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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Com vocês Jean Yves Leloup...

Escritos e Parábolas para a Paz

 


“Invoquem a paz sobre Jerusalém”
“Invoquem a paz sobre Jerusalém
que sejam pacíficos aqueles que te amam
que a paz venha para os teus muros
que sejam pacíficas tuas casas
pelo amor dos meus irmãos, dos meus amigos
deixe-me dizer, paz sobre ti
por amor da casa de YHWH
“Aquele que era, que é e que vem”,
oro pela tua felicidade!” (Salmo 122)

 Qual é esta paz que “aqueles que amam” invocam sobre Jerusalém e sobre o mundo?
     Que eles próprios sejam pacíficos, essa é sem dúvida a primeira condição para que se realize, já no seu próprio corpo e no seu próprio espírito, a paz que eles desejam a todos.
     A palavra hebraica “Shalom” deriva de uma raiz que designa o fato de estar intacto, inteiro; estar em paz é estar “inteiro”, nós não estamos em paz porque não estamos inteiramente aqui...  Qual é a parte de  nós mesmos que nos falta, que está esquecida ou reprimida – o que nos impede de estarmos em paz?
     Perceberemos que quando somos amorosos, somos mais “inteiros”, o amor nos une, nada mais nos falta em nós mesmos, tudo está “voltado para” o Outro.
     O mandamento ou o exercício (mitzvot) proposto pela Escritura é um exercício terapêutico, cujo fruto é o de nos fazer “Um”, corpo, coração e espírito, portanto, estarmos felizes e em paz:  
     “Tu amarás “Aquele que era, que É e que será” de todas as tuas forças, de todo teu coração, de todo teu espírito e tu amarás teu próximo, aquele que era, que é e que será como a ti mesmo, tal qual tu eras, tu és e tu te tornarás...”
     A paz abrange todos os tempos.  Será que podemos estar em paz com o nosso presente, se não o estivermos com o nosso passado?  Será que podemos estar em paz com “aquilo que será”, com “aquilo que virá” se não estivermos em paz com o nosso presente?
     A paz designa “o bem-estar do ser” e particularmente do ser humano que vive em harmonia com ele mesmo, com Deus, com os outros, com a natureza, suas sombras e sua luz...  Na Bíblia, “estar em boa saúde” e “estar em paz” são duas expressões paralelas; para perguntar como vai alguém; se ele está bem, dizemos: “ele está em paz?”.
     Dizemos que Abraão morreu numa idade avançada, feliz e saciado de dias, que “ele se foi em paz”.  Também dizemos do nosso namorado que ele é “o homem da minha paz”.  A paz é, então, uma confiança mútua, que torna possível a vida em comum e a fraternidade; sem esta paz e esta confiança entre nós, não há comunidade humana ou futuro possível.
     Todos os bens materiais, afetivos, intelectuais e espirituais que nós podemos nos desejar uns aos outros estão resumidos nesta simples palavra: Shalom, Salam (em árabe), Bom dia – a paz esteja contigo, em ti e entre nós...
     Quando Jesus diz a alguém no Evangelho “Shalom”, é realmente uma “saudação”, uma “salvação
uma cura.  Quando ele diz à mulher hemorroíssa: “Vá em paz”, ele lhe devolve a saúde. Da mesma maneira àqueles que se afastaram de diversas maneiras, quando ele lhes diz: “Vá em paz”, eles têm o coração, o corpo e o espírito lavados da sua culpa, eles podem realmente se recolocar a caminho e ver “todas as coisas novas”.
     Mas Jesus precisa que a “Sua paz, Ele não a dá como o mundo a dá”.  Ela não é um tranqüilizante, um sedativo, que livraria os humanos das provações e das contradições do Real.
