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domingo, 17 de julho de 2011

Theosis

São Gregório Palamas e a Theosis
De todos os temas da teologia de São Gregório, destaquemos somente
um, o crucial, e o mais controverso. Qual é o caráter básico da
existência Cristã? O objetivo e propósito final da vida humana foi
definido pela tradição Patristica como a theosis, divinização. O
tema é bastante ofensivo ao ouvido humano moderno. Ele não pode ser
adequadamente traduzido em nenhuma língua moderna, nem mesmo em
latim. Mesmo
em grego ele é muito pesado e pretensioso. Na verdade,
é uma palavra desafiadora. O significado da palavra, no entanto é
simples e lúcido. Foi um dos termos cruciais no vocabulário
Patristico. Basta, neste ponto, citar Santo Atanásio. Cristo Se
tornou homem para nos divinizar em Si próprio. Ele Se tornou homem
para que nós pudéssemos ser divinizados.(De Incarnatione 54)]. Santo
Atanásio, na verdade, resume aqui a idéia favorita de Santo Irineu:
Que, através do Seu imenso amor, Se tornou o que nós somos, para que
Ele pudesse nos levar, até mesmo, para o que Ele próprio é (Adv.
Haeres. V, Praefatio)]. Esta era a convicção comum dos Padres
gregos. Pode-se citar São Gregório de Nazianzo, São Gregório de
Nissa, São Cirilo de Alexandria, São Máximo, e ainda São Simeão o
Novo Teólogo. O homem sempre permanece o que é, isto é — criatura.
Mas ele recebeu a promessa e concessão, pelo Verbo ter Se tornado
homem, de uma participação íntima no que é Divino: Vida Eterna e
incorruptível. A principal característica da theosis é, de acordo
com os Padres, precisamente a "imortalidade" ou "incorrupção." Pois
só Deus "tem imortalidade" — (I Tim. 6:16). Mas o homem é agora
admitido numa íntima "comunhão" com Deus, através de Cristo e pelo
poder do Espírito Santo. E isto é muito mais que simplesmente uma
comunhão "moral," e muito mais que simplesmente que uma perfeição
moral. Somente a palavra theosis pode traduzir adequadamente o
caráter único da promessa e da oferta. O termo theosis é, na verdade
muito embaraçador, se nós pensarmos em categorias "ontológicas." Na
verdade, o homem simplesmente não pode "se tornar" deus. Mas os
Padres estiveram pensando em termos "pessoais," e o mistério da
comunhão pessoal estava envolvido neste ponto. Theosis significava
um encontro pessoal. É o intercurso íntimo de Deus como o homem, no
qual o todo da existência humana fica, como se fosse, permeado pela
Presença Divina. [5]
Porém, o problema permanece: Como pode mesmo este intercurso ser
compatível com a Transcendência Divina? E este é o ponto crucial. O
homem realmente encontra Deus, verdadeiramente e de fato, nesta vida
presente de oração? Ou, não há mais do que um actio in distans? A
alegação comum dos Padres do Oriente era que, na sua ascensão
devocional, o homem, de fato, encontra Deus e contempla a Sua eterna
Glória. Porém, como é possível, se Deus habita na "Sua luz
inaproximável"? O paradoxo era extremamente profundo na teologia
Oriental, que estava sempre comprometida com a crença de que Deus
era absolutamente incompreensível — e incognoscível na Sua natureza
ou essência. Esta convicção foi poderosamente expressa pelos padres
Capadócios, especialmente na sua luta contra Eunomius, e também por
São João Crisóstomo, em seus magníficos discursos.
Assim, se Deus é absolutamente " inaproximável" em Sua essência, e
de acordo com Sua essência simplesmente não pode ser "comunicado,"
como pode, de todo, a theosis ser possível? "Insulta-Se Deus se se
procura compreender Seu Ser essencial," diz João Crisóstomo. Já em
Santo Atanásio
nós encontramos uma clara distinção entre a
própria "essência" de Deus e Seus poderes e generosidade: [Ele está
em tudo por Seu amor, mas antes de tudo por Sua própria natureza. A
mesma concepção foi cuidadosamente elaborada pelos Capadócios.
A "essência de Deus" é absolutamente inacessível para o ser humano,
diz São Basílio (Adv. Eunomium 1:14). Nós conhecemos Deus somente em
Suas ações, e por Suas ações: [Nós dizemos que nós conhecemos nosso
Deus por Suas energias (atividades), mas nós não professamos ser
possível aproximar-se de Sua essência — pois Suas energias descem
até nós, mas Sua essência permanece inacessível. Porém, isto é um
verdadeiro conhecimento não simplesmente uma conjectura ou dedução:
Na frase de São João Damasceno, estas ações ou "energias" de Deus
são a verdadeira revelação do próprio Deus: (De Fide Orth. 1: 14).
É uma presença real, e não simplesmente uma certa presentia
operativa, sicut agens adest ei in quod agit [como o ator está
presente na coisa em que ele age]. Este modo misterioso da Presença
Divina, apesar da absoluta transcendência da Divina Essência,
ultrapassa todo conhecimento. Mas não é menos certo por isto.
São Gregório Palamas permanece na antiga tradição neste ponto. Em
Suas "energias" o Deus inaproximável Se aproxima do homem. E este
movimento Divino efetua encontros: na frase de São Máximo (Scholia
in De Div. Nom. 1: 5).
São Gregório começa com a distinção entre "graça" e "essência": a
Divina e Divinizadora iluminação e graça não é a essência, mas a
energia de Deus. Esta distinção básica foi formalmente aceita e
elaborada nos Grandes Concílios de Constantinopla de 1341 e 1351.
Aqueles que negassem esta distinção eram anatematizados e
excomungados. Os anátemas de 1351 foram incluídos no rito do Domingo
da Ortodoxia no Triódio. Os teólogos Ortodoxos foram obrigados por
esta decisão. A essência de Deus é absolutamente incomunicável. A
fonte e poder da theosis humana não é a Divina essência, mas
a "Graça de Deus": a energia divinizadora, por participação daquele
que é divinizado, é uma graça divina, mas de modo algum a essência
de Deus; não é idêntica com a ousia . É a Divina e incriada
