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sexta-feira, 15 de julho de 2011

Aos Sacerdotes I


Copiar homilias: pecado ou boa solução? Impressões de bispos e padres portugueses

Não é bonito copiar sermões, é mesmo desonesto, dizem uns. É melhor imitar uma homilia do que repetir discursos, dizem outros. Ouvimos sete padres e bispos portugueses sobre o plágio dos sermões. O melhor é mesmo fazer o trabalho de casa.
A Internet tem destas coisas. O plágio tantas vezes usado pelos alunos e mesmo pelos professores pode até chegar aos sermões dos padres. Pelo menos, os bispos polacos consideram que este é um problema grave e já informaram os seus 28 mil sacerdotes: o plágio dá direito a cadeia até três anos.
Este é um problema que se estende a outras confissões religiosas: nos EUA, dois pastores evangélicos demitiram-se das suas funções, em 2004, depois de admitirem que copiavam os seus sermões.
É "desonesto" usar uma homilia escrita por outro e lê-la como se fosse sua, diz D. António Taipa, presidente da Comissão Episcopal para a Liturgia nos últimos três anos. O bispo auxiliar do Porto reconhece que isto pode acontecer cá, mas é uma questão que, para já, não preocupa a hierarquia portuguesa. À comissão não chegaram queixas ou reações.
Há muitas homilias que andam por aí, na Internet. "Já tenho dito aos padres que as escrevem que estão a prestar um mau serviço, porque facilitam a preguiça dos outros. Mas isto não é um problema", reforça António Taipa, que foi professor de Homilética no Seminário Maior do Porto.
Quando o padre Amaro Gonçalo, pároco de Amarante, grande utilizador da Internet, leu a notícia sobre a Polônia, achou-a "divertida". Afinal, ele envia as suas homilias a cerca de uma centena de pessoas em todo o mundo. As suas palavras são lidas por muitos colegas e não é invulgar ouvir o que escreveu na boca de outros sacerdotes. "Aqui há dias, houve um padre que rezou missa para a Rádio Renascença e leu na íntegra a minha homilia", conta, acrescentando que não reteve o nome do sacerdote. Não o incomoda o plágio, a usurpação do seu pensamento por outra pessoa? "Não. Sinto-me orgulhoso! Ao ouvi-lo, pareceu-me bem escrito, atualizado e aquele padre sentiu que devia usá-lo", avalia.

O papel da homilia

Nas missas, depois da leitura de alguns textos da Bíblia, os padres fazem pequenas intervenções onde procuram fazer a ligação entre a palavra escrita e a actualidade. "Numa mão a Bíblia, na outra o jornal", define D. Januário Torgal Ferreira, bispo das Forças Armadas e da Segurança. É a este momento que se chama homilia - ou sermão, quando a intervenção é mais longa, mais elaborada, com recurso a figuras literárias, explica o padre António Janela, professor de Comunicação Pastoral e Homilética, do Seminário Maior de Cristo-Rei dos Olivais, em Lisboa.
Em Portugal, existem muitos "subsídios", ou seja, livros e revistas com indicações para preparar o discurso ou mesmo já com as homilias escritas. Há ainda textos dos primeiros teólogos da Igreja, como Santo Agostinho, Santo Ambrósio ou outros, documentos do Papa e de outras figuras da Igreja. Os padres podem ainda recorrer aos textos disponíveis na Internet: nas páginas de algumas paróquias, congregações religiosas ou da agência de notícias da Igreja Católica, a Ecclesia.
O padre Garrido Mendes faz parte da equipa de três padres responsáveis pela elaboração das reflexões publicadas na Ecclesia. Inicialmente, eram feitas para uso exclusivo da congregação religiosa a que pertence, os Sacerdotes do Coração de Jesus (dehonianos), mas agora chegam a mais mãos. O objetivo, explica, é dar pistas para a reflexão. Este padre e secretário da Conferência Episcopal desconhece se estes textos são plagiados. "Não se põe a questão do plágio, porque estes textos são subsídios. Ficamos muito contentes que as pessoas os usem."
O uso deve ser sempre feito tendo em conta as pessoas para quem se fala. É por essa razão que as homilias não devem ser plagiadas, defende António Janela. Não é o mesmo falar nas exéquias de um intelectual que se suicidou ou de um jovem atropelado, justifica. Não é igual falar para uma paróquia rural ou uma urbana. E, no seminário, os futuros padres treinam cada uma das ocasiões, batizados, casamentos, eucaristias, para se prepararem para o trabalho no terreno. "Falamos para um público heterogêneo. Por isso, estamos condicionados por quem nos vai ouvir".