     Jesus inscreve-se assim na linhagem dos antigos profetas que denunciam “as falsas pazes” e as falsas seguranças que são buscadas em outro lugar e não n’ “Aquele que era, que é e que será”, seu fundamento – aí estão as pazes ilusórias e mentirosas e ele vem nos libertar das nossas ilusões e das nossas mentiras.
     Estar em paz é não ser parvo e acreditar-se invulnerável.  O Dom da paz supõe uma metanóia, uma transformação da sua vida e da sua maneira de ser e de pensar; Miquéias, Jeremias denunciava assim os falsos profetas que têm apenas a palavra “paz” na sua boca e a ambição e outras vontades de poder no coração: “Eles curam superficialmente a chaga do meu povo dizendo “Paz, Paz” e, no entanto, não existe paz”. (Jr 6, 14)
     Jesus será ainda mais radical quando ele dirá: “Penseis que vim trazer a paz sobre a terra?  Não, mas o conflito. (polémos, em grego)”  Isso quer dizer que se não reconhecermos nossas alteridades, e esse reconhecimento passa às vezes pelo conflito, não há paz verdadeira (particularmente no seio de uma mesma família onde a diferenciação, do pai e do filho, da mãe e da filha é por vezes difícil).  A paz não nos deixa tranqüilos, pois se quisermos “permanecer inteiros” e verdadeiros, face ao outro e respeitá-lo na sua inteireza e na sua verdade, isso nem sempre acontece sem que haja um enfrentamento, é preciso amar o outro o suficiente para não ter medo de desagradá-lo e nos amar o suficiente para nos fazer respeitar na nossa identidade.  Se o verdadeiro amor é sem complacência, a paz verdadeira é sem compromisso.
     Ezequiel também não deixará de gritar: “Chega de remendos!  O muro deve tombar” (Ez 13), mas quando os muros do medo, da vaidade, da ilusão e das mentiras desabarem, uma verdadeira paz será edificada.
     “Eu sei, eu, “Aquele que era, que é e que será”, que tenho sobre vós um desígnio de paz e não de infelicidade” (Jo 29, 11).  Isaías e Zacarias sonham com o “príncipe da paz” (Is 9, 5 /Za 9, 95) que dará uma “paz sem fim”, “é ele que estará em paz” (Mi 5, 4), as duas terras separadas se reconciliarão, as nações viverão em paz (Is 2, 2).
     “Farei correr sobre Jerusalém como um rio...”  Enquanto aguardamos, “Bem-aventurados os “artesãos” da paz”.  A paz é um “artesanato” e não uma indústria.  A diferença entre o artesão e o operário é que o artesão realiza um objeto, uma obra na sua “inteireza”, ele trabalha nela do início ao fim.  Aquilo que se rouba do operário que trabalha na produção em cadeia é o acesso ao objeto na sua inteireza.
     Assim, ser “artesão” da paz é tentar viver, nem que seja apenas uma única relação na sua inteireza, da maneira mais verdadeira e pacífica que possa existir.
      Jesus pede que façamos a paz, que amemos o próximo, o mais próximo e não que façamos a paz e amemos “a humanidade”, “o mundo”.   A palavra “paz”, os discursos sobre a paz não fazem de nós “artesãos da paz”, mas ideólogos, discursistas, pretensiosos pretendentes à paz, “mas a paz não existe...”
     A questão, então, para aquele que, em Jerusalém ou em qualquer outro lugar, queira conhecer a felicidade dos artesãos da paz, não é mais: “O que é a paz?”,mas: “Quem é o meu próximo?”.  Basta, então, termos olhos e “vermos” qual relação muito concreta devemos “apaziguar”, compreender e “reconciliar”...   Isso começa, sem dúvida, em nós mesmos.  Enquanto não tivermos feito a paz entre nossos diferentes quarteirões (cabeça – coração – ventre), não haverá paz entre os diferentes quarteirões de Jerusalém.
     “Encontre a paz interior” dizia São Serafim de Sarov, “e uma multidão será salva ao teu lado.”
      É sempre pelo mais próximo que devemos começar, é o primeiro passo de todos os caminhos que conduzem à paz.