Graça e Energia; . Esta distinção, no entanto, não implica em ou
efetua divisão ou separação. Nem é um simples "acidente. As
Energias "procedem" de Deus e manifestam Seu próprio Ser. O termo
[proienai, proceder] simplesmente sugere [diakrisin, distinção],
mas não uma divisão: a graça do Espírito é diferente da Substância,
porém não é separada Dela. Na verdade todo ensinamento teológico de
São Gregório pressupõe a ação do Deus Pessoal. Deus Se move para o
homem e o abraça por Sua própria "graça" ou "ação," sem deixar
aquela luz inaproximável, na qual Ele habita eternamente. O
propósito definitivo da teologia de São Gregório foi defender a
experiência Cristã. Salvação é mais do que perdão. É uma genuína
renovação do homem. E esta renovação é efetuada não por descarga ou
liberação, de certas energias naturais implicadas no próprio ser
criado do homem, mas pelas "energias" do próprio Deus, que ai
encontra e envolve o homem, e o admite em comunhão conSigo. De fato,
o ensinamento de São Gregório afeta o sistema todo de teologia, o
corpo todo da Doutrina Cristã. Ele começa com a clara distinção
entre "natureza" e "vontade" de Deus. Esta distinção também era
característica da tradição Oriental, ao menos desde Santo Atanásio.
Neste ponto pode-se perguntar: esta distinção é compatível com
a "simplicidade de Deus" ? Não deveríamos ver todas estas distinções
como meras conjecturas lógicas, necessárias para nós, mas
definitivamente sem nenhum significado ontológico? De fato, São
Gregório foi atacado por seus oponentes precisamente deste ponto-de-
vista. O Ser de Deus é simples, e Nele, inclusive, todos os
atributos coincidem. Já Santo Agostinho divergiu neste ponto da
tradição do Oriente. Sob as pressuposições de Santo Agostinho o
ensinamento de São Gregório é inaceitável e absurdo. O próprio São
Gregório antecipou a abrangência das implicações da sua distinção
básica. Se não se aceita ela, ele argumentou, então seria impossível
distinguir claramente entre a "geração" do Filho e a "criação" do
mundo, sendo ambos atos da essência, e isto conduziria a uma
completa confusão na doutrina Trinitária. São Gregório foi bastante
formal neste ponto.
Se, de acordo com os oponentes delirantes e com aqueles que
concordam com eles, a Divina energia não difere de modo algum da
Divina essência, então o ato de criar, que pertence à vontade, não
diferirá de modo algum da geração e da procedência , que pertence à
essência. Se criar não é diferente de geração e procedência, então
as criaturas não diferenciariam de maneira nenhuma do Gerado e do
Projetado. E se este é o caso, de acordo com eles, então ambos, o
Gerado e o Projetado não seriam, de modo algum, diferentes das
criaturas, e as criaturas seriam tanto os gerados quanto os
projetados de Deus Pai, e a criação seria deificada e Deus estaria
revestido de criaturas. Por esta razão o venerável Cirilo, mostrando
a diferença entre a essência e a energia de Deus, diz que a geração
pertence à Divina natureza, enquanto a criação pertence às Suas
Divinas energias. Isto ele mostra claramente dizendo: "natureza e
energia não são o mesmo." Se a Divina essência de modo algum difere
das Divinas energias, então gerar e projetar não tem diferença com
criar. Deus o Pai cria pelo Filho e no Espirito Santo. Então Ele
também gera e projeta pelo Filho e no Espírito Santo, de acordo com
a opinião dos oponentes e daqueles que concordam com eles. (Capita
96 e 97).
São Gregório cita São Cirilo de Alexandria. Mas São Cirilo, neste
ponto, estava simplesmente repetindo Santo Atanásio. Este, em sua
refutação do Arianismo, enfatizou formalmente a diferença entre
[essência] e [substancia], de um lado e a
βουλησις (vontade) do
outro. Deus existe, e então Ele também age. Há uma
certa "necessidade" no Ser Divino, na verdade não uma necessidade de
compulsão, e não fatum, mas uma necessidade do Ser em Si. Deus
simplesmente é o que é. Mas a vontade de Deus é eminentemente livre.
Em nenhum sentido, Ele é necessitado de fazer o que Ele faz. Assim
[geração] é sempre de acordo com a essência, mas criação é uma
[energia da vontade] (Contra Arianos III. 64-6). Estas duas
dimensões, esta de ser e aquela de agir, são diferentes e devem ser
claramente distinguidas. Por certo, esta distinção não compromete,
de modo algum, a Divina "simplicidade." Porém, é uma distinção real,
e não simplesmente um dispositivo lógico. São Gregório estava
completamente consciente da crucial importância desta distinção.
Neste ponto ele era um verdadeiro sucessor do grande Santo Atanásio
e dos Hierarcas Capadócios.
Foi recentemente sugerido que a teologia de São Gregório, deveria
ser descrita, em termos modernos, como uma "teologia
existencialista." Porém, ela difere radicalmente dos conceitos
modernos que são atualmente cunhados com este rótulo. Na verdade, de
toda forma, São Gregório foi definitivamente oposto a todos os tipos
de "teologias essencialistas" que falham em considerar a liberdade
de Deus, o dinamismo da vontade de Deus, a realidade da ação Divina.
São Gregório rastrearia sua tendência para trás até Orígenes. Esta
era a situação difícil da metafísica impessoal grega. Se há qualquer
espaço para uma metafísica de todo Cristã, ela tem que ser uma
metafísica de pessoas. O ponto inicial da teologia de São Gregório
foi a história da salvação: em escala maior, a história das
Escrituras, que consiste em atos Divinos, culminando com a
Encarnação do Verbo e Sua glorificação através da Cruz e
Ressurreição; na escala menor, a história do homem Cristão lutando
pela perfeição, e ascendendo passo-a-passo, até encontrar Deus na
visão de Sua glória. Era normal descrever a teologia de São Irineu
como uma "teologia de fatos." Com não menos justificativa nós
devemos descrever também a teologia de São Gregório Palamas como
uma "teologia de fatos".