Algumas recomendações

Os bispos polacos decidiram publicar um manual de auto-ajuda para que os padres aprendam a escrever as suas próprias homilias, sem copiar. Um dos autores é o padre Wieslaw Przyczyna, especialista da Academia Pontíficia de Teologia de Cracóvia, que é muito duro em relação ao plágio. Na sua experiência, relata ao Guardian, é aos sábados à noite que os padres mais novos se viram para a Internet como salvadora do seu sermão de domingo.
"Benditos sites, porque assim não vão para o altar improvisar", exclama frei Acílio Mendes, superior provincial dos Franciscanos Capuchinhos, responsável pela revista Bíblica, um dos subsídios que têm como objetivo ajudar os padres a fazer os discursos. "Quando se começa a improvisar é como um avião que não aterra", define António Janela, para quem o essencial é preparar o que se vai dizer e não vê nenhum mal em quem lê muitos subsídios. "O que interessa é a preparação que se faz a partir dos mesmos."
É importante fazer uma preparação para que "não se digam disparates", reforça D. António Taipa. E "muitos disparates" podem ser ouvidos do altar, testemunha o padre Rui Osório, pároco da Foz do Douro e jornalista reformado.
Um "bom trabalho" é o feito por alguns sacerdotes, sobretudo os mais novos, que se juntam semanalmente, para reflectir e preparar o que vão dizer durante a eucaristia, diz D. António Taipa. Mas cada um estrutura o seu próprio texto, a pensar na comunidade a que preside.
É importante os sacerdotes prepararem-se para que não se repitam, diz Januário Torgal Ferreira, lembrando que muitos falam às mesmas comunidades muitos anos e acabam por fazê-lo. Há mesmo quem guarde as homilias e as repita de três em três anos, porque é nesse período de tempo que se voltam a ler as mesmas leituras, contam António Taipa e Rui Osório.
Para não se repetirem discursos, D. Januário Torgal Ferreira defende que "é melhor imitar uma homilia". O que, nessas circunstâncias, justifica o bispo, "não é plágio, mas fonte de instrução, de aprendizagem".
O clero tem obrigação de estar preparado para a liturgia, sublinha Rui Osório: "Alguns caem na rotina, muitos não se cultivam, não fazem uma reflexão permanente e é natural que vulgarizem a comunicação".

Como fazer

Quando é que se começa a fazer a preparação e qual deve ser o conteúdo das homilias? Uma semana antes, recomendam o bispo Torgal Ferreira e o frei Acílio Mendes. Quanto ao conteúdo, deve ser pedagógico, responde António Janela. E atual, acrescenta o superior dos Capuchinhos, para quem é importante focar um acontecimento da semana: "Tem que se arrancar a palavra de Deus para a vida de hoje, para o nosso tempo."
É o que faz o bispo das Forças Armadas. Ao longo da semana, lê, relê, medita sobre os textos bíblicos e "parte para as situações da vida". Nesta altura, pode falar na turbulência social, mas sem nunca se meter na política, salvaguarda. "Falo da fome, da necessidade de produzir cereais, de partilhar com os que não têm condições para ser produtivos." Na véspera, escreve ou esquematiza o que quer dizer.
O padre Amaro Gonçalo começa a preparação da homilia uma semana antes. Lê, faz pesquisa na Internet - gosta de ler os escritos do atual Papa quando este ainda era o cardeal Ratzinger -, medita e redige. No total são cerca de cinco horas para escrever "oito minutos de pregação".
Oito a dez minutos, é o tempo ideal para se fazer uma homilia, definem os bispos António Taipa e Januário Torgal Ferreira. "A missa não pode ser só a homilia, porque tem dois momentos importantes, o da palavra e o do pão. Não posso levar 40 minutos na palavra", explica frei Acílio Mendes. Até porque a capacidade de concentração extingue-se poucos minutos depois. "Para cima de dez minutos começa a maçar", diz D. António Taipa.
"Ouço muito os leigos que me vão dizendo que se sentem tristes porque é difícil ouvir uma boa homilia. Mas também os ouço dizer aonde é que vão porque precisam de se alimentar", afirma D. Januário Torgal Ferreira. Hoje, muitos católicos deixam de ir à missa às paróquias da sua zona de residência, para irem onde a eucaristia os interpela. Porque procuram o alimento não só no pão, mas também na palavra, conclui.

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