Nunca vou muito longe
Para encontrar a paz
Basta uma flor no meu jardim
Ela não me coloca questões
Ela não me pergunta por quê
Todos os homens que têm uma flor no seu jardim
Não olham a flor
E não estão em paz
A calma das árvores queimadas pelo sol
ou arrancadas pelo homem é sempre calma
a calma das árvores sacudidas pela tempestade surpreende:
uma floresta de calma
Essa calma é também a do homem
é até mesmo o segredo da sua vida
mas só vemos as tempestades
o sol e o vento
só ouvimos o barulho que ele faz
jamais o silêncio que ele é
ninguém consegue imaginar o que seria uma cidade
se ela fosse habitada por homens que são o que eles são:
uma floresta de calma


Uma Arte da Atenção

O Despertar do Coração
“Quando fores te engajar em um caminho, pergunta a ti mesmo se esse caminho possui um coração”, disse Dom Juan, o iniciador de Carlos Castañeda.
      Não se trata do coração físico, sequer do coração afetivo e emocional, mas do coração como centro de integração de todas as faculdades da pessoa; o coração como “centro” do homem – praticamente todas as grandes tradições da humanidade dão testemunho disso.
     Um dos dramas do homem contemporâneo é ter perdido o seu coração.  Não existe nada entre o cérebro e o sexo; às vezes apenas uma imensa saudade... mas frequentemente passamos das mais frias análises aos excessos pulsantes mais levianos.  Dessa maneira, o homem torna-se cada vez mais esquizofrênico, tendo perdido o seu centro de integração, de “personalização” do seu ser: o coração.
     Uma inteligência sem coração não é realmente humana.  Quando os bancos de memória de um computador são decuplicados, ele torna-se mais “inteligente” do que o homem.  A inteligência sem o coração, “a ciência sem consciência”, ilumina nossas sociedades com uma luz fria onde o homem “se gela”, se analisa e se entedia...
      Uma sexualidade sem coração não é uma sexualidade realmente humana, qualquer que seja a quantidade das nossas intensidades pulsantes, é apenas em uma relação de pessoa a pessoa que o prazer efêmero pode se transformar em felicidade permanente.  “No verdadeiro amor”, dizia Nietzsche, “é a alma que envolve o corpo.”
      É o coração que dá um sentido aos nossos enlaces, assim como é o coração que pode orientar as descobertas da inteligência (cf. a física nuclear) em um sentido positivo à vida da humanidade.
    Vivemos na época das luzes néon e dos cobertores elétricos, das luzes frias e dos calores opacos.  Não é possível se aquecer junto a uma luz néon, não nos iluminamos junto a um cobertor elétrico.  Perdemos a chama que é ao mesmo tempo luz e calor.  “Redire ad cor” – “volta ao teu coração”: as palavras do profeta são mais atuais do que nunca.

