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sábado, 23 de julho de 2011

Oração

- Oração vocal e mental -

676. Métodos como modos de operar. As operações, - no caso das faculdades humanas em exercício religioso, - podem ser examinadas do ponto de vista meramente operacional. Elas podem distinguir-se pela diversidade material das mesmas operações e ainda pelo modo de operar, ou seja pelo método. 
Dali decorrem didaticamente os seguintes títulos para estudo: 
Então acontecem formas operacionais, que importa examinar conhecidas por:
- a oração vocal como método (vd 679);
- a oração mental como método (vd 684).
- a meditação como método de oração (vd 691).
- a contemplação como método de oração (vd 714).

 
677. Os objetivos a alcançar e o esforço de eficácia. Com referência aos métodos como modos de operar, é possível também distinguir entre os objetivos (ou fins) a serem alcançados pelos métodos de oração e o esforço de eficácia que se lhes busca imprimir. Desta sorte conseguimos equacionar os temas que preocupam os que tratam desses métodos.
No que se refere aos objetivos (ou fins) dos métodos de oração, eles são determinados por diferentes facetas que se podem buscar separadamente na glória de Deus, como aquelas que distinguem as partes da oração denominadas adoração e reparação, prece e ação de graças.
Quanto ao esforço que eficientiza os métodos de oração ele pode dizer respeito, ora à atenção e às distrações a controlar; ora ao estudo (dos fins de religião, como glória de Deus), quer por meio de textos adequados, quer pela escuta de conferencistas, quer pelo desvinculamento do trabalho, dos negócios de família, para concentração maior no estudo.
Circunstâncias as mais diversas interagem nas operações humanas, e que tornam os métodos usados muito especiais, quase singularizados. O estudo sistemático dos métodos de oração é todavia um só, ainda que se desprendem notoriamente das formas práticas exercidas por cada pessoa que pratica a religião. 
Diverge a meditação praticada pelo budista e aquela pelo cristão, e assim também de budista para budista, de cristão para cristão, conforme a circunstância cultural de cada um e sua índole pessoal. 

 
 
ART. 1-o. - A ORAÇÃO VOCAL COMO MÉTODO.
7270y679.
 
 
680. A expressão exterior pode aperfeiçoar a interior. Ainda que a religião seja antes de tudo a sua expressão interior, importa reconhecer que esta expressão interior pode ganhar muito, quando se passa a entender em que sentido a expressão exterior, - sobretudo a espontânea, mas as vezes até a de formulário, - pode aperfeiçoar aquela. Eis quando a oração vocal deve ser examinada como método.
A expressão artística, - e a expressão religiosa é uma tal expressão ainda que de um gênero especial, - oferece a vantagem de ordenar o caráter explosivo do pensamento e de controlar a dispersividade das sensações
Efetivamente, o pensamento é explosivo, por ser rápido, e suas imagens são abstrativas, por atingir o objeto sob muitos ângulos, os quais são colocados em termos de sujeito e predicado. A formulação vocal ordena o pensamento e em consequência garante à oração uma certa ordem.
A expressão exteriorizada estabelece uma sequência dos objetos conhecidos, criando uma ordenação valiosa. Assim sendo, há vantagem ao pensarmos alto, com palavras, ou mesmo com palavras escritas. Estas palavras vão sendo linearizadas ao mesmo tempo que vão sendo colocadas sobre o papel, obrigando ao pensamento explosivo a uma certa ordem exterior. 
Vantagem semelhante acontece, quando anotamos em palavras as sensações. Estas costuma ser dispersivas, sobretudo porque são conotativas, ou associativas. Postas em palavras, a dispersividade das sensações passa a ser controlada.
Consequentemente, a oração vocal, - porque subordina os pensamentos a uma certa ordem e os sentimentos a certo controle, - também adquire uma sequência ordenada de pensamentos e controle das imagens sensíveis. Se isto acontece exatamente porque ela é uma oração vocal, esta passa a recomendar-se como um método, pelo menos para os que mais precisam do ordenamento das idéias e controle da sensibilidade.
Há pois razões para haja quem prefira as fórmulas vocais de oração, bem como tudo aquilo que é culto externo em religião, em especial a liturgia quando bem conduzida pelos ministros que atuam nos templos. 

