancião: “Nunca dei um passo sem saber onde colocar os pés. Parava para refletir, sem ceder, até que Deus me tomasse pela mão”.
7. Um ancião disse: “Quando um se faz louco pelo Senhor, na mesma proporção o Senhor o tornará sábio”.
8. Disse o abade Iperéquio: “Conserva sempre o Reino dos Céus no espírito, e logo o receberás em herança”.
9. O abade Moisés afirmou: “É inútil tudo o que um homem pode pensar a respeito do que existe debaixo do céu. Somente quem persevera na recordação de Jesus está na verdade”.
10. Disse um ancião: O esforço e a solicitude por não pecar têm uma única finalidade: não afastar de nossa alma a Deus que nela habita”.
11. Gregório disse: “Que a tua obra seja pura pela presença do Senhor e não pela exibição”.
12. Perguntou-se ao nosso santo pai Atanásio, arcebispo de Alexandria: “De que modo o Filho é igual ao Pai?” Respondeu: “Como a visão nos dois olhos”.
13. Disse um ancião: “Faço aquilo de que o homem tem necessidade: temer o julgamento divino, odiar o pecado, amar a virtude, e invocar a Deus sem cessar”
14. Disse um ancião: “José de Arimatéia tomou o corpo de Jesus e o envolveu com um sudário limpo e num sepulcro novo, isto é, num homem novo. Que cada um tenha o máximo cuidado de não pecar, para não ultrajar a Deus que nele habita, e para não expulsá-lo de sua alma. O maná foi dado a Israel para alimentar-se no deserto, mas ao verdadeiro Israel foi dado o Corpo de Cristo”.
15. Dizia um ancião: “Um homem não pode ser bom mesmo se tenha a vontade de sê-lo e se esforce com todas as suas forças, se Deus não habita nele, pois ninguém é bom senão Deus”.
16. Disse um ancião: “Deus habita naquele no qual nada penetra de estranho”.
17. Dizia um ancião: “Suporta o opróbrio e a aflição pelo nome de Jesus com humildade e coração contrito. Revela diante dele a tua fraqueza e ele será tua força”.
18. Disse o abade Amun: “Suporta todo homem assim como Deus te suporta”.
19. Disse um ancião: “Se o homem faz a vontade do Senhor, jamais deixa de ouvir a voz interior”.
20. O abade Jacó disse [a um irmão]: “Força teu coração a ir ao Senhor”. E o irmão disse: “Como, meu pai?” E respondeu-lhe o ancião: “Como Jesus forçou seus discípulos a entrarem na barca, do mesmo modo força o teu coração a ir ao Senhor”.
21. Disse o abade João: “Esta palavra está escrita no Evangelho: “Quando Jesus chamou Lázaro para fora do sepulcro, suas mãos e pés estavam amarrados e seu rosto envolvido num pano; Jesus o desatou e o despediu. Nós, portanto, temos as mãos e os pés amarrados e nosso rosto está coberto com um pano obra das mãos do inimigo. Se, portanto, escutamos Jesus, ele nos livrará de tudo isso e nos libertará da escravidão de todos esses maus pensamentos. Então seremos filhos do Senhor, receberemos em herança as promessas e seremos filhos do Reino Eterno”.
Sobre a Paz
1. Os sacerdotes da região visitaram as celas dos monges das redondezas. Num deles habitava Pastor. O abade Anub se apresentou e disse: “Convidamos esses sacerdotes para hoje aceitarem, aqui, os dons de Deus, preparando um ágape”. Pastor, que estava em pé, assim permaneceu por longo tempo, sem responder. O abade Anub retirou-se, entristecido. Aqueles que estavam sentados ao lado dele, perguntaram-lhe porque não tinha respondido. “Isso não me pertence”, respondeu-lhes, “porque já estou morto; um morto não fala. Por isso, não me considerai como se estivesse no meio de vós”.
2. Alguns irmãos foram visitar um santo ancião que habitava num local deserto. Encontraram, na vizinhança, crianças que apascentavam as ovelhas e falavam entre si de modo enervante. Os irmãos viram o ancião, abriram-lhe seus sentimentos e tiveram proveito com suas respostas. Depois lhe disseram: “Pai, porque aceitas ao teu derredor estas crianças e não lhes ordenas de parar com esse barulho?”  O ancião respondeu: “Irmãos, acreditai, há dias em que gostaria de fazer isso, mas me controlo, dizendo: Se não suporto esses gritos, como poderei suportar uma grande provação, se Deus permitir que se me apresente? Deste modo, não digo nada, para habituar-me a suportar tudo aquilo que acontece”.
3. Um irmão perguntou a um ancião: “Qual é a cultura da alma que produz frutos?” Respondeu o ancião: “Nisto consiste a cultura da alma: a paz do corpo, muitas preces corporais, não prestar atenção nos erros dos outros, mas nos seus. Se o homem persevera nisso tudo, sua alma não demorará a produzir frutos”.
4. Perguntou-se a uma ancião: “Por que acontece que eu me canso sempre? Porque ainda não conheces a meta”, respondeu.
5. Num dia, um noviço resolveu renunciar ao mundo. Disse ao ancião: “Quero ser monge”. O ancião respondeu: “Não conseguirás”. E o outro: “Conseguirei”. O ancião disse: “Se realmente queres, vai, renuncia ao mundo e depois vem morar em tua cela”. Ele foi, doou o que possuía, guardou para si cem moedas e retornou ao ancião. O ancião lhe disse: “Vai morar em tua cela”. Ele foi. Enquanto lá estava, seus pensamentos lhe disseram: “A porta está velha e deve ser trocada”. Foi, e disse ao ancião: “Meus pensamentos me dizem: A porta está velha e deve ser trocada”. O ancião lhe respondeu: “Ainda não renunciaste ao mundo; vai, renuncia ao mundo e depois volta aqui”.  Ele foi, doou noventa moedas, guardou dez e disse ao ancião: “ Eis, renunciei ao mundo”. Disse-lhe o ancião: “Vai, habita tua cela”. Ele foi. Enquanto lá estava, seus pensamentos lhe disseram: O teto é velho e deve ser refeito”. Dirigiu-se ao ancião: “Meus pensamentos me dizem: o teto é velho e deve ser refeito”. Disse-lhe o ancião: “Vai, renuncia ao mundo”. O irmão foi, doou as dez moedas e retornou ao ancião: “Eis: renunciei ao mundo”. Enquanto estava em sua cela, seus pensamentos lhe disseram: “Tudo é muito velho, virá um leão e me devorará”. Expôs esses pensamentos ao ancião, que lhe disse: “Eu gostaria que tudo caísse encima de mim e que um leão viesse devorar-me, para ser libertado desta vida. Vai, habita tua cela e reza a Deus”.