Palavras da Fonte
   
Sobre a frase “tudo o que não é assumido não é salvo”, frequentemente me perguntam se Jesus assumiu a paternidade, se assumiu o envelhecimento.  Respondo que Ele assumiu todas as faces do ser humano.  A face do homem transfigurado no Monte Thabor e também a face do homem desfigurado na cruz.
     Mas será que Ele assumiu a face da paternidade?  O que os evangelhos nos contam é que Ele era muito paternal e m muito maternal para com as crianças.  Usava frequentemente a imagem da criança que mama em sua mãe, que para Ele era uma imagem de não-dualidade, onde dois fazem um.  Os discípulos talvez pensem que é preciso que regridamos, que é preciso que nos tornemos criancinhas, que é preciso que retornemos à unidade indiferenciada, à unidade fusional da criança com sua mãe.  Jesus precisa bem que não se trata disso.  Não se trata de regredir, de voltar à infância tornando-se criancinhas, vivendo como criancinhas como fazem estes adultos que imitam as crianças e que não são crianças, são infantis.  Trata-se de reencontrar a qualidade da inocência e, sobretudo, da confiança na vida, confiança nos viventes que compartilham nossa vida.  Mas esta confiança precisa ser reconquistada e, então, é preciso fazer de dois, um.
      Não se deve retornar ao um, mas sim assumir o dois, assumir a dualidade que acabamos de falar, indo além do dois, além do Tu e do Eu.  É preciso descobrir o terceiro incluído que nos une, o terceiro incluído secretamente, para falar como os físicos.  Trata-se de fazer do dois, um; isso começa com a unidade entre o exterior e o interior.  O que está no interior do cântaro está também no exterior, é o mesmo espaço.  Descobrir isso é um ato de consciência.
     Devemos também fazer um do alto e do baixo; mas onde começa o alto e onde termina o baixo?  Para uns o alto começa na cabeça, para outros no tornozelo.  Como diz Lao-Tsé, o alto e o baixo se tocam, então não é preciso colocar em oposição o céu e a terra.  O céu não está somente acima das nossas cabeças, ele é também o espaço que nos envolve.  A terra está no céu, o céu está na terra.
     Como diz ainda Lao-Tsé: “O céu está voltado para a terra e a terra está voltada para o céu”.  Os dois são inseparáveis mas algumas vezes opomos o céu e a terra dentro de nós.  Então é preciso reencontrar a aliança entre a matéria e o espírito, entre o céu e a terra.  Outra aliança que deve viver em nós é a aliança entre o masculino e o feminino.  Este texto que tem quase 20 séculos é estranhamente atual, pois cada vez mais, em conferencias e seminários, fala-se da integração entre o feminino e o masculino, entre a anima e o animus.
     Para podermos encontrar o outro, um outro inteiro, é preciso que já tenhamos realizado em nós mesmos a unidade entre o masculino e o feminino.  Não se trata de procurar a outra metade, mas trata-se de procurar o outro, inteiro.  Há muitos encontros de metades, mas há poucos encontros de seres inteiros.  Procurar sua outra metade é sempre se procurar a si mesmo, é procurar a metade que  nos falta, a metade masculina ou a metade feminina.  Ocorre que, quando tivermos vivido algum tempo com esta metade que veio de fora e graças a esta metade exterior integramos a nossa metade interior, poderemos nos perguntar o que faremos com essa que nos ajudou em nossa integração.  Isso pode se transformar em um drama.  Em um drama ou no momento em que verdadeiramente escolhemos.  Porque eu não escolho mais para preencher a minha falta.  Eu escolho por ele mesmo, pela sua diferença.  O que era um casal transforma-se em uma aliança de dois seres inteiros onde existe algo divino.  O encontro entre a Sofia e o Logos, entre Yeshoua de Nazaré e Miriam de Magdala é o encontro entre dois seres inteiros...
     Podemos dizer a alguém: “Não tenho mais necessidade de você, posso viver muito bem sem você, estou muito bem sozinho (é uma bela declaração de amor), mas escolhi viver com você.”  Não falamos mais na ordem da necessidade, mas estamos na ordem do desejo.  Não falamos da falta, mas da liberdade compartilhada.  Nessa aliança existe algo de sagrado.
     Jesus nos lembra no evangelho que somos capazes de amar um outro não somente a partir da nossa sede mas a partir da nossa fonte.  Neste momento importante de nossa vida paramos de pedir ao outro, de exigir, que ele preencha nossa sede, que ele preencha a nossa falta e podemos realmente amá-lo.  Agora, o masculino não é apenas um macho, o feminino não é apenas uma fêmea.  As relações entre homem e mulher n ao são mais as relações entre macho e fêmea com todos os jogos mais ou menos sadomasoquistas de sedução e de dominação.  Agora, estamos na relação entre duas pessoas.

A Arte de Morrer

O mundo que nos rodeia não nos ensina a morrer.  Tudo é feito para esconder a morte, para incitar-nos a viver sem pensar nela, em termos de um projeto, como se estivéssemos voltados para objetivos a serem alcançados e apoiados em valores de efetividade.  Tampouco nos ensina a viver.  No máximo a ter êxito na vida, o que não é a mesma coisa.  Trata-se de “fazer”, de “ter” cada vez mais, em uma corrida desenfreada em busca de uma felicidade material a respeito da qual acabamos por perceber, mais cedo ou mais tarde,, não ser suficiente para conferir um sentido às nossas existências.  Assim, às vezes ouvimos da boca de agonizantes revoltados, amargurados, o derradeiro lamento por terem passado ao largo do essencial.  Não é necessário ser particularmente religioso para sentir que não estamos nesta terra para passar nossa vida a produzir e consumir.
    Em uma das suas conferencias sobre a experiência da morte, o padre Maurice Zundel formulava a questão nestes termos: O que fazemos da nossa vida?  Estamos à procura de nós mesmos, fugimos de nós, reencontramo-nos de forma intermitente e nunca chegamos a fechar o círculo, a definir-nos a nós próprios, a saber quem somos...  Não temos tempo, a vida passa tão depressa, estamos absorvidos pela preocupações materiais ou por diversões... e, finalmente, a morte chega e é em sua presença que tomamos consciência de que a vida poderia ter sido algo de imenso, de prodigioso, de criador.  Mas já é tarde demais... e a vida só adquire todo o seu relevo no imenso desgosto de uma coisa inacabada.  É, então, que a morte, justamente porque a vida ficou inacabada, aparece como um sorvedouro.
     Onde é que, atualmente, a questão do sentido poderá expressar-se?  Onde poderá encontrar a resposta?
     Todo homem confrontado com a iminência da morte pode ser levado a formular-se questões de ordem espiritual (qual é o sentido da minha vida?  Haverá uma transcendência?  O que acontecerá ao meu ser?).  Como é grande a solidão quando não conseguimos expressar tais questões, compartilha-las com os outros!  Estaremos prontos para escutá-las?  O que dizer, como proceder perante o absurdo do luto, o desgosto, o desespero?  O que responder àqueles que perguntam por que?  Àquele que – entrevado, dependente, com o corpo deteriorado – pergunta a si mesmo que sentido poderá ter a prolongação da vida?