 
681. Espécies de oração vocal, a espontânea e a de formulário. A oração vocal é espontânea quando criada no ato mesmo em que é exercida. Este método de oração vocal é o mais rico, entretanto difícil para os que não têm palavra fácil. 
A verbalização do pensamento e das sensações é um dote que diverge bastante de indivíduo para indivíduo, tanto por diferença de índole, como de cultura. 
Há os que tendem a ser atores, e há os que desejam estar na platéia.
Há os que escrevem e são escritores, e há os que de preferência lêem e são leitores. 
Há os que se apresentam como pregadores, e há os que se fazem ouvintes. 
Importa que cada um adequadamente cumpra o seu papel, seja como como produtor, seja como consumidor. 

 
682. Variedades de oração vocal. São frequentes as orações vocais aprendidas de cor. Elas são praticamente orações espontâneas, sobretudo quando breves. Tais orações se sabem de cor, quase com a mesma espontaneidade da língua, a qual também é algo que se aprendeu decorando. 
A oração cristã mais recitada de cor é a que se fez conhecer pelas suas palavras iniciais, -Pai nosso. 
Acontece a oração vocal de formulário, quando o texto é tomado pronto, e recitado a partir do livro.
Quanto possível haja diversidade de formulários, inclusive diversidade litúrgica, de sorte a restar a espontaneidade da eleição de uns sobre os outros. 
A seguir o rezador se adapta ao texto. Como já o conhece, após a primeira leitura, voltará sempre a ele quando assim preferir. 

 
 
ART. 2-o. - A ORAÇÃO MENTAL COMO MÉTODO.
7270y684.
 
 
685. Oração sem formulários. Como método, a oração mental é a interna e silenciosa oração, pela qual se eleva a alma a Deus, dispensando, pelo menos em parte, as fórmulas escritas. Dá-se inteiramente no cubículo discreto da consciência, destacando principalmente o que é mais essencial na religião, a qual é sobretudo um exercício interior da mente (vd).
Não tem a oração mental a intenção de excluir as outras modalidades de oração. Ela simplesmente aproveita aqueles momentos em que a mente se inclina a encerrar-se em sua interioridade. Depois ela volta espontaneamente ao seu exterior. 
O ser humano é assim mesmo, - ora se encerra em sua casa, ora sai a ver gente. Ora busca a privaticidade, ora o convívio.
A oração mental tem portanto suas horas especiais. Então ela é a elevação intencional da alma a Deus. Então se constitui um esforço especialmente espiritual, todavia espontâneo e desejado, podendo, então, dispensar o mundo barulhento das exterioridades materiais, que passam por alguns instante a não servir de natural acompanhamento.
Na oração mental, sem o ruído das palavras no recinto da consciência, tudo se torna mais espiritual.
Mas é preciso habituar-se a ficar sem as vantagens do apoiamento da expressão exterior, senão a espiritualidade pura se desfaz em desatenção. Quando isto acontece, precisa-se voltar à oração vocal como apoio (vd 680).
Num jogo de vantagens a se alternarem, ora a oração poderá ser um exercício silencioso do espírito, ora um cavalgar eficiente montado sobre palavras.

 
686. A ordem interna da oração mental é a que divide em;
Adoração, pela qual reconhecemos em Deus a nossa origem, dependência constante e principal fim, ao qual glorificamos;
Reparação, com que se refazem os atos praticados com defeito, principalmente os que resultaram em desdouro, ditos pecados;
Prece que faz buscar na bondade divina o auxílio necessário;
Ação de graças, pela qual se reconhece a origem dos dons na generosidade de Deus.
Em todas estas partes da oração realizada no silêncio da mente a alma se desvincula do aparato das exterioridades humanas para rezar com pureza de espírito.