6. Um ancião tornou-se bispo. Piedoso e pacífico, não repreendia ninguém, suportando com paciência as culpas e os pecados de cada um. Acontece que seu ecônomo não administrava corretamente os negócios da Igreja e alguns vieram reclamar ao bispo: “Por que não repreendes este ecônomo tão negligente?” O bispo aceitou a repreensão. No dia seguinte, os acusadores do ecônomo retornaram ao bispo, irritados contra ele. Advertido, o bispo se escondeu em algum lugar e não o acharam. Procuraram-no muito tempo, finalmente o descobriram e lhe disseram: “Por que te escondeste?” Ele respondeu: “Porque aquilo que consegui alcançar em sessenta anos, à força de pedir a Deus, vós o quereis roubar-me em dois dias”.
7. Dizia um ancião: “Os santos que possuem Deus recebem, como recompensa pela sua impassibilidade, quer as coisas daqui de baixo quer as futuras, pois ambas são de Cristo, e aqueles que possuem a Cristo possuem também seus bens. Aquele que tem o mundo, isto é, as paixões, mesmo se possui o mundo não tem nada a não ser as paixões que o dominam”.
8. Freqüentemente o abade Agatão dava este conselho ao seu discípulo: “Nunca pegues, para ti, algo que não gostarias de  imediatamente dar a alguém”.
9. Perguntou-se a um velho: “Que significa prestar contas de uma palavra inútil?” Respondeu: “Toda palavra dita a respeito de um objeto material é coisa inútil, pois somente as palavras ditas a respeito da salvação da alma não são inúteis. Por outro lado, é melhor escolher o silêncio total, porque, enquanto dizes o bem, junto vem o mal”.
10. Disse um ancião: “Se tu habitas no deserto como hesicasta. Não te consideres como alguém que faz algo de importante, mas, pelo contrário, considera-te como um cão chutado pela multidão e acorrentado porque mordia e assaltava o povo”.
11. O abade Antônio profetizou ao abade Amun: “Tu terás muito progresso no temor de Deus”. Depois o conduziu para fora da cela e mostrou-lhe uma pedra: “Põe-te a injuriar esta pedra”, disse-lhe, “maltrata-a sem parar”. Quando Amun parou, santo Antônio perguntou-lhe se a pedra respondera alguma coisa. “Não”, disse Amun. “Pois bem! Também tu”, acrescentou o ancião, “deves alcançar esta perfeição e imaginar que ninguém te ofende”.
12. Dizia o abade Macário: “Essas três coisas são capitais e é bom tê-las presente sem descanso: em todo momento devemos nos recordar da morte, morrer para todo homem e o pensamento deve estar constantemente unido a Nosso Senhor. De fato, se a todo momento não se tem presente a própria morte não se será capaz de morrer para todo homem; e se não se é capaz de morrer para todo homem, não se será capaz de estar constantemente diante de Deus”.
13. Disse um ancião: “Fugi do amor que as coisas perecíveis inspiram, porque esse amor passa e morre com elas”.
14. Disse um ancião: “Quando deixo o fuso cair, penso primeiro na morte para depois apanhá-lo novamente”.
15. Paisio, o irmão do abade Pastor, contraiu uma amizade particular com um monge de fora. O abade Pastor não aceitava isso; levantou-se e correu a dizer ao abade Amona: “Meu irmão Paisio tem uma amizade particular com um e isso não me dá sossego”. “Abade Pastor, tu ainda estás vivo!”, respondeu Amona. “Retorna à tua cela e convence-te no coração de que já estás na sepultura há um ano”.
16. Perguntou-se a um ancião: “Por que tenho medo quando caminho no deserto?”. “Porquer ainda estás vivo”, respondeu.
17. Dizia ainda o abade Macário: “Luta por todas as mortes. Pela morte do corpo: isso significa que, se não tens a morte do espírito, luta pela morte do corpo. E então a morte do espírito te será dada como lucro. E aquela morte te fará morrer para todo homem e, em seguida, poderás adquirir a capacidade de estar constantemente vivente com Deus no silêncio”.
Sobre  a  Oração
1. Apenas te levantas após o sono, em primeiro lugar a tua boca renda glória a Deus e entoa cânticos e salmos; a primeira preocupação que prende o espírito no início do dia, o espírito passa a moê-la como uma pedra durante todo o dia, seja grão, seja joio. Por isso, sê sempre o primeiro a jogar o grão, antes que o teu inimigo jogue joio.
2. Aconteceu um dia que os anciãos se dirigiram ao abade Abraão, o profeta da região. Interrogaram-no a respeito do abade Banê: “Estivemos conversando com o abade Banê a respeito da clausura na qual ele agora se encontra; ele nos disse estas graves palavras: ele julga que toda a ascese e todas as esmolas que fez no passado foram uma profanação”. E o santo velho Abraão respondeu-lhes e disse: “Falou corretamente”. Os anciäos, pelo caminho, lamentaram sua vida, que também fora daquele modo. Mas o abade Abraão lhes disse: “Por que vos afligis? De fato, durante o tempo em que o abade Banê distribuía as esmolas, talvez tenha conseguido alimentar uma vila, uma cidade, um povoado. Mas, agora, é possível a Banê levantar as duas mãos a fim de que o trigo cresça com abundância pelo mundo inteiro. Agora já lhe é possível pedir a Deus que perdoe os pecados de toda essa geração”. E os anciãos, após tê-lo ouvido, se alegraram por existir um suplicante que intercedia por eles.