Theosis

Na teologia cristã, particularmente na teologia da igreja ortodoxa, teósis ou theosis (também escrito: theiosis, theopoiesis, theōsis; grego:Θέωσις, significa divinização, deificação ou criação divina) é o processo de transformação de um crente que está pondo em prática (chamada praxis) os ensinos espirituais de Jesus Cristo e seu Evangelho. Em particular, theosis refere-se à realização de semelhança a ou união com Deus, que é o estágio final do processo de transformação e, como tal, o objetivo da vida espiritual. Theosis é o terceiro de três estágios; o primeiro é a purificação (katharsis) e o segundo iluminação (theoria). Por meio da purificação uma pessoa alcança a iluminação e então a santidade. Santidade é a participação da pessoa na vida de Deus. Conforme esta doutrina, a santa vida de Deus dada em Jesus Cristo ao crente através do Espírito Santo, é expressada através de três estágios de theosis, começando nas lutas da vida, que aumenta na experiência do crente através do conhecimento de Deus, e é posteriormente consumada na ressurreição do crente, quando o poder do pecado e da morte, tenha sido completamente vencido pela expiação de Jesus, perderá o domínio sobre o crente para sempre. Essa concepção de salvação é historicamente fundamental para a compreensão cristã, tanto no Oriente como no Ocidente.

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