 
687. A conveniência da oração mental, eis em que ainda importa insistir. Apesar das vantagens da expressão exterior, há também aqueles instantes em que a oração puramente interior se faz convenientes. Desfeito o barulho das palavras, o indivíduo entra em um clima favorável à reflexão.
A preocupação dos afazeres, o corre-corre das ruas, os noticiários, os propagandistas a chamar de todos os lados, - tudo isso leva o homem de lugar para lugar. Nunca o deixa parado. A excitação de nervos é contínua. O homem moderno, talvez menos que os antigos, vive porém com mais intensidade. Mas precisa cuidar que esta intensidade seja reflexa, como é próprio do espírito desenvolvido, cujo estágio perfeito é o espírito crítico.
A serenidade é um relaxamento da tensão nervosa. Sente-se, então a si mesmo. Nota-se o próprio peso e se começa a sentir o contato das mão com os objetos que tocam. O olhar é menos intenso e pára mais tempo sobre coisas menos interessante. O homem severo vê as folhas das árvores como são verdes, belas, frescas. Vê o próprio tronco, que para o exercício é apenas um obstáculo para desviar. Constata que a natureza se envolve num burburinho, que dura o dia todo.
Antes ele não observa. Agora escuta mais e gesticula menos. É o avesso de homem preocupado, que cumprimentava sem notar o calor da mão, que não observava a cor dos edifícios, que trabalhava um dia inteiro sem notar se o céu era nublado ou azul.
Voltado à serenidade, aprecia o mundo como uma totalidade em que ata a glória de Deus vai aparecendo, até tornar-se um grande brilho manifestativo do criador. É o momento em que a oração mental adquire definição.

 
688. A firmeza da atenção importa na oração mental. Muito mais que a oração vocal, preocupa-se na oração as distrações.
São as distrações pensamentos e imagens que nos alheiam do objeto ao qual havíamos proposto como tema de atenção. No fulgurar incessante das idéias e das informações é possível manter uma certa direção, mas não de todo disciplinada e única. O rezador se propõe, ao fazer um exercício religioso demorado, manter o melhor possível sua atenção no único termo escolhido, o religioso.

 
689. O tema da atenção espiritual pertence ordinariamente à categoria dos objetos impróprios da inteligência, para os quais a atenção é menos espontânea. Importa distinguir entre os objetos próprio e os impróprios do conhecimento.
O ser do sensível é o objeto de quem pensa; quando caminha para abstrações maiores, eleva-se ao plano dos objetos impróprios, que são pensados a partir dos próprios. O verdadeiro pensamento abstrato não se desliga jamais do seu concreto sensível, de sorte que não há uma distração total no processo cognoscitivo.
Do ponto de vista da fadiga, a atenção aos objetos próprios é espontânea; a elevação o plano abstrato cancã. Por isso, temos fácil prazer ao dispersarmos a vista sobre um campo florido e nele ocuparmos nossos pensamentos; o turismo, em tal condição é sempre repousante. 
Mas, o esforço de assimilação da ciência e da filosofia, como se expõe em aula ou nos livros, é penoso. Por isso, passado algum tempo, retornamos ao concreto sensível dos seres singulares, que exatamente os que ocupam nos horários de recreio.
A religião eleva a atenção na direção de objetos abstratos. Quanto mais exata, mais abstrata é. Os símbolos, quando corretamente interpretados, conduzem ao significado espiritual, que não se exerce com espontaneidade. Por conseguinte, o exercício da religião, da oração, da adoração, da reparação, da prece, da ação de graça, requer um esforço de atenção.
De espaço em espaço a religião, em qualquer de suas operações, reclama pausa. Ocorrem aquelas que se fazem por dicotomização rápida (pequenas distrações), com a retomada imediata da atenção, e aquelas que se procedem programaticamente pelo revezamento dos horários de oração e de trabalho.

 
 
ART. 3-o. - A MEDITAÇÃO COMO MÉTODO DE ORAÇÃO.
7072y691.
 
 
692. A meditação é um método de oração a que os religiosos mais dedicados dão considerável importância. Consiste num trabalho sobretudo mental de pesquisa com vistas a conhecer o melhor possível os elementos que conduzem à glória de Deus. Trata-se de um esforço total de oração, atingida em todas as suas partes, como adoração e reparação, prece e ação de graças.
A oração mental e a meditação diferem entre si, apear da aproximação que seus nomes sugerem. Geralmente a meditação vem mais em auxílio da oração mental, do que da oração vocal. Ao mesmo tempo que se reza mentalmente, a meditação vai oferecendo elementos. Na oração vocal, com formulários, estes já oferecem o pensamento pronto, e o esforço consiste apenas em interpretar o melhor possível a profundidade das conceituações contidas nas palavras.
Um estudo mais exaustivo da oração como método de oração recomenda considerar em separado:
O lado meramente raciocinativo da meditação (vd 695);
O lado afetivo da meditação (vd 703);
O objeto da meditação (vd 708).