3. Um irmão dirigiu-se a um ancião que morava no Monte Sinai e lhe perguntou: “Pai, ensina-me como se deve rezar, porque ofendi muito a Deus”. O ancião lhe disse: “Filhinho, eu, quando rezo falo assim: Senhor, permite-me servir-te como servi a Satanás e de amar-te como amei o pecado”.
4. Se és vagaroso para levantar-te de noite para a liturgia, não alimentes o teu corpo, pois a Escritura diz: “O preguiçoso não deve comer”. E eu te digo: como no mundo aquele que rouba recebe severa condenação, a mesma condenação Deus reserva para quem não se levanta para a liturgia, exceto no caso de doença ou de muito trabalho, pois, tanto do doente como do trabalhador, Deus exige uma liturgia espiritual, que pode ser oferecida a Deus deixando o corpo de lado.
5. Dizia abade Evágrio: “Se te foge a coragem, reza. Reza com temor e tremor, com ardor, sobriedade e vigilância. Assim deve-se rezar, sobretudo por causa dos nossos inimigos invisíveis que são malvados e espertos no mal e exatamente neste ponto nos armarão ciladas”.
6. O abade Macário, interrogado sobre o modo de rezar, respondeu: “Não é necessário falar muito na oração, mas muitas vezes estendamos as mãos e digamos: Senhor, tem piedade de nós, como tu queres e como tu sabes. Quando tua alma está angustiada, diz: Socorro! E Deus terá misericórdia de nós, pois sabe o que precisamos”.
7. Diziam os anciãos: “A oração é o espelho da alma”.
8. Um irmão foi visitar um dos abades da laura de Suca, nas colinas de Jericó e lhe disse: “Então, Pai, como estás?”. O ancião respondeu: “Mal”. Disse o irmão: “Por que, Pai?”. Respondeu o ancião: “Porque há trinta anos me conservo de pé diante de Deus durante a minha oração, e agora me amaldiçoo a mim mesmo, dizendo a Deus: Não tenhas piedade de todos aqueles que fazem o mal e sejam  malditos aqueles que se afastam de teus mandamentos. E eu, que sou um mentiroso, todo o dia grito a Deus: Condena a todos aqueles que mentem. E eu, que vivo pensando em comer, digo: No meio da noite acordei-me para louvar-te. Não tenho, absolutamente, compunção alguma e digo: Sofri no meu pranto e minhas lágrimas noite e dia substituíram meu pão. Eu, que tenho no coração pensamentos perversos, digo a Deus: A meditação de meu coração está sempre diante de ti. E eu, que nunca jejuo, digo: Meus joelhos estão enfraquecidos por causa de meus jejuns. E cheio de orgulho e de prazer da carne sinto-me ridículo salmodiando: Olha minha humildade e meu sofrimento e perdoa-me todos os meus pecados. E eu, que ainda não estou pronto, digo: Meu coração está pronto, ó Deus. E, numa palavra, todo o meu Ofício e a minha oração retornam a mim como reprovação e vergonha”. O irmão disse ao ancião: “Penso, Pai, que Davi disse tudo isso por si mesmo”. Então o ancião disse, chorando: “Que dizes, irmão? Certamente, se nós não observamos aquilo que salmodiamos diante de Deus, seremos condenados”.
9. Se fazes teu trabalho manual na cela e chega a hora da oração, não digas: “Terminarei de trançar meu cesto e depois me levantarei”, mas levanta-te logo e paga a Deus a dívida da oração; do contrário, pouco a pouco cairás no costume de relaxar na oração e o teu Ofício e a tua alma se tornarão desertos de todo trabalho espiritual e corporal. Pois é desde o amanhecer que se mostra a tua vontade.
10. Dizia um ancião: “Nada faças sem rezar e nunca te arrependerás”.
11. Dizia o abade Epifânio: “Conhece-te a ti mesmo e nunca cairás. Dá trabalho à tua alma, isto é, a oração contínua e o amor de Deus, antes que alguém a leve a maus pensamentos; e reza para que o espírito do erro se afaste de ti”.
12. Dizia um ancião: “Assim como uma só boca não pode ao mesmo tempo pronunciar duas palavras que possam ser reconhecidas e entendidas, do mesmo modo acontece com a oração impura que o homem proclama diante de Deus”.
13. Perguntam os irmãos: “Qual é a oração pura?” O velho disse: “Aquela que é breve nas palavras e grande nas obras. Pois, se as obras não superam o pedido, nada mais são do que palavras vazias, semente que não dá fruto. Se não fosse assim, por que aconteceria pedirmos sem receber enquanto que a graça superabunda de misericórdia? Um é o modo dos penitentes, o outro é o modo dos humildes; os penitentes são mercenários, os humildes, filhos”.
"Foge, Cala, Descansa"
1. O abade Pastor dizia: “Quaisquer que sejam teus sofrimentos, a vitória sobre eles está no silêncio”.
2. Num dia em que os irmãos estavam reunidos em Scete, alguns anciãos quiseram provar o abade Moisés: com ar de desprezo perguntaram-lhe: “Por que esta espécie de etíope vem morar no meio de nós?”. O pai calou-se, ouvindo estas palavras. Retornando à assembléia, aqueles que o tinham injuriado perguntaram: “Não estás perturbado?”. Ele respondeu: “Estou, mas não falo nada”.
3. Um irmão disse ao abade Pastor: “Segundo teu parecer, se vejo alguma coisa posso comentá-la?”.  Respondeu o ancião: “Quem responde antes de ouvir, comete uma bobagem e cai na confusão. Portanto, fala se te perguntam; de outro modo, cala”.