Deserto, desertos

CADA UM TEM SEU DESERTO A ATRAVESSAR

    O  que evoca para nós a palavra deserto?  Silêncio, imensidão, vento abrasador?  Não apenas.  Evoca também sede, miragens, escorpiões...  e o encontro do mais simples de si mesmo no olhar assombrado e surpreso do homem ou da criança que brota não se sabe de onde – entre as dunas?
     Existem os desertos de pedras e de areias, o deserto do Hoggar, de Assekrem, de Ténéré e do Sinai e de outros lugares ainda...  o deserto é sempre o alhures, o outro lugar, um alhures que nos conduz para o mais próximo de nós mesmos.
     Existem os desertos na moda, onde a multidão se vai encontrar como um pode tagarela, em espaços escolhidos, onde nos serão poupadas as queimaduras do vento e as sedes radicais; deles se volta bronzeado como de uma temporada na praia, mas ainda por cima, com pretensões à “grande experiência”, que nos transformaria para sempre em “grandes nômades”...
     Existem, enfim, os desertos interiores.  Temos que falar deles, saber reconhecer o que apresentam de doloroso e tórrido, mas tentando também descobrir, aí, a fonte escondida, o oásis, a presença inesperada que nos recebe, debaixo de uma palmeira sorridente, em redor de uma fogueira onde a dança dos “passantes” se junta à das estrelas.  Pois o deserto não constitui uma meta; é, antes, um lugar de passagem, uma travessia.  Cada um, então, tem a sua própria terra prometida, sua expectativa que deverá ser frustrada, sua esperança a esclarecer.
     Algumas pessoas vivem esta experiência do deserto no próprio corpo; quer isto se chame envelhecer, adoecer ou sofrer as conseqüências de um acidente.  Esse deserto às vezes demora muito a ser atravessado.
     Outras pessoas vivem o deserto no coração das suas relações, deserto do desejo ou do amor, das secas ou dos aborrecimentos que não aprendemos a compartilhar.
     Há também os desertos da inteligência, onde o mais sábio vai esbarrar no incompreensível e o mas consciente no impensável.  Só conseguimos conhecer o mundo e as suas matérias, a nós mesmos e às nossas memórias quando atravessamos os desertos.
     Temos, finalmente, o deserto da fé, o crepúsculo das idéias e dos ídolos, que havíamos transformado em deuses ou em um Deus, para dar segurança às nossas impotências e abafar as nossas mais vivas perguntas.
     Cada pessoa tem seu próprio deserto a atravessar.  E a cada vez será necessário desmascarar as miragens e também contemplar os milagres: o instante, a aliança, a douta ignorância e a fecunda vacuidade.



Quem é Jean-Yves Leloup?

Jean-Yves Leloup, doutor em Psicologia, Filosofia e Teologia, escritor, conferencista, dominicano e depois padre ortodoxo, oferece através dos seus livros, conferências e seminários um aprofundamento dos textos sagrados, assim como uma abordagem e uma reflexão extremamente ricas sobre a espiritualidade no quotidiano graças à uma formação pluridisciplinar de rara complementaridade.  Membro da organização das Tradições Unidas, doutor honoris causa e ciências da Universidade de Colombo (Sri Lanka), Jean-Yves Leloup ensina na Europa, nos Estados Unidos e na América do Sul em diferentes universidades e institutos de pesquisa em antropologia fundamental.  É autor de mais de cinqüenta obras, além de ter comentado e traduzido os evangelhos de Tomé, Maria de Magdala, Felipe e João.  Ele participa igualmente de vários encontros entre as diversas tradições.


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