 
 
I – O lado meramente raciocinativo da meditação.
7072y695.
696. A meditação poderá ser descrita como uma atenção em progresso, ou ainda como um estudo, inclusive filosófico e científico, visando sempre a oração integral.
a) Como uma atenção em progresso, a atenção e ser alcançada pela meditação se distingue da atenção ordinária, a qual normalmente já possuímos.
Reduz-se a atenção ordinária àquela informação, que, sem novo esforço, temos do objeto visado; em oração, é a atenção com a qual a mesma oração é feita em qualquer momento.
A atenção em progresso consiste num trabalho de penetração dos motivos que levam à oração. Quem medita se concentra no ser das coisas enquanto estas são manifestativas de Deus, e portanto sua glória; atende ao que não está adequado à glória de Deus propondo-se a restabelecê-la pela reparação. E assim também em conseqüência deste propósito, faz preces para obter forças e finaliza com ação de graças pelo conseguindo.

 
b). Como um estudo, a meditação é um esforço de pesquisa e reflexão sobre a religião e suas implicações. É uma filosofia da religião.
Por acréscimo no caso dos crentes de uma revelação, a meditação é também uma teologia. Mas a meditação se ocupa da filosofia da religião e da teologia dentro de um contexto operacional maior, no qual não somente se busca o saber pelo saber. E sim ainda a intenção laudatória efetiva da oração.
Considerando que o desenvolvimento mental das pessoas se ergue a diferentes níveis (primário, médio, superior). O objetivo final da meditação é encaminhar-se sucessivamente, a partir do primário, ao médio e finalmente ao superior. Não é o que se alcança num dia. Mas deve ser o propósito último.

 
697. É costume envolver as tarefas com uma preparação e uma conclusão à maneira de moldura. Tradicionalmente, a moldura da oração do cristão é o sinal da cruz
A meditação pode ainda receber uma série de outros cuidados, com o fim de garantir-lhe o máximo rendimento.
A preparação da meditação constitui-se principalmente de três iniciativas, donde se ter uma preparação remota. Outra próxima, e ainda uma imediata.

 
a). Consiste a preparação remota na manutenção de uma vida habitualmente boa, principalmente no desejo da perfeição. Um dos objetos da meditação é a perfeição. Aperfeiçoar a oração é aperfeiçoar a vida com a qual se glorifica a Deus. O fim externo (a glória de Deus) e o fim interno (da felicidade) coincidem em concreto.
O desejo de perfeição deve ser eficaz e onde isto primeiro se mostra é na decisão firme de promover periodicamente a meditação (ainda que entendida esta no sentido mais amplo possível) todos os dias, ou ao menos nos dias de culto dominical e festivo.

 
b). A preparação próxima cuida já das meditações uma por uma, isto é, de um programa de assunto para as meditações. A preparação próxima mínima é aquela que tem o cuidado de no fim de cada meditação fixar o tem da seguinte. Uma preparação maior consiste em ler previamente uma explanação do tema para a reflexão.

 
c). A preparação imediata da meditação é o cuidado mais importante e menos essencial ao seu sucesso.
Consiste em ligar o tema da meditação com os pré-requisitos sistemáticos em que se encontra inserto. Tudo está dentro de um sistema, de sorte que o tema não pode ser tratado isoladamente.
Um elemento importante é sempre Deus, o qual deve pois ser conectado com o tema em meditação e mesmo deve ser vivido como presente, pois o objetivo final da reflexão é a oração.

 
698. Como tornar a Deus presente na meditação? Uma argumentação conduz a ele. Aqueles tópicos que mais impressionam ao meditador são os primeiros a tornar presente a ele a divindade. Esta presença raciocinativa de Deus é a base de todas as demais considerações.
Há também os modos ajustados à fantasia, que espacializa a presença de Deus e a amoldam ao formalismo humano. Por exemplo, imaginar-se uma sala real, onde se situam as três pessoas divinas, como se fossem três reis, cada qual sobre seu trono. É um tanto imbecil, ou mesmo muito imbecil. Mas nossos templos obedecem todos a este esquema da imaginação da massa.
Neste contexto, imagina-se ainda no ar os anjos; conforme a visão do profeta Isaías, a cantarem Santo! Santo!
O Apocalipse de João, o livro que coroa a bíblia cristã, oferece outros e outros espetaculares recursos imaginativos para a presença de Deus.
É claro que estes procedimentos têm de ser apreciados como alegóricos.