4. Alguns irmãos de Scete quiseram ver o abade Antônio. Subiram numa barca e nela encontraram um ancião que também queria procurar Antônio, mas os irmãos não sabiam de nada. Sentados na barca, conversavam a respeito dos apotegmas dos pais, das Escrituras e de seus trabalhos manuais. O ancião, por sua vez, permanecia em silêncio. Chegados ao porto, ficaram sabendo que também o ancião se diriga ao abade. Tendo chegado junto a Antônio, ele lhes disse: “Vocês encontraram nesse ancião um bom companheiro de viagem. E tu, Pai, estiveste junto de bons irmãos!”. Respondeu o ancião: “É verdade, mas a casa deles não tem portas: entra quem quer na estalagem e solta o burro!”. Falava assim porque os irmãos diziam tudo o que lhes vinha à cabeça.
5. Quando o abade Arsênio residia em Canope, veio de Roma para vê-lo uma virgem de família senatorial, muito rica e temente a Deus. Acolhida pelo arcebispo Teófilo, ela lhe pediu para que insistisse junto ao ancião a fim de que a recebesse. O arcebispo dirigiu-se ao ancião e lhe disse: “Uma senhora de família senatorial vem de Roma e deseja ver-te”. Mas o ancião não quis vê-la. Quando soube da resposta, a senhora fez selar sua cavalgadura e disse: “Tenho fé que Deus me permitirá vê-lo, pois não vim para ver um homem: deles existem muitos em nossa cidade. Vim para ver um profeta”.  Quando ela chegou perto da cela do ancião, por uma divina disposição ele se encontrava na soleira. Vendo-o, a mulher prostrou-se a seus pés. Indignado, ele a ergueu e fixando-a, falou-lhe: “Pois bem, se queres ver meu rosto, olha!”. Ela, porém, confusa, não o olhou. Acrescentou o velhinho: “Não querias falas de minhas obras?  A elas tu deves prestar atenção! Por que ousaste fazer uma viagem semelhante? Não sabes que és uma mulher e que não deves andar por aí? Retornarás agora a Roma, para contar que viste Arsênio e para fazer do mar uma estrada para a vinda de outras mulheres?”. “Se é vontade de Deus que eu retorne a Roma”, respondeu-lhe ela, “não permitirei a nenhuma mulher que venha aqui. Reza por mim e lembra-te sempre de mim”. Ele respondeu: “Peço a Deus que cancele tua lembrança de meu coração”. A estas palavras, ela ficou perturbada. E, na viagem de retorno a Roma, adoeceu. Advertido, o arcebispo foi consolá-la e se informar sobre sua doença. “Ah”, disse-lhe ela, “como seria melhor se eu não tivesse estado lá! Eu disse ao velhinho: Lembra-te de mim, e ele me respondeu: “Peço a Deus de cancelar tua lembrança de meu coração! Morro de dor”. “Não sabes que és uma mulher”, falou-lhe o arcebispo, “e que o inimigo combate os santos por meio da mulher? Por isso o velhinho falou-te assim. Mas ele sempre rezará por tua alma”. Assim ela teve o coração curado e voltou para casa feliz.
6. O abade Arsênio, quando ainda estava no palácio imperial, rezou assim: “Senhor, mostra-me a estrada que conduz à salvação”. Então ouviu uma voz que lhe disse: “Arsênio, foge do mundo e serás salvo”. Depois de ingressar na vida monástica, rezou ainda do mesmo modo e ouviu a voz dizer: “Arsênio, foge do mundo, cala e pratica a hesychia. Estas são as raízes do não-pecar”.
7. O arcebispo Teófilo, de feliz memória, num dia, acompanhado por um magistrado, visitou Arsênio. O arcebispo pediu-lhe uma palavra. O ancião ficou um tempo calado e depois falou: “Se lhes disser uma palavra, vocês a observarão?” Prometeram que sim. Então falou o ancião: “Se  escutarem dizer: lá está Arsênio, não o procurem!”.
8. Disse um ancião: “Deve-se fugir, sem exceção, de todos os obreiros da iniqüidade, sejam amigos ou parentes, possuam a dignidade de sacerdotes ou de príncipes; evitar sua companhia nos trará intimidade e amizade com Deus”.
 9. “A que serve agradar aos homens, se ofendo ao Senhor meu Deus? Testemunha disso é o divino Apóstolo que disse: “Se eu ainda agradar aos homens, não serei o servo de Cristo”. Rezemos, portanto, ao Senhor, dizendo: Jesus, nosso Deus, protege-nos de seus louvores e de suas críticas. E nada façamos para agradar-lhes, pois seus louvores não nos podem fazer entrar no Reino dos Céus, nem suas críticas têm o poder de impedir-nos de entrar na vida eterna, pois eles não possuem aquilo que nos faz nela entrar. Sabei, portanto, ó amados, que devemos prestar contas de toda palavra inútil; fujamos dela como se foge de uma serpente”.
10. Num dia, o abade Arsênio chegou perto de um caniço agitado pelo vento. O ancião disse aos irmãos: “O que é isso que se move assim?” “São os caniços”, responderam. “Na verdade, se alguém permanece na paz e ouve o grito de um passarinho, o seu coração não possui a paz. Pior ainda sois vós, que sois agitados como esses caniços”.
11. Disse um ancião: “Para um irmão, é a mesma coisa querer brigar com um adversário ou com o diabo”.
12. Disse um ancião: “Sem a vigilância dos lábios, é impossível ao homem progredir mesmo em uma única virtude; pois, antes das virtudes, está a vigilância dos lábios”.
13. Um ancião dizia:  “O silêncio está cheio de vida, mas a morte está escondida na palavra farta”.
14. O abade Isaías disse: “Prefere calar a falar, pois o silêncio entesoura e o falar dispersa”.
Sobre  a  Humildade
1. Um irmão perguntou a um ancião: “A vanglória me atormenta: o que devo fazer?” Respondeu-lhe o ancião: “Tens razão: foste tu quem fez o céu e a terra”. O irmão, tocado pelo arrependimento, disse: “Perdoa-me, pois eu não fiz coisa nenhuma”.