 
699. A preparação imediata da meditação, com a introdução da presença de Deus, inclusive com preces para o bom sucesso da mesma, podem fazer-se com formulário vocal.
Um texto de Afonso de Ligório (1696-1787), prestigiado com o título Santo Doutor da Igreja Católica, serve exemplo:
"Ó meu Deus, eu me prostro diante de vossa divina majestade. Reconheço-me de todo indigno de comparecer perante vossa divina presença; confiado contudo em vossa divina bondade ouso dirigir-me a vós, invoco vosso santo nome, meditar em vossa santa lei, a fim de conhecer sempre melhor a vossa santíssima vontade e sempre mais facilmente cumpri-la.
Refreai as distrações do meu espírito. Ilumina-me a memória. Esclarecei o meu entendimento a fim de que eu saiba o que deva fazer, ou deixar no interesse de vossa glória e de minha santificação.
Movei-me ao mesmo tempo, a vontade, para que eu deteste de todo o coração as minhas faltas passadas e me resolva a tudo o que de fim exigirdes. 
Concedei-me o conhecimento cada vez mais perfeito, de Jesus, meu divino mestre e rei, a fim de que o ame sempre mais fielmente e assim a seu exemplo, - sempre mais magnânimo e generoso, - trabalhe luta e sofra. Amém.

 
700. A meditação propriamente dita é a reflexão sobre o tema escolhido, para exame, com vistas aos motivos da oração. Ela, - a meditação, - não é, pois, a oração em si mesma, a sim tudo aquilo que se torna motivo da mesma.
Todavia esta oração também é feita no final, ou vai mesmo sendo feita intervaladamente no percurso da meditação. Entreatos de louvor ou adoração, reparação, prece, e ação de graças são como as cristas de ondas, que de espaço em espaço emergem do fluxo da meditação em desenvolvimento.

 
a). A meditação conduz portanto em primeiro lugar à adoração. 
Os motivos da adoração se revelam progressivamente, na medida que Deus é descoberto, pela reflexão, como supremo senhor e a criatura como dependente. Deus surge como princípio sem o qual nada existe e por cuja bondade tudo se faz. Deus também aparece como fim último de todas as coisas e de si mesmo. Também sendo externamente a manifestação da divindade e por isso a sua glória.

 
b). A reparação também é um resultado da meditação, a qual.
Mostrando os defeitos, a meditação põe de manifesto a conveniência de recompor a situação. Em decorrência, apresse-se a indivíduo a reparar o mal e voltar à prática perfeita dos objetivos do ser humano, inclusive dos fins externos relativos à glória de Deus.

 
c). Os motivos da prece são postos sempre a vista pela meditação.
Uma vaga percepção da precariedade das forças humanas é destacada, e em função a isto se passa a desejar de Deus um reforço. Não somente se trata da prece que solicita a cura de males, como na reparação e na doença.
Também pede o ser humano, força maior do que a ordinária que lhe é natural. No contexto cristão, pede finalmente a graça sobrenatural.

 
d). Com referência à ação de graças, a meditação revela que tudo o que somos, é gratuito e portanto objeto de agradecimento. Por obra da meditação, Deus passa a ser amado profundamente, como fonte de todo o bem.
Pelo exposto, a meditação torna mais esclarecida e integral, mais correta e menos ingênua, mais sistemática e menos eventual. 