2. Um irmão perguntou ao abade Poemen se era melhor viver sozinho ou com o próximo. O velho respondeu: “Aquele que lamenta sempre e somente a si mesmo, pode viver em qualquer lugar. Mas, se se glorifica, então não se dará bem em lugar algum”.
3. Um ancião disse: “Não é humilde aquele que se difama a si mesmo, mas aquele que recebe com alegria as injúrias, as afrontas e as críticas do próximo”.
4. O abade Pastor disse: “O homem deve incessantemente respirar a humildade e o temor de Deus do mesmo modo que inala e expele o ar através das narinas”.
5. Num dia, o arcebispo Teófilo dirigiu-se ao Monte de Nítria e o abade do Monte veio-lhe ao encontro. “Pai”, perguntou-lhe o arcebispo, “o que encontraste de mais vantajoso neste caminho?” Respondeu o ancião: “Acusar-me e repreender-me sem trégua”. “De fato, não existe outro caminho”, replicou o arcebispo.
6. O abade Antônio disse ao abade Pastor: “A grande obra do homem é atirar a culpa sobre si mesmo diante de Deus e esperar a tentação até o último sopro de sua vida”.
7. Um irmão interrogou o abade Sisoé:  “Vejo, examinando-me, que a recordação de Deus nunca me abandona”. Disse-lhe o ancião: “Não é grande coisa que a tua alma esteja com Deus. Seria grande se tu tomasses consciência de que és inferior a todas as criaturas. Este pensamento, unido ao trabalho físico: eis o que corrige e conduz à humildade”.
8. Um ancião dizia: “Se nós nos aplicamos à humildade, não teremos necessidade de castigo. Muitos males nos vêm por causa do orgulho. De fato, se o anjo de Satanás foi dado ao Apóstolo para castigá-lo, por medo de que ele se levante, com maior razão, a nós que vivemos no orgulho, é o próprio Satanás que nos será dado, para nos importunar até que nos humilhemos”.
9. O abade Antônio perscrutava a profundidade dos julgamentos de Deus; e perguntou: “Senhor, por que alguns morrem após uma breve existência e outros chegam à velhince? Por que para alguns falta tudo e para outros há extrema abundância de bens? Por que os malvados são ricos e os bons são atirados na pobreza?” Uma voz respondeu-lhe: “Antônio, cuida de ti mesmo: estes são os julgamentos de Deus e nada te serve entendê-los.
10. Disse o abade Evágrio: “O início da salvação é condenar-se a si mesmo”.
11. O abade Moisés disse ao irmão Zacarias: “Diz-me o que devo fazer”. A estas palavras, o outro atirou-se a seus pés, dizendo: “Pai, logo tu me interrogas?” Retrucou o ancião: “Crê, Zacarias, meu filho, eu vi o Espírito Santo descer sobre ti; por isso sou obrigado a interrogar-te”. Então Zacarias tirou o capuz, colocou-o debaixo dos pés e, pisoteando-o, disse: “Se não somos pisoteados desse jeito, não podemos ser monges”.
12. Certa vez, o abade Teodoro comia com os irmãos. Erguiam os copos com respeito e sem dizer nada, nem mesmo o costumeiro “Perdoai-me”. Então o abade Teodoro disse: “Os monges perderam seu título de nobreza: a palavra “Perdoai-me”.
13. Disse o abade Pastor: “Prostrar-se diante de Deus, não dar-se nenhuma importância, jogar fora a própria vontade: eis os instrumentos com os quais a alma pode trabalhar”.
14. Disse o abade Pastor: “Não dês importância a ti mesmo, mas permanece ligado a quem se comporta bem”.
15. O abade Olímpio, de Scete, era escravo. A cada ano descia a Alexandria para levar seu ganho aos patrões. Esses vinham ao seu encontro para saudá-lo, mas o ancião colocava água numa pequena bacia e a apresentava para lavar-lhes os pés. “Não, Pai, não te incomodes!”, diziam seus patrões. “Eu sei que sou vosso escravo”, respondia, “e vos agradeço por me deixarem livre para servir a Deus. Em troca, lavarei vossos pés e recebereis aquilo que lucrei”. Os outros insistiam e, como não queriam ceder, Olímpio disse-lhes: “Crede-me: se não quereis receber o meu dinheiro, fico aqui para servir-vos”. Deste modo os patrões, cheios de deferência, deixaram-no fazer o que queria; e, à sua partida, acompanhavam-no com honra e davam-lhe o necessário para que em seu lugar distribuísse esmolas. Tudo isso o tornou célebre em Scete.
16. Disse o abade Pastor: “Um irmão perguntou ao abade Alônio o que significava desprezar-se a si mesmo. Respondeu o ancião: “Consiste em rebaixar-se abaixo dos animais e saber que eles não serão condenados”.”.
17. Disse o abade Pastor: “A humildade é a terra que o Senhor requisitou para realizar o sacrifício”.
18. Um ancião disse: “Por qualquer provação que te afligir, culpa-te somente a ti mesmo, dizendo: “Aconteceu-me por minha culpa, por causa de meus pecados”
19. Certa vez, algumas pessoas foram a Tebaide visitar um ancião. Levavam consigo um homem atormentado pelo demônio, para que o ancião o curasse. Após longamente orar, o ancião disse ao demônio: “Retira-te desta criatura de Deus!”. O demônio respondeu: “Retiro-me, mas antes te faço uma pergunta: “Responde-me: quem são os cabritos e quem são as ovelhas?”. Respondeu-lhe o ancião: “Os cabritos, sou eu; quanto às ovelhas, Deus o sabe”. A esta palavras, o demônio urlou: “Retiro-me por causa de tua humildade!”. E logo foi-se embora.
20. Um irmão perguntou a um ancião: “Indica-me somente uma coisa para eu guardar, para que eu viva fazendo isso!”. Disse-lhe o ancião: “Se puderes ser injuriado e suportar as injúrias, é algo grandioso, que supera todas as virtudes”.
21. Um ancião disse: “A terra na qual o Senhor mandou cultivar é a humildade”.
22. Um ancião disse: “Conseguiste observar o silêncio? Não creias ter feito um ato de virtude. Prefere dizer: “Sou indigno de falar”.”
23. Disse um ancião: “Se o moleiro não cobre os olhos do animal que gira o moinho, ele se voltará e comerá todo o seu trabalho. Assim, por uma disposição divina, nós recebemos um véu que nos impede de ver o bem que fazemos, de louvarmo-nos a nós mesmos e, deste modo, perder nossa recompensa. É pelo mesmo motivo que, de vez em quando, somos abandonados aos pensamentos impuros e nada vemos além deles; deste modo nós condenamos os nossos olhos e tais pensamentos são para nós um véu que cobre o pouco de bem que fazemos. Com efeito, quando o homem se acusa, não fica sem recompensa”.
24. Um irmão disse a um ancião: “Se um irmão me dirige palavras profanas, tu me permites, Pai, de dizê-lo para não fazer mais?”. Disse-lhe o ancião: “Não”. E o irmão disse: “Por que?”. Respondeu o ancião: “Porque nem nós somos capazes de observar isso e é de se temer que, dizendo ao próximo para não fazê-lo, estejamos nós no perigo de fazê-lo”.  Disse o irmão: “O que, então, se deve fazer?”. Disse-lhe o ancião: “Se soubermos calar, ao próximo basta o nosso exemplo”.
25. Perguntou-se a um ancião: “O que é a humildade?”. Ele disse: “É como se o teu irmão pecar contra ti e tu o perdoares antes que ele te peça desculpas”.
26. Há muito tempo um irmão era atormentado pelo demônio da impureza e, apesar de seu muito esforço, não conseguia livrar-se dele. Uma vez, enquanto participava da Sinapse, sentiu-se atormentado pela paixão mais do que de costume; decidiu então vencer as maquinações do demônio e pedir aos irmãos que rezassem por ele nessa intenção. E, vencendo qualquer vergona, ficou nú diante de todos os irmãos e mostrou a ação de Satanás: “Rezai por mim, meus pais e irmãos”, disse, “porque lá se vão quatorze anos que enfrento esse combate”; e imediatamente ficou livre do combate, graças à humildade que tinha demonstrado.
27. Disse um dos pais: “Os Pais penetravam no interior através da austeridade e nós, se pudermos, entremos no bem através da humildade”.
28. Dizia sempre um ancião que morava no Egito: “Não há caminho mais curto do que o caminho da humildade”.
29. Disse o abade Sisoé: “Quem trabalha e pensa que fez alguma coisa, recebe aqui sua recompensa”.
30. Disse um ancião: “A humildade não é um dos pratos do banquete, mas o tempero que dá sabor a todos os pratos”.
31. Ouvi contar de um ancião que dizia: “A quem possui a humildade de espírito é dada uma cobertura para sua moradia e uma tampa para sua marmita”.
32. Disse o abade Poemen: “A alma não alcança a humildade em nada se tu não lhe racionares o pão, isto é, se tu não a reduzires a alimentar-se apenas do necessário”.
33. Contava-se que um ancião vivia no hesicasmo nas partes planas do país e tinha um leigo cristão a seu serviço. Aconteceu que o filho deste adoeceu. Por muito tempo o pai suplicou ao ancião de ir rezar por seu filho e o ancião partiu com ele. Correndo à frente, o leigo entrou em sua casa e gritou: “Vinde ao encontro do anacoreta”. Quando o ancião percebeu-os vindo ao seu encontro com as tochas, teve a idéia de tirar a roupa, entrar no rio e por-se a lavá-la ficando nú. Quando o servidor o viu. cheio de vergonha disse ao povo: “Ide embora, pois o ancião perdeu o juízo”. Depois, dirigiu-se a ele e perguntou: “Pai, por que fizeste isso? Todo dizem: “O ancião está com o demônio no corpo”. Respondeu-lhe o ancião: “Era exatamente isso que eu queria”.
34. Por obra do demônio, o bispo de uma cidade caiu na fornicação. Num dia, quando se reunia na igreja e ninguém sabia de seu pecado, confessou-se diante do povo e disse: “Pequei”. Em seguida depôs o pálio sobre o altar e disse: “Não posso mais ser vosso bispo”. Todos choraram e gritaram: “Que este pecado caia sobre nós, mas conserva o episcopado”. Ele respondeu: “Se vós quereis que eu conserve o episcopado, fazei o que eu vos digo”. Mandou fechar as portas da igreja e deitou-se no chão diante de uma porta lateral e disse: “Aquele que passar sem me pisar com os pés, não terá parte com Deus”. Fizeram como ele pedia e, quando o último saiu, veio uma voz do céu e disse: “Por causa de sua grande humildade eu lhe perdoei o pecado”.
35. Disse o abade João, discípulo do abade Giacomo: “Meu irmão Macário me disse enquanto morria: “Duas coisas que fiz neste mundo me atormentam: comprei uma esteira para um irmão e exigi-lhe energicamente o pagamento e, tecendo, fiz dois pares de lenços com uma medida um pouco inferior, porque me faltava um pouco de fio”.
36. Um irmão interrogou um dos pais a respeito de um pensamento blasfemo: “Pai, minha alma está oprimida sob um pensamento blasfemo, tem piedade de mim e diz-me de onde vem e o que devo fazer”. O ancião respondeu: “Este pensamento nos vem porque falamos, desprezamos e criticamos; ele é sobretudo uma conseqüência do orgulho, da vontade própria, da negligência na oração, da cólera e da fúria, coisas todas que são, precisamente, os sinais do orgulho. Realmente, o orgulho faz-nos entrar nas paixões que enumerei, e delas nasce o pensamento blasfemo. E se esse pensamento ganha espaço na alma, o demônio da blasfêmia o entrega ao demônio da impureza. Muitas vezes o leva até à perda dos sentidos, e se o homem não o reencontra, está perdido”.