 
701. As operações mentais (conceito, juízo, raciocínio) são os instrumentos da meditação, devendo ser utilizados de acordo com a lógica e a metodologia.
A perfeita meditação não é apenas um piedoso vagar da mente. É um esforço sério, que somente não utiliza os processos eruditos da lógica e da metodologia quando o meditador não tiver desenvolvimento para tanto. A eficácia depende do desenvolvimento mental, a que todo o homem deve aspirar, o que pressupõe uma boa filosofia da religião.

 
a). A primeira operação mental é o conceito. Este é um simples olhar a coisa (sem ainda afirmar e sem negar), formando-se assim uma imagem mental, além da imagem sensível. O conceito se diz idéia, quando é visto como modelo segundo o qual uma coisa é feita. 
Em princípio esta primeira operação poderia ser todo o conhecimento; em Deus este primeiro olhar tudo contém. Não acontece o mesmo com o conceito humano.
Entretanto conseguir conceitos (ou idéias) já é muito. Podemos desdobra-los por meios de abstrações que se fazem às coisas concretas, menores e em outros maiores. Metodologicamente, analisamos dividindo e classificando; sistematizamos, Compondo e definindo.
A meditação deve, pois, analisar e sistematizar os conceitos, criando portanto, divisões e classes, composições e definições. Com recursos utilizados sistematicamente pela meditação (ou seja pelo estudo), os assuntos da religião (e da oração) passam a se desenvolver rumo à perfeição.

 
b). Pela operação do juízo a mente afirma, ou nega, atributos a um sujeito.
Agora tem desenvolvimento a reflexão que analisa fatos pois todo o fato chega a nós como uma afirmação.
A análise dos juízos também descobre os implícitos, estabelecendo-os como princípios (ou axiomas).
Começam a se manifestar os valores, como os do bem e da verdade (ontológica).
Deus passa a ser considerado como fonte ou fundamento eterno das afirmativas. Sem ele o plexo dos princípios não se firma.

 
c). Mas é na operação de raciocínio que se encontra os maiores recursos da meditação.
Juntando fatos singulares, em que um elemento comum vai progressivamente se elevando como sempre presente, o raciocínio induz como definitiva aquela verdade (enquanto não surgir fato em contrário). 
Diferentemente, a dedução parte de uma afirmativa geral (como por exemplo o princípio da razão suficiente) para envolver fatos particulares e julga-los. Considerando que há fatos contingentes no mundo e dizendo que requerem uma razão suficiente explicativa, o raciocínio deduz que tal razão suficiente é Deus.
Estes e outros exemplos mostram como opera a meditação, utilizando a operação do raciocínio, quer sob forma de indução, quer sob forma de dedução.

 
 
II – O lado afetivo da meditação.
7072y703.
 
 
704. O saber agrada. E assim normalmente a meditação também agrada aos que a praticam. Não é pois a meditação apenas uma seqüência de frias operações da razão, que conceitua, julga e raciocina. Além de seu apoio sobre as sensações e imagens da fantasia, também desenvolve dentro de um clima afetivo.
No curso de suas paixões, em diferentes situações, o homem exerce amor, ódio, desejo, aversão, alegria, tristeza, audácia, temor, esperança, desespero, cólera, vergonha, inveja, emulação, admiração, intranqüilidade, - conforme toda a lista de uma conhecida classificação das paixões em número de dezesseis.
Admitem os afetos diferentes graus de intensidade. Em alguns estados de alma e despertar da inclinação efetiva se manifesta normal, Em outros, - ou se encontra amortecido, e então ocorre a aridez espiritual, - ou se apresenta notavelmente manifesto, e então se dão as consolações espirituais.

 
705. As causas da variação efetiva no curso da meditação, se deve em primeiro lugar à impressão vinda do objeto, ora claramente atingindo, ora como deficiência.
Cabe a cada qual determinar onde se encontre em seu caso pessoal a causa principal de sua variação efetiva e conseqüente aridez espiritual. 
Podem as causas da variação afetivas e encontrar no excesso de atividades da operação mental. Então é preciso descansar e descobrir a medida adequada para a atividade meditacional.
Não estão descartadas as disposições constitucionais do indivíduo. Então as variações afetivas já não dependem diretamente do objeto e nem do volume de ação.
Uma vontade amortecida não amortecida não consegue desenvolver disposições intensas, fortes e entusiásticas, mesmo defronte a um objeto rico de perspectivas. 
Ao contrário, quando a vitalidade constitucional é grande, os afetos inclinações, paixões, sentimentos, etc., se revelam prontamente intensos. 
É grave a aridez por morbidez física. Ninguém ignora, por certo, quando se fazem ressentir as energias pelos abalos da saúde do corpo. Dores de cabeça, perturbações digestivas, noitadas de sono escasso, depauperamento imprevisto pelo excesso de trabalho material ou mental, permanência num templo excessivamente quente e de ar viciado, provocam aridez transitória.
O estado de aridez se diz permanente, quando ocasionado por um esgotamento prolongado dos pulmões e dos nervos. Certos temperamentos, tem uma frieza constitucional quase permanente.
Penitências rigorosas sem critério podem levar a uma aridez prejudicial.