37. Perguntou-se ao abade Elias: “Como nos salvaremos nestes tempos?”. Ele respondeu: “Nos salvaremos pelo fato de não nos darmos valor”.
Sobre  a  Custódia  da  Mente
1. Dizia o abade Sisoé: “Corrige as inclinações de teu corpo e nada será exigido de teu coração”.
2. Um dia perguntou-se ao abade Agatão: “O que é melhor: a ascese corporal ou a custódia da mente?”. “Os homens”, repondeu, “são como as árvores; o trabalho corporal é a folhagem e a custódia da mente é o fruto: ora, todas as árvores que não dão fruto, está escrito, serão cortadas e lançadas ao fogo. Com relação aos frutos, portanto, deve-se vigiar o que nos acontece, isto é, guardar nossa mente. Também temos necessidade da sombra e da beleza da folhagem, que representam a ascese corporal”. De resto, o abade Agatão era muito dedicado e infatigável no trabalho; sustentava-se sozinho; assíduo no trabalho manual, contentava-se com pouco alimento e roupas simples.
3. Disse um ancião: “Por acaso acreditais que Satanás quer introduzir em vós todos os pensamentos? Não. É por meio de um únicop pensamento que vence a alma e espera conduzi-la à perdição. Planta nela esse único pensamento, não necessita de outro. Portanto, ficai atentos para não demonstrar agrado por um único mau pensamento”.
4. Disse um ancião: “Missão do monge é afastar para longe os próprios pensamentos”.
5. Conta-se que nas Celas vivia um ancião de dura ascese. Num dia em que recitava o Ofício, um santo homem veio à sua cela e de fora notou que ele lutava contra os próprios pensamentos. “Até quando”, dizia, “por uma única palavra perderei todo o resto?”. O que estava fora imaginou que estivesse discutindo com alguém: bateu, para entrar e conseguir um acordo entre eles. Entrando, porém, viu que não havia ninguém além do velho. E como tinha liberdade de falar com ele, perguntou: “Pai, com quem discutias?” “Com os meus pensamentos”, repondeu. “Veja: decorei quatorze livros e não ouvi mais nenhuma palavra fora daqui. Quando fui cumprir a obra de Deus, tinha esquecido tudo: somente aquela única, pobre palavra, estava em minha mente no momento de rezar o Ofício. Eis a razão pela qual brigava com meus pensamentos”.
6. Um irmão perguntou a um dos pais: “Ficamos contaminados se pensamos coisas reprováveis?”. Após ter examinado a questão entre si, alguns pais disseram: “Sim, certamente que nos contaminamos”. Outros, pelo contrário, disseram: “Não, pois se nos contaminasse seria impossível a salvação, porque nós somos frágeis; pelo contrário, é possível salvar-se desde que não realizemos corporalmente aquilo que pensamos”. O irmão que tinha feito a pergunta julgou insatisfatórias as respostas dadas pelos pais, pois eram discordantes. Dirigiu-se a um ancião mais experimentado e o consultou sobre este ponto. Respondeu-lhe o ancião: “Pede-se de cada pessoa que faça aquilo que lhe é possível”. O irmão insistiu: “Em nome do Senhor, peço-te que me expliques esta palavra”. Disse o velhinho: “Suponhamos que aqui se encontre um vaso e que é impossível vê-lo sem desejá-lo. Entram dois irmãos; um alcançou grandes virtudes com a ascese da vida e o outro, poucas. Se o espírito do monge perfeito fica perturbado ao ver este vaso e se diz: “Quero tê-lo imediatamente, mas afasta o desejo, não fica contaminado. Quanto àquele que ainda não atingiu um alto grau de virtude, se deseja esse vaso e por muito tempo rumina esse pensamento porque o desejo o consome, mas de fato não o rouba, também ele não se contamina”.
7. Um irmão disse ao abade Sisoé: “Por que as minhas paixões não vão embora?”. “Os instrumentos das paixões estão contigo”, respondeu-lhe, “mas se lhes pagares a fiança, irão embora”.
8. O abade Geronte de Petra disse: “Muitos daqueles que são tentados pelos caprichos do corpo não pecam com o corpo, mas cometem impurezas com o pensamento. E, mesmo conservando a virgindade do corpo, cometem impureza com sua alma. Portanto, amados meus, fazei como está escrito: “Cada um guarde seu coração com cuidadosa vigilância”.
9. Um irmão perguntou ao abade Arsênio: “O que devo fazer, Pai? Um pensamento me angustia: como não consigo nem jejuar nem trabalhar, devo ao menos visitar os doentes. Isso merece recompensa”. O ancião viu aí a semente do diabo: “Adiante”, repondeu-lhe, “come, bebe, dorme; apenas não sai de tua cela”. Pois sabia que a fidelidade à cela torna o monge tal como deve ser. Três dias depois, o irmão foi atingido pela indolência. Tendo encontrado alguma pequena palma, quebrou-a, e no dia seguinte começou a fazer uma corda. Quando teve fome, disse: “Eis mais alguma pequena palma: vou terminá-la e depois comerei”. Isso feito, disse ainda: “Quero ler um pouco, e depois comerei”. E, depois de ter lido: “Recitemos ainda algum salmo breve, e depois comeremos sem escrúpulos”. E deste modo, com o auxílio de Deus, pouco a pouco progredia, até tornar-se aquilo que devia ser,  e dominando seus maus pensamentos, venceu-os.
10. Um irmão, perseguido pelo pensamento de abandonar o mosteiro, abriu-se com seu abade. Ele respondeu: “Permanece na cela, oferece teu corpo como garantia às quatro paredes de tua cela. Não te preocupes com aquele pensamento. Que teu pensamento vá aonde quiser, mas que teu corpo não saia da cela”.
11. O abade Amon interrogou o abade Pastor a respeito de pensamentos impuros e vãos desejos do coração humano. Respondeu o abade: “Um machado pode gloriar-se de alguma coisa sem aquele que o usa para cortar? Pois bem: não cultives esses pensamentos e ficarão sem efeito em ti”.
12. Também o abade José interrogou o abade Pastor a respeito de pensamentos impuros. Respondeu-lhe o abade Pastor: “Se prendemos uma serpente ou um escorpião num vaso e depois o tapamos, após certo tempo serão sufocados. A mesma coisa acontece com os maus pensamentos que o demônio faz germinar em nós; pouco a pouco serão sufocados pela paciência de quem os teve.
13. Um irmão visitou o abade Pastor e lhe disse: “Vêm-me muitos pensamentos e me põem em perigo”. Então o ancião levou-o a céu aberto e lhe disse: “Estende teu hábito e dentro dele prende o vento!” O irmão respondeu: “Não posso fazer isso!”. “Portanto”, respondeu o ancião, “se não podes fazer isso, muito menos podes impedir o surgimento desses pensamentos; mas, o que podes fazer é resistir-lhes”.
14. Um irmão interrogou um ancião: “O que fazer? Uma multidão de pensamentos me ataca e não sei como resistir”. Disse o ancião: “Nunca lutes contra todos, mas contra um só. Porque todos os pensamentos dos monges têm apenas uma cabeça. Portanto, é necessário examinar qual seja realmente esse único pensamento e qual a sua natureza, para depois lutar contra ele. Então todos os outros pensamentos perderão sua força”.
15. Quando o abade Pastor se preparava para ir ao Ofício, primeiro se sentava, à parte, por uma meia hora, para desvencilhar-se dos pensamentos. Depois saía.
16. “A cada pensamento que aparece”, diziam os velhos, “pergunta: “És dos nossos ou vens do inimigo?”. E ele será obrigado a confessar-te”.
17. Disse um ancião: “O esquecimento é a raiz de todos os males”.
18. Um irmão atormentado pelos maus pensamentos sofria muito e, pela sua grande humildade, dizia: “Eu, com tais pensamentos, não posso alcançar a salvação”. Dirigiu-se então a um grande ancião e recomendou-se a suas orações para que se livrasse desses pensamentos. Disse-lhe o ancião: “Isso não te serve, meu filho”. Mas ele insistia com veemência. E como o ancião rezou, Deus livrou o irmão do combate; e imediatamente ele caiu na presunção e no orgulho. E dirigiu-se ao ancião para pedir-lhe que retornassem os pensamentos e a humildade que possuía.
19. Se és atacado por pensamentos impuros, não os escondas, mas conta-os logo ao teu diretor espiritual e assim os dominarás. Pois, na medida em que escondemos os próprios pensamentos, eles se multiplicam e ganham força. Do mesmo modo que uma serpente sai de sua toca e foge correndo, assim os maus pensamentos, uma vez denunciados, desaparecem. Como um verme a madeira, assim os maus pensamentos corróem o coração. Quem manifesta seus pensamentos logo fica curado; quem os esconde, comete o pecado do orgulho. Pois, se não tens confiança suficiente em alguém para revelar-lhe tuas lutas, essa é a prova de que não tens humildade. A quem é humilde todos parecem santos e bons, enquanto que a si mesmo se considera o único pecador. Por outro lado, se alguém invoca a Deus com todo o coração e interroga um homem a respeito de seus pensamentos, o homem lhe responde ou, mais ainda, é Deus que responde como se deve pela mediação do homem, ele que abriu a boca da burrinha de Balaão, mesmo se o interrogado for indigno e pecador.
20. Um irmão perguntou a um ancião: “Que devo fazer, Pai, para combater os pensamentos que vêm das paixões?”. Ele respondeu: “Invoca o Senhor, para que os olhos de tua alma enxerguem os socorros que Deus envia  ao homem para serem sua defesa e protegê-lo”.
21. Um irmão perguntou a um ancião: “Que devo fazer quando meus pensamentos me perturbam?”. Ele respondeu: “Diz-lhes: Me dizem respeito? Que devo fazer com vocês?”. E terás o descanso. Não contes contigo para nada, joga tua vontade fora, não tenhas nenhuma preocupação, e os pensamentos fugirão para longe de ti”.
22. Um irmão interrogou um ancião e lhe disse: “Que queres que eu faça com esses maus pensamentos que penetram em meu coração?”. Respondeu-lhe o ancião: “Vê a veste que guardas no baú e lá esqueces, sem tirá-la nem sacudi-la: vai se perder, não terá mais nenhuma utilidade para ninguém. Mas, se tu sacodes a veste e constantemente a vestes, não se estragará, mas se conservará. Assim acontece com os maus pensamentos, se tu falas deles e os alimentas, eles fincarão sempre mais a raíz em teu coração, crescerão e não te abandonarão. Se, pelo contrário, tu não falares deles, em vez de alimentá-los os odiares, morrerão e abandonarão teu coração”.
23. Falou um ancião a respeito dos pensamentos impuros: “É por negligência que nos os toleramos; porque, se estivéssemos convencidos de que Deus habita em nós, nunca introduziríamos em nós qualquer coisa estranha: o Cristo Senhor, que vive em nós e conosco é testemunha de nossa vida. Por isso, nós que o carregamos e o contemplamos, não devemos distrair-nos mas santificar-nos, porque ele é santo. Firmemo-nos na Rocha, e o rio pode lançar contra nós suas ondas e não haverá nem temor nem queda. Canta a alma tranqüila: “Os que confiam no Senhor, são semelhantes ao monte Sion: nunca será agitado quem habita Jerusalém”.

“Ditos e Feitos dos Pais do Deserto"
Rusconi Editores - tradução de padre José Artulino Besen

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