 
706. As consolações espirituais são o avesso da aridez do espírito. A natureza é de tal sorte que as agruras se revezassem com alegrias tanto mais intensa.
As consolações podem ter por feito estabilizar definitivamente a devoção. Embora venham depois período menos favoráveis, estas serão levedas de vencida, graças à força adquirida anteriormente.

 
 
III – O objetivo da meditação.
7072y708.
 
 
709. Importa escolher adequadamente os temas sobre os quais meditar, cada qual tem as suas necessidades, para evoluir com segurança.
710. O objeto da meditação varia com os estágios aperfeiçoativos alcançados pelo indivíduo.
Tradicionalmente, por influência neo-platônica, se têm distinguido três vias, denominadas respectivamente via purgativa, via iluminativa, via unitiva.
 
a). Encontram-se na via purgativa as pessoas cuja faina se concentra na extirpação dos vícios.
É portanto o estágio dos iniciantes. A tonalidade da meditação dos que se encontram na vida purgativa é a maldade do pecado e não a glória de Deus. Procuram as faltas e delas se arrependem, finalizando com um propósito em relação ao bem.

 
b). Na via iluminativa se preocupa o homem com a prática positiva do bem, exercitando-se nas virtudes.
As preocupações são, portanto, menos negativas.

 
c). Na via unitiva se encontra a posição dos perfeitos. A virtude já é um habito. O progresso situa-se num novo plano, qual seja o de praticar o melhor bem, isto é, o melhor entre as coisas boas. 
É típica da via unitiva a adoração, ou louvor constante de Deus. A mente se encontra num estado de atenção atingida e passa a praticar simplesmente a contemplação, que se encontra mais além da meditação estudiosa.

 
711. Uma conclusão é a moldura final da meditação. Terminada qualquer tarefa, costuma-se dar-lhe um acabamento, ao qual se chama conclusão. 
Consiste a conclusão da meditação em agradecimento e esperanças. Em todo o curso da meditação, de espaço em espaço, emergem, como cristas de onda, as manifestações da oração (louvor ou adoração, reparação, prece e ação de graças). Tudo isto novamente acontecerá em caráter terminado na conclusão.

 
 
ART. 4-o. - A CONTEMPLAÇÃO COMO MÉTODO DE ORAÇÃO.
7270y714.
715. A contemplação opera com atenção adquirida e conservada, como um estágio posterior ao da atenção ainda em desenvolvimento peculiar da meditação. Consiste sobretudo na atenção constante às coisas como totalidade em que Deus é o elemento principal. As criaturas não são vistas apenas em si mesmas, ao modo da atenção comum. E sim em relação ao criador, em cuja manifestação elas se constituem.
O estudo de contemplação é próprio das pessoas santas.

 
716. Ocorrem, entretanto, graus de atenção adquirida e conservada.
Pessoas de menor desenvolvimento mental poderão ter uma presença constante de Deus, como ainda do criado por ele; mas suas conceituações permanecem todavia singelas e por vezes até ingênuas.
A perfeita contemplação é que atinge as noções de presença de Deus e de suas relações com o mundo de maneira adequada e sistemática. Somente um estudo maior, ou seja uma excelente meditação, em termos de filosofia da religião, poderá levar até lá.

 
717. A glória de Deus, a atenção a ser adquirida e conservada. Como método de oração, a constante atenção ao contexto da religião permite a fácil manifestação de louvor a Deus, como ainda o exercício de todas as suas facetas de adoração e reparação prece e ação de graças. 
A manifestação mais espontânea é a da glória de Deus, que se exerce com tal concentração no principal, que já não surge como ação separada da adoração e reparação, da prece e a ação de graças.


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